domingo, 22 de maio de 2022

Liubliana - 11 - Monstro

 


(Arte do game Blood 2: The Chosen)

 

Sentado em sua poltrona, Valentim reflete sobre o dia anterior. A sol se levanta lá fora e a nova manhã chega. Os trabalhadores passam apressados pelas ruas, aqueles sortudos o bastante por terem trabalho.

Orfeu passa entre suas pernas, pedindo comida. Valentim se entristece. Ouvindo os roncos de seu próprio estômago, ele também estava com fome.

De repente ele ouve uma voz conhecida. Alguém passava por sua porta enquanto conversava normalmente. Valentim se levanta e corre para abri-la.

- Senhora Albina! – chama ele – Espere!

A mulher olha para trás e se assusta. Valentim a abordava apenas de pijamas na porta de sua casa.

- Valentim? – intriga-se ela – Não esperava encontra-lo assim.

O homem se cobre, constrangido.

- Perdoe-me, senhora Albina. Eu sou mesmo um trapalhão.

- Eu passei aqui há um hora. Joguei pedrinhas em sua janela, mas o senhor não acordou. Pensei que já estivesse na fábrica.

- Não estava. Na verdade, eu não trabalho mais lá. Eu fui demitido, ou melhor, pior do que demitido. Eu fui banido de trabalhar em qualquer fábrica inglesa novamente.

A mulher não compreende.

- O que quer dizer?

- Eu agredi o encarregado da fábrica. Eu o golpeei com um golpe de facão. Juro que não foi minha intenção, mas ele me insultou! Como castigo eu fui demitido e banido de trabalhar novamente. O próprio dono me assegurou isso.

Albina meneia negativamente a cabeça.

- Ah, Valentim... Desde menino arrumando confusão...

- Eu sei que isso não é problema seu, mas eu estou desamparado agora. Estou sem trabalho e não tenho o que comer. Aquele burguês maldito se recusou a me pagar pelos dias trabalhados e não poderei saldar minhas dívidas nas mercearias. Além disso, minha Danica está desaparecida e há rumores de que a cidade está ficando louca! Não tenho mais o que comer e a fome atormenta inclusive o meu gato. Rogo à senhora que me ajude! Ou me revele alguém que possa me ajudar...

Albina arregala os olhos, desconcertada.

- O senhor não tem mais o que comer? – duvida ela.

Valentim sempre achou meio estranho ela chama-lo de senhor. A diferença de idade dos dois era de quase trinta anos. De qualquer forma, ele via aquilo como um sinal de educação, algo que ele mal teve.

- Sim.

- Pois deixe-me ver como está a situação em sua casa.

Permitindo-a, Valentim a recebe e a conduz pelo interior. Ao passarem pela sala ele vê Orfeu deitado em sua poltrona e se irrita. Querendo passar uma boa impressão à mulher, ele não diz nada.

Albina chega à cozinha e olha ao redor. Era uma cozinha escura, com um forno cheio de fuligem, e panelas penduradas no teto. Valentim se adianta e abre os armários; eles estavam vazios e esgotados de alimentos.

- Como pode ver, eu não tenho comida. Temo que ficarei dias sem comer!

A mulher assente e volta para a sala. Ao olhar para a poltrona, ela encontra o gato. Orfeu se levanta e se estica, despreguiçando-se. Em seguida o gato mia e passeia entre suas pernas, parecendo pedir algo.

- Vejo que realmente ele está com fome. – constata ela.

- É verdade. – confirma ele – Nós dois estamos.

Albina caminha até a porta e pergunta:

- Que cheiro é esse?

Envergonhado, ele responde:

- É a poeira. Eu não sei fazer os serviços domésticos, senhora Albina. A casa está suja por minha culpa...

- Não. – discorda ela – Falo de outro cheiro. Eu inclusive o sinto no senhor.

Valentim não sabe do que ela está falando. Albina caminha de volta e, passando por aquela cozinha escura, encontra na lavanderia o tanque de lavar roupas. Em um pilha de roupas sujas, ela aproxima o nariz e diz:

- Aqui! Este é o cheiro de que estou falando.

O homem revira a pilha de roupas. Então eles podem ver. As roupas brilhavam no escuro.

- Oh, isto...? – esclarece ele – Este cheiro é de Plasma.

- O senhor andou se banhando com isto? – brinca ela.

- Não. Na fábrica é normal o manuseio do Plasma. Todas as noites eu voltava com a substância respingada em meu corpo.

A mulher assente e eles retornam à sala.

Parando próximo à porta, ela diz:

- Senhor Valentim, eu verei o que... – então ela vira o pescoço rapidamente.

De olhos arregalados, Albina olhava fixamente para a escada que dava acesso ao quarto. Valentim se intriga, pois ela parecia assustada com alguma coisa.  

- Senhora Albina? A senhora está bem?

A mulher continua calada, petrificada de medo. Então o homem respeitosamente sacode o seu ombro, despertando-a de seu transe.

- Oh, me desculpe... – responde ela, confusa – Senhor Valentim, há mais alguém aqui?

- Não, por quê?

- Tive a impressão de ter ouvido passos lá em cima. E também ouvi alguém dizer... – de repente ela se vira, como se estivesse espantando algo de suas costas – Senhor Valentim, ouça-me. Procure uma igreja, a Catedral de Liubliana, na verdade. Lá eles poderão ajudá-lo...

- A catedral? – pergunta ele – Mas por quê?

- Eles prestam serviços sociais e... – algo a incomodava profundamente – Eles oferecem ajuda aos necessitados. – encerrando repentinamente a conversa, ela diz – Adeus, senhor Valentim. Espero ter ajudado.

Abrindo a porta ela mesma, Albina se agarra ao seu casaco e imediatamente deixa aquela casa.

Valentim se intriga. Parado na soleira, ele vê a mulher indo embora e não sabe que lhe aconteceu. Mas Albina sabe muito bem; uma presença maligna havia parado em suas costas. Com uma voz vinda direto das profundezas, algo sussurrou em seus ouvidos:

“Saia!”.

 

§

 

Mais tarde, Valentim chega à Catedral de Liubliana. De fato, faziam anos desde sua última visita naquele lugar. Ele se lembra pesarosamente de ter sido ali, em seus sacros espaços, que ele via Irena pela primeira vez.

“Ou não foi a primeira vez, já que éramos amigos de infância e eu não me lembrava”.

Suas opiniões sobre religião não eram favoráveis. Valentim tinha pesadas críticas à Igreja. Por trás da instituição caridosa e filantrópica, havia um ganancioso poder que derrubou reis, empreendeu guerras santas e matou milhares de inocentes. Ele nunca leu uma única página da Bíblia, mas se tivesse saberia que os atos da Igreja eram diametralmente opostos às palavras de Cristo.

Adentrando o salão, ele caminha até o requintado altar à sua frente. Nele ele vê estátuas da Sagrada Família com a de Jesus Cristo no meio. Algo chama a sua atenção. Cristo era representado de maneira brutal, de braços abertos e pregado na cruz. Torturado e flagelado, haviam cortes e escoriações espalhados pelo seu corpo. Olhando para a sua face abatida e cheia de lágrimas, Valentim sarcasticamente pensa:

“O Senhor tinha de avisa-los que já ressuscitou...”.

O padre e seus auxiliares conversavam próximo ao sacrário; ele usava uma batina preta, um manto roxo sobre os ombros e uma faixa roxa em sua cintura. O padre também usava um colar de crucifixo no pescoço e, em sua cabeça, ele vê um típico chapéu dos clérigos romanos. 

Aproximando-se, Valentim ouve a conversa. Um auxiliar informa o padre que alguém se matou ateando fogo em si mesmo. Ao invés de se consternar com sua morte, o padre sussurra para si mesmo:

- Outro suicídio...

Os auxiliares debatiam se o falecido deveria ou não receber a extrema-unção. O padre se nega, pois para a Igreja o suicídio era pecado e os suicidas não podiam receber o sacramento. Entretanto os auxiliares ponderam se negariam suas condolências aos familiares.

Vendo o operário parado ali, eles interrompem sua conversa e olham para ele. O padre diz:

- A paz de Deus, meu filho. O que deseja?

Um pouco sem jeito, Valentim responde:

- A bênção, padre. Eu...

- Deus te abençoe. – interrompe ele.

Valentim se constrange.

- Bem... Eu... – hesita ele – Perdi o emprego e estou endividado por toda a cidade. Minha esposa está desaparecida e eu não sei o que fazer. Não tenho mais comida, minha última refeição foi ontem à tarde... – explica ele – Uma amiga me disse que a Igreja ainda fazia caridade para com os necessitados. Inclusive minha esposa já recebeu doação de alimentos aqui antes. Eu gostaria de saber se Vossa Santidade poderia me ajudar, pois não tenho mais o que comer!

Ao ouvi-lo, o padre pondera. Valentim pode notar que, apesar de padre, sua aparência era bem austera.

- Como se chama, meu filho?

- Valentim, senhor.

Olhando para seus auxiliares, o padre diz:

- Deixem-nos, por favor. Trataremos deste assunto depois.

Um auxiliar responde:

- Como desejar, padre Frančišek.

Descendo os degraus do altar, o padre se aproxima e Valentim pode ver que seus cabelos eram todos brancos. E então o padre diz:

- Senhor Valentim, eu te agradeço por procurar esta instituição para ajudá-lo, mas devo te alertar de uma coisa: as asas de Lúcifer se estenderam sobre Liubliana, pois suas trevas estão sobre nós.

Valentim se assusta com sua poética, embora dramática, afirmação.

- O que houve, padre?

- A igreja tem tido muito trabalho ultimamente. Diariamente aparecem casos de mortes em nossa administração.

- Mortes?

- Assassinatos, suicídios e massacres pela cidade. Além disso, recebemos notícias de roubos, sequestros e espancamentos bárbaros entre os cidadãos. Os hospitais estão lotados e não temos recursos para tratar a todos.

Valentim se lembra que os hospitais de Carníola pertenciam à Igreja. Seus funcionários eram seminaristas e freiras dos conventos.      

- Então está dizendo que não poderá me ajudar?

- Ao contrário! Esta instituição se compromete a ajuda-lo, mas em nome dela eu te peço algo em troca.

- E o que seria?

- A conversão.

Valentim se assusta novamente. Intrigando-se, ele pergunta:

- Por que está me pedindo isso?

- Eu realmente não sei o que está acontecendo em Liubliana, mas sendo integrante de uma instituição eclesiástica a minha vida inteira, eu só posso recomendar uma coisa: essas pessoas precisam de Deus. – afirma ele – As invenções, os maquinários e a indústria trouxeram avanços maravilhosos para a sociedade, mas ao custo da religião e da fé. Não permitirei que o amor ao próximo se esfrie. A fé em Deus não pode ser abalada pelo avanço tecnológico da indústria. É minha responsabilidade que minha congregação subsista!

Um pouco confuso, Valentim responde:

- Mas padre, eu já sou convertido. Minha família era toda católica, apesar de não sermos frequentadores da igreja.

- O inferno é o lugar dos não praticantes! – brada ele, ecoando pelo salão – As portas do inferno estão abertas! E para que a Igreja prevaleça, é necessário que a congregação se reúna!

Valentim não consegue acreditar no que ouve.

- Está me obrigando a frequentar as missas aos domingos?! – indigna-se ele.

- Exatamente. – impõe-se o padre.

- Isto me parece uma chantagem, uma prisão pelo estômago!

- Oh, isto não é nenhuma prisão, meu filho... Estou tentando salvar a tua alma! Não quero que o senhor, que é uma ovelha desta Igreja, seja tragada pelo lobo lá fora. O senhor está passando fome, mas lembre-se que Jesus é o pão da vida; aquele que vem a Ele jamais terá fome, e aquele que nele crê jamais terá sede!

O padre citava o Evangelho de João capítulo 6, versículo 35.

Com olhar fixo, o padre sorria obsessivamente. Desconfortável, Valentim pergunta:

- Se eu voltar a frequentar a igreja, o senhor me dará comida?

- Se o senhor comparecer às missas, voltar ao catecismo, receber a confirmação pelo crisma e participar da Eucaristia, o senhor poderá comer com os mendigos no lado de fora.

- Comer com os mendigos?! – exclama ele – Padre Frančišek, creio que não fui claro quanto a minha situação! Eu não tenho tempo para o seu catecismo! Minha esposa está desaparecida e eu tenho que procura-la! Além do mais, eu não sou nenhum indigente!

- Mas está como eles, agora. Sem o seu emprego, o senhor terá tempo para o catecismo. E o senhor não tem o que comer. O que resta em sua vida miserável de ovelha perdida?

Novamente o padre citava uma passagem bíblica, no capítulo 10 do Evangelho de João.  

- Está bem. – desiste ele – Eu farei o que for preciso para sobreviver.

Valentim mentia. Agora sua vida era exclusivamente dedicada a encontrar Danica. Mas ele precisava de tempo para pensar.

- Não, meu filho! O senhor não apenas irá sobreviver neste mundo, como também receberá a Vida Eterna! Aleluia!

Frančišek abre os braços e olha para cima, louvando a Deus. Valentim dá as costas e vai embora, deixando aquele louco para trás.

“Realmente as ‘asas de Lúcifer’ estão sobre a cidade, pois a loucura parece ter dominado inclusive a cabeça deste lunático...!”.

 

§

 

Anoitecia em Liubliana. O vento sopra frio e Valentim esfrega os seus braços para se aquecer. Então ele percebe algo. Manchas esverdeadas estavam em sua pele. Observando-as, ele reconhece aquela coloração: Plasma.

As ruas estavam movimentadas aquela tarde. Passando por um parque, ele vê uma mãe com seu bebê sentada em frente a um lago. De repente pensamentos diabólicos inundam a sua mente.

“E se eu tomasse o bebê de seus braços e o lançasse no lago, simplesmente para vê-lo se afogar?”.

Valentim arregala os olhos.

- Meu Deus! O que deu em mim?!

Apressando o passo, ele deixa o parque. Valentim chega às ruas e encontra mais crianças pelo caminho. Elas esperavam as carruagens passarem para atravessar. Então ele pensa:  

“Como eu gostaria de empurra-las para debaixo dos cavalos. Eles passariam por sobre os seus corpos, esmagando seus frágeis ossinhos...”.

“Eu poderia amarra-las nas carruagens e arrasta-las pela cidade. Suas peles se esfolariam, tornando-se carne viva no pavimento pedregoso...”.

Valentim gargalha involuntariamente. As pessoas olham para ele e se intrigam, não entendendo do que ele ria. Constrangido, ele se vira e se afasta para longe.

Os pensamentos ficam mais intensos. Valentim caminhava ofegante e apressadamente. De repente alguém na calçada fala com ele.

- Ei, amigo. Tem uma moeda para me dar?

Deitado sob um sujo cobertor, um mendigo falava com ele. Sem nenhuma razão, Valentim sente vontade de chuta-lo e pisoteá-lo sob os seus pés. Seu ódio era tanto que Valentim queria esmaga-lo, achatando sua face até seus olhos saltarem do crânio.

- Meu Deus! – exclama ele.

Valentim foge, intrigando o velho mendigo.

Suando frio, ele percorria as ruas movimentadas. A noite se aproximava e os acendedores acendiam os postes. Em suas costas eles portavam frascos contendo sua reserva de Plasma. Os acendedores abasteciam os postes a medida que eles apagavam, como se fossem lamparinas. Valentim conhece a volatilidade do Plasma, ele trabalhou muito com ele na fábrica. Seria necessário apenas uma fagulha para incendiá-lo, como as cinzas de um cigarro.

Um transeunte passa com um cigarro em sua boca. Então Valentim pensa:

“Se eu for rápido, eu tiro o cigarro de sua boca e o lanço no frasco do acendedor. A chama se formará e ele será cremado vivo, gritando e esperneando até seu corpo se parecer um graveto retorcido pelo fogo”.

Em um impulso, Valentim avança contra o homem e tenta tirar o cigarro de sua boca. Assustando-se, o homem exclama:

- Meu senhor! Afaste-se!

As pessoas olham para ele e Valentim se vê obrigado a fugir mais uma vez.

Os pensamentos reverberam em sua mente como trovões. Eles se intensificam a ponto dele conseguir ouvi-los.

- São vozes...?! – desespera-se ele.

Entrando em um beco, a penumbra cobre o seu corpo. De repente ele ouve um grito estridente; uma mulher chorava ao longe.

Valentim se aproxima e vê uma senhorita de vestido e cabelos negros. Ele se espanta; a mulher lembrava Danica quando era mais jovem.

- Meu senhor! Por favor me ajude! Eu fui roubada!

Perturbado profundamente, ele responde:

- Lamento… Eu não posso ajuda-la...

- O senhor não entende! Meu dinheiro estava em minha casa! Se eu não recupera-lo, eu não poderei pagar o aluguel!

- Mas eu…

Então a mulher se encosta em seu peito e chora tristemente. Valentim se apavora.

“Veja como ela está frágil e submissa à vontade de estranhos. Como eu gostaria de estraçalhar sua esperança espancando-a sem piedade!”.

- Disse alguma coisa, senhor…?

Intrigada, a mulher enxugava seus olhos. Então o impulso domina sua mente.

Valentim dá um soco em seu rosto. A mulher grita e cai no chão, atordoada. Em seguida ela se vira e olha para ele, confusa. Sangue se escorria de seus lábios.

- Por que fez isso?! – grita ela.

Possuído pelos pensamentos, Valentim se agacha e a soca novamente. Estimulado pela violência, ele bate de novo, e de novo e de novo. A mulher tenta se defender, mas é subjugada pela sua força.

Finado o espetáculo, a mulher gemia no chão. Seu nariz estava quebrado e amassado para o lado. Seus lábios estavam cortados e inchados. Ao redor de seus olhos, o sangue se escorria das lacerações; a pele da face não suportou a fúria de seus golpes.

Valentim se extasia. Tocando o sangue quente da mulher, ele o esfrega em seu rosto. Como um pervertido, ele o lambe de seus dedos. A mulher sangrava intensamente; ele pode ver seus dentes afundados em sua boca. Mas aquilo ainda não lhe era o suficiente.

Olhando para o lado, Valentim encontra um tijolo de cerâmica. Pegando-o, ele o levanta e se prepara para esmagar brutalmente o seu crânio. Valentim estava tomado pelos pensamentos sinistros. Agora ele queria saber a sensação de matar alguém.

E então ele a golpeia.

De repente alguém sacode o seu corpo, dizendo:

- Ei, acorde! O que há de errado com você?!

Valentim acorda de seu transe e se espanta. A mulher falava irritada com ele.

- O que está havendo, senhora?

Mais homens aparecem e se oferecem para ajudá-la. A mulher explica o ocorrido e Valentim aproveita a situação para se afastar dali. Tudo foi só um devaneio.

Ao ver sua casa ao longe, ele arduamente sorri. Ele pega a chave em seu bolso e algo chama a sua atenção. Seus braços brilhavam. As manchas de Plasma ainda estavam em seu corpo, contaminando-o com sua profanação.

Fechando a porta atrás de si, ele ofega constantemente.

“O que houve comigo?! Que pensamentos foram aqueles?!”.

Valentim corre até a cozinha e enche as panelas de água. Ele pretendia encher sua banheira e imediatamente se lavar daquela substância maldita.

Os pensamentos não paravam. Pressionando sua cabeça, ele tenta se livrar daquele tormento. Valentim se sentia um psicopata pervertido; um maníaco capaz de matar friamente por diversão.

Lembrando-se que Danica estava desaparecida, ele pensa como seria fácil trazer vítimas para a sua casa. Ele poderia disseca-las na mesa de jantar, e então cozinha-las e comê-las, e seu sangue ele beberia como vinho.

“Como uma profanação da Santa Ceia, maculada por sacrilégios!”, pensa ele.

“E as mulheres eu estupraria continuamente. Eu as amarraria em minha cama e as abusaria dia após dia, até elas definharem e morrerem por inanição”.  

- Um monstro! – espanta-se ele – Eu sou um maldito monstro!

Enquanto a água se aquece, uma ideia vem à sua mente.

“Pegue o gato e lance-o aí dentro. Veja-o se contorcer na água fervente!”.

Tremendo, ele olha para a sala e caminha lentamente.

- Orfeu? – chama ele – Você está aí?

Deitado em sua poltrona, o gato olha para ele.

- Venha cá, Orfeu. Eu tenho uma coisa para você.

O gato estranha o comportamento de seu dono. Valentim nunca era amigável assim. Então Orfeu se levanta e corre pela sala.

- Ora, o que você está fazendo, seu gato imprestável?! Você não quer comida? Eu tenho comida para você!

Mas Orfeu o ignora e foge, subindo as escadas.

- Não fuja, gatinho! Isso só piorará as coisas!

Valentim o segue e chega ao seu quarto. Percorrendo o local com o olhar, ele não o encontra em lugar algum.

- Eu sei que você está aí! Esta é minha casa! Eu sei onde você se esconde!

De repente ele vira sua cama e o surpreende debaixo do colchão. Acuado, o gato exibe seus dentes. Valentim tenta apanha-lo, mas o gato se esquiva e o arranha, fazendo-o gritar.

- Gato maldito! – vocifera ele.

Orfeu corre pelo quarto. Valentim abre seus cobertores e o lança sobre ele, fazendo-o se prender nos tecidos.

Segurando o cobertor como um saco, Valentim desce tranquilamente as escadas. O gato miava e se debatia, mas nada conseguia fazer para escapar. Seus comoventes miados eram tão altos que ele chorava.

Na cozinha, a água borbulhava tanto que emitia ruídos. Vozes atormentavam o homem, totalmente tomado pelos intentos malignos.

Valentim para em frente à agua fervente. Ao abrir os cobertores, ele é surpreendido com Orfeu avançando contra seu rosto com a força de quem quer sobreviver. O gato o arranha e pula por sobre as suas costas, desequilibrando-o e fazendo-o se esbarrar contra uma panela. A água se espirra e cai em seu peito.

- Oh, meu Deus! – exclama ele.

A água queima sua pele, fazendo-o uivar de dor. A agonia e o pânico o torturam, acordando-o abruptamente.  Assim Valentim sai de seu transe, dolorido e confuso com tudo o que aconteceu.

Orfeu havia fugido pela janela. Rapidamente Valentim tira as panelas do fogo e se afasta. Suas pernas tremem e, perdendo as forças, ele se senta no chão, paralisando-se por alguns minutos.

Em seguida, Valentim apoia a cabeça nos braços e chora, arrependido com o que acabara de fazer.     

 

 


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