terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 08 - Fragmento 4



Fragmento 4

Wong foi convocado pelo governo chinês para trabalhar na base militar de Malan, no noroeste da China. Forçado a se mudar das áreas mais urbanas, ele abandonou sua casa, mas teve permissão de trazer sua esposa, Liang, por se tratar de um casamento recente e ainda não terem um filho. Ambos viviam em um alojamento coletivo próximo ao lago Bostun, na região autônoma de Xinjiang. As condições de trabalho eram severas e a vida no alojamento era precária, e eles sofriam com a falta de higiene e a superpopulação.
Devido à crescente tensão global e a ameaça de uma guerra nuclear, o governo chinês reabriu o Instituto de Tecnologia Nuclear do Noroeste. Com suas atividades suspensas desde 1996 – e desde então usado como atração turística – o governo decidiu a reativá-lo para a realização de mais testes e construção de mais artefatos nucleares.
Os trabalhadores eram levados às instalações de trabalho e auxiliavam os cientistas e engenheiros a construírem ogivas e mísseis balísticos de longo alcance. Muitas vezes os trabalhadores eram expostos acidentalmente ao lixo radioativo, mas temendo serem levados pelos guardas à quarentena – um termo sutil para a isolação perpétua devido à biocontaminação – eles ficavam em silêncio. No início eles tinham náuseas, vômitos, diarreia, dores de cabeça, mas com o passar do tempo surgiam hemorragias, perda de cabelo e febre alta. Antes de aparecerem sintomas mais apavorantes como o câncer, eles eram retirados das instalações e ninguém mais os via.
Wong caminhava diariamente pelos túneis e laboratórios do gigantesco complexo, empurrando carrinhos com dezenas de materiais com o símbolo radioativo. Ao todo, a área de testes tinha cerca de 100.000 quilômetros quadrados e era rotina ele estar trabalhando e de repente o chão tremer com a detonação de outro teste, fazendo as lâmpadas nas paredes piscarem sinistramente.
Certa vez ele viu o enorme silo e o míssil ICBM sendo montado. Em suas laterais estava escrito Dongfeng-5, tinha quase 33 metros de comprimento, 3,35 metros de diâmetro e 188 toneladas. Assim como a maioria dos trabalhadores do complexo, ele não fazia ideia da capacidade daquela arma, mas entendia que a China pretendia lutar na guerra com todos os mísseis construídos ali. Ao passar pelos laboratórios, ele se fascinava com aquelas incríveis máquinas robóticas que se moviam como gente, carregando experimentos e dosando-os em frascos e pipetas. Os cientistas vestiam grosseiros uniformes escrito “radiação”, semelhantes aos uniformes usados pelos apicultores. Sempre que parava para observar, os guardas o ordenavam para voltar ao trabalho.
Voltando em caminhões militares para o alojamento, ele passava pelos dormitórios barulhentos, os refeitórios sujos, os banheiros mofados e sobre uma improvisada ponte de madeira sobre o esgoto a céu aberto. Ao encontrar Liang, sua esposa, ele perdia toda a força que ainda lhe restava para suportar aquele lugar. Liang estava sempre triste, desanimada, desgostosa, se lamentando por ir parar em um lugar tão repugnante, cheio de pessoas mal educadas e ignorantes. Sentindo a dor em seus olhos, ele se sentava sobre a cama e jantava em silêncio.
Na noite seguinte, após o expediente, Liang finalmente expressou sua agonia. Dedicada e fiel, ela quis seguir o marido aonde quer que fosse. Os ambos eram recém-casados e não era apropriado um marido se afastar da esposa para trabalhar em um lugar tão distante, a três mil quilômetros de distância. Ela quis acompanhá-lo apesar das advertências da agência de alistamento governamental. Eles tinham acabado de se casar e ela acreditava que podiam passar por qualquer dificuldade juntos. Mas ela estava errada. Desde o início tudo foi um pesadelo, longe de qualquer cidade, isolados no noroeste chinês, sendo mantida pelo governo com roupas que mais pareciam trapos. A tristeza começou a se apossar dela. Wong perguntava se estava tudo bem e ela respondia com um sorriso esperançoso, amoroso, esforçando-se para esboçá-lo, dizendo silenciosamente que estava bem.
Os dias de trabalho de Wong estavam cada vez mais longos e exaustivos. Preocupado com sua mulher naquele lugar, seu rendimento cai drasticamente e ele fica sempre disperso. Ele não podia suportar que Liang sofria e ele não podia fazer nada. Maldito governo chinês que lhe tirou a liberdade, forçando-o a trabalhar naquele fim de mundo, e agora lhe arruinava o casamento, tudo pelo desejo mesquinho e imperialista de fazer guerra.
Distraído enquanto empurrava o carrinho, ele não ouve a buzina da empilhadeira no túnel e eles colidem. Os tambores radioativos caem e se espatifam no chão, abrindo a tampa e espirrando o líquido contaminado no uniforme de Wong. Em pânico, os trabalhadores arregalam os olhos. Eles se aproximam e encaram, emudecidos, Wong tremer de medo ao ver o terrível líquido escorrer em seu corpo. O motorista está boquiaberto e não sabe o que fazer, paralisado com as mãos no volante. Os trabalhadores sabem o que aquilo significa. Wong está ferrado.
Um deles quebra o silêncio e diz:
- Rápido, os guardas não os viram. Peguem os tambores e sequem o chão, agora!
Como formigas eles se movem de um lado ao outro, limpando o chão, erguendo os tambores, recolocando as tampas e reorganizando o carregamento. Atraídos pelo ruído da colisão, os guardas chegam mas encontram os trabalhadores ocupados, trabalhando normalmente, fingindo nada ter acontecido. Para o alívio de todos, eles vão embora.
À noite, Wong volta correndo ao seu dormitório e encontra Liang sentada na cama. Ele grita:
- Liang! Rápido, preciso que você lave esse uniforme agora!
- O que houve?
Wong ouve os soldados se aproximarem para a inspeção de rotina. Se eles chegarem, seus sensores detectarão níveis elevados de radiação em suas roupas. Não há tempo para explicar.
- Você precisa ir!
Confusa, Liang sai do dormitório e corre para o tanque nos fundos do alojamento. Wong veste mais roupas e espera nervosamente os soldados chegarem.
No alojamento não há iluminação o suficiente e Liang não se sente segura andando ali à noite. Ali há muitos homens e a maioria são estranhos a ela. Normalmente Liang evita sair do dormitório até seu marido chegar, mas por alguma razão ele a mandou sair. Ao chegar ao tanque, um lugar escuro e a céu aberto onde a lâmpada mais próxima está a quatro metros de distância, ela estende o uniforme na beirada e tem uma incrível surpresa. As roupas estão brilhando!
Erguendo a roupa, ela admira maravilhada o brilhante verde encantar seus olhos. Aparentemente o uniforme brilha no escuro, mas como? Pensando ser um presente de seu marido Wong, lágrimas se formam em seus olhos e ela sorri. Mas logo volta à razão e faz o que lhe foi ordenada. Obviamente Wong não lhe daria de presente um uniforme sujo de trabalho.
Voltando ao dormitório, ela encontra seu marido com as mãos no rosto, preocupado. Ele a vê chegar e a abraça, fechando a porta em seguida.
- Onde está o uniforme?
- Eu o pendurei no varal. Vou ter que voltar lá amanhã bem cedo senão vão roubá-lo.
- Não se preocupe com isso.
Ele a beija.
- O que está havendo?
- Nada. Não se preocupe, tudo ficará bem, você vai ver. Logo sairemos daqui e voltaremos à nossa casa, nem que tenhamos de fugir. Teremos um filho como você sempre quis.
Liang sorri indiferente e vai preparar o jantar. Em seu sofrimento mudo nem mesmo as promessas impossíveis de seu marido a animam mais.
Uma semana depois Liang sente náuseas, vômitos e dores de cabeça. Ela se queixa de dores nas mãos, de aparição de caroços entre seus dedos e desprendimento das unhas. Desesperado, Wong chama os médicos até seu dormitório. Eles a examinam e a levam para o hospital de campo. Após dois dias aguardando notícias, os médicos lhe informam o impactante diagnóstico.
Liang foi exposta à radiação. Ao lavar o uniforme de Wong, ocasionou o surgimento de câncer em suas mãos. Os tumores as tomaram completamente e, se Wong não os tivesse alertado, a contaminação teria se espalhado por todo o seu corpo, levando-a a óbito. Por fim, os médicos informam que eles tiveram de amputar ambas as mãos. Ao ouvi-los, as pernas de Wong perdem a força e ele desaba em um choro agonizante e prolongado.
Mais tarde Wong é informado que sua esposa terá de ser levada à quarentena e ele protesta violentamente, já sabendo o que acontecerá depois. Os guardas o agridem e o imobilizam, algemando-o e levando-o à viatura. Da janela do veículo ele vê os médicos se aproximando com uma maca. Liang está desacordada e há um respirador em seu rosto, suas mãos estão ausentes. Eles a colocam em uma ambulância com o símbolo de biocontaminação e a levam embora.
Wong nunca mais a viu desde então.



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