Fragmento
1
O
gigantesco veículo militar RT-2UTTH Topol M avança pelas geladas estradas da
Sibéria. O grupo de sete soldados, contando com o capitão, estão ao lado do
mais formidável míssil criado pela ex-União Soviética, o SS-18 Satan.
O
Soldado Trodnik, do exército russo, admira a incrível invenção bélica ao seu
lado. Apesar de não ter nascido na época de sua criação, ele ouvia histórias
sobre o poderoso míssil ICBM russo, com sua capacidade de carregar dez ogivas
nucleares de 0,8 Mt cada, guiadas automaticamente pelo moderno sistema MIRV.
Ele se pergunta qual é o modelo do imenso míssil de quase trinta e cinco metros
nas costas do Topol M. “Será o RT-36MTTUH ou o R-36M2 Modelo 6?”.
Apesar
de ter nascido em um bucólico vilarejo nas estepes russas, Trodnik nunca foi um
ignorante quanto a história de seu país. Ele conhece o legado soviético no
mundo, ele recebeu o ensino na escola primária mesmo quando seus alunos –
crianças de no máximo treze anos - ficavam em casa trabalhando na lavoura,
forçando os professores a suspenderem as aulas por causa da ausência. A Guerra
Fria durou quarenta e quatro anos, de 1947 a 1991, e deixou o mundo prendendo o
fôlego durante as constantes crises, ameaças e indícios de uma guerra nuclear
que devastaria a face da Terra. Trodnik, hoje um rapaz de dezoito anos, sabe o
que aconteceria com a vida no planeta se houvesse tal guerra e jamais a
apoiaria. Porém a pergunta vinha à sua cabeça sempre que estudava o assunto. “E
se a guerra tivesse ocorrido?”
Os
assuntos militares sempre lhe deram interesse extraordinário, talvez seja esse
o motivo dele ter se alistado no exército nacional. Ele se declara um
pacifista, apoia a democracia e acredita na diplomacia para resolver eventuais
conflitos, mas no seu coração ele sabe que é um militarista radical e
saudosista dos tempos soviéticos, quando seu país era forte e intimidava o
Oeste com sua avançada tecnologia bélica. Infelizmente seus colegas de quartel
não o enxergavam assim. Trodnik não era mais do que um camponês ignorante e mal
letrado que trocou a enxada pelo fuzil AK-47. Entretanto, e se eles estiverem
certos? O jovem camponês só foi para Moscou depois de se alistar, Deus sabe
quando ele iria se não o tivesse, tendo que percorrer quase dois mil
quilômetros pelo caminho. Ele é tão burro, estúpido e ignorante como eles
acham? Alguém cuja responsabilidade na equipe do Topol é de apenas apertar um
botão?
-
Ei, Trodnik! Aperte o botão para erguer o foguete quando chegar a hora! – grita
o capitão.
“É
lógico que eu apertarei, eu não preciso ser lembrado disso!” pensa ele.
Um
menino pobre, de uma família humilde, cuja função é matar centenas de milhares
de pessoas com o pressionar de um botão. Ele não faria sozinho, é claro, há
mais seis pessoas que contribuirão para isso. Sua família pensaria isso dele
enquanto ele crescia na lavoura? O mesmo menino que ajudava o pai a dar
sustento à sua casa, mas que à noite os importunava com assuntos políticos
ouvidos na escola e que todos eles eram ignorantes demais para entender? O
jovem Trodnik, responsável pela devastação diabólica de cidades inteiras!
Ordens são ordens, porém as mãos que a executam podem ser inocentadas por um
ato tão hediondo?
Eles chegam ao local indicado. O imenso Topol
M estaciona e todos se preparam para agir. A neve cai lentamente e o frio corta
seu corpo através das pesadas roupas. O jovem soldado se aproxima do painel
esbranquiçado. Os cavaletes hidráulicos suspendem o lançador móvel e então
Trodnik pressiona o botão, erguendo o míssil de duzentos e onze quilos em
direção ao céu.
A
equipe de militares verifica se há alguma falha e então se afastam do lançador
móvel. À uma distância segura o capitão Lebedev segura o controle em suas mãos
trêmulas, o frio é a última coisa que as fazem tremer. Após uma mensagem de
rádio, a ordem é confirmada. “Lançamento autorizado”. Não há razão para deixar
em suas mãos o lançamento do míssil, o governo pode acioná-lo à distância. Ele
se pergunta por que os malditos políticos jogaram tamanha responsabilidade
sobre ele. Talvez seja uma tentativa suja de se esquivar da culpa da morte de
milhões.
“Não,
ele é um bom soldado. Não vai desobedecer as ordens” pensa Trodnik. O jovem
soldado observa o míssil, o velho míssil não virou sucata afinal, desta vez ele
será usado e isto o empolga morbidamente. Após tantos anos inativo,
enferrujando em algum hangar por aí, quem diria que um dia ele finalmente seria
usado? “E se a guerra tivesse ocorrido?” pensa novamente o rapaz.
Desta
vez a guerra não ocorreu. Ela está em andamento.
O
capitão Lebedev aperta o botão e o míssil se acende em violentas chamas como se
fosse o enxofre expelido do próprio inferno. Em seguida levanta voo, derretendo
a neve sobre a estrada, soprando as árvores com veemência e ofuscando suas
vistas com o fogo.
O
ignorante Trodnik, o ingênuo camponês que se inspirou nas aulas de história de
uma escola improvisada no meio da estepe, um rapaz que só conhecia a guerra nas
fotos dos livros, ele cuja instrução é terrivelmente limitada à sua procedência
bucólica, cujo sotaque e modos de pensar e agir são dignos de gozação por parte
de seus colegas, o estereótipo perfeito do jovem ingênuo e sonhador do campo
que vem à cidade com esperanças de uma vida melhor, finalmente vê o imponente
míssil SS-18 Satan se ascender ao céu, finalmente funcionando! E de acordo com
o que foi criado para fazer - destruir - numa velocidade fantástica, os
incríveis 7,0 Km/s, algo tão rápido e bem ali, diante de seus olhos, olhos de
gente “ignorante”.
O
grupo compartilha de seu fascínio e observa hipnoticamente o enorme míssil subir
entre as nuvens, rasgando o céu e deixando o rastro de fumaça tão comumente
visto nos aviões de passageiros. Eles não sabem o que fizeram ali, nunca
saberão o que o míssil fará quando alcançar os alvos, mas talvez o momentâneo
orgulho de cumprir com os seus deveres os alivie das consequências trágicas do
fascinante lançamento.
Eles
são tão pequenos comparados ao que fizeram. Trodnik é ainda menor.
Os
minutos se passam e o capitão Lebedev diz:
-
Certo. Vamos embora daqui, meus pés estão congelando.
Enquanto
voltam ao Topol M, eles ouvem um zunido ao longe. Será o míssil? Será que ele
falhou? A terra treme sutilmente sob seus pés. Eles se olham e se perguntam
“será um ataque?”. Impossível! O exército escolheu esse lugar no meio do nada
para ser difícil de se detectar um lançamento de foguetes. Além do mais, que
valor estratégico teria um descampado na Sibéria? Não pode ser um ataque. Outro
zunido e outro zunido, os tremores são mais audíveis e mais assustadores. No
quarto zunido, tudo é esclarecido.
Um míssil menor rasga o céu em uma
velocidade tremenda e se detona entre as nuvens. O clarão ofusca seus olhos, então
a monstruosa onda de calor avança sobre eles, um tsunami infernal de fogo
consumindo as árvores, estremecendo a terra e desfragmentando o solo. O enorme
cogumelo ígneo se forma ao longe como se fosse uma invasão demoníaca. A onda de
fogo se aproxima do pesado Topol M e o suspende no ar como um graveto na
ventania. Trodnik, o jovem Trodnik, assiste em um piscar de olhos seus
companheiros virarem esqueletos nas chamas, e em seguida ele mesmo, consumido
brutalmente pela poderosa onda de calor de 270.000 ºC vaporizando tudo em seu
caminho.

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