A
Jornalista
A
jornalista Marisa Torres sempre foi uma mulher de política. Ela denunciava o
governo dos Estados Unidos como o principal causador da pobreza e desigualdade
ao redor do mundo. Muitas vezes esses ataques ao governo continham inverdades e
distorções, com informações adulteradas para arregimentar as massas.
Sendo
jornalista, ela inundou o jornal com notícias e mais notícias de caráter
ideológico, com o efeito de minar as potências ocidentais. Tida como heroína e
sabotadora pela população, ela sofria ameaças de morte enquanto os sindicatos
faziam passeatas com sua foto nos cartazes.
Graças
a pessoas como ela, a juventude estudantil era gradualmente corrompida. Criou-se
um senso distorcido de democracia e Estado de Direito, autoridades constituídas
foram consideradas fascistas, o governo perdia a confiança de seus eleitores e
os veículos de comunicação em massa, da qual ela trabalhava, era usado como
manipulador de opinião pública, agindo de acordo com a causa. Gradualmente a
sabotagem dava resultado.
Após
facilitar a distribuição de livros didtáticos com conteúdo adulterado na
educação pública, ela foi enviada aos Estados Unidos para fazer uma reportagem
sobre os constantes protestos naquele país. Ela caminhava pelas ruas com um
misto de ódio e inveja. Todo o materialismo americano e sua abundância de bens,
uma nação bonita e rica, em profundo contraste com a pobreza e miséria em seu
país. Os americanos tinham belos carros, belas casas, boa vestimenta, belas
cidades, ruas limpas, alimentação, educação, incentivo aos esportes, à cultura,
à arte, ao entretenimento, e tudo ao alcance, mas ainda assim eles reclamavam
do governo. “Como pode um povo que tem tanto ser tão ingrato?” pensa ela. Será
que se a jornalista fosse americana ela pensaria diferente do que pensa agora?
Será que ela lutaria contra a desigualdade causada pelo imperialismo se ela
tivesse nascido nos Estados Unidos, vivendo com tanto luxo ao seu redor? Ela
pensa se na verdade seu ódio não seria inveja, um ressentimento por não ter
nascido em uma nação tão bonita da qual hoje ela combate.
Quando
que sua direção política se tornou um ativismo radical em seus anos de
jornalismo? Ela, sendo uma agente formidável da causa, não teria sofrido
lavagem cerebral também? Será que a solução para os problemas de seu país se
baseia no extremismo? Talvez esses problemas só se resolvam com trabalho e
desenvolvimento, e não com falsas propagandas de liberdade e democracia.
Não
demora muito para ela ter um conflito de opinião, desafiando toda a sua direção
ideológica. No começo ela envia ao seu país reportagens e relatórios agressivos
contra o governo americano, mas com o tempo as coisas mudam drasticamente.
Flagrada
usando bolsas de grife, belos sapatos e roupas elegantes, sua imagem em seu
país de origem desmorona. Ela passa a ser chamada de traidora, hipócrita e
demagoga. Sem credibilidade, com a carreira arruinada e sob risco de morte se
retornasse ao seu país, ela teve de fazer algo que sempre desprezou a vida
inteira, pedir ajuda ao governo dos Estados Unidos.
A
jornalista conhece alguém, um homem americano e branco, duas coisas que ela
abominava, e de repente toda a sua vida muda. Ela se apaixona e pouco tempo
depois os dois passam a morar juntos. Nesse momento seu ativismo havia se
esfriado e aos poucos sua mente se desintoxicava da política. Após viver seis
meses nos Estados Unidos, já habituada com a língua inglesa e ao estilo de
vida, ela engravida de sua primeira filha, uma menina nascida em território
americano para sua própria surpresa. A vida tinha sido bem irônica, afinal.
Um
ano e meio depois ela engravida de novo, dessa vez de um menino. Após tanto
tempo vivendo com ódio hoje ela vivia com amor, e esse amor tinha a imagem de
seu marido e de seus dois filhos.
Mas
a crise ainda assombrava o mundo e com ela veio algo que nem nos seus sonhos
ela pôde imaginar. O mundo estava à beira de uma guerra nuclear. As potências
emergentes entraram em guerra com os Estados Unidos e novamente o mundo se
dividia em blocos, retornando aos tempos de Guerra Fria.
Seu
marido, um fotógrafo de jornal, também acompanhava as notícias. Preocupado com
o bem estar de sua família, ele decidiu construir um bunker no quintal de sua
casa. Na época foi muito difícil conseguir cimento e aluguel de máquinas,
aparentemente toda a vizinhança teve a mesma ideia e todos preparavam seus
abrigos nucleares também. Estando um metro abaixo da superfície, com grossas
paredes de concreto e sistemas de reciclagem de água, ele preparou seu abrigo lá
embaixo.
O
tempo passava e a contagem regressiva para o fim se aproximava. Já haviam
tropas invadindo nações e tentativas diplomáticas para acordos de paz
fracassavam. À noite, após o trabalho e a escola das crianças, eles não dormiam
mais em seus quartos e todos desciam para o bunker. Inúmeras vezes seu marido
refletia se seu esforço era inútil. Se houvesse guerra nuclear, toda a
superfície do mundo seria contaminada pela radiação, esterilizando a terra por
séculos, ou talvez milênios, levando a humanidade à extinção. Para que adiar o
fim? Mesmo que sobrevivam aos ataques no abrigo, um dia a comida acabaria e,
não tendo escolha, teriam de subir à superfície para não morrerem de fome.
Seria o início de uma morte lenta e dolorosa, em exposição direta à radiação
ionizante, causando-lhes câncer.
Dias depois, a família reúne-se no bunker e a
jornalista prepara o jantar. Não aguentando mais comer comida enlatada, ela
sugere carne bovina e legumes. Obviamente eles não tinham aquilo lá embaixo e
seu marido também não encontra na cozinha acima. Ele diz que alimentos
perecíveis só se encontram no mercado, naqueles que ainda abrem durante a
noite. Insatisfeita com a situação, a jornalista o obriga a ir comprá-los,
afinal, após tantos dias dormindo naquele abrigo escuro e apertado, o mínimo
que o marido podia fazer é agradá-la um pouco. O marido faz o que ela diz,
mesmo contrariado e preocupado, e sai com o carro. O único mercado que ainda
abre à noite fica no outro lado da cidade, cerca de vinte quilômetros de
distância.
E
então a vida da jornalista muda drasticamente pela segunda vez.
Enquanto
ela e os filhos aguardam assistindo TV, ela ouve a sirene soar. Assustada, ela
caminha para o alçapão e, ao abri-lo, vê um objeto cônico rasgando o céu
noturno em direção ao outro lado da cidade. O clarão ilumina as casas como se
fosse uma descarga elétrica, ofuscando seus olhos. A onda de choque e calor
avança violentamente, ela sente o insuportável ar quente e imediatamente fecha
o alçapão, voltando ao abrigo para não morrer queimada. A terra treme, ela
escorrega e cai da escada, seus filhos gritam de desespero, a energia elétrica
no abrigo é cortada e eles ficam no escuro absoluto. O terremoto e o calor
devastam a superfície lá em cima.
A
jornalista se desespera. Seu marido está em algum lugar na superfície, ele pode
ter sido atingido pela explosão! Ela grita incessantemente por ele enquanto
seus filhos se aterrorizam ao ver sua mãe perder o controle. Não podendo voltar
ao alçapão devido à altíssima temperatura na folha de aço, ela chora e grita
olhando para cima, esperando que ele milagrosamente volte.
Vinte
minutos após o ataque, ela ainda acalma seus filhos que choram muito. Não há
luz lá embaixo, algo queimou os equipamentos elétricos e a energia não
funciona. Ela tem de usar velas para iluminar o local. Sentindo-se culpada, a
jornalista pensa em seu marido lá em cima, que teve de sair por causa dela para
lhe trazer um luxo da qual ela raramente tinha em seu velho país.
Ela
se arrisca a abrir o alçapão, a temperatura já havia abaixado. Antes de subir a
escada ela diz às crianças que vai procurar o “papai”. Alguma coisa bloqueia a
porta, ela a força e vários fragmentos de concreto, poeira e madeira caem da
abertura. Quando finalmente consegue ver lá em cima, ela pensa ter acordado no
inferno.
A
vizinhança inteira foi devastada pela poderosa onda de choque da ogiva nuclear.
Sua casa está em chamas. O calor e a fumaça drenam suas energias, a noite
escura é iluminada pelos vastos incêndios generalizados que queimam tudo ao
redor. A aparência do seu bairro não existe mais, agora ela vê apenas ruínas
ardentes, pilhas de brasas e escombros cinzentos. Ela caminha entre as chamas e
segue em direção à rua, ela vê um carro com malas no teto e cinco pessoas
mortas lá dentro, queimadas vivas pela explosão. Nos postes, os cabos elétricos
se estouram e soltam faíscas, as casas desabam com o fogo, as árvores estalam
com o calor, a fumaça a sufoca... Ela ouve pessoas gritando de dentro das
casas, pela rua ela vê cadáveres enegrecidos, até mesmo os cães latem de agonia
tendo sua pele queimada pela chama nuclear. Onde estão as ambulâncias? Onde
estão os bombeiros?
A
jornalista retorna ao abrigo e encontra seus dois filhos sentados um ao lado do
outro na cama, pacientemente esperando sua mãe voltar. A menina, assustada e
confusa com aquilo tudo, pergunta inocentemente para sua mãe:
-
Mamãe, onde é que está o papai?
A
mãe põe sua filha em seu colo e então abraça seu filho, sentando juntos na
beira da cama. Enquanto os abraça, lágrimas escorrem de seu rosto e ela chora
amargamente.
§
Dois
anos se passam. Vivendo em um parque florestal longe das áreas contaminadas da
cidade, a jornalista buscou abrigo em um povoamento à beira do rio. Ela caminha
pelos alojamentos coletivos onde antes as crianças americanas passavam suas
férias de verão. Chegando à guarita, ela vê um calendário na parede, o guarda
ainda conta os dias, algo completamente insignificante naqueles tempos. O
guarda está sentado, cochilando com o capuz no rosto. Ele veste um sobretudo
preto, em sua cintura há duas pistolas, as raríssimas armas de fogo que hoje
estão em poder dos criminosos. Aquele é um povoamento chefiado por Mercadores.
Há um letreiro em forma de arco na entrada,
nele está escrito “Acampamento Infantil”. Os desenhos felizes de crianças
brincando, canoas no rio, animais selvagens, e outras banalidades perderam
totalmente o significado e agora apodrecem aos poucos, descolorindo-se com o
tempo. Os cartazes coloridos e as placas escrito “Bem-vindo” balançam com o
vento, sendo meras lembranças do tempo em que o acampamento abrigava crianças
felizes e sadias, e não sobreviventes doentes e desesperados como hoje.
A
jornalista acorda o guarda e diz:
-
Preciso falar com o Schillinger.
-
Sobre o quê? – pergunta o mercador.
- É
particular.
O
homem sorri maliciosamente. Ela não gosta do jeito que os mercadores olham para
ela, eles parecem animais insaciáveis e devassos, prontos para atacar as
mulheres indefesas.
Levando-a
pelo acampamento, o guarda chega a um alojamento escrito “administração”. Ao
bater na porta, alguém lá dentro grita:
-
Quem é?
O
guarda responde:
- É
a latina.
Então
a porta se abre e o guarda lhe permite a entrada.
Lá
dentro, a jornalista é recebida pelo chefe do povoamento, um homem alto, forte,
com roupas de caça, cabelos loiros e olhos azuis. Seu sobretudo preto está
pendurado no cabideiro, o traje típico dos mercadores. É o tal Schillinger.
O
chefe lhe indica a cadeira em frente à sua mesa.
- O
que deseja, latina?
Na
parede há várias armas, rifles de caça em geral, e cabeças de alces empalhadas.
Muitos objetos anteriores à guerra estão intactos ali, e os objetos mais
atuais, geralmente feios, sujos e feitos à mão, ocupam espaço nas prateleiras.
-
Não me chame de latina.
O
mercador ri.
-
Acho que é muito tarde para pedir dignidade.
Ela
sente nojo, engolindo em seco e ficando desconfortável com as memórias em sua
mente.
- Eu
preciso de mais remédios.
Schillinger
sorri. Coçando sua cabeça, ele se senta na quina da mesa, de frente com ela.
-
Marisa, esses remédios estão ficando cada vez mais difíceis de se conseguir. Os
peregrinos nas cidades protegem cada frasco com a própria vida. Roubá-los está
consumindo muita munição. Aliás, há mais gente no povoamento que precisa deles.
A
jornalista se ira.
- Eu tenho que ajudar o meu filho!
O
mercador faz uma expressão de esgotamento, já sabendo que ela vai insistir e
não há nada que possa dizer para convencê-la.
- Eu
entendo, mas ponha-se no meu lugar. Se a demanda é alta e a oferta é escassa, é
natural que os preços aumentem. É a lei do mercado, você deve saber isso de trás
para frente, afinal você era ativista política e passou sua vida inteira
atacando o meu país. Você quer os remédios? Tudo bem, eu os vendo a você. Se puder pagá-los.
A
jornalista sente desprezo. Esses homens se enriquecem em cima do sofrimento
alheio. Famintos, sedentos ou doentes, não importa, o que esses criminosos
querem é lucrar e aumentar sua influência sobre os sobreviventes, criando-lhes
dependência.
Ela
não tem escolha, seu filho mais novo está doente, ele foi contaminado pela
radiação. Seus cabelos já estão caindo e suas febres estão cada vez mais altas.
Recusando-se a deixá-lo morrer, uma vez que a radiação não tem cura, ela faz de
tudo para mantê-lo vivo.
Marisa
pondera. Fechando os olhos, ela respira fundo e encara o homem. Em seguida
retira seu casaco e se despe, ficando com os seios à mostra.
Schillinger
sorri, excitando-se com a nudez da mulher. Ele a senta sobre a mesa e retira sua
calça, contemplando mais uma vez o corpo formoso da mulher. Então eles fazem
sexo, com o homem suando e sussurrando palavras torpes enquanto geme de tesão
Para
Marisa a experiência não foi nada prazerosa, muito pelo contrário, ela sente
nojo e repugnância. Com muita determinação ela espera o homem terminar, com
lágrimas de ódio e tristeza em seus olhos. É a segunda vez que ela se entrega,
pois não tinha mais nada a oferecer pelos remédios. Ela não teve outra escolha
senão oferecer a última coisa que lhe restava, a única coisa que aqueles
criminosos cruéis queriam mais que tudo. E eles podiam obter à força se necessário.
Mas
para que tomar à força? Schillinger não gosta de se dar ao trabalho de sujeitar
e subjugar. As mulheres naqueles dias não queriam mais fazer sexo, estão mais
frias que o inverno nuclear, mas se há oportunidade de praticá-lo sem bater,
agredir e espancar, melhor ainda. Ele se sente um moralista bancando o
bonzinho, um completo cavalheiro, mesmo possuindo uma mulher desesperada que
não tem outra opção senão se prostituir para salvar a vida do próprio filho.
O
chefe termina e ofega sobre ela, todo suado e cansado. A jornalista controla o
nojo e calmamente pergunta:
-
Acabou?
Ele
sorri e responde:
-
Latina, você foi bem melhor desta vez...
A
jornalista ignora o irritante apelido.
- Me
dê os remédios.
- É
claro...
Schillinger
se afasta. A jornalista pega sua calça e se veste. “Nada pode ser pior que
isso” pensa ela.
Abrindo
um baú, o chefe retira um frasco de remédio e uma cartela de pílulas. Ele a
entrega e a jornalista os guarda no bolso. Antes de ela sair pela porta, o
chefe pergunta:
- Latina,
ainda vamos fazer isso de novo?
Ela
abre a porta e responde:
-
Não me chame de latina.
Marisa
sai da administração e dirige-se ao seu alojamento. Os mercadores olham para
ela e sorriem, já sabendo o que ela fez lá dentro, todos ouviram os gemidos.
Aqueles homens nojentos a desejam com os olhos, olham indiscretamente para ela.
Eles são homens maus, oportunistas, exploradores, são o último câncer que
destrói o que restou do mundo.
A
jornalista está indignada, ela não se sente mais dona de seu próprio corpo. Mas
é esse o instinto de sobrevivência, as pessoas fazem o que tem que fazer para
sobreviver. Acima disso, Marisa é mãe e uma mãe sacrifica a própria vida para
salvar um filho. Ela sacrificou sua dignidade, seu respeito próprio e sua
moralidade para salvá-lo. Com a mão nos remédios dentro do bolso, ela pensa:
“Por
favor, Deus, cure o meu filho!”
Em
um dos alojamentos coletivos, os sobreviventes tentam organizar o caos da
superpopulação dividindo seus espaços com cortinas e divisórias de gesso. O
barulho e a sujeira são constantes, e disputas por mais espaço são frequentes
naquele pequeno inferno.
Caminhando
pelos corredores, onde as crianças correm de um lado ao outro brincando, a
jornalista chega ao seu espaço, um emaranhado de cortinas costuradas umas as
outras. Dentro da barraca improvisada há um beliche de madeira, que resiste
bravamente ao tempo. Marisa montou um pequeno criado-mudo com dois pneus e uma
placa de trânsito, sobre ele há várias velas pela metade e cera derretida
esparramando-se pelas laterais.
Seu
filho está na cama de baixo do beliche. Sua filha, a mais velha, cuida dele,
mas na verdade não há nada que ela possa fazer a não ser observar enquanto seu
irmão mais novo tem ataques de dor aguda. Marisa senta-se ao seu lado na cama e,
ao ver que a roupa dele está suja de vômito e ranho, dá uma tremenda bronca em
sua filha. A jornalista cobra demais dela, exigindo um cuidado médico que
nenhuma criança de seis anos é capaz de dar. O menino, com cinco anos de idade,
ofega o tempo todo, salivando e tossindo, e seu suor se escorre por suas roupas
velhas e gastas. Ele quase não tem mais cabelos, há apenas chumaços espaçados
em sua cabeça, os poucos que ainda não caíram. Com os olhos semiabertos, ele
fala sozinho, tendo alucinações constantes com a febre alta que não o deixa em
paz.
-
Está tudo bem, meu filho. A mamãe trouxe seus remédios. – diz Marisa, sorrindo
amorosamente.
A jornalista retira o frasco de seu bolso e
pede um copo d´água à sua filha. Ela grita com a menina, perguntando por que
não há água nos baldes e ordena que ela vá buscar água no rio o mais rápido
possível. Com o grito, a menina faz uma expressão de susto e culpa, e então sai
cabisbaixa com o balde em sua mão.
O
alojamento está muito barulhento, aquelas crianças insuportáveis fazem bagunça
no lado de fora, correndo e gritando no corredor. Marisa não entende como elas
conseguem brincar na situação em que o mundo se encontra, onde os adultos se
matam por qualquer coisa. Irritada, ela fecha a cortina para o corredor,
desejando paz e privacidade. Ela ouviu dizer que a radiação esteriliza os seres
humanos. Com as dezenas de mulheres grávidas que ela vê no acampamento, Marisa
ficaria feliz se todas elas ficassem estéreis e não enchessem mais os
alojamentos com essas pestes infantis.
Sua
filha retorna com o balde cheio de água. Abrindo despreocupadamente a cortina
da entrada, ela entra e sua mãe se assusta, olhando imediatamente para trás.
- Eu
já não falei para você avisar quando entrar aqui? E se fosse um mercador? Como
eu iria saber? – vocifera ela.
Após
receber outra bronca, a menina deixa o balde no chão em silêncio.
Marisa
pega o frasco de remédio e lê a bula. Ao adicionar a dosagem exata no copo, ela
aproxima lentamente o copo da boca do menino. Quando o plástico do copo toca
sua boca, ele tem um ataque de histeria e o tapeia, derramando a água com
remédio e chutando o frasco de vidro. O frasco cai no chão aos pés de sua irmã,
estilhaçando-se. A jornalista se desespera.
- O
que você fez?! – a menina pensa que sua mãe está falando com o menino – Por que
você não pegou o frasco a tempo?! O que é que você está fazendo aí, afinal?
A
jornalista começa a se descontrolar, soluçando enquanto chora. Sentindo-se
injustiçada, a menina tenta argumentar:
-
Mas mamãe, eu...
- Cale a boca! Você não sabe o que eu
tenho de fazer para cuidar do seu irmão... Você não faz ideia do quanto eu me
sacrifico para conseguir os remédios e fazê-lo melhorar! Por que você não me
ajuda? Como pode ser tão egoísta assim enquanto seu irmão precisa de você?
Marisa
repreende sua filha, apontando o dedo em seu rosto. Logo o sentimento de
injustiça torna-se sentimento de culpa e a menina é persuadida por sua mãe,
castigando a si mesma com profundo remorso.
A
menina começa a chorar, suas lágrimas descem fervendo pelo seu rosto enquanto
sua voz torna-se cada vez mais aguda e silenciosa. Ela tem um choro reprimido,
rejeitado, culpado, de alguém que carrega um fardo muito pesado nas costas.
Seis anos e ela já tem a responsabilidade de um adulto, diferente das crianças,
muitas das quais são seus amigos, que brincam calmamente no lado de fora.
§
Durante
a noite, Marisa dorme com seu filho na cama de baixo e a menina na cama de
cima. O menino tem ataques de histeria durante a madrugada, incomodando os refugiados
ao redor. Eles reclamam, xingam, pedem silêncio e a jornalista não pode fazer
nada senão acalmar seu filho. Várias vezes o sono da menina é interrompido não
apenas devido à histeria, mas porque sua mãe que lhe pede objetos
constantemente durante a noite.
Ao
amanhecer, o tormento começa cedo com a gritaria do menino. Tumores aparecem em
sua barriga e suas costas. A jornalista tenta ajudá-lo e ordena que sua filha
segure suas pernas. O menino chuta o rosto da menina e sangue começa a escorre
de seu nariz. Chorando de dor, a mãe se irrita com ela e diz:
- Se
quiser vá chorar lá fora! Sua dorzinha não é nada comparada ao que ele está
sentindo!
Magoada,
a menina corre pelo alojamento e deixa sua mãe.
No
acampamento há um píer na margem do rio. Ao lado há várias canoas apodrecidas e
furadas, das quais as crianças do passado usavam para navegar no rio e se
divertir. Diversão é a última coisa que se pensa ao olhar para o acampamento
atual.
A menina senta-se à beira do píer e observa o
rio sob o austero céu cinzento. Passam-se horas em seu isolamento, sentada ali
e afastada de todos. Ela ouve passos firmes e precisos no piso de madeira, eles
se aproximam mas ela não se importa em olhar para trás. A menina só queria
ficar sozinha.
-
Olá, princesinha. Tudo bem com você?
Ela
estranha a voz grossa atrás dela. Ao olhá-lo, um homem alto, vestido com um
sobretudo preto e capuz na cabeça sorri gentilmente.
-
Quem é você? – pergunta ela, assustada.
O
homem sorri.
-
Sou um amigo. Não é de amigos que precisamos hoje em dia?
-
Mamãe disse para eu não conversar com estranhos. Você é um estranho?
O
homem retira algo de seu bolso e responde:
- Um
estranho lhe daria isto? – ele lhe entrega um pirulito vermelho.
A
menina demonstra tremenda alegria ao ver o doce.
-
Você é um mercador?
Ele
se surpreende:
- Meu
Deus! Quantas perguntas!
A
menina desembala o pirulito e o leva à boca. Agachando ao seu lado, o homem se
aproxima para observa-la melhor.
-
Você parece estar com muita fome. – diz ele.
- Eu
estou. A mamãe se esquece de me dar o que comer. Ela só cuida do meu irmão se
esquece de mim. Quando ela me dá comida, ela fica de olho para ver se eu não
vou comer muito e deixar meu irmão sem. A maioria vai tudo para ele.
O
homem decide se sentar ao lado dela. A menina não percebe mas ele passa a
olhá-la com um jeito diferente.
-
Sua mamãe parece ser muito má. Eu tenho comida em meu alojamento, se quiser eu
posso te dar o que comer quando estiver com fome. Podemos ir lá agora, o que
acha? – ele lhe indica o local.
-
Aquele é o alojamento dos mercadores.
-
Como você sabe?
-
Minha mãe me disse. Ela me proibiu de falar com os mercadores, ela diz que são
homens maus.
Ele
ri.
-
Ora, eu sou um homem mau? Eu te dei um pirulito e te ofereci comida, bem mais
do que sua mãe te dá. E pelo jeito é bem pouco.
A
menina mastiga o doce e em seguida chupa cada um de seus dedos.
-
Quem é a sua mamãe? – pergunta ele, já sabendo a resposta.
- É
a Marisa.
-
Ah, sim, a latina. Ela é uma mulher muito bonita, qualquer homem aqui gostaria
de ser o namorado dela. Ouça, amiguinha, por que não vamos para o meu
alojamento para pegar mais doces? Eu deixo você levar comida para sua mãe,
aliás, ela vai precisar para cuidar de vocês dois.
A
menina estranha.
-
Como você sabe que ele está doente?
-
Você não disse que sua mãe cuida dele?
O
homem se levanta e lhe oferece sua mão, pedindo para acompanhá-lo. Ela se
intimida.
- O
que você está fazendo aí?
Alguém
vestido com casaco e trapos velhos grita no começo do píer. É Marisa. Correndo
em direção à sua filha, ela agarra o braço dela e a puxa para perto de si.
-
Por onde esteve? Eu estive te procurando por toda parte!
- Eu
estava aqui. Este homem estava conversando comigo. Ele é meu amigo.
Ao
ouvir isso, o homem ri por dentro. A jornalista vê apenas um maldito mercador,
parado em frente as duas, observando em silêncio.
-
Amigo?! Os mercadores não são seus
amigos!
-
Mas ele me deu um pirulito!
-
Deu o quê?!
Marisa
se apavora. Ela pensa todo o tipo de horror ao ouvir aquilo.
-
Aqui está o palito. – responde a menina, aliviando-a totalmente.
A jornalista pensa em estapear aquele homem
pervertido, mas ela vê o revólver em sua cintura. Os mercadores geralmente
andam armados. Ela leva sua filha de volta para o alojamento e não a deixa sair
de novo.
§
Dois
dias se passam e a saúde de seu filho piora. O fedor na barraca da jornalista
incomoda os refugiados, que começam pressioná-la para ela ir embora. Seu filho
está com diarreia e vomita muito, mesmo sua mãe se incomoda ao ter que lavar
suas roupas diariamente com a ajuda da filha. A menina odeia ter de lavar as
roupas cheias de fezes dele, mas sua mãe a obriga.
O
escasso estoque de comida dos três se esgota. Não apenas seu filho, mas ela e a
menina também estão famintas. Os outros sobreviventes se recusam a lhe ajudarem,
todos a odeiam por causa de seu filho. Além disso, os remédios também se
esgotaram, depois que o frasco de vidro se quebrou, a cartela de pílulas acabou
rapidamente. Não tendo outra opção, ela é forçada a pedir ajuda aos mercadores.
Caminhando
pelo gramado lamacento, ela se dirige novamente à guarita e acorda o preguiçoso
mercador que faz o papel de guarda do acampamento.
-
Preciso falar com o Schillinger.
O
homem responde:
-
Ele não está.
-
Como você sabe? Você não foi lá olhar!
Ele
boceja antes de responder. Obviamente ele não quer se levantar da cadeira.
- Eu
sei que ele não está.
- Eu
não sei que estupidez é essa de ninguém poder chamá-lo pessoalmente! Quem ele
pensa que é? Um rei?
-
Bem, você o serviu como um rei dias atrás. – responde ele, com malícia.
A
jornalista se irrita e decide ir ao alojamento da administração. Ela bate na
porta e grita por Schillinger. Ouvindo passos lá dentro, fica claro que ele não
saiu como o guarda disse.
Abrindo
a porta, o chefe diz:
- É
você, latina?
O
chefe a recebe com a calça desabotoada e o zíper abaixado. Ela estranha mas
responde:
-
Schillinger, preciso de mais comida e remédios. Meu filho está muito mal e nós
não temos o que comer!
Vendo
o incômodo nos olhos dele, ele responde:
-
Para comprar comida e remédio você tem que nos dar algo em troca.
- Eu
sei que não tenho mais nada, tive que dar tudo para cuidar do meu filho. Por
favor, Schillinger. Se houver como me fazer um empréstimo eu lhe pagarei quando
ele melhorar.
Insistente,
a jornalista pede constantemente ao chefe, quase suplicando. Ele olha para trás
segurando a calça e diz:
-
Ouça, agora não é uma boa hora. Volte mais tarde.
Então
ela vê pelo vão da porta uma mulher nua sobre sua mesa. Marisa se surpreende,
ele fez de novo. Ele vive do desespero dos sobreviventes, explorando os
necessitados, os mais fracos, como o devorador da esperança daqueles que ainda
não a perderam. Quantas mulheres tiveram que se entregar a ele para não
morrerem de fome? Como pode alguém ser tão impiedoso?
Ela
volta ao seu alojamento, com o estômago roncando e sem os remédios de seu
filho.
Após
algumas horas, Marisa retorna à administração. Ela está obstinada, não pode
deixar seu orgulho matar o seu filho. O chefe a recebe, a outra mulher não
estava mais lá.
-
Olá, latina. É bom vê-la de novo. O que deseja?
O
maldito mercador é cínico, finge não se lembrar do desespero da jornalista
horas antes.
- Eu preciso dos remédios.
Ele
assente com a cabeça e a chama para entrar. Pensando que vai obtê-los, Marisa o
segue.
-
Tenho que lhe falar algo desagradável, latina. Como eu disse anteriormente,
conseguir os remédios está ficando cada vez mais difícil. Os outros mercadores
no acampamento estão insatisfeitos em saber que eles estão arriscando suas
vidas para conseguir algo e só eu estou “lucrando” com você. Se é que você me
entende.
A
jornalista entende. Eles estão tentando barganhar com o seu corpo.
-
Por que faz isso comigo, Schillinger? O que pensa que eu sou?
-
Ei, eu não tenho culpa! Se os outros mercadores não tiverem suas partes nos
lucros, este acampamento se tornará um caos! Eles não estão pedindo nada além
do que é justo. Estou tentando manter a ordem e evitar uma rebelião.
Ela
sente nojo, o ódio cresce em seu coração e ela tem vontade de se suicidar.
Vendo que ela está se descontrolando, o chefe comenta:
- O
Wayne gostou muito de sua filha. Disse que são amigos agora.
-
Wayne...?
- É
aquele mercador que esteve conversando com ela no píer.
-
Diga àquele pervertido para ficar longe da minha filha!
Schillinger
levanta as mãos e abaixa sua cabeça, acatando a ordem de Marisa.
- Bem,
eu tenho mais remédios, mas não estão aqui. Sabe aquele estacionamento de
frente para o rio? Há alguns mercadores lá, eles têm o que você procura.
A
jornalista deixa a administração e se dirige ao estacionamento perto do rio.
Chegando lá, o local tem uma dúzia de carros velhos e enferrujados, e o chão é
lamacento devido ao constante frio do inverno nuclear. Parados em frente a um
carro, ela vê sete mercadores conversando calmamente, vestidos com seus
sobretudos e portando suas armas.
Aproximando-se,
ela os interrompe e diz:
- O
Schillinger me enviou. Vim buscar os remédios.
Eles
se viram e olham para ela. Observando-a de cima a baixo, eles a cobiçam.
-
Você sabe o que terá de fazer para recebê-los, não é?
Sem
emitir nenhuma palavra, apenas assentindo com a cabeça enquanto lágrimas se
formam em seus olhos, ela acena que sim.
O
homem a carrega nos braços e a deita no capô do carro. Os outros ajudam a abrir
seu casaco e a tirar sua calça, todos suspirando de tesão como atores
pornográficos antes da cena de sexo começar. Eles decidem quem será o primeiro
e um tal de Barney é escolhido.
“Sete
homens ao mesmo tempo... O que será de mim?” pensa Marisa, temendo por sua
integridade física.
A
jornalista tenta se desligar enquanto o homem faz sexo com ela. Ela sente muito
nojo, o fedor de seu sovaco é insuportável. Passados alguns minutos ele
termina. Com uma flanela ele seca o suor e a saliva de seu corpo e outro toma o
seu lugar.
Sua
filha está lavando a roupa de seu irmão no rio. Ela não gosta de lavar a roupa
dele, geralmente está coberta de fezes e vômito. Um pouco mais a frente,
afastando-se do acampamento, há uma parte na margem onde há pequenas pedras
circulares. Sua mãe não gosta que ela se afaste muito, mas ela sempre vai ali
para esfregar as roupas de seu irmão, usando as pedras para não ter de passar as
mãos naquela imundície.
A
menina se agacha perto das pedras e começa a esfregar as roupas. Ela pensa no
que sua mãe estaria fazendo agora, às vezes ela saía e ficava fora por horas.
As crianças do alojamento diziam que ela vivia indo na administração onde o
chefe dos mercadores morava. A menina nunca soube o porquê. Ela se preocupa por
ter deixado seu irmão sozinho na barraca, mas por que se preocupar? O que ele
faz é somente dormir, falar sozinho e gritar.
Enquanto
lava rapidamente as roupas, a menina ouve vozes vindas do estacionamento
abandonado à frente. Ela se levanta e caminha entre a vegetação alta para ver
quem está ali. As vozes são mais audíveis e há um ruído constante de ferro e
molas enferrujadas.
Há
um carro enferrujado em frente ao rio e a menina vê vários mercadores parados
em frente a ele. Um deles está encurvado sobre o capô e ela não entende por
quê. Esgueirando-se pelo mato, ela se aproxima e vê uma mulher deitada sem
roupas e com as pernas abertas sobre o carro. Um mercador está no meio dela e
gesticula seu quadril para frente e para trás. Ele geme constantemente mas não
parece estar com dor. Então o mercador fala em um tom cansado para a mulher:
-
Ah, Marisa...!
“Marisa?
Esse é o nome de minha mãe!”.
Quando
o homem encurvado sobre ela se levanta, outro homem vem em seu lugar. Enquanto
os dois trocam, a menina consegue ver o rosto dela. Ela se assusta.
-
Mamãe...?
Os
mercadores estranham. Eles se entreolham e se perguntam:
-
Ouviram alguma coisa?
Um
deles responde, irritado:
-
Ei, pare de enrolar! Estou esperando minha vez!
A
menina deixa o matagal e corre de volta para o alojamento, confusa e assustada.
“O
que eles estão fazendo com a minha mãe?”.
Após
todos terminarem, a jornalista pega a flanela e se limpa. Ao se levantar, suas
pernas estão dormentes e ela mal consegue se manter. Sentindo frio, ela veste
suas roupas. Os mercadores também se vestem, subindo suas calças e
abotoando-as. Eles estão cansados e satisfeitos com o sexo grupal que acabaram
de ter. A jornalista então pergunta:
-
Cadê os remédios?
O
mercador chamado Barney abre o porta-luvas do carro e lhe entrega um frasco de
remédios e uma cartela de pílulas. Ela os guarda em seu casaco e diz:
-
Estou faminta. Vocês têm comida?
Os
mercadores riem. Barney responde:
- Eu
tenho comida, te dou se você dormir comigo hoje à noite.
Eles
riem novamente. Um deles os interrompe dizendo:
-
Qual é, caras! Vamos arrumar alguma comida para ela. Depois de tudo o que ela
passou, acho que ela merece.
-
Está com pena dela? Quando encontramos aquelas mulheres nas ruínas você não
pareceu sentir pena quando as estuprou.
-
Você quer dizer quando nós estupramos.
Os
mercadores continuam falando, mas ele ignora. Ele retira de seu bolso uma lata
de feijão e outra de milho em conserva. A jornalista o agradece chorando e logo
se retira, voltando correndo ao acampamento.
§
Uma
semana se passa e Marisa perde totalmente seu respeito próprio. Se torna rotina
ela trocar sexo por mantimentos. Os “preços” ficam cada vez mais altos e ela se
vê obrigada a se entregar não apenas a Schillinger, mas a quase todos os
mercadores do acampamento. A jornalista cria a fama de vadia, a “prostituta dos
mercadores” como a chamavam. As mulheres casadas passam a odiá-la e a evitar
deixar seus maridos perto dela.
Na
manhã seguinte, seu filho está pior do que antes. Sua cabeça já está quase sem
cabelos, os tumores estão maiores e ele está mais magro. Ao ver seu rosto roxo,
como se ele estivesse sufocando, a jornalista se desespera. Chamando-o e
batendo em seu rosto, o menino parece não reagir. Ela acorda sua filha e a pede
para ajuda-la a carrega-lo.
Saindo
ao ar livre pela manhã, Marisa carrega seu filho nos braços em direção à
administração. Chegando lá ela grita por Schillinger, acordando a todos os
mercadores. Ele abre a porta com uma arma na mão, assustado com a gritaria.
-
Mas o que é que você está fazendo, latina?!
- Me
ajude, eu imploro! O meu filho está morrendo!
Ela
sente como se estivesse pedindo ajuda ao próprio diabo.
-
Ele foi contaminado pela radiação! É difícil para você entender? Ninguém pode
ajudá-lo, seu filho vai morrer!
Marisa
começa a chorar.
-
Nós não temos mais comida, não temos mais remédios. Você é o único que pode nos
ajudar, é tudo o que eu peço!
Os
sobreviventes também acordam com a gritaria. Eles se aglomeram em frente ao
alojamento para ver o que está acontecendo. Querendo evitar um tumulto, o chefe
diz:
-
Vamos para o estacionamento à beira do rio.
Schillinger
a conduz pelo acampamento até o estacionamento abandonado. Marisa carrega seu
filho em seus braços e a menina a segue. O chefe faz um sinal para que os
mercadores fiquem de olho nos sobreviventes e outros dois o seguem
secretamente.
Chegando
ao local, Schillinger a leva até o carro à beira do rio, o mesmo em que ela foi
possuída pelos homens pela primeira vez. Então o chefe diz à sua filha:
-
Querida, por que você não cuida do seu irmão no banco de trás enquanto eu
converso em particular com sua mãe?
Marisa
concorda, as duas o deitam no banco de trás e a menina entra no carro. No lado
de fora, em frente ao capô, o chefe começa a falar agressivamente com a
jornalista:
- Mas
que inferno, latina! Você pretende começar um tumulto em meu acampamento? Você se
esqueceu quem manda aqui?
-
Schillinger, meu filho está morrendo! Eu só quero sua ajuda!
-
Dane-se seu filho! Danem-se todos os sobreviventes neste lugar! Você acha que
eu me importo? Eu vou te dizer com o que eu me importo. Poder! E você desafiou
o meu poder fazendo aquele escândalo esta manhã.
-
Você não entende? Tenha coração! Como pode não sentir compaixão de uma criança doente?
Ele é só uma criança!
O
chefe ri.
- Em
primeiro lugar, esse mundo não é mais para crianças. Segundo, essa criança vai
crescer e se tornar mais um adulto cretino, hipócrita e culpado como todos nós.
O mundo acabou, Marisa, e com o mundo se foi a inocência também. A vida não tem
mais valor, morreremos todos um dia.
A
jornalista se recusa a ouvi-lo. Ela apela pela última vez.
-
Por favor, me dê mais remédios. Não deixe o meu filho morrer! Eu faço o que
você quiser.
Então o chefe muda de expressão. Olhando-a de
um jeito diferente, ele pergunta:
- O
que eu quiser...?
Marisa
não responde, ela percebe a perversidade em seu olhar.
Schillinger
a agarra e a vira de bruços no capô, segurando seu pescoço e fazendo seu rosto
tocar a lataria fria. Ele tira sua calça e em seguida se despe. Sua filha está
dentro do carro e vê sua mãe olhar para ela, submissa ao chefe. O mercador gesticula
e a jornalista grita de dor, fazendo a menina se assustar.
-
Mamãe?!
Marisa
é estuprada em frente à sua filha. As duas se olham enquanto o homem a possui à
força atrás dela. Em seguida o homem a puxa de volta e a deita no capô,
colocando-a de frente para ele. Ele rasga o casaco dela, pondo seus peitos para
fora.
A
menina está em choque, ela assiste sua mãe ser violentada dentro do carro. O
chefe se diverte, rindo e xingando-a de nomes grosseiros. A menina e sua mãe
choram mutuamente, ela vê sua mãe totalmente nua nos braços daquele homem
cruel, estando impotente diante daquela situação humilhante.
-
Você vai fazer o que eu quiser pelos remédios? Que tal isso?
O
homem se diverte. Marisa está submissa, mas tenta se desvencilhar. Então uma
barra de aço bate em sua cabeça e ele desmaia. A menina solta a barra e corre
em direção a sua mãe.
-
Mamãe!
A
jornalista, nua por ter sua roupa arrancada de seu corpo, abraça a menina.
Marisa percebe que é a primeira vez que sua filha a viu totalmente despida
desde o apocalipse nuclear. Ela sente nojo ao saber que mais homens a viram sem
roupas do que sua própria filha. Lutando para não perder o controle, ela diz:
-
Minha filha, vá ver seu irmão!
Marisa
se veste quando a menina grita.
-
Não se mexa senão eu ponho uma bala na cabeça do canceroso aqui!
Os dois
mercadores vêm ao socorro de Schillinger. Um deles, o Barney, segura o menino
contra o peito e aponta uma arma para sua cabeça. O outro mercador, sorrindo
maliciosamente, olha para a menina e pergunta:
-
Olá, amiguinha. Lembra-se de mim?
A
menina o reconhece, é Wayne, o homem do píer.
- O
que há de errado com esse menino?! – intriga-se Barney, vendo seu refém mole em
seus braços.
O
homem o chacoalha e o menino balança como um boneco de pano. Sentindo sua pele
fria mais que o normal, o mercador encosta sua orelha em seu peito e tenta
ouvir seu coração.
-
Ei, o coração dele parou!
Wayne
se aproxima e diz:
-
Deixe-me ver. – ele põe o dedo em sua jugular, não há pulsação – Acho que o canceroso morreu...
A
jornalista grita. Ela corre em direção ao seu filho e o arranca dos braços daqueles
criminosos. Eles estão certos, não há mais sinal de vida nele, o menino morreu
em algum momento enquanto Schillinger a estuprava sobre o capô. Abalada, ela
começa a chorar aos berros sobre o cadáver dele, com suas lágrimas caindo sobre
sua pele branca como a neve.
O
chefe acorda e sente uma dor horrível em sua cabeça. Ao por a mão, sangue
escorre da ferida. Olhando ao redor, ele vê os dois mercadores, a menina e a
jornalista chorando em cima de seu filho.
-
Não! Não pode ser! Não morra, meu filho...!
Vendo
que Schillinger se levanta lentamente, Wayne diz a menina:
-
Pois é, amiguinha. Parece que sobrou apenas eu e você.
A
menina recua aos seus passos quando alguém a agarra por trás. É o chefe.
Enquanto ela esperneia, Schillinger chama sua mãe e diz:
- Ei,
latina! Sua cadela arrogante!, Estou farto de você tumultuando o meu
acampamento. Quer se prostituir aos meus homens por remédios e comida? Agora
você será nossa escrava sexual e vai ter que se entregar de graça! E quanto a
essa cadelinha aqui? Vou lhe dar um tratamento especial.
Então
o chefe passa sua língua no rosto da menina. Em um impulso de adrenalina que só
as mães têm quando veem seus filhos em perigo, Marisa corre em direção e grita:
-
Fique longe da minha filha!
Marisa
segura sua filha nos braços. Wayne se aproxima e segura as pernas da menina,
puxando-a para si. Logo os três mercadores se aproximam, cercando-as.
Os
três riem como se aquilo fosse um jogo. A jornalista se sente uma presa acuada
pelos predadores, cercando-a e esperando o momento certo para atacá-la. Não é
diferente do mundo animal, afinal. Os homens são iguais, bestiais e selvagens
em sua natureza como os próprios predadores selvagens que caçam e comem os
animais mais fracos. Se ali fosse a selva eles certamente a devorariam.
E
eles estariam errados em agir assim? Por acaso os predadores se arrependem de caçar
e comer suas presas para sobreviver? Por que eles sentiriam remorso? Por que
aquilo seria errado? Talvez o conceito de certo e errado seja relativo e tenha
se alterado com os passar dos milênios. Afinal, o conceito de crueldade, abuso,
opressão e perseguição podem ser interpretados de outra maneira sob o ponto de
vista de quem é cruel, abusa, oprime e persegue. Ou colocando de outro modo,
sob o ponto de vista de quem é forte.
Wayne
tenta novamente agarrar a menina. Ao se aproximar, a menina é mais esperta e
retira a arma de sua cintura. Entregando-a a sua mãe, Marisa grita:
-
Parados! Se chegarem perto eu atiro!
Os
homens se intimidam. Marisa, até então a pessoa mais fraca do “jogo”, obtém uma
arma e agora luta de volta. Os homens perdem a vantagem do terror.
Schillinger
a vê apontar a arma aos três, não permitindo que eles saquem suas próprias
armas. Ordenando que eles ponham as mãos na cabeça, ela tenta se afastar. Mesmo
na situação de perigo, ela está muito sensual com o casaco aberto e os seios à
mostra. O chefe então diz:
-
Você não vai atirar, você nem mesmo sabe como usar uma arma!
Ela
olha para sua perna e atira. O tiro atravessa seu fêmur, fazendo-o cair e gritar
de agonia. Sangue escorre por seu joelho e ele se encolhe de dor. Assustados, os
dois mercadores arregalam os olhos.
Marisa
se agacha ao lado do corpo sem vida de seu filho. Ela beija sua testa e diz
adeus.
-
Wayne, nunca mais toque em minha filha, seu pervertido! – então ela atira em
seu joelho, fazendo-o cair no chão e chorar como uma menina.
Barney
aproveita para fugir. Ao longe o resto dos mercadores se aproxima, intrigados
com o som de tiros. Marisa solta a arma e agarra o braço de sua filha,
levando-a sem rumo pela floresta.
As
duas correm pela floresta, fugindo dos terríveis mercadores atrás de si. Ela
pode ouvi-los xingando ao longe, furiosos com o que ela fez. Elas descem em
direção a uma estrada e continuam correndo, dos lados há apenas árvores e mais
árvores. Passando por uma placa enferrujada no acostamento, a jornalista lê:
“perímetro urbano a vinte e cinco quilômetros”. Será uma longa caminhada à
frente.
Lutando
contra a fome e o frio, as duas dormem em tocas de animais e em casas
abandonadas pelo caminho. Sem ter o que comer, as duas mastigam folhas de
árvores e abraçam uma a outra para se aquecer. Durante o dia elas retomam a
longa caminhada, saindo o quanto antes do território dos mercadores.
No
quarto dia após a fuga, Marisa chega à cidade. Do alto da colina ela vê um mar
cinzento de entulhos e prédios semidestruídos. Esgueirando-se pelas ruas
desertas de zunidos fantasmagóricos, ela se esconde nas ruínas de uma igreja.
Lá dentro ela vê muitos restos de fogueiras, bancos quebrados e fezes nos cantos.
Ela decide passar a noite ali, escondida das eventuais ameaças que possam
aparecer.
Ao
amanhecer do dia, elas deixam a igreja e caminham sem direção. Ela vê vegetação
crescendo nas rachaduras do asfalto, algo raro de se ver nos antes da guerra.
Sua filha chama sua atenção e aponta para um grupo de pessoas caminhando pelas
ruínas. Elas se escondem atrás de um caminhão e os observam mais de perto. Para
sua sorte, eles não são mercadores e sim peregrinos.
Na
frente do grupo há dois homens, um deles parece ser o líder e os conduz pelo
caminho. É o professor. Marisa se aproxima e pede ajuda. O grupo se espanta,
olhando assustados para a misteriosa mulher perdida com sua filha.
-
Quem é você? O que está fazendo aqui? – pergunta o professor.
-
Sou Marisa. Estou fugindo dos mercadores. Vocês os viram?
-
Mercadores? – o professor pondera, eles são a outra corja da nova “sociedade”
oriunda dos detritos e da radiação.
-
Por favor, eu e minha filha estamos famintas. Você tem algo para nos dar de
comer?
O
professor sente compaixão e a acolhe, dando-lhe água e comida. Ele lhe dá
cobertores para se aquecerem, a jornalista e sua filha estão pálidas de frio.
Percebendo que ela não tem para onde ir, o professor pergunta se ela gostaria
de acompanhá-los. Apesar do próprio grupo também não ter um destino específico,
ela aceita. Após tanto tempo sozinha, ela finalmente teria alguém que a
aceitasse por perto.
E
assim a jornalista e sua filha se integram ao grupo do professor.

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