terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 28 - Fragmento 14


(Imagem de Matthew Watts)

Fragmento 14

Hamburgo, Alemanha. O dia do ataque.
“Consegui chegar ao prédio de uma rádio local. Por alguma razão esse lugar resistiu ao ataque nuclear. Hamburgo está em chamas, tudo foi arrasado e destruído. Não sei dizer se foram ogivas russas ou chinesas, mas não importa. Também não sei quanto às outras cidades, mas temo que essa devastação foi a pior que a Alemanha sofreu desde a Segunda Guerra Mundial. Eu estava chegando à cidade quando tudo aconteceu, mas ao chegar vi apenas fogo, fumaça e morte. Os cadáveres estão empilhados nas ruas, ainda em chamas. Essa cena eu jamais irei esquecer. Ficarei aqui por enquanto. Não tenho outro lugar para ir.”
Dois dias após o ataque.
“Há mais pessoas comigo. Mais estão aparecendo. Todas tem o mesmo aspecto desesperado e confuso. Alguns rostos estão cobertos de poeira, outros de sangue. Alguns têm uma camada preta e gosmenta, talvez seja sangue misturado com poeira ou qualquer outra coisa, mas me dá nojo só de ver. Hoje apareceram mulheres que tinham os rostos tão queimados que não conseguiam chorar, ao invés só gritavam e gritavam. Eu chorei por elas até não poder mais. Ah, se eu pudesse emprestá-las meus olhos para que elas pudessem chorar!”
Cinco dias após o ataque.
“Muitos estão morrendo. Dormem à noite e ao amanhecer não acordam mais. Outros batem a cabeça contra a parede tentando se suicidar. Um homem me deu uma barra de aço e me pediu para matá-lo. Que horror! No auge de sua agonia e deformação, as pessoas procuram pela morte como se fosse a última saída para sua dor! Estão loucas! Perderam a razão! Quem pode culpá-las? Perderam tudo, maridos, esposas, pais, mães e filhos... E se eu não aguentar mais e quiser me matar também?”
Oito dias após o ataque.
“Não estamos a salvo. Pessoas sem nenhum ferimento estão adoecendo. Seus cabelos caem, elas sentem constantes náuseas, são acometidas com diarreia. Um estudante nos revelou o que era e suas palavras soaram como uma sentença de morte. Estamos sofrendo com o fantasma da radiação. Em pranto, nos calamos e olhamos uns para os outros, pateticamente esperando que alguém nos falasse que ficaríamos bem.”
Nove dias após o ataque.   
“Alguém teve uma brilhante ideia. Um homem sugeriu que ligássemos os aparelhos de rádio e procurássemos por sinais de socorro. Não há mais energia, mas há geradores no porão. É claro! Isso é tão óbvio! Estávamos em uma estação de rádio o tempo todo e não pensamos nisso. Todos se prontificam e se levantam. Qualquer coisa é melhor do que esperar a morte assim.”
Treze dias após o ataque.
“Estou há dias sentado em frente aos aparelhos. Tento captar algum sinal mas só ouço estática. Todos já desistiram e perderam a esperança. Tolos. Eu ficarei aqui e encontrarei um sinal, nem que seja a última coisa que eu faça!”
Dezesseis dias após o ataque.
“Me deixaram sozinho aqui em cima. Os sobreviventes estão no andar de baixo, cuidando dos feridos e de seus próprios ferimentos. Evito coçar a cabeça. Toda vez que eu coço saem tufos de cabelo. Uma menina vem me trazer água e comida. Evito olhar para ela. Ela perdeu os pais no ataque e estranhos cuidam dela agora. É muita tristeza. Nessa paisagem de ruínas e fumaça, que futuro ela tem agora que está tão só?”
Vinte dias após o ataque.
“Eu não estou obcecado! As pessoas me dizem para eu desistir e desligar o aparelho. Eu não vou sair daqui! Não importa se a radiação em Hamburgo esteja muito forte. Se quiserem ir embora, que vão. Duvido que esteja melhor lá fora.”
Vinte e sete dias após o ataque.
“Tive uma sensação muito sinistra hoje. Um silêncio absoluto pairava dentro do prédio. Parecia que o silêncio era mais forte do que o ruído irritante do rádio. Estranhei por que ninguém mais me trazia comida. Ao descer para o andar de baixo, vi que havia vários mortos pelo chão. Aqueles sobreviventes estavam mortos. Outros foram embora sem me avisar. Desta vez eu estava completamente sozinho. Acho que eles se cansaram de esperar.”
Trinta e cinco dias após o ataque.
“Veja só no que eu me tornei. Um corpo paralisado pela podridão. Meus cabelos caíram, manchas apareceram em meu rosto, não consigo mais engolir. A tontura e a náusea me desfalecem. A degeneração domina minha mente. Estou apodrecendo aos poucos. A cada dia se vai parte de mim.”
Quarenta e quatro dias após o ataque.
“Não há mais nada em que acreditar. Não há mais razão para acreditar. Não existe mais sociedade lá fora. A noite é escura como a alma de Lúcifer. O dia é cinza como as lápides dos cemitérios. Passou todo esse tempo e eu não vi polícia, bombeiros ou exército. Nada. Eu mantive a esperança. Procurei por sinais nas transmissões de rádio. Mas só recebi estática. Agora eu sei que estava errado. Eu cansei de esperar. Estou indo embora daqui. Vou procurar outro lugar para morrer.”
Quarenta e seis dias após o ataque.
A estação de rádio está deserta. Há mortos por toda parte e o vento zune pelos cantos. Mas algo quebra o silêncio fúnebre do local. Os aparelhos de rádio ainda estão ligados. A estática prossegue com suas ondulações inconstantes quando uma voz surge no alto-falante.
“Aqui é o [interferência]... Estamos [interferência] recebendo seu sinal há dias... Nossos aparelhos [interferência] estavam danificados. Apenas agora conseguimos [interferência] contatar você. Tem alguém aí? [interferência] Responda... Se tiver alguém aí [interferência] responda por favor...”
Fim da transmissão. 


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