terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 24 - Fragmento 12



Fragmento 12

O casal se prepara para deixar o apartamento. Toshiro, um experiente garçom, e Mayumi, uma professora de escola infantil, vestem seu filho Ryuta e então se dirigem até a saída. A televisão ainda está ligada, mas na pressa do momento eles se esqueceram de desligá-la.
Durante cinco dias os noticiários japoneses alarmaram a população com imagens agressivas de propaganda norte-coreana. Fracassos diplomáticos e ameaças constantes transformaram a península coreana em uma zona de guerra. O mundo se dividiu em blocos e desta vez a Coreia do Norte teria aliados para participar do conflito. Eles realizariam um ataque e o primeiro alvo seria o Japão.
Os canais japoneses transmitiram imagens dos poderosos mísseis ICBM norte-coreanos. Além dos já conhecidos Rodong-1 e Taepodong-1, a Coreia do Norte estava em festa com o sucesso dos testes balísticos dos mísseis Taepodong-2 e Musudan. Os testes foram claras provocações. Não só violaram o tratado internacional de proliferação de mísseis como foram realizados sobrevoando o espaço aéreo japonês.
Para tranquilizar a população, o governo declarou estar preparado para o conflito. As Forças de Defesa do Japão emitiam imagens do JDS Kongo DDG-173, uma embarcação destroyer da classe Kongo projetada para lançar mísseis teleguiados. A embarcação é equipada com o Standard Missile 3, um míssil anti-balístico capaz de neutralizar ataques de mísseis inimigos. Mas a população não ficou calma por muito tempo.
Na mesma manhã houveram ataques com ogivas nucleares no território chinês. Era uma questão de tempo até a retaliação envolver o Japão. Policiais e voluntários convocam a população para abrigar-se nas estações de metrô. Entre uma hora e outra a desordem se instalou em Tóquio. As famílias ajuntaram o pouco que puderam e deixaram suas casas. As ruas foram tomadas de carros e congestionamentos enormes paralisaram o trânsito. As sirenes soavam alto na cidade. A área metropolitana mais populosa do mundo mergulhava no caos.
Toshiro e sua família descem as escadas do prédio. Os outros residentes também deixam seus apartamentos, todos levando pesadas bagagens. Ao sair na rua, Toshiro agarra firmemente a mão de sua esposa. Mayumi leva seu filho pela mão. A pesada mochila nas costas de Ryuta o incomoda.
A paisagem na rua era desesperadora. Com o trânsito imóvel, muitos abandonam seus carros e correm a pé para o metrô. Alguns tentam roubar as bicicletas dos ciclistas, outros brigam por malas que não são suas. Mayumi se assusta ao ver ladrões saqueando os carros. As pessoas educadas e civilizadas de sua vizinhança se tornaram pessoas monstruosas de repente.
Correndo pelas ruas, Toshiro conduz sua família pela multidão alvoroçada. Há muita gente, os passos são curtos, apressados e imprecisos. Eles ouvem a sirene da polícia, gritos ao longe e vidros se quebrando. Algumas pessoas estão caídas na calçada e são pisoteadas. Sangue escorre de suas cabeças. Ryuta se assusta.
- Mamãe, estou com medo...
Mayumi olha para seu filho e o vê chorando. O caos e a violência o deixaram apavorado.
- Calma, meu filho. A mamãe está aqui.
A estação do metrô está logo a frente. Um mar de gente está parado em frente aos portões. A superlotação nas estações é normal em Tóquio, mas convocar toda a cidade para se abrigar de uma só vez foi a solução mais imprudente que o governo pôde oferecer.
- Segurem as mãos e não soltem! Vou tentar chegar até o portão.
Toshiro se espreme pela multidão. Na entrada, os policiais tentam conter as pessoas e manter a ordem. Enfiando a mão em seu bolso, Toshiro retira um bolo enorme de dinheiro, surpreendendo Mayumi.
- De onde você tirou isso?! – pergunta ela.
Seu marido lhe faz um olhar de culpa.
- Me desculpe.
- Toshiro...! São nossas economias!
A mulher fica profundamente abatida. Eles ajuntaram aquele dinheiro durante anos. Os dois planejavam comprar uma casa no campo, pagar a faculdade de Ryuta, realizar sonhos de família. Ela se entristece ao saber que Toshiro o pegou sem a consultar.
- Policial! Deixe-nos entrar! – ele ergue seu braço, exibindo seu dinheiro.
Os policiais o ignoram. Toshiro não entende. Ele balança sua mão, mostrando o bolo de dinheiro em dúzias de cédulas. Mas os policiais ainda o ignoram. Por quê?
Ryuta grita. Ao olhar para trás, ele vê um homem tentando arrancar a mochila das costas de seu filho. Mayumi tenta empurrar o ladrão, mas ele a estapeia no rosto.
- Ei!
Toshiro tenta defender sua família. O ladrão é mais rápido e dá um soco em seu rosto, atordoando-o. A multidão vê o dinheiro em sua mão e tenta pegá-lo. Toshiro resiste mas as pessoas o agarram, espancando-o até ele cair no chão. O ladrão e a multidão o chutam e o pisoteiam, tentando avidamente pegar seu dinheiro. Mayumi e Ryuta gritam desesperadamente. Sua esposa tenta livrá-lo daqueles homens mas eles cercaram seu marido, não deixando-o ir.
- Papai! – grita o menino.
Logo o dinheiro é solto e se espalha pelo chão, rolando aos pés dos agressores. Como cães disputando comida, a multidão se agacha para pegar as cédulas. Eles ajuntam o máximo que podem e, como Toshiro, oferecem aos policiais, na vã esperança de comprar suas entradas na estação.
Enquanto as pessoas se batem e se empurram, Mayumi arrasta seu marido para longe. O rosto de Toshiro está coberto de sangue. Apesar do espancamento, ele ainda está consciente.
- Toshiro, fale comigo. Você está bem?
Ele olha para sua esposa. O casaco dela tem horríveis manchas vermelhas.
- O dinheiro... O que aconteceu com o dinheiro...?
Mayumi se entristece ao falar.
- Ele se foi.
Toshiro chora amargamente. Com dificuldade ele diz:
- Me desculpe, Mayumi... Eu só tentei nos salvar.
- Não fale. Esqueça isso. Eu te perdoo.
- Temos de entrar na estação...
- Você tem certeza que quer continuar nisso? Está muito perigoso aqui.
- Mas... E quanto ao abrigo?
- Toshiro. Não há esperança. Acabou.
Toshiro olha para sua família. Mayumi e Ryuta o olham como se implorassem para ele desistir daquilo tudo. Ele nunca os viu tão frágeis antes. Toshiro sente que a vida de sua esposa e de seu filho dependem dele agora, que só ele tinha o poder de decidir sobre seus destinos. A vida de sua família estava em suas mãos.
- Vamos... – começa ele – Vamos para casa.
Da janela do apartamento os três olham para a cidade lá fora. Como milhões de outras pessoas na cidade de Tóquio, eles são apenas outra família que não será salva do apocalipse nuclear. O esforço de um pai para salvar sua família não será recompensado. Eles não são diferentes dos outros que também estão matando e morrendo lá embaixo por um lugar nos abrigos. Toshiro chora. Ele está impotente diante do fim. Mayumi também chora, encostando a cabeça no peito de seu marido.
Ryuta está confuso, ele ainda é muito novo para entender. Mas será que algum dia vai? Mayumi o abraça forte e chora por ele. Não haverá futuro para seu filho, o mundo não durará tanto.  
Eles passam o fim em família. Juntos. Amando-se intensamente. Nos últimos minutos de um mundo onde tudo perdeu seu valor, o amor foi tudo o que sobrou.
O assovio acompanha o cair de objetos escuros do céu. Toshiro abraça mais forte sua família.
Finalmente havia começado.



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