terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 33 - O Professor II


(Imagem de Hirak Banerjee)

O Professor

Rachel foi a última a partir. Agora Timothy não tinha mais amigos, os que restaram são os mesmos sobreviventes apáticos e pessimistas que ele conheceu na delegacia. Eles fugiram juntos. Hoje eles permanecem separados por interesses mesquinhos e egoístas.
O constante cinza dos dias e o constante medo das ruínas, nada mudou. O professor vagou pelas cidades abandonadas por muito tempo. A guerra parece que aconteceu cem anos atrás. Não havia nenhuma zona de segurança, não havia abrigos de quarentena, não havia sinais de rádio do exército chamando-os para a salvação. Todas as esperanças se foram. Sua vida era uma eterna peregrinação rumo a lugar nenhum.
Mas Timothy se agarrava a uma última esperança, tão vazia e improvável que se tornava ilógica. Ele queria encontrar Lucy.
O professor sabe que não mais encontrará sua esposa. Tudo o que anotou em seus cadernos, suas supostas pistas e recordações, foram inúteis. Ele reconhece que foi tudo perda de tempo. Aquelas folhas repletas de palavras e rabiscos, que tanto o serviram de consolo para sua angústia, já não valem mais nada. Timothy sabe que não tem mais esperança de encontrar Lucy. Para ele sua vida havia chegado ao fim.
Enquanto olha para seus cadernos, o professor decide escrever sobre os peregrinos mais notórios que estiveram em seu grupo.
Harold, o desprezível médico. O que Timothy tem a dizer sobre seu ex-amigo? Juntos os dois se aventuraram pelas ruínas, juntos eles arriscaram suas vidas. Devido à grande amizade, o professor o tinha como irmão. Essa consideração era rara nas ruínas, pois tudo havia sido evaporado pela explosão nuclear. Os sobreviventes que se encontravam, geralmente estranhos entre si, se olhavam com desconfiança, estando sempre prontos para roubar ou até matar para sobreviver. Não existiam mais amigos, não havia mais amizade, o que restava era apenas um oportunismo egoísta de permanecer vivo.
Com o médico foi diferente. Harold não tinha para onde ir e então se aliou a Timothy em sua busca incansável para encontrar sua esposa. Mas o que Timothy encontrou foi só decepção. O professor nunca encontrou sua esposa e Harold, seu melhor amigo, deixou sua própria esposa para morrer. Timothy daria tudo para ter sua Lucy de volta. Mas e Harold? Será que ele pensa em sua mulher agora? Será que ele se arrepende? O professor chora por dentro. Ele se lamenta de ter perdido seu amigo, mas se lamenta muito mais de ter feito amizade com um assassino.
Em sua vida, Timothy conheceu muitos egoístas, mas nenhum foi pior do que George Everett. Membro de uma ilustre ordem maçônica, George se gabava de sua elevada posição social que a ordem lhe proporcionava. O professor não o conheceu bem, George esteve muito pouco tempo no grupo, mas sabia algumas coisas a seu respeito. O maçom era quieto e arrogante, não gostava de se misturar com os outros peregrinos. Timothy soube que uma mancha terrível assombrava seu passado. Algo que ele não foi capaz de superar.
George dedicou sua vida à ordem maçônica. Empresário de sucesso, foi convidado a participar da ordem e logo isso tornou sua obsessão. O novo membro imoralmente rejeitou sua família, mas em seguida foi rejeitado. Deixado para trás na véspera do apocalipse nuclear, ele se desesperou. Convicto de que sobreviveria em uma espécie de abrigo, ele, como outros milhões de cidadãos comuns sem o privilégio da riqueza, se tornaria mais uma das vítimas das ogivas nucleares. Mas George sobreviveu. E assim se inicia sua busca, uma busca arrogante e egoísta com um único motivo: encontrar aqueles que o deixaram para trás.
Susan Bradley foi uma respeitada juíza antes da guerra. Idealista e determinada, sua personalidade forte incitava temor e admiração. A autoridade lhe caía bem, ela não gostava de receber ordens. Susan era o tipo de mulher que gostava de responsabilidades, pois gostava de liderar. Mas por causa de seu autoritarismo excessivo ela afugentou todos os homens que vieram a amá-la. Era mãe solteira e teve que criar seu filho sozinha. Seu filho cresceu sem pai. Se a solidão era o preço a ser pago para ser dona de sua própria vida, ela estava disposta a pagar.
Então veio a guerra e toda a sua autoridade se perdeu. Sozinha com seu filho nas ruínas, ela se tornou uma peregrina. Certo dia a juíza encontrou um grupo de peregrinos e decidiu juntar-se a eles. Era um bom grupo com exceção de seu líder. Homem autoritário e covarde, sempre ansioso para ver perigo em tudo. Se a sobrevivência do grupo dependesse dele, ele se encheria de medo e os deixaria morrer. Susan não é do tipo de mulher que recebe ordens de um homem, muito menos de um covarde. Mas seria melhor que fosse. Ela aprendeu do pior jeito que o novo mundo não era um lugar seguro, e que aquele líder covarde, o tal Timothy, estava certo o tempo todo. Se não fosse por seu autoritarismo e arrogância, seu filho ainda estaria vivo. Apesar de não ter morrido, ela também.    
A jornalista Marisa Torres teve uma vida bem ingrata. Foi uma opositora implacável dos Estados Unidos antes da guerra. Nascida em um país de terceiro mundo, era tido como heroína em seu povo. Mas suas opiniões mudaram radicalmente quando suas crenças ideológicas, todas baseadas na pobreza e na desigualdade, se mostraram falsas e hostis, sendo um disfarce hipócrita e demagógico para seus próprios líderes. E se o que ela acreditava não for verdadeiro? E se tudo foi em vão?
Acusada injustamente de traição, ela pediu asilo político nos Estados Unidos. Lá ela se casou e teve dois filhos. Sua vida seria feliz se a guerra, a mesma que outrora ela apoiava, não tivesse acontecido. Marisa perdeu seu marido e seu filho morreu contaminado pela radiação. Sozinha em um mundo devastado, ela fez de sua filha, uma adorável e inteligente menininha, sua válvula de escape para todas suas frustrações. Timothy não sabe o que aconteceu com Marisa, não sabe se ela ainda está viva, mas depois de tudo que aconteceu com ela, prefere acreditar que não.  
Lembrando-se de Joseph, ele pondera. O pequeno Joseph, tão atencioso e inteligente, era alguém cuja eloquência demonstrava grande conhecimento e classe. Entretanto, Joseph era um homem pequeno. Como todo homem de baixa estatura, o eloquente Joseph era ressentido por dentro, escondendo atrás de sua imensa inteligência alguém que, diferente de muitos outros, não cresceu tanto. Negligenciado pela família e pela vida, nem mesmo a genética lhe foi generosa. Timothy pensa em seu velho amigo, o filósofo que buscou nos estudos uma forma de compensação. Um último grito, um impulso do subconsciente, uma válvula de escape para a constante pressão dos sentimentos reprimidos.
Mas como todo sujeito baixo, Joseph era um covarde. Corpo fraco e espírito forte, eis a máscara do pequeno filósofo. Alguém de grandes aspirações. Para conquistar seu espaço entre os grandes, Joseph não deixou de usar da mais pura violência para obter respeito. Após ver com seus próprios olhos a selvageria que se tornou o mundo e sentir na própria pele o horror, ele escolheu o caminho dos devassos e assassinos, jogando fora toda sua humanidade e amor próprio. “Compensação”, pensa Timothy.
Matthew, o dedicado pai de família. Durante o pouco tempo em que esteve com o grupo, Matthew falou pouco, mas todos sabiam o que ele foi e o que ele fez. Advogado e pai de dois filhos, Matthew exercia sua profissão de maneira questionável. Disposto a dar uma vida confortável à sua família, ele advogaria para qualquer um pelo preço certo, inclusive a um culpado. Certo ou errado, era uma questão de ponto de vista.
Algo sinistro aconteceu com ele. Após um delírio emocional, ele matou sua esposa e seus dois filhos. Ele teria se suicidado se Timothy não o tivesse impedido. O advogado disse que ouviu uma voz, que os mortos falaram com ele. Alguns podem chamá-lo de louco e outros de médium, mas se era loucura ou mediunidade, nem mesmo Matthew podia dizer.
Rachel era uma mulher bela e passional. Ela falou pouco sobre sua profissão, mas Timothy sabia que, assim como no amor, ela era apaixonada pela arquitetura. Rachel já foi casada e teve um filho, mas abandonou tudo para viver com seu amante. Para sua decepção, seu amante foi embora e a deixou sozinha, sem casa ou um lugar para ir. Por sorte, alguém a encontrou e a convidou para fugirem juntos, pouco antes da guerra começar. Dessa maneira ela começou sua vida nas ruínas, abandonada pelo homem que ela mais amou.
Mas como toda pessoa que vive em função do amor, ela se apaixonou por outro homem. Ele era mais um assassino facínora, líder de um grupo de estupradores e canibais.  Primeiro ela quis fugir de seu acampamento, mas semanas depois ela decide deixar o grupo e voltar para ele. Por amor as pessoas fazem de tudo. Por amor as pessoas enlouquecem. O amor, sendo a maior força da humanidade, também é sua mais terrível fraqueza. Por amor Rachel voltou para o seu homem, por amor ela sacrificou suas virtudes. O amor exige sacrifício. Rachel sempre fez e sempre fará tudo por ele.
Após escrever sobre eles em seu caderno, Timothy finalmente percebe. Todos eram estudados e tinham diploma universitário. Todos, inclusive Timothy, tinham vidas confortáveis antes da guerra. Finada a guerra, os fortes de outrora tornaram-se fracos. Que ironia. Os que antes eram prósperos, bem sucedidos, empresários, com boas profissões e nível universitário, hoje são escravizados e perseguidos pelos miseráveis e criminosos de outrora. A profissão e o nível superior os faziam fortes na sociedade competitiva do velho mundo. Mas o que é um diploma hoje além de um simples pedaço de papel?
Houve uma inversão de valores, uma abolição de direitos, uma revolução. Ou foi um retorno inevitável à ordem natural das sociedades primitivas? Joseph tentou avisá-lo disso, mas Timothy não quis ouvir. Ele não quis aceitar que o mundo em que vivia antes estava morto e enterrado debaixo de toneladas de entulho.
Aqueles que antes eram vistos como pobres demais, feios demais, estúpidos demais, se organizaram em gangues e usam da força para impor sua vontade. Nunca a inteligência foi mais forte que as armas de fogo, as barras de aço ou as facas afiadas. Um único golpe e a mente genial não existe mais. Carros velozes, mansões luxuosas, roupas de grife, eram tudo ilusão. Como Timothy pôde ser tão cego? Como ele não se atentou que após a destruição de tudo, as coisas que ele mais se importava não valeriam mais nada?
A guerra foi purificadora. A radiação foi o inseticida para a praga humana. A chuva de bombas foi o cálice derramado da ira de Deus descrito no Apocalipse. Como que ninguém pôde ver isso? Como puderam ser tão ignorantes?

§

Certo dia, enquanto caminhava pelas ruínas, Timothy se deparou com um estranho peregrino. O homem caminhava sozinho, olhando atentamente para os prédios destruídos e os montes de entulho. Ao ver o professor, ele abre um sorriso e o cumprimenta gentilmente.
- Quem é você? – pergunta o professor.
O homem lhe faz um olhar sério e responde por fim:
- Me chame de Pregador.
- Pregador...?
Timothy o observa de cima a baixo. O homem veste um terno e gravata, mas seu sapato social está gasto e com um furo na ponta. O professor vê um denso livro em sua mão. Na capa está escrito “Bíblia Sagrada”.
- O que está fazendo caminhando sozinho nas ruínas?
- Estou procurando.
- Procurando?
- Sim. Todos estamos procurando por algo, pelo visto você também. Somos iguais, você e eu.
O homem parece falar com incoerência, mas seu olhar é de pura convicção.
- E o que está procurando?
- Pessoas. Sobreviventes do Juízo que vagam perdidos pelo mundo. “Peregrinos” como costumam dizer. Eu prego o Evangelho àqueles que ainda existem.
O professor deixa escapar um sorriso.
- Acho que não encontrará muitos dispostos a ouvi-lo, pregador...
- Por que não? – pergunta o homem, intrigado.
- Porque depois de tudo o que aconteceu, acho que ninguém mais tem fé.
- Ora... – sorri ele, amigavelmente – A fé não se explica, se vive.
Após presenciar tanta dor e desgraça, ver alguém falar de fé era quase um absurdo.
- Você não deveria caminhar nas ruínas sozinho. Junte-se ao meu grupo. É perigoso caminhar sozinho por aí.
- Meus passos são guiados. Não há perigo para quem vive pela fé.
O pregador insiste em falar sobre aquilo.
- Não fale besteira! Junte-se ao meu grupo. Assim estará protegido.
- Protegido? Você não crê que a mão de Deus o guarde por onde quer que esteja?
Então Timothy não se contém e ri.
- Crer em Deus? Acho que você está enganado, amigo...
- Crer em Deus também significa crer no mundo criado, crer na vida, na beleza e na felicidade. Uma vez firmado na fé, nada mais pode lhe prejudicar.
Timothy se emudece com tamanha insensatez.
- Isto é loucura...
O pregador sorri.
- Não, meu irmão. Não é loucura.
- Se Deus existisse, então por que permitiria que o mundo se tornasse isso? – ele aponta para as ruínas.
- Percebo que sua alma está muito angustiada. Você passou por momentos difíceis e agora culpa a Deus por tudo. Ouça-me. Muitos procuram a Deus e não sabem onde encontrá-lo. Procuram buscá-lo e, por não encontrá-lo, caem na descrença. Na descrença o ofendem. Na ofensa tropeçam. No tropeço caem. Na queda sentem-se fracos. Na fraqueza buscam socorro. E no socorro encontram a misericórdia e o perdão. Infelizmente nem todos encontraram a misericórdia e o perdão, não é mesmo?
Sem querer admitir, as palavras do pregador fazem sentido e aos poucos quebrantam o coração endurecido do professor.
- Passei por situações horríveis antes de chegar aqui. Perdi minha esposa, minhas filhas e meus amigos. Não sei o que pretende me falando isso, mas pregação nenhuma pode mudar o passado, muito menos seu Deus.
- Nosso passado pode explicar porque estamos sofrendo, mas não devemos usá-lo como desculpa para permanecermos escravos dele.
O pregador parece usar frases feitas, decoradas de algum lugar. Apesar de serem muito sábias, o professor as rejeita. Talvez ele não seja forte o bastante para se libertar de seu passado, ou talvez meras palavras não sejam o suficiente para fazê-lo esquecer de tudo o que aconteceu. As ruínas estão ali, imponentes e fortes, lançando olhares cruéis contra aqueles que são fracos demais para habitarem em suas profundezas.
- Eu acho que você perdeu a cabeça...
- Pense no que eu te falei. Reflita a respeito e então terá paz.
O pregador aperta amigavelmente sua mão, se despede e então continua seu caminho. Timothy o interrompe.
- Espere! Aonde você vai? Fique com o grupo. Será mais fácil sobreviver assim.
- Eu preciso ir.
- Mas aonde você vai?
O pregador sorri.
- Vou pregar o Evangelho.

§

Aqueles que compunham seu grupo, aqueles que ainda restaram, já não querem mais acompanhá-lo. Muitos perderam a confiança em Timothy. Eles se queixam o tempo todo e espalham a desesperança entre si. O professor não tem mais força, já não consegue mais acalmá-los e uni-los. Ele permanece em silêncio, deixando o grupo atrás de si se rebelar e se dividir.
À noite eles se abrigam em um prédio abandonado. Enquanto se aquecem ao redor de uma fogueira, alguém diz:
- Para onde estamos indo, Timothy?
O professor para de escrever em seu caderno e olha para o homem. O grupo todo o encara com insatisfação e desconfiança.
- Eu não sei.
O homem ri, indignado.
- Como assim não sabe?
- Estou procurando por minha esposa. Eu não sei para onde a levaram. Já disse isso a vocês.
- Então você está arriscando a vida de todos para “encontrar a sua esposa”?
- Vocês concordaram com isso quando fugimos da delegacia. Vocês me pediram para liderá-los pelas ruínas por terem para onde ir. O que eu faço nunca foi segredo.
Insultado, o homem responde:
- Então você não vai se importar se todos aqui forem embora e deixarem você procurar sua esposa sozinho?
- Muitos de vocês já foram embora quando a juíza Susan foi raptada pelos saqueadores. Se quiserem partir, que vão. Não vou segurar ninguém.
Os remanescentes do grupo se ofendem. Liderados por aquele homem, todos se levantam, pegam suas coisas e um a um começam a partir. Timothy continua sentado, assistindo eles irem embora em silêncio. O homem se aproxima do professor. Parando ao seu lado, ele cospe em Timothy e então vai embora.
A fogueira ilumina timidamente o ambiente. O professor olha ao redor, o silêncio novamente se levanta nos cantos. Abaixando sua cabeça, seus lábios tremem e lágrimas se escorrem de seus olhos. Timothy tristemente reconhece. Ele estava sozinho.
Horas se passam. Deitado em frente à fogueira, o professor tenta dormir. Seu sono é pesado e cheio de pesadelos, ele não consegue dormir em paz. Timothy acorda no meio da madrugada e desiste de dormir. O escuro é absoluto com exceção das brasas da fogueira. O silêncio é quebrado algumas vezes pelos zunidos dos ventos. Acordar no escuro sem ninguém ao seu lado era algo estranho. Ele não estava acostumado a lidar com a solidão.
O passado decide revisitá-lo aquela noite. Olhando distraidamente para o escuro, ele se lembra de tudo o que aconteceu até aquele momento. As lembranças são amargas e dolorosas, sua família, seu grupo, sua vida... O desânimo o aflige severamente e a angústia assombra sua mente. Timothy carrega uma coleção de fracassos.
Ao amanhecer do dia, o professor sente sede. Pegando sua garrafa, ele vê a mesma água barrenta que esteve bebendo por dias. Ele não podia mais suportar isso.
Timothy pega suas coisas e, antes de deixar o prédio, vai ao banheiro. Enquanto urina, ele ouve um ruído atrás de si e então se paralisa de medo. Vozes são ouvidas no local onde passou a noite, desconhecidos adentraram o prédio e caminham sorrateiramente sobre os escombros. Deixando o banheiro, o professor se agacha e tenta enxergar quem são aquelas pessoas.
Vestindo roupas de bombeiro e máscaras de gás, dois homens portando machados invadem o esconderijo de Timothy. Enquanto vasculham o local, a respiração abafada de suas  máscaras produz um ruído ameaçador.
Os homens observam as brasas da fogueira e procuram por rastros. Um deles diz:
- Estou louco por heroína.
- Está com abstinência? O chefe não vai tolerar ataques violentos nas escravas por causa disso.
- Não. Ainda não. Temos que achar esse peregrino logo. Só assim teremos escravos o suficiente para vendermos aos mercadores.
- É uma pena que só eles vendem heroína. A gente podia roubar deles, não é verdade?
- Você está louco?! Os mercadores portam armas! Um movimento em falso e eles abrem um novo buraco em você.
- Tem razão... Eu já vendi heroína também. Fiquei cinco anos na prisão, mas me soltaram por bom comportamento. Sempre fui um menino bonzinho...
Ainda observando o local, um deles afirma:
- Ele deve estar próximo.
- Aqueles peregrinos não mentiram, afinal.
- Eles devem ser muito burros para caminhar nas ruínas à noite.
- E também fazem de tudo para salvar suas vidas, até entregar um deles.
- Fique atento. Acho que ele não foi longe.
Enquanto os dois continuam conversando, Timothy arregala os olhos. Os remanescentes de seu grupo foram capturados durante a noite. A indignação o consome por dentro. Eles o entregaram aos saqueadores! Após todo esse tempo protegendo-os nas ruínas! Mais uma vez o professor se surpreende com a ingratidão e o egoísmo do ser humano. Timothy dividiu sua água, seus alimentos e seus casacos com o grupo. Eis a retribuição.
Se o professor ainda tivesse forças, ele se encheria de ódio contra seus antigos companheiros, mas está muito fraco e cansado para isso. A tristeza é mais forte que sua vontade de viver. Talvez se conformar seja menos doloroso.
Dando as costas, ele se esgueira pelos corredores e deixa o local.

§

Os dias se passam com indiferença. Timothy sente fome, sede, cansaço, mas ignora seu corpo. A amargura se apoderou dele. Tudo era irrelevante, indiferente e imutável. O mesmo sentimento que o afligiu quando Harold e Joseph se foram volta mais forte. O professor sofria com a melancolia.
Passando ao lado de uma grande janela de vidro, ele enxerga seu reflexo. A imagem é suja e empoeirada, mas ele consegue ver. O reflexo mostra um homem sujo, barbudo e vestido com andrajos. Suas botas estão gastas e são de pés diferentes. Suas luvas não tem a ponta em seus dedos. Sua mochila está rasgada e ele pode ver seus cadernos na parte de dentro. Timothy se aproxima da janela. Seu rosto está magro e ossudo, há olheiras profundas. Abrindo sua boca, ele vê seus dentes amarelos de sujeira. “Meu Deus” pensa ele. “No que eu me tornei?”.   
O professor pensa em sua vida antes da guerra. Ela era um excelente educador, seus alunos o admiravam. Ele era capaz de inspirá-los quando os instruía. Muitos reclamavam que sua profissão era mal remunerada, e que poucos se dispunham a exercer algo tão mal reconhecido. Para Timothy era diferente. Ele era apaixonado pela profissão e prosperou exercendo-a. Sua família vivia bem, sua esposa o amava e suas filhas recebiam educação digna. Era maravilhoso usufruir do sucesso, mas para onde foi esse sucesso agora?
Ainda olhando para a janela, ele tem uma surpresa. Seus olhos são azuis. Timothy sorri para si mesmo. Como ele pôde se esquecer de algo tão trivial?
O professor desfaz seu sorriso e se afasta da janela. Mais lembranças de seu passado e ele não suportará mais viver.
No dia seguinte, Timothy chega a uma estação de trem. A visão é impressionante e muito depressiva. Os vagões de trem foram tombados e descarrilaram ao longo da linha, amontoando-se um sobre o outro. Alguma ogiva caiu perto dali, a onda de choque foi capaz de descarrilar o trem. A estação, porém, não sofreu muitos danos. O professor explora seus interiores e vê alguns buracos no teto, mas é só isso. Como tudo nas ruínas, os bancos, as salas e as bilheterias estão empoeirados e vazios. Timothy sente náusea e se assusta. A radiação estava no ar.
Deixando a estação, ele se dirige à plataforma. Ao se sentar em um banco, ele olha ao redor e admira a sinistra paisagem. Escombros, silêncio e solidão. Os trilhos estão obstruídos por pedaços de madeira do teto, os cartazes estão caídos no chão, a pintura se descasca das paredes... A deterioração de tudo era lenta e progressiva.
O trem descarrilado cheira a morte e podridão. Os mortos ainda estão em seus vagões, ninguém os tirou de lá. Pela aparência, ninguém entrou ali para saquear também. A escuridão e penumbra inspiram mal agouro e afastam eventuais invasores. Timothy reconhece. Apenas o medo inspira respeito à casa dos mortos.
“Os mortos” pensa ele. Os únicos que se salvaram do inferno nuclear. Os sobreviventes não são sobreviventes, são vítimas que vagam pelo Purgatório em busca de salvação. Os mortos descansam em paz. Os vivos enfrentam a danação. Tudo se revolve para uma visão pessimista de tudo. Não há salvação. Não há para onde ir. Não existe mais um “lar”. Os lares de antes se foram, foram varridos pelo fogo ou contaminados pela radiação. O que vai ser de quem continua vivo? O professor se repreende. “Como eu pude ser tão cego?”
Mais uma vez consumido pela melancolia, ele abre seu caderno e escreve:

"Lucy, sou eu, Timothy. Tudo bem? Espero que sim. Como estão as coisas? Está se alimentando bem? Aí há água para você beber? Você sabe como sou preocupado, como gosto de cuidar de você. Você sempre foi tudo o que sempre tive. Não sei por que estou fazendo isso, escrevendo desse jeito como se fosse uma carta a um ente querido. Na verdade eu me sinto um idiota. Prefiro me sentir assim, fingindo que você vai ler e que você está bem".

"Eu sinto tanto sua falta. Eu não sei mais o que pensar, não sei mais o que fazer, não sei mais onde procurar. Na verdade já não tenho mais vontade de viver. Lucy, minha doce e querida Lucy, preciso tanto de você agora. Onde é que você está?! Eu não gosto de ficar sozinho. Sem você aqui só vejo solidão".

"Estou tão triste e sozinho. Estou tão carente de você. Tudo o que fiz durante todo esse tempo, procurando e procurando, foi para te encontrar. Mas eu nunca te encontrei. Não quis perder a esperança. Não quis ficar sem você. Mas eu fui mesmo um idiota. Não quis me conformar com o que aconteceu. Não quis considerar a ideia de que nunca mais ficaríamos juntos. Me sinto tão culpado agora. Eu confesso, eu finalmente confesso. Foi tudo minha culpa".

"Eu sempre fiz tudo errado. Eu era um homem idealista. Você era uma mulher prática, ativa, sempre atenta para tapar meus buracos, corrigir meus erros. E veja só o que aconteceu, o que eu fiz para nós dois. Não mereço perdão".

"Lucy, minha doce e querida Lucy, queria tanto que estivesse aqui. Queria tanto conversar, me abrir, falar dos meus problemas, ouvir seus conselhos. Lucy, eu te amo tanto. Queria tanto ouvir sua voz, ver seus olhos, admirar seu rosto, cheirar seus cabelos, senti-la em meus braços. Queria me apaixonar por você de novo. Sinto tanta saudade. Por que você não aparece? Por que você não volta?".

"Estou em uma estação de trem agora, sentado em frente à plataforma. Lembra-se que foi em uma estação de trem em que nos beijamos pela primeira vez? Sempre achei isso tão romântico, um beijo apaixonado em uma plataforma. Estou rindo disso agora. Eu estava envergonhado... Mas não quis perder a chance. Você estava com pressa porque tinha de ir ao trabalho, mas eu segurei sua mão e a puxei de volta, beijando-a como se fosse a última coisa que eu faria no mundo. Você amoleceu em meus braços e então o trem partiu. Percebendo que você ficou irritada por saber que iria chegar atrasada ao trabalho, eu me assustei e te disse: acho que você perdeu o trem".

"Passo horas aqui. Me agarro à ilusão de que um trem vai aparecer e você vai desembarcar. De como quando éramos jovens e eu te esperava na plataforma para irmos juntos para casa. O começo do casamento foi difícil, eu ainda não tinha carro e ainda não tínhamos as meninas, mas juntos vencemos enfim. Passamos por muita coisa juntos, não é mesmo? Situações que só os casais que se amam de verdade conseguem passar".

"Acho que vou dormir aqui essa noite. Estou cansado demais, não consigo mais caminhar. Minha água está acabando, minha comida azedou. Eu não me importo. Prometi que ia te encontrar. Será que vou manter a promessa? Quanto tempo faz que você se foi? Um ano? Até hoje não encontrei uma única pista do seu paradeiro. Não estou pensando em desistir, mas Lucy, e se não nos vermos de novo?".

"A melancolia se apossou de mim. Todo o meu grupo se foi. Meus melhores amigos se mostraram pessoas horríveis. Meus dias vão do cinzento para o negro. A vida se escurece diante dos meus olhos. Onde está você para me fazer companhia? Para iluminar meus dias com seu sorriso que é mais intenso que um raio de sol? Eu poderia te esperar aqui para sempre se eu tivesse a mínima esperança de que você viria. Eu preciso tanto de você".

"Lucy, eu te amo tanto. Este amor vibra em meu peito, estremece o meu ser. Lucy, eu te amo tanto, tanto, que sem ele eu não poderia viver. Estou chorando tanto, as lágrimas molham meu rosto e minhas mãos. Eu fracassei. Não mereço você. Me perdoe, Lucy. Não sei se isso é o suficiente, mas sempre foi sincero o meu amor por você".

Timothy fecha seu caderno, enxuga seus olhos e se deita no banco. Ele lança olhares confusos no horizonte. Mais uma vez a noite se aproxima e ele não sabe o que fazer. Tudo se foi. Só havia solidão. Seus pensamentos se tornam repetitivos. Ele já não tem mais nada de diferente para pensar. Talvez o sono conforte sua alma torturada.

§

Uma semana se passa. Timothy está desequilibrado. Fazendo da estação de trem sua casa, ele vaga pelas salas escuras como um fantasma. Fraco e desnutrido, ele conversa sozinho como se Lucy, seus amigos e suas filhas estivessem ali, todos reunidos e em segurança como ele sempre quis que fosse.
O medo da radiação não o assusta mais. Os cientistas, tão alarmistas quanto aos riscos, sempre disseram que a raça humana morreria em poucos dias após as explosões nucleares. Mais de dois anos se passaram e ele continua vivo. Ninguém sabe o que acontece antes que realmente aconteça.
O professor está sentado em frente à bilheteria. Acendendo uma fogueira, ele pega uma panela, a enche de água poluída e ferve as ervas que crescem no vão dos trilhos. Não havia mais comida, a água ele tirou dos radiadores dos carros no estacionamento. Manchas e sintomas aparecem em seu corpo, mas devido ao seu desequilíbrio, ele não se importa.
- Se ainda existissem flores, eu daria uma pra você. – diz ele, simulando uma conversa com Lucy.
Distraído, ele continua conversando quando ouve um som atrás de si. Assustado, ele se cala e olha para trás. Ele ouve passos sobre os cacos de vidro, alguém caminhava dentro da estação.
- Quem está aí?
Tudo se silencia. Ele espera algum tempo, mas não há resposta.
Timothy se vira e finge continuar cozinhando. De repente ele pega sua mochila, se levanta e corre para a rua, rápido como um relâmpago.
- Rápido! Ele está fugindo!
Ao passar pela porta, nove homens tentam agarrá-lo. Timothy se apavora. Os homens vestem uniformes de cientista e máscaras de gás, semelhantes àquelas usadas em Chernobyl. Ele grita e se desvencilha, correndo aos tropeços pela entrada da estação.
Desviando-se dos carros, ele avança pelas ruas. Timothy ouve os gritos abafados dos saqueadores atrás de si. Urros e rosnares de selvageria, aqueles homens não devem ser gente. A caçada dura alguns minutos mas o professor não desiste, seu instinto de sobrevivência é mais forte.
Após alguns quarteirões, ele não ouve mais os saqueadores. Escondendo-se atrás de um carro, ele olha para trás e não vê ninguém. Respirando fundo e recuperando o fôlego, ele se senta e descansa. Então um mascarado aparece ao seu lado e grita:
- Ele está aqui!
Timothy se apavora. Correndo contra o saqueador, ele o empurra e ambos vão para o chão. O saqueador porta uma faca e tenta golpeá-lo. O professor segura sua mão e ambos rolam pelo piso. Batendo a mão do homem contra o chão, o saqueador solta sua faca. O saqueador lhe dá um soco no rosto, fazendo o professor sair de cima de si.
Tentando recuperar sua faca, o saqueador se arrasta pelo chão, mas Timothy o segura novamente. O homem chuta seu rosto, atordoando-o. Novamente com sua faca, o saqueador avança sobre ele para golpea-lo. Timothy lhe dá uma rasteira e o homem cai. Pegando um pedaço de entulho, Timothy rapidamente pula sobre o homem e golpeia sua cabeça. O saqueador grita. Dominado pela adrenalina, o professor o golpeia mais e mais vezes, macetando-o até aparecer uma mancha vermelha gosmenta em sua máscara.
O saqueador não se mexe mais. Caído de braços abertos, a mancha vermelha aumenta vertiginosamente em sua cabeça. As mãos do professor mãos tremem. Ele nunca matou um homem antes. Pegando sua mochila, ele se afasta e corre novamente.
Passados alguns quarteirões, alguém grita atrás dele:
- É um dos nossos!
Os saqueadores encontraram o corpo. O professor corre, as vozes ainda estão atrás dele. Ele corre o mais rápido que pode. Os saqueadores o perseguem com fúria e um sanguinário desejo de vingança. Timothy não tem muito tempo. Virando em uma esquina, ele tenta se esconder em algum lugar. Os montes de entulho são muito instáveis e ele não consegue atravessá-los. As entradas dos edifícios estão bloqueadas pelos escombros. Escalando o entulho, pontas afiadas de aço cortam sua pele e rasgam suas roupas. Fugir estava sendo doloroso demais.
As vozes ainda estão atrás dele, os saqueadores o viram passar por ali. O fim estava próximo. O medo e a angústia dominam sua mente. Seu corpo treme. Lágrimas rolam de seus olhos. Percebendo que não adiantava mais insistir, ele chora amargamente.
-Lucy...
Ao sussurrar, a voz arde em sua garganta. O choro dificulta sua fala, mas ele não quer falar mais. Ele só quer pensar nela, sua esposa da qual ele tanto amou.
Tentando pateticamente correr, ele desiste poucos passos depois.
- Lucy...
Cansado de fugir, o professor se encurva com a mão no peito e se apoia na parede ao seu lado. Ele está ofegante e, recuperando o fôlego, se senta sobre um denso pedaço de entulho. Estava tudo acabado. Finalmente ele ficou sozinho. Seus companheiros, seus parentes, seus amigos, os peregrinos casuais que surgiram pelo caminho, todos foram raptados, vendidos ou mortos. Após tanto tempo nas ruínas, sempre correndo, sempre fugindo, ele foi o único que sobrou. O único sobrevivente.
O professor está velho, desnutrido e desidratado, não há razão para continuar fugindo. Não vai demorar muito e em breve ele estará doente, ele passou muito tempo exposto à radiação. De sua mochila rasgada ele retira um entre outros cadernos e continua fazendo a única coisa que alivia sua dor, transmitindo às páginas brancas toda sua aflição e severo sofrimento. Ele escreve o que seus olhos viram, acontecimentos que ele nunca desejaria ter visto, mas que sua mente jamais irá esquecer.
A última palavra é seu último adeus.

"Lucy, me perdoe. Eu falhei com você. Depois desse dia meus olhos se fecharão para sempre e eu nunca mais a verei novamente. Me perdoe. Eu sinto muito. Eu não consegui te encontrar".

"Eu te amo, Lucy. Eu sempre vou te amar. Peço do fundo do meu coração que me perdoe".

"Adeus".

"Timothy Morgan".
   
Olhando ao redor, o professor vê uma caixa de correio. Então ele tem uma ideia. Não querendo que seus escritos se percam para sempre, ele põe seus cadernos de volta na mochila e a enfia na caixa de correio. Se algum dia o mundo voltar ao normal, se algum dia os tempos de transição terminarem, ele espera que alguém os encontre e saiba o que realmente aconteceu naquele período.
Timothy se senta. Colocando as mãos sobre o rosto, ele chora novamente. Lucy não sai de sua cabeça. O que ela pensaria se o visse agora? Não era assim que ele imaginava um líder morrendo. Abandonado e traído por seus próprios companheiros. Mas nada disso importa. Ele falhou com seu amor. O que sobrou de Lucy foi apenas a saudade.
Ao tirar as mãos de seus olhos, o professor vê uma dúzia de homens parados à sua frente. Alguns portam facões e outros machados, mas todos vestem aquelas sinistras máscaras de gás. Timothy não diz nada, eles também não. Era como se ele olhasse a morte nos olhos, fria e sem nenhuma emoção. Naquele momento ele desiste de tudo e finalmente percebe. Não há salvação.
Os saqueadores tentam agredi-lo, mas o chefe os interrompe.
- Parem! – então todos olham para ele – Ele vale mais para nós se estiver vivo.
Agarrando-o pelas roupas, os homens o puxam e o levam pelas ruínas.



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