O
Advogado
O
advogado Matthew Thompson caminha pelas ruínas da cidade com sua esposa e seus
dois filhos. O menino tem oito anos e a menina tem sete. Vindo de muito longe
em seu carro com pesadas malas no teto e no porta-malas, um ofuscante clarão
surgiu no céu noturno, rasgando-o com a força de mil raios e fazendo o motor
apagar de repente. Ele sabia o que era aquilo, o chamado Pulso Eletromagnético
das bombas nucleares.
Com
a súbita pane nos motores, os carros ao redor colidiram uns com os outros e a
rodovia se tornou um espetáculo violento de acidentes, atropelamentos e
explosões. Tirando sua família rapidamente do carro, Matthew correu para o
acostamento levando seus filhos nos braços. Voltando para salvar alguma coisa
na bagagem, ele dá dois passos quando um caminhão esmaga seu carro contra a
mureta de contenção no centro da pista. Todos os seus pertences, seus
mantimentos e suas roupas, tudo foi tragado pela quente explosão causada pelo
combustível dos veículos.
Sozinhos
na rodovia no meio da noite, os quatro vislumbram o que sobrou de seu carro, um
emaranhado de metal retorcido, fumaça e chamas. Tudo o que tinham se foi. Os
olhos tristes, perplexos e confusos assistem impotentes suas coisas queimarem,
sem nada que se possa fazer a respeito.
A
família caminha pelo acostamento, passando ao lado das vítimas dos acidentes.
Eles veem pessoas prensadas nas ferragens, outras lançadas ao chão e algumas
queimando nos incêndios. Os feridos correm e choram desesperadamente enquanto
tentam acordar os mortos, implorando para que eles acordem.
Após
aquela noite, a noite do primeiro ataque, o advogado e sua família estiveram
andando pelas rodovias e estradas de cidade em cidade, com o destino original
de chegar à casa de sua sogra e permanecer ali. A distância era longa, cerca de
novecentos quilômetros, mas sem o seu carro a sensação de chegar parecia
impossível.
Os
dias se passam, e então semanas, e então meses. Muitas vezes, enquanto
descansavam nas pequenas cidades à beira da estrada, ele se perguntava se
aquela caminhada quixotesca era inútil, uma vez que o ar tornava-se tóxico e
nuvens grossas de fumaça fechavam o céu, escondendo a luz solar.
O
advogado assistiu de perto a mutação do velho mundo em algo totalmente novo.
Ele contemplou os efeitos do tempo de transição, avançando por pequenas cidades
abandonadas, florestas cobertas de cinzas e as antigas metrópoles transformadas
em amontoados de entulho. Ele viu o nascimento da nova civilização, o
desaparecimento da sociedade convencional e a aparição da mais plena anarquia.
Nos poucos meses em que caminhou pelo “funeral” dos Estados Unidos, aquela massa
sem direção de sobreviventes passou a se organizar em pequenas comunidades
semelhantes a tribos. Mas essas pessoas viviam isoladas e geralmente se
escondiam. Matthew viu pessoalmente a doença radioativa tornar-se o catalisador
das subsociedades primitivas, todas oriundas da devastação e da contaminação.
Mas
nem sempre as tribos eram formadas apenas de doentes.
Talvez
“civilização” não seja a descrição mais precisa para esses aglomerados. Alguns
sobreviveram aos ataques em abrigos, a salvo da fallout, e quando se depararam
com o novo mundo rapidamente se adaptaram às novas condições de existência.
Famintos devido a escassez de alimentos e água limpa, esses sobreviventes se
reuniram em facções, passando a lutar
pela vida da maneira mais antiga, pura e instintual da humanidade, com a violência.
Enquanto
escondia-se com sua família, Matthew viu os criminosos do velho mundo,
bandidos, assassinos, maníacos, psicopatas, estupradores e pedófilos, formarem
a gênese dos temidos Saqueadores. Havia aqueles cuja ganância excedia a
compaixão pelo sofrimento alheio, vendo nas necessidades dos desafortunados a
oportunidade de enriquecer da maneira mais corrupta, mesquinha e desprezível do
mundo. Eram os Mercadores. Gradualmente essas duas facções cresceram e se
consolidaram nas ruínas. Esses arruaceiros libertinos tomavam o que queriam a
força, e ninguém ousava se opor a eles uma vez que a segurança pública não
existia mais.
Logo,
caminhar pelas rodovias e estradas não era mais seguro para a família do
advogado. Algo trivial como encontrar outros peregrinos pelo caminho, agora era
perigoso e sua família tinha que se esconder onde quer que avistassem alguém
passando por perto. Não existia mais o senso de segurança, apenas a inquietante
ameaça. Ninguém confiava em ninguém, todos se evitavam e se escondiam. As casas
que ainda não foram abandonadas foram invadidas pelos criminosos, e os antigos
donos, tolos o bastante para permanecerem nelas, encontravam um destino pior do
que a radiação. A noite era o último passo antes da entrada do inferno. Ao
longe Matthew ouvia constantemente gritos de mulheres e disparos de armas com a
chegada da escuridão.
O
advogado, um homem que sempre trabalhou com as leis, os direitos civis, a
criminalística e a ordem, se pergunta onde está a polícia para protegê-los. O
que se via era apenas o caos e a instauração definitiva da desordem, das quais
ele combateu a vida inteira.
Saqueadores
ou Mercadores, havia muitos deles, todos diferentes de cidade em cidade, mas
iguais em seu propósito. Matthew pensou que havia visto tudo, mas então uma
facção nova surgiu das florestas escuras.
Aproximando-se
da placa à beira da estrada, ele afasta o capim alto para ler: “perímetro
urbano a 2 km”. Sua família está exausta, a longa caminhada desgastou seus
sapatos, seus filhos emagreceram e os incomodavam o tempo todo pedindo por água
e comida. Adiante está a cidade, um vasto mar de ruínas e cinzas, e sua esposa
o convence a descansarem lá. Está ficando muito frio para pernoitar à beira da
rodovia. Existe um atalho ao lado da pista, uma estreita estrada de terra
cortando a área florestal nos arredores da cidade. Na rodovia eles estariam
muito expostos e qualquer um os veria ali. Acreditando ser mais seguro, Matthew
decide passar pela floresta.
A
escuridão e os ventos balançando as árvores os assustam. Seus passos sobre as
pedras são os únicos ruídos que os denunciam ali e nenhum deles ousa abrir a
boca, nem mesmo as crianças que não paravam de incomodar. Seus filhos estão de
olhos arregalados, com expressão assustada, observando com atenção os vãos
entre as árvores tentando achar algo que comprove o motivo de tanto medo. Há
algumas cabanas por perto, com bolor e trepadeiras subindo pelas paredes. O
interior está no escuro absoluto, o advogado segura a mão de sua esposa e os
dois passam apressados, evitando olhar para dentro. Então sua filha diz:
-
Espere, mamãe! Tem alguma coisa na porta!
Os
dois se entreolham. A porta de uma das cabanas está tombada e ao lado algum
objeto se esconde entre a vegetação alta. Com a insistência de sua filha, seu
filho mais novo passa a incomodá-los também, curioso para saber o que é.
-
Tem certeza que tem algo ali, querida? – pergunta sua esposa.
-
Tenho! Está ali!
O
advogado decide investigar. Avançando pelo capim alto, ele encontra o tal
objeto oculto no chão. Sua esposa carrega o menino nos braços e se aproxima
também, para o descontentamento de Matthew.
- É
um cadáver! – exclama ela.
O
corpo está todo dilacerado e mutilado. Algumas partes estão sem carne e pela
precisão parece que foram fatiadas minuciosamente, como se fosse o trabalho de
um açougueiro. O sangue estava seco e denotava-se dias que aquele corpo estava
ali. Esfolado como um animal silvestre, após o ato o autor deixou a carcaça para
trás. O advogado se agacha e encontra as roupas ensanguentadas do cadáver, ele
se espanta ao ver que era um guarda florestal.
Levantando-se
rápido, ele pega sua filha nos braços, puxa sua esposa e diz:
-
Temos de sair daqui.
- O
que foi?
-
Era um guarda florestal.
Sua
esposa se assusta. As crianças estão impressionadas com a carnificina e fazem
perguntas incessantes, perturbando-os. Caminhando apressado pela estrada de
terra, o advogado ouve sons vindos das árvores. São passos!
Matthew
sente a necessidade de correr quando sua esposa o interrompe:
-
Espere!
Correndo
entre as árvores escuras, o advogado vê um homem carregando um menino no braço
esquerdo e puxando uma mulher pela mão. O homem, de aparentemente cinquenta
anos, veste roupas leves e a mulher, de aparetemente quarenta anos, veste um
longo vestido velho e rasgado, correndo com seus longos cabelos soltos. O
menino parece estar fraco e quase inconsciente nos braços dele. Quando os três
se aproximam da estrada, Matthew e sua família se escondem atrás da cabana.
Enquanto
aqueles três estranhos passam pela cabana, sua esposa pergunta:
-
Devemos chamá-los?
Então
roncos de motores são ouvidos mais adiante. Duas caminhonetes se aproximam em
alta velocidade na estrada, fazendo barulho e subindo poeira. O advogado
consegue ver que nas caçambas dos veículos há homens armados com rifles de caça.
Eles vestem uniformes camuflados, botas, camisas xadrez, coletes de pescador,
bonés e chapéus. Eles bloqueiam a passagem daqueles três e apontam suas armas.
Nenhum deles percebe a presença da família do advogado ali, para a sorte de
Matthew.
-
Fique aqui. – ordena ele.
-
Aonde você vai? – pergunta sua esposa.
-
Vou ver o que eles vão fazer.
-
Posso ir com você? – perguntam seus filhos, quase ao mesmo tempo.
-
Mantenha-os em silêncio. – pede ele.
Rastejando
pela vegetação, Matthew se esgueira entre as árvores e assiste aqueles homens
pegarem os três. O advogado ouve com dificuldade, mas parece que os três são
fugitivos. O menino é filho do casal e eles fugiram de algum cativeiro no meio
da floresta. O homem parece implorar pela vida de sua esposa e de seu filho,
mas os homens riem. Outro homem, com uma barba semelhante a de um combatente da
Primeira Guerra Mundial, aponta o rifle para o seu rosto e, em voz alta,
responde:
- Pense
se todos os coelhos tivessem que implorar por suas vidas. As águias e os lobos
morreriam de fome!
O
homem aperta o gatilho e o tiro estoura a cabeça do fugitivo. Matthew entra em um
estado de choque. O cadáver cai na terra e seu sangue viscoso se escorre, formando
um coágulo lamacento na poeira. Eles amarram os pulsos da mulher e tomam o
filho de seus braços, jogando-o na cabine da caminhonete. A mulher é lançada na
caçamba e grita até sua voz ficar rouca. Os homens parecem protestar a decisão
do atirador em matar o fugitivo no meio da estrada. Com sua voz alta ele
responde:
-
Piquem-no em pedacinhos e ponham-no na caixa térmica.
Os
homens retiram enormes facas de caça de suas cinturas e começam a golpear o
morto. Aos poucos eles vão separando pedaços por pedaços, levantando ao ar para
deixar o sangue escorrer e depois jogando-os em uma enorme caixa na caçamba. Na
caixa parece haver gelo. Ele se horroriza, o que antes era usado para manter as
cervejas geladas enquanto caçavam e pescavam agora é usada para conservar carne
humana.
Um
dos homens ergue o tronco esquartejado do fugitivo e o põe delicadamente dentro
da caixa. A cabeça fica sobre a terra, o homem a ergue e a joga na floresta,
fazendo-a cair a poucos metros de Matthew. Ele luta para não vomitar ao ver
aquela perfuração de tiro no crânio. Os homens sobem nas caçambas e vão embora,
voltando pela estrada de onde vieram.
Atrás
da cabana, sua esposa o aguarda assustada. O advogado se aproxima e ela pergunta
exasperadamente:
- O
que aconteceu? Eu ouvi gritos! As crianças estão assustadas e não querem mais
ficar aqui... – Matthew está pálido – O que há com você?
-
Nós temos que sair da floresta. Não há tempo para explicar.
Ela
ia perguntar de novo quando ele de repente vomita.
- Matthew,
quem são aquelas pessoas? Por que estavam portando armas? Por que aqueles
outros estavam fugindo?
- Eu
não sei! – com o grito a mulher se cala. Ele fica em silêncio por um instante e
então diz – Eu só quero tirar as crianças daqui o quanto antes, está bem?
-
Mas o que eles fizeram?
Sua
esposa não vai se mover enquanto não tiver respostas.
-
Eles mataram aquele homem.
-
Por quê? – insiste ela.
-
Ele e sua família fugiram de algum cativeiro aqui na floresta.
Sua
esposa pensa um pouco e então diz:
-
Cativeiro? Então os homens nas caminhonetes são policiais. Ou guardas
florestais como o cadáver na entrada da cabana. Devíamos procurá-los, pedir
comida e abrigo, as crianças estão famintas. Elas estarão seguras com eles,
melhor do que ficarmos na rodovia e sermos atacados por aqueles maníacos que
rondam as cidades. Como você os chama? Saqueadores...?
Irritado,
o advogado responde energicamente:
-
Eles não são policiais nem guardas!
Isto não existe mais! Aqueles homens vão comer
aquelas pessoas! Eu os vi picarem aquele velho diante dos meus olhos! Você não
entende? Nós devemos sair daqui agora!
A
mulher se assusta com a rudeza de Matthew, mas não diz mais nada. Ele ergue sua
filha e sua esposa leva o menino. Os quatro então caminham a passos apressados
para fora da floresta.
§
A
cidade está próxima mas a noite se aproxima. Ainda cercados pelas árvores, a
família não tem outra opção senão encontrar algum lugar para passar a noite. Mais
adiante o advogado vê pequenos prédios de apartamentos, a estrada finalmente
terminava e eles podiam ver as ruas asfaltadas. Uma cerca de arame farpado
separava os prédios da floresta, mas a cerca havia sido tombada há muito tempo
por eventuais invasores.
As ruas asfaltadas tinham rachaduras e focos de vegetação
cresciam nelas. Os carros estavam estacionados ao lado da calçada, enferrujados
e desgastados pelo tempo. Apesar do abandono, era um belo local. As ruas tinham
belas árvores e os prédios tinham uma arquitetura alegre, convidativa, bela aos
seus olhos. Há uma placa na calçada que diz:
“Traga
sua família e venha morar ao lado da natureza! Fuja da cidade e respire o ar
puro da floresta ao lado de sua casa! Sua família agradece!”.
- É
um condomínio. – comenta sua esposa.
Eles
veem um dos prédios, as cores alegres da pintura já estão desgastadas e os
vidros das sacadas estão todos quebrados. De fora eles veem apenas a penumbra
em seu interior. O abandono repentino gerou um aspecto de apodrecimento
acelerado, afinal faziam apenas dois anos que os Estados Unidos haviam sido
atacados, e os antigos habitantes haviam abandonado-os e se dispersado pelas
cidades.
No hall de entrada eles sentem o cheiro forte
de bolor e umidade. Está tudo muito escuro, sua esposa aperta o interruptor mas
a lâmpada não acende. Isso faz ela sentir saudades da eletricidade. As portas
dos elevadores estão abertas e eles veem o fosso escuro. As crianças estão
assustadas, seus passos provocam ecos nas escadarias, era como se a família
tivesse entrado em um filme de terror.
Antigamente
o que custava caro e poucos podiam comprar agora está abandonado e qualquer um
pode entrar. Mas por uma ironia cruel nem mesmo os pobres, cobiçadores e
invejosos queriam se mudar para lá agora. O advogado percebe a ironia, pois
mesmo ele que nunca teve dinheiro para se mudar para um belo condomínio como
aquele, agora que tem a oportunidade, prefere sair dali o mais rápido possível.
Matthew
escolhe um apartamento no segundo andar, não muito alto se precisarem fugir, e
não muito baixo para não ficarem expostos. A porta de madeira ruge e solta
poeira ao abrir, a sala está coberta de pedaços de tinta descascada, caída das
paredes. Na cozinha alguns azulejos se soltaram das paredes e ainda há o cheiro
das argamassas de assentamento. Nos quartos escuros ele abre um pouco a janela
para ventilar aquele cheiro de podridão. O banheiro social está bem conservado,
ele abre a tampa do vaso sanitário e vê água limpa, talvez aquele seja o único
banheiro limpo que ele viu em um mês. Na suíte nos fundos há uma banheira coberta
de poeira e sujeira. Aquele apartamento nunca foi habitado, não deu tempo de
vendê-lo a alguma família, o mundo acabou antes.
Na
cozinha, sua esposa abre a torneira da pia e água suja espirra de sua ponta. Ela
enche uma garrafa de água mas não se sente confiante em bebê-la. O advogado vê
a cor da água e diz:
-
Talvez haja radiação.
-
Como pode estar contaminado? A água não saiu da caixa d´água, a radiação não
entrou lá dentro.
Ela
espera a água ficar mais clara e enche a garrafa de novo. Desta vez ela bebe e
oferece aos seus filhos. Matthew bebe também, contaminada ou não ele sabe que
morrer de sede é muito pior.
- Eu
vou vasculhar os apartamentos lá em cima, para ter certeza de que não há mais
ninguém.
Subindo
as escadarias escuras e desertas, seus passos ecoam pelo ambiente, dando-lhe a
impressão de que há mais gente ali. Ele entra no andar superior e vasculha os
apartamentos, todos vazios e tomados pela sujeira. Subindo ainda mais, ele
entra nos outros apartamentos, todos escuros, sujos e frios. Nos apartamentos
acima há o mesmo aspecto de abandono. Ele continua subindo, usando aquelas
escadarias sinistras que aguçam sua imaginação. Ao abrir a porta do sexto
andar, o advogado não tem coragem de entrar, o hall social está totalmente
escuro.
Subindo
ao sétimo andar, algo lhe incomoda nas ecoantes escadarias. A porta se abre e
ele vê que os apartamentos ali já foram invadidos antes. Em um deles, Matthew
vê o que parece ser brasas de fogueira no meio da sala. A porta da sacada está
toda quebrada e o vento frio do fim da tarde sopra suavemente dentro do local.
Ele caminha para a suíte passando pelos quartos escuros no corredor.
Estranhamente há manchas escuras no piso e um cheiro forte no ar, diferente
daqueles materiais de construção nos apartamentos de baixo. A janela da suíte
está fechada e ele não consegue ver o que há lá dentro. Dando passos imprecisos
e confusos no escuro, ele alcança a janela e a abre, arrastando as folhas de
alumínio e provocando aquele ruído agudo desagradável.
Ao
olhar para trás ele se paralisa. Suas pernas perdem a força e ele grita de
pavor. Diante de si há um homem enforcado e pendurado no lustre. Seu rosto está
roxo pela asfixia e seus olhos arregalados encaram diretamente o advogado, que
cai ao chão gritando de horror. O homem enforcado estava lá, Matthew passou por
ele enquanto caminhava no escuro. “Meu Deus! Ele estava ali o tempo todo e eu
nem percebi!” pensa ele. Lutando para manter a calma, ele se controla e se
recompõe, respirando fundo e enxugando o suor que escorre como água em seu
rosto. Ao se levantar, ele vê o homem enforcado balançar vagarosamente com o
vento soprando dentro da suíte.
O
advogado se aproxima do homem e nota que suas roupas não são diferentes
daquelas dos peregrinos errantes nas cidades. São roupas gastas, rasgadas e
sujas, verdadeiros trapos. Aos pés de Matthew há um caderno com folhas
amareladas e uma caneta presa na espiral das páginas. Ao abri-lo, ele vê o que
parece ser uma carta que não teve tempo de ser desanexada do caderno. Tudo
fazia sentido agora, aquele homem era um suicida.
A
carta diz:
"Se alguém ler esta carta, saiba que você não tem muito tempo. Estamos cansados de correr, sempre fugindo e se escondendo nos locais mais imundos. Minha família está faminta, não temos água limpa para beber e essas nuvens pesadas de cinzas trazem o frio. Não duraremos muito tempo nos escondendo aqui".
"Havia mais pessoas se escondendo nestes prédios abandonados, parece que esse belo condomínio é a única coisa que os ricos nos deixaram de bom. É uma pena que o mundo tenha de acabar para que gente como nós, pobres e assalariados, possa compartilhar do privilégio que só eles tinham. Mas hoje o luxo da classe alta não tem mais valor algum. Acampamos aqui, sozinhos neste prédio enquanto o resto dos fugitivos acampou nas torrres mais perto da reserva florestal, acreditando que estariam mais seguros lá. Após tanto tempo fugindo daqueles psicopatas e estupradores nas cidades, como saberíamos que uma nova ameaça surgiria da escuridão da floresta?".
"Por ser um local afastado das ruínas, muitos sobreviventes vinham para cá, nós os víamos chegar com suas sacolas, malas e carriolas. Todos esperavam encontrar comida neste requintado condomínio, o problema é que aqui só existia poeira, água suja e tinta descascada. A radiação fez muitos doentes também. Para prevenir minha família, não permiti que esses moribundos se mudassem para este prédio, espantando-os daqui com uma pá. Não podia arriscar que meus filhos se contaminassem e morressem de câncer, agonizando dia e noite como os contaminados nos prédios ao redor".
"Certo dia pessoas vieram correndo da floresta, fugindo como se cães raivosos estivessem atrás delas. Elas invadiram os prédios ao lado da reserva e eu desci para saber o que estava acontecendo. Ao chegar lá eles disseram que são fugitivos, que estavam em um cativeiro e que homens armados iam comê-los. Eu quis rir de seus relatos, mas me controlei, perguntando quem eram esses canibais que os perseguiam. Os fugitivos os chamavam de Caçadores, e encolheram-se de pavor ao pronunciar esse nome. Eu e os outros ocupantes deixamos aqueles fugitivos ficarem, mesmo que vigiando-os de perto para ver se eles não causariam problemas. Loucos perturbados, eles estavam sujos de lama como se tivessem saído de uma cova ou porão. O que faziam realmente no meio da floresta? Será algum culto satânico louvando o fim do mundo?".
"Os outros ocupantes espalhavam boates de que viam pessoas escondidas entre as árvores nos observando de longe. Eram como fantasmas na floresta, sumindo em um piscar de olhos. Eles diziam ver pessoas vestidas com roupas de caça, camufladas com gravetos e grama, semelhante a um franco-atirador. Eu não sabia por que esses ocupantes aterrorizavam a nós assim, já não bastava aqueles loucos obcecados pelos canibais que os perseguiam, agora mais esse boato? Alguns ocupantes, os mais medrosos, deixaram o condomínio e voltaram à cidade. Eu e a maioria decidimos ficar, ignorando os alertas e as advertências daqueles desequilibrados".
"Dois dias depois eles chegaram. Caminhonetes com vários homens armados com rifles de caça invadiram o condomínio, avançando pelas ruas e invadindo os prédios. Para meu horror eles tinham as exatas descrições que os fugitivos deram, pela primeira vez eu vi os chamados Caçadores. Daqui de cima nós assistimos o ataque, eles atiraram em muitas pessoas, muitos correram para a floresta e alguns foram atropelados pelas caminhonetes enquanto corriam pelas ruas. Mas a intenção deles não era matar e sim capturar".
"Ao arrancar as mulheres dos prédios, os caçadores as deitavam no capô dos carros e as estupravam, os maridos que tentavam impedir eram executados com tiros. Nós vimos as crianças sendo mortas também, para o meu total pavor. Muitas mulheres foram arrastadas pelos cabelos, os homens eram espancados e pisoteados, depois eles jogavam as vítimas inconscientes nas caçambas. Os caçadores riam da brutalidade. A dor e o pânico lhes estimulavam ainda mais. Um homem conseguiu bater com uma pedra na cabeça de um deles, fazendo-o desmaiar. Os caçadores o puniram amarrando-o no para-choque e arrastando-o pelas ruas até desaparecerem na floresta. Nunca em toda minha vida ouvi alguém gritar tanto de agonia como ele".
"Eu e minha família tivemos sorte por eles não invadirem nosso prédio. Nós assistimos aquele banho de sangue horrorizados, tentando manter o silêncio para não sermos pegos também. Muitos foram e capturados aquele dia. Os que sobraram se dispersaram, fugindo de volta à cidade ou se enfiando na floresta. De qualquer forma, quem adentrou a floresta selou seu próprio destino".
"No dia seguinte eles voltaram. Da rua eles gritaram para todos os que ainda estavam escondidos aqui, dizendo que se não nos entregássemos eles iriam subir nos prédios, vasculhar cada apartamento e nos pegar. Os caçadores nos fizeram ameaças terríveis, mas ninguém se entregou. Invadindo um dos prédios, eles acharam um homem e lhe interrogaram sobre a presença de mais ocupantes. Aquele desprezível traiu a todos nós, dizendo que muitos ainda permaneciam no condomínio, mas estavam se preparando para ir embora. O caçador pergunta onde estavam e o homem aponta para vários prédios, mas para nosa sorte ele pareceu ter se esquecido de minha família".
"Os caçadores invadem os esconderijos dos refugiado e os levam à força para suas caminhonetes. Muitos tentam resistir, mas são baleados e mortos, ninguém consegue escapar. Quando todos são capturados, nós vemos outra exibição de crueldade desumana. O homem que nos traiu é amarrado com correntes nos braços e pernas, e as pontas são presas nos para-choques das caminhonetes. Implorando por sua vida, eles o ignoram e riem para si mesmo. Saindo de arrancada, os veículos se afastam e o homem é partido ao meio, rasgado como um pedaço de pano. Ele nem teve tempo de gritar".
"Depois daquele dia tudo mudou em mim. Ouço vozes me chamando na escuridão, vejo vultos caminhando nas escadas, pesadelos atormentam meu sono... Minha família não podia fugir, estávamos famintos e fracos demais para caminhar. Se os caçadores nos vissem nas malditas estradas que levam à cidade, minha esposa e meus filhos seriam estuprados e mortos. E o que seria de mim? Seria cozido e devorado como um animal silvestre. Quem são estas pessoas? Que doença mental é essa que os compele a comer carne humana?".
"As florestas são amaldiçoadas, estes homens a profanaram com o nosso sangue. Assassinos! Quem lhes deu o direito de caçar a nós? Refugiados fracos e inocentes que não tem para onde ir? A fome extrema causada pelo mundo devastado e contaminado pela radiação provocou isso. É uma das bênçãos da adversidade, a luta pela sobrevivência. Mas se apenas querem comida, então por que são cruéis? Não são diferentes dos bandidos que rondam a cidade, afinal. Talvez sejam até piores. As vozes sabem o que dizem, elas me dão ideias e me aconselham neste momento tão incerto. Alguém na escadaria me chama, ele sussurra da escuridão o que devo fazer. Ele me lembra de que tenho uma arma. É claro! Por muito tempo escondi uma arma de minha família. Pensei que a usaria para protegê-los e talvez esta hora tenha chegado. Vou usar a arma com esta intenção, ironicamente não do jeito que pensei".
"Enquanto escrevo isto, lágrimas caem dos meus olhos. Eu matei todos eles enquanto dormiam. Meu filho, meu querido filho, recebe uma bala em sua cabeça. Minha filha, minha menininha, recebe outro tiro. Minha esposa acorda com os disparos e me vê de pé segurando minha arma. Ao ver as crianças mortas, ela tenta me impedir quando eu aperto o gatilho, acertando uma bala em sua garganta. Nunca vou me esquecer dos espasmos, engasgos e sussurros enquanto ela morria aos meus pés. Caminhando no escuro, eu acendo uma vela e me dirijo à forca improvisada que preparei horas antes".
"Estas são minhas últimas palavras: se você chegou a este condomínio amaldiçoado e leu esta carta, saiba que eu deixei minha arma no quarto ao lado, junto aos corpos de minha família. Se você foi azarado o bastante para trazer sua família aqui também, a arma ainda tem três balas. Guarde-a. Talvez você precise usa-la como eu precisei".
Matthew solta o caderno e corre para o quarto ao lado. Atravessando a escuridão até a janela, ele a abre e encontra os três cadáveres caídos no chão. O homem suicida disse a verdade, uma mulher e duas crianças estão mortas ali. Ele se sente mal. Agachando-se em frente à janela, ele chora amargamente com a mão nos olhos. O sangue derramado escorreu por todo o piso, o cheiro é horrível e o líquido escuro gruda levemente na sola de seus sapatos. Ele vislumbra a família chacinada. Quanta coincidência, a família daquele homem é idêntica à sua, uma bela mulher e um casal de filhos pequenos.
"Se alguém ler esta carta, saiba que você não tem muito tempo. Estamos cansados de correr, sempre fugindo e se escondendo nos locais mais imundos. Minha família está faminta, não temos água limpa para beber e essas nuvens pesadas de cinzas trazem o frio. Não duraremos muito tempo nos escondendo aqui".
"Havia mais pessoas se escondendo nestes prédios abandonados, parece que esse belo condomínio é a única coisa que os ricos nos deixaram de bom. É uma pena que o mundo tenha de acabar para que gente como nós, pobres e assalariados, possa compartilhar do privilégio que só eles tinham. Mas hoje o luxo da classe alta não tem mais valor algum. Acampamos aqui, sozinhos neste prédio enquanto o resto dos fugitivos acampou nas torrres mais perto da reserva florestal, acreditando que estariam mais seguros lá. Após tanto tempo fugindo daqueles psicopatas e estupradores nas cidades, como saberíamos que uma nova ameaça surgiria da escuridão da floresta?".
"Por ser um local afastado das ruínas, muitos sobreviventes vinham para cá, nós os víamos chegar com suas sacolas, malas e carriolas. Todos esperavam encontrar comida neste requintado condomínio, o problema é que aqui só existia poeira, água suja e tinta descascada. A radiação fez muitos doentes também. Para prevenir minha família, não permiti que esses moribundos se mudassem para este prédio, espantando-os daqui com uma pá. Não podia arriscar que meus filhos se contaminassem e morressem de câncer, agonizando dia e noite como os contaminados nos prédios ao redor".
"Certo dia pessoas vieram correndo da floresta, fugindo como se cães raivosos estivessem atrás delas. Elas invadiram os prédios ao lado da reserva e eu desci para saber o que estava acontecendo. Ao chegar lá eles disseram que são fugitivos, que estavam em um cativeiro e que homens armados iam comê-los. Eu quis rir de seus relatos, mas me controlei, perguntando quem eram esses canibais que os perseguiam. Os fugitivos os chamavam de Caçadores, e encolheram-se de pavor ao pronunciar esse nome. Eu e os outros ocupantes deixamos aqueles fugitivos ficarem, mesmo que vigiando-os de perto para ver se eles não causariam problemas. Loucos perturbados, eles estavam sujos de lama como se tivessem saído de uma cova ou porão. O que faziam realmente no meio da floresta? Será algum culto satânico louvando o fim do mundo?".
"Os outros ocupantes espalhavam boates de que viam pessoas escondidas entre as árvores nos observando de longe. Eram como fantasmas na floresta, sumindo em um piscar de olhos. Eles diziam ver pessoas vestidas com roupas de caça, camufladas com gravetos e grama, semelhante a um franco-atirador. Eu não sabia por que esses ocupantes aterrorizavam a nós assim, já não bastava aqueles loucos obcecados pelos canibais que os perseguiam, agora mais esse boato? Alguns ocupantes, os mais medrosos, deixaram o condomínio e voltaram à cidade. Eu e a maioria decidimos ficar, ignorando os alertas e as advertências daqueles desequilibrados".
"Dois dias depois eles chegaram. Caminhonetes com vários homens armados com rifles de caça invadiram o condomínio, avançando pelas ruas e invadindo os prédios. Para meu horror eles tinham as exatas descrições que os fugitivos deram, pela primeira vez eu vi os chamados Caçadores. Daqui de cima nós assistimos o ataque, eles atiraram em muitas pessoas, muitos correram para a floresta e alguns foram atropelados pelas caminhonetes enquanto corriam pelas ruas. Mas a intenção deles não era matar e sim capturar".
"Ao arrancar as mulheres dos prédios, os caçadores as deitavam no capô dos carros e as estupravam, os maridos que tentavam impedir eram executados com tiros. Nós vimos as crianças sendo mortas também, para o meu total pavor. Muitas mulheres foram arrastadas pelos cabelos, os homens eram espancados e pisoteados, depois eles jogavam as vítimas inconscientes nas caçambas. Os caçadores riam da brutalidade. A dor e o pânico lhes estimulavam ainda mais. Um homem conseguiu bater com uma pedra na cabeça de um deles, fazendo-o desmaiar. Os caçadores o puniram amarrando-o no para-choque e arrastando-o pelas ruas até desaparecerem na floresta. Nunca em toda minha vida ouvi alguém gritar tanto de agonia como ele".
"Eu e minha família tivemos sorte por eles não invadirem nosso prédio. Nós assistimos aquele banho de sangue horrorizados, tentando manter o silêncio para não sermos pegos também. Muitos foram e capturados aquele dia. Os que sobraram se dispersaram, fugindo de volta à cidade ou se enfiando na floresta. De qualquer forma, quem adentrou a floresta selou seu próprio destino".
"No dia seguinte eles voltaram. Da rua eles gritaram para todos os que ainda estavam escondidos aqui, dizendo que se não nos entregássemos eles iriam subir nos prédios, vasculhar cada apartamento e nos pegar. Os caçadores nos fizeram ameaças terríveis, mas ninguém se entregou. Invadindo um dos prédios, eles acharam um homem e lhe interrogaram sobre a presença de mais ocupantes. Aquele desprezível traiu a todos nós, dizendo que muitos ainda permaneciam no condomínio, mas estavam se preparando para ir embora. O caçador pergunta onde estavam e o homem aponta para vários prédios, mas para nosa sorte ele pareceu ter se esquecido de minha família".
"Os caçadores invadem os esconderijos dos refugiado e os levam à força para suas caminhonetes. Muitos tentam resistir, mas são baleados e mortos, ninguém consegue escapar. Quando todos são capturados, nós vemos outra exibição de crueldade desumana. O homem que nos traiu é amarrado com correntes nos braços e pernas, e as pontas são presas nos para-choques das caminhonetes. Implorando por sua vida, eles o ignoram e riem para si mesmo. Saindo de arrancada, os veículos se afastam e o homem é partido ao meio, rasgado como um pedaço de pano. Ele nem teve tempo de gritar".
"Depois daquele dia tudo mudou em mim. Ouço vozes me chamando na escuridão, vejo vultos caminhando nas escadas, pesadelos atormentam meu sono... Minha família não podia fugir, estávamos famintos e fracos demais para caminhar. Se os caçadores nos vissem nas malditas estradas que levam à cidade, minha esposa e meus filhos seriam estuprados e mortos. E o que seria de mim? Seria cozido e devorado como um animal silvestre. Quem são estas pessoas? Que doença mental é essa que os compele a comer carne humana?".
"As florestas são amaldiçoadas, estes homens a profanaram com o nosso sangue. Assassinos! Quem lhes deu o direito de caçar a nós? Refugiados fracos e inocentes que não tem para onde ir? A fome extrema causada pelo mundo devastado e contaminado pela radiação provocou isso. É uma das bênçãos da adversidade, a luta pela sobrevivência. Mas se apenas querem comida, então por que são cruéis? Não são diferentes dos bandidos que rondam a cidade, afinal. Talvez sejam até piores. As vozes sabem o que dizem, elas me dão ideias e me aconselham neste momento tão incerto. Alguém na escadaria me chama, ele sussurra da escuridão o que devo fazer. Ele me lembra de que tenho uma arma. É claro! Por muito tempo escondi uma arma de minha família. Pensei que a usaria para protegê-los e talvez esta hora tenha chegado. Vou usar a arma com esta intenção, ironicamente não do jeito que pensei".
"Enquanto escrevo isto, lágrimas caem dos meus olhos. Eu matei todos eles enquanto dormiam. Meu filho, meu querido filho, recebe uma bala em sua cabeça. Minha filha, minha menininha, recebe outro tiro. Minha esposa acorda com os disparos e me vê de pé segurando minha arma. Ao ver as crianças mortas, ela tenta me impedir quando eu aperto o gatilho, acertando uma bala em sua garganta. Nunca vou me esquecer dos espasmos, engasgos e sussurros enquanto ela morria aos meus pés. Caminhando no escuro, eu acendo uma vela e me dirijo à forca improvisada que preparei horas antes".
"Estas são minhas últimas palavras: se você chegou a este condomínio amaldiçoado e leu esta carta, saiba que eu deixei minha arma no quarto ao lado, junto aos corpos de minha família. Se você foi azarado o bastante para trazer sua família aqui também, a arma ainda tem três balas. Guarde-a. Talvez você precise usa-la como eu precisei".
Matthew solta o caderno e corre para o quarto ao lado. Atravessando a escuridão até a janela, ele a abre e encontra os três cadáveres caídos no chão. O homem suicida disse a verdade, uma mulher e duas crianças estão mortas ali. Ele se sente mal. Agachando-se em frente à janela, ele chora amargamente com a mão nos olhos. O sangue derramado escorreu por todo o piso, o cheiro é horrível e o líquido escuro gruda levemente na sola de seus sapatos. Ele vislumbra a família chacinada. Quanta coincidência, a família daquele homem é idêntica à sua, uma bela mulher e um casal de filhos pequenos.
A arma está lá, um belo revólver prateado
calibre 38. Analisando o tambor, ele encontra as três balas restantes. Tudo
está do jeito que o homem disse. Ele não sabe por que, mas ao sair do quarto o
advogado apanha a arma do chão e a põe em sua cintura, ocultando-a sob seus
casacos.
Então
ele deixa o local e volta para o apartamento onde está sua família. Ao ver sua
esposa, ele omite totalmente seu encontro com o homem suicida nos andares
acima.
§
Matthew
acorda no meio da noite. Sua esposa e seus filhos estão encolhidos no chão,
abraçados uns aos outros para se proteger do frio. A arma lhe incomoda na
cintura, ele se levanta e caminha no escuro até o banheiro. Após urinar, ele
segura novamente o revólver, empunhando-o como se fosse atirar. A janela do
banheiro deixa entrar uma luz muito fraca, quase imperceptível, e faz a arma
prateada brilhar.
Distraído
em seus pensamentos, o advogado ouve ruídos vindos da rua. Dirigindo-se até a
sacada, ele abre a porta-balcão e se esgueira no parapeito. A noite está escura
como a face da morte, ao longe ele ouve os sons das copas das árvores
balançando com o vento. É a floresta, a temida floresta que traz outra ameaça
para aterrorizar os indefesos peregrinos como ele. Sua família não está segura,
não naquele condomínio. Eles têm que sair dali.
Virando-se
para voltar ao quarto, ele ouve os ruídos novamente. Algo se move entre as
árvores. Espiando atentamente, ele ouve o que parece ser sons de motores
atravessando a floresta. Ele sabe do que se trata, são as caminhonetes dos
caçadores, os únicos veículos que ele viu funcionar desde o primeiro ataque
nuclear.
Os
caçadores estão lá, espreitando a floresta à noite em seus veículos. Matthew
sente medo, primeiro aqueles fugitivos e então aquela carta agourenta do homem
suicida. Ele sabe que a carta é verdadeira, o advogado viu o que aconteceu com
os fugitivos. E se pegarem sua família?
Ao
amanhecer, ele está decidido a abandonar o condomínio. Mas quando a família se
prepara para sair, uma ventania incomum açoita os prédios e a floresta,
abaixando bruscamente a temperatura. Eles são obrigados a esperar, ficando mais
um dia inteiro no prédio.
Na
manhã seguinte, seus filhos estão famintos devido aos dias em que ficaram sem
comer. Incapazes de caminhar, o advogado e sua esposa são obrigados a procurar
alimentos nos outros prédios. Os dois passam o dia procurando, mas infelizmente
não acham nada além de folhas de árvore e plantas.
Após
mais um dia, seu filho passa mal devido a ingestão de plantas e tem disenteria,
forçando-os a permanecer ali por mais tempo. Matthew entende a mensagem, alguma
coisa não quer que eles abandonem o lugar. Sendo coincidência, azar ou destino,
ele nunca foi supersticioso, mas a superstição se apoderou dele.
Enquanto
esperam o dia passar, sentados na sala e observando o céu cinzento, eles ouvem
o som dos motores. Desta vez não é só ele que ouve. Sua esposa e sua filha
correm para a sacada e veem a caminhonete entrar no condomínio. Abaixando-se
rapidamente para não serem vistos, os caçadores vasculham as ruas, observando
os prédios para ver se acham mais alguém. Eles rondam o condomínio várias vezes
em seu veículo que mais se parece com a barca de Caronte, prontos para levá-los
ao Submundo.
Sua
esposa volta ao apartamento e se esconde no quarto, abraçando sua filha. O
menino ainda está muito febril, mal podendo abrir os olhos. A morte espreita lá
embaixo e ele não pode fazer nada! Perdendo a calma, ele põe as mãos na cabeça
e chora de desespero, confuso e desequilibrado com a situação.
E então
ele ouve vozes.
Sussurros
e mais sussurros. Os caçadores estão lá fora e mesmo assim ele deixa o
apartamento, se dirigindo ao hall social e a entrada da escadaria. As vozes
estão no fosso do elevador, de repente estão nas escuras escadas. Ele olha para
cima e vê o lance de escadas, não há nada ali além de solidão e penumbra. Ao
subir os primeiros degraus, sua esposa aparece atrás dele e pergunta:
- O
que você está fazendo...?
Matthew
se vira e vê sua esposa olhá-lo com uma expressão confusa e assustada. Ele
mente:
-
Vou procurar comida.
-
Procurar comida? Do que está falando? Não há nada lá em cima! Você mesmo
vasculhou os apartamentos! Não nos deixe sozinhos agora, Matthew. Aqueles
assassinos estão lá embaixo!
Contrariado,
ele volta ao apartamento e se reúne com sua família.
À
noite ele não consegue dormir. Ele acorda constantemente com o menor ruído
pensando ser as caminhonetes dos caçadores. De olhos abertos na escuridão, ele
se vira de um lado ao outro tentando se aquecer naquele quarto frio.
Então
outra voz o chama. Assustado, ele olha para a porta e vê um vulto passar no
corredor. Ao seu lado sua família dorme em sono profundo e não percebem a
presença de outra pessoa ali. Levantando-se, ele volta para a entrada e olha
para o hall social. Não há ninguém. Tateando o escuro, ele encontra a porta das
escadarias e começa a subir os degraus. E então mais vozes, sussurrando nos
cantos escuros. “O que é que está havendo?”.
-
Quem está aí? – pergunta ele, ouvindo sua voz ecoar.
Ele
continua subindo mais e mais, ouvindo os sussurros macabros que parecem
hipnotizá-lo. O corrimão é seu único guia enquanto sobe as escadas escuras sem
luz alguma. O advogado chega ao sétimo andar, os sussurros parecem vir dali.
Tateando o ar, ele tropeça e cai de joelhos várias vezes. Uma voz o chama de um
apartamento. Para sua surpresa, é o mesmo onde está o homem enforcado.
Passos
são ouvidos no corredor que leva para os quartos. A visão está muito escura mas
parece haver vultos caminhado de um cômodo ao outro. Ele se dirige à origem das
vozes e entra no quarto onde o corpo está pendurado. Não é possível enxergar
nada, a escuridão é densa demais. Parado de pé dentro do quarto, Matthew ouve a
voz sussurrar em seus ouvidos.
-
Amanhã? – pergunta ele como se estivesse falando com alguém – Eu compreendo.
O
advogado deixa o apartamento e volta pelas escadarias. Ao chegar ao seu
apartamento, ele se deita ao lado de sua família e volta a dormir.
§
Na
manhã seguinte ele acorda perturbado, sentindo uma dor terrível na cabeça. “Que
sonho horrível” pensa ele, pondo sua mão na cabeça. Ele está sozinho no quarto,
sua esposa e filhos já acordaram. Virando-se, ele vê uma corda ao seu lado. O
advogado se apavora, quem a colocou ali?
Sua
esposa cuida de seu filho quando a menina os chama da sacada. Matthew corre, sua
esposa e seu filho o acompanham. Ao olhar para baixo, eles veem um grupo de
pessoas se aproximarem do prédio, como se fosse uma procissão de miseráveis.
Eles vestem capuz e casacos, alguns vestem mantos e cobertores, e outros portam
machados e bastões sob seus mantos. Era como se uma hoste inteira de espíritos
ceifeiros se ajuntasse e viesse ao encontro de Matthew e sua família. “Serão os
caçadores? Se eles são, cadê as caminhonetes?”.
O
grupo se aproxima da entrada do prédio. Matthew se afasta da sacada, apavorado
e descontrolado. “O que será de minha família?” pensa ele, “os caçadores vão
devorar meus filhos e estuprar minha esposa!”. Enquanto seu corpo treme, as
vozes atravessam sua mente como um trovão. Ao ouvi-la, imediatamente ele para
de tremer. Ele sente a arma esfriar sua pele em sua cintura. Sussurros e mais
sussurros tomam sua mente. Ele olha para os lados mas não vê ninguém,
paradoxalmente parece haver dezenas de pessoas falando com ele. “Quem são
vocês?” pensa ele olhando ao redor.
Com
o pavor e o estresse revirando-se em sua cabeça, ele se debate e começa a suar
frio. Enfiando a mão sob seus casacos, ele retira o revólver de sua cintura e o
empunha na mão direita, preparando-se para atirar. Ironicamente não é nas
pessoas lá embaixo que ele mira.
Sua
esposa e seus dois filhos estão de costas para ele, curvados sobre o parapeito e
observando aquele grupo lá embaixo. Matthew coloca seu dedo trêmulo no gatilho
e aponta a arma para a cabeça de seu filho. E então ele atira.
A
nuca de seu filho é perfurada pela bala, o som do disparo faz o grupo lá
embaixo se assustar. Sua filha vira seu rosto para olhar para o seu pai quando
outra bala atravessa a lateral de sua cabeça. Ao ver os dois caídos e o sangue
jorrar de suas cabeças, sua esposa começa a gritar o mais alto que pode até uma
bala atravessar sua garganta, emudecendo-a imediatamente. O cano da arma expele
fumaça, não há mais nenhuma bala no tambor. Os três estão caídos ali, sua
esposa agoniza em espasmos e engasgos, gemendo enquanto a vida sai de seu
corpo. O advogado joga a arma no chão, ela já não tinha mais utilidade. Matthew
vai até o quarto e apanha a corda. Levando-a até a suíte, ele a amarra no
lustre, fazendo uma forca. Ajeitando-a em seu pescoço, ele se prepara para se
jogar quando algo acontece.
Aquelas
pessoas que estavam na rua ouviram os disparos e o grito da mulher. Assustados,
eles decidem se sobem ao socorro da vítima ou se vão embora. Felizmente alguns
homens decidem ajudar. Eles sobem rapidamente as escadas, os homens adentram o
apartamento e encontram três cadáveres na sacada. A arma está no chão mas o
atirador não está ali. Caminhando lentamente pelo corredor, eles se deparam com
um homem prestes a se enforcar.
-
Espere!
O
homem se joga, mas antes que pudesse sentir o esmagamento de sua garganta,
alguém agarra o seu corpo e o suspende. Eles retiram a corda de seu pescoço e o
sentam no chão, o homem parece estar em choque.
-
Acho que ele está traumatizado. – diz alguém.
De
repente o homem acorda de seu transe psicótico e vê aquelas pessoas olharem
preocupadas para ele. Era o grupo do professor.
-
Vocês são os caçadores?
Ninguém
sabe do que ele está falando.
-
Caçadores...? – pergunta o médico.
-
Qual é o seu nome? – pergunta o professor.
-
Matthew Thompson.
-
Sabe o que você fez?
-
Não vou deixar os caçadores devorarem minha família... As vozes me alertaram,
elas estavam certas, afinal... Oh, minha esposa...
O
advogado começa a chorar amargamente. Ninguém no grupo compreende o que está
havendo. O professor os interrompe e diz:
-
Vamos. Temos que tirá-lo daqui.

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