terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 17 - O Professor



O Professor

Os prédios estão em chamas e as labaredas se expelem de suas janelas. Os vidros das fachadas se estilhaçam e os plásticos derretem. As madeiras se enegrecem e os cabos dos postes se rompem. As lâmpadas se estouram e soltam as luminosas faíscas elétricas. As sirenes da polícia e dos bombeiros soam, mas não há socorro. Edifícios desabam. Carros colidem. Pessoas gritam. Vítimas morrem.
Timothy Morgan, o professor, corre de mãos dadas com sua esposa Lucy pelas ruas. Ele segura sua filha mais nova e sua esposa segura sua filha mais velha. As pessoas correm desesperadamente, algumas têm queimaduras horríveis em seus corpos e outras estão peladas, o fogo consumiu suas roupas. Os prédios desabam de repente, alguns parcialmente e outros totalmente, levantando uma nuvem imensa de poeira. O fogo generalizado expele uma fumaça negra e densa no ar, tornando a respiração árdua. Timothy vê muitas vítimas jogadas no chão, algumas asfixiadas, outras queimadas, mas ele se impressiona ao ver pessoas se jogando das janelas ferventes dos edifícios para a morte certa ali embaixo.
Um suicida o encara nos olhos e sua boca balbucia palavras ensanguentadas. Após a queda, seu corpo está em colapso e as fraturas expõem seus ossos. Suas roupas estão queimadas, ele não suportou o calor em seu andar e pulou para se libertar de seu sofrimento, tirando a própria vida no processo. O homem sucumbe aos próprios ferimentos e falece diante de seus olhos. Timothy se apressa para tirar sua família dali e privá-los daquela cena terrível.
Fugir entre a multidão histérica é difícil. O fogo cerca as ruas e os prédios desabam. O professor se sente em um jogo de obstáculos onde ao menor descuido perderá sua vida. Os quatro avançam pela gritaria, pelo caos e pelo pânico, e ao olharem para cima veem dezenas de pessoas pedindo socorro em um prédio em chamas. De repente o edifício inteiro desaba e soterra todas aquelas vítimas sob toneladas de entulho.
Tendo que voltar, os quatro veem algumas pessoas saírem de outro edifício em chamas, debatendo-se enquanto o fogo queima suas roupas. Um pouco mais à frente há a entrada do metrô. Timothy olha para as escadas rolantes curiosamente ainda funcionando, avançando para baixo entre a fumaça cinzenta. Ele guia sua família pela estação subterrânea e vê pessoas feridas deitadas contra a parede em frente às catracas. Chegando à plataforma, uma multidão de feridos se abriga lá embaixo, aglomerando-se perigosamente à beira dos trilhos. Eles sentem tremores no teto, fazendo as lâmpadas piscarem. Os prédios lá em cima continuam desabando.
O professor não acha seguro continuar ali, a fumaça e a multidão estão esgotando o oxigênio, podendo levá-los ao desmaio fatal. Ao dar as costas para voltar à superfície, eles ouvem o atrito das rodas com os trilhos e veem uma luz avançar pelo túnel. De repente o trem passa pela estação, em chamas como uma tocha motorizada de plástico e metal, e continua seu caminho pelo resto da linha.
De volta às ruas, Timothy pega outro caminho para fugir dos incêndios e chega a uma avenida. Veículos militares fazendo barricadas queimam descontroladamente, sem mais ninguém vivo para manter a ordem. Há caminhões do exército tombados e tanques em chamas. As faixas da avenida estão todas ocupadas por uma frota de carros abandonados. Eles se enfiam no corredor entre os carros e o professor leva sua filha mais nova pela mão, sua esposa vai à frente, levando a mais velha. De repente um dos carros explode atrás de Timothy e ele é lançado pelo ar. Caído na calçada na lateral, ele acorda com sua filha mais velha chamando-o. Ao seu lado ele vê sua esposa gritar histericamente para que sua filha mais nova acorde.
Levantando-se para socorrê-la, ele ignora o sangue escorrendo de suas próprias feridas e se depara com sua filha no chão. A explosão havia queimado suas roupas. O líquido vermelho do sangue lavou seu rosto e seus olhos estão arregalados de pavor. Da metade da coxa para baixo, suas pernas se transformaram em dois tocos enegrecidos como palitos de fósforo queimados. O tanque de combustível do carro explodiu bem ao lado dela enquanto passava com seu pai no meio da avenida.
Timothy sacode sua filha implorando para que ela acorde. Ele chora e grita o mais alto que pode, mas é inútil. Levantando-se, ele olha para a avenida e chama por um médico. Ele grita, grita e grita ainda mais até sua voz ficar rouca, mas ninguém naquela multidão o responde, nem mesmo olha para ele. Então ele se sente ironizado. Das inúmeras pessoas queimadas, esmagadas, atropeladas, roubadas e abandonadas que pediram sua ajuda desde o início daquela noite, ele não lhes deu atenção, negando-lhes qualquer auxílio. Agora é ele quem precisa de ajuda, mas todos o ignoram.
- Timothy, ela não está respirando!
O professor se ajoelha e põe as mãos no rosto de sua filha. Então a ironia o castiga mais uma vez. O vigor e a vivacidade de Timothy sempre foram notáveis em suas filhas. Sua determinação, sua força de vontade, suas crenças e valores. Quando era jovem, o professor se achava imortal, invencível, independente, autoconfiante o suficiente para enfrentar qualquer obstáculo e vencer. Em seu quarto havia várias medalhas e troféus, ele sempre foi um atleta excepcional, um nadador exímio, um excelente jogador de football. Ele acreditava que uma boa alimentação e hábitos saudáveis prolongariam sua vida, acreditando ser capaz de se virar sozinho sem a ajuda de ninguém. Suas filhas seguiam seu exemplo, sendo excelentes esportistas na escola. Mas olhando para si mesmo agora, onde está sua autoconfiança inabalável, sua invencibilidade jovial e sua capacidade de sobreviver sozinho?
A menina está morta e não há nada que ele possa fazer a respeito. E ela só tinha quatorze anos.
Fragmentos e poeira caem em seus cabelos e então alguém grita:
- Vai desabar!
Pessoas correm por ele levando objetos saqueados nas mãos. Sua esposa olha para cima e grita:
- O prédio vai desabar! Timothy, temos que sair daqui!
O professor é obrigado a sair de sua penúria devido aos apelos histérico de Lucy. Ele ergue sua filha nos braços e corre para longe. O corpo dela balança sem vida em seu colo, com a cabeça em seu cotovelo voltada para baixo como um pêndulo. Ele se afasta do prédio, mas é difícil correr com a pesada mochila nas costas e sua filha nos braços. Alguém esbarra em seu ombro e ele deixa sua filha cair na calçada. Voltando para apanhá-la, sua esposa o puxa pela blusa e então o prédio desaba sobre a avenida, soterrando o cadáver de sua filha para sempre.
A poeira se incrusta em seu rosto, fazendo uma massa fina de lágrimas e suor ao redor de seus olhos. Ele abre sua boca e grita por sua filha, tentando desenterrar seu corpo com as próprias mãos. Lucy tenta consolá-lo mas ele não ouve, chorando incessantemente sobre os destroços do edifício.
Enquanto isso, a multidão continua correndo pela cidade infestada de incêndios e mortes, atingida com precisão por uma ogiva nuclear.

§

Muitos perguntam a Timothy por que ele se tornou um professor. Em meio às mais variadas respostas com pouca ou nenhuma veracidade, ninguém realmente soube por que ele escolheu essa profissão. Mas após dois anos desde os ataques nucleares, isso pouca importa. Ninguém quer saber por que um peregrino maltrapilho, barbudo e fedorento se tornou um maldito professor. Profissões não importam mais naquele novo mundo. Onde todos vivem, matam e morrem para sobreviver, qual a utilidade de ser um educador? Não haverá outra geração após a guerra nuclear. Em um mundo condenado à extinção, não haverão mais alunos ocupando os assentos na sala de aula. Muito menos educadores estúpidos o bastante para desperdiçarem o último minuto de suas vidas lecionando a crianças moribundas sobreviventes da radiação.
- Tim, você está bem?
Lucy, sua esposa, o sacode segurando seu ombro. O professor estava distraído, lembrando-se da vida que tinha antes de tudo acabar. Parado ali no meio da rua, ele se perde sentindo a agradável nostalgia. Mas todos os dias ele teme a contaminação pela massa radioativa. Todos os dias ele se pergunta se eles morrerão contaminados também, como todos os cadáveres espalhados pelas ruínas.
- Sim. Eu estava distraído.
- Aqueles mercadores dizem que acharam água limpa para bebermos. Os peregrinos estão lá, devemos ir também.
Sua esposa sempre o animava. Lucy, uma mulher bonita, de longos cabelos negros, que o fazia ver esperança quando tudo ao redor provocava-lhe dor. De onde ela tira essa força? Como pode ela ser tão confiante, esperançosa e dedicada nessas paisagens devastadas cheias de entulho e sujeira? Mas é exatamente o que ela faz, dá esperança, conforto, consolo, compreensão... Naqueles dias de incerteza ela era a única pessoa que o salvava do total desespero.
Caminhando com sua esposa e sua filha, ele observa em silêncio a menina, sua primogênita, a única que sobrou, mas que quase teve um fim trágico como sua irmã.
Os três se refugiavam em um abrigo coletivo após os ataques nucleares. Após escapar da cidade em chamas aquela noite, os três tiveram de marchar incansavelmente para fugir da radiação provocada pelas bombas. Eles andaram por quilômetros ao lado de centenas de desabrigados que, como eles, perderam tudo na devastação e nos incêndios. Caminhões do exército os abordaram na rodovia e os levaram aos acampamentos militares, espalhados pelas zonas rurais. A família do professor esteve abrigada em uma enorme barraca com beliches enfileirados. Os soldados mantinham um controle rígido sobre eles e Timothy via altas cercas de arame farpado ao redor do acampamento. Muitas foram as vezes em que os soldados atiravam para matar os civis com sinais de contaminação, aproximando-se dos portões para pedir ajuda.
Após um ano e três meses vivendo como ratos, o professor e sua esposa comemoraram o aniversário de sua filha. A menina tinha dezesseis anos e boa aparência física, e os soldados a notavam. Sua mãe a manda buscar alimentos quando quatro soldados a agarram e a arrastam para um local afastado atrás dos tanques. Ao perguntar por que ela estava demorando, sua esposa disse que ela foi buscar alimentos. Então ela volta para a barraca espancada, com as roupas rasgadas e os olhos arregalados. Os desabrigados se aglomeram para ver a menina estuprada e, sentindo a profunda indignação de Timothy, todos se revoltam contra aqueles que deveriam protegê-los.
Liderados por Timothy, os desabrigados se rebelam contra a opressiva ordem dos militares. Eles se dirigem ao portão e ordenam que sejam libertos. Os militares respondem com tiros e bombas, causando um massacre no campo. Na correria e no pânico, o professor e sua família conseguem escapar por uma falha na cerca, sendo acompanhados por pouco mais de cinquenta pessoas. Mas as centenas que ficaram morreram baleados.
A rebelião contra os militares foi um desastre e muitos foram mortos por nada.
Sua filha engravidou depois do estupro e oito meses depois sua barriga estava bem visível. Timothy e Lucy estiveram cuidando dela durante todo esse tempo, às vezes privando-se da própria alimentação para que a menina pudesse comer. O professor temia a gravidez, ele conhecia os efeitos genéticos que a radiação iônica causava no DNA humano. Mas após tanto tempo exposto à fallout, ainda haveria riscos?
Eles chegam ao local onde os mercadores descobriram água potável. É uma estação de captação de água fluvial, eles conseguiram consertar as bombas e a água sai filtrada dos enormes tubos. Há dezenas de pessoas ao redor da estação e uma longa fila de peregrinos se estende na entrada.
Caminhando ao fim da fila, os três veem aquelas pessoas famintas e desesperadas, dando-lhes pena. Os peregrinos vestem suas roupas gastas e rasgadas, e o emagrecimento é perceptível em seus rostos ossudos. Eles carregam baldes e garrafas de plástico, em suas costas há mochilas e bolsas. O professor se entristece ao perceber que a nova sociedade se tornou um vasto campo de mendigos e desabrigados, tão diferente da sociedade confortável em que viviam há tão pouco tempo atrás.
Timothy duvida que os mercadores acharam água limpa e estão dizendo a verdade. A radiação passa pela filtragem, a água do rio esteve exposta por muito tempo e com certeza estava contaminada como todo o resto. Mas ele e sua família estão sedentos há dias, beber água lamacenta lhe causou febres e disenteria, ao menor sinal de mal-estar ele teme a contaminação. Mas o que fazer quando não há mais água para beber?
Ao chegar à estação, eles veem aqueles homens vestidos com sobretudos pretos e segurando rifles de assalto na altura do ombro. Eles entram com suas garrafas e um mercador os atende. Sobre um balcão há vários itens e provisões, Timothy vê comida enlatada, água engarrafada e ferramentas. O mercador os oferece a suposta água limpa e os alimentos. O professor retira cédulas de dinheiro do bolso e então pergunta:
- Quanto é?
Então os mercadores riem. O atendente apanha algumas cédulas da mão de Timothy, as enrola e então acende a ponta com um isqueiro, simulando um cigarro.
- Vai ter que pagar de outro modo, meu chapa. – responde ele, fumando seu cigarro de dinheiro.
- Com o quê?
Timothy não faz ideia do que usar para comprar alguma coisa senão usando dinheiro. Então um mercador, alto e agressivo, puxa a mochila de suas costas, a abre e então a sacode, espalhando todas as suas coisas no chão. Não havia nada além de roupas velhas e sapatos usados. As garrafas e as latas de comida estavam vazias.
O atendente então olha vulgarmente para sua esposa e sua filha.
- Se você não tem algo de útil que nos interesse, então não podemos trocar nada. Mas... – ele sorri olhando para as duas – talvez possamos negociar de outra maneira.
Timothy se enraivece.
- Seu canalha! Ela é minha esposa!
- Tudo bem. Alguns dos nossos tem uma tara por mulheres casadas... E por mulheres grávidas.
O professor demonstra agressividade e imediatamente os mercadores sacam suas armas. Lucy é obrigada a intervir e o puxa para a saída.
Sem água, comida e roupas de frio, sua esposa o convence a procurar abrigo próximo da estação de água até o dia seguinte. Ela diz que vai pedir a mochila de volta, mas agora eles devem esperar e passar a noite em um lugar seguro. Timothy se sente ofendido e impotente, mas não havia nada que pudesse ser feito contra um bando de criminosos armados.
Deitado no chão e olhando pelo buraco da janela, o professor observa a luz do dia morrer. Sua esposa intenciona acender uma fogueira mas logo desiste, lembrando-se que a caixa de fósforos estava na mochila de Timothy. Se ele tivesse reagido, os mercadores o teriam crivado de balas. Ele sorri no escuro, percebendo que é a segunda vez que Lucy salva sua vida.
No dia seguinte ele proíbe sua esposa de ir ao encontro dos mercadores, mas ela não obedece. A estação ainda tem centenas de peregrinos sedentos, muitos pernoitaram no relento para conseguir água. Timothy vê que muitos entram na estação mas saem com suas garrafas vazias, os malditos mercadores não tem misericórdia dos miseráveis. Lucy passa por eles e entra, chamando o atendente.
O professor e sua filha ficam no lado de fora esperando ela voltar. Após duas horas, ela retorna da estação com a mochila. Ele percebe que a mochila está cheia e pensa que são suas roupas, mas ao abrir ele vê latas de comida e garrafas d´água. Intrigado, ele pergunta:
- Como você conseguiu isso?!
- Eu os convenci.
- Como?
Sua esposa lhe faz um olhar sério e então responde:
- Disse que nossa filha estava grávida de oito meses e precisava de comida, água e suas roupas para se aquecer. Só isso.
- Aqueles porcos gananciosos não se importam com os peregrinos. Está me dizendo que o seu simples argumento os sensibilizou a ponto de dar comida e água de graça?
Ela o ignora, estendendo uma toalha sobre o chão e abrindo as latas e garrafas.

§

Cinco dias se passam e Lucy continua voltando da estação com mais mantimentos. Timothy desconfia de sua esposa e a confronta.
- Responda-me. O que é que você está fazendo lá?
Lucy lhe dá as costas e então ele a segura, prensando-a contra a parede.
- Pai? O que você está fazendo?!
Sua filha tenta contê-lo. Ela puxa sua mãe pelo braço e Timothy tenta afastá-la. Então o casaco de Lucy se abre e revela seu tórax despido. Os olhos do professor se arregalam.
Sua esposa estava se prostituindo aos mercadores. Havia marcas de mordidas e chupadas em seu pescoço. Ela se apressa a vestir-se. Timothy agora entende por que ela nunca tirava o casaco. Revoltando-se, ele sai de seu abrigo e caminha para a estação de água.
Parando em frente à fila, ele discursa aos peregrinos, vociferando com ódio contra os mercadores. Ele denuncia seus abusos, declarando que os mercadores não são solidários e não tem a menor intenção de ajudar os miseráveis. O professor declara que só obterão algo deles se puderem pagar, mesmo que o preço seja a honra de suas esposas.
Nisto, a multidão se escandaliza e se revolta contra os mercadores, cercando-os na estação. Os peregrinos bradam exigindo água e comida de graça. Os mercadores apontam suas armas e ameaçam atirar se alguém invadir o local.
Pegando pedras do chão, a multidão as atira contra os homens armados. Alguns se ferem mas não o suficiente para intimidá-los. Um dos peregrinos avança contra eles e os mercadores atiram, alvejando-o de cima a baixo. A multidão se assusta e se dispersa, entretanto alguns permanecem, protegendo-se em posições defensivas para continuar apedrejando-os.
O atendente recarrega seu rifle e então ordena:
- Matem aquele maldito agitador! Mas poupem sua esposa e filha, eu ainda não experimentei a menina grávida!
Ainda desnorteado no meio da confusão, o professor está parado sem saber para onde correr. Então os mercadores o avistam e apontam suas armas para seu rosto.
- Lá está ele!
Lucy pega-o pelo pulso e o puxa para dentro do abrigo. As balas zunem no ar, estralando na parede e ricocheteando nas salas vazias. Pegando suas coisas, eles vestem suas mochilas e deixam o abrigo, correndo pelas ruas cobertas de entulho sob o céu cinzento.
Sua filha tropeça e torce o pé. Ela sente dificuldades em correr por causa da barriga. Tendo que carregá-la, o professor a leva nos braços e sua esposa o ajuda indicando o caminho. Ao lado deles, alguns peregrinos também fogem e são atingidos pelas balas. Do alto de algumas janelas os mais valentes atiram pedras e resistem como podem, lutando até a morte pela comida e a água em posse dos mercadores.
Timothy e sua esposa correm sem parar pelas ruínas, parando apenas ao anoitecer.

§

No dia seguinte sua filha sente dores na barriga. Lucy observa e vê que sua calça está completamente molhada. Perplexa, ela olha para o professor e diz:
- A bolsa estourou!
Rapidamente os dois retiram as calças dela. A menina já está sentindo as contrações de parto. Sua esposa sugere que Timothy não veja e apenas apareça para dar-lhe algo quando ela pedir. Ele pergunta por que e, ao ver o líquido viscoso saindo da vagina de sua filha, ele sente náusea.
Sentado de costas para as duas, ele ouve os gritos agonizantes de sua filha ecoar pelo ambiente escuro. O professor entrega panos para sua esposa, mas evita olhar. Lucy diz que ela está sangrando muito e pede para sua filha fazer força.
Após uma hora de muita espera e aflição, o professor ouve o choro de criança atrás dele. Ele corre de volta e então ouve sua filha gritar. Chegando à sala, Lucy olha para ele com um olhar assustado e confuso. O bebê está enrolado em mantos nos braços de sua filha, mas ela se recusa a segurá-lo, gritando de pavor ao olhar para ele.
- Por favor, afaste-o de mim!
Timothy se intriga com suas palavras.
- O que foi? O que aconteceu?
Os braços de Lucy estão lavados de sangue. Ela aponta para o bebê e o professor estica seu braço, retirando o manto de seu corpo. Ao olhar para ele, a náusea novamente o ataca e ele não se contém, vomitando ao lado de sua filha. Seu olhar é de pura repugnância.
Controlando o nojo, ele encara a fisionomia do bebê. O bebê não tem pálpebras e seus olhos são duas manchas vermelhas enormes. Seu crânio não se formou e está aberto revelando seu cérebro como seu fosse uma geleia de cereja. Sua barriga está inchada, aparecendo várias veias dilatadas sobre a pele transparente, como uma bolha sobressaliente. Seus braços e pernas são desproporcionais, sendo uns maiores do que os outros. Há caroços em todo seu corpo, deformando-o ainda mais com seus tumores entre os ossos. Tudo naquele bebê lhe gera repulsão, dando-lhe a aparência profana do ser humano mais abominável que ele já viu.
Timothy pede para ela se acalmar. Ele enrola aquele bebê “alienígena” no manto e o tira dos braços dela. Lucy limpa as entranhas de sua filha e depois lhe dá água. Em silêncio os dois cuidam dela, olhando-se confusos e estarrecidos com o ocorrido, sem saber o que fazer. A menina se recupera mas está assustada, rejeitando veementemente seu filho.
Enquanto isso o bebê chora no chão, ignorado pela mãe e pelos avós.
Uma hora depois a menina está de pé, pronta para continuar andando. Com o bebê chorando e sacudindo em seus braços, Timothy o leva pelas ruas das ruínas. Mais adiante há uma grande lixeira cujas tampas se perderam. Em seu interior há vários detritos que nenhum caminhão de lixo jamais virá para recolher. O professor ergue o bebê em seus braços e o deita sobre o lixo, enrolando-o com o manto manchado de sangue.
Sua filha abraça sua mãe. Lucy olha enojada para o bebê e vira seu rosto em seguida, sentindo-se pesarosa e culpada. Timothy olha para ele, a aberração humana, a prole alienígena, tudo o que é mais vil na forma de gente. Ele está estarrecido, confuso, triste. Seu primeiro neto não veio como ele pediu. A radiação o contaminou, dando-lhe uma aparência asquerosa e repulsiva. Não era dessa maneira que ele se imaginou avô.
Se não sentisse tanto nojo e rejeição, o professor se encurvaria sobre ele e lhe diria adeus.
Timothy, sua esposa e sua filha dão as costas e vão embora. Enquanto se afastam, ele olha para trás. O bebê se mexe sob o manto. Com o silêncio perpétuo das ruínas, seu choro alcança seus ouvidos à distância, um choro de agonia, de falta de afeição e de amor. Então o professor caminha mais rápido e não se vira mais, ignorando o chamado do bebê abandonado e deixado para morrer na lata de lixo.

§

Após uma semana andando sem parar, o professor e sua família estão famintos e exaustos. Timothy olha para sua esposa, uma mulher tão bonita de cabelos negros e sorriso gentil, que agora está magra, desolada e sem a menor esperança. Sua filha segue Lucy, sempre ao lado de sua mãe. Ela também está magra, tem um olhar assustado e seus cabelos despenteados escapam do capuz.
O professor quase não se lembra mais do que é tomar um banho quente, se barbear, usar desodorante ou mesmo papel higiênico. Naquela devastação todo o luxo que eles conheciam, até os mais pequenos, são meras lembranças vazias de um tempo onde se tinha muito mas ninguém dava valor.
Passando ao lado de um estacionamento com várias viaturas policiais, sua filha vê alguém caminhando sobre os carros. Ela chama seu pai e Timothy vê um homem vestido de policial. Seu uniforme está sujo, rasgado e ele veste um colete a prova de balas. O homem pula de um carro ao outro, de costas para eles, como se estivesse vigiando algo.
- É a polícia! Eles ainda existem! Estamos salvos! – comemora sua filha.
Timothy estranha a postura do policial. Ele ia puxar sua filha para irem embora quando ela grita:
- Ei! Estamos aqui!
Rapidamente o policial se vira e os encara. O professor se assusta ao ver que ele está usando uma máscara de gás. O policial ergue seu porrete e bate contra a lataria dos carros, gritando como um macaco raivoso ao ver seu território invadido. Sua esposa e sua filha se assustam.
- Mas o que é que ele está fazendo...?! – pergunta Lucy.
De repente dezenas de homens vestidos de policiais aparecem entre os carros e nas janelas dos prédios. Como um filme de terror, eles vestem máscaras de gás e capacetes fechados, escondendo seus rostos.
- Eles não são policiais. – responde o professor – Eles são Saqueadores!
Segurando a mão de sua filha e de sua esposa, Timothy corre o mais rápido que pode. Ele se desvia de alguns carros enferrujados quando um saqueador aparece sobre o muro e pula sobre ele. O porrete acerta sua testa e ele imediatamente se desequilibra, caindo atordoado com o rosto sobre o chão. Pouco antes de desmaiar, ele vê sua esposa lutando contra aqueles homens pouco antes dela ser subjugada. Outro homem arrasta sua filha pelos cabelos, fazendo-a gritar horrivelmente. E então ele finalmente desmaia.
 Acordando uma hora depois ao lado de sua esposa e de sua filha, o professor vê o que o saqueador estava vigiando. Cercados pelos carros no meio do estacionamento há um grupo de vinte peregrinos, todos capturados nas ruínas. Aqueles criminosos vestidos de policiais ocuparam o estacionamento, o antigo prédio da delegacia e os prédios ao redor, demarcando seu território.
Sua cabeça dói mas ele está mais preocupado com sua esposa. Felizmente, apesar do susto, as duas estão bem. Um dos peregrinos se aproxima e diz:
- Eu te conheço! Você é o homem que provocou aquela confusão na estação de água!
O professor assente com a cabeça, sem dizer nada. Sua esposa pergunta:
- Quem é você?
- O meu nome é Carl. Muito prazer.
Então um saqueador sobre o carro grita, pedindo para eles se calarem. Falando em sussurros, sua esposa pergunta:
- Como você escapou do tiroteio?
- Bem... Eu não escapei. – ele mostra um ferimento de bala em sua coxa – Caí próxima à estação e me escondi em uma casa em ruínas. Meus filhos não tiveram a mesma sorte, eles foram baleados e mortos por atirarem pedras nos mercadores.
Timothy sente-se culpado.
- Meu Deus! Lamento muito! – responde Lucy.
 - Eu fui pego minutos depois. Eles apontaram suas armas para mim, pensei que eu fosse morrer ali.
- E o que aconteceu?
- O líder deles olhou para mim e disse: “eu tenho alguns curativos para vender. Quer comprar?”.
O homem ri, achando graça da própria desgraça.
O chefe dos saqueadores aparece sobre um carro e diz a todos:
- Vocês são nossos escravos agora. Trabalharão durante o dia e receberão comida à noite. As mulheres limparão os alojamentos e os homens recolherão o entulho aqui fora.
- E se recusarmos? – pergunta uma mulher.
Fazendo um sinal com a cabeça, três saqueadores descem dos carros, a seguram e então a degolam. A mulher grita e sangra até perder a consciência. Segundos depois ela para de respirar.
- Ela está morta...! – sussurra Lucy.
Ao perceberem que a mulher tinha morrido, outras mulheres ao redor se aproximam do corpo e retiram suas roupas e sapatos. Com o crescente frio do inverno nuclear, elas se apressam a se prevenir.  
Timothy, sua esposa e todos os outros são despojados de suas mochilas. Abrindo-as, os saqueadores despejam seu conteúdo no chão, separando o que é valioso. Muitos tentam impedir, mas são logo contidos pelos homens armados com porretes. Em seguida as mulheres são retiradas a força de seus homens e levadas para os prédios dos saqueadores. Os homens são levados para o pátio e forçados a retirar o entulho mais pesado com as próprias mãos.
Eles encontram um pátio repleto de escombros, aparentemente um prédio inteiro desabou ali. Os saqueadores ordenam que limpem tudo, aparentemente eles querem abrir uma passagem através daquele amontoado de sujeira.
Como antes, os saqueadores os observam de longe. Um dos peregrinos se aproxima de Carl e diz:
- Isso é ridículo! Eu não vou trabalhar como faxineiro!
- Não é tão mal assim.
Outro ouve a conversa e diz:
- Eu trabalhei de faxineiro durante vinte anos e agora farei faxina novamente. A vida é irônica.
- Pelo menos você usava vassoura e pá. Aqui nós precisamos de um trator!
- Eu me recuso a trabalhar aqui! Vou fugir na primeira chance!
- Mas os saqueadores nos darão comida. Onde você vai conseguir comida se sair daqui?
- Devemos nos rebelar. Esses idiotas não podem enfrentar a todos nós.
Ao perceber a intenção dos peregrinos, Timothy diz:
- Não temos escolha. Nossas mulheres estão lá dentro. Se nos recusarmos elas poderão sofrer as consequências também.
Então todos olham para ele. Nisto, os peregrinos reconhecem seu rosto.
- Eu te conheço. Você é o homem da estação de água.
- Sim, é verdade! Foi ele que começou a confusão.
- Teve muita coragem.
- Aqueles parasitas tiveram o que mereceram!
- Minha mãe foi baleada e morta por sua causa.
- Diga-me, os mercadores realmente fizeram sexo com sua mulher?
Os peregrinos o cercam, tratando-o como uma celebridade. Alguns fazem perguntas, outros o acusam por suas perdas e outros o reverenciam por sua bravura.
Olhando em silêncio para o professor, outro peregrino diz:
- Eu conheço este homem, mas não da estação de água. Ele começou a rebelião do acampamento militar pouco depois do primeiro ataque. Eu sou um dos poucos que sobreviveu ao massacre.
- Está dizendo que foi ele que começou a rebelião? – pergunta alguém.
- Sim. Eu fugi uma semana depois mas desejei que tivesse morrido. O castigo dos militares foi severo. Eles jogaram meu irmão em uma piscina de radiação. Vi ele derreter lentamente com o líquido de seu corpo saindo de cada um de seus orifícios.
O relato daquele homem lhes dá aflição.
- Você é um exemplo de que a dignidade não morreu com o velho mundo. Graças a você sabemos que alguém ainda luta pela liberdade. – diz aquele homem a Timothy.
O professor sente-se lisonjeado mas não diz nada, permanecendo em silêncio enquanto trabalha tirando as pedras do pátio.
Lucy, sua filha e as outras mulheres trabalham dentro dos prédios. Os buracos nas paredes e as janelas quebradas espalham a poeira dentro dos cômodos, tornando-os inabitáveis. Lucy se pergunta como aqueles homens podem viver ali, deitados no chão forrado de tecidos ou jornais. Suas condições de higiene são precárias, há latas de comida vazias jogadas pelo chão. Nos corredores há pedaços das paredes e estilhaços de vidro. Os banheiros são ambientes deploráveis, com manchas de imundície nos vasos e cheiro de excreções corpóreas. Ao abrir a porta, dezenas de baratas se escondem na escuridão.
Enquanto limpam os alojamentos improvisados, as mulheres veem mais peregrinos chegando, sendo escoltados pelos saqueadores. Como sua filha, eles também foram enganados pela aparência ilusória de policiais.
À noite depois, do expediente, os escravos são levados aos porões da delegacia. Confinando-os lá dentro, Lucy vê o local onde antes era a sala de arquivo. Há incontáveis folhas de papel e armários tombados pelo chão. Ela também vê mesas velhas e cadeiras quebradas nos cantos.
Trancando a porta no lado de fora, alguns dos escravos batem na porta e gritam aos seus captores, pedindo pela comida prometida. Os saqueadores riem e eles ouvem seus passos se afastarem na distância.
Lucy vê que as mãos de Timothy estão dilaceradas de tantas feridas. Ele pergunta se as duas foram maltratadas e elas dizem que estão bem. O professor se entristece ao perceber que os policiais, os únicos que podiam protegê-los, se voltaram contra seus próprios cidadãos e agora os usam como mão de obra escrava nas ruínas. Sua esposa tenta consolá-lo, mas no fundo ela também sabe que a sociedade como eles a conheciam, com a salvaguarda das leis e dos direitos, desapareceu na chama nuclear. Agora uma nova sociedade emerge, tão brutal e primitiva quanto a dos tempos antigos.
Timothy, Lucy e todos os outros cidadãos tornados peregrinos vivem os tenebrosos tempos de transição.

§

No dia seguinte os homens são conduzidos a outro lugar. Os saqueadores os levam para as ruínas de um imenso viaduto. Parte de suas pistas de rodagem caiu e soterrou caminhões inteiros. Alguns são caminhões militares contendo alimentos e remédios para os desabrigados.
Timothy pode ver os caminhões militares soterrados debaixo de dezenas de toneladas de entulho. Os saqueadores exigem esforço sobre-humano de seus escravos. Sem ferramentas necessárias, escalar aqueles escombros instáveis e retirar os pedaços de concreto com as próprias mãos é suicídio. Apesar do apelo de alguns homens, nada foi feito para ajudá-los.
Um homem tenta escalar o monte e, pouco antes de chegar ao topo, um bloco imenso se solta e os dois rolam de volta para baixo. Ele cai de costas e o bloco cai sobre seu peito, esmagando-o. Os escravos são obrigados a assistir o homem agonizar durante cinco minutos até finalmente se calar.
Os saqueadores ordenam que voltem ao trabalho. Durante o resto do dia os escravos retiram as pedras em silêncio, abatidos pela horrível morte de seu companheiro.
Nos prédios, os saqueadores conduzem as mulheres a um andar abandonado e vazio. A luz cinzenta do dia entra pelas janelas e ilumina o ambiente. Seus passos ecoam pela penumbra fria e depressiva. O chefe aparece logo atrás e Lucy nota que ele carrega uma arma em seu coldre.
Caminhando adiante, o chefe olha para as mulheres e diz:
- Limpem esse andar.
Irritada com a intransigência do chefe, uma das escravas responde com tom prepotente:
- Limpar o quê? Não há nada para limpar aqui.
Encarando-a nos olhos, o chefe saca sua arma e atira em sua cabeça. A mulher então cai com a boca aberta e os olhos arregalados.
- Agora vocês têm algo para limpar. – responde ele friamente antes de ir embora.
As mulheres observam espantadas o cadáver. Elas são obrigadas a despi-la de suas roupas para enxugar a poça de sangue no chão.
Lucy segura os braços e sua filha segura as pernas. Elas tentam carregar o corpo escada abaixo mas, famintas e incapazes de suportar o peso, a jogam pela janela. O corpo cai como uma boneca de pano e se espatifa sobre um carro no estacionamento, fazendo um som abafado de lataria amassando.
Durante toda sua vida essa foi a coisa mais horrível que Lucy já fez.
Algumas horas depois os saqueadores retornam trazendo colchões e almofadas bolorentas. Eles informam às mulheres que aquele será o bordel da delegacia e que elas serão as prostitutas. Muitas entram em pânico, outras pretendem tirar a própria vida se isso acontecer, mas Lucy mantém a calma e tenta tranquilizar sua filha. Ela não quer passar pela experiência do estupro mais uma vez.
De volta ao porão, Lucy e sua filha não dizem a Timothy o que os saqueadores farão com as mulheres na noite seguinte. O professor e os outros homens estão calados, todos ainda lamentam a morte daquele homem. O clima no porão é de pura tristeza e falta de esperança. As mulheres temem a violência sexual e os homens sofrem com a impotência de não poderem fazer nada para saírem dali.

§

Nas ruínas do viaduto, os homens continuam desenterrando os caminhões quando um escravo desmaia de repente. O professor se aproxima para ver o que houve quando vê que as calças dele estão molhadas. O homem sua e, pondo a mão sobre sua testa, constata que o escravo está febril. Carl percebe que há chumaços de cabelo no capuz do escravo. Febre, disenteria e queda de cabelo só podem significar uma coisa.
- Afastem-se! Este local está contaminado! – grita Timothy.
Apavorados, os escravos se afastam como se o entulho fosse explodir. Os saqueadores estranham a exasperação dos escravos e ordenam:
- Voltem ao trabalho!
- Não! Esta pilha de escombros está contaminada com radiação! – responde o professor.
Indicando o escravo caído no chão, os saqueadores veem seus sintomas e também temem se aproximar.
- Volte ao trabalho agora!
Os escravos se põem ao lado de Timothy, esperando a deflagração de outra rebelião.
- Se voltarmos àquela pilha morreremos todos! Não haverá mais mão de obra para fazer o seu trabalho sujo.
O saqueador segura seu porrete quando o chefe aparece atrás dele.
- Então você é o tal professor de quem falam tanto? É verdade que por sua causa houve o massacre no acampamento militar, e mais dezenas de mortes na estação de água dos mercadores?
Timothy sente-se consternado ao ser responsabilizado pelas mortes.
- Vocês exploram os peregrinos, homens e mulheres famintos e desesperados que perderam suas casas, seus familiares, seus amigos, e agora perderam suas liberdades para que vocês possam sobreviver! Vocês não têm o direito de nos escravizar! Nenhuma arma de fogo ou porrete vai nos tirar a dignidade e o direito à vida!
E então os escravos concordam.
- Realmente foi você quem provocou as rebeliões. Com sua eloquência você fica muito convincente. Responda-me, escravo. É sua esposa e filha lá em cima, não é?
O professor engasga, não respondendo. O chefe percebe que ele fica intimidado.
- Estou reservando um andar inteiro do prédio para ser meu bordel particular. Se decidir se rebelar no meu território, eu vou estuprar as duas na sua frente, e então os meus homens farão fila para as estuprarem também, na frente e atrás, ao mesmo tempo, como um filme pornô. Pelo o que eu ouvi, sua esposa já tem experiência com os mercadores.
Os saqueadores riem ao ouvir a ameaça do chefe. Timothy abaixa sua cabeça, respira fundo e dá as costas, voltando ao trabalho. Os escravos ao lado dele se espantam, todos esperavam que a rebelião fosse começar e se decepcionam com a covardia do professor.
E então todos voltam desanimados ao trabalho.
Chegada a noite, os saqueadores permitem que as mulheres se despeçam de seus homens. Sob muitas lágrimas, Timothy beija Lucy e a abraça firmemente, não querendo que ela se vá. Sua filha os abraça também, os três juntos no mesmo abraço apertado de mais uma família que é separada por homens cruéis sem compaixão.
Levando-as para cima, os saqueadores arrastam as mulheres que choram e esperneiam em vão. Os homens ficam no porão, observando impotentes suas mulheres serem levadas até a porta finalmente se fechar.

§

Timothy sente que perdeu o respeito que nem sabia que tinha conquistado. Escavando a pilha de entulho sozinho, os outros homens apenas o observam de longe com olhar de desprezo. O professor tenta ignorar a decepção deles, afinal eles se iludiram pensando que Timothy fosse algum herói salvador dos fracos e oprimidos.
Os escravos não o ajudam, eles ficam à distância evitando a radiação e fingindo que estão trabalhando. Sob o monte de entulho o professor acha uma passagem entre as vigas de concreto armado e pedaços enormes de asfalto. A passagem é muito sinuosa e Timothy tem que se arrastar para conseguir entrar.
Avançando sob os escombros, o professor ouve pedras rolando e poeira cair em seus cabelos. A frente ele vê os caminhões militares, os saqueadores disseram a verdade, os caminhões estão cheios de alimentos e remédios. Aproximando-se da caçamba, ele tenta achar um caminho através da lataria esmagada e dos instáveis blocos de concreto.
Ao olhar para dentro da caçamba, Timothy se surpreende. Centenas de caixas de madeira contendo comida enlatada, água e remédios estão empilhados ali. Puxando cuidadosamente a porta, ele ouve o ruído do entulho ruir sobre sua cabeça e se apavora. Por sorte nada acontece, mas ele sabe que se tudo aquilo ruir, ele será soterrado e ninguém virá ao seu socorro.
- Se eu fosse você eu deixaria isso quieto.
Timothy sente seu coração pular de susto. Há mais alguém lá embaixo!
- Quem está aí?
Na cabine do caminhão atrás, um homem vestido com farda acena para ele.
- Você veio me resgatar?
- Resgatar?
- Estou aqui há anos esperando que me resgatem. De qual regimento você é?
O professor nota a farda militar no homem.
- Eu não sou um soldado. Aliás, eu nem sabia que havia alguém aqui embaixo.
- Está dizendo que não há ninguém lá fora vindo para me tirar daqui?
- Temo que não.
O soldado se lamenta, colocando as mãos sobre sua testa. A barba do homem está longa e toda empoeirada. Seu cabelo cresceu desordenadamente, aparentando estar ensebado e infestado de piolhos.
- E eu achei que o lema do exército era não deixar ninguém para trás...
- O que aconteceu com os caminhões? – pergunta Timothy, demonstrando curiosidade.
- Estávamos dirigindo sobre o viaduto à noite. Íamos entregar esses suprimentos a um acampamento militar a cento e vinte quilômetros da cidade. De repente uma ogiva caiu do céu e o enorme cogumelo de fogo se ergueu no horizonte. A monstruosa onda de choque e calor arrasou tudo no caminho, varrendo as pistas de tráfego como se alguém assoprasse um castelo de cartas. No outro minuto acordei debaixo de dezenas de toneladas de escombros sobre minha cabeça.
- Você não tinha um rádio comunicador para chamar ajuda?
- Pulso eletromagnético. As explosões nucleares fritaram todo o equipamento de comunicação, talvez no mundo todo.
- E como você sobreviveu tanto tempo?
- Olhe ao redor. Aqui embaixo tenho tudo o que preciso para permanecer vivo. Comida, água, remédios... E ainda há mais estoque.
O professor concorda.
- Houve alguns sobreviventes? Eles conseguiram escapar ou sobrou só você?
- Seis sobreviveram além de mim. Um morreu de hemorragia três dias depois. Os outros cinco se arrastaram para fora dos escombros. Três conseguiram sair, os outros dois foram soterrados em algum lugar atrás de você.
- Por que não foi com eles?
- Se eu tentasse sair desse caminhão tudo desabaria sobre mim. Eu estou preso. Os três que escaparam prometeram voltar para me tirar, mas nunca voltaram. Me pergunto o que aconteceu com eles lá em cima.
Timothy fica pensativo por um tempo. Então ele diz:
- Muita coisa mudou desde que as ogivas nucleares caíram. Talvez seus amigos militares não encararam bem o novo mundo.
O soldado percebe um pouco de rancor na voz dele.
- Você vai me tirar daqui?
Timothy demora a responder.
- Sim. Antes eu preciso voltar e avisar que há um sobrevivente.
- Por favor, não demore!
Arrastando-se para fora, o professor deixa o soldado debaixo do entulho.
Ao sair, os escravos se surpreendem ao ver que ele ainda está vivo. O professor desce a pilha de entulho e sente dores de cabeça, a superfície contaminada está afetando seu corpo.
- Por que demorou tanto? Você achou os caminhões de suprimento lá embaixo?
Irritado por não receber nenhum auxílio, Timothy responde:
- Desçam lá e descubram.

§

Uma semana se passa no bordel improvisado dos saqueadores. Lucy e sua filha são obrigadas a dormir com eles, como se fossem suas esposas. Algumas mulheres resistem e outras desistem de lutar, preferindo esperar que os homens acabem e as deixem em paz. Para proteger sua filha, Lucy tem de fazer sexo com vários deles, geralmente três por noite. Ela sabe que um dia eles tomarão sua filha à força, mas fará de tudo para evitar que isso aconteça.
Certa noite, um homem puxa a filha de Lucy pelo casaco e a deita sobre um colchão velho. O saqueador tenta tirar suas roupas quando sua mãe intervém.
- Não! Não faça isso!
A menina corre aos braços da mãe. Então todos os homens olham para ela, irritados.
- Por que não? – pergunta ele, rosnando.
- Porque ela está menstruada.
Outro saqueador grita ao longe:
- Você já disse isso semana passada! Não é possível que sua filha sangre por tanto tempo!
- Ouça, ela teve um bebê há menos de um mês. O sangue acumulado ainda não desceu.
Sorrindo, o homem pergunta:
- Então onde está o filho?
Lucy e a menina se entreolham.
- Ele não sobreviveu ao parto.
Os saqueadores riem. Eles se levantam e cercam as duas.
- Está mentindo!
- Juro por minha vida que é verdade!      
- Pode jurar por sua vagina, se quiser! Hoje a garota será minha!
Então eles agarram as duas e as separam. Os homens seguram a menina no colchão e tiram suas roupas, deixando-a completamente nua. Um deles se deita sobre ela e se prepara para penetrá-la quando alguém o interrompe.
- Pare! – eles olham para trás e veem o chefe. – Esta garota é a filha do agitador lá embaixo. Ele é um arrogante que merece ser desmoralizado. Será um prazer violentar sua filha, mas o primeiro a ter esse privilégio serei eu!
Os saqueadores gargalham e abrem espaço para o chefe. Despindo-se, ele se deita sobre ela. A menina grita e chora o tempo todo, chamando desesperadamente por sua mãe. Mas Lucy é obrigada a assistir sem poder fazer nada para impedi-los.
Timothy olha pela janela do porão e vê que já está amanhecendo. Não demorará muito e os saqueadores virão chamá-los ao trabalho. Ele pensa se sua mulher e filha estão bem e deseja de todo coração que as duas aguentem firme até poderem fugir.
O pão que os saqueadores lhes deram está embolorado e a água tem um gosto metálico. Como a fome é constante no cativeiro, eles são obrigados a comer tudo e torcer para que nenhuma doença os mate.
Distraído olhando para a janela, ele é desperto por um corpo caindo lá fora e se espatifando ao lado do vidro. Os escravos se assustam com o som do pungente impacto, era como se tivessem fogos de artifício para crianças, com a diferença de que eram ossos e não bombas se estourando.
Abrindo a porta, os saqueadores são inundados de perguntas e alertas. Os escravos apontam para a janela e eles veem o cadáver lá fora. Correndo para averiguar, os escravos seguem atrás deles.
Ao chegarem na lateral do prédio, os escravos e saqueadores veem um corpo despido e ensanguentado caído sobre a calçada. Eles identificam uma mulher. Virando-a, os homens veem o rosto de uma menina, com menos de vinte anos, com o crânio ensanguentado e olhando para o vazio. Timothy se esgueira entre os homens e reconhece o rosto dela.
É sua filha.
Agachando-se ao lado dela, ele ergue sua cabeça e chora dolorosamente. A menina está morta, Timothy sente seu corpo se esfriar e seus lábios se empalidecerem. A menina está despida, revelando sua nudez. Retirando seu casaco, ele a cobre.
Lágrimas caem no rosto dela, misturando-se com o sangue límpido. O professor chora em soluços, encostando sua testa na testa dela enquanto diz o seu nome. É fácil deduzir o que aconteceu. Apavorada com a ideia de ser estuprada novamente, a menina não conseguiu suportar outro trauma. Após ser forçada a fazer sexo a noite inteira, ela decidiu se suicidar, atirando-se da janela do infame andar usado como bordel.
Ele a levanta e a carrega nos braços, passando pelos escravos curiosos e comovidos com a excruciante cena. Timothy olha os saqueadores e então pergunta:
- Onde está o chefe?
Os saqueadores escoltam o professor até o chefe. Ele está sentado no capô de um carro no estacionamento, conversando tranquilamente. Ao ver o professor chegando com um cadáver em suas mãos, ele se intriga.
- Você me prometeu. – sussurra ele, controlando sua ira.
- O quê? Do que está falando? Quem é essa garota?
- É a minha filha! – brada ele.
O chefe a reconhece. Ele pergunta cinicamente:
- O que aconteceu?
- Ela se jogou da janela do bordel. – responde um saqueador.
- Você me prometeu que não ia tocá-la.
- Eu prometi? Não sei do que está falando.
- Se eu andasse na linha e não lhe desse problemas, você me prometeu que não iria tocá-la.
O chefe então se lembra da conversa.
- Espere um pouco. Eu não prometi nada! Eu disse que se você se rebelasse no meu território eu ia... lidar... com você depois. Não houve promessa nenhuma. Afinal eu não toquei em sua filha na sua frente. Mas a toquei quando você não estava vendo.
Os saqueadores gargalham. O chefe está fazendo de novo, ele está brincando com Timothy. Ele não se importa com sua filha ou com qualquer outro escravo no acampamento. Ele não se importou com a mulher degolada no estacionamento, com a escrava morta com um tiro na cabeça, com o homem morrendo por radiação, ou com sua filha. Timothy não aceita a injustiça, ele não tolerará a lei do mais forte.
Ele é teimoso ao aceitar que as velhas leis se foram, que a sociedade como conhecia não existe mais. Ele contribuiu para a liberdade da nação. Trabalhou, pagou seus impostos, lecionou os futuros cidadãos. Ele ajudou a manter e a construir uma nação democrática, onde o direito da força não poderia superar a força do direito. Ele se orgulhava de seu país, de suas leis e de seu sistema. Timothy defendia seus ideais. Mas com as explosões das terríveis bombas, todo o conceito de igualdade, fraternidade e justiça se desintegraram no inferno atômico. Mas a dignidade permanece. Ele não vai deixar que eles a arranquem.
 - Eu me recuso a essa sujeição! – grita ele e então todos os escravos se empolgam.
Os escravos atrás de Timothy ficam eufóricos e agressivos. Os saqueadores atrás do chefe empunham seus porretes, preparando-se para o combate. O estacionamento se divide, os adversários são os opressores e oprimidos, escravos e senhores, fortes e fracos. A eterna luta de classes que assume várias faces com o passar do tempo, mas que em essência nunca muda, independente da aparência funesta que a sociedade venha a ter.
O chefe saca sua arma e atira contra Timothy. Um escravo se atira à sua frente e o protege, sendo baleado em seu lugar. Vendo-o se encolher de dor no chão, o professor se assusta. Então outro homem o puxa para dentro do prédio, fazendo-o soltar sua filha.
- Não!
- Deixe-a!
Os escravos conduzem Timothy pelas escadas do prédio arruinado. Eles passam pelos alojamentos dos saqueadores e pilham o local, descobrindo água e comida estocada. Outros continuam subindo e chegam ao bordel, encontrando suas mulheres seminuas e traumatizadas após dias de estupro.
- Isto é uma rebelião! – grita um escravo, empolgado com a situação.
Os homens tiram seus casacos e vestem suas mulheres. Timothy procura por Lucy e a encontra à beira da janela, lamentando-se profundamente pela morte da filha. Ao vê-lo, ela diz:
- Eu fiz tudo o que pude, Tim... Mas eles a pegaram...
- Não importa. Quero que se recomponha e vista-se. Nós vamos fugir daqui, meu amor.
Os escravos trazem a comida saqueada e a distribuem entre si. Outros sobem com as roupas roubadas de suas bagagens quando eles chegaram ali. Os homens ficam felizes ao acharem mais porretes guardados nos armários da antiga delegacia. Agora eles podem lutar por igual.
Do estacionamento, o chefe chama por Timothy lá embaixo.
- Ei, professor!
O professor olha pela janela e vê o maligno chefe sobre o capô de um carro.
- Eu disse que se você se rebelasse no meu território você iria se arrepender! Diga para sua esposa se preparar por que ela é a próxima!
Os escravos pegam pedras e mobílias arruinadas e as atiram contra os saqueadores. Eles se iram e preparam-se para subir. Timothy os interrompe.
- Estamos com a sua água e comida! Se vocês subirem, nós jogaremos tudo na privada!
O chefe se intimida. Nas ruínas os mantimentos valem ouro.
- Não se atreveria.
- É claro que me atreveria! Eu perdi minha filha esta manhã. Nada mais importa.
O professor ouve os escravos fazerem barricadas no andar inferior. O chefe conversa com seus saqueadores e, chamando-o, diz:
- Vocês não têm saída! Se descerem para fugir, nós os pegaremos!
Ele responde:
- Vocês não têm mantimentos! Se subirem nós nos livraremos de tudo!
A disputa chega a um impasse. Ambos os lados não se movem, qualquer decisão errada e ambos os lados perderiam.

§

Dois dias se passam após a deflagração. Os saqueadores estão famintos e sedentos. Pressionando o chefe, eles propõem um diálogo.
- Professor! – Timothy se aproxima da janela e vê o chefe chamando-o – Nós queremos fazer uma trégua! Se desistir dessa rebelião, nós os deixamos ir embora! Mas tem que deixar nossa comida e nossa água! Tem minha palavra!
- Eu não acredito em você!
- Pois acredite! Vocês não querem ficar aí, vocês querem partir! Logo seus companheiros o abandonarão e descerão as escadas, vindo ao nosso alcance! É isso o que você quer? Mais sangue em suas mãos?
Timothy pondera. O chefe está certo, os escravos querem partir. Ninguém quer ficar naquele covil repugnante de malditos saqueadores.
- Está bem! Nós vamos descer!
O professor abraça sua esposa e diz que a ama. Os outros escravos pegam suas coisas, vestem seus casacos e colocam suas mochilas. Muitos estão felizes por finalmente saírem daquele inferno, outros demonstram preocupação. As mulheres se aliviam, elas não serão mais estupradas por homens cruéis e fedorentos que as tratavam como objetos.
- Se algo acontecer lá embaixo, saiba que eu te amo, Lucy.
Ela sorri.
- Timothy, não se preocupe. Tudo vai dar certo.
- E se não der?
O professor parece perder a fé. Percebendo seu medo, ela responde:
- O que quer que aconteça comigo, eu ficarei bem.
Suas palavras o animam. Então Timothy sente confiança para prosseguir.
Os escravos chegam ao piso térreo e encontram os saqueadores no começo da escada. Parecendo cães raivosos, eles os encaram furiosamente.
Passando um a um pelos saqueadores, os escravos deixam o prédio e seguem em direção à rua. Os primeiros comemoram a liberdade ajoelhando-se no asfalto, outros correm o mais rápido que podem, não dando chance de serem capturados novamente. Timothy desce de mãos dadas com sua esposa, degrau por degrau até chegar aos saqueadores. O chefe aparece ao seu lado, encarando-o com fúria mortífera enquanto segura sua arma, contendo-se para não matá-lo.
O professor passa pelo meio deles quando o chefe grita:
- Agora!
Os saqueadores agarram Lucy e a puxam, separando-a de Timothy. Os demais escravos se assustam e fogem, escolhendo a própria liberdade ao ajudar o homem que possibilitou sua libertação. O professor é jogado ao chão e espancado com golpes de porrete. O chefe agarra Lucy, ela grita e esperneia em seus braços. Sacando sua arma, ele a aponta para sua cabeça.
- Ei, professor! – Timothy olha para ele, sangue escorre de suas sobrancelhas – Eu vou ficar com sua mulher! Pense como se fosse uma compensação pelo transtorno!
- Não! – grita ele – Escolha a mim! Ela não tem nada a ver com isso!
- Ah, tem sim! Ela é o exemplo de que o mundo que você insiste em proteger acabou! E que o mundo que existe agora não foi feito para homens como você, mas para homens como eu!
O chefe sobe as escadas, gargalhando enquanto carrega Lucy. Ferido demais para se levantar, o professor chora gritando:
- Lucy!
Os saqueadores riem de seu desespero. Eles dão as costas e sobem, deixando-o ali embaixo. O último a subir olha para ele e ameaça dizendo:
- Não tente nos seguir, senão ela morre.
Timothy tenta pateticamente ficar em pé, mas desaba a cada tentativa. Ele está atordoado e chora amargamente. Então um homem aparece atrás dele e diz:
- Venha! Você ouviu o aviso, não pode mais ficar aqui!
O homem passa o braço do professor sobre seu ombro e o carrega para fora. Levando-o pelas ruas, Timothy encontra vários escravos libertos escondidos em uma loja abandonada. O homem o deita no chão e ele vê que é Carl, a primeira pessoa que ele conheceu no território dos saqueadores. Uma mulher se agacha e cuida de seus ferimentos, os outros protegem a entrada, vigiando atentamente a rua.
- Eu tenho de voltar...! Me levem de volta...!
- Não podemos. Se levarmos eles vão matá-la.
- Eu não posso deixá-la! Não vou deixá-la com aqueles maníacos!
- Se você for ela morre!
Então ele chora ainda mais.
- Lucy... O que farão a você...?
- Timothy, se acalme. Lembre-se do que ela falou. O que quer que aconteça, ela ficará bem.
O professor se acalma. Levantando-o, os homens o conduzem pelas ruas e deixam o território dos saqueadores.

§

Três dias se passam. O professor já não sente tantas dores e não precisa mais daquelas pessoas para cuidar dele. Talvez seja a hora de voltar.
Eles param para descansar em outra loja e Timothy reconhece uma papelaria. Tudo está empoeirado e abandonado. As embalagens de folhas têm camadas espessas de sujeira, mas ao abri-las ele vê algo que não via há anos nas ruínas. As folhas são de um branco puro e limpo sem igual. Ao contrário do resto do mundo que parecia cinzento, sujo e arruinado, ver aquela tonalidade branca lhe causa comoção. Voltará o mundo a ser um lugar puro e limpo como aquela folha um dia?
Timothy abre um caderno e vê o mesmo branco límpido. Então ele tem uma ideia. Se a raça humana não for extinta pela radiação e uma parcela ínfima da humanidade sobreviver, ele deixará seus relatos sobre sua passagem. Ele registrará os acontecimentos, sua impiedosa luta pela sobrevivência, seus infortúnios e desgraças e sua busca por salvação. Timothy já lecionou Antropologia, Sociologia e História. Seus relatos não serão de todo ignorados. Se algum dia alguém os achar, talvez ajudarão as futuras mentes a compreender este tempo terrível de pós-guerra nuclear. Não pode ser uma má ideia, o professor pode fazer. Por que não?
Ele pega alguns cadernos e os enfia em sua mochila. Dando a volta no balcão, ele pega algumas canetas também. Minutos depois ele caminha até a saída.
No dia seguinte, Timothy se levanta antes que todos e corre pelas ruas. Ele refaz todo o trajeto e passa pelas ruas vazias e prédios abandonados. O zunido do vento é assustador e a penumbra dos edifícios o deixa apreensivo. Era como se o espírito da morte se esgueirasse pelos cantos. Ele não se lembra de sentir tanto medo quando estava com os outros.
O professor caminha apressadamente por várias horas, fazendo pausas rápidas para descansar. Ele vê centenas de cadáveres espalhados pelas ruas da cidade, são os mortos pela radiação. Há cadáveres dentro dos carros também. Quando a onda de choque passou, muitos morreram com o impacto do vento infernal, nada poderia sobreviver.
Timothy dorme no hall de um prédio abandonado e espera o amanhecer. Ele abre garrafas d´água e comida enlatada, comendo em silêncio.
No dia seguinte ele retoma a caminhada. Faltam poucos quilômetros agora, ele já reconhece o lugar. Ao longe ele vê o viaduto destruído. Estaria o soldado lá embaixo ainda? Esperando por um socorro que nunca virá? Ele vê a loja onde foi levado após fugir do prédio dos saqueadores. Está tudo como deixaram. Abandonado.
Atravessando a rua, ele finalmente vê o antigo prédio da delegacia. Parado em frente ao infame prédio, ele sussurra para si mesmo:
- Eu voltei, Lucy. Eu vim te salvar. Se eles realmente te matarem, que assim seja. Prefiro te ver morta do que escrava desses estupradores.
Timothy sobe as escadas lentamente, evitando fazer sons. O prédio está em absoluto silêncio. Ele avança pelas escadas e chega ao andar onde os saqueadores usavam como alojamento. Tudo vazio. Avançando ainda mais, ele chega ao andar onde eles usavam como bordel. Não há nada lá.
O professor se intriga. Onde estão os saqueadores? Ele percorre o bordel e não vê nem mesmo os colchões. Descendo ao alojamento, tudo foi levado inclusive os jornais que forravam o chão. Mas o mais revoltante é que em nenhum dos andares havia sinal de Lucy. O que resta é apenas a penumbra e a luz cinzenta do dia. O que será que aconteceu?
Olhando pela janela ele vê o estacionamento lá embaixo, totalmente vazio. Descendo as escadas, ele passa pelo porão e olha lá dentro. Apenas as folhas amareladas dos arquivos. No estacionamento na há nada, nem mesmo o corpo de sua filha. Eles levaram tudo, nada foi deixado para trás.
Os saqueadores se foram.

§

Anoitece e o professor tenta na delegacia. Em seu plano, ele pretende esperar ali até que eles voltem, mas eles nunca voltaram. Ele se revira no chão mas o sono não vem. Ele pensa durante toda a noite: “Lucy, onde é que você está?”.
Ao amanhecer, ele está encolhido no chão e lágrimas escorrem de seus olhos. Timothy já não quer mais estar vivo. Ele se lamenta o tempo todo e a melancolia se apodera dele. Então algo acontece.
Alguém aparece no alojamento. A luz cinzenta contra o corpo ofusca seus olhos e ele não reconhece a silhueta à sua frente.
- Lucy...?
Segundos depois ele percebe que é um homem.
- Não. – responde ele – Sou eu, Carl.
- Carl? O que está fazendo aqui?
- Vim te buscar.
- Eu não vou a lugar algum.
- Eles não voltarão, Timothy.
O professor sorri.
- Como você sabe?
- Desça comigo. Eu preciso mostrar algo a você.
Carl o leva de volta ao térreo. Levando-o para a rua, Timothy vê todos os escravos libertos que o ajudaram dias atrás.
- Por que eles estão aqui?
Aproximando-se, Carl diz:
- Como você, nós também perdemos entes queridos. Não temos ninguém e não temos para onde ir. Estamos perdidos, esvaziados, sozinhos. Precisamos de direção. Precisamos que alguém com forte senso de liderança nos guie pelas ruínas. Em outras palavras, precisamos de você.
O professor não compreende. Ele não sabe se fica lisonjeado ou indignado com tamanha insensatez.
- Eu não estou sozinho. Eu tenho Lucy.
- Mas ela não está aqui, Timothy. Se quer ir atrás dela, tudo bem. Mas deixe-nos ajudá-lo. Se não está sozinho, que não fique perdido como nós estamos agora.
O professor sente receio.
- Eu não sou um líder.
- Sim, você é! Estamos livres por sua causa. Olhe tudo o que você fez pelos peregrinos. As rebeliões no acampamento militar, na estação de água e aqui. Nada disso te importa?
- O sangue deles está em minhas mãos. É só isso o que eu fiz. Causei dor e morte a eles.
- Não! Você lhes deu esperança! Algo que eles perderam há muito tempo. Pela esperança de libertação os peregrinos se atiraram alegremente à morte! Você não entende? Você não os incitou a perderem suas vidas, eles a entregaram por acreditarem em você!
Então Timothy se convence. Ainda abatido, ele olha para o prédio e então para a rua. Ao respirar fundo, ele diz:
- Tudo bem. Eu vou liderá-los como quiserem. Mas encontrar Lucy é minha prioridade.
Os peregrinos se felicitam. Sorrindo, Carl o pergunta:
- E que direção devemos seguir, Tim?
O professor indica o caminho pela rua à frente. O grupo então começa a marchar, felizes com seu novo líder. Olhando para trás, ele vê o prédio dos saqueadores e pensa:
“Eu vou te encontrar, Lucy. Nem que eu tenha de vasculhar cada cidade, mas eu vou te encontrar”.
“Eu prometo”.




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...