O
Maçom
O
esconderijo dos saqueadores é um armazém onde funcionava um antigo mercado.
Pelos corredores de prateleiras eles fizeram suas moradias. Tudo foi saqueado,
tudo foi roubado, um lugar onde antes havia fartura agora há apenas as
prateleiras vazias e enferrujadas.
George
vê que seus novos “donos” se parecem com os antigos guerreiros highlanders da
Escócia. Com exceção dos kilts, dos cabelos trançados e das armas medievais,
todos têm seus rostos pintados de azul. O maçom não sabe o que é aquela tinta ou
por que eles se pintam, mas deduz que seja uma forma de identificação entre as
dezenas de gangues de assassinos que habitam as ruínas.
Na
fachada do velho mercado o maçom vê cadáveres pendurados nas vigas do telhado.
Poças enormes de sangue mancham a calçada e moscas voam de um lado ao outro
enquanto devoram a podridão. George não entende a razão de tanta carnificina,
mas aquela atrocidade é um sinal de intimidação entre as tribos de psicopatas
que disputam a mão de obra escrava dos peregrinos.
Sobre
as prateleiras eles improvisaram pontes com tábuas largas, assim eles poderiam
vigiar os escravos enquanto trabalhavam limpando o local. George vê seus novos
companheiros, homens e mulheres com roupas velhas e gastas, sentados de cabeça
baixa em um local separado do armazém. O maçom é lançado lá dentro, caindo ao
lado dos escravos. Os saqueadores vão embora, mas um guarda é deixado no lado
de fora da cerca, sentado em uma cadeira.
George
tenta conversar com os escravos mas eles não respondem. Muitos nem mesmo olham
para ele, ignorando-o como se estivessem em um transe catatônico. Ao
observá-los melhor, ele percebe que muitos estão deprimidos e desesperados,
eles não puderam suportar a terrível realidade em que o mundo se tornou.
Alguém
o chama no outro lado da cela. Um homem de cabelos castanhos e barba comprida
tenta falar com ele.
-
Como veio parar aqui? – pergunta o homem.
-
Fui vendido como escravo de outra tribo de saqueadores.
O
homem faz uma expressão de tristeza.
-
Meu nome é Mitchell. Prazer em conhecê-lo.
-
George Everett. – os dois apertam as mãos - E você? Como veio parar aqui?
-
Fui capturado também. Estive andando nas ruínas com meu melhor amigo desde que
as bombas caíram. Quando esses saqueadores nos acharam, ele bateu em minha
cabeça e eu desmaiei, dando-lhe tempo de correr e fugir.
O
maçom se espanta.
-
Seu amigo te bateu?
-
Sim. – então ele exibe uma ferida em sua cabeça.
-
Ele te traiu? Seu melhor amigo?
- É
o que parece. Os saqueadores já me tinham em suas mãos. Não se deram ao
trabalho de correr atrás dele.
George
foi traído também. Aqueles que o traíram eram mais que amigos, eram irmãos, ou
assim era o que a Ordem o fazia pensar. Coincidentemente essa traição também o
condenou a vagar pelas ruínas como Mitchell, arriscando a própria vida para
sobreviver.
-
Ouça. – continua Mitchell – Não sei se sairemos vivos daqui, mas não quero
ficar para saber. Quando tiver a chance eu vou fugir desse lugar. Não nasci para
ser nenhum escravo desses psicopatas. Eu vou cair fora. Quer vir comigo?
O
maçom hesita.
-
Não sei se quero fugir. Não é melhor nas ruínas.
-
Ora, mas é melhor viver livre! Você não tem ninguém lá fora? Algum familiar ou
amigo te esperando? Você deve estar procurando alguma coisa. Todos estão. Você está?
Mitchell
está certo. George está procurando algo. Sua busca obsessiva o levou até ali,
além de uma série de outras escolhas imprudentes.
-
Acho que sim.
-
Ótimo. Fugiremos juntos então. Eu não estou procurando nada, só quero ser
livre. Se você me ajudar a fugir, prometo que te ajudarei a encontrar o que
procura. Feito?
O
homem estende sua mão. George se intriga, os dois não se conhecessem e Mitchell
já lhe confia segredos. O maçom é um homem arrogante e egoísta, o novo mundo
não consertou os defeitos de sua personalidade. O homem a sua frente é um
ingênuo, diferente do cínico maçom.
Percebendo
que ele pode ser útil, George estende sua mão e os dois fecham o acordo.
-
Feito.
§
Os
saqueadores impõem suas vontades aos escravos. O maçom é obrigado a limpar o
chão diariamente. Mitchell é encarregado de carregar caixas pesadas para dentro
do mercado. As mulheres têm suas obrigações sexuais e são levadas para os
dormitórios. A rotina terrível começa em seu novo lar.
Apesar
da situação degradante, George vê poucas cenas de violência naquele lugar.
Alguns escravos tentam fugir mas estão fracos e famintos demais. Os saqueadores
os recapturam facilmente e os matam em seguida, amarrando seus pescoços e enforcando-os
na entrada do abrigo. Diferente do ferro-velho, os escravos não precisam ficar
nus para trabalhar. Mesmo as mulheres vestem roupas quando não estão servindo
aos seus senhores.
George
e Mitchell se tornam grandes amigos. Eles compartilham histórias pessoais e
passam a maior parte do tempo juntos. As mulheres estão tristes e choram frequentemente.
O maçom tenta se aproximar delas mas é recebido com desconfiança e medo. Elas
sofrem miseravelmente com sua nova condição e não querem amizade. Mitchell o
aconselha a não procurá-las de novo.
A
sala da gerência está acima do mercado e é onde o chefe reside. O maçom se
lembra do chefe, o tal “Lunático”, o mesmo homem que o comprou do ferro-velho
dias atrás. Apesar do nome provocar risos, o chefe não é um homem a quem se
deva rir. Seu olhar é cruel e feroz, é um daqueles maníacos que escondem seus
apetites durante toda a vida, mas os libera em alguém que esteja no local
errado e na hora errada. Para sua sorte, nesse novo mundo ele não precisa mais se
esconder.
Após
uma semana no abrigo dos saqueadores, George tenta se esquecer de sua busca
obsessiva. Não querendo fugir sem nenhuma pista, ele simplesmente aguarda o
momento certo de ir.
Enquanto
limpa o chão do mercado, onde antigamente ficavam as geladeiras, ele vê dois
saqueadores conversando ao longe. Fingindo trabalhar, ele se aproxima e os
ouve.
-
Você ouviu o que os mercadores encontraram?
-
Não, o que foi?
-
Eles acharam uma espécie de abrigo, um bunker ou coisa assim.
- E
daí? Deve haver milhares de bunkers espalhados pelos Estados Unidos.
-
Não, esse é diferente. É sofisticado, diferente dos abrigos antibombas do
governo. Ouvi dizer que há desenhos... símbolos... coisas estranhos na espessa
porta de metal, como se fosse um templo satânico.
O
saqueador ri.
-
Sério?
-
Está a alguns metros debaixo da terra, escondido para ninguém encontrar.
- Pelo
jeito alguém o encontrou.
- Os
mercadores tentam abri-lo desde então. Acreditam que deve haver uma infinidade
de mantimentos lá dentro. Além de dinheiro... barras de ouro... mulheres
gostosas...
-
Mulheres? Eis aí algo que vale alguma coisa hoje em dia! – brinca ele.
- Eu
não me atreveria a entrar nesse abrigo. Esses símbolos são do ocultismo, meu
tio mexia com essas coisas. Morreu de ataque cardíaco. Disseram que o próprio
diabo veio levar sua alma no dia de sua morte. E se eles estão adorando o demônio
lá dentro?
-
Como são esses símbolos?
-
Ah, eu não sei. Pentagramas, compassos, estrelas, pirâmides, cruzes
invertidas... Me disseram que havia um G bem grande na porta.
Então
George arregala os olhos.
-
Onde fica esse tal abrigo?
- Na
cidade ao lado, em um bairro cheio de mansões. A maioria já foi pilhada, mas os
peregrinos insistem em pensar que os ricos deixaram algo para trás.
Os
dois continuam conversando e mudam de assunto. George ainda está atônito. Será
que é verdade? Será que aquele é o mesmo abrigo? Não pode ser mera
coincidência, na loja maçônica havia um membro que morava naquela cidade.
O
destino parecia favorecer o arrogante maçom. Desta vez ele tinha um motivo para
fugir. Se o abrigo era ou não dos maçons, ele estava determinado a descobrir.
No
dia seguinte, ele vê o chefe dos saqueadores levando um garoto de
aproximadamente dezoito anos à sala da gerência. O maçom nota que o garoto
veste roupas mínimas e o chefe, um homem corpulento e barbudo, o puxa por uma
coleira de cachorro. Intrigado com a cena, ele procura Mitchell e comenta o que
viu.
-
Você deve estar falando do Chris. O chefe o usa como escravo sexual.
George
se intriga.
-
Ele usa um garoto?
-
Sim. O chefe gosta apenas de garotos, principalmente dos mais magrinhos e mais
jovens. Todos que aparecem aqui vão parar na sala dele.
-
Então o chefe estuprou mais garotos?
-
Vários. Alguns se suicidaram e outros tentaram fugir. Infelizmente os que
fugiram os saqueadores os recapturaram e os penduraram na entrada do abrigo.
Todos os dias eu os vejo lá fora.
Ao
lembrar-se dos corpos enforcados, George sente repugnância.
-
Isso é horrível!
- A
gente não pode fazer nada. Somos escravos também, mas não igual ao Chris. O
pobre coitado teve azar.
Balançando
a cabeça, o maçom tenta manter a calma.
-
Mitchell, nós temos que fugir daqui.
- O
Lunático demonstrou interesse em você? – pergunta Mitchell, intrigado com seu
súbito interesse em fugir.
-
Não é isso. Eu encontrei uma pista sobre o lugar que estou procurando.
- E
como você pretende fugir? Você tem um plano?
George
não tem plano algum, mas responde:
- Eu
darei um jeito.
§
O
maçom passa dias planejando um meio de fugir. O que tiver de fazer terá de ser
feito logo. Ele não quer mais perder tempo. Mais uma vez a obsessão domina sua
mente.
Os
saqueadores o levam para fora e o mandam buscar água. A luz cinzenta do dia
ofusca seus olhos, ele ficou dentro do mercado por dias. Ele vê Mitchell ao
longe. Os saqueadores o fizeram carregar caixas com os objetos roubados dos
peregrinos.
George
pensa em correr pelas ruínas, ir o mais longe que puder e despistar seus
perseguidores. Olhando ao redor ele vê muitos saqueadores, correr seria
arriscado demais. O maçom teria de pensar em outra alternativa para fugir dali.
“Danem-se os planos complexos e perfeitos, não há tempo para bancar o
estrategista” pensa ele. Era tudo ou nada. Ele tinha de fugir.
O
saqueador lhe indica o local onde havia água. George passa por montes de lixo e
pilhas de aparelhos eletrodomésticos, todos sucateados e deixados a céu aberto.
Passando ao lado de geladeiras e caçambas, o maçom se assusta ao ouvir um ruído
vindo de dentro de um refrigerador. Ao olhar de perto, ele percebe que a tampa
se abaixa rapidamente, como se alguém estivesse lá dentro.
-
Quem está aí?
Não
há resposta. George põe sua mão sobre a tampa e a abre de uma vez.
-
Por favor! Não me machuque!
Encolhido
dentro do refrigerador, o maçom vê o tal Chris protegendo-se com as mãos no
rosto.
-
Você?! O que está fazendo aí?
George
pode ver que Chris está vestido com lingeries femininas. Ele está descalço e há
hematomas em seu rosto. Seu olho esquerdo está inchado e mal consegue se abrir.
-
Por favor...
-
Acalme-se, Chris. Eu não sou um deles.
O
garoto vê o peregrino diante de si.
-
Não diga a ninguém que estou aqui. Não aguento mais ficar nesse lugar... Eu
preciso fugir!
-
Mas como veio parar aqui? Pensei que você ficava trancado na sala da gerência.
- Eu
fugi pela janela. Demorei semanas para serrar a grade de proteção. Ouça, cara,
não diga a ninguém que eu estou aqui. Eles fazem coisas horríveis comigo!
Curioso,
o maçom pergunta:
- O
Lunático realmente te estupra diariamente?
Chris
sente dificuldade em relembrar e prefere ficar em silêncio. George sente
vontade de rir do grande infortúnio do garoto. O maçom não se importa com
ninguém.
-
Certo. Eu vou voltar ao abrigo e não direi nada. Tente não ser encontrado... bonequinha.
A
sorte finalmente parece sorrir para ele. George fecha a tampa e continua seu
caminho. Ao ver os saqueadores no lado de fora do mercado, ele tem uma brilhante
ideia.
Correndo
em direção a eles, o maçom diz:
-
Ei! O garoto Chris, o escravo do Lunático, eu o achei! Eu acabei de falar com
ele!
Os
saqueadores se intrigam com o homem. O chefe ouve o tumulto e se aproxima
também. Alguém pergunta:
-
Quem você viu?
- O
garoto chamado Chris! Ele está ali!
George
indica o local aos saqueadores. Lunático ouve e, enfurecido, pega um pedaço de
corda e balbucia:
- Eu
vou ensiná-lo a obedecer a seu marido...
O
truque funciona. Os saqueadores seguem o chefe e deixam a entrada do abrigo.
Aproveitando a chance, o maçom corre pelo lado oposto, atravessando o
estacionamento do mercado. Então alguém o chama.
-
Ei, George! Você está fugindo sem mim?!
Mitchell
o encara. Seus olhos demonstram mágoa e desapontamento.
Sem
se importar, o maçom ia dar as costas e continuar correndo. Então um saqueador
aparece e diz:
-
Ora, ora, ora... Então vocês querem fugir?
Sacando
uma faca enorme de caçador, ele tenta golpear a George. Mitchell intervém e o
empurra, entrando em luta corporal. Rolando pelo chão, Mitchell pega uma pedra
e golpeia o saqueador na cabeça, fazendo o sangue escorrer por seu rosto azul.
Percebendo que o saqueador havia desmaiado, Mitchell pega sua faca e o
esfaqueia dezenas de vezes, abrindo fendas horríveis em seu peito e barriga.
Ao
terminar a selvageria, Mitchell se levanta e diz:
-
Vamos.
George
vê sangue na barriga de Mitchell e percebe que não é do saqueador.
-
Espere. Você está sangrando.
Mitchell
olha para sua barriga e então responde:
-
Não é nada. Vamos embora. Temos que sair daqui.
Os
saqueadores voltam para o abrigo e encontram seu companheiro caído em uma
enorme poça de sangue. Mais adiante eles veem dois escravos correndo em direção
às ruínas.
-
Peguem-nos! – grita alguém e então todos começam a persegui-los.
George
e Mitchell correm pelas ruínas. Os saqueadores vão atrás deles com facões e
barras de aço em suas mãos. Os escombros e a radiação atrapalham a fuga, mas os
dois percebem que os saqueadores enfrentam as mesmas dificuldades.
Os
saqueadores gritam enfurecidos como cães raivosos. O maçom se apavora, a cada
passo ele prevê a morte horrível que virá a seguir se for capturado. Mitchell
está pálido e tenta não desmaiar. O ferimento em sua barriga sangra, manchando
sua mão. Os dois sentem medo, eles percebem que não vão conseguir.
Entre
dois prédios há um beco vazio e livre de escombros. Os dois o adentram com a
determinação de quem quer sobreviver. George tropeça em algo e se espanta ao
ver dezenas de cadáveres no piso úmido, todos mortos pela radiação. Mitchell
tenta seguir seu apressado companheiro, ele se apoia na parede enquanto estanca
o sangramento com a mão. Ofegante e suando frio, ele se esforça para fugir com
seu amigo.
Na
metade do beco eles veem algo desesperador. Uma cerca de aço alta impede o caminho
a seguir. Os saqueadores estão logo atrás, eles podem ver seus rostos pintados
de azul. Naquele instante a morte era visível e tinha inclusive uma cor.
Mitchell
está esgotado. Ainda assim reúne forças para chamar o maçom.
-
Rápido, eles ainda não nos viram. Me ajude a subir a cerca.
George
olha para seu companheiro e pensa. Mitchell está ferido e mal consegue ficar em
pé. Ajudá-lo levará muito tempo. Naquela fuga onde segundos são essenciais, o
maçom não tem tempo a perder.
-
Está bem. Vigie a entrada do beco enquanto eu procuro algo para ajudá-lo a
subir.
Mitchell
assente e lhe dá as costas, vigiando o beco atrás de si. Pegando um pedaço de
pau, George se aproxima sorrateiramente e o golpeia na cabeça, fazendo-o
desmaiar imediatamente. Caído de costas para o chão, George olha para ele uma
última vez e então solta seu bastão. O problema foi resolvido.
George
começa a escalar quando Mitchell fala com ele:
-
Você me traiu...
Assustado,
o maçom olha para trás.
-
Mitchell?!
-
Você me traiu... Eu confiei em você...
Mitchell
está agonizando e sente muita dor. George responde:
-
Você ia me atrasar.
- Eu
o ajudei a fugir!
-
Quer que eu agradeça?
Eles
ouvem gritos na entrada do beco. Os saqueadores os acharam.
-
Traído mais uma vez... Mais uma vez eu confiei em um falso amigo...
Escalando
a cerca e pulando para o outro lado, George olha para Mitchell e diz:
- Eu
nunca fui seu amigo.
O
maçom vai embora, abandonando seu companheiro aos saqueadores. Enquanto corre,
ele ouve os risos daqueles assassinos sanguinários ao se encontrarem com
Mitchell. A história se repete. Mitchell foi traído mais uma vez, seu amigo o
abandonou e o deixou à própria sorte. A vida foi ingrata para alguém que
confiou demais no valor da amizade.
George
olha para trás para certificar-se de que não estava sendo seguido. Não havia
ninguém, os saqueadores se contentaram em achar seu companheiro no chão. O
maçom se espanta. Os terríveis
saqueadores chutavam e pisoteavam Mitchell como se fosse um saco de lixo.
Raivosos como animais, eles se deliciavam em triturar seus ossos com a planta
de seus pés.
O
maçom não sente pena. Sequer passa por sua cabeça voltar atrás. Ao invés disso
ele se vira e continua correndo pelas ruínas.
§
Dias
se passam desde a fuga de George. Sozinho nas ruínas, ele persegue seu objetivo
de finalmente encontrar o abrigo dos maçons.
Ele
passa por uma rua onde as casas, agora desertas, foram invadidas e saqueadas.
Avançando ele chega a uma avenida com vários prédios de apartamento. O silêncio
é quebrado algumas vezes quando os pássaros voam de um lugar a outro. Então
algo chama sua atenção.
Do
corredor escuro de um prédio, George ouve gritos de uma mulher. Olhando de um
lado ao outro, ele vê apenas a rua deserta com seus carros enferrujados e a
vegetação alta nas rachaduras do asfalto. O prédio teve suas janelas arrancadas
pelos invasores, e a porta de entrada está despedaçada e lançada no chão. Quem
poderia estar morando ali ainda?
Andando pelo corredor escuro, a tênue luz do
dia fica para trás enquanto avança pela escuridão. Seus passos ecoam no piso
sujo e coberto de detritos. Então novamente ele ouve um grito. Uma mulher pede
socorro!
Ao
chegar ao suposto local, ele vê a entrada de um quarto em um apartamento
pilhado e abandonado. Cauteloso ao olhar, ele se encurva segurando nas paredes
e vê uma garota com os braços e pernas amarrados na cama. A surpresa
imediatamente o domina.
A
garota está amordaçada, mas consegue reunir forças para gritar alto o
suficiente para alguém ouvi-la. Seus pulsos e tornozelos foram amarrados por cordas
e após exaustivas tentativas de se soltar, sua pele foi dilacerada e sangra.
Deitada de braços e pernas abertas, ela está totalmente nua sobre a cama.
O
maçom se aproxima. A garota tenta freneticamente falar com ele mas não consegue
se mexer. Ao tirar a mordaça de sua boca, ela tosse e começa a chorar. Confuso
com a estranha situação, ele tenta dizer algo quando ela o interrompe.
- Me
ajude!
George
fica imóvel em frente a ela.
- O
que aconteceu aqui?
-
Eles me prenderam... Me prenderam para conseguir comida...
-
Quem te prendeu?
-
Meu padrasto... – responde ela – E os filhos dele... Minha mãe viu tudo e não
fez nada!
-
Por que ele fez isso?
-
Estávamos escondidos aqui. Fugimos de nossa casa desde que os saqueadores
começaram a invadir as casas em busca de alimentos... Mas em todo lugar que
íamos não encontrávamos água nem comida... Então a fome começou a nos
atormentar... Foi então que meu padrasto teve a ideia de me prender nesta cama
para atrair os peregrinos. Ele me usou como isca em sua armadilha. Muitos
entraram aqui, alguns tentaram me soltar e outros tentaram me estuprar... Mas
todos acabaram roubados por ele.
Então
o maçom entende tudo. A garota era usada como isca para roubar os peregrinos.
Ela, sendo jovem e bela, gerava cobiça nos homens. Vendo-a presa e indefesa
sobre a cama, os peregrinos eram ávidos a ajudá-la ou violentá-la enquanto
tinham chance.
-
Onde está sua família agora?
- Eu
não sei! Estou presa aqui há quatro dias! Achei que meu padrasto apareceria
atrás de você com um rifle apontado para sua cabeça...
A
garota foi abandonada na armadilha. Deixada para trás.
- E
quanto a sua mãe? Ela não voltou para te resgatar?
-
Não! Ela nunca gostou de mim! Após o divórcio, ela só ficou com minha guarda
para se vingar do meu pai! Quando os filhos de meu padrasto nasceram, eu fui
rejeitada. Rejeitada por minha própria mãe! Ela nunca fez nada para impedir meu
padrasto de me usar em sua armadilha. Ao me ver deitada aqui, chorando e
pedindo ajuda, ela só me olhava com desprezo...
O
maçom se espanta.
-
Quantos anos você tem, menina?
-
Vinte e quatro. – responde ela, hesitante.
- E
seu padrasto não está mesmo aqui? Eles realmente se foram?
-
Acho que sim... – ela se irrita – Ouça, você vai me tirar daqui ou não?
George
olha atentamente ao redor por um instante.
Aproximando-se
da corda no pulso da garota, ela pensa que ele vai desamarrá-la. Mas ao invés
disso ele recoloca a mordaça em sua boca e se deita sobre ela. Tirando sua
calça, ele agressivamente faz sexo com a garota, machucando-a. Apavorada, ela
grita e chora intensamente, tentando chamar ajuda inutilmente até sua voz ficar
rouca.
A
garota se revira desesperadamente, mas nada pode fazê-lo parar. Gotas de suor
caem sobre seu corpo, enojando-a. O maçom chupa seu pescoço e seus seios como
se estivesse em um estupor sexual descontrolado.
Alguns
minutos depois ele termina. Descansando sobre o corpo da garota, ele veste sua
calça e se levanta lentamente. Ela está em choque, seus olhos vermelhos olham
arregalados para o vazio. Beijando sua testa, ele se afasta e vai embora,
deixando-a à própria sorte no apartamento abandonado.
§
Ao
chegar à cidade, ele lê as placas e se orienta pelas ruas. Em um posto de
gasolina ele vê uma loja de conveniência ao lado de uma oficina mecânica.
Abrindo as portas destruídas por vândalos, ele a adentra e a encontra
totalmente pilhada por saqueadores. Na parede atrás do balcão ele vê o mapa da
cidade, um papel enorme e deteriorado pelo tempo. Agora ele sabe exatamente
aonde ir, sua busca está próxima do fim.
O
bairro tem mansões luxuosas e vários carros esportivos nas garagens. George
está na direção certa. Apesar da poeira constante e do abandono, o requintado
bairro mantém sua aparência elegante, condizendo com o nível social de sua
antiga ordem maçônica.
George
ouve ruídos vindo de outra rua e se esconde. Esgueirando-se entre os arbustos,
ele tenta espionar o que está acontecendo. Mercadores caminham pelo bairro com
enormes bolsas em suas costas. Carregando panelas em seus cintos, ele ouve o
tilintar do aço enquanto caminham. O vento sopra mais forte e levanta seus
sobretudos. O maçom se intimida, eles portam armas e vestem bandanas de balas
em seus peitos. Se quiser viver, ele deve manter distância.
Escondendo-se
atrás das árvores, ele segue o grupo de mercadores pelas ruas. O maçom sabe que
os mercadores acharam o abrigo escondido, só eles podem leva-lo ao seu
objetivo. Ele se deixa guiar por sua obsessão doentia, ignorando o medo e o
próprio perigo de vida se aqueles homens o notarem atrás de si.
Os
mercadores deixam a rua e adentram um enorme jardim atrás de uma mansão. George
nunca esteve ali antes e não sabe dizer se aquela casa pertencia a algum membro
da ordem. Ele vê apenas uma mansão abandonada com suas janelas de vidro
quebradas, portas arrombadas e moveis cobertos de poeira. O belíssimo lustre
está caído e arruinado no meio da sala de estar, com seus milhares de pedaços
espalhados pelo chão. Vândalos a invadiram no passado. Tudo foi levado e o que
sobrou eles se contentaram em destruir por puro divertimento. Eles não tiveram
compaixão.
O
jardim tem muitas árvores e há uma piscina ao lado de um quiosque. A piscina
está vazia, mas George pode ver uma camada gosmenta de lodo no fundo. Ele tem
uma desagradável surpresa ao ver fezes de gente ali. Os mercadores descarregam
suas bolsas logo a frente. O maçom se aproxima lentamente e vê uma quadra de
tênis pela metade, tendo parte de seu comprimento escavado por pás e picaretas
dos mercadores. Curioso para saber o que há ali, ele se aproxima arrastando-se
na lama e no gramado molhado.
Semelhante
a um site arqueológico, os mercadores escavaram um buraco profundo sob a
quadra, revelando grossas paredes de concreto. Ao longo da cratera há holofotes
sobre tripés e geradores a combustível. Há uma porta de aço no fundo, indicando
a entrada de um bunker subterrâneo. O holofote ilumina símbolos e entalhes na
face da porta, os mesmos símbolos ocultistas de sua antiga ordem. No meio da
porta ele vê o enorme G entalhado, imponente e majestoso, aninhado entre a
régua e o compasso. Os mercadores realmente encontraram o bunker, mas apesar da
grande sorte, eles não tiveram sucesso em abri-lo.
George
se espanta. Agora ele sabe que achou o lugar certo, ele sente em seus ossos que
finalmente encontrou o tão procurado abrigo dos maçons. Ele está eufórico, não
conseguindo conter a empolgação que o domina por dentro, a sensação é forte
demais. Mas ainda não era hora para comemoração. Ainda havia algo a fazer. Ele
tinha que ter certeza.
A
obsessiva busca ainda não tinha chegado ao fim. George precisa de respostas.
Ele sente que seu corpo será corroído por dentro se não tiver as respostas que
procura. Ele não quer esperar mais, já esperou o suficiente, cada minuto
perdido é um a menos nesse novo mundo. Incapaz de controlar seus impulsos, o
maçom decide descer a cratera.
Os
mercadores não haviam deixado o jardim. Aqueles que chegaram eram apenas parte
de um grupo maior. Outros mercadores patrulhavam a escavação como se fossem
seus guardas. A porta do bunker era guardada por dois homens, ambos robustos e
ameaçadores. Eles portavam rifles automáticos e os carregavam na altura do
ombro, prontos para neutralizar qualquer invasor. Mas sua vigília era perda de
tempo, pois nenhum deles acreditava que alguém seria estúpido o bastante para
invadir um local guardado por homens fortemente armados. Ironicamente eles
estavam errados.
Obcecado
pelas respostas, George parece ignorar a presença dos mercadores e caminha para
a cratera. Os mercadores, preguiçosos e ocupados demais para perceber,
conversam uns com os outros enquanto fumam seus cigarros. O maçom aproveita
para passar sorrateiramente atrás dos montes de terra. Os guardas na entrada do
bunker se distraem olhando revistas pornográficas, George não tem muito tempo
se quiser passar por eles. A área está muito iluminada, o maçom pega uma pedra
e a atira no lado oposto aos guardas, despistando-os. Eles ouvem o ruído
suspeito e vão averiguar. Agora o maçom tem caminho livre para seu objetivo.
Parando
em frente a porta, ele hesita. Os símbolos e letras entalhados parecem adornar
o guardião de aço. Quem quer que esteja lá dentro valeu-se dos significados
ocultistas dos símbolos, uma forma de proteção mágica através do amuletismo.
Seria aquela uma imitação barata dos sarcófagos dos faraós? Uma tentativa
grotesca de se proteger com misticismo ao invés da confiabilidade do concreto e
do aço? George sente desprezo.
O
maçom odeia seus antigos companheiros. Eles o abandonaram e o deixaram para
trás. Mas George passou anos de sua vida procurando-os e agora ele está ali, tão
patético e ressentido quanto um filho rejeitado pela mãe. Ele quer saber por
que os maçons o rejeitaram, por que mentiram e por que o deixaram. Ele precisa
saber o motivo. Deve haver uma razão.
George
procura por uma maçaneta, mas não há nenhuma. Pensando haver algum botão
secreto, ele tateia os entalhes, mas não encontra nada. O enorme G está ali, um
entalhe frio sobre o aço. Ele nunca soube exatamente o que essa letra significava.
Certa vez ouviu que significava geometria, mas nunca deu atenção.
Não
há mais tempo. Cansado de tentar achar algum botão, ele chuta e estapeia a
porta, berrando desesperadamente para que ela se abra.
-
Mas que diabo está acontecendo aqui?!
O
mercador olha para trás e vê um peregrino maltrapilho esbarrando-se contra
porta, gritando exaustivamente:
-
Abram! Sou eu! George Everett!
Todos
os mercadores veem a cena e estranham o comportamento do curioso peregrino. Ele
parece estar delirando.
-
Ele perdeu a cabeça?! – pergunta alguém.
-
Como ele entrou aqui? – pergunta outro.
O
líder dos mercadores não se intriga com a cena. Ao invés ele saca sua arma e
atira nas costas de George, dando-lhe três tiros antes de fazê-lo cair. O maçom
cai de costas para o chão. Incapaz de mover-se, ele olha para o céu e sussurra
o mais alto que pode:
- Sou
eu... George... Everett...
Ele
tosse e engasga com seu próprio sangue. A morte apressa-se a buscá-lo.
Então
algo acontece.
A
espessa porta de aço se move e se abre lentamente. Semelhante às naves
espaciais dos filmes de ficção, fumaça branca se expele das frestas e uma
ofuscante luz branca irradia da abertura. A porta se abre e mesmo os mercadores
se paralisam para ver, todos estão espantados.
Pessoas
saem da abertura. George luta consigo mesmo para não perder a consciência e
enxergar quem são. O líder dos mercadores desce a cratera e se aproxima da
porta. Guardando sua arma, ele diz:
-
Deseja alguma coisa, Sr. Stainthorpe?
George
se intriga. Ele já ouviu esse nome antes, é o mesmo de seu grão-mestre. E o
mercador o conhece! Sua visão se adapta à luz e o maçom consegue ver aquelas
pessoas. Ele não consegue acreditar em si mesmo.
-
Como este homem chegou aqui?
- Eu
não sei. Ele simplesmente estava batendo na porta quando o vimos.
Com
altivez e indiferença, Stainthorpe olha para George. O espanto domina George
por dentro, ele suspira com força fazendo suas feridas sangrarem ainda mais.
Seu grão-mestre está ali, ele finalmente encontrou o abrigo dos maçons. As
pessoas ao lado dele são os mesmos membros de sua antiga ordem maçônica, e
todos vestem trajes elegantes e finos. As mulheres vestem longos vestidos e
joias, os homens vestem ternos e gravatas. Todos usam o tradicional anel dos
maçons, ouro maciço com uma pedra vermelha. Um deles segura uma garrafa de
champanhe. Os maçons usam roupas limpas, diferente das roupas sujas e rasgadas
de George, ou mesmo dos mercadores.
- Stainthorpe...
– suspira ele.
- O
que ele disse? – pergunta o mercador.
-
Não importa. – responde o grão-mestre – Livre-se dele. E cuide para que
esses... vagueadores das ruínas não
incomodem o nosso templo novamente.
O
mercador assente e pega sua arma. Vendo a morte iminente se aproximar, George
tenta desesperadamente falar com o grão-mestre, mas as palavras se afogam em
sua garganta ensanguentada e ele engasga novamente.
Stainthorpe
não o reconheceu, ele lhe fez um olhar superficial igual ao que os nobres faziam
quando viam a um plebeu. George não consegue acreditar. Depois de tanto tempo
procurando o abrigo dos maçons, os mesmos companheiros que ele jurou lealdade
não perdem um segundo sequer para olha-lo?
Suas
perguntas não serão feitas. Suas indignações não serão ouvidas. George não será
aceito de volta, nem mesmo será lembrado por eles. O mercador se aproxima para
matá-lo como se fosse algo corriqueiro. Apontando a arma para sua cabeça, ele
puxa o gatilho e imediatamente tudo se apaga.
George,
o arrogante e prepotente maçom, morreu em vão.

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