terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 23 - A Juíza II


A Juíza

Amargurado com o destino que o médico teve, Timothy permanece em silêncio por dias. O grupo nota a mudança em seu comportamento. O professor sempre foi gentil e atencioso com todos, mas desta vez ele estava apático, calado e distante.
Dois de seus melhores amigos se foram. Joseph, o brilhante filósofo, foi sequestrado e ele ainda não conseguiu encontrá-lo. O filósofo era um homem bom, raro nesse novo mundo em ruínas. Mas e quanto a Harold? O médico mentiu o tempo todo e cometeu o ato mais detestável que alguém pode cometer. Abandonou a própria esposa, uma mulher aleijada e enferma, a uma gangue inteira de estupradores. Timothy pensava que Harold era bom. Agora ele se pergunta: pode a maldade se mascarar de bondade? Ou a bondade nunca existiu?
Com as crescentes dúvidas atormentando sua cabeça, o professor tristemente reconhece. Em um grupo cheio de pessimistas e egoístas, Timothy tinha que levar esse fardo sozinho.
As mulheres no grupo não são diferentes. Elas temem o horror de cair na mão dos saqueadores e mercadores. Marisa, a jornalista, é antipática e depressiva. Ela passa a maior parte do tempo chorando e maltratando sua filha. Rachel, porém, é mais amigável e tenta conversar com ele. Timothy sorri por dentro. Após várias vezes em que ela tenta conversar, ele raramente responde, mas reconhece que ela é a única pessoa que tenta confortá-lo quando ninguém mais quer.
O grupo chega a um longo viaduto que atravessa várias avenidas abaixo. Eles começam a caminhar e veem centenas de carros enferrujados pelo asfalto. Alguns foram tombados e outros tiveram parte de sua lataria derretida. A devastadora onda de choque da explosão nuclear foi tão quente que conseguiu deformar o aço. Abaixo eles veem outra frota incontável de carros destruídos. Dá uma sensação bem estranha ver aquela paisagem. É como se o mundo tivesse parado de repente, como se o colorido da vida fosse trocado pelo cinzento da morte em um piscar de olhos. Tudo foi deixado para trás. Hoje as cores mais alegres se desgastam com o tempo em meio a infinitos tons de cinza.
Ao passar pelos carros, alguns peregrinos tentam encontrar algo valioso para saquear. Eles procuram por água, comida e roupas, e outros reviram os cadáveres, mexendo em seus bolsos procurando por cigarros. Um peregrino sorri e chama a todos os outros, intrigando-os. Escondido debaixo do banco de um carro, ele retira uma bolsa abarrotada de dinheiro, ajuntado em pequenos blocos de notas de cem dólares. Eles riem uns para os outros. Com a enorme quantidade de dinheiro, eles fazem brincadeiras. Em outra situação aquilo mudaria uma vida, mas hoje aquele dinheiro todo não tem valor algum, não passando de simples e insignificante papel.
O grupo se diverte jogando o dinheiro pelo ar, fazendo uma chuva de notas até as avenidas lá embaixo. Outros preferem rasgar o dinheiro, sentindo bizarra satisfação. Eles se divertem e isso é bom para eles. Após tanto tempo se lamentando, chorando e até praguejando, ter um breve momento de alegria faz toda a diferença. Timothy, porém, os ignora e é indiferente às brincadeiras atrás de si. Ele continua andando em silêncio com passos determinados, como se soubesse para onde está indo.
O fim do viaduto se aproxima, Timothy pode ver os semáforos apagados no cruzamento mais abaixo. A brincadeira é bruscamente interrompida quando o grupo vê outras pessoas caminhando pelas ruínas. Todos se calam e se abaixam rapidamente, escondendo-se atrás dos carros e do parapeito. O professor se esgueira pelo asfalto, segura a beirada do parapeito e espia as pessoas lá embaixo. Elas seguem pela rua sem mudar de rumo, assim evitando encontrar-se acidentalmente com o grupo do professor.
Ao observar melhor, Timothy vê treze homens e cinco mulheres. Os homens vestem roupas rasgadas com pedaços de ferro e plástico em seus corpos, formando grotescas armaduras. São saqueadores. As mulheres vestem apenas lingeries e camisolas, e estão amarradas por correntes em seus pulsos. Escravas.
Uma das mulheres está nua na parte de cima de seu corpo. Ela caminha como se estivesse hipnotizada, sem olhar para os lados ou mesmo para frente. A mulher mantém a cabeça baixa o tempo todo enquanto é puxada pela corrente. Então seus cabelos balançam com o vento e revelam seu rosto. Timothy se assusta.
- Susan...?!
A arquiteta também se aproxima para ver e ouve o professor sussurrar algo.
Timothy não se mexe, ele fica imóvel enquanto observa os saqueadores com espanto. “A juíza ainda está viva! Como é possível? Como ela conseguiu sobreviver após todo esse tempo? Ainda mais depois do que aconteceu com seu filho. Pobre menino, tão amável e inocente, terminar daquele jeito. Assassinado e... comido...”.
Ainda espantado, o professor permanece observando os saqueadores caminharem até sumirem nas ruínas. O grupo estava a salvo, afinal. O pior não aconteceu naquele dia.
Timothy se levanta e então todo o grupo se levanta também. Ainda pesaroso, ele se vira e continua seu caminho, sem dizer uma única palavra a ninguém. Da mesma maneira os peregrinos o seguem, todos em silêncio e sérios novamente. O breve momento de diversão tinha chegado ao fim.
Apressando-se para alcançá-lo, Rachel se aproxima e pergunta:
- Tim, quem é aquela pessoa? Aquela de nome Susan?
 Ainda caminhando e sem olhá-la nos olhos, o professor responde:
- Alguém que eu tive o desprazer de conhecer.



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