Fragmento
12
O
casal se prepara para deixar o apartamento. Toshiro, um experiente garçom, e
Mayumi, uma professora de escola infantil, vestem seu filho Ryuta e então se
dirigem até a saída. A televisão ainda está ligada, mas na pressa do momento
eles se esqueceram de desligá-la.
Durante
cinco dias os noticiários japoneses alarmaram a população com imagens
agressivas de propaganda norte-coreana. Fracassos diplomáticos e ameaças
constantes transformaram a península coreana em uma zona de guerra. O mundo se dividiu
em blocos e desta vez a Coreia do Norte teria aliados para participar do
conflito. Eles realizariam um ataque e o primeiro alvo seria o Japão.
Os
canais japoneses transmitiram imagens dos poderosos mísseis ICBM
norte-coreanos. Além dos já conhecidos Rodong-1 e Taepodong-1, a Coreia do
Norte estava em festa com o sucesso dos testes balísticos dos mísseis
Taepodong-2 e Musudan. Os testes foram claras provocações. Não só violaram o
tratado internacional de proliferação de mísseis como foram realizados
sobrevoando o espaço aéreo japonês.
Para
tranquilizar a população, o governo declarou estar preparado para o conflito.
As Forças de Defesa do Japão emitiam imagens do JDS Kongo DDG-173, uma
embarcação destroyer da classe Kongo
projetada para lançar mísseis teleguiados. A embarcação é equipada com o
Standard Missile 3, um míssil anti-balístico capaz de neutralizar ataques de
mísseis inimigos. Mas a população não ficou calma por muito tempo.
Na
mesma manhã houveram ataques com ogivas nucleares no território chinês. Era uma
questão de tempo até a retaliação envolver o Japão. Policiais e voluntários
convocam a população para abrigar-se nas estações de metrô. Entre uma hora e
outra a desordem se instalou em Tóquio. As famílias ajuntaram o pouco que
puderam e deixaram suas casas. As ruas foram tomadas de carros e
congestionamentos enormes paralisaram o trânsito. As sirenes soavam alto na
cidade. A área metropolitana mais populosa do mundo mergulhava no caos.
Toshiro
e sua família descem as escadas do prédio. Os outros residentes também deixam
seus apartamentos, todos levando pesadas bagagens. Ao sair na rua, Toshiro
agarra firmemente a mão de sua esposa. Mayumi leva seu filho pela mão. A pesada
mochila nas costas de Ryuta o incomoda.
A
paisagem na rua era desesperadora. Com o trânsito imóvel, muitos abandonam seus
carros e correm a pé para o metrô. Alguns tentam roubar as bicicletas dos
ciclistas, outros brigam por malas que não são suas. Mayumi se assusta ao ver
ladrões saqueando os carros. As pessoas educadas e civilizadas de sua
vizinhança se tornaram pessoas monstruosas de repente.
Correndo
pelas ruas, Toshiro conduz sua família pela multidão alvoroçada. Há muita
gente, os passos são curtos, apressados e imprecisos. Eles ouvem a sirene da
polícia, gritos ao longe e vidros se quebrando. Algumas pessoas estão caídas na
calçada e são pisoteadas. Sangue escorre de suas cabeças. Ryuta se assusta.
-
Mamãe, estou com medo...
Mayumi
olha para seu filho e o vê chorando. O caos e a violência o deixaram apavorado.
-
Calma, meu filho. A mamãe está aqui.
A
estação do metrô está logo a frente. Um mar de gente está parado em frente aos
portões. A superlotação nas estações é normal em Tóquio, mas convocar toda a
cidade para se abrigar de uma só vez foi a solução mais imprudente que o
governo pôde oferecer.
-
Segurem as mãos e não soltem! Vou tentar chegar até o portão.
Toshiro
se espreme pela multidão. Na entrada, os policiais tentam conter as pessoas e
manter a ordem. Enfiando a mão em seu bolso, Toshiro retira um bolo enorme de
dinheiro, surpreendendo Mayumi.
- De
onde você tirou isso?! – pergunta ela.
Seu
marido lhe faz um olhar de culpa.
- Me
desculpe.
-
Toshiro...! São nossas economias!
A
mulher fica profundamente abatida. Eles ajuntaram aquele dinheiro durante anos.
Os dois planejavam comprar uma casa no campo, pagar a faculdade de Ryuta,
realizar sonhos de família. Ela se entristece ao saber que Toshiro o pegou sem
a consultar.
-
Policial! Deixe-nos entrar! – ele ergue seu braço, exibindo seu dinheiro.
Os
policiais o ignoram. Toshiro não entende. Ele balança sua mão, mostrando o bolo
de dinheiro em dúzias de cédulas. Mas os policiais ainda o ignoram. Por quê?
Ryuta
grita. Ao olhar para trás, ele vê um homem tentando arrancar a mochila das
costas de seu filho. Mayumi tenta empurrar o ladrão, mas ele a estapeia no
rosto.
-
Ei!
Toshiro
tenta defender sua família. O ladrão é mais rápido e dá um soco em seu rosto,
atordoando-o. A multidão vê o dinheiro em sua mão e tenta pegá-lo. Toshiro
resiste mas as pessoas o agarram, espancando-o até ele cair no chão. O ladrão e
a multidão o chutam e o pisoteiam, tentando avidamente pegar seu dinheiro.
Mayumi e Ryuta gritam desesperadamente. Sua esposa tenta livrá-lo daqueles
homens mas eles cercaram seu marido, não deixando-o ir.
-
Papai! – grita o menino.
Logo
o dinheiro é solto e se espalha pelo chão, rolando aos pés dos agressores. Como
cães disputando comida, a multidão se agacha para pegar as cédulas. Eles
ajuntam o máximo que podem e, como Toshiro, oferecem aos policiais, na vã esperança
de comprar suas entradas na estação.
Enquanto
as pessoas se batem e se empurram, Mayumi arrasta seu marido para longe. O
rosto de Toshiro está coberto de sangue. Apesar do espancamento, ele ainda está
consciente.
-
Toshiro, fale comigo. Você está bem?
Ele
olha para sua esposa. O casaco dela tem horríveis manchas vermelhas.
- O
dinheiro... O que aconteceu com o dinheiro...?
Mayumi
se entristece ao falar.
-
Ele se foi.
Toshiro
chora amargamente. Com dificuldade ele diz:
- Me
desculpe, Mayumi... Eu só tentei nos salvar.
-
Não fale. Esqueça isso. Eu te perdoo.
-
Temos de entrar na estação...
-
Você tem certeza que quer continuar nisso? Está muito perigoso aqui.
-
Mas... E quanto ao abrigo?
-
Toshiro. Não há esperança. Acabou.
Toshiro
olha para sua família. Mayumi e Ryuta o olham como se implorassem para ele
desistir daquilo tudo. Ele nunca os viu tão frágeis antes. Toshiro sente que a
vida de sua esposa e de seu filho dependem dele agora, que só ele tinha o poder
de decidir sobre seus destinos. A vida de sua família estava em suas mãos.
-
Vamos... – começa ele – Vamos para casa.
Da
janela do apartamento os três olham para a cidade lá fora. Como milhões de
outras pessoas na cidade de Tóquio, eles são apenas outra família que não será
salva do apocalipse nuclear. O esforço de um pai para salvar sua família não
será recompensado. Eles não são diferentes dos outros que também estão matando
e morrendo lá embaixo por um lugar nos abrigos. Toshiro chora. Ele está
impotente diante do fim. Mayumi também chora, encostando a cabeça no peito de
seu marido.
Ryuta
está confuso, ele ainda é muito novo para entender. Mas será que algum dia vai?
Mayumi o abraça forte e chora por ele. Não haverá futuro para seu filho, o
mundo não durará tanto.
Eles
passam o fim em família. Juntos. Amando-se intensamente. Nos últimos minutos de
um mundo onde tudo perdeu seu valor, o amor foi tudo o que sobrou.
O
assovio acompanha o cair de objetos escuros do céu. Toshiro abraça mais forte
sua família.
Finalmente
havia começado.

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