terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 34 - Último Fragmento



Último fragmento de um mundo em transição

O mundo conhecido acabou. A inveja, a ganância e a avareza foram maiores do que o respeito pela vida. No final, os governos, as ideologias e as religiões não tiveram significado nenhum, foi tudo uma luta por dinheiro e poder. Uma nova forma de neocolonialismo surgiu, a submissão social e econômica em proteção do “mundo livre”. Os estudiosos poderiam apontar soluções políticas e religiosas, mas os sábios já sabiam a resposta. O maior problema da humanidade sempre foi o próprio Homem.
Tudo foi diferente do que se tinha visto nos filmes. O velho mundo foi destruído e está sepultado debaixo de bilhões de toneladas de entulho. Acreditava-se que as pessoas boas se reuniriam para reconstruí-lo, que a esperança, a fraternidade e o amor seriam os pilares da nova sociedade. Mas o que se viu foi o oposto. Os sobreviventes se isolaram e voltaram-se uns contra os outros. Ninguém divide o que tem, ninguém compartilha o que lhe sobra, ninguém se reúne pelo bem comum. Todos defendem seus pertences com a própria vida, e lutam até a morte para tomar os pertences dos outros. Gradualmente o egoísmo e a sobrevivência voltaram a ser a expressão máxima do instinto.
Mas entre os sobreviventes houve aqueles que se uniram. Gangues apareceram. Criminosos, violentos e psicopatas, pessoas desprovidas de consciência e remorso, hoje predam nas ruínas. Os maus se uniram e se tornaram os novos donos do mundo. Toda a autoridade se foi, ninguém podia contê-los, incriminá-los e prendê-los como antes. Os maus dominam através da força e do terror. São sanguinários, truculentos, cruéis, praticando ostensivamente a violência sem se preocuparem em impor limites à sua selvageria. No moderno mundo civilizado isso pode parecer condenável, mas este mundo se foi. A sujeição dos mais fracos vem através da violência. Os espetáculos de morte são o que tornam os fortes notórios. Se pensarmos bem, as grandes civilizações do passado não surgiram assim?
Dinheiro, o tão desejado dinheiro, a expressão moderna da riqueza sob a aparência de cédulas de papel. Esses pedaços de papel perderam a validade com a última explosão de uma bomba nuclear. Antes da guerra, os ricos exerciam seu poder e influência com o dinheiro. Com tanto poder em suas mãos, eles se tornavam os mais fortes. Mas a guerra veio e mudou tudo. O dinheiro perdeu a validade e não mais respaldou o seu poder. Os ricos de outrora tornaram-se pobres, e sua força tornou-se fraqueza. Hoje a verdadeira força não está mais na riqueza, ela está nos músculos.
Da mesma maneira, os estudados e inteligentes sofreram o mesmo destino. Os diplomas universitários, que garantiam boas oportunidades e empregos, hoje não passam de simples papel. As tecnológicas ferramentas de trabalho, computadores, celulares e internet, tudo se foi. Hoje os computadores acumulam poeira nos escritórios abandonados. Não existe mais eletricidade, os aparelhos eletrodomésticos estão empilhados nas lojas escuras. Os estudantes que sonhavam com seus futuros não poderão sonhar mais. A guerra os privou de um futuro glorioso que jamais se realizará.
O mundo sofreu uma reviravolta. Os valores foram invertidos, o direito da força se sobrepôs à força do direito e a única lei válida se tornou a lei do mais forte. A ordem regrediu às trevas do caos. As ruínas não têm perdão ou compaixão, os homens passaram a viver como animais. Os sobreviventes encaram os tempos de transição. Seria esta uma regressão aos valores naturais do instinto? E se ao invés de transição fosse regressão? O que aconteceria se a radiação não dizimasse definitivamente a raça humana? O mundo avançaria para um novo tempo ou regrediria a um tempo ainda mais bárbaro? Impossível de se dizer, a poeira sopra pelos rostos daqueles que ainda não morreram. A humanidade se autodestruiu. O planeta belo e exuberante que lhes foi deixado se tornou mais uma esfera estéril e sem vida no universo. Hoje a humanidade prova o sal das lágrimas de Deus.
Timothy Morgan foi mais um dos sobreviventes. Peregrinou pelas ruínas, presenciou seus infindáveis perigos e lutou contra a perversidade de seus novos regentes. Mas como todo fraco, fracassou. Timothy experimentou o sabor amargo da derrota. Corroído pelo pessimismo, ele perdeu a fé no novo mundo e em seu tempo de transição. Se a radiação não esterilizar toda a vida, a humanidade se autodestruirá novamente. Se houver uma quarta guerra mundial, será combatida com paus e pedras. A tecnologia ainda está ali, sob o entulho só esperando para ser redescoberta daqui a alguns milênios. O mundo pós-guerra será a nova Atlântida, o mito de uma civilização que misteriosamente desapareceu.
O inverno nuclear prepara a inauguração do novo mundo. A radiação é o agente nocivo do recomeço. O mundo reformula-se entre a vida e a morte em um caminho pavimentado pelas ruínas dos tempos de transição.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...