A
Jornalista
Aproximando-se
de sua mãe, a menina a vê sentada em um canto afastado. Ela chora e lamenta a
morte de seu filho. Após se passar algumas semanas desde que fugiram do
acampamento dos mercadores, a menina pensou que sua mãe havia superado a morte
de seu filho. Mas ela nunca superou.
-
Mamãe...?
- Vá
embora! Eu quero ficar sozinha.
-
Mas eu queria conversar hoje...
- Já
disse para ir embora! – grita ela.
A
menina se assusta. Calando-se, ela vai embora, triste por não receber atenção
mais uma vez.
Devido
ao inverno nuclear, as ruas estão cada vez mais frias. Pedaços de gelo aparecem
em toda parte. Apesar da forte presença química da radiação na atmosfera,
inibindo as chuvas e as geadas, o gelo se forma no ambiente e anuncia a chegada
do inverno. Com as baixas temperaturas, os peregrinos são obrigados a se
refugiarem.
O
vento frio e a escassez de alimentos paralisam a peregrinação. O grupo do
professor está escondido em um prédio qualquer. Entediada e frustrada por não
conseguir conversar com sua mãe, a menina quebra uma regra básica do grupo e
caminha sozinha pelas ruínas, andando livremente pelas ruas desertas daquela
cidade cinzenta e abandonada. Durante dias ela faz isso. Não havia por que se
preocupar com sua mãe, a jornalista sequer percebia sua ausência.
Corajosa,
a menina se divertia com a sensação de perigo. Ela caminhava pelas ruas
completamente sozinha, sem se importar com as terríveis consequências de sua
ousadia.
Dias
atrás ela achou o prédio de um antigo Shopping
Center. Diferente dos outros prédios, cujas entradas estavam completamente
embarricadas, as portas do shopping estavam arrombadas e destruídas. De longe
ela via o interior do lugar, o mesmo onde anos antes era iluminado por milhares
de luzes coloridas em sua fachada.
Passando
pela entrada, seus passos provocam sons agudos ao pisarem nos cacos de vidro da
antiga porta. No interior ela vê o piso térreo e o mezanino no piso superior.
As escadas rolantes estavam velhas e enferrujadas, e a antiga fonte estava
coberta de lodo e manchas gosmentas. Os requintados revestimentos estavam sujos
e podres. O piso estava todo empoeirado, havia sacos plásticos e pedaços de
lixo espalhados pelos cantos. O teto, antes um magnífico telhado de vidro que
aproveitava a luz natural, teve suas chapas de vidro arrancadas e despedaçadas,
possivelmente pela devastadora onda de choque das ogivas nucleares.
As
lojas também tiveram suas portas arrombadas. Nos dias de aftermath, os vândalos foram ávidos ao saquearem as mercadorias.
Tudo foi levado, o que sobrou das lojas foram as prateleiras vazias, os balcões
apodrecidos e as portas amassadas pela fúria das multidões. A menina vê a praça
de alimentação, um verdadeiro cemitério de restaurantes do passado. Ela vê um
restaurante fast-food do qual sua mãe
falava tanto, hoje um lar de ratos e baratas. Jovem demais para se lembrar,
Marisa a levava em uma daquelas unidades para comer seus lanches. Dentro do
pacote havia um pequeno brinquedo e a menina se divertia enquanto brincava
dentro do carro a caminho de casa. Tempos passados dos quais ela jamais se
lembrará.
Há uma loja de roupas chiques no piso
superior. A menina atravessa os corredores escuros e adentra a loja. Os
manequins na vitrine imitam mulheres esbeltas com poses elegantes, mas suas
roupas já foram levadas há muito tempo. Para sua decepção as estantes estão
vazias e empoeiradas, mas no chão há peças de roupas sujas e pisoteadas, a
maioria descartada pelos vândalos. A menina pega algumas delas, as abana e
descobre vestidos, blusas, saias e casacos. Nos espelhos dos provadores, ela
põe as roupas em frente ao corpo e se admira, distraindo-se ao se imaginar uma
mulher adulta, bonita e indubitavelmente rica.
No
dia seguinte, ela volta ao mesmo lugar para brincar novamente. Ao revirar a
bagunça, ela tem uma maravilhosa surpresa. Debaixo de todo aquele lixo ela
encontra um belíssimo chapéu de sol. Eufórica, ela se aproxima do espelho, se
veste com aquelas roupas e se admira, rindo e fazendo as poses dos manequins.
O
hábito torna-se obsessão. A menina passa a frequentar o shopping todos os dias.
A cada dia ela encontra algo novo. Um óculos de sol quebrado, um par de sapatos
com pés diferentes, bolsas de couro rasgadas, colares, brincos, pulseiras,
anéis... joias deterioradas que mesmo um mendigo rejeitaria.
As
visitas ao shopping a faziam bem. Pela primeira vez nas ruínas ela se sentia
feliz. As meninas, em seu desejo natural de amadurecer antes do tempo, sentem a
necessidade de exibirem suas mudanças, e a filha de Marisa achou um jeito de
satisfazer esse desejo.
A menina
adorava ir brincar no shopping escuro e abandonado. Mas enquanto se distraia e
se admirava, ela não percebia que estava sendo observada.
§
Voltando
ao esconderijo, ela encontra sua mãe em seu estado habitual. Marisa não fala
com ninguém, não deixa seu canto e apenas chora o dia inteiro. Sob os
cobertores, a jornalista vê sua filha chegando e, pela primeira vez em dias,
percebe como a menina está cada vez mais alegre. Como é possível que sua filha
esteja tão feliz enquanto ela chora diariamente pela perda de seu filho nas
mãos daqueles estupradores?
Geralmente
a menina evita conversar com sua mãe, não querendo sofrer outra rejeição, mas
desta vez Marisa se intriga com a mudança repentina em seu comportamento. A menina parece estar usando roupas diferentes.
Em seu bolso ela vê um papel com figuras coloridas. Ela pergunta:
-
Minha filha, o que você tem aí?
Estranhando
ser notada por sua mãe, a menina retira de seu bolso um folder e o dá a Marisa.
- Eu
achei isso em um... lugar perto daqui.
A
jornalista vê um folder de loja de roupas. Há fotos de mulheres vestidas em
roupas caras e elegantes.
- De
que lugar você está falando?
- Um
shopping.
- Um
shopping...?!
A
jornalista se surpreende. Sua filha anda deixando o esconderijo?
-
Sim. Tem uma loja de roupas lá. Uma mais bonita que a outra. Trouxe esse...
“folder”... – é a primeira vez que ela ouve essa palavra – para você.
-
Para mim?!
-
Pensei que se te mostrasse você iria comigo no shopping também. Papai dizia que
íamos juntas quando eu era um bebê. Quando era apenas você e eu. – então a jornalista se enraivece – Podemos ir agora se
quiser! Você vai gostar!
- Eu
não estou entendendo...
A
menina pensa que sua mãe está se interessando e é mais eufórica ao responder.
-
Veja, mamãe! Estou usando essas roupas bonitas também! Quando crescer eu quero
ser bonita igual a você. Aqueles mercadores sempre me diziam como você é
bonita. Te elogiavam sempre! Você acha que eu fico bonita também? O que achou
dessas roupas aqui?
A
menina se exibe inocentemente para sua mãe. Marisa a encara de volta com
desprezo, indignação e crescente ódio. Até que finalmente sua fúria se explode.
A
jornalista se levanta, a puxa pelos cabelos e arranca violentamente aquelas
roupas de sua filha. Os berros e os sons de tapas logo se espalham pelo
esconderijo, assustando os refugiados. Pela primeira vez eles veem a jornalista
dar uma surra terrível em sua filha, provocando gritos perigosos que ecoavam pelas
ruínas.
A
indignação percorre Marisa. Sua filha, em completa indiferença quanto aos horrores
sofridos pela mãe, cita seu falecido marido, os mercadores que tanto a usaram
como prostituta, e seu filho morto e lançado na lama. E o pior de tudo é que
sua filha egoísta não dá a mínima, pensando apenas em si mesma e ignorando a sua
dor.
Ao perceberem que a mulher está completamente
descontrolada, os refugiados intervém e as separam, salvando a criança que
chora incessantemente.
A
partir daí a relação das duas piora ainda mais.
§
Dois
dias se passam. Novamente o grupo ouve gritos vindos do alojamento de Marisa.
Eles se deparam com uma cena que não os surpreende mais. A jornalista parece
estar desequilibrada, ela passa o dia perseguindo sua filha. Mesmo durante a
noite eles não têm paz.
- Foi tudo sua culpa! – grita Marisa.
Está
ficando cada vez mais comum agora. Frustrada e pranteada pela morte do filho
mais novo, ela não consegue superar a lamentável perda e encontra em sua filha,
sua própria filha, um bode expiatório para aliviar sua dor.
A
menina, assustada por outra explosão de fúria de sua mãe, arregala os olhos e
se empalidece.
-
Mas o que eu podia fazer...?!
-
Ter me ajudado! Eu só precisava que você me ajudasse! Eu não conseguia fazer
tudo sozinha! Se não fosse por sua preguiça e irresponsabilidade, meu filho ainda estaria vivo...!
-
Ele estava doente, mamãe! Todos falavam que ele ia morrer...!
Então
Marisa perde o controle e a estapeia no rosto, indignando a todos.
-
Maldita boca que só fala desgraça! Eu devia te dar outra surra agora!
Sentindo
seu rosto arder, a menina tenta abraçar as pernas de sua mãe e pedir perdão.
-
Por favor, mamãe! Me desculpe!
- Se
afaste de mim! Por sua culpa seu irmão morreu na lama como um animal. Devia ser
você ali agora!
-
Não diga isso mamãe...!
Insistente,
ela se agarra mais forte e suas lágrimas molham as pernas de Marisa, comovendo
a todos no grupo. A menina é muito nova para compreender, mas sabe que não pode
suportar a rejeição de sua mãe, ela precisava de seu carinho.
-
Maldita hora em que você nasceu...
Então
todos no grupo se indignam contra ela. Antes que pudessem intervir, a menina se
afasta e, em um furor misto de amor e ódio, grita:
- Eu só queria que você me amasse!
Chorando,
ela corre e se afasta, deixando o esconderijo do grupo para trás.
Alguém
pergunta:
-
Você não exagerou um pouco, Marisa?
- A
morte de um filho é exagero para você?
Outra
pessoa diz:
-
Você não devia oprimir tanto ela. Ela é muito nova e não entendia o que estava
acontecendo.
-
Não me diga como criar minha filha! Eu não gosto de vocês. Nunca gostei. Por
causa de americanos como vocês houve essa maldita guerra! O mundo seria um
lugar melhor se esse país ganancioso, imoral e imperialista fosse destruído
anos atrás...!
Os
peregrinos se ofendem.
-
Nós não começamos a guerra! Os Estados Unidos foram atacados covardemente por
todos os lados. O que fizemos foi nos defender!
Uma
mulher os interrompe.
-
Creio que essa não é a melhor hora para falarmos disso. Marisa, você está
nervosa e precisa se acalmar. O que anda falando para sua filha ultimamente não
deve ser dito a ninguém! Você não pensa no que ela está sentindo agora?
- Já
disse para não se intrometerem na criação da minha filha!
A
jornalista pega algumas pedras do chão e as atira contra o grupo. Timothy é
obrigado a contê-la.
- O
que pensa que está fazendo?!
-
Não ponha suas mãos em mim! Nunca mais ponha suas mãos em mim, você entendeu? –
o professor hesita e se afasta – Vocês todos são os culpados disso tudo. São
culpados por essa guerra e esse inferno! – ela começa a chorar – São os
culpados pela morte do meu filho...
§
A
menina corre, desta vez ela não se importa em ser cuidadosa e avança cegamente
pelas ruas desertas. Lágrimas rolam por seu rosto, ela carrega um fardo pesado
demais. Ela não quer ser o alvo das frustrações de sua mãe. Como todas as
outras meninas de sua idade, ela só quer ser criança.
Parando
em uma esquina, ela se apoia em um poste e ofega, descansando um pouco. Ela não
mais se importa com o frio. Sua única diversão era vestir aquelas roupas
elegantes e sujas, que covardemente arrancadas de seu corpo. Sem poder rir,
brincar e se divertir de novo, a menina ficou triste e vazia. Igual a sua mãe.
Naquela
cidade estranha e desconhecida, ela decide ir ao único lugar que a deixou feliz
em dois anos. O shopping escuro e abandonado.
Ao
passar pela entrada, ela se dirige confiantemente pelo ambiente. Ela já conhece
bem o lugar. Parando em frente à loja de roupas, ela vê um salto alto sem o
outro par jogado no chão. Pegando-o, ela retira seu tênis velho e molhado e o
veste. Há um vestido velho na prateleira. Ela o veste e então se dirige
cambaleando ao provador. Ao se deparar com o espelho, ela vê algo que muito a
entristece.
O
reflexo é frio e cruel. Diferente dos dias anteriores quando ela se divertia
fazendo poses e sorrisos, desta vez ela via apenas a uma menina desarrumada e
feia. As roupas rasgadas, o salto alto sujo e sua face inchada pelo choro
mudaram sua aparência de um dia atrás. Agora ela estava ridícula.
Frustrada
por não mais se divertir, suas pernas se enfraquecem e ela se senta no chão.
Levando suas mãos ao rosto, ela começa a chorar. A brincadeira acabou.
O
reflexo de um homem passa atrás dela e a menina se assusta. Escondendo-se atrás
do balcão, ela lentamente ergue sua cabeça e espia a entrada da loja. O pânico
a domina ao ver alguém com um longo sobretudo preto parado ali. Arrastando-se
até a parede, ela tenta se afastar daquele homem desconhecido. Mas ao ver o
medo nos olhos da menina, o homem tenta acalmá-la.
-
Olá, princesinha! Lembra-se de mim?
A
menina vê a face do homem. Reconhecendo-o, ela diz o seu nome com a dificuldade
que as crianças têm em pronunciar as palavras.
-
Schillinger...
-
Muito bem! Você se lembra!
O
mercador caminha até ela com um sorriso no rosto.
- Vá
embora!
-
Calma! Eu não vou te fazer mal! – ele se intriga com o rosto avermelhado da
menina – Você andou chorando...?
Retirando
um lenço de seu bolso, ele tenta enxugar as lágrimas dela.
- Eu
mandei você ir embora!
-
Ora, não seja mal agradecida. Até se parece com sua mãe! Eu vim aqui para te
ajudar. E pela aparência você precisa muito de ajuda. Está com fome?
Schillinger
se agacha e lhe oferece um chocolate. A menina, faminta por não comer direito
durante dias, arregala os olhos e imediatamente o pega. Ao terminar de comer, o
mercador a oferece outro. Cheia de alegria, ela aceita e come com muita
satisfação.
-
Agora pode me dizer por que está aqui?
Ainda
com medo, a menina responde:
- Eu
vim aqui para brincar.
-
Brincar?! – espanta-se Schillinger – Sozinha nesse lugar abandonado e escuro?
Cadê seus amiguinhos?
- Eu
não tenho amigos. Não há nenhuma criança no grupo. Eu só tenho minha mãe.
Então
o mercador descobre algo importante. Marisa vive com mais pessoas.
- E
onde está esse grupo agora?
- Eu
não vou falar.
-
Por que não? – intriga-se ele.
-
Porque você vai bater nela de novo.
Surpreendido,
o homem sorri. Olhando para as roupas rasgadas e imundas da menina, ele
pergunta:
-
Que vestido lindo você está usando! Onde você o achou?
-
Aqui.
-
Você ficou muito bonita nele. Até se parece com sua mãe.
A
menina se mostra mais receptiva ao ouvir o elogio.
- Eu
sei. É por isso que eu venho aqui. Gosto dessas roupas porque me deixam
parecida com minha mãe.
- E
ela gostou de te ver assim tão chique?
Ela
se entristece e demora a responder.
-
Não... Ela me bateu e me xingou.
- Eu
não entendi. Você ficou tão bonita! Por que ela te bateria por isso? – pergunta
astutamente o mercador.
-
Ela não gosta de mim...
Satisfeito
com a conversa, Schillinger diz:
-
Talvez ela te ache muito nova para brincar com essas roupas... Fingindo ser uma
mulher mais velha. Sabe... eu já tive um filho também. Eu só o deixei brincar
com minhas armas e facas quando tinha oito anos... Nem todo
pai gosta de criar um filho para ser um adulto tão cedo. Particularmente eu
acredito que durante a infância as crianças devem apenas brincar. Não diga que
sua mãe não gosta de você. Ela gosta de você sim! Talvez o que ela não goste
seja ver você brincando com coisas de adulto, você não acha?
Pensativa,
a menina responde:
- Eu
não sei...
-
Você não gosta de brincar com bonecas?
- Eu
não sei...
-
Não sabe?
- Eu
não me lembro. A última vez que brinquei foi quando papai morreu.
O
mercador finge se consternar.
-
Tive uma ideia! Eu achei uma loja de brinquedos lá embaixo. A maioria não foi
saqueada. Que tal a gente ir lá agora e brincar um pouco?
A
menina tem medo.
- Ir
lá embaixo?
-
Sim! Você vai gostar! Venha, eu te dou outro chocolate.
Schillinger
lhe oferece a mão. A menina é relutante no início mas aceita.
Ela
se levanta e os dois deixam a velha loja de roupas. Enquanto caminham, ela
percebe que o mercador anda com dificuldade. O tiro que Marisa lhe deu feriu
permanentemente sua perna e o deixou manco para sempre. Um baixo preço a se
pagar depois de tudo o que ele fez.
Ao
sair, ela tem outro susto. Há mais mercadores no lado de fora. Cinco no total e
dois deles ela reconhece.
-
Nossa! Como você cresceu!
Wayne
sorri, exibindo seus dentes amarelados. Ao seu lado Barney sorri também,
fazendo um olhar de carinho. A menina recua.
-
Está tudo bem! Eles estão comigo e não vão te fazer mal. Vamos à frente. Não se
incomode com esses bobalhões.
Ela
nota que Wayne manca também. Ao olhar bem para sua perna, a menina percebe que
é uma perna falsa e se move de um jeito estranho.
-
Oh, não se preocupe com minha perna. – diz Wayne ao perceber sua indagação – É
uma perna mecânica. Perdi minha verdadeira perna depois que sua mãe... bem...
depois que ela me aleijou. Mas estou me adaptando bem a essa aqui. O último
dono não vai mais precisar dela... Nunca
mais.
Ao
chegarem à loja de brinquedos, três mercadores ficam na entrada e fazem vigia.
Wayne e Barney acompanham Schillinger e a menina segue inocentemente o líder até
o local indicado entre as prateleiras.
De
repente ela sente medo. Olhando ao redor, ela percebe que está cercada por
aqueles homens que a encaram com um olhar estranho. Segundos se passam até que
o líder quebra o terrível silêncio, dizendo:
- Os
brinquedos... Me esqueci dos brinquedos... – revirando as prateleiras, ele
apanha algumas caixas e as mostra à menina – Aqui estão. Veja! Essas bonecas
nunca foram retiradas da caixa. Estão novinhas!
Realmente
há muitos brinquedos ali. Há caixas de bonecas em toda parte, cobertas por uma
camada grossa de poeira, mas totalmente limpas por dentro. Há tantos tamanhos,
marcas e modelos que a menina parece se perder em alegria. Abrindo uma a uma,
ela vê uma boneca mais linda que a outra, de cabelos longos, curtos e das mais
variadas cores. A menina se mostra feliz e o líder dos mercadores fica feliz
também.
Sentando
de pernas cruzadas no chão, Schillinger e a menina começam a brincar com os
novos brinquedos. Ambos alteram suas vozes para dar vida às bonecas em suas
mãos. Eles simulam tomar chá juntos e sair para fazer compras.
Logo
Barney e Wayne se juntam à brincadeira também, e os quatro brincam juntos no
chão da loja, divertindo-se alegremente uns com os outros.
§
O
anoitecer se aproxima. Os mercadores se aproximam do líder e o informam que é
hora de partir. Levantando-se, ele diz:
-
Bem, é hora de ir embora. – a menina se mostra desapontada – Ei! Não fique
assim! Tome, fique com as bonecas para você brincar no seu abrigo.
Hesitando,
ela responde:
- Eu
não posso levar. Se minha mãe ver, vai saber que eu voltei aqui e vai me bater
de novo.
- A
sua mãe é tão ruim assim com você?
Lágrimas
se formam nos olhos dela.
-
Sim.
Compreensivo,
ele diz:
-
Vamos fazer o seguinte: amanhã você volta aqui e estaremos te esperando para
brincar de novo. O que acha?
-
Está bem! – responde ela, alegremente.
-
Então está combinado. É melhor voltar agora, princesinha. Daqui a pouco vai
anoitecer.
Eles
se despedem e ela corre até a saída do shopping. Logo atrás, o líder a observa
com astúcia. Barney se aproxima e pergunta:
-
Vamos segui-la?
-
Não. Não há necessidade.
-
Por que não?
-
Ela vai voltar.
-
Tem certeza do que está dizendo?
Calmamente
ele responde:
-
Confie em mim.
A
menina corre euforicamente pelas ruínas. Nada a preocupa mais. Depois de tanto
tempo naquela cidade deserta, por que se esconder? Ao chegar no esconderijo, o
grupo respira aliviado e todos fazem comentários maldosos entre si. Marisa e
sua filha estavam se tornando um problema.
Ao
se deparar com sua mãe, a jornalista avança contra ela e novamente a puxa pelos
cabelos. O espancamento começa de novo e o grupo é obrigado a contê-la antes
que a gritaria aconteça. Nas ruínas, o silêncio significa a vida e a morte.
O
grupo está cansado daquela rotina de violência e preocupação. Timothy é
pressionado a bani-la, mas é incapaz de fazer isso. Ele não pode abandonar uma
mulher e uma menina sozinhas. Seria a mais cruel e insensível loucura! Ele
explica o que o grupo sabe muito bem, no que as mulheres se tornam quando são
capturadas por saqueadores, mas seus argumentos perdem a força diante de tantas
reclamações. O professor não tinha mais escolha.
O
novo dia amanhece. O sono dos refugiados foi um tormento devido ao choro da
menina e as lamentações de sua mãe. Timothy se aproxima do alojamento de
Marisa. O grupo segue atrás dele como aqueles camponeses da Idade Média com
tochas exigindo punição. A jornalista acorda e se assusta ao ver todos ali, mas
o susto maior vem depois. Onde está a menina?
Chegando
bem cedo ao shopping, ela aguarda ansiosamente a chegada de seus novos amigos.
Os mercadores aparecem algumas horas depois, mas ela não se importa com o
atraso. Nada é mais horrível do que ficar naquele esconderijo com sua mãe.
Eles
passam o dia brincando novamente. O sorriso inocente e alegre da menina parece
contagiar o ambiente. Os mercadores, homens embrutecidos e impiedosos que
predam sobre os mais fracos, se intrigam ao sentirem tanta afeição pela filha
de Marisa. Seu coração puro e inocente é capaz de quebrantar a perversidade
daqueles homens. Nela eles viam bondade e esperança, algo que não mais existia.
Ao
fim do dia, eles se despedem e os mercadores vão embora. Antes de partir,
Schillinger lhe dá de presente um pacote de biscoitos e uma garrafa d’água. Ele
faz isso secretamente e gesticula colocando o dedo nos lábios, pedindo para que
ela não conte a ninguém.
De
volta ao esconderijo, os refugiados já sabem o que vai acontecer e se preparam
para conter outro espetáculo de violência. Aquela rotina estava cansando-os. O
limite havia chegado. Ao confrontarem Timothy, ele é devidamente avisado. Se
ele não fizesse algo, sofreria as consequências também. Desta vez a ameaça
incluía o professor.
Com
o novo amanhecer há outro sumiço da menina. Ao procurar pelo abrigo eles não a
encontram em lugar algum. A jornalista fica histérica e vocifera de ódio,
irritando-os.
A
menina retorna ao esconderijo no fim da tarde, como de costume. Todos notam
como ela está bem humorada. Mas sua mãe a recebe com mais maus tratos. Marisa
estava exagerando em suas agressões. Hematomas apareciam no corpo inteiro de
sua filha.
O
terceiro dia chega e a menina deixa o abrigo. Chegando cedo ao shopping, ela
espera pelos mercadores e eles passam novamente o dia juntos. Agora a menina é
amiga de todos eles. Antes que anoiteça, ela se despede e finge ir embora. Ao
vê-los partir, ela retorna ao shopping e se abriga sob algumas caixas de
papelão, preparando-se para passar a noite ali mesmo e assim evitando voltar
para sua mãe.
No
esconderijo, a jornalista se descontrola em preocupação por sua filha. Ela
insiste a noite toda em ir atrás dela, incomodando-os. O professor tenta
convencê-la a sair só quando amanhecesse, o que custou a noite de sono de todo
o grupo.
No
dia seguinte, os refugiados cercam o professor e então dizem:
-
Não queremos mais essa mulher aqui! Você a aceitou entre nós! Agora você se livra dela!
-
Mas e quanto à menina?
-
Ela tem a louca da mãe! As duas que cuidem uma da outra!
- Eu
não posso dispensa-la! Ela seguirá a nós! – responde ele, tentando ganhar
tempo.
-
Não, não vai! Eu baterei em sua cabeça com isso aqui. – então ele vê um bastão
de madeira na mão de um homem.
-
Timothy! – grita alguém atrás de si.
O
professor vê a jornalista.
-
Marisa? O que foi?
- Eu
vou atrás da minha filha.
-
Você ao menos sabe aonde ela foi?
-
Ela mencionou um shopping dias atrás. Vou procurar esse lugar.
A
jornalista se prepara para sair. Um dos refugiados sussurra para o professor:
-
Esta é a nossa chance! Deixe-a que vá! Quando voltar não estaremos mais aqui.
Todos
concordam com a ideia. Interrompendo-os, ele responde:
-
Vocês estão loucos?! Vão deixar uma mulher e sua filha para trás?!
- Já
está decidido, Timothy! Esta mulher vai por bem ou por mal!
-
Então eu peço uma última coisa. – ele respira fundo e continua – Deixem-me ir
com ela para procurar a menina. Quero me certificar de que Marisa e sua filha
estarão bem, então façam o que quiser com elas.
-
Vai arriscar sua vida para trazer uma menina que a própria mãe rejeitou?
-
Sim. Esperem até que eu volte. É tudo o que peço.
O
grupo pondera e então aceita. Mas a Timothy é dado um prazo. Um dia, apenas um
dia e então todos vão embora com ou sem ele.
§
A
jornalista corre à sua frente, forçando Timothy a pedir que vá mais devagar. A
determinação em encontrar sua filha a deixa descuidada, ela nem mesmo se
esconde em áreas abertas, ela simplesmente passa correndo no meio das avenidas
e dos viadutos, deixando os instintos tomarem conta de si.
Há
muitas placas de trânsito nas calçadas, mas algumas estão tão enferrujadas que
parece que a guerra aconteceu cem anos atrás. Praças desertas, com suas árvores
moribundas, aparecem em seu caminho. Os carros abandonados têm vegetação
crescendo sobre eles. Há pilhas de escombros obstruindo vias inteiras. Olhando
ao redor eles tristemente percebem. Os dois estavam perdidos.
O
professor tenta falar com ela mas ela o ignora, apenas olhando para os lados
tentando achar outro caminho. Então Marisa vê um prédio diferente entre as
ruínas, com cores mais alegres e fachada espelhada. É o shopping onde sua filha
está. Sem esperar por Timothy, ela escala as enormes pilhas de entulho e
continua sua corrida. O professor grita:
-
Espere, Marisa! Os escombros são instáveis!
Com
grande agilidade, ela continua escalando uma por uma. As pedras rolam
perigosamente sob eles, demonstrando que tudo aquilo pode ruir e soterra-los
para sempre.
As
pilhas de entulho escondem radiação. Timothy começa a sentir dor de cabeça e
tontura. A jornalista está muito a frente, ele não consegue mais alcançá-la.
Durante várias vezes ele a pede para ir mais devagar, sem resposta. De repente
seu pé pisa em uma pedra solta e ele tropeça, caindo e rolando pilha abaixo.
Sua cabeça bate no duro asfalto e ele imediatamente desmaia.
Marisa
chega ao prédio e vê que realmente é um shopping conforme imaginado. Ao correr
para o local, ela vê a porta de entrada arrombada com cacos de vidro no chão. O
interior está escuro. Os mezaninos, as escadas rolantes, os revestimentos e os
bancos foram todos deteriorados pelo tempo. No telhado de vidro acima ela vê as
aves pousarem nas enferrujadas estruturas de aço.
Passando
pelos sacos de lixo e outros detritos, ela se aproxima das antigas lojas e
tenta encontrar sua filha. Tudo foi saqueado, o que sobrou está espalhado pelos
cantos. Agora as lojas estão sujas e vazias, protegidas pela tenebrosa
escuridão. Enquanto avança pelo lugar, ela não ouve um único ruído. Então ela
tem a atitude mais imprudente de sua vida.
A
jornalista enche os pulmões e grita o mais alto que pode, chamando pela menina.
Os ecos percorrem os salões vazios e as lojas escuras. Chamando mais uma vez,
não há resposta. Ela repete o grito várias e várias vezes, tentando bravamente
encontrar a menina.
Avançando
pelo piso térreo, ela encontra uma loja de brinquedos. Como todas as outras
lojas, as portas foram arrombadas e as vitrines quebradas. Marisa percebe que
algumas prateleiras não foram saqueadas, os brinquedos não tinham tanta
validade quando os vândalos procuravam por água e comida. Pensando que sua
filha podia estar escondida lá dentro, ela a chama. Também não há resposta.
Desistindo, ela se vira e retoma sua busca. Até que o susto a estremece por
dentro.
Há
seis mercadores parados atrás dela. Um deles segura uma menina pelos ombros. Ao
reconhecer sua filha, imediatamente ela grita e tenta arrancá-la das mãos
daquele homem. Os mercadores erguem suas armas, fazendo-a se recuar. O homem
que segura sua filha tira seu capuz e então ela tem uma horrorosa surpresa.
-
Schillinger!
-
Oi, latina. Sentiu minha falta?
Então
outros dois mercadores tiram seus capuzes e se revelam também.
-
Olá, latina! Pensou que poderia fugir de nós depois do que fez? Iríamos até ao
inferno para te achar. – diz Wayne
Barney
olha para o corpo da jornalista e diz:
-
Você continua deliciosa... - e então ele lambe os lábios vulgarmente.
- Me
devolva minha filha!
-
Ora, mas que falta de consideração é essa? Estivemos te procurando por tanto
tempo! Seria justo se conversássemos um pouco.
-
Veja o que você fez comigo, sua latina vagabunda! – Wayne ergue a barra de sua
calça e exibe sua perna falsa – Não vai me pedir desculpas?
-
Ele está certo. Aquele tiro que você me deu feriu meus sentimentos. Foi muito
doloroso tirar aquela bala da minha perna. Wayne não teve a mesma sorte.
-
Vocês me usaram e me estupraram! – protesta Marisa – Brincaram com a vida do
meu filho!
- Eu
não vejo assim. – responde Schillinger – Você quis os remédios e pagou
devidamente por eles. Não era nossa culpa se seu filho estava doente. Aliás,
você devia saber que não há cura para a radiação.
Ignorando
essa verdade, ela diz:
-
Vocês lançaram meu filho na lama... Meu filho... meu único filho...
A
jornalista começa a chorar. Os mercadores se entreolham.
-
Único filho? Eu não entendi. Você tem a essa linda menina também.
Mas
Marisa o ignora. A menina fica triste ao não ver reação alguma de sua mãe.
Indefesa
perante aqueles homens, a jornalista pergunta:
- O
que vocês vão fazer comigo?
-
Vamos te levar de volta, é claro. Mas antes devo dizer que meus homens se
sentiram muito sozinhos enquanto te procuravam. Acho que eles merecem uma... compensação.
Com
perversidade e ódio em seus semblantes, os mercadores se aproximam dela. Um
deles se agacha ao lado da menina e diz:
-
Princesinha, por que você não vai brincar um pouco enquanto conversamos com sua
mãe?
Os
mercadores agarram Marisa e a espancam, fazendo-a cair no chão. Enquanto está
caída, eles a chutam e a pisoteiam, fazendo-a gritar e se defender inutilmente.
Então Schillinger tira suas roupas velhas e imundas. Wayne e Barney arrancam seus
casacos, deixando-a nua na parte de cima. Os outros três tiram sua calça com
tanta violência que a rasgam.
Revezando-se
entre si, os mercadores começam a estuprá-la. Enquanto tenta se livrar, Marisa
grita até sua voz ficar rouca. Alguns tentam beijá-la, outros a xingam e outros
a batem, humilhando-a em seu abuso.
É
chegada a vez de Wayne. Cheio de ódio e desprezo, ele diz:
-
Você me deixou aleijado, latina maldita...! Se não fosse por Schillinger, eu te
foderia com isso.
O
mercador exibe um canivete retrátil. Diante de seu rosto ele o aciona, fazendo
a lâmina se deslizar em um piscar de olhos. Ele a estupra com veemência. Com o
canivete ele risca o rosto dela, fazendo um pequeno corte.
Sacando
sua pistola, Wayne olha para Marisa e diz:
-
Vamos, chupe-a!
Ele tenta
forçar a ponta de sua arma em sua boca, mas a jornalista a evita virando
constantemente o rosto. Após tentar várias vezes sem sucesso, ele se enfurece e
bate em sua cabeça com o cabo de sua arma. Batendo repetidamente, sangue começa
a surgir entre seus cabelos. O líder é obrigado a contê-lo.
De
repente Marisa amolece em seus braços. Os mercadores se assustam. Schillinger
dá tapinhas no rosto dela, mas não há reação. A jornalista perdeu a consciência
e um rastro de sangue e lágrimas desce por seu rosto.
Alguns
segundos de preocupação se passam e então Barney pergunta:
-
Ela está morta...?
Checando
seu pulso, eles tentam se certificar se o coração dela ainda está batendo. Mas
nenhum deles tem muito conhecimento nisso.
-
Acho que o coração dela está batendo... Mas está muito devagar. – diz um
mercador.
Para
Schillinger, ela está à beira da morte. Ele tenta ouvir o coração dela e diz:
-
Latina... Ei, latina...!
A
jornalista não se mexe. Os mercadores não sabem o que fazer. Todos pensam que
ela sofreu um traumatismo craniano e está presumivelmente morta.
Olhando
para o líder, eles perguntam:
- O
que vamos fazer agora?
Schillinger
demora a responder. Ele está pensativo e confuso.
-
Não há mais nada o que fazer. – então todos se entreolham – Vamos dar o fora
daqui.
Levantando-se,
eles sobem suas calças e vestem seus sobretudos. Olhando para o corpo imóvel de
Marisa, eles se afastam e a deixam deitada ali, de braços e pernas abertos e
totalmente despida.
Atravessando
os salões vazios e deixando o shopping, eles ouvem sons de passos ecoarem na
escuridão. Olhando para trás, eles veem que a menina está ajoelhada sobre o
corpo da mãe. Barney então pergunta:
- Ei,
chefe. E quanto a menina?
Sabendo
que não pode confiar nas intenções dos mercadores, Schillinger responde:
-
Deixe-a aí. Não é problema nosso.
Os
mercadores continuam e deixam o shopping para trás.
A
menina está ao lado de sua mãe. Desacordada no chão, a menina acaricia seu
rosto. Ela também está confusa e inúmeras coisas passam por sua cabeça. Sua mãe
está ali, nua e sangrando. Estaria ela morta? Se não estiver, certamente está
com frio. Pegando o casaco de sua mãe, a menina tenta vesti-la quando ouve um
sussurro. Sua mãe está viva!
A
jornalista abre os olhos. Desnorteada e cheia de dores, ela se assusta ao ver
sua filha ao lado dela. Em prantos, ela engasga e diz com dificuldade:
-
Minha filha...?!
A
menina se assusta e se levanta. Antes que sua mãe possa dizer mais alguma
coisa, a menina tem uma explosão de adrenalina e corre, deixando o local.
Schillinger
e os mercadores caminham pelas ruas. Empunhando suas armas, eles olham
atentamente para os prédios abandonados, acautelando-se dos inúmeros perigos que
as ruínas escondem. Então o líder sente alguém puxar seu sobretudo, fazendo-o
se virar imediatamente e apontar sua arma para a cabeça de quem o puxou.
-
Você?!
Os
mercadores se viram e também se espantam. Com a ponta da arma entre seus olhos,
a menina olha de volta para eles. Pela aparência dela, ela está assustada e com
frio. O sangue de sua mãe mancha suas mãos.
-
Você me leva com vocês? – pergunta ela, inocentemente.
- Te
levar conosco? Mas por quê?
- Eu
estou com medo.
Todos
percebem que ela está sozinha e assustada. Eles se apiedam dela. Mas o líder
ainda está curioso quanto a um antigo assunto.
- E
quanto à sua mãe? Ela morreu?
Sem
pensar duas vezes, ela responde:
-
Sim.
Então
os mercadores sentem compaixão da pobre menina. Por fim, Schillinger pergunta:
-
Qual é o seu nome, menininha?
Em
tom infantil, ela responde:
-
Nicole.
O
líder sorri. Estendendo seu braço, ele lhe oferece sua mão. A menina a segura e
então os dois caminham juntos pelas ruínas, indo de volta para casa.
§
Timothy
acorda. Sua cabeça dói e há sangue escorrendo de sua testa. Olhando ao redor,
ele vê a rua e a pilha de entulho atrás de si. Marisa não está em lugar algum.
Sem saber por quanto tempo esteve desmaiado, ele
se levanta e tenta se lembrar do que estava fazendo. Ele vê o prédio do qual a
jornalista comentou. Decidido a encontrá-la, ele se dirige para lá também.
Ele
adentra o antigo shopping. Ainda desnorteado, ele caminha segurando-se nas
paredes e nos pilares. O lugar está arruinado e escuro. O professor duvida
seriamente que uma menina de seis anos pôde frequentar um lugar tão assustador
quanto aquele.
De
repente ele ouve gritos. Escondendo-se, ele nota que os gritos vêm do interior
do prédio. São gritos femininos. “Marisa!” pensa ele.
Subindo
pelas escadas rolantes, ele se agacha atrás do peitoril do mezanino e segue em
direção à origem dos gritos. Agora ele pode ouvir vozes de homens também.
Preocupado, ele se pergunta se algum saqueador a encontrou.
Chegando
ao local, ele ergue sua cabeça e olha para baixo. No piso abaixo ele vê seis
homens vestidos com sobretudos pretos segurarem e espancarem Marisa. São
mercadores. De repente eles tiram suas roupas e começam a estuprá-la. Timothy
se horroriza, arregalando os olhos e levando sua mão à sua boca.
Dentro
de uma loja, o professor também avista alguém atrás de um balcão. É a filha da
jornalista, escondida enquanto observa aqueles homens cruéis estuprarem sua
mãe. O professor se sente impotente. Ele vê tudo aquilo e não pode fazer nada.
Um
dos homens se descontrola e espanca repetidamente Marisa, fazendo-a desmaiar.
Os mercadores interrompem aquela terrível violência e conversam um pouco entre
si. O professor não consegue ouvi-los, mas eles parecem estar muito
preocupados. Alguns minutos se passam e eles se vestem e vão embora, deixando a
jornalista para trás.
Timothy
está em choque e não consegue se mover. Antes que pudesse fazer algo, ele vê a
menina se aproximar de sua mãe e se agachar ao lado dela. Ela parece estar
chorando e isto muito o comove. Os mercadores também a veem, mas não se
importam e continuam em seu caminho, aliviando o professor.
Quando
ele pensa que o local está seguro novamente, ele se levanta e decide ir atrás
da menina. Mas o professor se assusta ao vê-la se levantar de repente e deixar
o local.
O
professor chega até Marisa e a encontra deitada de braços e pernas abertas no
chão. Ela está completamente nua e isso o deixa desconfortável. Agachando-se ao
seu lado, ele a cobre com seu casaco e se felicita ao ver que ela ainda está
viva. O rosto ferido de Marisa tem hematomas horríveis. Ela sussurra algo para
Timothy:
-
Minha filha... Onde está minha filha...?
-
Acalme-se, Marisa. Sua filha estava aqui agora há pouco.
Ainda
ofegante, ela continua:
-
Onde está ela agora?
- Eu
não sei.
Apesar
da enorme dor, a jornalista se levanta e deixa o casaco cair, ficando nua
novamente. Ela tenta caminhar até a saída.
-
Espere! O que você está fazendo?
-
Tenho que buscar minha filha...
- Eu
vou atrás dela depois, se quiser! Você não pode sair assim! Por favor, vista
suas roupas!
Timothy
a segura pelo braço, assustando-a. Em um impulso, a jornalista violentamente o
estapeia no rosto, produzindo um eco pelo salão.
- Já
disse para nunca mais pôr as mãos em mim!
Pegando
suas roupas do chão, Marisa se veste lentamente. A ferida em sua cabeça ainda
sangra, mas ela não se importa. Constrangido pela segunda vez, Timothy se sente
incapaz de ajudá-la de novo. Desta vez ele está triste, triste pela ingratidão
da mulher e triste por ela maltratá-lo após toda a ajuda que ele prestou.
Enquanto
a jornalista se prepara para sair, ele pergunta:
- O
que você vai fazer agora?
-
Vou buscar a minha filha.
Ela
se dirige até a saída. O professor a avisa:
-
Desta vez eu não vou ajudá-la, está me ouvindo? – Marisa sequer olha para ele –
Você está me ouvindo?
Ignorando-o,
ela continua sua caminhada e deixa o local, desaparecendo-se nas ruínas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário