Fragmento
4
Wong
foi convocado pelo governo chinês para trabalhar na base militar de Malan, no
noroeste da China. Forçado a se mudar das áreas mais urbanas, ele abandonou sua
casa, mas teve permissão de trazer sua esposa, Liang, por se tratar de um
casamento recente e ainda não terem um filho. Ambos viviam em um alojamento
coletivo próximo ao lago Bostun, na região autônoma de Xinjiang. As condições
de trabalho eram severas e a vida no alojamento era precária, e eles sofriam
com a falta de higiene e a superpopulação.
Devido
à crescente tensão global e a ameaça de uma guerra nuclear, o governo chinês
reabriu o Instituto de Tecnologia Nuclear do Noroeste. Com suas atividades
suspensas desde 1996 – e desde então usado como atração turística – o governo
decidiu a reativá-lo para a realização de mais testes e construção de mais
artefatos nucleares.
Os
trabalhadores eram levados às instalações de trabalho e auxiliavam os
cientistas e engenheiros a construírem ogivas e mísseis balísticos de longo
alcance. Muitas vezes os trabalhadores eram expostos acidentalmente ao lixo
radioativo, mas temendo serem levados pelos guardas à quarentena – um termo
sutil para a isolação perpétua devido à biocontaminação – eles ficavam em
silêncio. No início eles tinham náuseas, vômitos, diarreia, dores de cabeça,
mas com o passar do tempo surgiam hemorragias, perda de cabelo e febre alta. Antes
de aparecerem sintomas mais apavorantes como o câncer, eles eram retirados das
instalações e ninguém mais os via.
Wong
caminhava diariamente pelos túneis e laboratórios do gigantesco complexo,
empurrando carrinhos com dezenas de materiais com o símbolo radioativo. Ao
todo, a área de testes tinha cerca de 100.000 quilômetros quadrados e era
rotina ele estar trabalhando e de repente o chão tremer com a detonação de
outro teste, fazendo as lâmpadas nas paredes piscarem sinistramente.
Certa
vez ele viu o enorme silo e o míssil ICBM sendo montado. Em suas laterais
estava escrito Dongfeng-5, tinha quase 33 metros de comprimento, 3,35 metros de
diâmetro e 188 toneladas. Assim como a maioria dos trabalhadores do complexo,
ele não fazia ideia da capacidade daquela arma, mas entendia que a China
pretendia lutar na guerra com todos os mísseis construídos ali. Ao passar pelos
laboratórios, ele se fascinava com aquelas incríveis máquinas robóticas que se
moviam como gente, carregando experimentos e dosando-os em frascos e pipetas.
Os cientistas vestiam grosseiros uniformes escrito “radiação”, semelhantes aos
uniformes usados pelos apicultores. Sempre que parava para observar, os guardas
o ordenavam para voltar ao trabalho.
Voltando
em caminhões militares para o alojamento, ele passava pelos dormitórios
barulhentos, os refeitórios sujos, os banheiros mofados e sobre uma improvisada
ponte de madeira sobre o esgoto a céu aberto. Ao encontrar Liang, sua esposa, ele
perdia toda a força que ainda lhe restava para suportar aquele lugar. Liang
estava sempre triste, desanimada, desgostosa, se lamentando por ir parar em um
lugar tão repugnante, cheio de pessoas mal educadas e ignorantes. Sentindo a
dor em seus olhos, ele se sentava sobre a cama e jantava em silêncio.
Na
noite seguinte, após o expediente, Liang finalmente expressou sua agonia.
Dedicada e fiel, ela quis seguir o marido aonde quer que fosse. Os ambos eram
recém-casados e não era apropriado um marido se afastar da esposa para
trabalhar em um lugar tão distante, a três mil quilômetros de distância. Ela
quis acompanhá-lo apesar das advertências da agência de alistamento
governamental. Eles tinham acabado de se casar e ela acreditava que podiam
passar por qualquer dificuldade juntos. Mas ela estava errada. Desde o início
tudo foi um pesadelo, longe de qualquer cidade, isolados no noroeste chinês,
sendo mantida pelo governo com roupas que mais pareciam trapos. A tristeza
começou a se apossar dela. Wong perguntava se estava tudo bem e ela respondia
com um sorriso esperançoso, amoroso, esforçando-se para esboçá-lo, dizendo
silenciosamente que estava bem.
Os
dias de trabalho de Wong estavam cada vez mais longos e exaustivos. Preocupado
com sua mulher naquele lugar, seu rendimento cai drasticamente e ele fica
sempre disperso. Ele não podia suportar que Liang sofria e ele não podia fazer
nada. Maldito governo chinês que lhe tirou a liberdade, forçando-o a trabalhar
naquele fim de mundo, e agora lhe arruinava o casamento, tudo pelo desejo
mesquinho e imperialista de fazer guerra.
Distraído
enquanto empurrava o carrinho, ele não ouve a buzina da empilhadeira no túnel e
eles colidem. Os tambores radioativos caem e se espatifam no chão, abrindo a
tampa e espirrando o líquido contaminado no uniforme de Wong. Em pânico, os
trabalhadores arregalam os olhos. Eles se aproximam e encaram, emudecidos, Wong
tremer de medo ao ver o terrível líquido escorrer em seu corpo. O motorista
está boquiaberto e não sabe o que fazer, paralisado com as mãos no volante. Os
trabalhadores sabem o que aquilo significa. Wong está ferrado.
Um
deles quebra o silêncio e diz:
-
Rápido, os guardas não os viram. Peguem os tambores e sequem o chão, agora!
Como
formigas eles se movem de um lado ao outro, limpando o chão, erguendo os tambores,
recolocando as tampas e reorganizando o carregamento. Atraídos pelo ruído da
colisão, os guardas chegam mas encontram os trabalhadores ocupados, trabalhando
normalmente, fingindo nada ter acontecido. Para o alívio de todos, eles vão
embora.
À
noite, Wong volta correndo ao seu dormitório e encontra Liang sentada na cama.
Ele grita:
-
Liang! Rápido, preciso que você lave esse uniforme agora!
- O
que houve?
Wong
ouve os soldados se aproximarem para a inspeção de rotina. Se eles chegarem,
seus sensores detectarão níveis elevados de radiação em suas roupas. Não há
tempo para explicar.
-
Você precisa ir!
Confusa,
Liang sai do dormitório e corre para o tanque nos fundos do alojamento. Wong
veste mais roupas e espera nervosamente os soldados chegarem.
No
alojamento não há iluminação o suficiente e Liang não se sente segura andando
ali à noite. Ali há muitos homens e a maioria são estranhos a ela. Normalmente
Liang evita sair do dormitório até seu marido chegar, mas por alguma razão ele
a mandou sair. Ao chegar ao tanque, um lugar escuro e a céu aberto onde a
lâmpada mais próxima está a quatro metros de distância, ela estende o uniforme
na beirada e tem uma incrível surpresa. As roupas estão brilhando!
Erguendo
a roupa, ela admira maravilhada o brilhante verde encantar seus olhos.
Aparentemente o uniforme brilha no escuro, mas como? Pensando ser um presente
de seu marido Wong, lágrimas se formam em seus olhos e ela sorri. Mas logo
volta à razão e faz o que lhe foi ordenada. Obviamente Wong não lhe daria de
presente um uniforme sujo de trabalho.
Voltando
ao dormitório, ela encontra seu marido com as mãos no rosto, preocupado. Ele a
vê chegar e a abraça, fechando a porta em seguida.
-
Onde está o uniforme?
- Eu
o pendurei no varal. Vou ter que voltar lá amanhã bem cedo senão vão roubá-lo.
-
Não se preocupe com isso.
Ele
a beija.
- O
que está havendo?
-
Nada. Não se preocupe, tudo ficará bem, você vai ver. Logo sairemos daqui e
voltaremos à nossa casa, nem que tenhamos de fugir. Teremos um filho como você
sempre quis.
Liang
sorri indiferente e vai preparar o jantar. Em seu sofrimento mudo nem mesmo as
promessas impossíveis de seu marido a animam mais.
Uma
semana depois Liang sente náuseas, vômitos e dores de cabeça. Ela se queixa de
dores nas mãos, de aparição de caroços entre seus dedos e desprendimento das
unhas. Desesperado, Wong chama os médicos até seu dormitório. Eles a examinam e
a levam para o hospital de campo. Após dois dias aguardando notícias, os
médicos lhe informam o impactante diagnóstico.
Liang
foi exposta à radiação. Ao lavar o uniforme de Wong, ocasionou o surgimento de
câncer em suas mãos. Os tumores as tomaram completamente e, se Wong não os
tivesse alertado, a contaminação teria se espalhado por todo o seu corpo,
levando-a a óbito. Por fim, os médicos informam que eles tiveram de amputar
ambas as mãos. Ao ouvi-los, as pernas de Wong perdem a força e ele desaba em um
choro agonizante e prolongado.
Mais
tarde Wong é informado que sua esposa terá de ser levada à quarentena e ele
protesta violentamente, já sabendo o que acontecerá depois. Os guardas o
agridem e o imobilizam, algemando-o e levando-o à viatura. Da janela do veículo
ele vê os médicos se aproximando com uma maca. Liang está desacordada e há um
respirador em seu rosto, suas mãos estão ausentes. Eles a colocam em uma
ambulância com o símbolo de biocontaminação e a levam embora.
Wong
nunca mais a viu desde então.

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