terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 13 - O Advogado



O Advogado

O advogado Matthew Thompson caminha pelas ruínas da cidade com sua esposa e seus dois filhos. O menino tem oito anos e a menina tem sete. Vindo de muito longe em seu carro com pesadas malas no teto e no porta-malas, um ofuscante clarão surgiu no céu noturno, rasgando-o com a força de mil raios e fazendo o motor apagar de repente. Ele sabia o que era aquilo, o chamado Pulso Eletromagnético das bombas nucleares.
Com a súbita pane nos motores, os carros ao redor colidiram uns com os outros e a rodovia se tornou um espetáculo violento de acidentes, atropelamentos e explosões. Tirando sua família rapidamente do carro, Matthew correu para o acostamento levando seus filhos nos braços. Voltando para salvar alguma coisa na bagagem, ele dá dois passos quando um caminhão esmaga seu carro contra a mureta de contenção no centro da pista. Todos os seus pertences, seus mantimentos e suas roupas, tudo foi tragado pela quente explosão causada pelo combustível dos veículos.
Sozinhos na rodovia no meio da noite, os quatro vislumbram o que sobrou de seu carro, um emaranhado de metal retorcido, fumaça e chamas. Tudo o que tinham se foi. Os olhos tristes, perplexos e confusos assistem impotentes suas coisas queimarem, sem nada que se possa fazer a respeito.
A família caminha pelo acostamento, passando ao lado das vítimas dos acidentes. Eles veem pessoas prensadas nas ferragens, outras lançadas ao chão e algumas queimando nos incêndios. Os feridos correm e choram desesperadamente enquanto tentam acordar os mortos, implorando para que eles acordem.
Após aquela noite, a noite do primeiro ataque, o advogado e sua família estiveram andando pelas rodovias e estradas de cidade em cidade, com o destino original de chegar à casa de sua sogra e permanecer ali. A distância era longa, cerca de novecentos quilômetros, mas sem o seu carro a sensação de chegar parecia impossível.
Os dias se passam, e então semanas, e então meses. Muitas vezes, enquanto descansavam nas pequenas cidades à beira da estrada, ele se perguntava se aquela caminhada quixotesca era inútil, uma vez que o ar tornava-se tóxico e nuvens grossas de fumaça fechavam o céu, escondendo a luz solar.
O advogado assistiu de perto a mutação do velho mundo em algo totalmente novo. Ele contemplou os efeitos do tempo de transição, avançando por pequenas cidades abandonadas, florestas cobertas de cinzas e as antigas metrópoles transformadas em amontoados de entulho. Ele viu o nascimento da nova civilização, o desaparecimento da sociedade convencional e a aparição da mais plena anarquia. Nos poucos meses em que caminhou pelo “funeral” dos Estados Unidos, aquela massa sem direção de sobreviventes passou a se organizar em pequenas comunidades semelhantes a tribos. Mas essas pessoas viviam isoladas e geralmente se escondiam. Matthew viu pessoalmente a doença radioativa tornar-se o catalisador das subsociedades primitivas, todas oriundas da devastação e da contaminação.
Mas nem sempre as tribos eram formadas apenas de doentes.
Talvez “civilização” não seja a descrição mais precisa para esses aglomerados. Alguns sobreviveram aos ataques em abrigos, a salvo da fallout, e quando se depararam com o novo mundo rapidamente se adaptaram às novas condições de existência. Famintos devido a escassez de alimentos e água limpa, esses sobreviventes se reuniram em facções, passando a lutar pela vida da maneira mais antiga, pura e instintual da humanidade, com a violência.
Enquanto escondia-se com sua família, Matthew viu os criminosos do velho mundo, bandidos, assassinos, maníacos, psicopatas, estupradores e pedófilos, formarem a gênese dos temidos Saqueadores. Havia aqueles cuja ganância excedia a compaixão pelo sofrimento alheio, vendo nas necessidades dos desafortunados a oportunidade de enriquecer da maneira mais corrupta, mesquinha e desprezível do mundo. Eram os Mercadores. Gradualmente essas duas facções cresceram e se consolidaram nas ruínas. Esses arruaceiros libertinos tomavam o que queriam a força, e ninguém ousava se opor a eles uma vez que a segurança pública não existia mais.
Logo, caminhar pelas rodovias e estradas não era mais seguro para a família do advogado. Algo trivial como encontrar outros peregrinos pelo caminho, agora era perigoso e sua família tinha que se esconder onde quer que avistassem alguém passando por perto. Não existia mais o senso de segurança, apenas a inquietante ameaça. Ninguém confiava em ninguém, todos se evitavam e se escondiam. As casas que ainda não foram abandonadas foram invadidas pelos criminosos, e os antigos donos, tolos o bastante para permanecerem nelas, encontravam um destino pior do que a radiação. A noite era o último passo antes da entrada do inferno. Ao longe Matthew ouvia constantemente gritos de mulheres e disparos de armas com a chegada da escuridão.
O advogado, um homem que sempre trabalhou com as leis, os direitos civis, a criminalística e a ordem, se pergunta onde está a polícia para protegê-los. O que se via era apenas o caos e a instauração definitiva da desordem, das quais ele combateu a vida inteira.
Saqueadores ou Mercadores, havia muitos deles, todos diferentes de cidade em cidade, mas iguais em seu propósito. Matthew pensou que havia visto tudo, mas então uma facção nova surgiu das florestas escuras.
Aproximando-se da placa à beira da estrada, ele afasta o capim alto para ler: “perímetro urbano a 2 km”. Sua família está exausta, a longa caminhada desgastou seus sapatos, seus filhos emagreceram e os incomodavam o tempo todo pedindo por água e comida. Adiante está a cidade, um vasto mar de ruínas e cinzas, e sua esposa o convence a descansarem lá. Está ficando muito frio para pernoitar à beira da rodovia. Existe um atalho ao lado da pista, uma estreita estrada de terra cortando a área florestal nos arredores da cidade. Na rodovia eles estariam muito expostos e qualquer um os veria ali. Acreditando ser mais seguro, Matthew decide passar pela floresta.
   A escuridão e os ventos balançando as árvores os assustam. Seus passos sobre as pedras são os únicos ruídos que os denunciam ali e nenhum deles ousa abrir a boca, nem mesmo as crianças que não paravam de incomodar. Seus filhos estão de olhos arregalados, com expressão assustada, observando com atenção os vãos entre as árvores tentando achar algo que comprove o motivo de tanto medo. Há algumas cabanas por perto, com bolor e trepadeiras subindo pelas paredes. O interior está no escuro absoluto, o advogado segura a mão de sua esposa e os dois passam apressados, evitando olhar para dentro. Então sua filha diz:
- Espere, mamãe! Tem alguma coisa na porta!
Os dois se entreolham. A porta de uma das cabanas está tombada e ao lado algum objeto se esconde entre a vegetação alta. Com a insistência de sua filha, seu filho mais novo passa a incomodá-los também, curioso para saber o que é.
- Tem certeza que tem algo ali, querida? – pergunta sua esposa.
- Tenho! Está ali!
O advogado decide investigar. Avançando pelo capim alto, ele encontra o tal objeto oculto no chão. Sua esposa carrega o menino nos braços e se aproxima também, para o descontentamento de Matthew.
- É um cadáver! – exclama ela.
O corpo está todo dilacerado e mutilado. Algumas partes estão sem carne e pela precisão parece que foram fatiadas minuciosamente, como se fosse o trabalho de um açougueiro. O sangue estava seco e denotava-se dias que aquele corpo estava ali. Esfolado como um animal silvestre, após o ato o autor deixou a carcaça para trás. O advogado se agacha e encontra as roupas ensanguentadas do cadáver, ele se espanta ao ver que era um guarda florestal.
Levantando-se rápido, ele pega sua filha nos braços, puxa sua esposa e diz:
- Temos de sair daqui.
- O que foi?
- Era um guarda florestal.
Sua esposa se assusta. As crianças estão impressionadas com a carnificina e fazem perguntas incessantes, perturbando-os. Caminhando apressado pela estrada de terra, o advogado ouve sons vindos das árvores. São passos!
Matthew sente a necessidade de correr quando sua esposa o interrompe:
- Espere!
Correndo entre as árvores escuras, o advogado vê um homem carregando um menino no braço esquerdo e puxando uma mulher pela mão. O homem, de aparentemente cinquenta anos, veste roupas leves e a mulher, de aparetemente quarenta anos, veste um longo vestido velho e rasgado, correndo com seus longos cabelos soltos. O menino parece estar fraco e quase inconsciente nos braços dele. Quando os três se aproximam da estrada, Matthew e sua família se escondem atrás da cabana.
Enquanto aqueles três estranhos passam pela cabana, sua esposa pergunta:
- Devemos chamá-los?
Então roncos de motores são ouvidos mais adiante. Duas caminhonetes se aproximam em alta velocidade na estrada, fazendo barulho e subindo poeira. O advogado consegue ver que nas caçambas dos veículos há homens armados com rifles de caça. Eles vestem uniformes camuflados, botas, camisas xadrez, coletes de pescador, bonés e chapéus. Eles bloqueiam a passagem daqueles três e apontam suas armas. Nenhum deles percebe a presença da família do advogado ali, para a sorte de Matthew.
- Fique aqui. – ordena ele.
- Aonde você vai? – pergunta sua esposa.    
- Vou ver o que eles vão fazer.
- Posso ir com você? – perguntam seus filhos, quase ao mesmo tempo.
- Mantenha-os em silêncio. – pede ele.
Rastejando pela vegetação, Matthew se esgueira entre as árvores e assiste aqueles homens pegarem os três. O advogado ouve com dificuldade, mas parece que os três são fugitivos. O menino é filho do casal e eles fugiram de algum cativeiro no meio da floresta. O homem parece implorar pela vida de sua esposa e de seu filho, mas os homens riem. Outro homem, com uma barba semelhante a de um combatente da Primeira Guerra Mundial, aponta o rifle para o seu rosto e, em voz alta, responde:
- Pense se todos os coelhos tivessem que implorar por suas vidas. As águias e os lobos morreriam de fome!
O homem aperta o gatilho e o tiro estoura a cabeça do fugitivo. Matthew entra em um estado de choque. O cadáver cai na terra e seu sangue viscoso se escorre, formando um coágulo lamacento na poeira. Eles amarram os pulsos da mulher e tomam o filho de seus braços, jogando-o na cabine da caminhonete. A mulher é lançada na caçamba e grita até sua voz ficar rouca. Os homens parecem protestar a decisão do atirador em matar o fugitivo no meio da estrada. Com sua voz alta ele responde:
- Piquem-no em pedacinhos e ponham-no na caixa térmica.
Os homens retiram enormes facas de caça de suas cinturas e começam a golpear o morto. Aos poucos eles vão separando pedaços por pedaços, levantando ao ar para deixar o sangue escorrer e depois jogando-os em uma enorme caixa na caçamba. Na caixa parece haver gelo. Ele se horroriza, o que antes era usado para manter as cervejas geladas enquanto caçavam e pescavam agora é usada para conservar carne humana.
Um dos homens ergue o tronco esquartejado do fugitivo e o põe delicadamente dentro da caixa. A cabeça fica sobre a terra, o homem a ergue e a joga na floresta, fazendo-a cair a poucos metros de Matthew. Ele luta para não vomitar ao ver aquela perfuração de tiro no crânio. Os homens sobem nas caçambas e vão embora, voltando pela estrada de onde vieram.
Atrás da cabana, sua esposa o aguarda assustada. O advogado se aproxima e ela pergunta exasperadamente:
- O que aconteceu? Eu ouvi gritos! As crianças estão assustadas e não querem mais ficar aqui... – Matthew está pálido – O que há com você?
- Nós temos que sair da floresta. Não há tempo para explicar.
Ela ia perguntar de novo quando ele de repente vomita.
- Matthew, quem são aquelas pessoas? Por que estavam portando armas? Por que aqueles outros estavam fugindo?
- Eu não sei! – com o grito a mulher se cala. Ele fica em silêncio por um instante e então diz – Eu só quero tirar as crianças daqui o quanto antes, está bem?
- Mas o que eles fizeram?
Sua esposa não vai se mover enquanto não tiver respostas.
- Eles mataram aquele homem.
- Por quê? – insiste ela.
- Ele e sua família fugiram de algum cativeiro aqui na floresta.
Sua esposa pensa um pouco e então diz:
- Cativeiro? Então os homens nas caminhonetes são policiais. Ou guardas florestais como o cadáver na entrada da cabana. Devíamos procurá-los, pedir comida e abrigo, as crianças estão famintas. Elas estarão seguras com eles, melhor do que ficarmos na rodovia e sermos atacados por aqueles maníacos que rondam as cidades. Como você os chama? Saqueadores...?  
Irritado, o advogado responde energicamente:
- Eles não são policiais nem guardas! Isto não existe mais! Aqueles homens vão comer aquelas pessoas! Eu os vi picarem aquele velho diante dos meus olhos! Você não entende? Nós devemos sair daqui agora!
A mulher se assusta com a rudeza de Matthew, mas não diz mais nada. Ele ergue sua filha e sua esposa leva o menino. Os quatro então caminham a passos apressados para fora da floresta.

§

A cidade está próxima mas a noite se aproxima. Ainda cercados pelas árvores, a família não tem outra opção senão encontrar algum lugar para passar a noite. Mais adiante o advogado vê pequenos prédios de apartamentos, a estrada finalmente terminava e eles podiam ver as ruas asfaltadas. Uma cerca de arame farpado separava os prédios da floresta, mas a cerca havia sido tombada há muito tempo por eventuais invasores.
As ruas asfaltadas tinham rachaduras e focos de vegetação cresciam nelas. Os carros estavam estacionados ao lado da calçada, enferrujados e desgastados pelo tempo. Apesar do abandono, era um belo local. As ruas tinham belas árvores e os prédios tinham uma arquitetura alegre, convidativa, bela aos seus olhos. Há uma placa na calçada que diz:
“Traga sua família e venha morar ao lado da natureza! Fuja da cidade e respire o ar puro da floresta ao lado de sua casa! Sua família agradece!”.
- É um condomínio. – comenta sua esposa.
Eles veem um dos prédios, as cores alegres da pintura já estão desgastadas e os vidros das sacadas estão todos quebrados. De fora eles veem apenas a penumbra em seu interior. O abandono repentino gerou um aspecto de apodrecimento acelerado, afinal faziam apenas dois anos que os Estados Unidos haviam sido atacados, e os antigos habitantes haviam abandonado-os e se dispersado pelas cidades.
 No hall de entrada eles sentem o cheiro forte de bolor e umidade. Está tudo muito escuro, sua esposa aperta o interruptor mas a lâmpada não acende. Isso faz ela sentir saudades da eletricidade. As portas dos elevadores estão abertas e eles veem o fosso escuro. As crianças estão assustadas, seus passos provocam ecos nas escadarias, era como se a família tivesse entrado em um filme de terror.
Antigamente o que custava caro e poucos podiam comprar agora está abandonado e qualquer um pode entrar. Mas por uma ironia cruel nem mesmo os pobres, cobiçadores e invejosos queriam se mudar para lá agora. O advogado percebe a ironia, pois mesmo ele que nunca teve dinheiro para se mudar para um belo condomínio como aquele, agora que tem a oportunidade, prefere sair dali o mais rápido possível.
Matthew escolhe um apartamento no segundo andar, não muito alto se precisarem fugir, e não muito baixo para não ficarem expostos. A porta de madeira ruge e solta poeira ao abrir, a sala está coberta de pedaços de tinta descascada, caída das paredes. Na cozinha alguns azulejos se soltaram das paredes e ainda há o cheiro das argamassas de assentamento. Nos quartos escuros ele abre um pouco a janela para ventilar aquele cheiro de podridão. O banheiro social está bem conservado, ele abre a tampa do vaso sanitário e vê água limpa, talvez aquele seja o único banheiro limpo que ele viu em um mês. Na suíte nos fundos há uma banheira coberta de poeira e sujeira. Aquele apartamento nunca foi habitado, não deu tempo de vendê-lo a alguma família, o mundo acabou antes.
Na cozinha, sua esposa abre a torneira da pia e água suja espirra de sua ponta. Ela enche uma garrafa de água mas não se sente confiante em bebê-la. O advogado vê a cor da água e diz:
- Talvez haja radiação.
- Como pode estar contaminado? A água não saiu da caixa d´água, a radiação não entrou lá dentro.
Ela espera a água ficar mais clara e enche a garrafa de novo. Desta vez ela bebe e oferece aos seus filhos. Matthew bebe também, contaminada ou não ele sabe que morrer de sede é muito pior.
- Eu vou vasculhar os apartamentos lá em cima, para ter certeza de que não há mais ninguém.
Subindo as escadarias escuras e desertas, seus passos ecoam pelo ambiente, dando-lhe a impressão de que há mais gente ali. Ele entra no andar superior e vasculha os apartamentos, todos vazios e tomados pela sujeira. Subindo ainda mais, ele entra nos outros apartamentos, todos escuros, sujos e frios. Nos apartamentos acima há o mesmo aspecto de abandono. Ele continua subindo, usando aquelas escadarias sinistras que aguçam sua imaginação. Ao abrir a porta do sexto andar, o advogado não tem coragem de entrar, o hall social está totalmente escuro.
Subindo ao sétimo andar, algo lhe incomoda nas ecoantes escadarias. A porta se abre e ele vê que os apartamentos ali já foram invadidos antes. Em um deles, Matthew vê o que parece ser brasas de fogueira no meio da sala. A porta da sacada está toda quebrada e o vento frio do fim da tarde sopra suavemente dentro do local. Ele caminha para a suíte passando pelos quartos escuros no corredor. Estranhamente há manchas escuras no piso e um cheiro forte no ar, diferente daqueles materiais de construção nos apartamentos de baixo. A janela da suíte está fechada e ele não consegue ver o que há lá dentro. Dando passos imprecisos e confusos no escuro, ele alcança a janela e a abre, arrastando as folhas de alumínio e provocando aquele ruído agudo desagradável.
Ao olhar para trás ele se paralisa. Suas pernas perdem a força e ele grita de pavor. Diante de si há um homem enforcado e pendurado no lustre. Seu rosto está roxo pela asfixia e seus olhos arregalados encaram diretamente o advogado, que cai ao chão gritando de horror. O homem enforcado estava lá, Matthew passou por ele enquanto caminhava no escuro. “Meu Deus! Ele estava ali o tempo todo e eu nem percebi!” pensa ele. Lutando para manter a calma, ele se controla e se recompõe, respirando fundo e enxugando o suor que escorre como água em seu rosto. Ao se levantar, ele vê o homem enforcado balançar vagarosamente com o vento soprando dentro da suíte.
O advogado se aproxima do homem e nota que suas roupas não são diferentes daquelas dos peregrinos errantes nas cidades. São roupas gastas, rasgadas e sujas, verdadeiros trapos. Aos pés de Matthew há um caderno com folhas amareladas e uma caneta presa na espiral das páginas. Ao abri-lo, ele vê o que parece ser uma carta que não teve tempo de ser desanexada do caderno. Tudo fazia sentido agora, aquele homem era um suicida.
A carta diz:

"Se alguém ler esta carta, saiba que você não tem muito tempo. Estamos cansados de correr, sempre fugindo e se escondendo nos locais mais imundos. Minha família está faminta, não temos água limpa para beber e essas nuvens pesadas de cinzas trazem o frio. Não duraremos muito tempo nos escondendo aqui".

"Havia mais pessoas se escondendo nestes prédios abandonados, parece que esse belo condomínio é a única coisa que os ricos nos deixaram de bom. É uma pena que o mundo tenha de acabar para que gente como nós, pobres e assalariados, possa compartilhar do privilégio que só eles tinham. Mas hoje o luxo da classe alta não tem mais valor algum. Acampamos aqui, sozinhos neste prédio enquanto o resto dos fugitivos acampou nas torrres mais perto da reserva florestal, acreditando que estariam mais seguros lá. Após tanto tempo fugindo daqueles psicopatas e estupradores nas cidades, como saberíamos que uma nova ameaça surgiria da escuridão da floresta?".

"Por ser um local afastado das ruínas, muitos sobreviventes vinham para cá, nós os víamos chegar com suas sacolas, malas e carriolas. Todos esperavam encontrar comida neste requintado condomínio, o problema é que aqui só existia poeira, água suja e tinta descascada. A radiação fez muitos doentes também. Para prevenir minha família, não permiti que esses moribundos se mudassem para este prédio, espantando-os daqui com uma pá. Não podia arriscar que meus filhos se contaminassem e morressem de câncer, agonizando dia e noite como os contaminados nos prédios ao redor".

"Certo dia pessoas vieram correndo da floresta, fugindo como se cães raivosos estivessem atrás delas. Elas invadiram os prédios ao lado da reserva e eu desci para saber o que estava acontecendo. Ao chegar lá eles disseram que são fugitivos, que estavam em um cativeiro e que homens armados iam comê-los. Eu quis rir de seus relatos, mas me controlei, perguntando quem eram esses canibais que os perseguiam. Os fugitivos os chamavam de Caçadores, e encolheram-se de pavor ao pronunciar esse nome. Eu e os outros ocupantes deixamos aqueles fugitivos ficarem, mesmo que vigiando-os de perto para ver se eles não causariam problemas. Loucos perturbados, eles estavam sujos de lama como se tivessem saído de uma cova ou porão. O que faziam realmente no meio da floresta? Será algum culto satânico louvando o fim do mundo?".

"Os outros ocupantes espalhavam boates de que viam pessoas escondidas entre as árvores nos observando de longe. Eram como fantasmas na floresta, sumindo em um piscar de olhos. Eles diziam ver pessoas vestidas com roupas de caça, camufladas com gravetos e grama, semelhante a um franco-atirador. Eu não sabia por que esses ocupantes aterrorizavam a nós assim, já não bastava aqueles loucos obcecados pelos canibais que os perseguiam, agora mais esse boato? Alguns ocupantes, os mais medrosos, deixaram o condomínio e voltaram à cidade. Eu e a maioria decidimos ficar, ignorando os alertas e as advertências daqueles desequilibrados".

"Dois dias depois eles chegaram. Caminhonetes com vários homens armados com rifles de caça invadiram o condomínio, avançando pelas ruas e invadindo os prédios. Para meu horror eles tinham as exatas descrições que os fugitivos deram, pela primeira vez eu vi os chamados Caçadores. Daqui de cima nós assistimos o ataque, eles atiraram em muitas pessoas, muitos correram para a floresta e alguns foram atropelados pelas caminhonetes enquanto corriam pelas ruas. Mas a intenção deles não era matar e sim capturar".

"Ao arrancar as mulheres dos prédios, os caçadores as deitavam no capô dos carros e as estupravam, os maridos que tentavam impedir eram executados com tiros. Nós vimos as crianças sendo mortas também, para o meu total pavor. Muitas mulheres foram arrastadas pelos cabelos, os homens eram espancados e pisoteados, depois eles jogavam as vítimas inconscientes nas caçambas. Os caçadores riam da brutalidade. A dor e o pânico lhes estimulavam ainda mais. Um homem conseguiu bater com uma pedra na cabeça de um deles, fazendo-o desmaiar. Os caçadores o puniram amarrando-o no para-choque e arrastando-o pelas ruas até desaparecerem na floresta. Nunca em toda minha vida ouvi alguém gritar tanto de agonia como ele".

"Eu e minha família tivemos sorte por eles não invadirem nosso prédio. Nós assistimos aquele banho de sangue horrorizados, tentando manter o silêncio para não sermos pegos também. Muitos foram e capturados aquele dia. Os que sobraram se dispersaram, fugindo de volta à cidade ou se enfiando na floresta. De qualquer forma, quem adentrou a floresta selou seu próprio destino".

"No dia seguinte eles voltaram. Da rua eles gritaram para todos os que ainda estavam escondidos aqui, dizendo que se não nos entregássemos eles iriam subir nos prédios, vasculhar cada apartamento e nos pegar. Os caçadores nos fizeram ameaças terríveis, mas ninguém se entregou. Invadindo um dos prédios, eles acharam um homem e lhe interrogaram sobre a presença de mais ocupantes. Aquele desprezível traiu a todos nós, dizendo que muitos ainda permaneciam no condomínio, mas estavam se preparando para ir embora. O caçador pergunta onde estavam e o homem aponta para vários prédios, mas para nosa sorte ele pareceu ter se esquecido de minha família".

"Os caçadores invadem os esconderijos dos refugiado e os levam à força para suas caminhonetes. Muitos tentam resistir, mas são baleados e mortos, ninguém consegue escapar. Quando todos são capturados, nós vemos outra exibição de crueldade desumana. O homem que nos traiu é amarrado com correntes nos braços e pernas, e as pontas são presas nos para-choques das caminhonetes. Implorando por sua vida, eles o ignoram e riem para si mesmo. Saindo de arrancada, os veículos se afastam e o homem é partido ao meio, rasgado como um pedaço de pano. Ele nem teve tempo de gritar".

"Depois daquele dia tudo mudou em mim. Ouço vozes me chamando na escuridão, vejo vultos caminhando nas escadas, pesadelos atormentam meu sono... Minha família não podia fugir, estávamos famintos e fracos demais para caminhar. Se os caçadores nos vissem nas malditas estradas que levam à cidade, minha esposa e meus filhos seriam estuprados e mortos. E o que seria de mim? Seria cozido e devorado como um animal silvestre. Quem são estas pessoas? Que doença mental é essa que os compele a comer carne humana?".

"As florestas são amaldiçoadas, estes homens a profanaram com o nosso sangue. Assassinos! Quem lhes deu o direito de caçar a nós? Refugiados fracos e inocentes que não tem para onde ir? A fome extrema causada pelo mundo devastado e contaminado pela radiação provocou isso. É uma das bênçãos da adversidade, a luta pela sobrevivência. Mas se apenas querem comida, então por que são cruéis? Não são diferentes dos bandidos que rondam a cidade, afinal. Talvez sejam até piores. As vozes sabem o que dizem, elas me dão ideias e me aconselham neste momento tão incerto. Alguém na escadaria me chama, ele sussurra da escuridão o que devo fazer. Ele me lembra de que tenho uma arma. É claro! Por muito tempo escondi uma arma de minha família. Pensei que a usaria para protegê-los e talvez esta hora tenha chegado. Vou usar a arma com esta intenção, ironicamente não do jeito que pensei".

"Enquanto escrevo isto, lágrimas caem dos meus olhos. Eu matei todos eles enquanto dormiam. Meu filho, meu querido filho, recebe uma bala em sua cabeça. Minha filha, minha menininha, recebe outro tiro. Minha esposa acorda com os disparos e me vê de pé segurando minha arma. Ao ver as crianças mortas, ela tenta me impedir quando eu aperto o gatilho, acertando uma bala em sua garganta. Nunca vou me esquecer dos espasmos, engasgos e sussurros enquanto ela morria aos meus pés. Caminhando no escuro, eu acendo uma vela e me dirijo à forca improvisada que preparei horas antes". 

"Estas são minhas últimas palavras: se você chegou a este condomínio amaldiçoado e leu esta carta, saiba que eu deixei minha arma no quarto ao lado, junto aos corpos de minha família. Se você foi azarado o bastante para trazer sua família aqui também, a arma ainda tem três balas. Guarde-a. Talvez você precise usa-la como eu precisei".

Matthew solta o caderno e corre para o quarto ao lado. Atravessando a escuridão até a janela, ele a abre e encontra os três cadáveres caídos no chão. O homem suicida disse a verdade, uma mulher e duas crianças estão mortas ali. Ele se sente mal. Agachando-se em frente à janela, ele chora amargamente com a mão nos olhos. O sangue derramado escorreu por todo o piso, o cheiro é horrível e o líquido escuro gruda levemente na sola de seus sapatos. Ele vislumbra a família chacinada. Quanta coincidência, a família daquele homem é idêntica à sua, uma bela mulher e um casal de filhos pequenos.
 A arma está lá, um belo revólver prateado calibre 38. Analisando o tambor, ele encontra as três balas restantes. Tudo está do jeito que o homem disse. Ele não sabe por que, mas ao sair do quarto o advogado apanha a arma do chão e a põe em sua cintura, ocultando-a sob seus casacos. 
Então ele deixa o local e volta para o apartamento onde está sua família. Ao ver sua esposa, ele omite totalmente seu encontro com o homem suicida nos andares acima.

§

Matthew acorda no meio da noite. Sua esposa e seus filhos estão encolhidos no chão, abraçados uns aos outros para se proteger do frio. A arma lhe incomoda na cintura, ele se levanta e caminha no escuro até o banheiro. Após urinar, ele segura novamente o revólver, empunhando-o como se fosse atirar. A janela do banheiro deixa entrar uma luz muito fraca, quase imperceptível, e faz a arma prateada brilhar.
Distraído em seus pensamentos, o advogado ouve ruídos vindos da rua. Dirigindo-se até a sacada, ele abre a porta-balcão e se esgueira no parapeito. A noite está escura como a face da morte, ao longe ele ouve os sons das copas das árvores balançando com o vento. É a floresta, a temida floresta que traz outra ameaça para aterrorizar os indefesos peregrinos como ele. Sua família não está segura, não naquele condomínio. Eles têm que sair dali.
Virando-se para voltar ao quarto, ele ouve os ruídos novamente. Algo se move entre as árvores. Espiando atentamente, ele ouve o que parece ser sons de motores atravessando a floresta. Ele sabe do que se trata, são as caminhonetes dos caçadores, os únicos veículos que ele viu funcionar desde o primeiro ataque nuclear.
Os caçadores estão lá, espreitando a floresta à noite em seus veículos. Matthew sente medo, primeiro aqueles fugitivos e então aquela carta agourenta do homem suicida. Ele sabe que a carta é verdadeira, o advogado viu o que aconteceu com os fugitivos. E se pegarem sua família?
Ao amanhecer, ele está decidido a abandonar o condomínio. Mas quando a família se prepara para sair, uma ventania incomum açoita os prédios e a floresta, abaixando bruscamente a temperatura. Eles são obrigados a esperar, ficando mais um dia inteiro no prédio.
Na manhã seguinte, seus filhos estão famintos devido aos dias em que ficaram sem comer. Incapazes de caminhar, o advogado e sua esposa são obrigados a procurar alimentos nos outros prédios. Os dois passam o dia procurando, mas infelizmente não acham nada além de folhas de árvore e plantas.
Após mais um dia, seu filho passa mal devido a ingestão de plantas e tem disenteria, forçando-os a permanecer ali por mais tempo. Matthew entende a mensagem, alguma coisa não quer que eles abandonem o lugar. Sendo coincidência, azar ou destino, ele nunca foi supersticioso, mas a superstição se apoderou dele.
Enquanto esperam o dia passar, sentados na sala e observando o céu cinzento, eles ouvem o som dos motores. Desta vez não é só ele que ouve. Sua esposa e sua filha correm para a sacada e veem a caminhonete entrar no condomínio. Abaixando-se rapidamente para não serem vistos, os caçadores vasculham as ruas, observando os prédios para ver se acham mais alguém. Eles rondam o condomínio várias vezes em seu veículo que mais se parece com a barca de Caronte, prontos para levá-los ao Submundo.
Sua esposa volta ao apartamento e se esconde no quarto, abraçando sua filha. O menino ainda está muito febril, mal podendo abrir os olhos. A morte espreita lá embaixo e ele não pode fazer nada! Perdendo a calma, ele põe as mãos na cabeça e chora de desespero, confuso e desequilibrado com a situação.
E então ele ouve vozes.
Sussurros e mais sussurros. Os caçadores estão lá fora e mesmo assim ele deixa o apartamento, se dirigindo ao hall social e a entrada da escadaria. As vozes estão no fosso do elevador, de repente estão nas escuras escadas. Ele olha para cima e vê o lance de escadas, não há nada ali além de solidão e penumbra. Ao subir os primeiros degraus, sua esposa aparece atrás dele e pergunta:
- O que você está fazendo...?
Matthew se vira e vê sua esposa olhá-lo com uma expressão confusa e assustada. Ele mente:
- Vou procurar comida.
- Procurar comida? Do que está falando? Não há nada lá em cima! Você mesmo vasculhou os apartamentos! Não nos deixe sozinhos agora, Matthew. Aqueles assassinos estão lá embaixo!
Contrariado, ele volta ao apartamento e se reúne com sua família.
À noite ele não consegue dormir. Ele acorda constantemente com o menor ruído pensando ser as caminhonetes dos caçadores. De olhos abertos na escuridão, ele se vira de um lado ao outro tentando se aquecer naquele quarto frio.
Então outra voz o chama. Assustado, ele olha para a porta e vê um vulto passar no corredor. Ao seu lado sua família dorme em sono profundo e não percebem a presença de outra pessoa ali. Levantando-se, ele volta para a entrada e olha para o hall social. Não há ninguém. Tateando o escuro, ele encontra a porta das escadarias e começa a subir os degraus. E então mais vozes, sussurrando nos cantos escuros. “O que é que está havendo?”.
- Quem está aí? – pergunta ele, ouvindo sua voz ecoar.
Ele continua subindo mais e mais, ouvindo os sussurros macabros que parecem hipnotizá-lo. O corrimão é seu único guia enquanto sobe as escadas escuras sem luz alguma. O advogado chega ao sétimo andar, os sussurros parecem vir dali. Tateando o ar, ele tropeça e cai de joelhos várias vezes. Uma voz o chama de um apartamento. Para sua surpresa, é o mesmo onde está o homem enforcado.
Passos são ouvidos no corredor que leva para os quartos. A visão está muito escura mas parece haver vultos caminhado de um cômodo ao outro. Ele se dirige à origem das vozes e entra no quarto onde o corpo está pendurado. Não é possível enxergar nada, a escuridão é densa demais. Parado de pé dentro do quarto, Matthew ouve a voz sussurrar em seus ouvidos.
- Amanhã? – pergunta ele como se estivesse falando com alguém – Eu compreendo.
O advogado deixa o apartamento e volta pelas escadarias. Ao chegar ao seu apartamento, ele se deita ao lado de sua família e volta a dormir.

§

Na manhã seguinte ele acorda perturbado, sentindo uma dor terrível na cabeça. “Que sonho horrível” pensa ele, pondo sua mão na cabeça. Ele está sozinho no quarto, sua esposa e filhos já acordaram. Virando-se, ele vê uma corda ao seu lado. O advogado se apavora, quem a colocou ali?
Sua esposa cuida de seu filho quando a menina os chama da sacada. Matthew corre, sua esposa e seu filho o acompanham. Ao olhar para baixo, eles veem um grupo de pessoas se aproximarem do prédio, como se fosse uma procissão de miseráveis. Eles vestem capuz e casacos, alguns vestem mantos e cobertores, e outros portam machados e bastões sob seus mantos. Era como se uma hoste inteira de espíritos ceifeiros se ajuntasse e viesse ao encontro de Matthew e sua família. “Serão os caçadores? Se eles são, cadê as caminhonetes?”.
O grupo se aproxima da entrada do prédio. Matthew se afasta da sacada, apavorado e descontrolado. “O que será de minha família?” pensa ele, “os caçadores vão devorar meus filhos e estuprar minha esposa!”. Enquanto seu corpo treme, as vozes atravessam sua mente como um trovão. Ao ouvi-la, imediatamente ele para de tremer. Ele sente a arma esfriar sua pele em sua cintura. Sussurros e mais sussurros tomam sua mente. Ele olha para os lados mas não vê ninguém, paradoxalmente parece haver dezenas de pessoas falando com ele. “Quem são vocês?” pensa ele olhando ao redor.
Com o pavor e o estresse revirando-se em sua cabeça, ele se debate e começa a suar frio. Enfiando a mão sob seus casacos, ele retira o revólver de sua cintura e o empunha na mão direita, preparando-se para atirar. Ironicamente não é nas pessoas lá embaixo que ele mira.
Sua esposa e seus dois filhos estão de costas para ele, curvados sobre o parapeito e observando aquele grupo lá embaixo. Matthew coloca seu dedo trêmulo no gatilho e aponta a arma para a cabeça de seu filho. E então ele atira.
A nuca de seu filho é perfurada pela bala, o som do disparo faz o grupo lá embaixo se assustar. Sua filha vira seu rosto para olhar para o seu pai quando outra bala atravessa a lateral de sua cabeça. Ao ver os dois caídos e o sangue jorrar de suas cabeças, sua esposa começa a gritar o mais alto que pode até uma bala atravessar sua garganta, emudecendo-a imediatamente. O cano da arma expele fumaça, não há mais nenhuma bala no tambor. Os três estão caídos ali, sua esposa agoniza em espasmos e engasgos, gemendo enquanto a vida sai de seu corpo. O advogado joga a arma no chão, ela já não tinha mais utilidade. Matthew vai até o quarto e apanha a corda. Levando-a até a suíte, ele a amarra no lustre, fazendo uma forca. Ajeitando-a em seu pescoço, ele se prepara para se jogar quando algo acontece.
Aquelas pessoas que estavam na rua ouviram os disparos e o grito da mulher. Assustados, eles decidem se sobem ao socorro da vítima ou se vão embora. Felizmente alguns homens decidem ajudar. Eles sobem rapidamente as escadas, os homens adentram o apartamento e encontram três cadáveres na sacada. A arma está no chão mas o atirador não está ali. Caminhando lentamente pelo corredor, eles se deparam com um homem prestes a se enforcar.
- Espere!
O homem se joga, mas antes que pudesse sentir o esmagamento de sua garganta, alguém agarra o seu corpo e o suspende. Eles retiram a corda de seu pescoço e o sentam no chão, o homem parece estar em choque.
- Acho que ele está traumatizado. – diz alguém.
De repente o homem acorda de seu transe psicótico e vê aquelas pessoas olharem preocupadas para ele. Era o grupo do professor.
- Vocês são os caçadores?
Ninguém sabe do que ele está falando.
- Caçadores...? – pergunta o médico.
- Qual é o seu nome? – pergunta o professor.
- Matthew Thompson.
- Sabe o que você fez?
- Não vou deixar os caçadores devorarem minha família... As vozes me alertaram, elas estavam certas, afinal... Oh, minha esposa...
O advogado começa a chorar amargamente. Ninguém no grupo compreende o que está havendo. O professor os interrompe e diz:
- Vamos. Temos que tirá-lo daqui.

  

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