terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 31 - A Arquiteta II


(Imagem de John Pope)

A Arquiteta

Rachel intriga-se com o professor. Por ser uma mulher muito bonita, ela se habituou com inúmeros homens cortejando-a constantemente. Mas Timothy é diferente. Ele é um homem determinado, corajoso e perseverante como todo bom líder. Com a arquiteta ele sempre se mostrava atencioso, preocupado, simpático, mas acima de tudo... indiferente. Em todas as vezes em que os dois conversavam, ele nunca a admirou, nem mesmo a elogiou como tantos faziam normalmente.
Teria Rachel ficado feia? Certamente que não, afinal os outros homens do grupo a observavam sempre. Ela percebia isso quando arrumava seus longos cabelos negros e exibia seu fino pescoço. Ao passar por eles, sua visão periférica, típica de mulher, captava a todos. Então por que Timothy não a notava?
O professor estava sempre sentado em um canto escrevendo em seus cadernos. Algumas pessoas o interrompiam para falar algo importante ou conversar, às vezes ele saía para vigiar as imediações, mas sempre estava ali, sentando em algum canto afastado e escrevendo. Isto a deixava totalmente frustrada e nem ela sabia por quê.
Rachel já foi estuprada várias vezes por vários homens diferentes. Homens que em tempos passados a cobiçavam, hoje a possuíam à força. Em mulheres frágeis a beleza, a sedução e a sensualidade desvaneceriam. Poucas seriam capazes de superar o trauma. Mas a arquiteta passou por tudo isso e nada mudou. Ela ainda sente a necessidade de chamar a atenção e curiosamente intriga-se com o único homem que a despreza.
Homens e mulheres nunca mudaram, afinal. Nunca mudarão. Tratando-se de sexo por prazer ou procriação, todos são animais. A diferença é que humanos sabem resolver problemas complexos de matemática.
A arquiteta se aproxima do professor. Ele está encurvado, escrevendo em seu caderno sobre seus joelhos. Há páginas e páginas escritas, Rachel nunca viu alguém escrever tanto. Ela vê aquilo como uma forma de reclusão, um refúgio que Timothy encontrou para se aliviar de uma realidade opressiva.
Sentando-se sobre um pneu, ela pergunta:
- Olá Tim. O que está fazendo?
Ela mira seus olhos azuis para ele, analisando cada expressão com seu olhar felino. Timothy lhe devolve um olhar abatido, amargurado e sem motivos para ser gentil.
- Desculpe. Agora eu preciso ficar sozinho.
Rachel se assusta. Como ele se atreve a esnobá-la?
- Algum problema? – insiste ela.
Controlando-se para responder, ele passa as mãos em seu rosto.
- Faz quatro meses, ou pelo menos eu acho que foram quatro meses. É difícil dizer...
- O que aconteceu há três meses?  
- Há três meses ela se foi... – e então ele se desaba em lágrimas – Lucy...
A arquiteta não entende. Timothy sofria por alguém que já podia estar morta.
- O que aconteceu com Lucy?
O professor lhe explica o que aconteceu no acampamento dos saqueadores. Ele descreve como sua esposa foi raptada, nunca mais a vendo desde então. O professor fala sobre sua promessa de reencontrá-la, mas após tanto tempo ele se recusa a acreditar que ela pode não estar mais viva. Rachel mostra interesse em sua esposa. Timothy lhe fala tudo o que aconteceu, desde o primeiro ataque quando os Estados Unidos, como suas filhas morreram e como se tornou o líder.
Rachel viu muitas coisas horríveis desde que se juntou ao grupo do professor. Alguns integrantes do grupo, pessoas que Timothy considerava seus amigos, se foram das mais diversas maneiras. Em alguns casos foi tão surpreendente que ela se esforça a acreditar. Apesar da arquiteta também ter vivido situações deploráveis, ela se pergunta como aquele homem consegue segurar tanta responsabilidade sozinho.
Os dois conversam sobre suas vidas e Timothy lhe revela sua agonia. Rachel sente muita pena dele, o professor vive em uma ilusão que o mantém vivo e disposto a seguir em frente. E essa ilusão chama-se Lucy. Em meio a tantas lamentações e falsas esperanças, a arquiteta só consegue enxergar um homem solitário que perdeu tudo.
O que era para ser um jogo de sedução feminino acaba se tornando uma grande amizade. Os dias se passam e os dois ficam sempre juntos. Longe de ser como Harold, que o acompanhava em suas perigosas incursões pelas ruínas, Rachel sempre estava ao seu lado, ouvindo-o quando ele queria se abrir. Antes da guerra a arquiteta era bem seletiva quanto a amizades com homens, pois todos a cobiçavam, mas com Timothy não havia a necessidade de ser defensiva. Ele ama Lucy. Ele só quer alguém para conversar.
O mundo mudou muito rápido e Rachel está se adaptando a essa mudança.
Algumas semanas depois a arquiteta sente a primeira consequência da liberdade. Há uma famosa frase de Freud que diz: “A maioria das pessoas não quer realmente a liberdade, pois a liberdade envolve responsabilidade e a maioria das pessoas tem medo da responsabilidade”. É exatamente como Rachel se sente.
Diariamente o grupo tem que procurar água e alimentos. A escassez de mantimentos básicos é severa e mesmo a higiene é um problema. Os peregrinos estão emagrecendo, adoecendo e alguns cheiram muito mal, tendo suas roupas encardidas com sua própria imundície. Rachel sabe que aquelas pessoas são bem instruídas e tinham vidas confortáveis antes da guerra, mas hoje se parecem com simples mendigos.
Muitos foram os dias em que eles tiveram de beber água suja, empoçadas no piso empoeirado. Ás vezes não havia comida e muitos mastigavam a vegetação que crescia nas ruas. Não foram poucas as vezes em que Rachel viu a mesquinhez e o egoísmo naqueles peregrinos. Eles escondiam seus alimentos e recusavam-se a dividi-los, e ironicamente aquele grupo era baseado na ideia de que tudo deveria ser compartilhado para o bem comum. Água, comida e remédios, tudo era escondido entre si, não importava quem estivesse faminto, sedento ou coberto de doenças.
O egoísmo sempre foi maior do que o amor ao próximo, se é que esse amor já existiu.
A arquiteta se enche de amargura. Vivendo no cativeiro dos caçadores, sendo violentada por inúmeros homens, ela desejava a liberdade constantemente. Mas havia uma mórbida vantagem naquilo. Apesar da violência sexual e do canibalismo, ela tinha um abrigo, água e comida, diferente do grupo do professor que não tem água, comida e muito menos um abrigo. Com os caçadores ela podia sobreviver, com o professor ela teria uma morte lenta e agonizante, talvez por fome ou doença. Resistindo a reconhecer, ela se pergunta: “Estaria aquela mulher certa, afinal?”. A mulher escolheu ficar, vivendo como escrava. Rachel escolheu fugir, desejando a liberdade. Lamentando-se, ela encara as terríveis consequências de sua decisão. O custo da liberdade foi alto demais.
Dormindo em uma casa abandonada, usando jornais velhos para se aquecer, a arquiteta sonha com Brad. Seu amante a abandonou pouco tempo antes do mundo acabar. Ela não fazia ideia de onde ele estava, nem mesmo se sobreviveu ao impacto das bombas. Rachel o amava mais do que tudo, mais do que sua própria família. Mas como todo amor não correspondido, a ferida da rejeição deixou uma cicatriz sensível que insistia em sangrar, mesmo após tanto tempo vivendo em um mundo arrasado pela radiação. Acordando no escuro, ela se sente frágil e impotente, as lembranças são muito fortes.
Ela pensa em procurar por Brad, partindo no meio da noite e aventurando-se nas ruínas. Mas as ruínas são o mais próximo do inferno hoje. Ninguém é tolo o bastante para caminhar por elas sozinho, especialmente se for uma mulher. Se Brad morreu durante os ataques, sorte sua, mas se sobreviveu e está em algum lugar lá fora, não é exagero imaginar todo o tipo de horror que pode ter acontecido a ele. Por outro lado, há outro motivo plausível para não partir. Não querendo ser como o professor, Rachel não quer perseguir uma sombra.
Porém, há alguém que não é uma sombra. A arquiteta lembra-se de Lloyd, o rústico homem líder dos caçadores. Lloyd e Brad são parecidos e igualmente atraentes a Rachel. Para uma mulher que baseou sua vida no amor, ela fará de tudo para garantir que continue assim.
Não demorará muito para amanhecer, mas ela não quer esperar. Caminhando entre os sonolentos peregrinos, ela atravessa a casa e dirige-se à saída. Ela passa pela porta do porão e nota que há uma luz amarelada lá embaixo. Curiosa demais para ignorar, ela desce os degraus, segurando no corrimão enferrujado na parede. Ao chegar ao porão, ela encontra o professor sentado sobre um caixote e escrevendo em seu caderno sobre a mesa. Há um lampião ao seu lado, a origem daquela luz.
- Timothy?
O professor se assusta. Na luz fraca do lampião, ela percebe que ele estava chorando.
- Rachel? O que está fazendo acordada?
- Eu... – ela hesita – Não quis incomodá-lo, Tim.
- Não está. Eu estou sem sono, também. É difícil dormir com tantas preocupações. – responde ele, sorrindo no final.
A arquiteta se intriga e o pergunta com indignação:
- Como você consegue, Tim?
Arregalando os olhos, ele se assusta com a aspereza de Rachel.
- Do que está falando...?
- Como você se suporta? Como consegue não enlouquecer com essa escória lá em cima? Esse grupo não compartilha de seus ideais. Eles são mesquinhos, egoístas, covardes e hipócritas. Não estão juntos para sobreviver juntos, eles estão juntos para se parasitarem um dos outros. Eles se usam para se proteger e se salvarem, usando a si mesmo como escudo. Eles se roubam e mentem, criando intrigas. Não sei se você se engana ou simplesmente ignora, mas eles não se auxiliam. É cada um por si. A diferença é que eles são muito covardes para abandonar o grupo e peregrinarem sozinhos.
Timothy está chocado com o que ela disse.
- Mas, Rachel... Por que isso agora?
- Eu agradeço que tenha me recebido, Timothy. Inclusive agradeço o que o grupo fez por mim. Mas não vou mais viver desse jeito. Certa vez uma mulher muito corajosa me falou algo que me deixou espantada, mas finalmente abri meus olhos e percebi a verdade.
O professor sabe que Rachel refere-se à escrava do acampamento dos caçadores. A arquiteta falava muito sobre ela.
- O que foi que ela disse?
- Eu não posso dizer. Não posso correr o risco de você ir atrás de mim e acabar morto. Além disso, você não entenderia. – Ela respira fundo e continua – Você é um homem valoroso, Tim. Talvez a melhor pessoa que eu já conheci. Mas é uma pena que os seus valores... não sejam mais compatíveis com esse mundo.
Timothy entende o que ela quer dizer.
- Rachel, não deixe o mundo mudar você. Nós não somos iguais a esses assassinos aí fora. Não se conforme a eles, não perca sua alma na mão desses animais...
A arquiteta ouve tudo aquilo balançando negativamente a cabeça.
- Adeus, Tim. – responde ela, interrompendo-o – Desejo do fundo de meu coração que você fique bem.
Lágrimas se escorrem dos olhos de Rachel. Ela se vira e começa a subir a escada. O professor se levanta e, antes dele chamá-la, ela volta correndo e o abraça, soluçando enquanto chora em seu pescoço.
- Rachel... – sussurra ele, profundamente comovido.

§

Amanhece nas ruínas. Os dourados raios de sol penetram as nuvens e são “filtrados”, iluminando o dia com uma luz prateada entre a fumaça. A arquiteta caminha sozinha pelas ruas cobertas de entulho. Ao olhar para os lados ela vê o que sobrou da cidade, prédios com mais de vinte andares semidestruídos e queimados.
A solidão e o abandono são onipresentes nas ruínas. Rachel pode senti-los ao olhar para o interior das casas. A arquiteta trabalhou para tornar as edificações mais alegres e convidativas, mas hoje ela vê que o trabalho de sua vida se mostrou inútil. A aparência da cidade é totalmente depressiva. As cores, as curvas e as formas foram absorvidas completamente pela poeira cinzenta do inverno nuclear.
Avançando pelas ruas, ela sente fome. Olhando ao redor, ela vê apenas a sequidão empoeirada das ruínas, sem comida ou água. Rachel se sente em um deserto, sozinha e perdida entre as “dunas” de entulho e aço. Ela se pergunta se tomou o caminho certo. Faz muito tempo que ela passou por ali e memorizar um trajeto tão longo é quase impossível. Com certeza era muito mais fácil quando ela dirigia seu carro com um aparelho GPS. Às vezes ela nem precisava se importar, seu marido dirigia e ela não dava a mínima para o caminho. Mas a guerra nuclear veio e levou todos esses luxos, com exceção do marido que ela abandonou antes.
Sentando-se no capô de um carro, ela enxuga o suor de sua testa e descansa um pouco. Ainda há milhas pela frente e demorará dias para chegar ao seu destino. Ela retira de seu bolso o único alimento que Timothy pôde lhe dar, uma caixinha com tabletes de tempero pronto. O gosto é terrivelmente forte e apimentado, mas não há mais nada para comer. Se ela puder comer um por dia, talvez chegue ao seu destino.
O vento sopra pelos prédios e os becos, formando redemoinhos de poeira sobre o asfalto. Levantando seu casaco na altura do rosto, ela retoma a caminhada, avançando até chegar à rodovia.
Desta vez ela sente sede. Apesar do orvalho da manhã formar pequenos cristais de gelo, tudo se derrete com o passar do dia e volta a ser poeira. Água é escassa no novo mundo. Os resíduos tóxicos de cinzas e radiação subiram à atmosfera, impossibilitando a formação de nuvens de chuva. As pesadas nuvens de cinzas bloquearam os raios solares e provocaram desequilíbrios ambientais severos, impedindo a fotossíntese e causando a morte de milhares de animais e plantas. Logo, a contaminação causada pela fallout extinguirá toda a raça humana também, os sobreviventes sabem que aquela massa tóxica perdurará décadas e talvez séculos até se dissipar. Eles vivem o flagelo do inverno nuclear.
Ao anoitecer, Rachel decide se abrigar em um dos milhares de carros abandonados na rodovia. Alguns têm bagagem no teto e ela encontra cobertores. Deitando-se no banco de trás, ela se esconde e se aquece, vigiando a rodovia até cair no sono.

§

Os seis tabletes de tempero acabam. A arquiteta tentou comer um por dia, mas não resistiu à fome e comeu dois. Ela está há cinco dias na rodovia, dois ela passou sem comer absolutamente nada. Ao lado do acostamento há tanto capim que ultrapassa a mureta de proteção, invadindo a pista. Ela teme a contaminação radioativa ou mesmo a virose comum, mas não tem escolha senão comer para não morrer de fome.
Como a maioria das mulheres, Rachel nunca se preocupou com a mecânica automobilística. Por uma questão de sobrevivência, ela se lembra vagamente do sistema de arrefecimento dos carros e um compartimento de água dentro deles. Abrindo o capô de um carro, ela encontra o radiador e imediatamente abre a tampa. Se não estivesse morrendo de desnutrição, seria hilário ver a arquiteta tentar alcançar a água no pequeno reservatório. Ela tenta fazer sucção com a boca e até procura um canudinho pelo chão. Então ela tem uma ideia melhor, ela enfia a manga de seu casaco na entrada, molhando-a e depois sugando a água do tecido sujo. Ela ri de alegria, a ideia funcionou e ela sacia sua sede. Ela não morreria aquele dia.
No meio da tarde, a arquiteta vê um grupo de pessoas se aproximar no sentido oposto. Ela rapidamente se esconde e espera eles se aproximarem.
Contendo-se para não fugir, ela vê cerca de vinte saqueadores passarem perto dela. Eles vestem roupas rasgadas, armaduras rústicas e portam bastões com pregos na ponta. O que mais a assusta são suas máscaras, escondendo seus rostos sob máscaras de couro com zíper na boca. Apesar da distância, ela treme de medo, desejando que eles vão embora.
Os saqueadores averiguam algumas bagagens sobre os veículos, mas não param sua caminhada. Eles só estão passando ali. Um deles se aproxima de Rachel e ela se esconde debaixo de um carro. Deitada no chão, ela vê os pés do homem passarem ao lado de seu rosto e então pararem por um momento. A arquiteta sente seu coração disparar. O homem está de frente para ela, se ele agachar e olhar debaixo do carro, Rachel estará perdida. Então ela ouve o som de zíper sendo aberto e então um morno fio de urina escorre pela roda do veículo.
Ao terminar de urinar, o homem sobe sua calça e continua sua caminhada. Rachel está imóvel, ofegante e com os olhos arregalados. Ela fica muitos minutos ali, tentando controlar a tensão enquanto a poça de urina solta vapor.

§

Rachel finalmente chega ao seu destino. Após tantos dias caminhando sem água ou comida, ela chega à cidade onde viu o professor pela primeira vez. Mas ainda não é hora de comemorar, as ruínas são traiçoeiras e escondem perigos enormes.
Esgueirando-se pelas casas abandonadas e carros enferrujados, ela segue para as florestas cinzentas nos arredores da cidade. Já é tarde e logo o dia terminará. O sol some no horizonte e as árvores mortas tornam-se silhuetas negras e pontiagudas sobre as colinas. A arquiteta entra em uma das casas e decide passar a noite ali.
Há papeis e jornais espalhados pelo chão, os móveis estão virados e apodrecidos e longas teias de aranha sobem pelo teto. Os armários da cozinha foram revirados em busca de comida, ela vê as panelas e talheres jogados sobre a pia. Nos quartos, as camas têm camadas grossas de poeira sobre os lençóis, o que podia ser levado foi roubado há muito tempo. Nos banheiros, produtos de limpeza e higiene também foram levados, papel higiênico é um luxo que ela não tem há meses. Ironicamente, os aparelhos eletrônicos estão intactos na casa. Televisores, computadores, celulares e videogames foram deixados para trás. O que antes era mais valioso hoje não vale nada.
Rachel sente nojo das camas imundas e prefere sentar-se na sala. Encolhida como um rato em um canto escuro, ela abraça suas pernas e espera a noite envolver aquele mundo destruído com a escuridão.
Ela acorda assustada. Roncos altos de motores são ouvidos no lado de fora. Parece haver carros passando na rua. Correndo até a janela, ela vê apenas a luz fraca do alvorecer sobre as ruínas. De repente as caminhonetes aparecem, levando vários homens armados com rifles na caçamba. As emoções dominam sua mente e ela sussurra:
- Caçadores...?!
As caminhonetes param mais a frente. São somente duas, mas levam cerca de quinze homens no total. Eles conversam por um tempo, aparentando decidir para onde vão. Então um dos motoristas sai da cabine. Rachel arregala os olhos, colocando a mão sobre a boca ao reconhecê-lo.
Apressando-se para não perdê-los de vista, a arquiteta se aproxima sorrateiramente, escondendo-se atrás dos carros na rua. O motorista se afasta um pouco e acende um cigarro, fumando calmamente enquanto apoia seu pé na roda da caminhonete. Conseguindo evadir todos os caçadores, Rachel está bem perto agora. Ela vê nitidamente aquele homem, ele veste camisa xadrez, botas, calça jeans, faca de caça e tem um bigode volumoso e antiquado no rosto. Seus cabelos são loiros e lisos, penteados diagonalmente para trás. Não há mais dúvida de quem ele seja.
- Lloyd?
Ao sussurrar, o homem se assusta, virando-se para trás. Rachel olha para ele, apontando seus olhos felinos. Apenas ele a ouviu, os outros caçadores não fazem ideia de que ela está ali.
- Mas que diabos?!
- Eu finalmente te encontrei. – ela não consegue resistir e lágrimas escorrem de seus olhos.
O homem se intriga e pergunta:
- Me encontrou? Quem é você, afinal?
O caçador não se lembra de Rachel. Ainda assim ela se sente atraída por sua voz grossa e seu jeito rude.
- Fui eu que fugi do acampamento semanas atrás. 
Então ele se lembra.
- Ah, a escrava fugitiva... Por que você voltou?
- Porque eu estou apaixonada por você.
Ao ouvir a resposta, o caçador retira sua faca da bainha e a põe contra sua garganta.
- Isto é alguma brincadeira? – ele olha para os lados – Quem mais está aqui? Estão tentando nos emboscar?!
A arquiteta explica como ela chegou ali. Ela fala sobre a fuga, o grupo de peregrinos e de seu arrependimento ao fugir. Ela descreve como caminhou durante dias pela rodovia, passando de cidade em cidade sem nenhum mantimento. O caçador se emociona ao ouvir que ela fez tudo aquilo por ele.
Rachel é uma mulher bonita, seus olhos azuis e hipnóticos demonstram convicção. Lloyd não entende, como pode uma mulher assim se apaixonar por ele?
Os dois ouvem o ruído metálico das armas sendo destravadas atrás deles. Os caçadores cercam a arquiteta e apontam seus rifles. Ao embainhar sua faca, Lloyd intervém:
- Esperem! Está tudo bem!
Um dos homens pergunta:
- Quem é ela, chefe?
- É a escrava que fugiu semanas atrás.
- Você a recapturou? – o homem sabe que Lloyd não saiu da presença deles em momento algum – Como?
- Eu não a recapturei. Ela quis voltar.
Então todos eles riem, exibindo seus dentes marrons em seus rostos barbudos.
- Será que ela quer receber mais do nosso tratamento?
Apesar daquela mulher ser uma escrava, ela é muito bonita e provocará cobiça em seu bando. Não permitindo que isso aconteça, ele toma uma decisão egoísta e típica de macho-alfa.
- Ninguém toca nela! A partir de agora ela está sob minha proteção. Aquele que me desobedecer será a próxima refeição do acampamento.
Os caçadores não entendem a aspereza do chefe.
- Por que o súbito interesse por uma escrava qualquer?
- A partir de agora ela será minha exclusiva.
O chefe encerra o debate e ordena que todos voltem ao que estavam fazendo. Rachel tenta se tranquilizar, o homem que ela esteve procurando a aceitou de volta e a colocou sob sua proteção. Pelo menos agora ela estaria segura.
Ao voltar para o acampamento, a arquiteta não é levada de volta ao porão, e nem mesmo à infame casa de madeira. O chefe Lloyd a segura pelo braço e a conduz para outro lugar. Dentro daquele frigorífico abandonado há o prédio de escritórios. Algumas salas têm sanitários próprios e também há banheiros coletivos. Apesar da desorganização, o ambiente é limpo, arejado e bem iluminado, diferente do porão escuro onde esteve cativa.
Passando pelo corredor, ela vê que as salas foram esvaziadas dos materiais de escritórios. No lugar há colchões, cobertores, armas e objetos pessoais. É ali onde os caçadores ficam, eles fizeram do prédio administrativo seu alojamento.
Lloyd abre a porta de sua sala. A arquiteta vê uma cama de casal e um sanitário no canto. As armas e as roupas do chefe estão ali, juntos com suas dezenas de facas e revistas pornográficas. Ele a joga na cama com rudeza. Rachel sente medo, mas ele parece estar pensando em outra coisa. Abrindo um cofre na parede, ele retira um saco de biscoitos e uma garrafa d´água. A arquiteta arregala seus olhos, ela está faminta há dias.
O chefe lhe oferece e ela devora os biscoitos em poucos minutos. Rachel nunca gostou daquele tipo de alimento, mas naquele dia os biscoitos nunca foram tão deliciosos. Ela bebe a água tão rápido que engasga, tossindo com a mão na boca. Lloyd caminha com passos largos pela sala e, pegando sua faca de caça, dirige-se à porta.
- Não abra para ninguém senão para mim. – diz ele, sem olhá-la nos olhos.
Ele então se retira.
Rachel fica ali, sentada na cama sozinha dentro da sala. Confusa com a situação, ela se deita na cama e se encolhe, pensando no que virá a seguir.

§

Nos primeiros dias, Lloyd a usa como sua escrava sexual. Ele não conversa e todas as tentativas de diálogo são ignoradas. A maior parte do dia ele está fora, passeando no acampamento ou dirigindo até a cidade. Rachel é sua cativa, ela não tem permissão de sair da sala e não sabe o que está acontecendo lá fora. Ela se sente um objeto, uma roupa carnal para o pênis de Lloyd. “Essa degradação teria valido a pena?” pensa ela.
À noite, ela ouve os gritos das escravas vindos daquela cabana. Ela se pergunta se sua amiga ou aquela garota ainda estão vivas. De dia ela ouve as caminhonetes voltarem. Ao olhar pela janela, ela vê alguns peregrinos capturados, eles choram e imploram inutilmente por suas vidas. A arquiteta sente pena, os homens morrerão rápido mas as mulheres receberão o pior castigo, sofrendo abusos e mais abusos diariamente. 
Lloyd aparece regularmente durante o dia para lhe dar comida. Ele lhe serve carne assada sobre um prato de metal. A arquiteta ignora que aquilo é carne humana e come em frente a ele. Ela não tem coragem de recusar e está faminta demais para isso.
O caçador volta tarde ao seu dormitório quando novas mulheres são capturadas. Ela sabe que Lloyd está com os outros homens, experimentando as novas escravas. Ele volta ao seu dormitório improvisado e se deita ao lado dela, cansado e satisfeito sexualmente. Quando há novas escravas, o caçador não a deseja e os dois não fazem sexo. Normalmente o chefe não deixa de desejá-la, nem quando ela está menstruada.
Certo dia ele leva dois baldes cheios de água para o dormitório. Ele os deixa em seu sanitário particular e pede para Rachel se lavar. Ela pensa que Lloyd vai sair de novo, mas ele a ajuda a se despir, embora de maneira bruta como é de seu feitio.
Acendendo seu fedorento cigarro artesanal, o caçador mergulha uma bucha de banho na água, passa sabonete e então esfrega o corpo nu de Rachel. O chefe não demonstra desejo, ele faz isso calmamente, lavando-a como se lavasse um cachorro ou um objeto de muita afeição. A arquiteta não entende, o caçador é um homem muito misterioso para ela.
Ao acabar, ele pega uma toalha e a enxuga. Ela sente o cheiro de gasolina no tecido, mas não tem coragem de interrompê-lo. Apesar da rudeza de Lloyd, ela se felicita.
- Obrigada. – diz ela, fazendo-o se virar enquanto ele caminhava para fora.
O caçador a vê encostada no batente da porta, completamente nua. Ele parece pensar em algo e então deixa o local.
Rachel decide que é hora de se mostrar uma mulher e não mais uma simples escrava. Ela quer se mostrar fiel, auxiliadora e definitivamente uma esposa.
As coisas de Lloyd estão espalhadas pela sala. Suas roupas, armas e facas estão lançadas pelo chão, semelhante a um chiqueiro. Ela tira seu casaco, arregaça suas mangas e vai ao trabalho.
Rachel limpa e organiza as armas por tamanho, separa as facas, dobras as roupas de Lloyd e as empilha sobre a mesa. Em seguida ela abana o cobertor e o lençol da cama, dobrando-os em seguida. Há uma vassoura no sanitário, ela a usa para varrer todo o dormitório. Ela nota que algumas das roupas estão sujas e suadas. Ao olhar para o teto, ela vê um fio elétrico em cima do forro. Usando uma faca, ela corta o fio e o prende nas armações das janelas, formando um varal. Com a água do banho, ela usa para lavar algumas camisas, meias e cuecas. Ela não consegue lavar mais roupas, a água era muito escassa, mas se alegra ao saber que tentou.
 No final da tarde Lloyd retorna. Ele abre a porta, entra e depois a tranca, distraído. Rachel vasculha a sala rapidamente com o olhar e se prepara para recebê-lo. O caçador olha para dentro e se espanta, saltando para trás como se visse um fantasma. O dormitório está completamente limpo e organizado como nunca antes. A cama está arrumada e há roupas lavadas no varal. O chão está varrido e não há pó sobre a mesa. O sanitário está limpo e não há mais aquele cheiro ruim. Seria algum tipo de alucinação?
Rachel está em pé, segurando suas mãos na altura do estômago. Ela olha para ele como se perguntasse mentalmente se ele gostou da surpresa. Ele, um caçador rústico e desacostumado a demonstrar suas emoções, olha pare ela e pergunta:
- Você fez isso?
- Sim.
A arquiteta percebe que ele também não tem habilidade com as palavras. Ele abre a boca mas desiste, olhando tudo ao redor em silêncio. Por fim ele pergunta:
- Onde está meu chapéu?
Ela responde e em seguida mostra onde estão todas as outras coisas, apontando detalhadamente a localização de suas roupas e objetos pessoais. O chefe não sabe se ouve ou se surpreende ao ver sua sala tão bem organizada.
- Você gostou?
- Ficou bom... – responde ele, se esforçando para parecer natural. Talvez ele tenha dificuldade ao conversar com mulheres e Rachel percebe isso.
- Se você não achar algo, me pergunte e eu ficarei feliz em dizer onde está. – responde ela, amigavelmente.
Com muita insegurança, o caçador assente sem dizer nada. Ele tira suas roupas, ficando apenas de cueca. Ele então se senta na cama e pede para Rachel se sentar também. Imaginando o que ele vai querer, ela começa a se despir quando ele pergunta:
- Você gosta de pêssego?
A arquiteta se intriga.
- O quê?
- Eu tenho uma lata de pêssegos guardada. Estou guardando há algum tempo. Você quer?
- Sim. – ela sorri – Eu adoraria.
O homem se levanta e pega sua lata no cofre. Ele a abre usando uma de suas facas assustadoras, cortando a tampa de aço como se estivesse esfaqueando alguém. Então ele lhe dá uma faca menor para ajudá-la a comer.
- Obrigada. – responde ela.
Os dois comem os pêssegos. Fazia anos que Rachel não provava algo tão doce. Suas mãos tremem, ela sente fome constantemente. Não é todo dia que ela consegue ingerir carne de gente.
- Estão deliciosos. – diz ela.
O caçador, se esforçando para ser simpático, responde:
- Estive guardando para uma ocasião especial.
Ela se sente lisonjeada. Talvez seu plano esteja funcionando.
Ao terminar de comer, Lloyd se deita e a arquiteta o acompanha. Minutos se passam na cama e a noite se aproxima. Quando tudo fica escuro, ela se pergunta se ele não vai fazer sexo com ela. De repente ela sente seu braço passar em sua cintura, abraçando-a. Para sua total surpresa, Lloyd adormece e ela ouve seus roncos enquanto ele dorme. Ainda confusa, ela sorri, pondo sua mão sobre o braço dele e adormecendo também.

§

Nos dias seguintes, Lloyd muda sua maneira de desejar a arquiteta. Ao invés de trata-la como um objeto, os dois têm longas conversas antes do sexo. Eles passam horas conversando, o caçador se abre mais e expressa suas opiniões e emoções. Rachel se torna sua ouvinte, dando-lhe conforto, sugestões e carinho quando ele está triste. O caçador lhe revela onde cresceu, como foi criado, onde trabalhou pela primeira vez, quem foi sua primeira namorada, qual foi seu primeiro carro, e outras coisas triviais. A arquiteta se surpreende ao saber que ele já foi casado três vezes.
 Com o passar do tempo, o sexo bruto e agressivo passa a ser suave e afetivo, e ela gosta também.
A arquiteta ainda é cativa, mas a situação melhora. Lloyd lhe traz roupas novas, presentes, comida e água limpa para se lavar. Ela limpa o dormitório, organiza suas coisas e pede produtos de limpeza para lavar suas roupas. O caçador sempre atende a seus pedidos, trazendo tudo o que ela precisa.
Não demora muito e Rachel torna-se a esposa do mesmo homem que, nas ruínas, comete todo tipo de atrocidade. Na privacidade do dormitório ele é carinhoso e atencioso, mas nas ruínas ele e seu bando se divertem caçando gente, esfolando seus corpos e mutilando-os para comer. Ela se sente casada com um membro da Schutzstaffel, a temida guarda SS.
Após três semanas presa no dormitório, Lloyd lhe diz algo inesperado:
- Pode sair se quiser. – ele deixa a porta aberta. A arquiteta não consegue conter a alegria, mas ele a adverte – Mas se fugir ou me trair com outro homem, eu te mato com minhas próprias mãos.
Ela assente em silêncio e então caminha para fora. Os caçadores estão no corredor, caminhando tranquilamente enquanto cuidam de seus assuntos. Alguns olham para ela com respeito, outros com desprezo, mas ninguém ousa confrontar o chefe por sua causa.
A luz do dia e o ambiente aberto lhe dão uma sensação maravilhosa. As ruas estreitas e os galpões do frigorífico são cinzentos como sempre, mas é melhor estar em liberdade.
Rachel não mais está confinada ao dormitório de Lloyd. Toda manhã ela caminha pelo acampamento, passando por aqueles homens barbudos, rústicos e violentos. Alguns deles acenam e ela inicia um diálogo, aumentando sua influência. Aos poucos ela perde o receio e não mais necessita de Lloyd para andar ao ar livre.
Passada a primeira semana de liberdade, Rachel se sente parte do acampamento, auxiliando Lloyd em suas decisões e resolvendo assuntos com os outros caçadores. Ela se sente aceita e morbidamente adaptada ao novo estilo de vida sanguinário deles.
Certo dia, ela vê uma nova remessa de peregrinos capturados vindos das ruínas. Eles estão em um estado deplorável, parecendo remendos humanos piores do que mendigos. As mulheres, vestidas com trapos rasgados, famintas e sujas da cabeça aos pés, contrastam com a boa nutrição, físico saudável e as roupas limpas de Rachel. Apesar de demonstrar frieza, ela esconde compaixão em seu coração.
À noite ela ouve os sons vindos da cabana. Os caçadores estão eufóricos com as novas escravas, mas Lloyd não está entre eles. Ela pergunta:
- Você não vai experimentar as novas escravas?
Enquanto tira suas meias, ele responde:
- Para quê?
A arquiteta volta a olhar para a cabana e então pergunta novamente:
- Lloyd, você me leva para a cabana amanhã?
O caçador se intriga.
- Por que você quer ir para lá?
- Porque foi lá que eu fui estuprada pela primeira vez.
No dia seguinte, Lloyd cruza o acampamento e a conduz para a casa de madeira. Rachel tem lembranças horríveis daquele lugar, a casa de tortura e estupro. Ela se sente confusa ao saber que está voltando ali não como uma escrava, mas como a esposa do chefe.
A sala da lareira cheira a suor e sangue. As roupas das mulheres estão jogadas pelo chão. Olhando ao redor, ela sente vontade de chorar, ela sofreu abusos terríveis naquele lugar.
As fotografias ainda estão penduradas na parede. Ela nota que há mais algumas. Ao olhar para a última, ela sente seu corpo tremer. A mulher do porão, sua amiga que a ajudou a fugir, tem sua foto ali, pendurada como se fosse um troféu de caça. Rachel não se contém e começa a chorar amargamente, ajoelhando-se abaixo da terrível lembrança.
A princípio Lloyd não entende e apenas passa sua mão pesada e calejada nos cabelos dela. Controlando seus soluços, a arquiteta pergunta:
- Como ela morreu?
O caçador responde:
- Os homens estavam se cansando dela. Ela era sempre receptiva e amigável, nunca demonstrando medo ou agressividade. Os caçadores não se excitam com mulheres assim – Lloyd respira fundo e continua – Trouxemos outras escravas, mais jovens e totalmente apavoradas. Os caçadores decidiram se livrar dela, ela era entediante demais para eles.
Rachel olha para a foto de sua amiga e lê seu nome na plaqueta. A arquiteta nunca soube o nome dela. Então o segundo choque vem e lhe estremece. “Esse nome... Não é possível...!”.
Lucy Sutherfield Morgan.
A arquiteta se espanta, parecendo que seu coração vai sair por sua boca. “Esse é o nome da esposa de Timothy!” pensa ela várias vezes.
Rachel não se sente bem, sua visão embaça e ela se desnorteia. A surpresa é forte demais, ela não aceita que aquilo é verdade. “A busca de Timothy, o homem mais nobre que ela já conheceu, é totalmente em vão!”. Entrando em colapso, ela começa a ofegar e a soluçar. Mas, incapaz de resistir, ela desmaia aos pés de Lloyd.
O caçador a acorda minutos depois. Ela ainda está na casa e enxerga as madeiras do telhado. Acalmando-se, ela tenta se sentar.
- Você está bem? – pergunta Lloyd.
- Esta mulher... – ela olha para a foto de Lucy – era minha amiga.
- Quer que eu te leve de volta?
- Não. Só quero ficar um pouco sozinha.
Lloyd assente, se levanta e deixa a casa.
A arquiteta fica ali, sentada no chão e olhando para Lucy. Ela lamenta muito e uma onda de tristeza a envolve. Timothy esteve procurando por Lucy durante meses e Rachel sabia o tempo todo onde ela estava. O professor, que começou sua busca liderando um grupo de peregrinos, se expondo a todo tipo de perigos e arriscando sua vida incontáveis vezes, nunca desistiu de tentar achá-la. Como ele reagiria agora se soubesse que Lucy morreu? E como ela morreu? Seria ele forte o suficiente para suportar?
Se ao menos Rachel pudesse avisá-lo. Ela sabe que isso é impossível, o professor deve estar em qualquer lugar agora. Em prantos, ela percebe que Timothy nunca encerrará sua busca, ele continuará procurando para sempre. “Até ele tragicamente morrer...” pensa ela.
Lucy, sua amiga e salvadora, esposa de Timothy, seu amigo e salvador. A dor é forte demais. Ela leva as mãos ao rosto e então chora mais uma vez.
Mais tarde, a arquiteta pede para que Lloyd troque a plaqueta. Ela escreve outro nome para sua heroína, a mulher que a salvou daquele acampamento, mas que também a ensinou que naquele novo mundo deve-se fazer o que for preciso para sobreviver. Lucy estava certa, afinal. Rachel reconhece isso todos os dias enquanto ela anda pelo acampamento como uma mulher livre.
Daquele dia em diante, em sua plaqueta se lê “Lucy, a Sobrevivente”.
A arquiteta homenageia sua amiga, a misteriosa mulher que lhe ensinou que não valia mais a pena lutar pelo mundo pré-guerra. Lucy não pôde evitar seu amargo fim, mas sobreviveu ao seu flagelo enquanto todas as outras morriam espancadas, doentes ou de suicídio. Lucy foi forte como seu marido, Timothy.

§

Rachel ganha mais autonomia no acampamento dos caçadores. Lloyd passa a levá-la em suas incursões pelas ruínas. Diversas vezes ele a deixou sozinha no veículo, mas ela jamais pensou em fugir. Ela sabia que sua sobrevivência dependia da permanência com eles. Conformando-se a isso, ela já havia se adaptado. Como Lucy.
Sentada na cabine da caminhonete, ela via os caçadores capturarem os peregrinos. Eram pessoas famintas, desesperadas e doentes. Outros eram saudáveis, mas covardes demais para lutar por suas vidas. Rachel desprezava a covardia deles, entregando seus companheiros e até familiares para que os caçadores os deixassem ir.
Os peregrinos eram covardes em essência. Preferiam trair seus companheiros a lutar pela sobrevivência. Ela passa a odiá-los, pois os considerava fracos.
O coração de Rachel se petrifica. Ela não mais sentia compaixão das futuras escravas dos caçadores. Aqueles homens cruéis violentavam mulheres velhas ou novas demais, eles não faziam distinção. A arquiteta já foi escrava e sabe do que elas são capazes para sobreviver.
Em um momento de lógica psicótica, Rachel se lembra de uma frase histórica que agora fazia todo o sentido: “Em um mundo de guerra perpétua, aquele que não tem capacidade para lutar não merece viver”.
Alguns dias depois, Rachel volta de uma incursão nas ruínas. Ela está sentada ao lado da janela, Lloyd dirige a caminhonete e há sete caçadores na caçamba. Ao chegar no acampamento, o chefe estaciona o veículo em frente à cabana. Todos descem e ela fica ali por um momento.
De repente uma mulher aparece na janela e a assusta. Ela está toda suja, seu rosto tem hematomas e ela está usando apenas um sutiã rasgado. É só mais uma das escravas.
- Por favor! Você tem que me ajudar! Esses homens me estupram todas as noites! Eu preciso sair daqui, me ajude pelo amor de Deus!
Ao olhar bem, Rachel reconhece a mulher ao seu lado. É a garota que estava no carro de Ethan quando eles foram capturados.
- Rachel...? – pergunta ela, surpresa.
“Garota maldita, na primeira noite ela tentou incitar os caçadores a me levarem primeiro!” lembra-se ela. Ela não é diferente dos peregrinos traiçoeiros e covardes que Rachel odeia. Ela é igual.
Então a arquiteta cospe em seu rosto. A garota fecha os olhos ao sentir a saliva tocar seu nariz e sua boca. Os caçadores riem atrás dela, gargalhando de sua tentativa fracassada de pedir ajuda.
Enquanto os homens a levam para dentro da casa, Rachel se lembra de uma situação parecida. Ela também já pediu ajuda para uma mulher antes, e essa mulher cuspiu em seu rosto. Rachel nunca soube quem ela era, mas sabe que ela veio de outro acampamento. Igual a Rachel, essa mulher tinha certo status entre eles. A arquiteta se pergunta se ela não é a única a se aliar aos seus terríveis captores. “Será que há mais mulheres iguais a mim?” pensa ela.

§

Um mês depois, Lloyd estaciona a caminhonete em uma rua e os caçadores saltam da caçamba. Os dois ficam sozinhos na cabine por um minuto. De repente o chefe olha para ela e pergunta:
- É verdade o que você sente por mim?
Ela estranha a inesperada pergunta.
- Eu não entendi.
- Lembra-se desse lugar? Foi aqui onde nos encontramos e você disse que estava apaixonada por mim. Quero saber se é verdade.
A arquiteta sorri.
- Mas é claro que é verdade. Eu te amo. De todo o meu coração.
- Não teve medo que eu te matasse?
- Meu único medo era ficar sem você.
O caçador ainda não se convence.
- Mas você ainda me ama?
- Você me ama? – responde ela, com outra pergunta. 
- Sim. – responde ele, um pouco sem jeito.
- Saiba que eu vou te amar até se você não me amar mais. Eu voltei por você, Lloyd. Me apaixonei desde a primeira vez que te vi. Nunca duvide do meu amor, está bem?
Então o caçador não diz mais nada.
Os dois saem da caminhonete. Rachel empunha seu rifle e há uma faca dentada em sua cintura. Ela veste uma farda de soldado e um boné preto. Apesar da vestimenta militar, ela está muito sexy.
Encontrando um rastro recente, um dos caçadores indica as casas onde os peregrinos estão escondidos. Lloyd e Rachel escolhem uma e a invadem, vasculhando os cômodos a sua procura.
Agachado em um quarto, o casal encontra um homem vestido com trapos sujos e rasgados. Seu rosto tem longa barba e ele se parece com um mendigo. Apontando seus rifles para o seu rosto, o homem levanta suas mãos. O peregrino ia dizer algo quando Rachel aperta o gatilho, acertando-o no peito.
Lloyd se assusta.
- E então? – pergunta ela, recarregando a próxima bala – Ainda tem dúvidas do que sinto por você?
Então o caçador a agarra e a joga na cama, arrancando suas roupas e jogando-as pelo quarto. Em seguida eles fazem sexo loucamente, com pulsadas fortes e arranhões nas costas. Aquele foi o sexo mais excitante que Lloyd teve desde que ela voltou.
Enquanto isso o peregrino sangra no canto do quarto, morrendo lentamente enquanto os dois se divertem na cama.

  

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