domingo, 27 de março de 2022

Liubliana - 03 - Esposa

 


(Capa do álbum "Sex" do artista King Dude)


Danica é uma palavra eslava que significa “estrela da manhã”, referindo-se a Vênus. Na cultura eslava, este é um nome folclórico que simboliza a personificação da estrela da manhã. Quando a mãe de Danica lhe deu este nome, ela não imaginou que, de fato, sua filha seria a estrela da manhã na vida de alguém.

E então Valentim apareceu.

Na adolescência a menina passeava nas nevoentas ruas de Liubliana. De corpo esbelto e longos vestidos, Danica ocultava seus longos cabelos negros com o típico véu. Ela carregava consigo um cesto de flores e grandes garrafas de leite. De repente um jovem se aproxima e ela o reconhece. Era Valentim, o filho do limpador de chaminés da outra rua.

- Bom dia, Danica. – cumprimenta ele em tom galanteador.

- Bom dia, Valentim.

- Está uma manhã bem fria, não?

Cansada de tantas investidas, a menina pergunta:

- O que você quer?

- Te levar para passear. – responde ele, sorrindo.

- Eu não posso. Estou ocupada agora.

Pegando em sua mão, o rapaz insiste.

- Vamos, venha comigo!

Então a menina deixa seus pertences em casa e o segue pelas ruas vazias.

A manhã fria e cinzenta dava à cidade uma aparência decadente. O casal via pessoas aparecendo e desaparecendo na neblina; suas faces eram pálidas e taciturnas, demonstrando uma vida inteira de trabalho duro e miséria.

“Como as nossas”, pensa a menina.

Os guardas caminhavam ao longe, rondando as ruas com tochas em suas mãos. Logo o sol se ergueria e dissiparia toda a névoa, iluminando aquele purgatório entre o nada de onde eles vieram e a morte para onde todos iriam.

Danica estava quieta e tentava manter seu recato. Ela também amava o rapaz. Vendo o jovem apaixonado esforçando-se para corteja-la tantas vezes seguidas, ela não pôde resistir senão ama-lo também. Mas ela era uma menina decente, filha de pais agricultores e devotos na igreja. Apesar de seus sentimentos, ela manteria firmemente sua decência.

O sol tarda a chegar. Aquela seria uma manhã nebulosa e cinzenta. O centro da cidade estava deserto com exceção dos pequenos comércios ao redor. A menina via os açougues, mercearias, farmácias e padarias pelo caminho. As carruagens passavam exalando o forte cheiro de esterco dos cavalos. Os mendigos pediam esmolas e os bêbados dormiam em poças de sua própria urina. Liubliana não era nenhuma Paris; se aquilo era para ser um passeio romântico, Valentim fracassava miseravelmente.

Cruzando a Tromostovje[1], eles avistam a icônica Igreja Franciscana da Anunciação. Sua cor vermelha simbolizava a antiga ordem franciscana. Valentim nunca se importou com a religião e era ignorante demais quanto ao passado de seu povo e sua província. Mas Danica, sendo de família devota, conhecia sua história. No mesmo local existiu uma antiga igreja de arquitetura gótica que, em meados do século 17, foi demolida para a construção de uma nova, de arquitetura barroca.

Acima, sobre a colina, eles veem Ljubljanski grad[2], o belíssimo castelo de estilo romanesco, gótico e renascentista sobre o cume. O imponente castelo foi construído no século 12 e foi a residência dos antigos margraves, mais tarde duques de Liubliana. Na história registrada, Danica não consegue se lembrar de quando que os eslavos de sul foram livres e soberanos. Durante toda a história eles foram subalternos a impérios e reinos estrangeiros. Mas como nada daquilo fazia diferença em sua vida, ela não se importa.

- Venha!

Valentim agarra sua mão e a puxa consigo. Assustada, a menina pergunta:

- Para onde está me levando?

- Para o topo da colina!

Ela se espanta.

- Não! Eu tenho que voltar para casa!

- E vai perder esta aventura?

Então a menina sorri. Jovem e cheia de energia, a inexperiente Danica também gosta da sensação de perigo que a idade lhe compele a experimentar. E assim ela se deixa levar pelo animado rapaz.

Desviando-se dos guardas, eles se esgueiram pelas carruagens e sobem a íngreme escada de pedra no meio das árvores. A breve floresta era escura e corujas os observavam ao longe. A neblina arrastava-se entre as árvores e trazia consigo o suspiro frio dos mortos. O vento chacoalhava as folhas e provocava zunidos sinistros. Danica sente medo, mas sentia-se protegida pelo valente rapaz que marchava convictamente e conquistara o seu coração.

No topo da colina, eles se deparam com o castelo de pedras. Seus muros úmidos e frios lhes intimidavam, fazendo-os se sentirem diante do maior jazigo de cemitério já visto. A história diz que ali foi a residência dos nobres, mas Danica não duvida que, na verdade, era o túmulo daquele dragão lendário que no passado aterrorizou a cidade. Temerosa, ela reflete com a mão no queixo.

- Danica!

A menina olha para trás e vê Valentim chamando-a. Ao aproximar-se, eles sobem em uma plataforma e avistam a cidade lá embaixo. A vista era tão incrível quanto era fúnebre.

Liubliana era uma cidade pacata e melancólica. Seus telhados vermelhos a encantavam, mas não escondiam seu passado da Idade das Trevas. Diferente das outras cidades europeias que se modernizaram e se revitalizaram, Liubliana continuou um lugar triste e atrasado, uma relíquia da Idade Média. Ao sul eles veem o vasto pântano que, naquela manhã, estava tomada pela densa neblina. Ao redor eles viam as colinas e montanhas rodeando a cidade; eram os alpes de nome Kamnik-Savinja.

Enquanto a menina está distraída, o rapaz a segura e a abraça. Seu abraço forte e repentino a assusta, mas a deixa muito feliz. De repente ele diz:

- Um dia esta cidade será grande e importante para o mundo todo. E nós seremos os reis dela. E também os nossos filhos.

Danica se intriga.

- Filhos...?!

O rapaz sorri.

- Sim, após você se casar comigo.

- E como você tem tanta certeza que eu aceitarei me casar com você?

Então Valentim a puxa e a beija. A menina não resiste e amolece em seus braços, correspondendo-o e cedendo à paixão.

Um minuto depois um guarda aparece e os expulsa dali, ameaçando prende-los se não forem embora.

 

§

 

Vinte anos se passam.

Na cozinha de sua casa, Danica deixa tudo pronto para o retorno de seu marido. O jantar está preparado, as roupas estão passadas, a água de banho está aquecida e sua poltrona está confortavelmente limpa para o seu descanso. Valentim trabalhava arduamente e mal conseguia se manter acordado em casa. Respirando fundo, a mulher sentia pena dele.

Pela janela de vidros manchados, ela vê algo lá fora. Algo se movia debaixo dos jornais velhos. Danica abre a porta e o vento frio assopra, fazendo-a se arrepiar. A noite se aproximava.  

Com uma lamparina em sua mão, a chama verde ilumina o beco. A chama era alimentada pelo Plasma, a miraculosa substância de Carníola. Aproximando-se dos jornais, ela encontra um pequeno gato preto de manchas brancas no meio do lixo. Ele estava assustado, magro e faminto. Danica tenta toca-lo e o gato se assusta, afastando-se. Encarando a estranha à sua frente, o gato tremia de fome e frio. Cheia de compaixão, a mulher estica seu braço e o apanha, levando-o para casa.

Dez minutos depois Valentim chega. Sujo e cansado, ele se dirige diretamente ao banho quando algo chama a sua atenção. Sua esposa estava na cozinha cuidando de algo. Ele se aproxima e vê uma caminha de tecido e um pote de leite. Ele pergunta:

- Danica, o que você está fazendo?

- Eu encontrei este gato. Ele estava tremendo de fome e frio lá fora.

Há poucos minutos, Valentim se encontrava do mesmo jeito.

Ele observa melhor e vê um pouco de comida ao lado do bicho, a mesma que seria o seu jantar.   

- Você está dando a nossa comida para ele?! – protesta Valentim.

- Sim. Se eu não alimenta-lo, ele morrerá de fome.

- Mas Danica! Não morreremos nós de fome também?!

Valentim se referia ao deplorável estado em que se encontravam.

- Não se preocupe. Eu não dei muito.

- Mesmo pouco eu não posso dar! – exclama ele – A sobra do jantar de hoje eu uso para comer na fábrica amanhã! E não temos mais dinheiro! Se você adotar este gato, como vamos alimenta-lo?

A mulher diz:

- Eu sei que estamos devendo em todas as mercearias, Valentim. Mas com seu salário pagaremos as nossas contas. Só temos que esperar. E quanto ao gato, ele não come muito.

- Como você sabe?

- Apenas darei um pouco de pão, carne e leite para ele.

- O quê?!

Valentim se enerva, pisando pesado pela casa. Ele puxa os cabelos e vocifera, indignado com a insensatez de sua esposa.

- Acalme-se! Sobrará para nós também.

- Sobrará?! – ironiza ele – Que bom! Assim poderemos comer as sobras do gato!

Ignorando-o, Danica acaricia o gato e lhe serve o leite. O marido desiste e lhe dá as costas, indo tomar banho em seguida.

Como de costume, a água fica preta de fuligem e fumaça. O Plasma não era limpo, mas era muito potente. As máquinas poluíam o ambiente e tornavam o ar pesado, mas funcionavam com eficiente energia.

Ao sair do banho, Valentim janta em silêncio, irritado com sua esposa. Ao terminar, ele se dirige à sala e tem uma surpresa: o gato estava deitado em sua poltrona. Ele exclama:

- Mas o que este bicho está fazendo aí?!

Danica corre até a sala e responde:

- O nome dele é Orfeu.

- O quê?

- Orfeu, o famoso músico da mitologia grega que desceu ao Hades para buscar sua amada Eurídice. Meu pai costumava me contar essa história quando eu era criança. Diz a lenda que, ao tocar sua lira, Orfeu convenceu Hades e Perséfone a lhe devolver a sua amada. Porém ele desobedeceu uma ordem do deus e acabou perdendo-a. Felizmente ele a encontrou novamente, mas antes foi tragicamente assassinado pelas mênades, mulheres devotas de Dionísio que o amavam.

Estranhando a resposta, Valentim não sabe o que dizer. Sua ignorância e falta de cultura sempre lhe foram evidentes.

- Mas por que você está me dizendo isso?!

- Imaginei que você ia gostar de ouvir.

Valentim espanta o gato de sua poltrona e se senta. Sua esposa delicadamente o pega e então volta para a cozinha. Em seguida ele a ouve lavando as panelas em silêncio.

Pouco tempo depois ele adormece, cochilando em sua velha poltrona. Ele mal começa a roncar quando algo sobe em suas pernas e se aninha em seu colo. Assustado, ele abre os olhos e tem uma incrível surpresa.  

- Valentim, olhe! – a mulher aponta para as suas pernas – Eu acho que ele gostou de você!

O homem vê o infame gato de olhos verdes em seu colo.

- Danica! – protesta ele.

- Shh!! Eu acho que o Orfeu vai dormir.

- Apenas tire esse bicho de cima de mim!

- Não fale assim, Vali! E se fosse um bebê em seu colo? Você o trataria assim também?

Irritado, ele responde:

- Este gato não é nenhuma criança, Danica! Ele sabe sobreviver sozinho! E nós mal conseguimos sobreviver!

- Então você o deixaria abandonado lá fora para morrer de fome e frio?

O homem não sabe o que responder.

- Eu...

- Me desculpe, mas eu não deixarei o Orfeu morrer de frio.

Valentim responde de impulso:

- Do jeito que fala é como se ele fosse o seu filho!

Então sua mulher arregala os olhos. Magoada, ele olha para ele e se silencia. Seu marido rapidamente diz:

- Me desculpe, Dani. Eu falei sem pensar...

Mas a mulher fica em silêncio e não responde nada. Valentim sabe que, após vinte anos de casados, Danica se culpava por nunca ter lhe dado um filho.

Com lágrimas nos olhos, Danica acolhe em seus braços o gato e o tira dali. O marido cobre o rosto, arrependido e envergonhado por ter magoado a sua esposa.

Minutos se passam. Incapaz de conversar com ela, Valentim sabe que não encontrará as certas para se desculpar. Desanimando-se, ele desiste. Estava acima de suas capacidades ser um homem carinhoso.

Passados alguns minutos, ele fecha os olhos e tenta dormir um pouco. 

 

§

 

A mulher termina os seus afazeres e ouve os trovões lá fora. Valentim e Orfeu dormem tranquilamente na sala. Pegando a lamparina, ela a acende e sobe as escadas.

Gotas de chuva caem no telhado. Ela não gostava quando chovia à noite, pois a chuva deixava a casa mais escura e sinistra. Afastando esses pensamentos, ela sobe os degraus em silêncio.

Danica abre a porta do quarto e a madeira range lentamente. A chuva batia em sua janela provocando ruídos nos vidros. Então um raio ilumina o céu e ela vê uma horrível coruja branca no lado de fora. Assustando-se, ela grita e solta a lamparina, derrubando-a no chão. O trovão reverbera pela noite e ela ouve apenas os pingos de chuva novamente. Recompondo-se, ela pega sua lamparina e ilumina a janela. Ao olhar para fora, ela se intriga; a horrível coruja havia desaparecido.  

 

 



[1] Ponte tripla em esloveno

[2] Castelo de Liubliana

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