(Imagem de John Pope)
A
Arquiteta
Rachel
intriga-se com o professor. Por ser uma mulher muito bonita, ela se habituou
com inúmeros homens cortejando-a constantemente. Mas Timothy é diferente. Ele é
um homem determinado, corajoso e perseverante como todo bom líder. Com a arquiteta
ele sempre se mostrava atencioso, preocupado, simpático, mas acima de tudo...
indiferente. Em todas as vezes em que os dois conversavam, ele nunca a admirou,
nem mesmo a elogiou como tantos faziam normalmente.
Teria
Rachel ficado feia? Certamente que não, afinal os outros homens do grupo a
observavam sempre. Ela percebia isso quando arrumava seus longos cabelos negros
e exibia seu fino pescoço. Ao passar por eles, sua visão periférica, típica de
mulher, captava a todos. Então por que Timothy não a notava?
O professor
estava sempre sentado em um canto escrevendo em seus cadernos. Algumas pessoas
o interrompiam para falar algo importante ou conversar, às vezes ele saía para
vigiar as imediações, mas sempre estava ali, sentando em algum canto afastado e
escrevendo. Isto a deixava totalmente frustrada e nem ela sabia por quê.
Rachel
já foi estuprada várias vezes por vários homens diferentes. Homens que em
tempos passados a cobiçavam, hoje a possuíam à força. Em mulheres frágeis a
beleza, a sedução e a sensualidade desvaneceriam. Poucas seriam capazes de
superar o trauma. Mas a arquiteta passou por tudo isso e nada mudou. Ela ainda
sente a necessidade de chamar a atenção e curiosamente intriga-se com o único
homem que a despreza.
Homens
e mulheres nunca mudaram, afinal. Nunca mudarão. Tratando-se de sexo por prazer
ou procriação, todos são animais. A diferença é que humanos sabem resolver
problemas complexos de matemática.
A
arquiteta se aproxima do professor. Ele está encurvado, escrevendo em seu
caderno sobre seus joelhos. Há páginas e páginas escritas, Rachel nunca viu
alguém escrever tanto. Ela vê aquilo como uma forma de reclusão, um refúgio que
Timothy encontrou para se aliviar de uma realidade opressiva.
Sentando-se
sobre um pneu, ela pergunta:
-
Olá Tim. O que está fazendo?
Ela
mira seus olhos azuis para ele, analisando cada expressão com seu olhar felino.
Timothy lhe devolve um olhar abatido, amargurado e sem motivos para ser gentil.
-
Desculpe. Agora eu preciso ficar sozinho.
Rachel
se assusta. Como ele se atreve a esnobá-la?
-
Algum problema? – insiste ela.
Controlando-se
para responder, ele passa as mãos em seu rosto.
-
Faz quatro meses, ou pelo menos eu acho que foram quatro meses. É difícil
dizer...
- O
que aconteceu há três meses?
- Há
três meses ela se foi... – e então ele se desaba em lágrimas – Lucy...
A
arquiteta não entende. Timothy sofria por alguém que já podia estar morta.
- O
que aconteceu com Lucy?
O
professor lhe explica o que aconteceu no acampamento dos saqueadores. Ele
descreve como sua esposa foi raptada, nunca mais a vendo desde então. O
professor fala sobre sua promessa de reencontrá-la, mas após tanto tempo ele se
recusa a acreditar que ela pode não estar mais viva. Rachel mostra interesse em
sua esposa. Timothy lhe fala tudo o que aconteceu, desde o primeiro ataque
quando os Estados Unidos, como suas filhas morreram e como se tornou o líder.
Rachel
viu muitas coisas horríveis desde que se juntou ao grupo do professor. Alguns
integrantes do grupo, pessoas que Timothy considerava seus amigos, se foram das
mais diversas maneiras. Em alguns casos foi tão surpreendente que ela se
esforça a acreditar. Apesar da arquiteta também ter vivido situações
deploráveis, ela se pergunta como aquele homem consegue segurar tanta
responsabilidade sozinho.
Os
dois conversam sobre suas vidas e Timothy lhe revela sua agonia. Rachel sente
muita pena dele, o professor vive em uma ilusão que o mantém vivo e disposto a
seguir em frente. E essa ilusão chama-se Lucy. Em meio a tantas lamentações e
falsas esperanças, a arquiteta só consegue enxergar um homem solitário que
perdeu tudo.
O
que era para ser um jogo de sedução feminino acaba se tornando uma grande
amizade. Os dias se passam e os dois ficam sempre juntos. Longe de ser como
Harold, que o acompanhava em suas perigosas incursões pelas ruínas, Rachel
sempre estava ao seu lado, ouvindo-o quando ele queria se abrir. Antes da
guerra a arquiteta era bem seletiva quanto a amizades com homens, pois todos a
cobiçavam, mas com Timothy não havia a necessidade de ser defensiva. Ele ama
Lucy. Ele só quer alguém para conversar.
O
mundo mudou muito rápido e Rachel está se adaptando a essa mudança.
Algumas
semanas depois a arquiteta sente a primeira consequência da liberdade. Há uma
famosa frase de Freud que diz: “A maioria das pessoas não quer realmente a
liberdade, pois a liberdade envolve responsabilidade e a maioria das pessoas
tem medo da responsabilidade”. É exatamente como Rachel se sente.
Diariamente
o grupo tem que procurar água e alimentos. A escassez de mantimentos básicos é
severa e mesmo a higiene é um problema. Os peregrinos estão emagrecendo,
adoecendo e alguns cheiram muito mal, tendo suas roupas encardidas com sua
própria imundície. Rachel sabe que aquelas pessoas são bem instruídas e tinham
vidas confortáveis antes da guerra, mas hoje se parecem com simples mendigos.
Muitos
foram os dias em que eles tiveram de beber água suja, empoçadas no piso
empoeirado. Ás vezes não havia comida e muitos mastigavam a vegetação que
crescia nas ruas. Não foram poucas as vezes em que Rachel viu a mesquinhez e o
egoísmo naqueles peregrinos. Eles escondiam seus alimentos e recusavam-se a
dividi-los, e ironicamente aquele grupo era baseado na ideia de que tudo
deveria ser compartilhado para o bem comum. Água, comida e remédios, tudo era
escondido entre si, não importava quem estivesse faminto, sedento ou coberto de
doenças.
O
egoísmo sempre foi maior do que o amor ao próximo, se é que esse amor já
existiu.
A
arquiteta se enche de amargura. Vivendo no cativeiro dos caçadores, sendo
violentada por inúmeros homens, ela desejava a liberdade constantemente. Mas
havia uma mórbida vantagem naquilo. Apesar da violência sexual e do
canibalismo, ela tinha um abrigo, água e comida, diferente do grupo do
professor que não tem água, comida e muito menos um abrigo. Com os caçadores
ela podia sobreviver, com o professor ela teria uma morte lenta e agonizante,
talvez por fome ou doença. Resistindo a reconhecer, ela se pergunta: “Estaria
aquela mulher certa, afinal?”. A mulher escolheu ficar, vivendo como escrava.
Rachel escolheu fugir, desejando a liberdade. Lamentando-se, ela encara as
terríveis consequências de sua decisão. O custo da liberdade foi alto demais.
Dormindo
em uma casa abandonada, usando jornais velhos para se aquecer, a arquiteta
sonha com Brad. Seu amante a abandonou pouco tempo antes do mundo acabar. Ela
não fazia ideia de onde ele estava, nem mesmo se sobreviveu ao impacto das
bombas. Rachel o amava mais do que tudo, mais do que sua própria família. Mas
como todo amor não correspondido, a ferida da rejeição deixou uma cicatriz
sensível que insistia em sangrar, mesmo após tanto tempo vivendo em um mundo
arrasado pela radiação. Acordando no escuro, ela se sente frágil e impotente,
as lembranças são muito fortes.
Ela
pensa em procurar por Brad, partindo no meio da noite e aventurando-se nas
ruínas. Mas as ruínas são o mais próximo do inferno hoje. Ninguém é tolo o
bastante para caminhar por elas sozinho, especialmente se for uma mulher. Se
Brad morreu durante os ataques, sorte sua, mas se sobreviveu e está em algum
lugar lá fora, não é exagero imaginar todo o tipo de horror que pode ter
acontecido a ele. Por outro lado, há outro motivo plausível para não partir.
Não querendo ser como o professor, Rachel não quer perseguir uma sombra.
Porém,
há alguém que não é uma sombra. A arquiteta lembra-se de Lloyd, o rústico homem
líder dos caçadores. Lloyd e Brad são parecidos e igualmente atraentes a
Rachel. Para uma mulher que baseou sua vida no amor, ela fará de tudo para
garantir que continue assim.
Não
demorará muito para amanhecer, mas ela não quer esperar. Caminhando entre os
sonolentos peregrinos, ela atravessa a casa e dirige-se à saída. Ela passa pela
porta do porão e nota que há uma luz amarelada lá embaixo. Curiosa demais para
ignorar, ela desce os degraus, segurando no corrimão enferrujado na parede. Ao
chegar ao porão, ela encontra o professor sentado sobre um caixote e escrevendo
em seu caderno sobre a mesa. Há um lampião ao seu lado, a origem daquela luz.
-
Timothy?
O
professor se assusta. Na luz fraca do lampião, ela percebe que ele estava
chorando.
-
Rachel? O que está fazendo acordada?
-
Eu... – ela hesita – Não quis incomodá-lo, Tim.
-
Não está. Eu estou sem sono, também. É difícil dormir com tantas preocupações.
– responde ele, sorrindo no final.
A
arquiteta se intriga e o pergunta com indignação:
-
Como você consegue, Tim?
Arregalando
os olhos, ele se assusta com a aspereza de Rachel.
- Do
que está falando...?
-
Como você se suporta? Como consegue não enlouquecer com essa escória lá em
cima? Esse grupo não compartilha de seus ideais. Eles são mesquinhos, egoístas,
covardes e hipócritas. Não estão juntos para sobreviver juntos, eles estão juntos
para se parasitarem um dos outros. Eles se usam para se proteger e se salvarem,
usando a si mesmo como escudo. Eles se roubam e mentem, criando intrigas. Não
sei se você se engana ou simplesmente ignora, mas eles não se auxiliam. É cada
um por si. A diferença é que eles são muito covardes para abandonar o grupo e
peregrinarem sozinhos.
Timothy
está chocado com o que ela disse.
-
Mas, Rachel... Por que isso agora?
- Eu
agradeço que tenha me recebido, Timothy. Inclusive agradeço o que o grupo fez
por mim. Mas não vou mais viver desse jeito. Certa vez uma mulher muito
corajosa me falou algo que me deixou espantada, mas finalmente abri meus olhos
e percebi a verdade.
O
professor sabe que Rachel refere-se à escrava do acampamento dos caçadores. A
arquiteta falava muito sobre ela.
- O
que foi que ela disse?
- Eu
não posso dizer. Não posso correr o risco de você ir atrás de mim e acabar
morto. Além disso, você não entenderia. – Ela respira fundo e continua – Você é
um homem valoroso, Tim. Talvez a melhor pessoa que eu já conheci. Mas é uma
pena que os seus valores... não sejam mais compatíveis com esse mundo.
Timothy
entende o que ela quer dizer.
-
Rachel, não deixe o mundo mudar você. Nós não somos iguais a esses assassinos
aí fora. Não se conforme a eles, não perca sua alma na mão desses animais...
A
arquiteta ouve tudo aquilo balançando negativamente a cabeça.
-
Adeus, Tim. – responde ela, interrompendo-o – Desejo do fundo de meu coração
que você fique bem.
Lágrimas
se escorrem dos olhos de Rachel. Ela se vira e começa a subir a escada. O
professor se levanta e, antes dele chamá-la, ela volta correndo e o abraça,
soluçando enquanto chora em seu pescoço.
-
Rachel... – sussurra ele, profundamente comovido.
§
Amanhece
nas ruínas. Os dourados raios de sol penetram as nuvens e são “filtrados”,
iluminando o dia com uma luz prateada entre a fumaça. A arquiteta caminha
sozinha pelas ruas cobertas de entulho. Ao olhar para os lados ela vê o que
sobrou da cidade, prédios com mais de vinte andares semidestruídos e queimados.
A
solidão e o abandono são onipresentes nas ruínas. Rachel pode senti-los ao olhar
para o interior das casas. A arquiteta trabalhou para tornar as edificações
mais alegres e convidativas, mas hoje ela vê que o trabalho de sua vida se
mostrou inútil. A aparência da cidade é totalmente depressiva. As cores, as
curvas e as formas foram absorvidas completamente pela poeira cinzenta do
inverno nuclear.
Avançando
pelas ruas, ela sente fome. Olhando ao redor, ela vê apenas a sequidão
empoeirada das ruínas, sem comida ou água. Rachel se sente em um deserto,
sozinha e perdida entre as “dunas” de entulho e aço. Ela se pergunta se tomou o
caminho certo. Faz muito tempo que ela passou por ali e memorizar um trajeto
tão longo é quase impossível. Com certeza era muito mais fácil quando ela
dirigia seu carro com um aparelho GPS. Às vezes ela nem precisava se importar,
seu marido dirigia e ela não dava a mínima para o caminho. Mas a guerra nuclear
veio e levou todos esses luxos, com exceção do marido que ela abandonou antes.
Sentando-se
no capô de um carro, ela enxuga o suor de sua testa e descansa um pouco. Ainda
há milhas pela frente e demorará dias para chegar ao seu destino. Ela retira de
seu bolso o único alimento que Timothy pôde lhe dar, uma caixinha com tabletes
de tempero pronto. O gosto é terrivelmente forte e apimentado, mas não há mais
nada para comer. Se ela puder comer um por dia, talvez chegue ao seu destino.
O
vento sopra pelos prédios e os becos, formando redemoinhos de poeira sobre o
asfalto. Levantando seu casaco na altura do rosto, ela retoma a caminhada,
avançando até chegar à rodovia.
Desta
vez ela sente sede. Apesar do orvalho da manhã formar pequenos cristais de
gelo, tudo se derrete com o passar do dia e volta a ser poeira. Água é escassa
no novo mundo. Os resíduos tóxicos de cinzas e radiação subiram à atmosfera,
impossibilitando a formação de nuvens de chuva. As pesadas nuvens de cinzas
bloquearam os raios solares e provocaram desequilíbrios ambientais severos,
impedindo a fotossíntese e causando a morte de milhares de animais e plantas.
Logo, a contaminação causada pela fallout
extinguirá toda a raça humana também, os sobreviventes sabem que aquela massa
tóxica perdurará décadas e talvez séculos até se dissipar. Eles vivem o flagelo
do inverno nuclear.
Ao
anoitecer, Rachel decide se abrigar em um dos milhares de carros abandonados na
rodovia. Alguns têm bagagem no teto e ela encontra cobertores. Deitando-se no
banco de trás, ela se esconde e se aquece, vigiando a rodovia até cair no sono.
§
Os
seis tabletes de tempero acabam. A arquiteta tentou comer um por dia, mas não
resistiu à fome e comeu dois. Ela está há cinco dias na rodovia, dois ela
passou sem comer absolutamente nada. Ao lado do acostamento há tanto capim que
ultrapassa a mureta de proteção, invadindo a pista. Ela teme a contaminação
radioativa ou mesmo a virose comum, mas não tem escolha senão comer para não
morrer de fome.
Como
a maioria das mulheres, Rachel nunca se preocupou com a mecânica
automobilística. Por uma questão de sobrevivência, ela se lembra vagamente do
sistema de arrefecimento dos carros e um compartimento de água dentro deles.
Abrindo o capô de um carro, ela encontra o radiador e imediatamente abre a
tampa. Se não estivesse morrendo de desnutrição, seria hilário ver a arquiteta
tentar alcançar a água no pequeno reservatório. Ela tenta fazer sucção com a
boca e até procura um canudinho pelo chão. Então ela tem uma ideia melhor, ela
enfia a manga de seu casaco na entrada, molhando-a e depois sugando a água do
tecido sujo. Ela ri de alegria, a ideia funcionou e ela sacia sua sede. Ela não
morreria aquele dia.
No
meio da tarde, a arquiteta vê um grupo de pessoas se aproximar no sentido
oposto. Ela rapidamente se esconde e espera eles se aproximarem.
Contendo-se
para não fugir, ela vê cerca de vinte saqueadores passarem perto dela. Eles
vestem roupas rasgadas, armaduras rústicas e portam bastões com pregos na
ponta. O que mais a assusta são suas máscaras, escondendo seus rostos sob máscaras
de couro com zíper na boca. Apesar da distância, ela treme de medo, desejando
que eles vão embora.
Os
saqueadores averiguam algumas bagagens sobre os veículos, mas não param sua
caminhada. Eles só estão passando ali. Um deles se aproxima de Rachel e ela se
esconde debaixo de um carro. Deitada no chão, ela vê os pés do homem passarem
ao lado de seu rosto e então pararem por um momento. A arquiteta sente seu
coração disparar. O homem está de frente para ela, se ele agachar e olhar
debaixo do carro, Rachel estará perdida. Então ela ouve o som de zíper sendo
aberto e então um morno fio de urina escorre pela roda do veículo.
Ao terminar
de urinar, o homem sobe sua calça e continua sua caminhada. Rachel está imóvel,
ofegante e com os olhos arregalados. Ela fica muitos minutos ali, tentando
controlar a tensão enquanto a poça de urina solta vapor.
§
Rachel
finalmente chega ao seu destino. Após tantos dias caminhando sem água ou
comida, ela chega à cidade onde viu o professor pela primeira vez. Mas ainda
não é hora de comemorar, as ruínas são traiçoeiras e escondem perigos enormes.
Esgueirando-se
pelas casas abandonadas e carros enferrujados, ela segue para as florestas
cinzentas nos arredores da cidade. Já é tarde e logo o dia terminará. O sol some
no horizonte e as árvores mortas tornam-se silhuetas negras e pontiagudas sobre
as colinas. A arquiteta entra em uma das casas e decide passar a noite ali.
Há
papeis e jornais espalhados pelo chão, os móveis estão virados e apodrecidos e
longas teias de aranha sobem pelo teto. Os armários da cozinha foram revirados
em busca de comida, ela vê as panelas e talheres jogados sobre a pia. Nos
quartos, as camas têm camadas grossas de poeira sobre os lençóis, o que podia
ser levado foi roubado há muito tempo. Nos banheiros, produtos de limpeza e
higiene também foram levados, papel higiênico é um luxo que ela não tem há
meses. Ironicamente, os aparelhos eletrônicos estão intactos na casa.
Televisores, computadores, celulares e videogames foram deixados para trás. O
que antes era mais valioso hoje não vale nada.
Rachel
sente nojo das camas imundas e prefere sentar-se na sala. Encolhida como um rato
em um canto escuro, ela abraça suas pernas e espera a noite envolver aquele
mundo destruído com a escuridão.
Ela
acorda assustada. Roncos altos de motores são ouvidos no lado de fora. Parece
haver carros passando na rua. Correndo até a janela, ela vê apenas a luz fraca
do alvorecer sobre as ruínas. De repente as caminhonetes aparecem, levando
vários homens armados com rifles na caçamba. As emoções dominam sua mente e ela
sussurra:
-
Caçadores...?!
As
caminhonetes param mais a frente. São somente duas, mas levam cerca de quinze
homens no total. Eles conversam por um tempo, aparentando decidir para onde
vão. Então um dos motoristas sai da cabine. Rachel arregala os olhos, colocando
a mão sobre a boca ao reconhecê-lo.
Apressando-se
para não perdê-los de vista, a arquiteta se aproxima sorrateiramente,
escondendo-se atrás dos carros na rua. O motorista se afasta um pouco e acende
um cigarro, fumando calmamente enquanto apoia seu pé na roda da caminhonete. Conseguindo
evadir todos os caçadores, Rachel está bem perto agora. Ela vê nitidamente
aquele homem, ele veste camisa xadrez, botas, calça jeans, faca de caça e tem um
bigode volumoso e antiquado no rosto. Seus cabelos são loiros e lisos,
penteados diagonalmente para trás. Não há mais dúvida de quem ele seja.
-
Lloyd?
Ao
sussurrar, o homem se assusta, virando-se para trás. Rachel olha para ele,
apontando seus olhos felinos. Apenas ele a ouviu, os outros caçadores não fazem
ideia de que ela está ali.
-
Mas que diabos?!
- Eu
finalmente te encontrei. – ela não consegue resistir e lágrimas escorrem de
seus olhos.
O
homem se intriga e pergunta:
- Me
encontrou? Quem é você, afinal?
O
caçador não se lembra de Rachel. Ainda assim ela se sente atraída por sua voz
grossa e seu jeito rude.
-
Fui eu que fugi do acampamento semanas atrás.
Então
ele se lembra.
-
Ah, a escrava fugitiva... Por que você voltou?
-
Porque eu estou apaixonada por você.
Ao
ouvir a resposta, o caçador retira sua faca da bainha e a põe contra sua
garganta.
-
Isto é alguma brincadeira? – ele olha para os lados – Quem mais está aqui?
Estão tentando nos emboscar?!
A
arquiteta explica como ela chegou ali. Ela fala sobre a fuga, o grupo de
peregrinos e de seu arrependimento ao fugir. Ela descreve como caminhou durante
dias pela rodovia, passando de cidade em cidade sem nenhum mantimento. O
caçador se emociona ao ouvir que ela fez tudo aquilo por ele.
Rachel
é uma mulher bonita, seus olhos azuis e hipnóticos demonstram convicção. Lloyd
não entende, como pode uma mulher assim se apaixonar por ele?
Os
dois ouvem o ruído metálico das armas sendo destravadas atrás deles. Os
caçadores cercam a arquiteta e apontam seus rifles. Ao embainhar sua faca,
Lloyd intervém:
-
Esperem! Está tudo bem!
Um
dos homens pergunta:
-
Quem é ela, chefe?
- É
a escrava que fugiu semanas atrás.
-
Você a recapturou? – o homem sabe que Lloyd não saiu da presença deles em
momento algum – Como?
- Eu
não a recapturei. Ela quis voltar.
Então
todos eles riem, exibindo seus dentes marrons em seus rostos barbudos.
-
Será que ela quer receber mais do nosso tratamento?
Apesar
daquela mulher ser uma escrava, ela é muito bonita e provocará cobiça em seu
bando. Não permitindo que isso aconteça, ele toma uma decisão egoísta e típica
de macho-alfa.
-
Ninguém toca nela! A partir de agora ela está sob minha proteção. Aquele que me desobedecer será a próxima refeição
do acampamento.
Os
caçadores não entendem a aspereza do chefe.
-
Por que o súbito interesse por uma escrava qualquer?
- A
partir de agora ela será minha exclusiva.
O
chefe encerra o debate e ordena que todos voltem ao que estavam fazendo. Rachel
tenta se tranquilizar, o homem que ela esteve procurando a aceitou de volta e a
colocou sob sua proteção. Pelo menos agora ela estaria segura.
Ao
voltar para o acampamento, a arquiteta não é levada de volta ao porão, e nem
mesmo à infame casa de madeira. O chefe Lloyd a segura pelo braço e a conduz
para outro lugar. Dentro daquele frigorífico abandonado há o prédio de
escritórios. Algumas salas têm sanitários próprios e também há banheiros
coletivos. Apesar da desorganização, o ambiente é limpo, arejado e bem
iluminado, diferente do porão escuro onde esteve cativa.
Passando
pelo corredor, ela vê que as salas foram esvaziadas dos materiais de
escritórios. No lugar há colchões, cobertores, armas e objetos pessoais. É ali
onde os caçadores ficam, eles fizeram do prédio administrativo seu alojamento.
Lloyd
abre a porta de sua sala. A arquiteta vê uma cama de casal e um sanitário no
canto. As armas e as roupas do chefe estão ali, juntos com suas dezenas de facas
e revistas pornográficas. Ele a joga na cama com rudeza. Rachel sente medo, mas
ele parece estar pensando em outra coisa. Abrindo um cofre na parede, ele
retira um saco de biscoitos e uma garrafa d´água. A arquiteta arregala seus
olhos, ela está faminta há dias.
O
chefe lhe oferece e ela devora os biscoitos em poucos minutos. Rachel nunca
gostou daquele tipo de alimento, mas naquele dia os biscoitos nunca foram tão
deliciosos. Ela bebe a água tão rápido que engasga, tossindo com a mão na boca.
Lloyd caminha com passos largos pela sala e, pegando sua faca de caça,
dirige-se à porta.
-
Não abra para ninguém senão para mim. – diz ele, sem olhá-la nos olhos.
Ele
então se retira.
Rachel
fica ali, sentada na cama sozinha dentro da sala. Confusa com a situação, ela
se deita na cama e se encolhe, pensando no que virá a seguir.
§
Nos
primeiros dias, Lloyd a usa como sua escrava sexual. Ele não conversa e todas
as tentativas de diálogo são ignoradas. A maior parte do dia ele está fora,
passeando no acampamento ou dirigindo até a cidade. Rachel é sua cativa, ela
não tem permissão de sair da sala e não sabe o que está acontecendo lá fora.
Ela se sente um objeto, uma roupa carnal para o pênis de Lloyd. “Essa
degradação teria valido a pena?” pensa ela.
À
noite, ela ouve os gritos das escravas vindos daquela cabana. Ela se pergunta
se sua amiga ou aquela garota ainda estão vivas. De dia ela ouve as
caminhonetes voltarem. Ao olhar pela janela, ela vê alguns peregrinos
capturados, eles choram e imploram inutilmente por suas vidas. A arquiteta
sente pena, os homens morrerão rápido mas as mulheres receberão o pior castigo,
sofrendo abusos e mais abusos diariamente.
Lloyd
aparece regularmente durante o dia para lhe dar comida. Ele lhe serve carne
assada sobre um prato de metal. A arquiteta ignora que aquilo é carne humana e
come em frente a ele. Ela não tem coragem de recusar e está faminta demais para
isso.
O
caçador volta tarde ao seu dormitório quando novas mulheres são capturadas. Ela
sabe que Lloyd está com os outros homens, experimentando as novas escravas. Ele
volta ao seu dormitório improvisado e se deita ao lado dela, cansado e
satisfeito sexualmente. Quando há novas escravas, o caçador não a deseja e os
dois não fazem sexo. Normalmente o chefe não deixa de desejá-la, nem quando ela
está menstruada.
Certo
dia ele leva dois baldes cheios de água para o dormitório. Ele os deixa em seu
sanitário particular e pede para Rachel se lavar. Ela pensa que Lloyd vai sair
de novo, mas ele a ajuda a se despir, embora de maneira bruta como é de seu
feitio.
Acendendo
seu fedorento cigarro artesanal, o caçador mergulha uma bucha de banho na água,
passa sabonete e então esfrega o corpo nu de Rachel. O chefe não demonstra
desejo, ele faz isso calmamente, lavando-a como se lavasse um cachorro ou um
objeto de muita afeição. A arquiteta não entende, o caçador é um homem muito
misterioso para ela.
Ao
acabar, ele pega uma toalha e a enxuga. Ela sente o cheiro de gasolina no
tecido, mas não tem coragem de interrompê-lo. Apesar da rudeza de Lloyd, ela se
felicita.
-
Obrigada. – diz ela, fazendo-o se virar enquanto ele caminhava para fora.
O
caçador a vê encostada no batente da porta, completamente nua. Ele parece
pensar em algo e então deixa o local.
Rachel
decide que é hora de se mostrar uma mulher e não mais uma simples escrava. Ela
quer se mostrar fiel, auxiliadora e definitivamente uma esposa.
As
coisas de Lloyd estão espalhadas pela sala. Suas roupas, armas e facas estão
lançadas pelo chão, semelhante a um chiqueiro. Ela tira seu casaco, arregaça
suas mangas e vai ao trabalho.
Rachel
limpa e organiza as armas por tamanho, separa as facas, dobras as roupas de
Lloyd e as empilha sobre a mesa. Em seguida ela abana o cobertor e o lençol da
cama, dobrando-os em seguida. Há uma vassoura no sanitário, ela a usa para
varrer todo o dormitório. Ela nota que algumas das roupas estão sujas e suadas.
Ao olhar para o teto, ela vê um fio elétrico em cima do forro. Usando uma faca,
ela corta o fio e o prende nas armações das janelas, formando um varal. Com a
água do banho, ela usa para lavar algumas camisas, meias e cuecas. Ela não
consegue lavar mais roupas, a água era muito escassa, mas se alegra ao saber
que tentou.
No final da tarde Lloyd retorna. Ele abre a
porta, entra e depois a tranca, distraído. Rachel vasculha a sala rapidamente
com o olhar e se prepara para recebê-lo. O caçador olha para dentro e se
espanta, saltando para trás como se visse um fantasma. O dormitório está
completamente limpo e organizado como nunca antes. A cama está arrumada e há
roupas lavadas no varal. O chão está varrido e não há pó sobre a mesa. O
sanitário está limpo e não há mais aquele cheiro ruim. Seria algum tipo de
alucinação?
Rachel
está em pé, segurando suas mãos na altura do estômago. Ela olha para ele como
se perguntasse mentalmente se ele gostou da surpresa. Ele, um caçador rústico e
desacostumado a demonstrar suas emoções, olha pare ela e pergunta:
-
Você fez isso?
-
Sim.
A
arquiteta percebe que ele também não tem habilidade com as palavras. Ele abre a
boca mas desiste, olhando tudo ao redor em silêncio. Por fim ele pergunta:
-
Onde está meu chapéu?
Ela
responde e em seguida mostra onde estão todas as outras coisas, apontando
detalhadamente a localização de suas roupas e objetos pessoais. O chefe não
sabe se ouve ou se surpreende ao ver sua sala tão bem organizada.
-
Você gostou?
-
Ficou bom... – responde ele, se esforçando para parecer natural. Talvez ele
tenha dificuldade ao conversar com mulheres e Rachel percebe isso.
- Se
você não achar algo, me pergunte e eu ficarei feliz em dizer onde está. –
responde ela, amigavelmente.
Com
muita insegurança, o caçador assente sem dizer nada. Ele tira suas roupas,
ficando apenas de cueca. Ele então se senta na cama e pede para Rachel se
sentar também. Imaginando o que ele vai querer, ela começa a se despir quando
ele pergunta:
-
Você gosta de pêssego?
A
arquiteta se intriga.
- O
quê?
- Eu
tenho uma lata de pêssegos guardada. Estou guardando há algum tempo. Você quer?
-
Sim. – ela sorri – Eu adoraria.
O
homem se levanta e pega sua lata no cofre. Ele a abre usando uma de suas facas
assustadoras, cortando a tampa de aço como se estivesse esfaqueando alguém.
Então ele lhe dá uma faca menor para ajudá-la a comer.
-
Obrigada. – responde ela.
Os
dois comem os pêssegos. Fazia anos que Rachel não provava algo tão doce. Suas
mãos tremem, ela sente fome constantemente. Não é todo dia que ela consegue
ingerir carne de gente.
-
Estão deliciosos. – diz ela.
O
caçador, se esforçando para ser simpático, responde:
-
Estive guardando para uma ocasião especial.
Ela
se sente lisonjeada. Talvez seu plano esteja funcionando.
Ao
terminar de comer, Lloyd se deita e a arquiteta o acompanha. Minutos se passam
na cama e a noite se aproxima. Quando tudo fica escuro, ela se pergunta se ele
não vai fazer sexo com ela. De repente ela sente seu braço passar em sua
cintura, abraçando-a. Para sua total surpresa, Lloyd adormece e ela ouve seus
roncos enquanto ele dorme. Ainda confusa, ela sorri, pondo sua mão sobre o
braço dele e adormecendo também.
§
Nos
dias seguintes, Lloyd muda sua maneira de desejar a arquiteta. Ao invés de
trata-la como um objeto, os dois têm longas conversas antes do sexo. Eles
passam horas conversando, o caçador se abre mais e expressa suas opiniões e
emoções. Rachel se torna sua ouvinte, dando-lhe conforto, sugestões e carinho
quando ele está triste. O caçador lhe revela onde cresceu, como foi criado,
onde trabalhou pela primeira vez, quem foi sua primeira namorada, qual foi seu
primeiro carro, e outras coisas triviais. A arquiteta se surpreende ao saber
que ele já foi casado três vezes.
Com o passar do tempo, o sexo bruto e
agressivo passa a ser suave e afetivo, e ela gosta também.
A
arquiteta ainda é cativa, mas a situação melhora. Lloyd lhe traz roupas novas,
presentes, comida e água limpa para se lavar. Ela limpa o dormitório, organiza
suas coisas e pede produtos de limpeza para lavar suas roupas. O caçador sempre
atende a seus pedidos, trazendo tudo o que ela precisa.
Não
demora muito e Rachel torna-se a esposa do mesmo homem que, nas ruínas, comete
todo tipo de atrocidade. Na privacidade do dormitório ele é carinhoso e
atencioso, mas nas ruínas ele e seu bando se divertem caçando gente, esfolando
seus corpos e mutilando-os para comer. Ela se sente casada com um membro da Schutzstaffel,
a temida guarda SS.
Após
três semanas presa no dormitório, Lloyd lhe diz algo inesperado:
-
Pode sair se quiser. – ele deixa a porta aberta. A arquiteta não consegue
conter a alegria, mas ele a adverte – Mas se fugir ou me trair com outro homem,
eu te mato com minhas próprias mãos.
Ela
assente em silêncio e então caminha para fora. Os caçadores estão no corredor,
caminhando tranquilamente enquanto cuidam de seus assuntos. Alguns olham para
ela com respeito, outros com desprezo, mas ninguém ousa confrontar o chefe por sua
causa.
A
luz do dia e o ambiente aberto lhe dão uma sensação maravilhosa. As ruas
estreitas e os galpões do frigorífico são cinzentos como sempre, mas é melhor
estar em liberdade.
Rachel
não mais está confinada ao dormitório de Lloyd. Toda manhã ela caminha pelo
acampamento, passando por aqueles homens barbudos, rústicos e violentos. Alguns
deles acenam e ela inicia um diálogo, aumentando sua influência. Aos poucos ela
perde o receio e não mais necessita de Lloyd para andar ao ar livre.
Passada
a primeira semana de liberdade, Rachel se sente parte do acampamento,
auxiliando Lloyd em suas decisões e resolvendo assuntos com os outros
caçadores. Ela se sente aceita e morbidamente adaptada ao novo estilo de vida
sanguinário deles.
Certo
dia, ela vê uma nova remessa de peregrinos capturados vindos das ruínas. Eles
estão em um estado deplorável, parecendo remendos humanos piores do que
mendigos. As mulheres, vestidas com trapos rasgados, famintas e sujas da cabeça
aos pés, contrastam com a boa nutrição, físico saudável e as roupas limpas de
Rachel. Apesar de demonstrar frieza, ela esconde compaixão em seu coração.
À
noite ela ouve os sons vindos da cabana. Os caçadores estão eufóricos com as
novas escravas, mas Lloyd não está entre eles. Ela pergunta:
-
Você não vai experimentar as novas escravas?
Enquanto
tira suas meias, ele responde:
- Para
quê?
A
arquiteta volta a olhar para a cabana e então pergunta novamente:
-
Lloyd, você me leva para a cabana amanhã?
O
caçador se intriga.
-
Por que você quer ir para lá?
-
Porque foi lá que eu fui estuprada pela primeira vez.
No
dia seguinte, Lloyd cruza o acampamento e a conduz para a casa de madeira.
Rachel tem lembranças horríveis daquele lugar, a casa de tortura e estupro. Ela
se sente confusa ao saber que está voltando ali não como uma escrava, mas como a
esposa do chefe.
A
sala da lareira cheira a suor e sangue. As roupas das mulheres estão jogadas
pelo chão. Olhando ao redor, ela sente vontade de chorar, ela sofreu abusos
terríveis naquele lugar.
As fotografias
ainda estão penduradas na parede. Ela nota que há mais algumas. Ao olhar para a
última, ela sente seu corpo tremer. A mulher do porão, sua amiga que a ajudou a
fugir, tem sua foto ali, pendurada como se fosse um troféu de caça. Rachel não
se contém e começa a chorar amargamente, ajoelhando-se abaixo da terrível
lembrança.
A
princípio Lloyd não entende e apenas passa sua mão pesada e calejada nos
cabelos dela. Controlando seus soluços, a arquiteta pergunta:
-
Como ela morreu?
O
caçador responde:
- Os
homens estavam se cansando dela. Ela era sempre receptiva e amigável, nunca
demonstrando medo ou agressividade. Os caçadores não se excitam com mulheres
assim – Lloyd respira fundo e continua – Trouxemos outras escravas, mais jovens
e totalmente apavoradas. Os caçadores decidiram se livrar dela, ela era entediante
demais para eles.
Rachel
olha para a foto de sua amiga e lê seu nome na plaqueta. A arquiteta nunca
soube o nome dela. Então o segundo choque vem e lhe estremece. “Esse nome...
Não é possível...!”.
Lucy
Sutherfield Morgan.
A
arquiteta se espanta, parecendo que seu coração vai sair por sua boca. “Esse é
o nome da esposa de Timothy!” pensa ela várias vezes.
Rachel
não se sente bem, sua visão embaça e ela se desnorteia. A surpresa é forte demais,
ela não aceita que aquilo é verdade. “A busca de Timothy, o homem mais nobre
que ela já conheceu, é totalmente em vão!”.
Entrando em colapso, ela começa a ofegar e a soluçar. Mas, incapaz de resistir,
ela desmaia aos pés de Lloyd.
O
caçador a acorda minutos depois. Ela ainda está na casa e enxerga as madeiras
do telhado. Acalmando-se, ela tenta se sentar.
-
Você está bem? – pergunta Lloyd.
- Esta
mulher... – ela olha para a foto de Lucy – era minha amiga.
-
Quer que eu te leve de volta?
-
Não. Só quero ficar um pouco sozinha.
Lloyd
assente, se levanta e deixa a casa.
A
arquiteta fica ali, sentada no chão e olhando para Lucy. Ela lamenta muito e
uma onda de tristeza a envolve. Timothy esteve procurando por Lucy durante
meses e Rachel sabia o tempo todo onde ela estava. O professor, que começou sua
busca liderando um grupo de peregrinos, se expondo a todo tipo de perigos e
arriscando sua vida incontáveis vezes, nunca desistiu de tentar achá-la. Como
ele reagiria agora se soubesse que Lucy morreu? E como ela morreu? Seria ele forte o suficiente para suportar?
Se
ao menos Rachel pudesse avisá-lo. Ela sabe que isso é impossível, o professor
deve estar em qualquer lugar agora. Em prantos, ela percebe que Timothy nunca
encerrará sua busca, ele continuará procurando para sempre. “Até ele
tragicamente morrer...” pensa ela.
Lucy,
sua amiga e salvadora, esposa de Timothy, seu amigo e salvador. A dor é forte
demais. Ela leva as mãos ao rosto e então chora mais uma vez.
Mais
tarde, a arquiteta pede para que Lloyd troque a plaqueta. Ela escreve outro
nome para sua heroína, a mulher que a salvou daquele acampamento, mas que
também a ensinou que naquele novo mundo deve-se fazer o que for preciso para
sobreviver. Lucy estava certa, afinal. Rachel reconhece isso todos os dias
enquanto ela anda pelo acampamento como uma mulher livre.
Daquele
dia em diante, em sua plaqueta se lê “Lucy, a Sobrevivente”.
A
arquiteta homenageia sua amiga, a misteriosa mulher que lhe ensinou que não
valia mais a pena lutar pelo mundo pré-guerra. Lucy não pôde evitar seu amargo
fim, mas sobreviveu ao seu flagelo enquanto todas as outras morriam espancadas,
doentes ou de suicídio. Lucy foi forte como seu marido, Timothy.
§
Rachel
ganha mais autonomia no acampamento dos caçadores. Lloyd passa a levá-la em
suas incursões pelas ruínas. Diversas vezes ele a deixou sozinha no veículo,
mas ela jamais pensou em fugir. Ela sabia que sua sobrevivência dependia da
permanência com eles. Conformando-se a isso, ela já havia se adaptado. Como
Lucy.
Sentada
na cabine da caminhonete, ela via os caçadores capturarem os peregrinos. Eram
pessoas famintas, desesperadas e doentes. Outros eram saudáveis, mas covardes demais
para lutar por suas vidas. Rachel desprezava a covardia deles, entregando seus
companheiros e até familiares para que os caçadores os deixassem ir.
Os
peregrinos eram covardes em essência. Preferiam trair seus companheiros a lutar
pela sobrevivência. Ela passa a odiá-los, pois os considerava fracos.
O
coração de Rachel se petrifica. Ela não mais sentia compaixão das futuras
escravas dos caçadores. Aqueles homens cruéis violentavam mulheres velhas ou
novas demais, eles não faziam distinção. A arquiteta já foi escrava e sabe do
que elas são capazes para sobreviver.
Em um
momento de lógica psicótica, Rachel se lembra de uma frase histórica que agora
fazia todo o sentido: “Em um mundo de guerra perpétua, aquele que não tem
capacidade para lutar não merece viver”.
Alguns
dias depois, Rachel volta de uma incursão nas ruínas. Ela está sentada ao lado
da janela, Lloyd dirige a caminhonete e há sete caçadores na caçamba. Ao chegar
no acampamento, o chefe estaciona o veículo em frente à cabana. Todos descem e
ela fica ali por um momento.
De
repente uma mulher aparece na janela e a assusta. Ela está toda suja, seu rosto
tem hematomas e ela está usando apenas um sutiã rasgado. É só mais uma das
escravas.
-
Por favor! Você tem que me ajudar! Esses homens me estupram todas as noites! Eu
preciso sair daqui, me ajude pelo amor de Deus!
Ao
olhar bem, Rachel reconhece a mulher ao seu lado. É a garota que estava no
carro de Ethan quando eles foram capturados.
-
Rachel...? – pergunta ela, surpresa.
“Garota
maldita, na primeira noite ela tentou incitar os caçadores a me levarem
primeiro!” lembra-se ela. Ela não é diferente dos peregrinos traiçoeiros e
covardes que Rachel odeia. Ela é igual.
Então
a arquiteta cospe em seu rosto. A garota fecha os olhos ao sentir a saliva tocar
seu nariz e sua boca. Os caçadores riem atrás dela, gargalhando de sua
tentativa fracassada de pedir ajuda.
Enquanto
os homens a levam para dentro da casa, Rachel se lembra de uma situação
parecida. Ela também já pediu ajuda para uma mulher antes, e essa mulher cuspiu
em seu rosto. Rachel nunca soube quem ela era, mas sabe que ela veio de outro
acampamento. Igual a Rachel, essa mulher tinha certo status entre eles. A
arquiteta se pergunta se ela não é a única a se aliar aos seus terríveis captores.
“Será que há mais mulheres iguais a mim?” pensa ela.
§
Um
mês depois, Lloyd estaciona a caminhonete em uma rua e os caçadores saltam da
caçamba. Os dois ficam sozinhos na cabine por um minuto. De repente o chefe
olha para ela e pergunta:
- É
verdade o que você sente por mim?
Ela
estranha a inesperada pergunta.
- Eu
não entendi.
-
Lembra-se desse lugar? Foi aqui onde nos encontramos e você disse que estava
apaixonada por mim. Quero saber se é verdade.
A
arquiteta sorri.
-
Mas é claro que é verdade. Eu te amo. De todo o meu coração.
-
Não teve medo que eu te matasse?
-
Meu único medo era ficar sem você.
O
caçador ainda não se convence.
-
Mas você ainda me ama?
-
Você me ama? – responde ela, com outra pergunta.
-
Sim. – responde ele, um pouco sem jeito.
-
Saiba que eu vou te amar até se você não me amar mais. Eu voltei por você,
Lloyd. Me apaixonei desde a primeira vez que te vi. Nunca duvide do meu amor,
está bem?
Então
o caçador não diz mais nada.
Os
dois saem da caminhonete. Rachel empunha seu rifle e há uma faca dentada em sua
cintura. Ela veste uma farda de soldado e um boné preto. Apesar da vestimenta
militar, ela está muito sexy.
Encontrando
um rastro recente, um dos caçadores indica as casas onde os peregrinos estão
escondidos. Lloyd e Rachel escolhem uma e a invadem, vasculhando os cômodos a
sua procura.
Agachado
em um quarto, o casal encontra um homem vestido com trapos sujos e rasgados.
Seu rosto tem longa barba e ele se parece com um mendigo. Apontando seus rifles
para o seu rosto, o homem levanta suas mãos. O peregrino ia dizer algo quando
Rachel aperta o gatilho, acertando-o no peito.
Lloyd
se assusta.
- E
então? – pergunta ela, recarregando a próxima bala – Ainda tem dúvidas do que
sinto por você?
Então
o caçador a agarra e a joga na cama, arrancando suas roupas e jogando-as pelo
quarto. Em seguida eles fazem sexo loucamente, com pulsadas fortes e arranhões
nas costas. Aquele foi o sexo mais excitante que Lloyd teve desde que ela
voltou.
Enquanto
isso o peregrino sangra no canto do quarto, morrendo lentamente enquanto os
dois se divertem na cama.

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