Fragmento
7
Ludovic
lutou contra um câncer no pulmão durante cinco anos. Quando estava à beira da
morte, toda sua família se reuniu para vê-lo pela última vez. Sua tia, a mulher
que cuidou dele por cinquenta anos após seus pais morrerem em um acidente de carro,
lhe revelou algo que mudou sua vida.
-
Você tem um irmão gêmeo. Eu não sei onde ele está, mas eu sei que ele está vivo
e mora com outra família.
Abalado
com a revelação, ele responde:
-
Por que a senhora está me dizendo isso só agora?
- Eu
não pude dizer antes porque na época eu não pude cuidar de vocês dois, eu não
tinha condições para isso. Quando seus pais morreram eu escolhi apenas um para
ficar comigo, o outro foi entregue à adoção. Foi uma decisão difícil, mas o que
eu podia fazer? Eu não sou rica!
-
Você acha que ele vive aqui em Toulouse?
-
Isso você vai ter que descobrir sozinho.
-
Pode ao menos me dizer seu nome?
Sua
tia lhe dá as costas e, antes de sair pela porta, vira seu pescoço e responde:
-
Ele se chama Fabrice.
Sua
tia vai embora e ele fica deitado na cama, pensativo e surpreso. Ele tinha um
irmão gêmeo! Não estava sozinho afinal. Quando seus pais morreram ele era muito
novo e não se lembrava dos dois, quanto mais de seu irmão.
Daquele
dia em diante ele teve um motivo mais forte para continuar vivendo. Ludovic
jurou que se ele fosse curado do terrível câncer ele iria procurar seu irmão,
custe o que custar. Ele se empolgava com a ideia. Após tanto tempo vivendo com
sua tia ele achou que estava sozinho no mundo. Mas de repente ele descobre que
não está, nada poderia ser melhor do que isso.
Então
Ludovic é curado. Mesmo perdendo os cabelos após tantas quimioterapias, a longa
batalha pela vida é vencida. Os médicos arrancaram o tumor maligno de seu
pulmão e ele recebe alta. Em casa, ele recupera suas forças e lentamente volta
ao normal. Enquanto tomava sopas e assistia à TV, noticiários cada vez mais
frequentes interrompiam a programação. Eles informavam sobre rumores de guerra,
ameaças constantes contra a OTAN, a União Europeia e os Estados Unidos, e tudo
indicava o início de uma nova crise como aquela ocorrida em outubro de 1962.
Sentindo-se
saudável o suficiente para caminhar e sair de casa, Ludovic pega seus
documentos e vai a uma delegacia em sua cidade. Ele informa sua situação aos
investigadores, a morte de seus pais e a separação de seu irmão. Dizendo-lhe o
nome de seu irmão gêmeo, os investigadores procuram no banco de dados de
orfanatos da região. Infelizmente a busca retorna sem nenhuma resposta.
Sem
se desanimar, Ludovic vai à outra delegacia e recebe a mesma resposta. Mais uma
vez negativa. Indo a outras duas, acontece o mesmo. As semanas se passam e
então ele muda a estratégia, passando a visitar os orfanatos pessoalmente. Os
orfanatos franceses são deprimentes, as crianças sem pais olham para ele sem
esperança ou perspectiva, são filhos bastardos de um mundo que devora famílias.
Ele pergunta por seu irmão, um menino entregue ao orfanato com o nome de
Fabrice. As atendentes também não encontram esse registro, os documentos de
crianças registradas há cinquenta anos já deviam estar em um incinerador.
Infelizmente os orfanatos tinham que liberar espaço para registros recentes de
crianças estrangeiras que não paravam de chegar ao país.
Ludovic
desiste. Em sua casa, ele sofre em silêncio enquanto o café solta vapor da
caneca ao seu lado. Na TV os noticiários amedrontavam a população com suas
notícias alarmantes de uma possível guerra nuclear. Ele ignora tudo isso, a
gritaria dos repórteres, dos comentaristas, dos políticos e dos militares,
olhando com indiferença.
Em um
estalo, a ideia aparece em sua mente como um milagre. Ludovic recorre à
tentativa mais inusitada de sua vida, ele decide procurar por um detetive
particular. Pessoalmente ele considera os detetives uns vagabundos que vivem da
espionagem da vida alheia. Mas se pensarmos bem, ele não está de todo certo?
Usando a lista telefônica, ele acha vários detetives, cada um com seus
escritórios de nomes ridículos e impossíveis de se levar a sério. Ludovic
escolhe um deles, aquele que tem o nome um pouco menos irrisório, e decide
marcar um horário.
No local
combinado, a secretária o recebe com muita falta de educação, não tirando os
olhos da televisão enquanto assiste aos noticiários. Curioso para saber o que
ela está assistindo, ele ouve algo sobre uma invasão em um país do oriente, e
os porta-aviões R91 Charles de Gaulle patrulhando o litoral da França. Falando
com o detetive, Ludovic explica novamente seu problema e o homem se prontifica
a ajudá-lo. Negociando o preço da investigação, eles se despedem e Ludovic vai
embora, passando pela secretária que assistia atentamente à TV.
Em
sua casa, Ludovic ainda aguarda mais nove dias até ter notícias novamente. Ele
o chama ao seu escritório dizendo que é urgente, o detetive encontrou seu
irmão. Ludovic sai de casa depressa, chegando o mais rápido que pode. A
secretária está ausente, o detetive disse que ela está com medo e que não vai
mais sair de casa. Sem interesse nela, ele pergunta logo sobre seu irmão.
Fabrice mora em Lyon, mais ao leste da França. Animado, ele pega o endereço e
seus dados pessoais e paga o detetive com dinheiro vivo. O detetive arregala os
olhos ao ver aquele punhado euros sobre sua mesa e nem vê o velho sair.
Na
manhã seguinte, Ludovic entra em seu carro e segue viagem para Lyon. Ensaiando
o que vai dizer ao seu irmão, ele nem percebe que as ruas e avenidas estão
vazias. O rádio do carro informa as notícias incômodas, os porta-aviões
patrulhavam o Mar Mediterrâneo e o Canal da Mancha. Os caças Dassault Mirage
IV, Mirage 2000N, Rafale e Super Étendard estavam todos equipados com os
mísseis TN 81 Air-Sol Moyenne Portée com ogivas termonucleares de 300kt,
prontos para o ataque.
Ludovic
estava feliz, muito feliz. No mundo nada mais importava, nem mesmo a notícia
apavorante dos primeiros ataques nucleares na Ásia. Próximo da rodovia, ele
decide se pegará a A20 passando por Brive-la-Gaillarde ou a A68 passando por
Albi. Ele está muito feliz, ele leva cartas, fotos de família, presentes e
objetos pessoais de sua falecida mãe... Fabrice com certeza sentirá um choque
quando ouvir que é adotado, talvez ele já saiba da adoção mas não do irmão,
talvez ele já saiba de ambos mas nunca teve oportunidade de conhecê-lo.
Ludovic
está empolgado, ele se sente bem. Talvez a dolorosa luta contra o câncer tenha
vindo para um bem maior, só assim, no leito de morte, ele saberia que tinha um
irmão no mundo. Ele está animado, nada poderia tirar sua felicidade naquele
momento. No rádio, o noticiário azucrina sua orelha com as infernais notícias
que não paravam de atormentá-lo, algo sobre um míssil intercontinental em
direção à Europa. Ele o desliga com violência e volta ao seu agradável
pensamento familiar.
Mas sua
felicidade não dura muito tempo.
Objetos
cônicos e escuros caem do céu em uma velocidade impressionante e em seguida vem
o clarão, cegando-o atrás do volante. Ao recobrar a visão, ele vê por um breve
momento a monstruosa onda de fogo avançar sobre seu carro, como um diabólico tsunami
de chamas. Seu carro é pego pela onda de choque e lançado pelo ar, queimando-o
lá dentro como se estivesse dentro de um forno. Suas cartas, fotos, presentes,
objetos pessoais... tudo é consumido em um piscar de olhos pelo fogo nuclear, e
tudo o que resta de Ludovic são apenas seus ossos pulverizados. Com o impacto,
a carcaça de aço se deforma, deixando o carro com as rodas para cima no meio da
rodovia.
E
assim termina a tocante história do reencontro dramático de irmãos gêmeos
separados quando ainda eram bebês. Agora separados novamente, e
definitivamente, por uma bomba nuclear.

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