terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 12 - Fragmento 6



Fragmento 6

Eknath Bajrang vê constantemente os noticiários na TV sobre uma possível guerra nuclear. Estudante dedicado, Eknath se esforça para entrar na faculdade de medicina em Mumbai, Índia. Com a possibilidade de haver guerra, ele sente haver uma grande injustiça em sua vida, interrompendo seus estudos e sua futura carreira na medicina.
A Índia, sendo um dos países com mísseis balísticos intercontinentais, tinha relações conturbadas com seus vizinhos sobre o domínio econômico e bélico da região. O governo indiano envolvia-se em disputas pelos estados autônomos do norte enquanto zelava por sua segurança e defesa contra as ameaças expansionistas do leste. Durante anos a Organização Defensiva de Pesquisa e Desenvolvimento, a DRDO, desenvolvia mísseis para a defesa de seu país. O Agni V foi uma tremenda conquista, mostrando que a Índia era capaz de se defender, podendo atacar seus vizinhos em qualquer parte de seus territórios. O Agni VI foi um passo adiante e consolidou o lugar indiano entre as grandes potências nucleares do mundo.
Os noticiários indianos tranquilizavam a população dizendo que se a soberania nacional fosse ameaçada, eles responderiam com um contra-ataque à altura. Eknath nasceu e cresceu em Mumbai, uma cidade de contrastes com seus belos centros financeiros e paupérrimos bairros periféricos. Eknath olha ao redor e se pergunta para onde aquelas pessoas iriam se houvesse um ataque nuclear.
Será mesmo que aquilo vai acontecer? Que seu país, pacífico e receptivo, entraria ativamente no conflito? Os países envolvidos terão a prudência e a moderação que os Estados Unidos e a União Soviética tiveram ao evitar o apocalipse nuclear?
Eknath já foi noivo uma vez. Apesar da proibição, ele mantinha relações sexuais com sua noiva normalmente. Certa vez o casal decidiu morar junto e procurou um lugar para viver, mesmo sem terem se casado. Enquanto dormiam, o pai e os irmãos dela invadiram sua casa, arrastaram-na pelos cabelos e lhe deram uma surra brutal no meio da rua. Eknath jamais viu tamanha violência. O pai apontou o dedo para o seu rosto e disse: “se você procura-la de novo, eu vou matá-lo”. Alguns dias depois ele soube que ela se mudou para uma cidade distante em Andhra Pradesh, nunca mais a vendo desde então.
Ao voltar para casa, ele passa pelo movimentado Terminal Chhatrapati Shivaji. Na TV do terminal o governo exibia o poderoso arsenal indiano, os mísseis Agni-V de 50 toneladas, comprimento de 17,5 metros e diâmetro de 2,0 metros. Cada míssil tem ogivas nucleares de 1,5 toneladas e abrange uma distância de mais de cinco mil quilômetros. Os Agni-VI são equipados com o sistema MIRV e carregam múltiplas ogivas. O governo indiano exibe os mísseis como se fossem conquistas nacionais, mas mal sabem eles que sua satisfação durará pouco.
Ele caminha até seu apartamento. As avenidas estão movimentadas, a noite está tensa, as pessoas estão preocupadas. Sentado no sofá, ele tenta ignorar o barulho vindo das avenidas lá embaixo. Fazendo algo pouco habitual, ele lê os Vedas, os quatro textos sagrados do hinduísmo. Ele se pergunta se os deuses estariam zangados com a humanidade agora. Ele se pergunta se o grande Shiva, o Destruidor, cansou-se do egoísmo dos homens e agora pretende exterminá-los com fogo. Onde estão Brahma, o Criador, e Vishnu, o Preservador para impedi-lo? Será um consenso entre a Trimúrti, a sagrada trindade hindu, para acabar com o mundo?
Talvez não seja uma questão de deuses, mas de homens, e os deuses hindus viraram as costas à humanidade, deixando-os para resolver seus assuntos com a única maneira que conhecem: a ignorância.  
Durante a noite, Eknath tem um sonho estranho. Ganesha, o semideus da boa fortuna, aparece para ele e diz palavras sábias de proteção, alertando-o a se proteger. Mas de repente uma enorme onda de fogo atravessa os dois e Eknath não consegue mais ouvi-lo. Então o sonho acaba, tão confuso e estranho como começou.
Indo ao trabalho, seu dia é abruptamente interrompido. Um gigantesco míssil se ascende ao céu, atrás dos prédios ao longe, e voa para cima soltando uma fumaça densa e gigantesca. Eknath se espanta, os mísseis não eram lançados de Wheeler Island na costa de Orissa? Em seguida outro e outro se erguem ao céu, atravessando as nuvens. Todos os indianos param o que estão fazendo e observam os imensos projéteis voarem. Após alguns segundos uma sirene soa do alto dos prédios e Eknath inconscientemente corre para uma tampa da rede de esgoto na calçada. Abrindo-a, ele se atira ao buraco sem se importar com o cheiro ou os insetos. Em uma galeria subterrânea, ele ouve o som apavorante da explosão estremecer a superfície lá em cima.
O tremor aumenta como se as legiões de demônios estivessem subindo do inferno. Ali embaixo, o frio e a umidade se convertem em um calor infernal, cozinhando-o como se tivessem jogado-o na água quente. A temperatura sobe, está quente demais, ele não vai resistir por muito tempo. Sua pele arde e ele sente o cheiro de seus cabelos queimando. Ele tira a camisa e se assusta ao queimar suas mãos ao tocar o tecido. A sola de seus sapatos amolece e ele teme morrer queimado lá embaixo.
De repente a temperatura ameniza e ele sobe a escada de volta à rua. Ao sair ele pensa estar em um pesadelo. Havia centenas de pessoas carbonizadas nas ruas, os prédios estavam em chamas e prestes a desabar. Os carros estavam virados e tombados como se tivessem sido varridos pela fúria dos ventos. Eknath vê muitos cadáveres, muito mais do que normalmente se vê no Ganges. Havia um ônibus cheio de passageiros carbonizados, algumas pessoas estavam prensadas sob os carros e outras queimavam impotentes, presas nas ferragens. Os cidadãos menos afortunados correm de um lado ao outro, procurando conhecidos ou lutando contra a terrível dor das queimaduras. Ao seu lado corre alguém com vários trapos pendurados em seu corpo. Eknath sente vertigem ao perceber que os trapos eram na verdade sua pele.
 Mais à frente ele vê um prédio e o adentra. Lá dentro ele encontra dezenas de pessoas sentadas no chão do lobby. Elas agonizam e ele sente o cheiro de carne queimada no ar. Alguém puxa a barra de sua calça e ele vê uma menina de aproximadamente sete anos pedindo por socorro. Eknath segura seu braço para ajudá-la quando seus dedos sentem seus ossos. Estava em carne viva.
Um homem coberto de cinzas o puxa, dizendo:
- Temos que sair daqui! A radiação vai nos contaminar!
- E quanto a eles?
- Ninguém pode ajudá-los!
Eknath ia protestar mas o homem foge, desaparecendo na nuvem de fumaça no lado de fora do edifício.



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