terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 02 - Fragmento 1



Fragmento 1

O gigantesco veículo militar RT-2UTTH Topol M avança pelas geladas estradas da Sibéria. O grupo de sete soldados, contando com o capitão, estão ao lado do mais formidável míssil criado pela ex-União Soviética, o SS-18 Satan.
O Soldado Trodnik, do exército russo, admira a incrível invenção bélica ao seu lado. Apesar de não ter nascido na época de sua criação, ele ouvia histórias sobre o poderoso míssil ICBM russo, com sua capacidade de carregar dez ogivas nucleares de 0,8 Mt cada, guiadas automaticamente pelo moderno sistema MIRV. Ele se pergunta qual é o modelo do imenso míssil de quase trinta e cinco metros nas costas do Topol M. “Será o RT-36MTTUH ou o R-36M2 Modelo 6?”.
Apesar de ter nascido em um bucólico vilarejo nas estepes russas, Trodnik nunca foi um ignorante quanto a história de seu país. Ele conhece o legado soviético no mundo, ele recebeu o ensino na escola primária mesmo quando seus alunos – crianças de no máximo treze anos - ficavam em casa trabalhando na lavoura, forçando os professores a suspenderem as aulas por causa da ausência. A Guerra Fria durou quarenta e quatro anos, de 1947 a 1991, e deixou o mundo prendendo o fôlego durante as constantes crises, ameaças e indícios de uma guerra nuclear que devastaria a face da Terra. Trodnik, hoje um rapaz de dezoito anos, sabe o que aconteceria com a vida no planeta se houvesse tal guerra e jamais a apoiaria. Porém a pergunta vinha à sua cabeça sempre que estudava o assunto. “E se a guerra tivesse ocorrido?”
Os assuntos militares sempre lhe deram interesse extraordinário, talvez seja esse o motivo dele ter se alistado no exército nacional. Ele se declara um pacifista, apoia a democracia e acredita na diplomacia para resolver eventuais conflitos, mas no seu coração ele sabe que é um militarista radical e saudosista dos tempos soviéticos, quando seu país era forte e intimidava o Oeste com sua avançada tecnologia bélica. Infelizmente seus colegas de quartel não o enxergavam assim. Trodnik não era mais do que um camponês ignorante e mal letrado que trocou a enxada pelo fuzil AK-47. Entretanto, e se eles estiverem certos? O jovem camponês só foi para Moscou depois de se alistar, Deus sabe quando ele iria se não o tivesse, tendo que percorrer quase dois mil quilômetros pelo caminho. Ele é tão burro, estúpido e ignorante como eles acham? Alguém cuja responsabilidade na equipe do Topol é de apenas apertar um botão?
- Ei, Trodnik! Aperte o botão para erguer o foguete quando chegar a hora! – grita o capitão.
“É lógico que eu apertarei, eu não preciso ser lembrado disso!” pensa ele.
Um menino pobre, de uma família humilde, cuja função é matar centenas de milhares de pessoas com o pressionar de um botão. Ele não faria sozinho, é claro, há mais seis pessoas que contribuirão para isso. Sua família pensaria isso dele enquanto ele crescia na lavoura? O mesmo menino que ajudava o pai a dar sustento à sua casa, mas que à noite os importunava com assuntos políticos ouvidos na escola e que todos eles eram ignorantes demais para entender? O jovem Trodnik, responsável pela devastação diabólica de cidades inteiras! Ordens são ordens, porém as mãos que a executam podem ser inocentadas por um ato tão hediondo?
 Eles chegam ao local indicado. O imenso Topol M estaciona e todos se preparam para agir. A neve cai lentamente e o frio corta seu corpo através das pesadas roupas. O jovem soldado se aproxima do painel esbranquiçado. Os cavaletes hidráulicos suspendem o lançador móvel e então Trodnik pressiona o botão, erguendo o míssil de duzentos e onze quilos em direção ao céu.
A equipe de militares verifica se há alguma falha e então se afastam do lançador móvel. À uma distância segura o capitão Lebedev segura o controle em suas mãos trêmulas, o frio é a última coisa que as fazem tremer. Após uma mensagem de rádio, a ordem é confirmada. “Lançamento autorizado”. Não há razão para deixar em suas mãos o lançamento do míssil, o governo pode acioná-lo à distância. Ele se pergunta por que os malditos políticos jogaram tamanha responsabilidade sobre ele. Talvez seja uma tentativa suja de se esquivar da culpa da morte de milhões.
“Não, ele é um bom soldado. Não vai desobedecer as ordens” pensa Trodnik. O jovem soldado observa o míssil, o velho míssil não virou sucata afinal, desta vez ele será usado e isto o empolga morbidamente. Após tantos anos inativo, enferrujando em algum hangar por aí, quem diria que um dia ele finalmente seria usado? “E se a guerra tivesse ocorrido?” pensa novamente o rapaz.
Desta vez a guerra não ocorreu. Ela está em andamento.
O capitão Lebedev aperta o botão e o míssil se acende em violentas chamas como se fosse o enxofre expelido do próprio inferno. Em seguida levanta voo, derretendo a neve sobre a estrada, soprando as árvores com veemência e ofuscando suas vistas com o fogo.
O ignorante Trodnik, o ingênuo camponês que se inspirou nas aulas de história de uma escola improvisada no meio da estepe, um rapaz que só conhecia a guerra nas fotos dos livros, ele cuja instrução é terrivelmente limitada à sua procedência bucólica, cujo sotaque e modos de pensar e agir são dignos de gozação por parte de seus colegas, o estereótipo perfeito do jovem ingênuo e sonhador do campo que vem à cidade com esperanças de uma vida melhor, finalmente vê o imponente míssil SS-18 Satan se ascender ao céu, finalmente funcionando! E de acordo com o que foi criado para fazer - destruir - numa velocidade fantástica, os incríveis 7,0 Km/s, algo tão rápido e bem ali, diante de seus olhos, olhos de gente “ignorante”.
O grupo compartilha de seu fascínio e observa hipnoticamente o enorme míssil subir entre as nuvens, rasgando o céu e deixando o rastro de fumaça tão comumente visto nos aviões de passageiros. Eles não sabem o que fizeram ali, nunca saberão o que o míssil fará quando alcançar os alvos, mas talvez o momentâneo orgulho de cumprir com os seus deveres os alivie das consequências trágicas do fascinante lançamento.
Eles são tão pequenos comparados ao que fizeram. Trodnik é ainda menor.
Os minutos se passam e o capitão Lebedev diz:
- Certo. Vamos embora daqui, meus pés estão congelando.
Enquanto voltam ao Topol M, eles ouvem um zunido ao longe. Será o míssil? Será que ele falhou? A terra treme sutilmente sob seus pés. Eles se olham e se perguntam “será um ataque?”. Impossível! O exército escolheu esse lugar no meio do nada para ser difícil de se detectar um lançamento de foguetes. Além do mais, que valor estratégico teria um descampado na Sibéria? Não pode ser um ataque. Outro zunido e outro zunido, os tremores são mais audíveis e mais assustadores. No quarto zunido, tudo é esclarecido.
    Um míssil menor rasga o céu em uma velocidade tremenda e se detona entre as nuvens. O clarão ofusca seus olhos, então a monstruosa onda de calor avança sobre eles, um tsunami infernal de fogo consumindo as árvores, estremecendo a terra e desfragmentando o solo. O enorme cogumelo ígneo se forma ao longe como se fosse uma invasão demoníaca. A onda de fogo se aproxima do pesado Topol M e o suspende no ar como um graveto na ventania. Trodnik, o jovem Trodnik, assiste em um piscar de olhos seus companheiros virarem esqueletos nas chamas, e em seguida ele mesmo, consumido brutalmente pela poderosa onda de calor de 270.000 ºC vaporizando tudo em seu caminho.



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