O marido ouve o
som de pedrinhas batendo na janela. Abrindo-a, ele olha para a rua e diz:
- Obrigado,
senhora Albina, eu já acordei.
Albina acena e
segue em direção a outra casa. Lá ela volta a jogar suas pedrinhas. Aquele era
seu trabalho; ela se levantava de manhã e jogava pedras nas janelas das pessoas
para desperta-las ao trabalho. Valentim a pediu para acorda-lo, já que Danica
estava desaparecida e ele tinha que trabalhar naquele dia.
Ao se vestir, o
marido nota a pilha de roupas sujas no chão. Ele não sabia lavar roupas e logo
não teria mais peças limpas. Descendo as escadas, ele passa pela sala e
encontra Orfeu dormindo em sua poltrona. Ele segue para a cozinha e intenta fazer
seu dejejum. Como sempre, não havia pão. Ele pega sua janta de ontem e a guarda
em sua marmita; ele a reservara para poder almoçar mais tarde.
Valentim bebe
leite e percebe que estava azedo. Ele come um pouco batata e uma cenoura com
gosto de terra. Os serviços domésticos eram improvisados e mal feitos. Valentim
se lembra que, apesar da pobreza, Danica cuidava dele como um rei. Respirando
fundo, ele percebe: tudo era diferente sem ela.
- Meu Deus! –
pergunta ele – Onde está a minha esposa?!
Estava uma manhã
fria. Ele veste seu casaco, enrola seu cachecol e põe sua boina. Pegando sua
marmita, ele sai pela porta.
Nas ruas ele vê
as carruagens autômatas passando pela neblina. O som das locomotivas a vapor
chama a sua atenção; a estação de trem estava próxima. Valentim se aproxima do
guichê enfiando a mão em seu bolso. Retirando algumas moedas, ele se consterna;
aquele era o seu último dinheiro. Esperançoso, ele espera que seus patrões
entendam o seu problema e o permitam continuar trabalhando.
Valentim se
dirige à plataforma e vê a locomotiva exalando o vapor verde. Adentrando o
vagão, ele se aperta com as outras pessoas, sentindo um grande desconforto.
Mais e mais pessoas se mudavam para Liubliana. A pacata cidade, capital de
Carníola, estava ficando grande.
Durante o
trajeto, ele nota algo trágico. Liubliana parecia sofrer com a desordem. Pela paisagem,
ele vê muita correria e fumaças de incêndio. Nas ruas, as carruagens da
Gendarme passavam constantemente e alastravam o pânico. Em silêncio, todos no
vagão pareciam lamentar a onda de violência que, ultimamente, só aumentava.
“Então é disso o
que aquele inspetor estava falando”, pensa ele, lembrando-se de Tobias.
Meia hora depois
ele chega ao seu destino. Os operários o veem e se surpreendem; Valentim não
aparecia há dois dias.
Lançando o carvão
sob as caldeiras, os operários ferviam o Plasma. O vapor pressurizava o pistão
das máquinas e girava as engrenagens. Estava uma manhã fria, mas logo eles se
aqueceriam com o vapor quente.
Caminhando pela
seção, o encarregado supervisionava a equipe.
- Ei, você! –
chama ele – O que você está fazendo aqui?!
Virando-se, ele
vê seu encarregado. Wight o questionava com seu típico mau humor. Valentim
responde:
- Bom dia, Sr. Wight.
Eu gostaria de conversar com o senhor. Quero justificar a minha ausência.
- Não há nada o
que conversar! Está demitido!
- O quê?! –
espanta-se ele – Sr. Wight, pelo menos queira saber o motivo!
- Não me
interessa o motivo! Você faltou dois dias seguidos e esta empresa não tolera
indolentes e irresponsáveis!
Valentim se
ofende.
- Indolente e irresponsável?!
Por acaso o senhor sabe com quem está falando?!
O rosto de
Valentim corava, ficando tão vermelho quanto os cabelos de Wight. Os
funcionários os ouvem e deixam seus postos, cercando-os para ver a discussão.
- Cale-se! Aqui
você não tem autoridade para me questionar! Apenas pegue suas coisas e dê o
fora!
- Eu não irei a
lugar algum e exijo respeito!
- Respeito? –
ironiza ele – Por acaso acha que devemos respeito ao operariado?
Valentim o ignora
e exclama:
- Eu quero o meu
pagamento!
- Mas do que é
que você está falando?
- Eu trabalhei
todos esses dias antes de me demitir! Não vim aqui de graça e não voltarei
embora de mãos abanando!
Wight ri
maliciosamente.
- Por acaso acha
que isso aqui é um banco?! Você não terá pagamento nenhum, meu chapa! Nem hoje
e nem nunca!
Ele se espanta.
- Como é que é?
- O pagamento é
só no fim do mês, e você não completou o mês, portanto a empresa não te deve
nada! Você é quem nos deve com suas
faltas! Estamos cobrando a indenização!
- Vocês não podem
fazer isso comigo! Minha esposa está desaparecida! Eu percorri a cidade inteira
procurando por ela! Esta foi a razão de minhas faltas!
- Não me
interessa os seus problemas! Aqui você não receberá nada!
- Isto é um
ultraje! – exclama ele – Eu não sairei sem receber nada!
Irritando-se, o
encarregado diz:
- Por acaso você
é surdo? Pegue suas coisas e saia já daqui, seu filho de uma meretriz!
Valentim se ira.
Pegando um facão ao seu lado, ele ataca o Sr. Wight. O golpe corta o seu peito
de cima a baixo, abrindo uma horrível ferida e fazendo-o gritar.
De repente um
bando de brutamontes ingleses aparecem. Afastando-os, eles diziam ser os
seguranças da fábrica, mas todos sabiam quem eles eram de verdade. Os
brutamontes eram os capangas do proprietário burguês.
Alguns socorrem o
Sr. Wight e outros empurram Valentim para longe, fazendo-o cair em uma poça de
Plasma. Encharcado com o líquido verde, ele vê suas roupas molhadas e se
irrita. Em seguida os capangas o imobilizam, torcendo o seu braço e tomando o
facão de suas mãos.
Levando-os ao
escritório, Valentim entra em uma sala limpa e requintada. Alguém em pé ao lado
de uma poltrona almofadada observa a fábrica abaixo. O homem usava uma cartola,
monóculo e fumava um elegante cachimbo. Valentim o reconhece; era o burguês
dono daquele lugar.
- Mas que
confusão foi aquela lá embaixo?!
- Sr. Blake,
desculpe-nos incomoda-lo. Este homem atacou o Sr. Wight com um facão!
Os capangas
trazem o encarregado em seus braços. Wight tinha suas roupas lavadas de sangue.
Espantado, o
burguês ergue seu queixo e pergunta:
- Você fez isso,
meu senhor?
O marido conhecia
aquele olhar; era o olhar altivo dos ricos, arrogante e inquisidor, que o
diminuía e o fazia se sentir um lixo.
Um capanga diz:
- Sr. Blake, ele
não está entendendo-o. Ele não fala inglês.
- Pois então
algum o traduza, oras!
Ao falarem aos
seus ouvidos, Valentim responde:
- Sr. Blake, este
homem me insultou! Disse que minha mãe era uma meretriz!
Acalmando-o, o
burguês pergunta:
- E por que ele
disse isso?
- Tentei
informa-lo que minha esposa está desaparecida há dois dias e não consigo
encontra-la! Quis explica-lo que esta foi a razão de minhas faltas! Eu fui
procura-la!
Blake parece se
irritar.
- O senhor faltou
dois dias?
- Sim!
Mexendo em seu
bigode, o burguês pergunta:
- E por que isso
é problema meu?
- Como é?
- Eu não me
importo com os problemas de sua casa! O senhor está aqui para trabalhar! Faltas
não são toleradas! Você sabe o quanto custa para mantê-lo em minha fábrica? O
quanto o meu lucro diminui quando há pouca produção?
Valentim se
desconcerta.
- Mas Sr. Blake! Minha
esposa está desaparecida!
- Que se dane a
sua esposa! – exclama ele, fazendo os capangas gargalharem – Eu investi uma
fortuna no desenvolvimento de sua província! O senhor pensa que eu me importo
com a classe operária? Eu quero o retorno do meu investimento, apenas! Esta
indústria não se importa com os operários suínos que mal sabem segurar uma
ferramenta! Só me importam os lucros!
Os capangas riam.
Irando-se, Valentim pergunta:
- Nós não somos
suínos! Suínos são vocês, burgueses, que chafurdam na lama do dinheiro sujo às
custas dos trabalhadores de Carníola!
Os ingleses
arregalam os olhos, surpresos com sua ousadia. Insultado, Blake responde:
- O senhor pagará
caro por sua insolência! Eu assegurarei que o senhor nunca mais trabalhe em uma
indústria inglesa novamente! Eu utilizarei todo o meu poder e influência para
garantir isto!
Valentim se
apavora. As fábricas inglesas eram a única oferta de emprego em Liubliana.
Camponeses migravam para a cidade fugindo da miséria no campo; artesãos
fechavam suas oficinas por não poderem competir com as máquinas da indústria.
Ao bani-lo, Blake estará condenando-o à mendicância.
- O senhor não
pode fazer isso! O senhor me matará de fome!
- Eu não apenas
posso, como irei! A nobreza austro-húngara é aliada do império britânico.
Nenhum nobre arriscará um incidente com os ingleses por causa de um cão
operário!
Com medo em sua
voz, Valentim muda o tom. Ele nunca pensou que iria implorar um dia, mas a
sentença dada lhe foi pesada demais.
- Sr. Blake, eu
te peço...
- Basta! – ordena ele – Saia já da minha
fábrica! E não volte nunca mais!
Humilhado e em
ruína, Valentim se entristece e vai embora. Enquanto sai, os capangas de Blake
zombavam dele. Ao olhar bem, ele nota que mesmo Wight sorria com suas roupas
encharcadas de sangue.
§
Sentado em uma
praça, Valentim pensa no ocorrido. Ele está abatido e suas pernas tremem. Ao
seu lado, ele olha para a sua marmita e pensa; aquela será a sua última
refeição no dia e depois toda a comida se acabaria. Preocupado, ele se pergunta
quando comerá de novo.
Ele se lembra que
Danica devia em todas as mercearias. Ela esperava que pudesse pagar as suas
dívidas quando Valentim recebesse o primeiro ordenado. O marido, a esposa e
também o seu gato Orfeu necessitavam do dinheiro, do contrário todos passariam
fome. Entretanto o dinheiro jamais viria.
“Meu Deus...!”,
pensa ele. “Será que eu me tornarei um indigente?”.
Valentim ouve o apito
das locomotivas ao longe. Ele não tinha mais dinheiro para a passagem. A
caminhada de volta para casa seria longa e levaria o dia inteiro.
“E minha casa?”,
pergunta-se ele. “Como eu pagarei os impostos por ela já que não terei mais
emprego?”.
Pensando na briga,
ele não se culpa totalmente. A confusão se formou devido à grosseria de seu
encarregado. Porém Valentim era esquentado e tinha o pavio curto; ele jamais
permitiria que o insultassem daquela maneira. Ele não se arrepende por ter
agredido Wight, mas poderia ter contido sua língua ao falar com o poderoso Sr.
Blake.
A temperatura
esquentara, dissipando a neblina. Valentim respira fundo. Olhando para as suas
botas, ele via as solas gastas e furos nas pontas. Seria uma caminhada longa a
frente. Ele pensa o quão penoso seria percorre-la com os seus ossos
estilhaçados. Então ele se levanta e, com muito esforço, dá o primeiro passo.
§
Valentim tem um
sonho estranho. Ele se lembra de ter caído na poça de Plasma, mas desta vez a substância
havia entrado em seu corpo. Então ele se lembra da teoria do Inspetor Tobias
sobre o efeito do Plasma na mente. O Plasma era o sangue da terra, mas algumas
pessoas também sentiram o seu potencial no sangue humano.
Enquanto reflete
a respeito, ele ouve gemidos no andar de baixo. Pensando ser Orfeu, ele se
lembra que o gato estava com fome; o máximo que ele pôde dar foi alguns pedaços
de repolho. E então ele ouve o gemido de novo. Assustado, ele teme ser aquela
aparição sinistra debaixo da cama.
Ele se esconde
debaixo do cobertor. Novamente ele ouve o gemido e reconhece a voz de uma
mulher. Valentim se desespera.
“Danica?!”.
Pegando sua
lamparina, ele se levanta e deixa o seu quarto.
A descida tinha
dois pequenos lances de escadas. Ávido para encontrar sua esposa, Valentim os
desce rapidamente, mas os lances se repetiam. Os dois primeiros lances se
foram, e então aparecem mais um, e mais um, e mais um... A escuridão era
iluminada pela chama do Plasma, deixando as paredes e os degraus esverdeados
pela luz. E então as cores começam a mudar.
Valentim não sabe
quantos lances desceu, mas deve ter passado dos oitenta. De repente o verde dá
lugar para o vermelho e um calor insuportável sobe pela passagem. Os gemidos se
transformam em gritos e ele teme que Danica esteja em perigo. Cheio de coragem,
nada o impedirá de chegar até sua esposa, nem que tenha de descer aquela
garganta de dragão inteira até chegar ao seu estômago.
De repente a
escada termina e ele vê o fosso do pavoroso inferno. Ali haviam fogo, pranto e
ranger de dentes. As chamas queimavam tão alto que alcançavam seus pés.
Apavorado, Valentim tenta voltar pelas escadas quando os degraus se despedaçam,
fazendo-o cair naquele fogo.
Enquanto cai, ele
ouve os gritos incessantes dos condenados. Valentim aterrissa em um chão quente
e árido, como os desertos do Egito. Vermes e insetos horrendos se arrastavam
pela areia, fazendo-o se arrepiar. Temendo ser queimado vivo, ele se protege
com as roupas e se surpreende. O fogo não lhe fazia mal algum.
Os condenados
penavam acorrentados ao fogo ou em rios de lava. Demônios voavam por toda
parte; alguns se pareciam anjos com asas de pássaros nas costas e outros,
porém, se pareciam insetos, como vespas gigantes zunindo com o bater de suas
asas.
Caminhando pelo
inferno, Valentim encontra a mulher que ele procurava minutos antes. Ela gritava
e se debatia em uma enorme banheira de sangue fervente. Outras mulheres a
torturavam, mas ao olhar bem, Valentim percebe que eram apenas moças,
adolescentes nuas de faces cruéis, cabelos ressecados e olhos mortos.
Por alguma razão
Valentim sabe de quem se trata. Ela encontrara Elizabeth Bathory no inferno.
A condessa uivava
de agonia, sendo fervida viva no sangue fervente da banheira. Entretanto o
sangue a rejuvenescia, regenerando sua pele e impedindo-a de morrer. As moças
que a torturavam eram as suas vítimas, aquelas dentre as 650 jovens mortas de
maneira bárbara pela condessa. Aquelas meninas a mutilavam com afiadas foices,
dilacerando sua pele e provocando-lhe excruciante dor. Em vida as moças eram
irresistivelmente submissas à ela, mas na morte elas voltaram carregando o
rancor colérico dos condenados, finalmente consumando a sua vingança.
Valentim nota as
terríveis marcas de tortura nas moças. Algumas tinham mordidas horríveis em
seus corpos, tão profundas que arrancaram pedaços. Outras tinham suas bocas
costuradas por fios de barbante. Em horror ele vê virgens de seios empinados
com os mamilos arrancados. Outras tinham seus corpos nus cobertos de mel
enquanto um enxame de formigas devoravam suas peles. E então Valentim percebe.
Aqueles eram os terríveis métodos de tortura perpetrados por Bathory quando
estava viva.
Algo chama a sua
atenção. Enquanto cozinhava no sangue, Bathory parecia lamentar outra coisa. A
condessa não lamentava o tormento severo e sim ter sido enterrada em um
estábulo, como uma plebeia. Valentim não sabe, mas os camponeses de Csejte[1]
protestaram ter o corpo da condessa no cemitério da igreja. Por esta razão, o
corpo foi transferido para sua cidade natal, em Ecsed[2],
onde seria colocado na cripta de sua família. Todavia o local de sua sepultura era
incerto e permaneceu um mistério até os dias de hoje.
Enojado, Valentim
vê aquilo como um sinal de arrogância por parte de Bathory, pois mesmo na morte
ela não se arrependeu de sua depravação.
- Erzsi...! – diz
ela – Eu sinto tanto a sua falta...!
A condessa falava
de Erszi Majorova, viúva de um fazendeiro da qual ela supostamente teve um
caso. Porém aqueles eram apenas rumores de sua bissexualidade.
Bathory
agonizava, torturada pelas próprias vítimas de seu sadismo perverso. O sangue a
cozinhava e sua pele era dilacerada, mas logo depois se regenerava. Apesar de
sua crueldade, Valentim se entristece; o tormento de Bathory será eterno, dia e
noite, minuto por minuto, todos os dias até o fim dos tempos.
De repente uma
coruja marrom gigante aparece nos céus de enxofre. Ela se aproxima e Valentim
vê suas asas rasgadas e cheias de doença. A coruja tinha olhos de gente e o
encaravam fixamente. Valentim se enche de terror e foge pelas labaredas do
inferno. A coruja o persegue, sobrevoando-o e apanhando-o com suas afiadas
garras. Ele grita desesperadamente, mas nada podia fazer contra o terrível
predador de almas humanas.
Subindo pelas
nuvens, Valentim não se sente apanhado e sim resgatado pela ave. Enquanto sobem,
eles atravessam as consecutivas camadas de terra como se não tivessem matéria.
Então eles chegam ao subsolo de Liubliana e Valentim vê milhares de esqueletos
debaixo da cidade. Eram os milhares e milhares de anos de mortos pelo tempo.
Valentim acorda
abruptamente. A sua frente ele enxerga Orfeu encarando-o e se assusta,
fazendo-o se afastar. O novo dia brilhava lá fora, invadindo o quarto com sua
reconfortante luz. Valentim põe a mão nos olhos e se tranquiliza. Aquilo foi só
um sonho.
Entretanto, algo
chama a sua atenção; uma coruja marrom estava em sua janela. Ao ver que ele
havia acordado, ela bate as asas vai embora, voando para longe.

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