sábado, 28 de maio de 2022

Liubliana - 12 - A Catequese dos Miseráveis

 


(Foto de Francesca Phillips)

As aulas de catecismo começavam todas as manhãs. Ocupado nos assuntos da igreja, o padre Frančišek não ministraria as aulas; esta função foi delegada ao seu auxiliar, o diácono Izak.

Izak era um jovem liublianense de vinte e poucos anos. Ele tinha cabelos castanhos e vestia trajes de monge. Um seminarista devoto desde a adolescência, sua postura expressava profundo conhecimento bíblico.

Valentim não sabia ao certo o que era o catecismo; ele nunca o frequentou. Ele se lembra de uma escola dominical onde se ensinavam os princípios, as doutrinas, os preceitos e os dogmas da fé cristã. Mas, em sua juventude, esta escola era o local onde os adolescentes se encontravam após os estudos para paquerar.

O diácono conduz os mendigos e miseráveis pelas salas da catedral. As salas dos fiéis eram limpas e organizadas, mas Izak os leva a outra sala, uma mais rústica e encardida. O cheiro de poeira e resíduos humanos os desconcertam, mas eles tinham de suporta-lo para tomarem a sopa mais tarde. Todos com exceção do diácono estavam morrendo de fome.

Sentando-se em um frio banco de madeira, Valentim aguarda o início das aulas. Homens e mulheres entram e ele pode ver que eram trabalhadores inválidos, a maioria mutilada pela engrenagem das máquinas. Algumas crianças acompanhavam suas mães; o ranho se escorria de seus narizes e elas tossiam constantemente. Valentim sabe o que lhes aconteceu, elas contraíram problemas respiratórios ao inalar o gás tóxico nas minas de carvão.  

 Ao seu lado se senta um mendigo barbudo com um terrível cheiro de suor. À sua frente se senta um jovem de olhos arregalados, encarando a todos como um louco. Valentim via tudo aquilo como uma humilhação, mas por estar faminto ele não tinha outra escolha.

Izak começa a aula falando sobre o poder de Deus. Ele diz:

- Irmãos, Deus é onisciente, onipotente e onipresente. Como explicou São Tomás de Aquino, a infinitude divina não tem começo e nem fim, pois tais características implicam criação, e Deus não foi criado; Ele é. – explica ele.

Abrindo uma densa Bíblia, o diácono continua:

- Falando sobre a onisciência, o capítulo 12, versículo 2 do Evangelho de Lucas diz: “mas não há nada encoberto que não haja de ser descoberto, e nem oculto que não haja de ser sabido”. E depois no versículo 7: “E até os cabelos de vossa cabeça estão contados”.

Ao ouvi-lo, Valentim se espanta. Ele acha incrível o fato de Deus saber até o número exato dos fios de cabelo das pessoas. De cada pessoa, cada mísera pessoa andando sobre a face da Terra.

“Mas se Ele sabe algo tão inútil, então por que não diz onde está Danica?”, pergunta-se ele.

Izak continua:

- A onipotência de Deus é maravilhosa e apenas revela seu majestoso poder. No livro de Jeremias, capítulo 32, versículo 17 diz: “Ah! Soberano Senhor, tu fizeste os céus e a terra pelo teu grande poder e por teu braço estendido. Nada é difícil demais para ti”. – recita ele – Mesmo o arcanjo Gabriel testifica isto. Ao ser questionado pala Virgem Maria, ele diz: “pois nada é impossível para Deus”.

O diácono citava o Evangelho de Lucas capítulo 1, versículo 37.

Valentim se espanta. Ele se pergunta como seria ter um poder tão tremendo a ponto de nada poder resisti-lo.  

“Se Deus é tão poderoso, então por que não traz Danica de volta ao invés de ignora-la, dando-lhe as costas e prolongando o seu sofrimento?”, pergunta-se ele.

- Deus é onipresente. No livro de Salmos, capítulo 139, versículos 7 ao 10, o salmista diz: “para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá”. – recita ele – Novamente Jeremias, no capítulo 23, versículo 24, O testifica: “esconder-se-ia alguém em esconderijos de modo que Eu não o veja? Diz o Senhor”.

Valentim se surpreende, pois não consegue imaginar um corpo imensuravelmente grande a ponto de estar em Liubliana e em Londres ao mesmo tempo.

“Mas se Deus é onipresente, então por que não diz onde Danica está?”.

- E por fim a sempiterna infinitude de Deus.

“Sempiterna?”, pergunta-se Valetim.

- O apóstolo Paulo, em sua carta aos Colossenses, capítulo 1, versículo 17, testifica do nosso Senhor Jesus, dizendo: “e Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por Ele”. Também João, em Apocalipse, capítulo 1, versículo 8, diz: “Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, o que é, o que era e o que há de vir, o Todo-poderoso”. Estas são evidências diretas citadas no Evangelho de João, capítulo 10, versículo 30, que diz: “Eu e o Pai somos um”.

Desta vez Valentim não consegue compreender. Ele se pergunta como pode alguém existir antes da própria existência, e mais ainda sustenta-la pessoalmente. Valentim não sabe o que é alfa e ômega, mas acredita serem letras do alfabeto grego. Apesar disso, ele acha difícil alguém que é o primeiro e o último estar além da criação, se não ele não poderia ser o primeiro e nem o último.

“Se Deus é infinito, não seria fútil julgar os homens segundo a sua finitude terrena?”, pergunta-se ele.

Izak termina sua lição. Fechando a Bíblia, ele levanta sua cabeça e olha para a sua congregação paupérrima. Alguns estavam confusos, outros inquietos e alguns cochilavam em seus bancos. O diácono mantém sua classe, mas ele se sente lançando pérolas aos porcos.

- Minha nossa Senhora, rogai por estes pecadores... – sussurra ele.

E então o seu olhar se encontra com o de Valentim. O homem o encarava com evidente indagação, ponderando nas palavras que acabara de dizer. De fato, Valentim parecia ser o único ali minimamente interessado na lição. Todavia, Izak cruza os braços e informa:

- Irmãos necessitados, a sopa será servida a seguir. Devo informa-los que aquele que ficar para a limpeza deste santo templo receberá porção dobrada ao meio-dia. Queiram fazer fila no lado de fora, por favor.

Todos se levantam, cansados e entediados após sua primeira lição de catecismo. Valentim os acompanha para fora e vê os auxiliares da igreja ao lado de um grande tacho de sopa quente. Ao vê-lo, seu estômago ronca.

Os mendigos e inválidos estavam ávidos para comer. Como animais, eles se ajuntam em frente à comida, causando um alvoroço. Valentim é obrigado a se misturar e esticar o seu braço para receber sua porção. Os auxiliares são obrigados a organiza-los e conte-los. Novamente a sensação de humilhação se apodera dele, lamentando-se por ter descido àquele nível. Apesar da escassez, Danica se esforçou para farta-lo no almoço e no jantar.

A fila se forma e, ao chegar a sua vez, Valentim recebe uma tigela de sopa e uma colher de madeira. O cheiro era delicioso. A fome era tanta que ele come tudo com muito gosto. O sabor era bom e ele se alegra por ter se alimentado aquele dia; mais um dia sem comer e ele se desfaleceria.

Sentados contra a parede, os mendigos conversavam tranquilamente. Haviam bêbados e lunáticos que não falavam nada com nada, mas outros eram lúcidos e pareciam estar em uma situação semelhante a de Valentim. Aproximando-se, ele se senta e ouve a conversa.

- Viver é um eterno estado de trabalho e endividamento! – afirma um mendigo calvo.

- Como assim, velho amigo? – pergunta outro.

- Veja, trabalhamos a vida inteira e, mesmo assim, apenas nos endividamos! E você quer saber por quê? Porque os preços são tão altos que, apesar de trabalharmos tanto, não conseguimos paga-los. Na verdade, creio que esta é a razão de muitos estarem aqui. Portanto eu novamente afirmo: viver é um eterno estado de trabalho e endividamento!

Os inválidos se aproximam para ouvir também. Eles parecem concordar com o mendigo calvo.

- E como você sabe disso? Por acaso você já trabalhou?

- Ora, mas é claro que sim! – afirma ele – Eu já tive campos, plantações, uma bela propriedade rural... Mas então as fábricas vieram, trazendo estas benditas máquinas! Eu vendi tudo o que tinha para migrar para a cidade... E perdi tudo também. Fui roubado por estelionatários. Não havia nenhuma casa na cidade; os ladrões roubaram meu dinheiro e, incapaz de comprovar a compra com os papeis de escritura, fui obrigado a morar na rua. Minha família está na rua também, mas eles partiram para Murska Sobota e eu nunca mais os vi.

O mendigo falava de uma cidade na região de Prekmurje, a leste de Carníola.

- Isto é muito triste, meu velho amigo! Torço para que se levante novamente e volte a perseguir o sonho de viver prosperamente e bem.

Então um inválido, aleijado do braço esquerdo, entra na conversa e diz:

- Não tenham tanta esperança.

Os mendigos olham para ele, intrigados.

- O que quer dizer, senhor?

- Só há uma diferença entre os pobres e os mendigos: os pobres pensam que, trabalhando, realizarão os seus planos e sonhos. Mas o fato é que ambos não os realizarão.

Eles notam que havia amargura em sua voz. Então o mendigo calvo diz:

- Mas os esforçados realizam seus sonhos! Na verdade, são os sonhos que compelem a juventude!

Meneando negativamente a cabeça, o inválido diz:

- A juventude não é a melhor fase só porque tínhamos menos responsabilidades, mas porque acreditávamos que, no futuro, nossos sonhos se realizariam. E, na verdade, a despeito do que disse, acho que é por isso que temos sonhos, porque a esperança de realiza-los nos previne de desistirmos da vida. E que vida adulta amarga e solitária aguarda estes jovens sonhadores...! – pranteia ele.

O outro mendigo diz:

- Pois eu prefiro acreditar que nem todos os sonhos sejam arrancados pela dureza da vida. Alguns sonhos se realizam.

- O meu se foi com o meu braço, decepado por uma máquina e me lançando na sarjeta... – ele exibe o coto decepado, causando-lhes aflição.

A conversa fica melancólica e amarga. Valentim discretamente se afasta, evitando os olhares.

Os auxiliares chamam por voluntários na limpeza da catedral. Valentim assiste atônito os indigentes se afastarem e irem embora. Eles só estavam preocupados com a comida gratuita que a igreja oferecia. A missa e o catecismo não lhe interessavam em nada.

Valentim se voluntaria. Ele também não se interessa pelos ensinamentos da igreja, mas não podia dispensar a alimentação no horário de almoço. Mesmo o seu gato necessitava de comida em casa. Ademais, ainda não deu o prazo para ele revisitar Tobias na Gendarmerie.

Dando-lhe um balde e um esfregão, Valentim passa o resto da manhã limpando a sala de catecismo. Ele se sente desonrado, insultado e humilhado por se submeter ao serviço de faxina. Criado nos velhos costumes, Valentim pensa que aquilo é serviço de mulher. Infelizmente para ele, a vida se mostrou ingrata e o orgulho era a última coisa que o alimentaria agora. 

A sala de catecismo cheirava mal e ele sabe o porquê. Mendigos, alcóolatras, miseráveis e vagabundos a frequentavam. Valentim critica o padre por submete-los aos ensinamentos religiosos quando a única coisa que eles queriam era comida. Entretanto, a obra social estava atrelada à Igreja e, sem ela, todos morreriam de fome.

O diácono Izak passeia pelos átrios da catedral. Ele também faz a faxina, tirando poeira dos móveis e polindo as obras de latão. Valentim não entende como aqueles garotos decidiram desperdiçar suas vidas assim, abdicando-se das mulheres e de si mesmos em troca de uma vida celibatária e enfadonha.

O padre Frančišek cuidava dos assuntos burocráticos em seu escritório. Valentim prefere não incomoda-lo; ele não suportaria outra extorsão pelo estômago aquela manhã.  

Finalmente é meio-dia. Guiando-o ao refeitório, os auxiliares lhe servem o almoço. Valentim não pode deixar de notar que os auxiliares o isolavam. Ele e os outros voluntários ficam à distância, comendo sua comida em silêncio. A comida estava boa pois ele vê pães, linguiça e batatas em seu prato. Para acompanhar, eles bebem um saboroso leite de vaca.  

Surrupiando algumas batatas, ele as esconde em seu bolso e a guarda para o seu gato.

Valentim volta para casa e, ao abrir a porta, encontra Orfeu deitado em sua poltrona. Irritado, ele põe suas mãos na cintura e diz:

- Ora, mas que coisa!

Porém Orfeu mia e corre para se esfregar em suas pernas; ele parecia feliz em vê-lo.

Valentim esmaga as batatas e as dilui com um pouco d’água. Normalmente aquilo seria intragável para os gatos, mas Orfeu come com tanta voracidade que o assusta. A fome era tanta em sua casa que cada migalha lhes eram uma bênção.

Preocupado, Valentim se senta e pensa como pagará as suas dívidas. Logo os credores viriam cobra-lo e ele não sabia o que fazer. De repente Orfeu pula em seu colo e se deita, ronronando tranquilamente. Irritado, Valentim prontamente o espanta; ele não estava de bom humor naquele dia.

 

§

 

Na manhã seguinte os miseráveis voltam à catedral. Em seu típico traje de monge, Izak abre a Bíblia e ministra a palavra. Ele diz:

- Hoje vamos falar do perdão de Deus. No Evangelho de João, capítulo 3, versículo 16, diz: “porque Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”. – prega ele – Deus não quer condena-los, irmãos! Ele quer vos dar a vida eterna! Mas para isto basta que vocês creiam!

A congregação não demonstra o menor entusiasmo em suas palavras. Insistente, o diácono complementa:

- “Quem crê em Jesus não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no nome do Filho Unigênito de Deus”. Entenderam agora a extensão da misericórdia divina? Ele anseia por nossa Salvação!

Mas ninguém lhe dá ouvidos. A pregação era interrompida algumas vezes por crianças chorando e mendigos tossindo. Desanimando-se, o diácono respira fundo.

Enquanto isso, Valentim pensa:

“Por que Deus nos oferece a Salvação se não pedimos para estar neste mundo? Não seria melhor não existirmos ao invés de nos sujeitar à condenação do fogo do inferno?”.

Mais tarde eles recebem a sopa e Valentim fica mais uma vez para a faxina. Assim ele garante o alimento para seu gato e o seu almoço.

 

§

 

No terceiro dia de catecismo, Izak fala sobre a guerra espiritual. Ele diz:

- Na carta de Paulo aos Efésios, o versículo 6, capítulo 12, diz: “porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais”. – prega ele – Como veem há uma guerra espiritual lá fora. Não é uma guerra entre os homens gerada pela contenda, pela ganância e pela ira. Ouçam o que disse o apóstolo Paulo no capítulo 4, versículo 26: “irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira. Não deis lugar ao diabo”. Desta forma, ele nos adverte a sermos pacíficos com os nossos irmãos, e não irascíveis como os ímpios.

Uma criança começa a chorar, quebrando sua concentração. Então ele consegue ver que muitos cochilavam. Todos menos um. Valentim ouve tudo atentamente lá no fundo, mas ele não parecia convencido. Ignorando-o, ele volta à sua leitura e diz:

- Acautelem-se da guerra espiritual lá fora, meus irmãos, pois o apóstolo Pedro nos alertou, dizendo: “sede sóbrios, vigiai, porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar”.

Valentim meneia negativamente a cabeça. Ao ouvi-lo, ele pensa:

“Por que Deus nos criou no meio de uma guerra espiritual, nos sujeitando à ação destrutiva dos demônios? Por que seremos condenados se não crermos em Cristo? Não seria melhor sermos criados após a derrota de Satanás para não passarmos por isso?”. 

A aula acaba e eles saem para tomar a sopa. Os mendigos e inválidos conversavam tranquilamente. Nenhum deles falava sobre as lições de catecismo, a não ser para zombar do jovem Izak. De certa forma, Valentim sente pena dele; seu esforço para converte-los estava sendo em vão.

Ao ficar para a faxina, os auxiliares o pedem para abanar o pó dos campanários. Valentim olha para cima e vê uma íngreme escada para cada torre. Irritando-se, ele pergunta:

- Por que vocês, moleques, não sobem lá vocês mesmos?   

Um auxiliar responde:

- Não podemos. Nós temos medo de altura...

Então ele bufa de indignação.

- Mas são uns molengas, mesmo!

Então ele se vira e pega o seu balde.

Ao subir em um dos campanários, Valentim olha para a paisagem lá embaixo. A cidade estendia-se pelo horizonte, com suas casas de telhados vermelhos se misturando com as fábricas inglesas. Ao sul, uma colossal refinaria de Plasma ocupava uma parte do pântano. Distraindo-se, ele tem um curioso pensamento.

“Gostaria de conhecer Liubliana quando esta pertencia-se apenas a si mesma, antes dos ingleses, dos austríacos e também dos romanos. Gostaria de contempla-la em seu estado puro, quando não éramos governados por potências estrangeiras explorando a nossa terra. Como um passeio no passado longínquo, um alvorecer das antigas manhãs”.

Debruçado na pequena mureta, ele se perde em devaneios. Então ele ouve um chirriar acima e se assusta. No topo do campanário ele vê um ninho de corujas. Confuso, ele pensa que elas só habitavam buracos na terra. As corujas olham para ele e viram suas cabeças, mas nunca parando de olha-lo. Por alguma razão, Valentim sente medo. As corujas pareciam conter uma aura negra ao seu redor. Então ele limpa o piso ao redor dos sinos e deixa rapidamente aquele lugar.

 

§

 

No quarto dia ele volta ao catecismo. Izak abre a Bíblia e faz uma pregação sobre a importância da fé. Ele diz:

- Na carta aos Hebreus, capítulo 1, versículo 7 diz: “sem fé é impossível agradar a Deus, pois quem dele se aproxima precisa crer que Ele existe e que recompensa aqueles que O buscam”. – prega ele – Ouçam, meus irmãos. É preciso crer que nosso Criador exista, do contrário nossas petições serão em vão. Ouçam o que diz o próprio Senhor Jesus Cristo no Evangelho de João, capítulo 17: “aquele que crê em mim fará também as obras que tenho realizado”. Versículo 13: “e Eu farei o que vocês pedirem em meu nome, para que o Pai seja glorificado no Filho. Versículo 14: “o que vocês pedirem em meu nome, eu farei”. – olhando para a congregação, ele pergunta – Veem a importância de crerem na existência de Deus?

Mas a congregação estava distraída e desatenta, preocupada apenas com a refeição mais tarde. Izak os ignora e tenta continuar a pregação.

 Cansado daquele monólogo para uma audiência letárgica, Valentim levanta seu braço e ousadamente pergunta:

- Diácono Izak, eu tenho uma pergunta. Se Deus é tão poderoso como você diz, então por que Ele se esconde?

O diácono não compreende.

- O que disse, senhor?

- Se Deus é tão onipotente, onisciente e onipresente como disse, então por que Ele precisa diminuir a Si mesmo para caber na crença das pessoas?

Izak arregala os olhos, confuso. Neste momento a congregação parece acordar.

- Deus não precisa se diminuir para ninguém, senhor! São as pessoas que precisam se humilhar para conhece-Lo! Pois como está na Palavra, Deus não resiste a um coração quebrantado e contrito.

O diácono citava Salmos, capítulo 51, versículo 17. 

Valentim revira os olhos, entediando-se.

- Pois eu vi minha esposa se humilhando para Ele a vida inteira e o que lhe aconteceu? Ela desapareceu há quatro dias! – acusa ele – Nem mesmo a Gendarme quer procura-la! Jesus é o bom pastor, não é? Então por que ele não cuidou de uma de suas ovelhas, ao invés de permitir que ela fosse sequestrada assim?

Izak se espanta.

- Isto é blasfêmia! – brada ele.

- Não! – discorda ele – É a verdade! Se Deus é onisciente, então por que Ele não diz onde ela está? Se Ele é onipotente, então por que não usa seu poder para traze-la de volta? Se Ele é onipresente, então por que tantas pessoas morrem diariamente, sequestradas em cativeiros, sendo que Deus está presente vendo tudo e não faz nada?!

Mais uma vez o diácono arregala os olhos.

- Meu senhor! Não diga isto!

- Por Sua culpa Satanás está solto no mundo! Por Sua decisão fomos criados no meio de uma guerra espiritual! Por sua permissão a humanidade caiu no pecado! E qual é o plano divino para resolver tudo isto? Simplesmente crer que Ele exista! – ironiza ele. 

Desconcertado, o diácono o repreende:

- Meu senhor!

- Não somos nós que precisamos do perdão de Deus, mas Deus que precisa do nosso perdão...! - afronta ele - Devido a sua inação e sua insensibilidade para com o nosso padecimento neste mundo horrível!

Então os miseráveis se agitam, apoiando-o.

- Agitador! – acusa Izak – Você um maldito agitador!

- O que você disse?

- Eu não ficarei aqui ouvindo suas blasfêmias! O senhor não tem parte alguma com Deus! Sua parte é ao lado de Satanás e seus anjos!

Valentim ri.

- Os mesmos que o seu Deus permitiu que habitassem a terra com os humanos? E tenta dizer que os pecadores somos nós?!

- Basta! – grita ele – Esta aula acabou!

Virando-se, Izak pega sua Bíblia e vai embora.

Os miseráveis riem, estupefatos com a discussão que acabaram de assistir. Valentim recebe aplausos, sendo estranhamente homenageado.

Um mendigo aperta sua mão e diz:

- Obrigado por nos livrar desta aula chata!

Outro diz:

- Eu já estava caindo de sono!

E mais outro diz:

- Este diácono é mesmo um palerma!

Então um inválido olha para ele e comenta:

- Eu só espero que eles ainda nos sirvam a sopa...

 

 


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