Fragmento
11
Noach
Weizman era um importante teólogo judeu em Jerusalém. Sendo um pesquisador
respeitado e aluno brilhante, Noach tinha vastos conhecimentos na Torá e no
Talmude. Mas além de seus interesses em sua religião, ele também se fascinava
pelo Novo Testamento do Cristianismo.
Diante
de uma crise mundial que ameaçava a Terra Santa, ele decide se juntar a um
grupo de ajuda humanitária para resgatar cidadãos israelenses da Síria, trazendo-os
de volta à Israel. Com atividades militares dos dois lados, a fronteira síria
estava cada vez mais conturbada e todos temiam uma invasão. A evacuação de
israelenses era imprescindível se houvesse um ataque. Apesar de sua idade
avançada, Noach se junta a um comboio militar e parte para a fronteira.
A
Síria passou por períodos violentos desde o último regime, e o período de
transição encara escassez severa de água e alimentos. O primeiro grupo de ajuda
humanitária chegou à Damasco três meses atrás. Apesar do esforço para ajudar a
população local, eles optaram por suas seguranças e pediram resgate ao exército
israelense.
Dentro
do transporte militar, Noach observa seus companheiros de grupo. Eles são todos
jovens e vigorosos, mas ainda assim inexperientes. Gastam suas energias
preocupando-se com os rumores de guerra, a segurança da região e o governo.
Noach é mais velho e está acostumado com as tensões na Palestina. Durante sua
vida, houve inúmeros conflitos com os países vizinhos, tanto bélicos quanto
diplomáticos. Apesar das intervenções militares ao longo de sua vida, a
soberania e existência do estado de Israel nunca foram definitivamente destruídas.
Mas aqueles jovens insistiam em dizer que daquela vez era diferente.
Ouvindo
o rádio, o noticiário alertava sobre a iminência de uma guerra nuclear. Países
do Oriente Médio armavam-se com armamentos nucleares e dirigiam ameaças a
Israel. Por outro lado, o governo emitia notícias que tranquilizava os
israelenses. Se houvesse um ataque com armas de destruição em massa, Israel se
defenderia com seu formidável arsenal de mísseis Jericho II e III. O míssil
Jericho II era de longo alcance e podia transportar uma ogiva nuclear de 1,0
Mt. O míssil Jericho III era um moderno ICBM capaz de transportar ogivas
nucleares com a tecnologia MIRV. Apesar da tentativa de acalmar a população,
muitos acreditavam que aquela guerra seria o fim do mundo.
O
teólogo Noach não acreditava que por esta guerra haveria o fim do mundo. Se o
Apocalipse escrito por João estiver certo, os sinais do fim dos tempos ainda
não ocorreram. Nenhuma figura pública internacional assemelhava-se com o
Anticristo. O templo de Salomão não foi reconstruído em Jerusalém. Não houve
arrebatamento, tribulação e nem a marca da besta. Noach não se arriscava em
pensar que o livro de João seria uma fraude, mas se houvesse um ataque nuclear
em Israel aquilo seria o mais próximo do Armagedom.
O
comboio militar atravessa a fronteira e se dirige à capital Damasco. Enquanto
avançam, Noach lembra-se dos profetas do Velho Testamento. E se Deus olhasse
para ele agora e o nomeasse profeta? Quão grandioso seria seu destino, portando
sua fé e profetizando em terra estrangeira. Como Jonas em Nínive, Elias em
Sarepta e Daniel na Babilônia. Ou seria ele nomeado um apóstolo? Como poderia
um teólogo judeu se converter ao Cristianismo se ele mesmo não cria naquele
Cristo?
Os
soldados estão tensos. Dirigindo em alta velocidade, eles olham atentos para o
caminho, todos temem uma emboscada. Incapazes de prever o ataque, uma mina
terrestre se explode, tombando o veículo à beira da estrada. O tiroteio começa
e Noach ouve muitos gritos e explosões, mas incapaz de manter-se acordado, ele
desmaia.
Acordando
horas depois, ele vê seu corpo ensanguentado e vários corpos no interior do
veículo. Seus companheiros, aqueles mesmos jovens dedicados e cheios de vida,
estão mortos à sua volta. Levantando-se, ele caminha para fora e vê os carros
destruídos. Todos os soldados foram mortos e ele foi tudo o que sobrou.
Confuso
e sem saber o que fazer, Noach olha ao redor e vê uma placa ao lado da estrada.
A placa informava que Damasco não estava longe. Tremendo e com suas roupas
cobertas de sangue, ele decide caminhar para a capital e de lá pedir socorro.
Seus primeiros passos são desnorteados e doloridos, mas ele não vai muito
longe.
Rasgando
o céu como uma estrela cadente, um objeto atravessa as nuvens e cai em algum
lugar no horizonte. O chão treme. De repente um clarão se levanta e o cega. Perplexo
e ofegante, ele imediatamente se lembra da passagem 9:3 no livro de Atos,
quando o apóstolo Paulo, ainda com o nome de Saulo, caminhava em direção à
Damasco quando uma luz resplandece do céu, cegando-o.
Em um
delírio religioso, Noach cai de joelhos e abre os seus braços. Emocionado,
lágrimas escorrem de seus olhos e ele exulta ao perguntar. As coincidências são
evidentes demais.
- És
ti, Senhor Jesus...?
Mas
diferente de Paulo que apenas ficou cego, Noach ficou cego, surdo, mudo,
aleijado e morto. O clarão que viu não foi uma manifestação divina, mas a
potente explosão de uma bomba nuclear.

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