Último
fragmento de um mundo em transição
O
mundo conhecido acabou. A inveja, a ganância e a avareza foram maiores do que o
respeito pela vida. No final, os governos, as ideologias e as religiões não tiveram
significado nenhum, foi tudo uma luta por dinheiro e poder. Uma nova forma de
neocolonialismo surgiu, a submissão social e econômica em proteção do “mundo
livre”. Os estudiosos poderiam apontar soluções políticas e religiosas, mas os
sábios já sabiam a resposta. O maior problema da humanidade sempre foi o
próprio Homem.
Tudo
foi diferente do que se tinha visto nos filmes. O velho mundo foi destruído e
está sepultado debaixo de bilhões de toneladas de entulho. Acreditava-se que as
pessoas boas se reuniriam para reconstruí-lo, que a esperança, a fraternidade e
o amor seriam os pilares da nova sociedade. Mas o que se viu foi o oposto. Os
sobreviventes se isolaram e voltaram-se uns contra os outros. Ninguém divide o
que tem, ninguém compartilha o que lhe sobra, ninguém se reúne pelo bem comum.
Todos defendem seus pertences com a própria vida, e lutam até a morte para
tomar os pertences dos outros. Gradualmente o egoísmo e a sobrevivência
voltaram a ser a expressão máxima do instinto.
Mas
entre os sobreviventes houve aqueles que se uniram. Gangues apareceram. Criminosos,
violentos e psicopatas, pessoas desprovidas de consciência e remorso, hoje
predam nas ruínas. Os maus se uniram e se tornaram os novos donos do mundo.
Toda a autoridade se foi, ninguém podia contê-los, incriminá-los e prendê-los
como antes. Os maus dominam através da força e do terror. São sanguinários,
truculentos, cruéis, praticando ostensivamente a violência sem se preocuparem
em impor limites à sua selvageria. No moderno mundo civilizado isso pode
parecer condenável, mas este mundo se foi. A sujeição dos mais fracos vem
através da violência. Os espetáculos de morte são o que tornam os fortes
notórios. Se pensarmos bem, as grandes civilizações do passado não surgiram
assim?
Dinheiro,
o tão desejado dinheiro, a expressão moderna da riqueza sob a aparência de
cédulas de papel. Esses pedaços de papel perderam a validade com a última
explosão de uma bomba nuclear. Antes da guerra, os ricos exerciam seu poder e
influência com o dinheiro. Com tanto poder em suas mãos, eles se tornavam os
mais fortes. Mas a guerra veio e mudou tudo. O dinheiro perdeu a validade e não
mais respaldou o seu poder. Os ricos de outrora tornaram-se pobres, e sua força
tornou-se fraqueza. Hoje a verdadeira força não está mais na riqueza, ela está
nos músculos.
Da
mesma maneira, os estudados e inteligentes sofreram o mesmo destino. Os
diplomas universitários, que garantiam boas oportunidades e empregos, hoje não
passam de simples papel. As tecnológicas ferramentas de trabalho, computadores,
celulares e internet, tudo se foi. Hoje os computadores acumulam poeira nos
escritórios abandonados. Não existe mais eletricidade, os aparelhos
eletrodomésticos estão empilhados nas lojas escuras. Os estudantes que sonhavam
com seus futuros não poderão sonhar mais. A guerra os privou de um futuro
glorioso que jamais se realizará.
O
mundo sofreu uma reviravolta. Os valores foram invertidos, o direito da força
se sobrepôs à força do direito e a única lei válida se tornou a lei do mais
forte. A ordem regrediu às trevas do caos. As ruínas não têm perdão ou
compaixão, os homens passaram a viver como animais. Os sobreviventes encaram os
tempos de transição. Seria esta uma regressão aos valores naturais do instinto?
E se ao invés de transição fosse regressão? O que aconteceria se a radiação não
dizimasse definitivamente a raça humana? O mundo avançaria para um novo tempo
ou regrediria a um tempo ainda mais bárbaro? Impossível de se dizer, a poeira
sopra pelos rostos daqueles que ainda não morreram. A humanidade se
autodestruiu. O planeta belo e exuberante que lhes foi deixado se tornou mais
uma esfera estéril e sem vida no universo. Hoje a humanidade prova o sal das
lágrimas de Deus.
Timothy
Morgan foi mais um dos sobreviventes. Peregrinou pelas ruínas, presenciou seus
infindáveis perigos e lutou contra a perversidade de seus novos regentes. Mas
como todo fraco, fracassou. Timothy experimentou o sabor amargo da derrota.
Corroído pelo pessimismo, ele perdeu a fé no novo mundo e em seu tempo de
transição. Se a radiação não esterilizar toda a vida, a humanidade se
autodestruirá novamente. Se houver uma quarta guerra mundial, será combatida
com paus e pedras. A tecnologia ainda está ali, sob o entulho só esperando para
ser redescoberta daqui a alguns milênios. O mundo pós-guerra será a nova
Atlântida, o mito de uma civilização que misteriosamente desapareceu.
O
inverno nuclear prepara a inauguração do novo mundo. A radiação é o agente
nocivo do recomeço. O mundo reformula-se entre a vida e a morte em um caminho
pavimentado pelas ruínas dos tempos de transição.

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