(Capa do álbum "Sex" do artista King Dude)
Danica é uma
palavra eslava que significa “estrela da manhã”, referindo-se a Vênus. Na
cultura eslava, este é um nome folclórico que simboliza a personificação da
estrela da manhã. Quando a mãe de Danica lhe deu este nome, ela não imaginou
que, de fato, sua filha seria a estrela da manhã na vida de alguém.
E então Valentim
apareceu.
Na adolescência a
menina passeava nas nevoentas ruas de Liubliana. De corpo esbelto e longos
vestidos, Danica ocultava seus longos cabelos negros com o típico véu. Ela carregava
consigo um cesto de flores e grandes garrafas de leite. De repente um jovem se
aproxima e ela o reconhece. Era Valentim, o filho do limpador de chaminés da
outra rua.
- Bom dia,
Danica. – cumprimenta ele em tom galanteador.
- Bom dia,
Valentim.
- Está uma manhã
bem fria, não?
Cansada de tantas
investidas, a menina pergunta:
- O que você
quer?
- Te levar para
passear. – responde ele, sorrindo.
- Eu não posso. Estou
ocupada agora.
Pegando em sua
mão, o rapaz insiste.
- Vamos, venha
comigo!
Então a menina
deixa seus pertences em casa e o segue pelas ruas vazias.
A manhã fria e
cinzenta dava à cidade uma aparência decadente. O casal via pessoas aparecendo
e desaparecendo na neblina; suas faces eram pálidas e taciturnas, demonstrando
uma vida inteira de trabalho duro e miséria.
“Como as nossas”,
pensa a menina.
Os guardas
caminhavam ao longe, rondando as ruas com tochas em suas mãos. Logo o sol se
ergueria e dissiparia toda a névoa, iluminando aquele purgatório entre o nada
de onde eles vieram e a morte para onde todos iriam.
Danica estava
quieta e tentava manter seu recato. Ela também amava o rapaz. Vendo o jovem
apaixonado esforçando-se para corteja-la tantas vezes seguidas, ela não pôde
resistir senão ama-lo também. Mas ela era uma menina decente, filha de pais
agricultores e devotos na igreja. Apesar de seus sentimentos, ela manteria
firmemente sua decência.
O sol tarda a
chegar. Aquela seria uma manhã nebulosa e cinzenta. O centro da cidade estava
deserto com exceção dos pequenos comércios ao redor. A menina via os açougues,
mercearias, farmácias e padarias pelo caminho. As carruagens passavam exalando
o forte cheiro de esterco dos cavalos. Os mendigos pediam esmolas e os bêbados
dormiam em poças de sua própria urina. Liubliana não era nenhuma Paris; se
aquilo era para ser um passeio romântico, Valentim fracassava miseravelmente.
Cruzando a Tromostovje[1],
eles avistam a icônica Igreja Franciscana da Anunciação. Sua cor vermelha
simbolizava a antiga ordem franciscana. Valentim nunca se importou com a
religião e era ignorante demais quanto ao passado de seu povo e sua província. Mas
Danica, sendo de família devota, conhecia sua história. No mesmo local existiu
uma antiga igreja de arquitetura gótica que, em meados do século 17, foi
demolida para a construção de uma nova, de arquitetura barroca.
Acima, sobre a
colina, eles veem Ljubljanski grad[2],
o belíssimo castelo de estilo romanesco, gótico e renascentista sobre o
cume. O imponente castelo foi construído no século 12 e foi a residência dos antigos
margraves, mais tarde duques de Liubliana. Na história registrada, Danica não
consegue se lembrar de quando que os eslavos de sul foram livres e soberanos.
Durante toda a história eles foram subalternos a impérios e reinos
estrangeiros. Mas como nada daquilo fazia diferença em sua vida, ela não se
importa.
- Venha!
Valentim agarra sua
mão e a puxa consigo. Assustada, a menina pergunta:
- Para onde está
me levando?
- Para o topo da
colina!
Ela se espanta.
- Não! Eu tenho
que voltar para casa!
- E vai perder
esta aventura?
Então a menina
sorri. Jovem e cheia de energia, a inexperiente Danica também gosta da sensação
de perigo que a idade lhe compele a experimentar. E assim ela se deixa levar
pelo animado rapaz.
Desviando-se dos
guardas, eles se esgueiram pelas carruagens e sobem a íngreme escada de pedra no
meio das árvores. A breve floresta era escura e corujas os observavam ao longe.
A neblina arrastava-se entre as árvores e trazia consigo o suspiro frio dos
mortos. O vento chacoalhava as folhas e provocava zunidos sinistros. Danica
sente medo, mas sentia-se protegida pelo valente rapaz que marchava
convictamente e conquistara o seu coração.
No topo da colina,
eles se deparam com o castelo de pedras. Seus muros úmidos e frios lhes
intimidavam, fazendo-os se sentirem diante do maior jazigo de cemitério já visto.
A história diz que ali foi a residência dos nobres, mas Danica não duvida que,
na verdade, era o túmulo daquele dragão lendário que no passado aterrorizou a
cidade. Temerosa, ela reflete com a mão no queixo.
- Danica!
A menina olha
para trás e vê Valentim chamando-a. Ao aproximar-se, eles sobem em uma
plataforma e avistam a cidade lá embaixo. A vista era tão incrível quanto era
fúnebre.
Liubliana era uma
cidade pacata e melancólica. Seus telhados vermelhos a encantavam, mas não
escondiam seu passado da Idade das Trevas. Diferente das outras cidades europeias
que se modernizaram e se revitalizaram, Liubliana continuou um lugar triste e
atrasado, uma relíquia da Idade Média. Ao sul eles veem o vasto pântano que,
naquela manhã, estava tomada pela densa neblina. Ao redor eles viam as colinas
e montanhas rodeando a cidade; eram os alpes de nome Kamnik-Savinja.
Enquanto a menina
está distraída, o rapaz a segura e a abraça. Seu abraço forte e repentino a
assusta, mas a deixa muito feliz. De repente ele diz:
- Um dia esta
cidade será grande e importante para o mundo todo. E nós seremos os reis dela.
E também os nossos filhos.
Danica se
intriga.
- Filhos...?!
O rapaz sorri.
- Sim, após você
se casar comigo.
- E como você tem
tanta certeza que eu aceitarei me casar com você?
Então Valentim a
puxa e a beija. A menina não resiste e amolece em seus braços, correspondendo-o
e cedendo à paixão.
Um minuto depois
um guarda aparece e os expulsa dali, ameaçando prende-los se não forem embora.
§
Vinte anos se
passam.
Na cozinha de sua
casa, Danica deixa tudo pronto para o retorno de seu marido. O jantar está
preparado, as roupas estão passadas, a água de banho está aquecida e sua
poltrona está confortavelmente limpa para o seu descanso. Valentim trabalhava
arduamente e mal conseguia se manter acordado em casa. Respirando fundo, a
mulher sentia pena dele.
Pela janela de
vidros manchados, ela vê algo lá fora. Algo se movia debaixo dos jornais
velhos. Danica abre a porta e o vento frio assopra, fazendo-a se arrepiar. A
noite se aproximava.
Com uma lamparina
em sua mão, a chama verde ilumina o beco. A chama era alimentada pelo Plasma, a
miraculosa substância de Carníola. Aproximando-se dos jornais, ela encontra um
pequeno gato preto de manchas brancas no meio do lixo. Ele estava assustado,
magro e faminto. Danica tenta toca-lo e o gato se assusta, afastando-se.
Encarando a estranha à sua frente, o gato tremia de fome e frio. Cheia de
compaixão, a mulher estica seu braço e o apanha, levando-o para casa.
Dez minutos
depois Valentim chega. Sujo e cansado, ele se dirige diretamente ao banho
quando algo chama a sua atenção. Sua esposa estava na cozinha cuidando de algo.
Ele se aproxima e vê uma caminha de tecido e um pote de leite. Ele pergunta:
- Danica, o que
você está fazendo?
- Eu encontrei
este gato. Ele estava tremendo de fome e frio lá fora.
Há poucos minutos,
Valentim se encontrava do mesmo jeito.
Ele observa
melhor e vê um pouco de comida ao lado do bicho, a mesma que seria o seu
jantar.
- Você está dando
a nossa comida para ele?! – protesta Valentim.
- Sim. Se eu não
alimenta-lo, ele morrerá de fome.
- Mas Danica! Não
morreremos nós de fome também?!
Valentim se
referia ao deplorável estado em que se encontravam.
- Não se
preocupe. Eu não dei muito.
- Mesmo pouco eu
não posso dar! – exclama ele – A sobra do jantar de hoje eu uso para comer na
fábrica amanhã! E não temos mais dinheiro! Se você adotar este gato, como vamos
alimenta-lo?
A mulher diz:
- Eu sei que
estamos devendo em todas as mercearias, Valentim. Mas com seu salário pagaremos
as nossas contas. Só temos que esperar. E quanto ao gato, ele não come muito.
- Como você sabe?
- Apenas darei um
pouco de pão, carne e leite para ele.
- O quê?!
Valentim se
enerva, pisando pesado pela casa. Ele puxa os cabelos e vocifera, indignado com
a insensatez de sua esposa.
- Acalme-se!
Sobrará para nós também.
- Sobrará?! –
ironiza ele – Que bom! Assim poderemos comer as sobras do gato!
Ignorando-o,
Danica acaricia o gato e lhe serve o leite. O marido desiste e lhe dá as
costas, indo tomar banho em seguida.
Como de costume,
a água fica preta de fuligem e fumaça. O Plasma não era limpo, mas era muito potente.
As máquinas poluíam o ambiente e tornavam o ar pesado, mas funcionavam com eficiente
energia.
Ao sair do banho,
Valentim janta em silêncio, irritado com sua esposa. Ao terminar, ele se dirige
à sala e tem uma surpresa: o gato estava deitado em sua poltrona. Ele exclama:
- Mas o que este
bicho está fazendo aí?!
Danica corre até
a sala e responde:
- O nome dele é
Orfeu.
- O quê?
- Orfeu, o famoso
músico da mitologia grega que desceu ao Hades para buscar sua amada Eurídice. Meu
pai costumava me contar essa história quando eu era criança. Diz a lenda que,
ao tocar sua lira, Orfeu convenceu Hades e Perséfone a lhe devolver a sua
amada. Porém ele desobedeceu uma ordem do deus e acabou perdendo-a. Felizmente
ele a encontrou novamente, mas antes foi tragicamente assassinado pelas
mênades, mulheres devotas de Dionísio que o amavam.
Estranhando a
resposta, Valentim não sabe o que dizer. Sua ignorância e falta de cultura
sempre lhe foram evidentes.
- Mas por que
você está me dizendo isso?!
- Imaginei que
você ia gostar de ouvir.
Valentim espanta
o gato de sua poltrona e se senta. Sua esposa delicadamente o pega e então volta
para a cozinha. Em seguida ele a ouve lavando as panelas em silêncio.
Pouco tempo
depois ele adormece, cochilando em sua velha poltrona. Ele mal começa a roncar
quando algo sobe em suas pernas e se aninha em seu colo. Assustado, ele abre os
olhos e tem uma incrível surpresa.
- Valentim, olhe!
– a mulher aponta para as suas pernas – Eu acho que ele gostou de você!
O homem vê o
infame gato de olhos verdes em seu colo.
- Danica! –
protesta ele.
- Shh!! Eu acho
que o Orfeu vai dormir.
- Apenas tire
esse bicho de cima de mim!
- Não fale assim,
Vali! E se fosse um bebê em seu colo? Você o trataria assim também?
Irritado, ele
responde:
- Este gato não é
nenhuma criança, Danica! Ele sabe sobreviver sozinho! E nós mal conseguimos
sobreviver!
- Então você o
deixaria abandonado lá fora para morrer de fome e frio?
O homem não sabe
o que responder.
- Eu...
- Me desculpe,
mas eu não deixarei o Orfeu morrer de frio.
Valentim responde
de impulso:
- Do jeito que
fala é como se ele fosse o seu filho!
Então sua mulher
arregala os olhos. Magoada, ele olha para ele e se silencia. Seu marido
rapidamente diz:
- Me desculpe,
Dani. Eu falei sem pensar...
Mas a mulher fica
em silêncio e não responde nada. Valentim sabe que, após vinte anos de casados,
Danica se culpava por nunca ter lhe dado um filho.
Com lágrimas nos
olhos, Danica acolhe em seus braços o gato e o tira dali. O marido cobre o
rosto, arrependido e envergonhado por ter magoado a sua esposa.
Minutos se
passam. Incapaz de conversar com ela, Valentim sabe que não encontrará as
certas para se desculpar. Desanimando-se, ele desiste. Estava acima de suas
capacidades ser um homem carinhoso.
Passados alguns
minutos, ele fecha os olhos e tenta dormir um pouco.
§
A mulher termina os
seus afazeres e ouve os trovões lá fora. Valentim e Orfeu dormem tranquilamente
na sala. Pegando a lamparina, ela a acende e sobe as escadas.
Gotas de chuva
caem no telhado. Ela não gostava quando chovia à noite, pois a chuva deixava a
casa mais escura e sinistra. Afastando esses pensamentos, ela sobe os degraus
em silêncio.
Danica abre a
porta do quarto e a madeira range lentamente. A chuva batia em sua janela
provocando ruídos nos vidros. Então um raio ilumina o céu e ela vê uma horrível
coruja branca no lado de fora. Assustando-se, ela grita e solta a lamparina,
derrubando-a no chão. O trovão reverbera pela noite e ela ouve apenas os pingos
de chuva novamente. Recompondo-se, ela pega sua lamparina e ilumina a janela.
Ao olhar para fora, ela se intriga; a horrível coruja havia desaparecido.

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