sexta-feira, 17 de abril de 2020

Tiergarten - 01 - Introdução


  

Entrando em seu quarto, Gunther o encontra escuro e abafado. Era mês de fevereiro ou março, mas ele não sabia dizer. A luz atravessava a persiana, formando listras de luz nas paredes. Aproximando-se da janela, ele avista a torre de vigia, com seu holofote iluminando uma pequena área do Muro de Berlim. Então ele se afasta.
Era uma noite quente e ele queria relaxar. Tirando seu casaco, ele se senta em sua velha e macia poltrona. Abrindo um maço de cigarros, ele pega um e o acende, fazendo leves tragos enquanto pensa um pouco.
Enquanto descansa, ele se lembra de algo incômodo. Ele vinha tendo fortes dores de cabeça ultimamente. Começaram aos poucos e foram ficando mais frequentes. Quando sua cabeça doía, sua visão se embaçava e tudo se tornava confuso.  Era como se o rapaz visse o mundo através da miopia, apesar de seus exames nunca indicassem a necessidade dele ter de usar óculos.
Gunther ouviu falar sobre a sensibilidade que algumas pessoas tinham devido a exposição às ondas eletromagnéticas. Observando as torres de transmissão em Berlim, na maioria voltadas para a espionagem, não é difícil estimar que alguns seriam afetados com seu forte sinal. De maneira velada, o lado oriental e o ocidental estavam em guerra, mas diferente do Terceiro Reich, que levou o front para outros países, agora Berlim se tornava a linha de frente de um confronto ainda maior. Em horror ele percebe que sua cidade era o estompim de um barril de pólvora que a qualquer momento poderia se estourar.
Havia um livro em sua cama. Pegando-o, ele lê o título: “A quarta dimensão”. No ensino médio ele ouviu seu professor de física dizer que, para efeito de cálculo, a quarta dimensão se tratava do Tempo, mas não era disso que o livro estava tratando. Em textos mais metafísicos do que científicos, o livro defendia a hipótese de uma quarta dimensão espacial, ou seja, a incompreensível quinta dimensão.
Apesar de ser leigo em física, Gunther pondera. Ele se pergunta se a quinta dimensão poderia ser alcançada não através de uma realidade experimentada, mas de uma “irrealidade” induzida, ou seja, uma realidade falsa dentro de uma verdadeira. Resultados empíricos em campos teóricos onde a lógica é suspensa e tudo é possível. “Como em um sonho” pensa ele. 
De repente o telefone toca, assustando-o. Esticando seu braço, ele o atende.
- Alô?
Novamente ele só ouve estática. Toda noite o telefone toca, mas ao atendê-lo, nunca havia resposta no outro lado da linha. 
Gunther observa aquele enigmático e misterioso aparelho. “Como ele apareceu aqui?” pensa ele. Ele não entende, estaria ele ficando louco? Linhas particulares eram um privilégio que apenas os funcionários do governo possuíam. Cidadãos comuns como ele não podiam paga-los. “Mas ainda assim ele apareceu aqui”, constata ele. “Quem o havia posto?”.
Encostando-se na poltrona, ele dá outro trago. Pensando nas misteriosas chamadas, ele se perde em indagações. “Seria essa obra da Stasi? Estariam os russos me vigiando? Mas por quê?” pergunta-se ele. Em um momento sociopolítico tão delicado quanto aquele, o serviço de espionagem se intensificava.
Talvez os soviéticos estejam lhe fazendo experimentos, colocando-o em situações de estresse para avaliar como ele lida com o medo e a paranoia. Ele sorri em sua poltrona. “Não, não é isso. Não acredito que eu seja uma cobaia do governo, ainda mais em um regime que prega a libertação da classe operária ante o imperialismo". Ele referia-se ao socialismo. "Eles não fariam isso com o próprio povo”. 
Tragando novamente, ele repensa.
“Ou fariam?”.
 


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