segunda-feira, 30 de maio de 2022

Liubliana - 13 - A Serpente do Éden

 


(Artista desconhecido)

 

Finalmente é domingo. Valentim acorda cedo e se prepara para ir à missa. Embora ele não aguente mais outra pregação bíblica sem sentido, ele não pode dispensar sua alimentação diária; mesmo Orfeu dependia dela.

Ao chegar na catedral, ele se dirige aos lugares reservados de maneira implícita aos mais pobres, aqueles no fundo do salão. Nos primeiros ele vê os nobres e burgueses, e no meio seus bajuladores de todas as classes.

“Homens sem honra”, pensa ele.

Os burgueses não eram católicos; eles vieram de terras protestantes na Inglaterra. Mas ali eles frequentavam as missas em Liubliana para conquistar a boa acepção do povo e da nobreza carníola.

No altar os auxiliares vestiam suas longas vestes clericais. O diácono Izak estava lá também e, ao encontrar Valentim sentado ali, não consegue disfarçar seu olhar cheio de raiva.

Um coral de jovens inicia o culto. Como a maioria dos frequentadores não sabia ler, eles decoravam os louvores para poderem cantarem junto. Valentim fica em silêncio, mas não pode deixar de apreciar as belas canções.

Enquanto o coral canta, os auxiliares passam as cestas de oferta e de dízimo. Obviamente ele não pode doar nada, mas os trabalhadores ao seu lado doam míseras moedas que, apesar de poucas, farão grande diferença em suas vidas. Pesaroso, ele prefere acreditar que elas fazem um ato genuíno de fé ao invés de julga-las por sua insensatez. 

Após alguns minutos, o padre Frančišek aparece. Ele vestia uma longa veste branca com faixas douradas que iam dos ombros até os pés. A congregação se silencia e ele abre sua Bíblia, iniciando a pregação. Frančišek pregava sobre Adão e Eva e a queda do Homem. Lendo o livro de Gênesis em voz alta, ele recitava os versículos em latim. Valentim não entende por que a Igreja insistia em usar aquele idioma; ninguém nas províncias distantes de Roma o falava. Mas o padre os traduz em seguida.

 - Nos versículos 7 e 8 diz que Deus criou o primeiro homem, Adão, e o colocou no jardim paradisíaco do Éden. O versículo 15 diz que Deus ordenou o homem para guarda-lo e lavra-lo. Como veem, no início o trabalho não era como hoje: fatigante, explorador e abusivo... – neste momento, os burgueses se sentem afrontados – No início o trabalho era uma bênção.

Os membros sorriem, extasiados. Valentim acha aquilo muito difícil de ser verdadeiro. Desde sua infância ele trabalhou e nunca houve um único dia em que ele sentisse prazer em se ferir com as ferramentas ou preferisse estar trabalhando ao invés de brincando. Ele pensa:

“Se a Bíblia diz que o trabalho era uma bênção, deve ser porque Deus nunca trabalhou”.

O padre continua:

- Nos versículos 16 e 17 diz que Deus permitiu ao homem comer dos frutos de todas as árvores, com exceção de uma, a árvore do conhecimento do bem e do mal. Caso o homem comesse de seu fruto ele certamente morreria.

Valentim se confunde.

“Mas o homem não foi posto lá para guardar o jardim? Se a árvore do conhecimento do bem e do mal estava restrita, então quem guardaria a árvore do próprio homem?”.

- No versículo 18, encontramos a única passagem em toda a Criação que Deus diz que algo não era bom. Deus decide dar ao homem uma ajudadora idônea, ou seja, uma mulher. – explica ele – Dos versículos 20 ao 24, a Palavra diz que Deus criou a mulher da costela de Adão, assim estabelecendo a origem do casamento monogâmico. “Deixará o homem o seu pai e sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma só carne”. – recita ele – Como veem, no início o casamento também era uma bênção.

As mulheres sorriem, algumas ao ponto de olharem para seus maridos e culpa-los por sua insatisfação. Mais uma vez Valentim se confunde. Ele pensa:

“Sou casado há mais de vinte anos e posso dizer, com certeza, que o casamento está longe de ser uma bênção. Viver é difícil. Às vezes só o amor não basta. A saúde e principalmente o dinheiro são necessários”, reflete ele. “Se Deus diz que o casamento é uma bênção, dever ser porque Ele nunca foi casado”.

Valentim ri de deboche. Neste momento as pessoas olham para ele, intrigadas. Envergonhado, ele abaixa a sua cabeça.

- No capítulo 3, vemos a tentação da serpente. Ela era o animal mais astuto da Criação e Satanás a usou para se infiltrar o Éden. E assim ele tentou a mulher que, apesar das advertências, foi seduzida a comer do fruto proibido. No versículo 4 podemos ver que Satanás é o pai da mentira, pois pela primeira vez na Bíblia alguém mentiu: “certamente não morrereis”.

“Como a serpente se infiltrou no Éden?”, pergunta-se Valentim. “Deus não é onisciente?”.

- No versículo 6 relata que Eva deu o fruto ao seu marido, que também o comeu. E assim eles se viram nus, perdendo sua inocência e envergonhando-se. No versículo 9 Deus chama a Adão, perguntando onde ele estava, e o homem responde que teve vergonha de encontra-lo pois estava nu.

Novamente Valentim se confunde.

“Por que Deus perguntou onde Adão estava? Ele não é onipresente?”.

- Dos versículos 14 ao 19 Deus impõe seu castigo à raça humana, mas o pior caiu sobre a serpente, que foi condenada a se arrastar sobre seu ventre e a comer do pó da terra. Em tom profético, Deus disse que colocaria inimizade entre a semente da serpente e a semente da mulher. “Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”.

“Por que Deus castigou a serpente se foi Satanás o culpado por tudo? Foi neste evento ou anteriormente que Satanás caiu do céu? Se foi antes, então esta é a evidência de que o Homem foi criado no meio de uma guerra espiritual?”, pergunta-se Valentim.

- “Maldita é a terra por causa de ti”, disse Deus a Adão. Por sua desobediência o pecado foi introduzido no mundo e hoje padecemos por seu erro cometido no passado. Mas hoje não precisamos mais lamentar sua queda. No versículo 21, Deus sacrificou um animal para vesti-los, cobrindo suas vergonhas com sua pele. Assim o sangue inocente os lavou de seus pecados. Ora, não foi este um ato precursor do sacrifício salvífico de Jesus Cristo, o santo cordeiro de Deus?

Então a congregação se anima, declarando aleluias. Mas Valentim permanece em silêncio, de braços cruzados enquanto pensa a respeito.

- No versículo 22, Deus disse em lamentação: “eis que o Homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal”. Com a introdução do pecado, o mal maculou o mundo. – explica ele – Deus expulsou Adão e Eva do Éden, como castigo. No versículo 24 Ele colocou um querubim em sua entrada, e uma espada flamejante guardando a árvore da vida. 

“Oh, então depois que o desastre estava feito Deus coloca alguma coisa para guardar o jardim do Homem?”, ironiza ele.

- Mas o paraíso estará novamente acessível à humanidade quando Jesus Cristo voltar ao mundo e leva-los ao Céu, onde viveremos com ele para todo o sempre. Amém!

Todos repetem o amém, batendo palmas e glorificando a Deus.

Encerrada a pregação, o padre e os auxiliares se preparam para realizar a Eucaristia. Valentim não se lembra bem, mas ouviu falar que os católicos acreditavam na transubstanciação da hóstia, uma santificação em que ela se transforma na real carne de Cristo. Como está escrito no Evangelho de Mateus, capítulo 26, versículos 26 ao 28.

O padre Frančišek se aproxima do sacrário e retira duas peças sagradas na liturgia católica, a píxide e o ostensório. A píxide é um cálice dourado onde se colocam as hóstias para serem consagradas no rito. O ostensório é uma peça dourada usada para apresentar as hóstias no altar e transporta-lo em procissões.

Apresentando a hóstia ao ostensório, o padre faz uma extensa e fervorosa oração. A igreja o acompanha, orando ajoelhados nos bancos de madeira. Valentim se ajoelha também, mas assiste em silêncio o procedimento no altar. Finada a consagração, os auxiliares formam filas e chamam os fiéis para participarem da Eucaristia. O padre oferece a primeira hóstia, uma pequeno pão circular branco. O fiel o recebe direto na boca, sem toca-lo. Ao voltarem para os seus bancos, os fiéis parecem engoli-lo sem mastiga-lo. Valentim se intriga.

Um auxiliar o vê de braços cruzados assistindo a tudo. Aproximando-se, ele pergunta:

- Com licença, o senhor não vai participar da Eucaristia?

Olhando para o jovem seminarista ao seu lado, ele responde:  

- Eu não posso. Ainda não recebi o crisma.

Valentim se referia à consagração dada aos fiéis após a conclusão do catecismo. Este sacramento chamava-se Confirmação.

- Ora, mas se sua fé for verdadeira, creio que não haverá problema em aceitar o corpo de Cristo. Afinal, o senhor já participa do catecismo, não é?

Um pouco sem jeito, ele responde:

-  Prefiro termina-lo primeiro.

- Mas pelo visto o senhor não vai.

Neste momento o diácono Izak aparece, olhando irritado para ele. Valentim vira a cabeça sorrindo, desprezando o jovem diácono.

- Deseja alguma coisa, diácono Izak?

- Não, obrigado. Só vim supervisionar a igreja para ver se estava tudo bem.

Claramente ele se referia a Valentim. Rude e questionador, Izak não ia deixa-lo tumultuar a igreja no meio da Eucaristia.  

Os auxiliares se afastam e Valentim fica sozinho, esperando a missa terminar. Minutos depois o padre os abençoa e os fiéis se levantam, indo embora aos poucos.

Valentim se dirige aos fundos para a sala de limpeza. Ele passa pelos fiéis pedindo orações e bênçãos ao padre. Ao pegar o balde e o esfregão, ele espera todos saírem para limpar o piso. Então algo acontece.

Frančišek o aborda e pergunta:

- Senhor Valentim, posso falar com o senhor?

Valentim se irrita.

“O que esse chantagista quer comigo, agora?”, pergunta-se ele.

- Pois não, padre?

Com olhar fixo e vigilante, Frančišek diz:

- Chegou ao meu conhecimento que o senhor provocou um tumulto nas aulas de catecismo. Isso é verdade?

- Não é assim que eu chamaria. – responde ele, impositivo – Eu só fiz alguns questionamentos. Não é para isso que estamos aqui? Para tirarmos as dúvidas quanto a doutrina cristã?

Frančišek balança a cabeça.

- Com blasfêmias, heresias e sacrilégios?

- Ora, não foi isso o que eu disse! – irrita-se ele – Mas se soou assim, o senhor não vai me queimar nas fogueiras da Inquisição, não é mesmo?

Frančišek se mantém sério, não achando a menor graça da piada.

- Senhor Valentim, esta catedral é um lugar santo e não um lugar para a disseminação do pecado.

- Como o jardim do Éden? – pergunta ele.

Os auxiliares e os fiéis arregalam os olhos, estarrecidos com sua ousadia. Ao longe, Izak corava de raiva.

- Que sacrilégio é esse?! – exclama Frančišek .

- Não é nenhum sacrilégio, padre. O Éden não era um lugar santo, tão santo que os seres humanos podiam andar nus? Então por que Deus permitiu a presença da serpente? Deus não é onisciente? Se sim, Ele não sabia que, ao permitir Satanás disfarçado, ele iria tentar o homem e induzi-lo a pecar?

As pessoas na catedral pensam a respeito, dando razão a Valentim. Prevenindo uma onda de apostasia, o padre responde:

- Não exatamente. Deus limitou sua onisciência para respeitar as limitações da raça humana, como um pai criando um filho.

Valentim se indigna.

- Como pode ser isso?! Pode alguém suspender a razão para se comportar como um animal? E mesmo que o imite, não saberá em seu íntimo que está apenas fingindo?     

Novamente suas palavras fazem sentido. Frančišek responde:

- Meu filho, Deus pode fazer o que quiser. Ele é onipotente, como já deve saber.

- Então por que o mal existe?

Todos se espantam.

- O que quer dizer?

- Não foi o senhor mesmo que disse que “o Homem se tornou como Deus, conhecendo o bem e o mal”. Ora, então quem criou o mal? – pergunta ele – Satanás o criou ou ele sempre esteve lá, apenas prevenido da raça humana até Satanás aparecer e fazer-nos pecar?

Todos se confundem. Segundo Valentim, a Criação sempre envolveu o mal, antecedendo até o surgimento dos anjos.

- Isso é absurdo! – indigna-se Frančišek.

- Após a queda do Homem, a Terra se tornou o paraíso dos ímpios e o inferno dos justos. Diga-me, padre, isto é justiça? – pergunta ele – E tudo porque Deus permitiu o sacrilégio de seu jardim pela presença da serpente...

- É verdade. – concorda um fiel.

- Deus é onipresente, Ele viu Satanás se infiltrando. Deus é onisciente, Ele sabia de suas intenções. Deus é onipotente, Ele podia tê-lo impedido. E Ele não o fez! – exclama ele – O seu “mito” da Criação não faz sentido! Por que Deus permitiria um anjo rebelde se pendurando em uma de suas árvores mais sagradas?! – pergunta ele, referindo-se à árvore do bem e do mal – E por que, só após a introdução do pecado, foi que Ele guardou suas posses mais importantes?

Então o padre se silencia. Ao olhar ao redor, ele nota que todos estavam em silêncio, ponderando nas palavras de Valentim. Frančišek sorri.

- Vejo que o senhor é muito questionador para um operário das fábricas... – responde ele, tentando desqualifica-lo – Mas responda-me uma coisa, meu filho. O senhor colocaria um filho rebelde para fora de casa?

Estranhando a pergunta, ele responde:

- Eu não tenho filhos.

- Mas se tivesse, o senhor o expulsaria?

Valentim pensa. Ter um filho era tudo o que havia de mais importante para Danica. Por muitos anos foi o seu sonho, mas infelizmente a vida não lhe deu esta bênção.

- O que quer dizer?

- Se um filho fizer algo errado, o senhor o castiga. Se ele fizer algo muito errado, o senhor o castiga mais firmemente. Mas se ele pecar contra a tua face e o senhor tiver de expulsa-lo de casa, não significa que o senhor deixou de ama-lo, mas que o senhor espera que ele se arrependa de seus pecados e se reconcilie.

Ponderando, ele responde:

- Talvez.

- Adão e Eva pecaram, mas Deus não se apartou deles, pois esteve com Caim e Abel fora do Éden. O filho pródigo, na famosa parábola, não foi abandonado pelo pai; ao contrário, foi recebido com honrarias ao retornar para casa. Nós mesmos, da atual geração, também não fomos abandonados, pois Deus enviou o seu único Filho para a remissão dos nossos pecados. – argumenta ele – Mas todos igualmente pecamos, pois como o senhor mesmo disse, o mal surgiu no momento da Criação. Foi necessário um tentador para macular-nos.

Então todos dão razão ao padre, em detrimento de Valentim.

- Aonde o senhor quer chegar?

- Talvez Deus esperasse que Satanás se arrependesse também. Talvez Ele o tolerasse porque o queria de volta no paraíso. Talvez ele ainda o ame apesar de sua rebelião.

Valentim se recusa a concordar.

- Então Deus permitiu que um ser superior, um anjo caído, tentasse uma raça inferior, a humanidade, causando o maior desastre desde a Criação do qual nós até hoje padecemos? – pergunta ele – E tudo isso por puro amor de Pai?

- Talvez, se minha teoria estiver correta. De qualquer forma, isso só evidencia a infinita misericórdia do nosso Deus.            

Meneando negativamente a cabeça, Valentim discorda de tudo.

Os auxiliares e fiéis o rodeiam, pedindo permissão para orar por ele. Valentim nega; ele não estava com a menor paciência para o fanatismo de igreja. O padre diz:

- Vejo que o senhor está muito atribulado, meu filho. Deixe os serviços de limpeza por hoje. Vá para casa e descanse um pouco. Se quiser, nossos auxiliares lhe servirão comida antes de ir.

Comida era a única coisa que ele aceitaria ali.

- Está bem.

- Mas peço que reflita em nossa conversa mais tarde. Pense no que falamos. – pede ele – Espero que a Nossa Senhora o ajude a encontrar a paz de espírito que seu coração tanto precisa. In nomine Patris, et Filii, et Spiritu Sancti, amém.

“Amém”, repetem os fiéis.

Então Valentim abaixa sua cabeça e vai embora.

 

§

 

Passando pelas ruas ensolaradas, ele volta para casa. De fato Valentim estava tribulado, como Frančišek disse. Ele pensa:

“Como eles podem acreditar nessa história?”, pergunta-se ele. “Jardim do Éden, Adão e Eva, uma cobra falante...?”.

Ele chuta um pedrinha no chão.

“Deus sabe tudo, incluindo o futuro. Por que Ele permitiu que Satanás os tentasse e introduzisse o pecado no mundo?”.

As carruagens passam ao seu lado, provocando os ruídos dos cavalos.

“Deus criou o mal, mas o preveniu dos seres humanos. O mal sempre existiu”.

Estava uma bela manhã de domingo e as crianças brincavam nas ruas.

“Nós fomos criados no meio de uma guerra espiritual sim! E Satanás quis arregimentar a raça humana em seu engano!”, enfurece-se ele. “Por que Deus o lançou aqui para habitar a Terra conosco?”.

O dono de uma mercearia conversa com seus clientes. Lembrando-se que lhe deve dinheiro, Valentim vira seu rosto.

“Toda essa miséria no mundo podia ter sido evitada se esse anjo maldito tivesse sido banido para outro mundo. Ou para o quinto dos infernos, que é o seu lugar!”.

Os guardas caminhavam tranquilamente, realizando o seu serviço.

“E agora sofremos a miséria e a injustiça porque, segundo Frančišek, Deus amou inclusive ao diabo, esperando que ele se arrependesse e abandonasse o seus erros. Mas não foi isso o que aconteceu”, reconhece ele. “Como Deus pôde tolera-lo em sua casa?”.  

E assim Valentim prosseguia em seu caminho, culpando a Deus por seu infinito amor.

Ao chegar em casa, Valentim respira fundo e abre a porta. Ele estava cansado; a semana foi humilhante demais para ele.

Pegando o pão em seu bolso, ele o reparte e o serve para Orfeu. O gato come rapidamente. Valentim se entristece; Orfeu o fazia se lembrar de Danica. Sua esposa o resgatou em uma noite fria. Em sua casa não havia nenhuma fartura, mas era um lugar em que o gato podia fazer o seu lar.

- Ah, minha Danica... – sussurra ele, chorando – Onde é que você está?

Danica tinha um bom coração e não deixaria Orfeu morrer de frio. Valentim acha que ela errou em adota-lo. Por sua causa eles dividiam a comida e o gato sujava toda a casa, inclusive a poltrona de Valentim. Apesar de tudo ele não podia expulsa-lo. Agora ele também o amava.   

Ainda de cabeça quente, ele pensa:

“Como Deus tolerou Satanás no Éden?”.

Então ele se vira e se dirige à sala. Intentando sentar na poltrona, ele se aproxima e a encontra cheia de pelos. Irritando-se, ele diz:

- Como eu ainda tolero esse gato em minha casa?!

Valentim finalmente se senta. Enquanto relaxa, Orfeu pula de repente em seu colo e se deita, ronronando até dormir carinhosamente. Novamente espantado com seu atrevimento, ele intenta expulsa-lo com violência, mas então ele percebe. Apesar dos erros, não se pode expulsar quem se ama.

Então a surpresa o atropela e se explode em sua mente.

Apoiando com as mãos o seu rosto, ele respira fundo e se convence, arrependido de seu erro.

Valentim havia aprendido uma lição aquele dia.

 

   

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