No dia seguinte,
Gunther está determinado a realizar seu plano. Ele pretende atravessar o Muro
de Berlim. Vestindo suas roupas, ele calça seus sapatos e deixa o apartamento.
Mas então algo acontece.
Ao fechar a
porta, aquele estranho telefone toca em seu quarto. Surpreso, ele ouve a
campainha e se confunde. Em seu relógio ainda são oito e meia da manhã. “Não
era para ele tocar só à noite?” pensa ele.
Abrindo
lentamente a porta, ele olha para dentro de seu apartamento e, da entrada, espia
a porta de seu quarto. Ele percebe o quanto sua casa era solitária sem sua mãe
e, com o toque daquele misterioso telefone ecoando pelas paredes, a sensação de
solidão lhe enchia de medo.
“Maldito
aparelho!”, pensa ele. “Por sua causa minha casa ficou sinistra”.
Ainda com medo,
ele passa pela sala e adentra seu quarto. Pegando o receptador, ele o atende.
- Alô?
- Não faça isso,
Gunther. Eles vão mata-lo.
Imediatamente ele
responde.
- Eu quero a
minha mãe de volta!
- Eu já disse,
ela não foi presa. Acredite!
- Eu não acredito
em você. – insiste ele.
A voz argumenta.
- Se ela
estivesse presa, por que você tentaria atravessar o muro? Em caso de detenção, seria
lógico que ela estaria em alguma prisão no leste, não é mesmo?
O rapaz se
confunde, a voz tem razão.
- Apenas me diga
onde ela está.
- Exatamente onde
ela disse que iria, o Tiergarten.
Gunther é direto.
- Então eu vou
para lá.
A voz se desanima.
- Está bem, eu o
deixarei ir a este muro. Mas saiba que o plano que você planejou e com os
recursos que você tem, você não poderá atravessa-lo. Não precisa acreditar em
mim, pois eu sei que você não vai, mas sob seu travesseiro estão alguns
documentos da Stasi contendo as mais famosas fugas. Leia-o, seu quiser. Mas já
te aviso que estará perdendo tempo.
Deixando o
receptador na mesa, Gunther se dirige à sua cama e milagrosamente encontra uma
pasta de documentos sob seu travesseiro. “Como isso é possível?!” pensa ele. “Ninguém
entrou aqui em momento algum!”.
Retornando ao
telefone, ele pergunta:
- Como isso apareceu
aqui?!
Mudando de tom, a
voz rispidamente responde:
- Cale a boca e
me escute. Você não poderá deixar Berlim Oriental.
Surpreso, ele
pergunta:
- Por que não?
- Porque eu não
quero.
Então a voz se
silencia e ele só ouve estática.
§
Caminhando
próximo ao muro, ele o observa de longe. Ao nível da rua ele não podia enxergar
muita coisa, a não ser a fria barreira se estendendo por quilômetros e
quilômetros. Acima da barreira ele vê o arame farpado e as torres de vigia mais
acima, a temida faixa da morte só podia ser vista de seu apartamento. “Ela é
indubitavelmente intransponível”, pensa ele. “O que eu farei então?”.
Uma longa avenida
se aproxima e ele a reconhece, era a movimentada Unter den Linden. Desviando-se
dela, Gunther se esgueira entre os carros e entra em um beco, afastando-se das
ruas largas.
O beco toma uma
direção favorável e o aproxima do muro. Olhando discretamente para os lados,
ele corre para dentro de um prédio e sobe as escadas. Ele reconhece um prédio
residencial com vários tapetes nas soleiras das portas. Chegando ao último
andar, ele vê um alçapão aberto e rapidamente entra. Gunther se vê em um sótão
empoeirado e empilhado com várias coisas. Sob o baixo teto, ele vê uma janela
com uma privilegiada vista do Muro de Berlim.
Agachado em
frente à janela empoeirada e amarelada com o tempo, ele observa a paisagem
abaixo. Ao longe ele vê o famoso Portão de Brandenburgo, o belíssimo monumento
histórico e turístico da cidade. Gunther o ironiza, pois o mesmo portão que
levava ao Tiergarten agora leva a um mortífero beco sem saída. Apesar da longa
distância, ele vê os guardas fronteiriços patrulhando o muro e as plataformas.
- O portão se
tornou um beco sem saída... – sussurra ele. Suas palavras saem com rancor e
ironia – E pensar que minha mãe está logo no outro lado. – Gunther se refere ao
frondoso Tiergarten.
Tão perto e tão
longe, assim era a realidade dos cidadãos de Berlim.
Abrindo sua
pasta, ele lê alguns documentos. Os papeis têm brasões da RDA e logotipos da
Stasi, indicando que tudo aquilo era legítimo. Gunther cada vez mais se
convencia de que conversava com uma espiã. Os fugitivos tiveram ideias bem
audaciosas e, apesar de haverem várias mortes, alguns se sucederam em
atravessar.
O primeiro
inquérito é do ano de 1961. Ele relata o caso de um berlinense chamado Heinz
Meixner, que fugiu com seu carro conversível carregando duas mulheres, sua
noiva e sua sogra, escondidas na parte de trás. O plano consistia em rebaixar
seu carro e passar por debaixo da cancela do Checkpoint Charlie. Para realizar
seu intento, Heinz tirou o para-brisa e esvaziou os pneus, assim atravessando a
fronteira e alcançando o oeste.
O segundo
inquérito é do mesmo ano e relata o célebre caso de Conrad Schumann. Destacado
para guardar a Rua Bernauer, o jovem soldado corre sobre os arames farpados e
deserta para Berlim Ocidental. Aproveitando-se que o muro ainda não estava
pronto, ele é filmado no exato momento de sua fuga, tornando-se famoso e
entrando para a história de seu país e do mundo.
O terceiro
inquérito é de 1963 e trata-se do soldado Wolfgang Engels. Soldado do exército
oriental, Wolfgang rouba um veículo blindado e irrompe contra o muro. Ele não
conseguiu derruba-lo, mas o escalou e ficou preso no arame farpado. O desertor
foi baleado duas vezes pelos guardas, mas alguns ocidentais o viram e o
ajudaram a descer do arame, resgatando-o.
O quarto
inquérito é de 1966 e trata-se de Horst Klein, um trapezista proibido de se
apresentar na RDA devido às suas opiniões anticomunistas. Subindo em um poste,
Horst equilibrou-se em um cabo elétrico em desuso e atravessou a fronteira
oriental. Caminhando sobre os atônitos guardas, as mãos de Horst ficaram
dormentes devido ao frio e ele caiu, quebrando os dois braços na queda. Para
sua sorte, ele caíra na Berlim Ocidental.
Um inquérito lhe desperta
interesse. Reinhold Ruhn, um jovem soldado de 21 anos, foi morto a tiros por um
fugitivo em 1962. O fugitivo, de nome Rudolf Müller, levando consigo sua esposa, sua enteada e mais
dois filhos, pretendia fugir por um túnel escavado sob a fronteira.
Surpreendido pelo soldado, o fugitivo se defendeu
abrindo fogo e em seguida fugiu. Vários soldados vieram em seu encalço,
atirando na direção dele e das crianças, mas falharam em captura-lo. Gunther se
admira que, dessa vez, não foram fugitivos baleados e mortos naquele maldito
muro, mas um guarda do lado oriental. No inquérito consta que Reinhold Ruhn
teve um funeral grandioso e televisionado, tornando-se um mártir na RDA.
Nesse momento,
Gunther pensa: “será que eu seguirei esse trágico exemplo? Será que, para
atravessar a fronteira, eu terei de assassinar um homem?”.
Ponderando, ele
reconhece que, caso matasse alguém, estaria criando um novo mártir do
fracassado sistema alemão oriental. “Mas e se, ao invés, matassem a mim?”,
pergunta-se ele. “Provavelmente eu seria só mais um cadáver fuzilado no muro,
jogado no chão como lixo, com meu sangue se escorrendo pelos buracos de bala”. E
morbidamente ele conclui: “e o soldado assassino seria recompensado com um
generoso prêmio em dinheiro, como é comum na RDA”.
- É isso o que a
minha vida vale, um prêmio em dinheiro para esses infelizes. – sussurra ele,
com um pouco de ódio ao seu país.
Estudando
minuciosamente os documentos, várias ideias vêm à sua mente. Escavação de
túneis, cabos de aço sobre os prédios, balões de gás caseiros, escondido em
tanques de combustível, nas subterrâneas linhas de metrô... De fato, não havia
escassez de ideias. “Mas qual delas era a mais prudente?” pensa ele.
“Prudente?!”, ri ele de si mesmo, percebendo que em nada daquilo havia
prudência.
Ainda
naquele sótão, ele observa a área entre os muros, a temida Faixa da Morte. Aquela
se tratava da quarta geração do muro, a conhecida Stützwandelement [1]UL
12.11. Suas 45 mil placas de concreto tinham 3,6 metros de altura e 1,2
metros de largura. Seu topo era revestido com um cano liso para dificultar a
escalada. A faixa era reforçada com trincheiras anti-veículo, arame farpado,
cães de guarda, e o famoso “tapete de Stalin”, uma espécie de canteiro
revestido de pregos afiados.
“Stalin...”,
pensa ele. “O famigerado ditador facínora, um monstro que se tornou herói por
derrotar outro monstro pior do que ele, Adolf Hitler”. O rapaz se lamenta que
alguns cidadãos da própria Alemanha ainda o amam, apesar da cruel divisão que sua
política imperialista fez em seu país.
Voltando
os olhos à faixa, ele vê suas torres de vigia e os famosos “ouriços checos”,
aqueles obstáculos anti-veículo feitos de barras de aço. As torres de vigia
eram posicionadas estrategicamente ao longo de todo o comprimento da fronteira.
A posição privilegiada e os holofotes em seu topo as tornavam perigosas demais.
À frente dos ouriços checos havia uma camada de areia, assentada para revelar
os passos de quem tentasse fugir.
“Não
é possível atravessar”, pensa ele. Se ele tivesse de planejar uma fuga, teria
de ser algo realmente engenhoso. Gunther pensa em atravessar a Cortina de
Ferro, mas devido aos seus mortais campos minados, ele prefere encontrar sua
mãe inteiro e não aleijado.
Desanimando-se,
ele fecha sua pasta e deixa aquele escuro sótão.
De volta à rua, o
rapaz abre sua pasta e decide ler alguns documentos para se distrair. Entretanto,
aqueles eram documentos muito perigosos. Várias pessoas passam ao seu lado e o
notam ali, imprudentemente lendo papeis confidenciais no meio da rua. No estado
policial da RDA, atividades suspeitas eram vistas como espionagem, e meras
piadas em relação ao governo podiam lança-lo na prisão.
Em sua mão ele vê
um documento com o logotipo da Volkskammer, o baixo parlamento da Alemanha
Oriental. Intrigado, ele se pergunta:
- Mas o que é que
isso está fazendo aqui?
Enquanto lê, dois
homens caminham com passos determinados em sua direção. Gunther não os nota,
ele está distraído demais com os papeis em suas mãos. Aproximando-se, os homens
perguntam:
- Guten Morgen[2],
cidadão. O que você está fazendo?
Ao levantar os
olhos, Gunther sente seu coração saltar. À sua frente ele vê dois homens vestindo
fardas cinzas e portando rifles. Ele os reconhece, eram dois policiais da Volkspolizei[3].
- Entschuldigung[4] , senhor policial. Eu me distraí com minhas... coisas.
O rapaz fecha
rapidamente sua pasta.
- O que é que
você tem aí?
Os policiais são
diretos ao inquirir.
- Não é nada,
apenas meu material escolar.
- Você é
estudante?
- Universitário.
– corrige ele, falsamente.
- O que você
estuda?
- Literatura
clássica alemã. – responde ele, de improviso.
Então os homens
se entreolham.
- Como as obras
de Johann Wolfgang von Goethe?
- Karl Marx. –
corrige ele, de novo – Desculpe meu assombro, mas geralmente as pessoas se
referem a Goethe pelo seu último nome. Muito me admira o senhor chamá-lo por
seu nome completo. O senhor também lê os clássicos alemães?
Gunther sorri,
tentando enganá-lo. Mas o homem nada responde, apenas lhe devolvendo um olhar frio
como o gelo.
- Você não
deveria estar trabalhando a essa hora? – pergunta o outro policial.
O rapaz não
trabalha, ele era uma das raríssimas pessoas sustentadas por parentes muitos
generosos na Alemanha Oriental.
- Eu... – então
ele se lembra de sua mãe – Na verdade eu não trabalho. Estudo em uma
universidade do Estado, me mantendo com o dinheiro da aposentadoria da minha
mãe.
- Você não
trabalha...?! – o policial custa a acreditar.
- Eu me dedico a
apenas estudar, senhor policial.
- Me mostre sua identidade,
por favor.
- É claro.
Apalpando sua
calça, Gunther tem um segundo susto. Ele havia esquecido sua carteira em casa.
Ele sempre conferia, mas ao atender o enigmático telefone, ele a havia
esquecido completamente. Andar sem identificação em Berlim Oriental era
perigoso e nada recomendado.
- Qual é o
problema? Me mostre sua identidade!
O rapaz se
empalidece. Sem esboçar reação, ele não consegue mais responder. Então algo
acontece.
Ao longe, na
direção do Portão de Brandemburgo, uma sirene toca. O alto volume dos falantes
assustam a todos na rua, inclusive os policiais. Rapidamente eles empunham seus
rifles e correm em direção ao muro, com outros policiais próximos também
atendendo ao chamado.
Aproveitando a
chance, Gunther corre também, mas na direção oposta. Esgueirando-se pelos
carros e pelos becos, ele caminha apressadamente até sua casa. Chegando ao
apartamento, Gunther se alivia. Ele estava a salvo.
§
Anoitece em
Berlim Oriental. Parado em frente à janela como de costume, o rapaz novamente vê
o holofote da torre de vigia iluminar brevemente seu quarto. Ele não saiu mais
de seu apartamento, pretendendo não se arriscar novamente.
Planos passam por
sua mente. Gunther quer muito deixar a RDA, mas seu sonho de liberdade parecia improvável. Sua mãe está do outro lado, ela o havia deixado sozinho. “Então é
isso o que eu quero? Alguém para que eu não fique sozinho?”.
A pasta de
documentos está sobre a cama. Os papeis confidenciais estão espalhados pelo lençol,
cada um com um logotipo de um órgão diferente do Estado. Lembrando-se que ele
seria imediatamente preso se a polícia entrasse ali, Gunther decide
escondê-los.
Então o telefone
toca.
- Hallo?[5]
- E então,
Gunther? Desistiu dessa ideia absurda?
A voz o ligara à
noite, também como de costume.
- De maneira
alguma. Eu tive mais ideias ao ler os documentos na pasta.
Soltando um riso,
a voz lhe pergunta:
- Que pasta?
- Ora, essa. A
pasta que você me... – virando-se, a pasta sobre sua cama havia desaparecido – deu...
Segundos se
passam. O rapaz está boquiaberto e não consegue se mexer.
- Gunther? Você
ainda está aí?
Recompondo-se,
com muito esforço ele diz:
- O que é
você...?
- Estou do seu
lado, Gunther. Mas você precisa confiar em mim.
- Confiar? –
irrita-se ele – Hoje de manhã você disse que não me deixará partir!
- Estou zelando
por sua segurança. Mas muito longe você não poderá ir.
- Não tente me
manipular! Você não pode me privar de minha liberdade!
- E do que se
trata essa liberdade? A Alemanha Ocidental?
É exatamente da
RFA[6] que sua liberdade se trata.
- Não te devo
satisfações.
Em tom mais
compreensivo, a voz argumenta:
- Gunther, veja
esses fugitivos da Alemanha Oriental. Eles partem para o ocidente em busca de
liberdade, prosperidade e melhores condições de vida. Mas você já parou para se
perguntar que a prisão, na verdade, pode ser o ocidente?
O rapaz não
compreende.
- Do que está
falando?
- Aqui você tem
oferta de trabalho, saúde pública, habitação para todos e alimentação, embora
eu reconheça que ela pode ser escassa. Os ocidentais chamam o socialismo de ditatorial,
miserável, intolerante, beligerante e opressor contra o seu próprio povo. Chamam
a RDA de Estado Policial ou um Estado Prisão, negando aos seus cidadãos o
direito de ir e vir. Mas você já parou para pensar que, enquanto o socialismo
os priva, na verdade ele os salva? Veja o vício burguês do qual os ocidentais
estão se afogando. Quanto mais eles estiverem expostos, menos chances eles terão
de salvação. Em seu coração se infiltra o veneno reacionário, inflamando-os
contra o operariado que tenta liberta-los com sua Revolução. Na verdade,
Gunther, a maior realização da liberdade não se encontra além do muro. Ela está
aqui.
Surpreso, o rapaz
retruca:
- Então você é
contra que os cidadãos tenham a liberdade de melhorar suas vidas?
- Muito pelo
contrário! Os cidadãos devem se libertar dos grilhões burgueses que lhes
prendem. Como diria Karl Marx, “o trabalhador não tem nada a perder em uma revolução
comunista, a não ser suas correntes”.
Gunther deixa
sair um sorriso.
- Com esse êxodo
de trabalhadores migrando para o ocidente, acho que temos definições bem
diferentes de liberdade.
- Estou tentando protege-lo.
É para o seu próprio bem.
- Com o marxismo?
Você realmente acredita nisso?
Desafiante, a voz
lhe devolve a pergunta:
- Você acredita?
- Não sei se
posso emitir minhas opiniões para uma agente da Stasi.
- Conversaremos
depois. Por enquanto, vá atender a porta. Uma vizinha acaba de chegar.
- Atender? Mas
ninguém tocou a... – de repente a campainha toca – Espere um pouco, como você
sabia sobre a porta?
Estática.
[1]
Elemento do muro de contenção
[2]
Bom dia em alemão
[3]
Polícia popular da RDA
[4]
Desculpe-me
[5]
Alô em alemão
[6]
República Federativa da Alemanha, mais conhecida como Alemanha Ocidental

Nenhum comentário:
Postar um comentário