(Arte do game Blood 2: The Chosen)
Sentado em sua
poltrona, Valentim reflete sobre o dia anterior. A sol se levanta lá fora e a
nova manhã chega. Os trabalhadores passam apressados pelas ruas, aqueles
sortudos o bastante por terem trabalho.
Orfeu passa entre
suas pernas, pedindo comida. Valentim se entristece. Ouvindo os roncos de seu
próprio estômago, ele também estava com fome.
De repente ele
ouve uma voz conhecida. Alguém passava por sua porta enquanto conversava
normalmente. Valentim se levanta e corre para abri-la.
- Senhora Albina!
– chama ele – Espere!
A mulher olha
para trás e se assusta. Valentim a abordava apenas de pijamas na porta de sua
casa.
- Valentim? –
intriga-se ela – Não esperava encontra-lo assim.
O homem se cobre,
constrangido.
- Perdoe-me,
senhora Albina. Eu sou mesmo um trapalhão.
- Eu passei aqui
há um hora. Joguei pedrinhas em sua janela, mas o senhor não acordou. Pensei
que já estivesse na fábrica.
- Não estava. Na
verdade, eu não trabalho mais lá. Eu fui demitido, ou melhor, pior do que
demitido. Eu fui banido de trabalhar em qualquer fábrica inglesa novamente.
A mulher não
compreende.
- O que quer
dizer?
- Eu agredi o
encarregado da fábrica. Eu o golpeei com um golpe de facão. Juro que não foi
minha intenção, mas ele me insultou! Como castigo eu fui demitido e banido de
trabalhar novamente. O próprio dono me assegurou isso.
Albina meneia
negativamente a cabeça.
- Ah, Valentim...
Desde menino arrumando confusão...
- Eu sei que isso
não é problema seu, mas eu estou desamparado agora. Estou sem trabalho e não
tenho o que comer. Aquele burguês maldito se recusou a me pagar pelos dias
trabalhados e não poderei saldar minhas dívidas nas mercearias. Além disso,
minha Danica está desaparecida e há rumores de que a cidade está ficando louca!
Não tenho mais o que comer e a fome atormenta inclusive o meu gato. Rogo à
senhora que me ajude! Ou me revele alguém que possa me ajudar...
Albina arregala
os olhos, desconcertada.
- O senhor não
tem mais o que comer? – duvida ela.
Valentim sempre
achou meio estranho ela chama-lo de senhor. A diferença de idade dos dois era
de quase trinta anos. De qualquer forma, ele via aquilo como um sinal de
educação, algo que ele mal teve.
- Sim.
- Pois deixe-me
ver como está a situação em sua casa.
Permitindo-a,
Valentim a recebe e a conduz pelo interior. Ao passarem pela sala ele vê Orfeu
deitado em sua poltrona e se irrita. Querendo passar uma boa impressão à
mulher, ele não diz nada.
Albina chega à
cozinha e olha ao redor. Era uma cozinha escura, com um forno cheio de fuligem,
e panelas penduradas no teto. Valentim se adianta e abre os armários; eles
estavam vazios e esgotados de alimentos.
- Como pode ver,
eu não tenho comida. Temo que ficarei dias sem comer!
A mulher assente
e volta para a sala. Ao olhar para a poltrona, ela encontra o gato. Orfeu se
levanta e se estica, despreguiçando-se. Em seguida o gato mia e passeia entre
suas pernas, parecendo pedir algo.
- Vejo que
realmente ele está com fome. – constata ela.
- É verdade. –
confirma ele – Nós dois estamos.
Albina caminha
até a porta e pergunta:
- Que cheiro é
esse?
Envergonhado, ele
responde:
- É a poeira. Eu
não sei fazer os serviços domésticos, senhora Albina. A casa está suja por
minha culpa...
- Não. – discorda
ela – Falo de outro cheiro. Eu inclusive o sinto no senhor.
Valentim não sabe
do que ela está falando. Albina caminha de volta e, passando por aquela cozinha
escura, encontra na lavanderia o tanque de lavar roupas. Em um pilha de roupas
sujas, ela aproxima o nariz e diz:
- Aqui! Este é o
cheiro de que estou falando.
O homem revira a
pilha de roupas. Então eles podem ver. As roupas brilhavam no escuro.
- Oh, isto...? –
esclarece ele – Este cheiro é de Plasma.
- O senhor andou
se banhando com isto? – brinca ela.
- Não. Na fábrica
é normal o manuseio do Plasma. Todas as noites eu voltava com a substância
respingada em meu corpo.
A mulher assente
e eles retornam à sala.
Parando próximo à
porta, ela diz:
- Senhor
Valentim, eu verei o que... – então ela vira o pescoço rapidamente.
De olhos
arregalados, Albina olhava fixamente para a escada que dava acesso ao quarto.
Valentim se intriga, pois ela parecia assustada com alguma coisa.
- Senhora Albina?
A senhora está bem?
A mulher continua
calada, petrificada de medo. Então o homem respeitosamente sacode o seu ombro,
despertando-a de seu transe.
- Oh, me
desculpe... – responde ela, confusa – Senhor Valentim, há mais alguém aqui?
- Não, por quê?
- Tive a
impressão de ter ouvido passos lá em cima. E também ouvi alguém dizer... – de
repente ela se vira, como se estivesse espantando algo de suas costas – Senhor
Valentim, ouça-me. Procure uma igreja, a Catedral de Liubliana, na verdade. Lá
eles poderão ajudá-lo...
- A catedral? –
pergunta ele – Mas por quê?
- Eles prestam
serviços sociais e... – algo a incomodava profundamente – Eles oferecem ajuda
aos necessitados. – encerrando repentinamente a conversa, ela diz – Adeus,
senhor Valentim. Espero ter ajudado.
Abrindo a porta
ela mesma, Albina se agarra ao seu casaco e imediatamente deixa aquela casa.
Valentim se
intriga. Parado na soleira, ele vê a mulher indo embora e não sabe que lhe
aconteceu. Mas Albina sabe muito bem; uma presença maligna havia parado em suas
costas. Com uma voz vinda direto das profundezas, algo sussurrou em seus ouvidos:
“Saia!”.
§
Mais tarde,
Valentim chega à Catedral de Liubliana. De fato, faziam anos desde sua última visita
naquele lugar. Ele se lembra pesarosamente de ter sido ali, em seus sacros espaços,
que ele via Irena pela primeira vez.
“Ou não foi a
primeira vez, já que éramos amigos de infância e eu não me lembrava”.
Suas opiniões
sobre religião não eram favoráveis. Valentim tinha pesadas críticas à Igreja.
Por trás da instituição caridosa e filantrópica, havia um ganancioso poder que
derrubou reis, empreendeu guerras santas e matou milhares de inocentes. Ele
nunca leu uma única página da Bíblia, mas se tivesse saberia que os atos da
Igreja eram diametralmente opostos às palavras de Cristo.
Adentrando o
salão, ele caminha até o requintado altar à sua frente. Nele ele vê estátuas da
Sagrada Família com a de Jesus Cristo no meio. Algo chama a sua atenção. Cristo
era representado de maneira brutal, de braços abertos e pregado na cruz. Torturado
e flagelado, haviam cortes e escoriações espalhados pelo seu corpo. Olhando
para a sua face abatida e cheia de lágrimas, Valentim sarcasticamente pensa:
“O Senhor tinha de
avisa-los que já ressuscitou...”.
O padre e seus
auxiliares conversavam próximo ao sacrário; ele usava uma batina preta, um
manto roxo sobre os ombros e uma faixa roxa em sua cintura. O padre também
usava um colar de crucifixo no pescoço e, em sua cabeça, ele vê um típico
chapéu dos clérigos romanos.
Aproximando-se,
Valentim ouve a conversa. Um auxiliar informa o padre que alguém se matou
ateando fogo em si mesmo. Ao invés de se consternar com sua morte, o padre sussurra
para si mesmo:
- Outro
suicídio...
Os auxiliares
debatiam se o falecido deveria ou não receber a extrema-unção. O padre se nega,
pois para a Igreja o suicídio era pecado e os suicidas não podiam receber o
sacramento. Entretanto os auxiliares ponderam se negariam suas condolências aos
familiares.
Vendo o operário
parado ali, eles interrompem sua conversa e olham para ele. O padre diz:
- A paz de Deus, meu
filho. O que deseja?
Um pouco sem
jeito, Valentim responde:
- A bênção,
padre. Eu...
- Deus te
abençoe. – interrompe ele.
Valentim se
constrange.
- Bem... Eu... – hesita
ele – Perdi o emprego e estou endividado por toda a cidade. Minha esposa está
desaparecida e eu não sei o que fazer. Não tenho mais comida, minha última
refeição foi ontem à tarde... – explica ele – Uma amiga me disse que a Igreja
ainda fazia caridade para com os necessitados. Inclusive minha esposa já
recebeu doação de alimentos aqui antes. Eu gostaria de saber se Vossa Santidade
poderia me ajudar, pois não tenho mais o que comer!
Ao ouvi-lo, o
padre pondera. Valentim pode notar que, apesar de padre, sua aparência era bem
austera.
- Como se chama,
meu filho?
- Valentim,
senhor.
Olhando para seus
auxiliares, o padre diz:
- Deixem-nos, por
favor. Trataremos deste assunto depois.
Um auxiliar
responde:
- Como desejar,
padre Frančišek.
Descendo os
degraus do altar, o padre se aproxima e Valentim pode ver que seus cabelos eram
todos brancos. E então o padre diz:
- Senhor
Valentim, eu te agradeço por procurar esta instituição para ajudá-lo, mas devo te
alertar de uma coisa: as asas de Lúcifer se estenderam sobre Liubliana, pois suas
trevas estão sobre nós.
Valentim se
assusta com sua poética, embora dramática, afirmação.
- O que houve,
padre?
- A igreja tem
tido muito trabalho ultimamente. Diariamente aparecem casos de mortes em nossa
administração.
- Mortes?
- Assassinatos,
suicídios e massacres pela cidade. Além disso, recebemos notícias de roubos,
sequestros e espancamentos bárbaros entre os cidadãos. Os hospitais estão
lotados e não temos recursos para tratar a todos.
Valentim se
lembra que os hospitais de Carníola pertenciam à Igreja. Seus funcionários eram
seminaristas e freiras dos conventos.
- Então está
dizendo que não poderá me ajudar?
- Ao contrário! Esta
instituição se compromete a ajuda-lo, mas em nome dela eu te peço algo em
troca.
- E o que seria?
- A conversão.
Valentim se
assusta novamente. Intrigando-se, ele pergunta:
- Por que está me
pedindo isso?
- Eu realmente
não sei o que está acontecendo em Liubliana, mas sendo integrante de uma
instituição eclesiástica a minha vida inteira, eu só posso recomendar uma coisa:
essas pessoas precisam de Deus. – afirma ele – As invenções, os maquinários e a
indústria trouxeram avanços maravilhosos para a sociedade, mas ao custo da
religião e da fé. Não permitirei que o amor ao próximo se esfrie. A fé em Deus
não pode ser abalada pelo avanço tecnológico da indústria. É minha
responsabilidade que minha congregação subsista!
Um pouco confuso,
Valentim responde:
- Mas padre, eu
já sou convertido. Minha família era toda católica, apesar de não sermos
frequentadores da igreja.
- O inferno é o lugar dos não praticantes!
– brada ele, ecoando pelo salão – As portas do inferno estão abertas! E para
que a Igreja prevaleça, é necessário que a congregação se reúna!
Valentim não
consegue acreditar no que ouve.
- Está me obrigando
a frequentar as missas aos domingos?! – indigna-se ele.
- Exatamente. – impõe-se
o padre.
- Isto me parece
uma chantagem, uma prisão pelo estômago!
- Oh, isto não é
nenhuma prisão, meu filho... Estou tentando salvar a tua alma! Não quero que o
senhor, que é uma ovelha desta Igreja, seja tragada pelo lobo lá fora. O senhor
está passando fome, mas lembre-se que Jesus é o pão da vida; aquele que vem a
Ele jamais terá fome, e aquele que nele crê jamais terá sede!
O padre citava o
Evangelho de João capítulo 6, versículo 35.
Com olhar fixo, o
padre sorria obsessivamente. Desconfortável, Valentim pergunta:
- Se eu voltar a
frequentar a igreja, o senhor me dará comida?
- Se o senhor
comparecer às missas, voltar ao catecismo, receber a confirmação pelo crisma e
participar da Eucaristia, o senhor poderá comer com os mendigos no lado de fora.
- Comer com os
mendigos?! – exclama ele – Padre Frančišek, creio que não fui claro quanto a
minha situação! Eu não tenho tempo para o seu catecismo! Minha esposa está
desaparecida e eu tenho que procura-la! Além do mais, eu não sou nenhum
indigente!
- Mas está como
eles, agora. Sem o seu emprego, o senhor terá tempo para o catecismo. E o
senhor não tem o que comer. O que resta em sua vida miserável de ovelha
perdida?
Novamente o padre
citava uma passagem bíblica, no capítulo 10 do Evangelho de João.
- Está bem. –
desiste ele – Eu farei o que for preciso para sobreviver.
Valentim mentia. Agora
sua vida era exclusivamente dedicada a encontrar Danica. Mas ele precisava de
tempo para pensar.
- Não, meu filho!
O senhor não apenas irá sobreviver neste mundo, como também receberá a Vida
Eterna! Aleluia!
Frančišek abre os
braços e olha para cima, louvando a Deus. Valentim dá as costas e vai embora,
deixando aquele louco para trás.
“Realmente as ‘asas
de Lúcifer’ estão sobre a cidade, pois a loucura parece ter dominado inclusive
a cabeça deste lunático...!”.
§
Anoitecia em
Liubliana. O vento sopra frio e Valentim esfrega os seus braços para se aquecer.
Então ele percebe algo. Manchas esverdeadas estavam em sua pele. Observando-as,
ele reconhece aquela coloração: Plasma.
As ruas estavam
movimentadas aquela tarde. Passando por um parque, ele vê uma mãe com seu bebê
sentada em frente a um lago. De repente pensamentos diabólicos inundam a sua
mente.
“E se eu tomasse
o bebê de seus braços e o lançasse no lago, simplesmente para vê-lo se
afogar?”.
Valentim arregala
os olhos.
- Meu Deus! O que
deu em mim?!
Apressando o
passo, ele deixa o parque. Valentim chega às ruas e encontra mais crianças pelo
caminho. Elas esperavam as carruagens passarem para atravessar. Então ele
pensa:
“Como eu gostaria
de empurra-las para debaixo dos cavalos. Eles passariam por sobre os seus
corpos, esmagando seus frágeis ossinhos...”.
“Eu poderia
amarra-las nas carruagens e arrasta-las pela cidade. Suas peles se esfolariam, tornando-se
carne viva no pavimento pedregoso...”.
Valentim gargalha
involuntariamente. As pessoas olham para ele e se intrigam, não entendendo do
que ele ria. Constrangido, ele se vira e se afasta para longe.
Os pensamentos
ficam mais intensos. Valentim caminhava ofegante e apressadamente. De repente
alguém na calçada fala com ele.
- Ei, amigo. Tem
uma moeda para me dar?
Deitado sob um
sujo cobertor, um mendigo falava com ele. Sem nenhuma razão, Valentim sente
vontade de chuta-lo e pisoteá-lo sob os seus pés. Seu ódio era tanto que
Valentim queria esmaga-lo, achatando sua face até seus olhos saltarem do
crânio.
- Meu Deus! –
exclama ele.
Valentim foge,
intrigando o velho mendigo.
Suando frio, ele
percorria as ruas movimentadas. A noite se aproximava e os acendedores acendiam
os postes. Em suas costas eles portavam frascos contendo sua reserva de Plasma.
Os acendedores abasteciam os postes a medida que eles apagavam, como se fossem
lamparinas. Valentim conhece a volatilidade do Plasma, ele trabalhou muito com
ele na fábrica. Seria necessário apenas uma fagulha para incendiá-lo, como as
cinzas de um cigarro.
Um transeunte
passa com um cigarro em sua boca. Então Valentim pensa:
“Se eu for rápido,
eu tiro o cigarro de sua boca e o lanço no frasco do acendedor. A chama se
formará e ele será cremado vivo, gritando e esperneando até seu corpo se
parecer um graveto retorcido pelo fogo”.
Em um impulso, Valentim
avança contra o homem e tenta tirar o cigarro de sua boca. Assustando-se, o
homem exclama:
- Meu senhor!
Afaste-se!
As pessoas olham
para ele e Valentim se vê obrigado a fugir mais uma vez.
Os pensamentos
reverberam em sua mente como trovões. Eles se intensificam a ponto dele conseguir
ouvi-los.
- São vozes...?!
– desespera-se ele.
Entrando em um
beco, a penumbra cobre o seu corpo. De repente ele ouve um grito estridente;
uma mulher chorava ao longe.
Valentim se
aproxima e vê uma senhorita de vestido e cabelos negros. Ele se espanta; a
mulher lembrava Danica quando era mais jovem.
- Meu senhor! Por
favor me ajude! Eu fui roubada!
Perturbado profundamente,
ele responde:
- Lamento… Eu não
posso ajuda-la...
- O senhor não entende! Meu dinheiro estava em minha casa! Se
eu não recupera-lo, eu não poderei pagar o aluguel!
- Mas eu…
Então a mulher se
encosta em seu peito e chora tristemente. Valentim se apavora.
“Veja como ela
está frágil e submissa à vontade de estranhos. Como eu gostaria de estraçalhar
sua esperança espancando-a sem piedade!”.
- Disse alguma
coisa, senhor…?
Intrigada, a
mulher enxugava seus olhos. Então o impulso domina sua mente.
Valentim dá um
soco em seu rosto. A mulher grita e cai no chão, atordoada. Em seguida ela se
vira e olha para ele, confusa. Sangue se escorria de seus lábios.
- Por que fez
isso?! – grita ela.
Possuído pelos
pensamentos, Valentim se agacha e a soca novamente. Estimulado pela violência,
ele bate de novo, e de novo e de novo. A mulher tenta se defender, mas é
subjugada pela sua força.
Finado o
espetáculo, a mulher gemia no chão. Seu nariz estava quebrado e amassado para o
lado. Seus lábios estavam cortados e inchados. Ao redor de seus olhos, o sangue
se escorria das lacerações; a pele da face não suportou a fúria de seus golpes.
Valentim se
extasia. Tocando o sangue quente da mulher, ele o esfrega em seu rosto. Como um
pervertido, ele o lambe de seus dedos. A mulher sangrava intensamente; ele pode
ver seus dentes afundados em sua boca. Mas aquilo ainda não lhe era o suficiente.
Olhando para o
lado, Valentim encontra um tijolo de cerâmica. Pegando-o, ele o levanta e se
prepara para esmagar brutalmente o seu crânio. Valentim estava tomado pelos
pensamentos sinistros. Agora ele queria saber a sensação de matar alguém.
E então ele a
golpeia.
De repente alguém
sacode o seu corpo, dizendo:
- Ei, acorde! O
que há de errado com você?!
Valentim acorda
de seu transe e se espanta. A mulher falava irritada com ele.
- O que está havendo, senhora?
Mais homens aparecem
e se oferecem para ajudá-la. A mulher explica o ocorrido e Valentim aproveita a
situação para se afastar dali. Tudo foi só um devaneio.
Ao ver sua casa
ao longe, ele arduamente sorri. Ele pega a chave em seu bolso e algo chama a
sua atenção. Seus braços brilhavam. As
manchas de Plasma ainda estavam em seu corpo, contaminando-o com sua profanação.
Fechando a porta
atrás de si, ele ofega constantemente.
“O que houve
comigo?! Que pensamentos foram aqueles?!”.
Valentim corre até
a cozinha e enche as panelas de água. Ele pretendia encher sua banheira e
imediatamente se lavar daquela substância maldita.
Os pensamentos
não paravam. Pressionando sua cabeça, ele tenta se livrar daquele tormento.
Valentim se sentia um psicopata pervertido; um maníaco capaz de matar friamente
por diversão.
Lembrando-se que
Danica estava desaparecida, ele pensa como seria fácil trazer vítimas para a sua
casa. Ele poderia disseca-las na mesa de jantar, e então cozinha-las e
comê-las, e seu sangue ele beberia como vinho.
“Como uma
profanação da Santa Ceia, maculada por sacrilégios!”, pensa ele.
“E as mulheres eu
estupraria continuamente. Eu as amarraria em minha cama e as abusaria dia após dia,
até elas definharem e morrerem por inanição”.
- Um monstro! –
espanta-se ele – Eu sou um maldito monstro!
Enquanto a água
se aquece, uma ideia vem à sua mente.
“Pegue o gato e
lance-o aí dentro. Veja-o se contorcer na água fervente!”.
Tremendo, ele
olha para a sala e caminha lentamente.
- Orfeu? – chama
ele – Você está aí?
Deitado em sua
poltrona, o gato olha para ele.
- Venha cá,
Orfeu. Eu tenho uma coisa para você.
O gato estranha o
comportamento de seu dono. Valentim nunca era amigável assim. Então Orfeu se
levanta e corre pela sala.
- Ora, o que você
está fazendo, seu gato imprestável?! Você não quer comida? Eu tenho comida para
você!
Mas Orfeu o
ignora e foge, subindo as escadas.
- Não fuja,
gatinho! Isso só piorará as coisas!
Valentim o segue
e chega ao seu quarto. Percorrendo o local com o olhar, ele não o encontra em
lugar algum.
- Eu sei que você
está aí! Esta é minha casa! Eu sei onde você se esconde!
De repente ele
vira sua cama e o surpreende debaixo do colchão. Acuado, o gato exibe seus
dentes. Valentim tenta apanha-lo, mas o gato se esquiva e o arranha, fazendo-o
gritar.
- Gato maldito! –
vocifera ele.
Orfeu corre pelo
quarto. Valentim abre seus cobertores e o lança sobre ele, fazendo-o se prender
nos tecidos.
Segurando o
cobertor como um saco, Valentim desce tranquilamente as escadas. O gato miava e
se debatia, mas nada conseguia fazer para escapar. Seus comoventes miados eram
tão altos que ele chorava.
Na cozinha, a
água borbulhava tanto que emitia ruídos. Vozes atormentavam o homem, totalmente
tomado pelos intentos malignos.
Valentim para em
frente à agua fervente. Ao abrir os cobertores, ele é surpreendido com Orfeu
avançando contra seu rosto com a força de quem quer sobreviver. O gato o
arranha e pula por sobre as suas costas, desequilibrando-o e fazendo-o se
esbarrar contra uma panela. A água se espirra e cai em seu peito.
- Oh, meu Deus! – exclama ele.
A água queima sua
pele, fazendo-o uivar de dor. A agonia e o pânico o torturam, acordando-o
abruptamente. Assim Valentim sai de seu
transe, dolorido e confuso com tudo o que aconteceu.
Orfeu havia
fugido pela janela. Rapidamente Valentim tira as panelas do fogo e se afasta. Suas
pernas tremem e, perdendo as forças, ele se senta no chão, paralisando-se por
alguns minutos.
Em seguida, Valentim
apoia a cabeça nos braços e chora, arrependido com o que acabara de fazer.

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