(Imagem de Matthew Watts)
Fragmento
14
Hamburgo,
Alemanha. O dia do ataque.
“Consegui
chegar ao prédio de uma rádio local. Por alguma razão esse lugar resistiu ao
ataque nuclear. Hamburgo está em chamas, tudo foi arrasado e destruído. Não sei
dizer se foram ogivas russas ou chinesas, mas não importa. Também não sei
quanto às outras cidades, mas temo que essa devastação foi a pior que a
Alemanha sofreu desde a Segunda Guerra Mundial. Eu estava chegando à cidade
quando tudo aconteceu, mas ao chegar vi apenas fogo, fumaça e morte. Os cadáveres
estão empilhados nas ruas, ainda em chamas. Essa cena eu jamais irei esquecer.
Ficarei aqui por enquanto. Não tenho outro lugar para ir.”
Dois
dias após o ataque.
“Há
mais pessoas comigo. Mais estão aparecendo. Todas tem o mesmo aspecto desesperado
e confuso. Alguns rostos estão cobertos de poeira, outros de sangue. Alguns têm
uma camada preta e gosmenta, talvez seja sangue misturado com poeira ou
qualquer outra coisa, mas me dá nojo só de ver. Hoje apareceram mulheres que
tinham os rostos tão queimados que não conseguiam chorar, ao invés só gritavam
e gritavam. Eu chorei por elas até não poder mais. Ah, se eu pudesse
emprestá-las meus olhos para que elas pudessem chorar!”
Cinco
dias após o ataque.
“Muitos
estão morrendo. Dormem à noite e ao amanhecer não acordam mais. Outros batem a
cabeça contra a parede tentando se suicidar. Um homem me deu uma barra de aço e
me pediu para matá-lo. Que horror! No auge de sua agonia e deformação, as
pessoas procuram pela morte como se fosse a última saída para sua dor! Estão
loucas! Perderam a razão! Quem pode culpá-las? Perderam tudo, maridos, esposas,
pais, mães e filhos... E se eu não aguentar mais e quiser me matar também?”
Oito
dias após o ataque.
“Não
estamos a salvo. Pessoas sem nenhum ferimento estão adoecendo. Seus cabelos
caem, elas sentem constantes náuseas, são acometidas com diarreia. Um estudante
nos revelou o que era e suas palavras soaram como uma sentença de morte.
Estamos sofrendo com o fantasma da radiação. Em pranto, nos calamos e olhamos
uns para os outros, pateticamente esperando que alguém nos falasse que
ficaríamos bem.”
Nove
dias após o ataque.
“Alguém
teve uma brilhante ideia. Um homem sugeriu que ligássemos os aparelhos de rádio
e procurássemos por sinais de socorro. Não há mais energia, mas há geradores no
porão. É claro! Isso é tão óbvio! Estávamos em uma estação de rádio o tempo
todo e não pensamos nisso. Todos se prontificam e se levantam. Qualquer coisa é
melhor do que esperar a morte assim.”
Treze
dias após o ataque.
“Estou
há dias sentado em frente aos aparelhos. Tento captar algum sinal mas só ouço
estática. Todos já desistiram e perderam a esperança. Tolos. Eu ficarei aqui e
encontrarei um sinal, nem que seja a última coisa que eu faça!”
Dezesseis
dias após o ataque.
“Me
deixaram sozinho aqui em cima. Os sobreviventes estão no andar de baixo,
cuidando dos feridos e de seus próprios ferimentos. Evito coçar a cabeça. Toda
vez que eu coço saem tufos de cabelo. Uma menina vem me trazer água e comida.
Evito olhar para ela. Ela perdeu os pais no ataque e estranhos cuidam dela
agora. É muita tristeza. Nessa paisagem de ruínas e fumaça, que futuro ela tem
agora que está tão só?”
Vinte
dias após o ataque.
“Eu
não estou obcecado! As pessoas me dizem para eu desistir e desligar o aparelho.
Eu não vou sair daqui! Não importa se a radiação em Hamburgo esteja muito
forte. Se quiserem ir embora, que vão. Duvido que esteja melhor lá fora.”
Vinte
e sete dias após o ataque.
“Tive
uma sensação muito sinistra hoje. Um silêncio absoluto pairava dentro do
prédio. Parecia que o silêncio era mais forte do que o ruído irritante do
rádio. Estranhei por que ninguém mais me trazia comida. Ao descer para o andar
de baixo, vi que havia vários mortos pelo chão. Aqueles sobreviventes estavam
mortos. Outros foram embora sem me avisar. Desta vez eu estava completamente
sozinho. Acho que eles se cansaram de esperar.”
Trinta
e cinco dias após o ataque.
“Veja
só no que eu me tornei. Um corpo paralisado pela podridão. Meus cabelos caíram,
manchas apareceram em meu rosto, não consigo mais engolir. A tontura e a náusea
me desfalecem. A degeneração domina minha mente. Estou apodrecendo aos poucos.
A cada dia se vai parte de mim.”
Quarenta
e quatro dias após o ataque.
“Não
há mais nada em que acreditar. Não há mais razão para acreditar. Não existe
mais sociedade lá fora. A noite é escura como a alma de Lúcifer. O dia é cinza
como as lápides dos cemitérios. Passou todo esse tempo e eu não vi polícia,
bombeiros ou exército. Nada. Eu mantive a esperança. Procurei por sinais nas transmissões
de rádio. Mas só recebi estática. Agora eu sei que estava errado. Eu cansei de
esperar. Estou indo embora daqui. Vou procurar outro lugar para morrer.”
Quarenta
e seis dias após o ataque.
A
estação de rádio está deserta. Há mortos por toda parte e o vento zune pelos
cantos. Mas algo quebra o silêncio fúnebre do local. Os aparelhos de rádio
ainda estão ligados. A estática prossegue com suas ondulações inconstantes
quando uma voz surge no alto-falante.
“Aqui
é o [interferência]... Estamos [interferência] recebendo seu sinal há
dias... Nossos aparelhos [interferência]
estavam danificados. Apenas agora conseguimos [interferência] contatar você. Tem alguém aí? [interferência] Responda... Se tiver alguém aí [interferência] responda por favor...”
Fim
da transmissão.

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