domingo, 20 de março de 2022

Liubliana - 02 - Marido

 


(Artista desconhecido)

Amanhece em Liubliana. Caminhando até a janela, Valentim vê a cidade lá fora. Em meio aos pontudos telhados vermelhos das casas, ele vê as chaminés se elevando das fábricas. Uma densa névoa esverdeada paira sobre a cidade; é aquela substância Plasma que todos falam. 

Danica, sua esposa, ainda dorme em sua cama. Valentim era um homem rude, mas a amava profundamente. Ele nunca foi muito romântico – ele quase não conseguia lhe demonstrar afeição – mas demonstrava seus sentimentos através do trabalho duro, atenção e demonstrações veladas de carinho. Valentim nunca entendeu por que ela aceitou ficar com ele. Ele era grosseiro, tinha pouca instrução e era quase um analfabeto. Ele falava alto, era autoritário e gostava de usar a camisa desabotoada até a metade do peito. Suas vaidades eram mínimas, indo ao máximo de pentear para trás seus cabelos e passar no pescoço um perfume barato.

Enchendo uma bacia de água, ele lava seu rosto e olha para o espelho. Seus cabelos castanhos estavam ficando grisalhos. Mesmo sua barba parecia mais acinzentada. Estando próximo dos quarenta, ele se via mais magro.

“E pensar que eu fiz força a vida inteira”, pensa ele, lembrando-se que trabalhou em serviços braçais desde os oito anos.

Danica acorda e o vê parado ali. Ela pergunta:

- Valentim, está tudo bem?

Ele sai de seu transe e responde:

- Está sim, Dani. Bom dia para você.

Valentim está com fome. Ele vem se alimentado mal por muitos dias. Enquanto lava seu rosto, seu estômago ronca tão alto que sua esposa consegue ouvir.

- Você está com fome?

- Só um pouco. – mente ele – Não se preocupe.

- Ainda tem pão?

Não havia pão há dias.

- Não.

- Você vai comprar?

Valentim faz um olhar pesaroso. Ele não tinha mais dinheiro.

- Só se você quiser. Acho que a mercearia aceita outra compra fiada.

 Danica fica em silêncio. Ela sabe que seu marido tenta preveni-la a todo custo de lhe revelar a verdade. Os dois amargavam na miséria. Eles faziam apenas uma refeição por dia e se endividavam para comprar comida. Às vezes, quando tinham sorte, eles a conseguiam através de doações da igreja.

Mudando de assunto, ela pergunta:

- Como estão os negócios? Apareceu algum trabalho?

Seu marido hesita em responder. Valentim sabia muitos ofícios, mas todos se tornavam mais obsoletos com a chegada das máquinas. Ele era um talentoso ferreiro e marceneiro; Valentim se orgulhava de produzir excelentes dobradiças de portas e janelas. Além desta atividade, ele também talhava lindas cadeiras e mesas. Desde quando seus pais migraram do campo, ele aprendeu os ofícios necessários para a sobrevivência em um centro urbano.

Lembrando-se de algo, ele ri. Seu pai era limpador de chaminés nas casas. Valentim pensou em fazer o mesmo, mas ele nunca gostou da fuligem de carvão. Às vezes seu pai voltava tão sujo que até seu rosto ficava preto. Em uma noite seu pai abriu a porta da sala e ele foi ver quem era. Valentim deu um grito e chorou assustado, pensando ser uma assombração vindo pega-lo. Desde então ele pegou medo daqueles trabalhadores.

Distraído e rindo sozinho, sua esposa o chama:       

- Amor?

- Não. – responde ele, voltando ao assunto – Não apareceu nada.

Danica se desanima. Eles passariam fome por mais um dia. Apesar dos vários ofícios de seu marido, ninguém lhe oferecia emprego. Com a crescente industrialização na província, as pessoas mal solicitavam seus serviços.

Uma fábrica faz barulho ao longe. Era o apito da mudança de turnos.

- Malditos ingleses! – comenta ele – É culpa deles amargarmos nessa penúria.

Danica faz um olhar de reprovação. Ela não compactuava com os preconceitos de seu marido, e procurava compreender todo mundo. Então ela tem uma grande ideia.

- Amor, por que você não arruma um emprego nas fábricas?

O homem arregala os olhos.

- O quê?! – irrita-se ele – Eu trabalhando para os parasitas ingleses?!

- Não se trata de preconceito, Valentim! Mas de nossa sobrevivência!

Ele responde:

- Faz ideia do que está me pedindo? A corrupta nobreza austro-húngara nos vendeu à burguesia inglesa para se enriquecer às nossas custas! O Império Britânico é maligno, Danica! Veja o que eles fizeram em Liubliana!

A mulher se confunde.

- Ingleses... Britânicos... De quem você está falando? Você os demoniza tanto e nem sabe a diferença!

Então ele se emudece. Sendo de baixa instrução, ele também não sabia que diferença havia. Inglês correspondia ao natural da Inglaterra, país situado na parte sul da ilha britânica. Britânico, porém, era todo aquele nascido na Grã-Bretanha, famosa por situar os reinos da Inglaterra, Escócia e Gales. Ela também engloba a ilha de Esmeralda, popularmente conhecida como Irlanda, incorporada ao Reino Unido e liderada pelos ingleses.        

- É política, Dani. Este é uma assunto que não convém dizer!

Valentim mente novamente. Ele também não entendia do assunto e apenas ecoava o que os mais jovens comentavam efusivamente nas ruas.

- Eu não me importo com política, Valentim! Se morrermos de fome amanhã, para onde vai esse orgulho todo?

Ele exclama:

- Eu sou um artesão, Danica! Meu trabalho é minha arte, minha vida! Eu não sirvo para trabalhar em nenhuma máquina sem alma!

- É exatamente por isso que eu te peço. Ninguém mais se interessa pelo artesanato. Hoje todos preferem produtos manufaturados. É o progresso que estão falando. As fábricas produzem melhor, mais rápido e com qualidade. O mundo está mudando, Valentim. Não há como impedir!

Chateando-se, ele comenta:

- Não acredito que está me pedindo para trabalhar para os protestantes e hereges... Progresso, não é? Pois eu digo que eles são cegos conduzindo outros cegos para o inferno!

Danica se espanta. Quando queria, seu marido tinha muita teimosia. Então ela sabiamente responde:

- E definhando na miséria agora, não estamos nós já vivendo em um?

Então Valentim se constrange. Sentando-se na cama, ele abaixa sua cabeça e diz:

- Eu estou fazendo tudo o que eu posso, Dani... Mas eu não consigo! – então ele chora tristemente.

Deitando-o em suas pernas, ela conforta a seu marido.

- Está tudo bem, Vali... – diz ela – Está tudo bem.

Perto do estômago dela, ele percebe. Ela estava com fome também.

 

§

 

Alguns dias depois, Valentim caminha por Liubliana. Era uma manhã fria e úmida. Ele vestia um casaco velho e surrado que, apesar de seu estado, Danica o passou carinhosamente para que ele pudesse se aquecer naquela manhã.

Enquanto caminha ele vê a silhueta das pessoas se aproximando. Elas apareciam e desapareciam na névoa. Uma mulher passa com seus filhos ao lado. Ao ouvi-los, ele percebe que eram ingleses. Homens de tranças e chapéus conversam entre si e ele reconhece judeus. Mais à frente ele vê senhores louros e de bigodes pontudos; eram alemães. Aos poucos sua cidade se tornava cosmopolita.

Valentim ouve o som de cavalgadas ao longe. De repente carruagens passam com lamparinas penduradas em suas boleias. Com a densa névoa, era difícil avista-las, e assim os cocheiros alertavam as pessoas enquanto conduziam seus cavalos pelas ruas.

Ele chega à estação de trem. Observando sua fachada, ele se lembra que os ingleses a haviam construído com a ajuda da população local. Apesar de sua revolta ele não ressente a ferrovia, pois ela transportava os trabalhadores para lugares cada vez mais distantes.

As linhas ferroviárias cortam toda a cidade. Nos painéis Valentim arduamente lê o nome das estações. Elas estavam escritas em inglês e em sua língua materna, o eslavo do sul. Ele ressente as palavras estrangeiras ali, pois deseja que os estrangeiros aprendam sua língua e não o contrário. Entretanto ele pensa; ele mesmo não sabia sua própria língua, pois mal sabia ler e escrever.

“Então por que exigir dos ingleses?”, pergunta-se ele.

Pegando o trem, ele se ajeita nos duros bancos de madeira e ouve o apito; a locomotiva se prepara para partir. Em seguida ela solta uma densa nuvem de vapor verde e se movimenta. Os engenheiros usavam o Plasma para tudo.

“Um combustível eficiente”, disseram eles em entrevista a um jornal.

Sobre os viadutos, ele contempla Liubliana. A origem de seu nome é desconhecida; os alemães a chamam de Laibach desde a Idade Média, mas eles também não tinham explicações para a origem do termo. Alguns estudiosos sugerem que o nome deriva da mistura da língua alemã com o eslavo do sul, significando “a cidade amada”.

Ao longe ele vê o Castelo de Liubliana, construído no séc. 12 d.C. Diz a lenda que havia um dragão que aterrorizava a cidade cuspindo fogo do topo de sua torre. Alguns dizem que essa lenda originou-se do mito grego de Jasão e os Argonautas; outros de que a lenda originara-se da história de São Jorge, patrono da cidade. Há também um mito eslavo que diz que matar um dragão libera as águas e fertiliza a terra, associando-a ao pântano que inunda a cidade. De qualquer forma, a figura do dragão se tornou sua tradição.  

Avançando pelos trilhos, Valentim chega ao seu destino. Ele caminha pelas ruas, entra por um portão e se reúne com outros homens no pátio de uma fábrica. Os homens ao redor também pareciam confusos. Alguns eram jovens e outros bem mais velhos. Todos vestiam roupas surradas e sapatos que demonstravam anos de uso. Valentim nota que alguns usavam cachecóis e boinas. Com a massiva imigração inglesa na província, os ingleses fomentaram uma moda.

Aquela fina névoa verde pairava sobre a cidade. Olhando para cima, Valentim percebe que ela saía das chaminés industriais. O Plasma tinha um cheiro agradável, lembrando o de mato molhado. Então ele se pergunta como algo inflamável era utilizado como fertilizante.

Distraído, alguém se aproxima e pergunta:

- Bom dia, gospod[1]! Como vai?

Valentim olha para o lado e vê um sorridente senhor de bigode branco.

- Bom dia. Eu estou bem, obrigado.

Os dois se cumprimentam. Valentim aperta sua mão, fazendo-o gritar.

- Mas que aperto de mão firme, hein rapaz?! Suponho que seja um trabalhador braçal.

- Sim. Eu era um artesão.

- Oh, outro artesão que decide trabalhar na indústria?

Valentim se confunde.

- Por que outro?

- Olhe ao redor, meu senhor. Todos são artesãos aqui.

Por seus olhares perdidos, ele percebe que ninguém nunca operou uma máquina ali.

- Então todos aqui trabalhavam com artesanato?

- Nesta fábrica sim, mas onde meu filho trabalha a maioria são trabalhadores rurais. Eles vieram do campo para as cidades; eles procuravam emprego para sobreviverem.

Então Valentim se consterna. Fugindo da fome, a população do campo migrou para as cidades para sobreviver. Pela primeira vez ele via o impacto social causado pela rápida industrialização em seu país.

De repente crianças passam correndo por suas pernas. Intrigando-se ele pergunta:

- O que estas crianças estão fazendo aqui?   

- Elas vieram trabalhar também.

- As crianças vieram trabalhar?! – duvida ele.

- Certamente! São famílias grandes lá fora. Com tantas bocas para alimentar, os pais decidiram emprega-las também. Meu neto também está aqui em algum lugar. As crianças são boas para limpar as partes das máquinas que os adultos não alcançam.

Valentim arregala os olhos.

- O senhor não se preocupa que seu neto possa se machucar aí dentro?

Dando de ombros, o velho responde:

- Não ligue para isso. A vida é assim. Quantos anos tinha quando você mesmo começou a trabalhar?

Então ele percebe. Apesar do progresso da sociedade, algumas coisas continuavam as mesmas.

Ao seu lado, ele ouve uma conversa. Um jovem conversava com senhores mais velhos. Em pé diante deles, ele argumentava com grande habilidade e, por sua postura, Valentim nota que ele tinha muita instrução.

- Muitas pessoas falam em indústria, mas o que é uma indústria?

Os mais velhos não sabem o que responder.

- Emprego! – responde um, rindo.

Então todos riem também.

- Pois eu direi o que significa. – continua o jovem, mantendo sua compostura – Indústria significa o conjunto de atividades e dos ofícios que produzem riquezas pela manipulação das máterias-primas. Indústria é...

- Produz riqueza, é? – interrompe alguém – Só se for para o dono das fábricas!

Eles riem novamente.

- É claro. – concorda o jovem, incomodado – Como eu estava dizendo, indústria são empresas ou organizações, fábricas como essa, que tem o objetivo de transformar matérias-primas em bens e serviços comercializáveis. Por exemplo a indústria têxtil, que produz tecidos manufaturados pelas máquinas.

Passado algum tempo, alguém comenta:

- Bens ou serviços, máquinas ou indústrias, não importa. Pagando nossos salários, isso é tudo o que nos interessa.   

Então eles riem, debochando do jovem entre si. Aqueles senhores estavam ali para arrumarem um emprego e sobreviverem, pouco se importando com o significados das palavras.

O jovem, por outro lado, se desanima e permanece em silêncio, desistindo de tentar ensinar-lhes alguma coisa. Valentim nota que, apesar dele ser jovem e bem instruído, ele também passava necessidade, pois nem mesmo seu diploma e instrução pôde lhe garantir um emprego que lhe tirasse da miséria.

Um homem ruivo, de costeletas e boina, sobe uma tribuna e pede a atenção de todos. Valentim nota que era um inglês.

- Bom dia a todos! Eu sou o sr. Wight. Sou o supervisor de produção aqui. – diz ele, com forte sotaque inglês – Vocês vão trabalhar com máquinas de produção têxtil. Nossos operários vão treina-los no manuseio da matéria-prima e na operação das máquinas. Peço que tenham cuidado, pois desperdícios e danos à propriedade serão cobrados. Vocês trabalharão das 07:00 às 20:00 e terão meia hora de almoço! Atenção! Idas ao banheiro são cronometradas! Aqui não é restaurante; as refeições devem ser trazidas de casa! Se algum operário se ferir procure um atendimento médico público. Nós não tratamos acidentes de trabalho aqui!

Ao ouvi-lo, muitos na multidão se aviltam.

O supervisor continua:

- As crianças estão sob cuidados dos pais e responsáveis. Mulheres gestantes não são responsabilidade da fábrica! Mulheres e crianças receberão o pagamento proporcional a sua produção diária. Devo informar que aqui não é creche ou maternidade. Vocês estão aqui para trabalhar e trabalhar apenas! Fui claro?

Alguns homens se revoltam e vão embora. Mas a maioria, incapaz de recusar o emprego, prefere acatar e ficar em silêncio. Amargamente Valentim percebe; os donos das fábricas exploravam o operariado, aproveitando-se da miséria alheia.

        

§

 

Uma semana se passa.

O trabalho era degradante e penoso. Em longos turnos de doze a quatorze horas, Valentim mal via sua esposa. Para almoçar na fábrica ele teve de se endividar mais ainda para comprar comida. Os donos das mercearias se cansam de tantas compras fiadas e ele tem de implorar para eles continuarem vendendo. A promessa do salário era tudo o que ele tinha.

Danica lava suas roupas diariamente e logo elas se rasgam. A fábrica não fornecia uniformes e ele tem uma perda inestimável de roupas. Endividado até o pescoço, ele sabe que não pode comprar outras novas. Ele passa a ir trabalhar com trapos velhos e rasgados, provocando risos em seus colegas.

A estafa o desgasta. Com o contínuo esforço, ele sente sua saúde piorar. Ele tosse cada vez mais alto e sente dores nas costas. As máquinas faziam ruídos altos e irritavam seus ouvidos. Inexperiente no trabalho, ele toca uma correia e sua mão imediatamente se corta. Sangue se escorre livremente. Seus colegas o veem, mas o ignoram, negando-se a ajuda-lo. Lembrando-se de que ali não tinha tratamento médico, ele estanca o sangramento com um trapo e continua seu trabalho em silêncio.  

No outro dia ele vê crianças brincando pela fábrica. Os supervisores as oprimem, obrigando-as a voltar ao trabalho. Uma enorme e quente caldeira energiza as máquinas. Em sua base a fuligem se acumula, obstruindo o funcionamento das engrenagens. Valentim assiste aflito os pais mandarem seus filhos entrarem ali embaixo enquanto as máquinas estão funcionando. Um movimento errado e seus pequenos bracinhos se mutilariam.  

O domingo se aproxima. Animado com o tão esperado dia de folga, ele ouve indignado que a folga foi cancelada e que eles trabalharão normalmente. Ele se revolta, mas não pode fazer nada. Ele precisa do emprego.

A fome o atormenta. Chegando a hora do almoço, ele se horroriza ao ver que alguém tinha roubado sua comida. Desesperado, ele sabe que teria de trabalhar doze horas sem comer nada.

Aproximando-se do supervisor, ele diz:

- Sr. Wight! Eu tenho uma queixa para fazer! Alguém roubou minha comida!

Fazendo-lhe um olhar irritado, o inglês responde:

- E o que eu tenho a ver com isso? Não é problema meu!

- O senhor não vai fazer nada?! Se eu não comer, como eu poderei trabalhar hoje?   

- O que quer dizer com isso? Eu já disse que aqui não é restaurante! Se você não tem comida, arrume alguma por aí!

Valentim se indigna.

- E por acaso eu sou algum cachorro para procurar comida pelos cantos? O senhor tem que fazer alguma coisa! O culpado tem que ser punido!

Wight ri.

- Além de restaurante você pensa que aqui é investigação de polícia? Lamento, mas eu não farei coisa alguma!

Então o supervisor lhe dá as costas e vai embora. Valentim põe as mãos na cabeça e se desespera. Sem comida, uniforme e remédios, ele é obrigado a morder a dor e suportar a penúria.

Respirando fundo, ele olha para o céu e pensa:

“Eu te amo, Danica. Estou fazendo isso por você”.

   

  



[1] Senhor em esloveno

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