A
Juíza
Amargurado
com o destino que o médico teve, Timothy permanece em silêncio por dias. O
grupo nota a mudança em seu comportamento. O professor sempre foi gentil e
atencioso com todos, mas desta vez ele estava apático, calado e distante.
Dois
de seus melhores amigos se foram. Joseph, o brilhante filósofo, foi sequestrado
e ele ainda não conseguiu encontrá-lo. O filósofo era um homem bom, raro nesse
novo mundo em ruínas. Mas e quanto a Harold? O médico mentiu o tempo todo e
cometeu o ato mais detestável que alguém pode cometer. Abandonou a própria
esposa, uma mulher aleijada e enferma, a uma gangue inteira de estupradores.
Timothy pensava que Harold era bom. Agora ele se pergunta: pode a maldade se
mascarar de bondade? Ou a bondade nunca existiu?
Com
as crescentes dúvidas atormentando sua cabeça, o professor tristemente
reconhece. Em um grupo cheio de pessimistas e egoístas, Timothy tinha que levar
esse fardo sozinho.
As
mulheres no grupo não são diferentes. Elas temem o horror de cair na mão dos
saqueadores e mercadores. Marisa, a jornalista, é antipática e depressiva. Ela
passa a maior parte do tempo chorando e maltratando sua filha. Rachel, porém, é
mais amigável e tenta conversar com ele. Timothy sorri por dentro. Após várias
vezes em que ela tenta conversar, ele raramente responde, mas reconhece que ela
é a única pessoa que tenta confortá-lo quando ninguém mais quer.
O
grupo chega a um longo viaduto que atravessa várias avenidas abaixo. Eles
começam a caminhar e veem centenas de carros enferrujados pelo asfalto. Alguns
foram tombados e outros tiveram parte de sua lataria derretida. A devastadora
onda de choque da explosão nuclear foi tão quente que conseguiu deformar o aço.
Abaixo eles veem outra frota incontável de carros destruídos. Dá uma sensação bem
estranha ver aquela paisagem. É como se o mundo tivesse parado de repente, como
se o colorido da vida fosse trocado pelo cinzento da morte em um piscar de
olhos. Tudo foi deixado para trás. Hoje as cores mais alegres se desgastam com
o tempo em meio a infinitos tons de cinza.
Ao
passar pelos carros, alguns peregrinos tentam encontrar algo valioso para
saquear. Eles procuram por água, comida e roupas, e outros reviram os
cadáveres, mexendo em seus bolsos procurando por cigarros. Um peregrino sorri e
chama a todos os outros, intrigando-os. Escondido debaixo do banco de um carro,
ele retira uma bolsa abarrotada de dinheiro, ajuntado em pequenos blocos de
notas de cem dólares. Eles riem uns para os outros. Com a enorme quantidade de
dinheiro, eles fazem brincadeiras. Em outra situação aquilo mudaria uma vida,
mas hoje aquele dinheiro todo não tem valor algum, não passando de simples e
insignificante papel.
O
grupo se diverte jogando o dinheiro pelo ar, fazendo uma chuva de notas até as
avenidas lá embaixo. Outros preferem rasgar o dinheiro, sentindo bizarra
satisfação. Eles se divertem e isso é bom para eles. Após tanto tempo se
lamentando, chorando e até praguejando, ter um breve momento de alegria faz
toda a diferença. Timothy, porém, os ignora e é indiferente às brincadeiras
atrás de si. Ele continua andando em silêncio com passos determinados, como se
soubesse para onde está indo.
O
fim do viaduto se aproxima, Timothy pode ver os semáforos apagados no
cruzamento mais abaixo. A brincadeira é bruscamente interrompida quando o grupo
vê outras pessoas caminhando pelas ruínas. Todos se calam e se abaixam
rapidamente, escondendo-se atrás dos carros e do parapeito. O professor se
esgueira pelo asfalto, segura a beirada do parapeito e espia as pessoas lá
embaixo. Elas seguem pela rua sem mudar de rumo, assim evitando encontrar-se
acidentalmente com o grupo do professor.
Ao
observar melhor, Timothy vê treze homens e cinco mulheres. Os homens vestem
roupas rasgadas com pedaços de ferro e plástico em seus corpos, formando
grotescas armaduras. São saqueadores. As mulheres vestem apenas lingeries e
camisolas, e estão amarradas por correntes em seus pulsos. Escravas.
Uma
das mulheres está nua na parte de cima de seu corpo. Ela caminha como se
estivesse hipnotizada, sem olhar para os lados ou mesmo para frente. A mulher
mantém a cabeça baixa o tempo todo enquanto é puxada pela corrente. Então seus
cabelos balançam com o vento e revelam seu rosto. Timothy se assusta.
-
Susan...?!
A
arquiteta também se aproxima para ver e ouve o professor sussurrar algo.
Timothy
não se mexe, ele fica imóvel enquanto observa os saqueadores com espanto. “A
juíza ainda está viva! Como é possível? Como ela conseguiu sobreviver após todo
esse tempo? Ainda mais depois do que aconteceu com seu filho. Pobre menino, tão
amável e inocente, terminar daquele jeito. Assassinado e... comido...”.
Ainda
espantado, o professor permanece observando os saqueadores caminharem até
sumirem nas ruínas. O grupo estava a salvo, afinal. O pior não aconteceu
naquele dia.
Timothy
se levanta e então todo o grupo se levanta também. Ainda pesaroso, ele se vira
e continua seu caminho, sem dizer uma única palavra a ninguém. Da mesma maneira
os peregrinos o seguem, todos em silêncio e sérios novamente. O breve momento
de diversão tinha chegado ao fim.
Apressando-se
para alcançá-lo, Rachel se aproxima e pergunta:
-
Tim, quem é aquela pessoa? Aquela de nome Susan?
Ainda caminhando e sem olhá-la nos olhos, o
professor responde:
-
Alguém que eu tive o desprazer de
conhecer.

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