Entrando
em seu quarto, Gunther o encontra escuro e abafado. Era mês de fevereiro ou
março, mas ele não sabia dizer. A luz atravessava a persiana, formando
listras de luz nas paredes. Aproximando-se da janela, ele avista a torre de
vigia, com seu holofote iluminando uma pequena área do Muro de Berlim. Então ele
se afasta.
Era uma
noite quente e ele queria relaxar. Tirando seu casaco, ele se senta em sua
velha e macia poltrona. Abrindo um maço de cigarros, ele pega um e o acende,
fazendo leves tragos enquanto pensa um pouco.
Enquanto
descansa, ele se lembra de algo incômodo. Ele vinha tendo fortes dores de
cabeça ultimamente. Começaram aos poucos e foram ficando mais frequentes.
Quando sua cabeça doía, sua visão se embaçava e tudo se tornava confuso. Era como se o rapaz visse o mundo através da
miopia, apesar de seus exames nunca indicassem a necessidade dele ter de usar
óculos.
Gunther
ouviu falar sobre a sensibilidade que algumas pessoas tinham devido a exposição às ondas eletromagnéticas. Observando as torres de
transmissão em Berlim, na maioria voltadas para a espionagem, não é difícil
estimar que alguns seriam afetados com seu forte sinal. De maneira
velada, o lado oriental e o ocidental estavam em guerra, mas diferente do
Terceiro Reich, que levou o front para outros países, agora Berlim
se tornava a linha de frente de um confronto ainda maior. Em horror ele percebe
que sua cidade era o estompim de um barril de pólvora que a qualquer
momento poderia se estourar.
Havia um
livro em sua cama. Pegando-o, ele lê o título: “A quarta dimensão”. No ensino
médio ele ouviu seu professor de física dizer que, para efeito de cálculo, a
quarta dimensão se tratava do Tempo, mas não era disso que o livro estava tratando.
Em textos mais metafísicos do que científicos, o livro defendia a hipótese de
uma quarta dimensão espacial, ou seja, a incompreensível quinta dimensão.
Apesar
de ser leigo em física, Gunther pondera. Ele se pergunta se a quinta
dimensão poderia ser alcançada não através de uma realidade experimentada, mas de
uma “irrealidade” induzida, ou seja, uma realidade falsa dentro de uma
verdadeira. Resultados empíricos em campos teóricos onde a lógica é suspensa e
tudo é possível. “Como em um sonho” pensa ele.
De
repente o telefone toca, assustando-o. Esticando seu braço, ele o atende.
- Alô?
Novamente
ele só ouve estática. Toda noite o telefone toca, mas ao atendê-lo, nunca havia
resposta no outro lado da linha.
Gunther observa aquele enigmático e misterioso aparelho. “Como ele apareceu aqui?” pensa ele. Ele não entende, estaria ele
ficando louco? Linhas particulares eram um privilégio que apenas os
funcionários do governo possuíam. Cidadãos comuns como ele não podiam paga-los.
“Mas ainda assim ele apareceu aqui”, constata ele. “Quem o havia posto?”.
Encostando-se
na poltrona, ele dá outro trago. Pensando nas misteriosas chamadas, ele se
perde em indagações. “Seria essa obra da Stasi? Estariam os russos me vigiando?
Mas por quê?” pergunta-se ele. Em um momento sociopolítico tão delicado quanto aquele,
o serviço de espionagem se intensificava.
Talvez
os soviéticos estejam lhe fazendo experimentos, colocando-o em situações de
estresse para avaliar como ele lida com o medo e a paranoia. Ele sorri em sua
poltrona. “Não, não é isso. Não acredito que eu seja uma cobaia do governo, ainda
mais em um regime que prega a libertação da classe operária ante o imperialismo". Ele referia-se ao socialismo. "Eles não fariam isso com o próprio povo”.
Tragando novamente, ele
repensa.
“Ou
fariam?”.

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