sexta-feira, 24 de abril de 2020

Tiergarten - 03 - O Muro de Berlim



No dia seguinte, Gunther está determinado a realizar seu plano. Ele pretende atravessar o Muro de Berlim. Vestindo suas roupas, ele calça seus sapatos e deixa o apartamento. Mas então algo acontece.
Ao fechar a porta, aquele estranho telefone toca em seu quarto. Surpreso, ele ouve a campainha e se confunde. Em seu relógio ainda são oito e meia da manhã. “Não era para ele tocar só à noite?” pensa ele.
Abrindo lentamente a porta, ele olha para dentro de seu apartamento e, da entrada, espia a porta de seu quarto. Ele percebe o quanto sua casa era solitária sem sua mãe e, com o toque daquele misterioso telefone ecoando pelas paredes, a sensação de solidão lhe enchia de medo.
“Maldito aparelho!”, pensa ele. “Por sua causa minha casa ficou sinistra”.
Ainda com medo, ele passa pela sala e adentra seu quarto. Pegando o receptador, ele o atende.
- Alô?
- Não faça isso, Gunther. Eles vão mata-lo.
Imediatamente ele responde.
- Eu quero a minha mãe de volta!
- Eu já disse, ela não foi presa. Acredite!
- Eu não acredito em você. – insiste ele.
A voz argumenta.
- Se ela estivesse presa, por que você tentaria atravessar o muro? Em caso de detenção, seria lógico que ela estaria em alguma prisão no leste, não é mesmo?
O rapaz se confunde, a voz tem razão.
- Apenas me diga onde ela está.
- Exatamente onde ela disse que iria, o Tiergarten.
Gunther é direto.
- Então eu vou para lá.
A voz se desanima.
- Está bem, eu o deixarei ir a este muro. Mas saiba que o plano que você planejou e com os recursos que você tem, você não poderá atravessa-lo. Não precisa acreditar em mim, pois eu sei que você não vai, mas sob seu travesseiro estão alguns documentos da Stasi contendo as mais famosas fugas. Leia-o, seu quiser. Mas já te aviso que estará perdendo tempo.
Deixando o receptador na mesa, Gunther se dirige à sua cama e milagrosamente encontra uma pasta de documentos sob seu travesseiro. “Como isso é possível?!” pensa ele. “Ninguém entrou aqui em momento algum!”.
Retornando ao telefone, ele pergunta:
- Como isso apareceu aqui?!
Mudando de tom, a voz rispidamente responde:
- Cale a boca e me escute. Você não poderá deixar Berlim Oriental.
Surpreso, ele pergunta:
- Por que não?
- Porque eu não quero.
Então a voz se silencia e ele só ouve estática.

§

Caminhando próximo ao muro, ele o observa de longe. Ao nível da rua ele não podia enxergar muita coisa, a não ser a fria barreira se estendendo por quilômetros e quilômetros. Acima da barreira ele vê o arame farpado e as torres de vigia mais acima, a temida faixa da morte só podia ser vista de seu apartamento. “Ela é indubitavelmente intransponível”, pensa ele. “O que eu farei então?”.
Uma longa avenida se aproxima e ele a reconhece, era a movimentada Unter den Linden. Desviando-se dela, Gunther se esgueira entre os carros e entra em um beco, afastando-se das ruas largas.   
O beco toma uma direção favorável e o aproxima do muro. Olhando discretamente para os lados, ele corre para dentro de um prédio e sobe as escadas. Ele reconhece um prédio residencial com vários tapetes nas soleiras das portas. Chegando ao último andar, ele vê um alçapão aberto e rapidamente entra. Gunther se vê em um sótão empoeirado e empilhado com várias coisas. Sob o baixo teto, ele vê uma janela com uma privilegiada vista do Muro de Berlim.
Agachado em frente à janela empoeirada e amarelada com o tempo, ele observa a paisagem abaixo. Ao longe ele vê o famoso Portão de Brandenburgo, o belíssimo monumento histórico e turístico da cidade. Gunther o ironiza, pois o mesmo portão que levava ao Tiergarten agora leva a um mortífero beco sem saída. Apesar da longa distância, ele vê os guardas fronteiriços patrulhando o muro e as plataformas.
- O portão se tornou um beco sem saída... – sussurra ele. Suas palavras saem com rancor e ironia – E pensar que minha mãe está logo no outro lado. – Gunther se refere ao frondoso Tiergarten.
Tão perto e tão longe, assim era a realidade dos cidadãos de Berlim.
Abrindo sua pasta, ele lê alguns documentos. Os papeis têm brasões da RDA e logotipos da Stasi, indicando que tudo aquilo era legítimo. Gunther cada vez mais se convencia de que conversava com uma espiã. Os fugitivos tiveram ideias bem audaciosas e, apesar de haverem várias mortes, alguns se sucederam em atravessar.
O primeiro inquérito é do ano de 1961. Ele relata o caso de um berlinense chamado Heinz Meixner, que fugiu com seu carro conversível carregando duas mulheres, sua noiva e sua sogra, escondidas na parte de trás. O plano consistia em rebaixar seu carro e passar por debaixo da cancela do Checkpoint Charlie. Para realizar seu intento, Heinz tirou o para-brisa e esvaziou os pneus, assim atravessando a fronteira e alcançando o oeste.
O segundo inquérito é do mesmo ano e relata o célebre caso de Conrad Schumann. Destacado para guardar a Rua Bernauer, o jovem soldado corre sobre os arames farpados e deserta para Berlim Ocidental. Aproveitando-se que o muro ainda não estava pronto, ele é filmado no exato momento de sua fuga, tornando-se famoso e entrando para a história de seu país e do mundo.
O terceiro inquérito é de 1963 e trata-se do soldado Wolfgang Engels. Soldado do exército oriental, Wolfgang rouba um veículo blindado e irrompe contra o muro. Ele não conseguiu derruba-lo, mas o escalou e ficou preso no arame farpado. O desertor foi baleado duas vezes pelos guardas, mas alguns ocidentais o viram e o ajudaram a descer do arame, resgatando-o.
O quarto inquérito é de 1966 e trata-se de Horst Klein, um trapezista proibido de se apresentar na RDA devido às suas opiniões anticomunistas. Subindo em um poste, Horst equilibrou-se em um cabo elétrico em desuso e atravessou a fronteira oriental. Caminhando sobre os atônitos guardas, as mãos de Horst ficaram dormentes devido ao frio e ele caiu, quebrando os dois braços na queda. Para sua sorte, ele caíra na Berlim Ocidental. 
Um inquérito lhe desperta interesse. Reinhold Ruhn, um jovem soldado de 21 anos, foi morto a tiros por um fugitivo em 1962. O fugitivo, de nome Rudolf Müller, levando consigo sua esposa, sua enteada e mais dois filhos, pretendia fugir por um túnel escavado sob a fronteira. Surpreendido pelo soldado, o fugitivo se defendeu abrindo fogo e em seguida fugiu. Vários soldados vieram em seu encalço, atirando na direção dele e das crianças, mas falharam em captura-lo. Gunther se admira que, dessa vez, não foram fugitivos baleados e mortos naquele maldito muro, mas um guarda do lado oriental. No inquérito consta que Reinhold Ruhn teve um funeral grandioso e televisionado, tornando-se um mártir na RDA.
Nesse momento, Gunther pensa: “será que eu seguirei esse trágico exemplo? Será que, para atravessar a fronteira, eu terei de assassinar um homem?”.
Ponderando, ele reconhece que, caso matasse alguém, estaria criando um novo mártir do fracassado sistema alemão oriental. “Mas e se, ao invés, matassem a mim?”, pergunta-se ele. “Provavelmente eu seria só mais um cadáver fuzilado no muro, jogado no chão como lixo, com meu sangue se escorrendo pelos buracos de bala”. E morbidamente ele conclui: “e o soldado assassino seria recompensado com um generoso prêmio em dinheiro, como é comum na RDA”.
- É isso o que a minha vida vale, um prêmio em dinheiro para esses infelizes. – sussurra ele, com um pouco de ódio ao seu país.
Estudando minuciosamente os documentos, várias ideias vêm à sua mente. Escavação de túneis, cabos de aço sobre os prédios, balões de gás caseiros, escondido em tanques de combustível, nas subterrâneas linhas de metrô... De fato, não havia escassez de ideias. “Mas qual delas era a mais prudente?” pensa ele. “Prudente?!”, ri ele de si mesmo, percebendo que em nada daquilo havia prudência.          
Ainda naquele sótão, ele observa a área entre os muros, a temida Faixa da Morte. Aquela se tratava da quarta geração do muro, a conhecida Stützwandelement [1]UL 12.11. Suas 45 mil placas de concreto tinham 3,6 metros de altura e 1,2 metros de largura. Seu topo era revestido com um cano liso para dificultar a escalada. A faixa era reforçada com trincheiras anti-veículo, arame farpado, cães de guarda, e o famoso “tapete de Stalin”, uma espécie de canteiro revestido de pregos afiados.
“Stalin...”, pensa ele. “O famigerado ditador facínora, um monstro que se tornou herói por derrotar outro monstro pior do que ele, Adolf Hitler”. O rapaz se lamenta que alguns cidadãos da própria Alemanha ainda o amam, apesar da cruel divisão que sua política imperialista fez em seu país.
Voltando os olhos à faixa, ele vê suas torres de vigia e os famosos “ouriços checos”, aqueles obstáculos anti-veículo feitos de barras de aço. As torres de vigia eram posicionadas estrategicamente ao longo de todo o comprimento da fronteira. A posição privilegiada e os holofotes em seu topo as tornavam perigosas demais. À frente dos ouriços checos havia uma camada de areia, assentada para revelar os passos de quem tentasse fugir.
“Não é possível atravessar”, pensa ele. Se ele tivesse de planejar uma fuga, teria de ser algo realmente engenhoso. Gunther pensa em atravessar a Cortina de Ferro, mas devido aos seus mortais campos minados, ele prefere encontrar sua mãe inteiro e não aleijado.    
Desanimando-se, ele fecha sua pasta e deixa aquele escuro sótão.
De volta à rua, o rapaz abre sua pasta e decide ler alguns documentos para se distrair. Entretanto, aqueles eram documentos muito perigosos. Várias pessoas passam ao seu lado e o notam ali, imprudentemente lendo papeis confidenciais no meio da rua. No estado policial da RDA, atividades suspeitas eram vistas como espionagem, e meras piadas em relação ao governo podiam lança-lo na prisão.
Em sua mão ele vê um documento com o logotipo da Volkskammer, o baixo parlamento da Alemanha Oriental. Intrigado, ele se pergunta:
- Mas o que é que isso está fazendo aqui?
Enquanto lê, dois homens caminham com passos determinados em sua direção. Gunther não os nota, ele está distraído demais com os papeis em suas mãos. Aproximando-se, os homens perguntam:
- Guten Morgen[2], cidadão. O que você está fazendo?
Ao levantar os olhos, Gunther sente seu coração saltar. À sua frente ele vê dois homens vestindo fardas cinzas e portando rifles. Ele os reconhece, eram dois policiais da Volkspolizei[3].
- Entschuldigung[4] , senhor policial. Eu me distraí com minhas... coisas.
O rapaz fecha rapidamente sua pasta.
- O que é que você tem aí?
Os policiais são diretos ao inquirir.
- Não é nada, apenas meu material escolar.
- Você é estudante?
- Universitário. – corrige ele, falsamente.
- O que você estuda?
- Literatura clássica alemã. – responde ele, de improviso.
Então os homens se entreolham.
- Como as obras de Johann Wolfgang von Goethe?
- Karl Marx. – corrige ele, de novo – Desculpe meu assombro, mas geralmente as pessoas se referem a Goethe pelo seu último nome. Muito me admira o senhor chamá-lo por seu nome completo. O senhor também lê os clássicos alemães?
Gunther sorri, tentando enganá-lo. Mas o homem nada responde, apenas lhe devolvendo um olhar frio como o gelo.
- Você não deveria estar trabalhando a essa hora? – pergunta o outro policial.
O rapaz não trabalha, ele era uma das raríssimas pessoas sustentadas por parentes muitos generosos na Alemanha Oriental.
- Eu... – então ele se lembra de sua mãe – Na verdade eu não trabalho. Estudo em uma universidade do Estado, me mantendo com o dinheiro da aposentadoria da minha mãe.
- Você não trabalha...?! – o policial custa a acreditar.
- Eu me dedico a apenas estudar, senhor policial.
- Me mostre sua identidade, por favor.
- É claro.
Apalpando sua calça, Gunther tem um segundo susto. Ele havia esquecido sua carteira em casa. Ele sempre conferia, mas ao atender o enigmático telefone, ele a havia esquecido completamente. Andar sem identificação em Berlim Oriental era perigoso e nada recomendado.
- Qual é o problema? Me mostre sua identidade!
O rapaz se empalidece. Sem esboçar reação, ele não consegue mais responder. Então algo acontece.
Ao longe, na direção do Portão de Brandemburgo, uma sirene toca. O alto volume dos falantes assustam a todos na rua, inclusive os policiais. Rapidamente eles empunham seus rifles e correm em direção ao muro, com outros policiais próximos também atendendo ao chamado.
Aproveitando a chance, Gunther corre também, mas na direção oposta. Esgueirando-se pelos carros e pelos becos, ele caminha apressadamente até sua casa. Chegando ao apartamento, Gunther se alivia. Ele estava a salvo. 

§

Anoitece em Berlim Oriental. Parado em frente à janela como de costume, o rapaz novamente vê o holofote da torre de vigia iluminar brevemente seu quarto. Ele não saiu mais de seu apartamento, pretendendo não se arriscar novamente.
Planos passam por sua mente. Gunther quer muito deixar a RDA, mas seu sonho de liberdade parecia improvável. Sua mãe está do outro lado, ela o havia deixado sozinho. “Então é isso o que eu quero? Alguém para que eu não fique sozinho?”.
A pasta de documentos está sobre a cama. Os papeis confidenciais estão espalhados pelo lençol, cada um com um logotipo de um órgão diferente do Estado. Lembrando-se que ele seria imediatamente preso se a polícia entrasse ali, Gunther decide escondê-los.
Então o telefone toca.
- Hallo?[5]
- E então, Gunther? Desistiu dessa ideia absurda?
A voz o ligara à noite, também como de costume.
- De maneira alguma. Eu tive mais ideias ao ler os documentos na pasta.
Soltando um riso, a voz lhe pergunta:
- Que pasta?
- Ora, essa. A pasta que você me... – virando-se, a pasta sobre sua cama havia desaparecido – deu...
Segundos se passam. O rapaz está boquiaberto e não consegue se mexer.
- Gunther? Você ainda está aí?
Recompondo-se, com muito esforço ele diz:
- O que é você...?
- Estou do seu lado, Gunther. Mas você precisa confiar em mim.
- Confiar? – irrita-se ele – Hoje de manhã você disse que não me deixará partir!
- Estou zelando por sua segurança. Mas muito longe você não poderá ir.
- Não tente me manipular! Você não pode me privar de minha liberdade!
- E do que se trata essa liberdade? A Alemanha Ocidental?
É exatamente da RFA[6] que sua liberdade se trata.
- Não te devo satisfações.
Em tom mais compreensivo, a voz argumenta:
- Gunther, veja esses fugitivos da Alemanha Oriental. Eles partem para o ocidente em busca de liberdade, prosperidade e melhores condições de vida. Mas você já parou para se perguntar que a prisão, na verdade, pode ser o ocidente?
O rapaz não compreende.
- Do que está falando?
- Aqui você tem oferta de trabalho, saúde pública, habitação para todos e alimentação, embora eu reconheça que ela pode ser escassa. Os ocidentais chamam o socialismo de ditatorial, miserável, intolerante, beligerante e opressor contra o seu próprio povo. Chamam a RDA de Estado Policial ou um Estado Prisão, negando aos seus cidadãos o direito de ir e vir. Mas você já parou para pensar que, enquanto o socialismo os priva, na verdade ele os salva? Veja o vício burguês do qual os ocidentais estão se afogando. Quanto mais eles estiverem expostos, menos chances eles terão de salvação. Em seu coração se infiltra o veneno reacionário, inflamando-os contra o operariado que tenta liberta-los com sua Revolução. Na verdade, Gunther, a maior realização da liberdade não se encontra além do muro. Ela está aqui.
Surpreso, o rapaz retruca:
- Então você é contra que os cidadãos tenham a liberdade de melhorar suas vidas?
- Muito pelo contrário! Os cidadãos devem se libertar dos grilhões burgueses que lhes prendem. Como diria Karl Marx, “o trabalhador não tem nada a perder em uma revolução comunista, a não ser suas correntes”.
Gunther deixa sair um sorriso.
- Com esse êxodo de trabalhadores migrando para o ocidente, acho que temos definições bem diferentes de liberdade.
- Estou tentando protege-lo. É para o seu próprio bem.
- Com o marxismo? Você realmente acredita nisso?
Desafiante, a voz lhe devolve a pergunta:
- Você acredita?
- Não sei se posso emitir minhas opiniões para uma agente da Stasi.
- Conversaremos depois. Por enquanto, vá atender a porta. Uma vizinha acaba de chegar.
- Atender? Mas ninguém tocou a... – de repente a campainha toca – Espere um pouco, como você sabia sobre a porta?
Estática.

 
      


[1] Elemento do muro de contenção
[2] Bom dia em alemão
[3] Polícia popular da RDA
[4] Desculpe-me
[5] Alô em alemão
[6] República Federativa da Alemanha, mais conhecida como Alemanha Ocidental

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