(Foto de Francesca Phillips)
As aulas de
catecismo começavam todas as manhãs. Ocupado nos assuntos da igreja, o padre
Frančišek não ministraria as aulas; esta função foi delegada ao seu auxiliar, o
diácono Izak.
Izak era um jovem
liublianense de vinte e poucos anos. Ele tinha cabelos castanhos e vestia
trajes de monge. Um seminarista devoto desde a adolescência, sua postura
expressava profundo conhecimento bíblico.
Valentim não
sabia ao certo o que era o catecismo; ele nunca o frequentou. Ele se lembra de
uma escola dominical onde se ensinavam os princípios, as doutrinas, os
preceitos e os dogmas da fé cristã. Mas, em sua juventude, esta escola era o
local onde os adolescentes se encontravam após os estudos para paquerar.
O diácono conduz
os mendigos e miseráveis pelas salas da catedral. As salas dos fiéis eram
limpas e organizadas, mas Izak os leva a outra sala, uma mais rústica e
encardida. O cheiro de poeira e resíduos humanos os desconcertam, mas eles
tinham de suporta-lo para tomarem a sopa mais tarde. Todos com exceção do
diácono estavam morrendo de fome.
Sentando-se em um
frio banco de madeira, Valentim aguarda o início das aulas. Homens e mulheres
entram e ele pode ver que eram trabalhadores inválidos, a maioria mutilada pela
engrenagem das máquinas. Algumas crianças acompanhavam suas mães; o ranho se
escorria de seus narizes e elas tossiam constantemente. Valentim sabe o que
lhes aconteceu, elas contraíram problemas respiratórios ao inalar o gás tóxico
nas minas de carvão.
Ao seu lado se senta um mendigo barbudo com um
terrível cheiro de suor. À sua frente se senta um jovem de olhos arregalados,
encarando a todos como um louco. Valentim via tudo aquilo como uma humilhação,
mas por estar faminto ele não tinha outra escolha.
Izak começa a
aula falando sobre o poder de Deus. Ele diz:
- Irmãos, Deus é
onisciente, onipotente e onipresente. Como explicou São Tomás de Aquino, a
infinitude divina não tem começo e nem fim, pois tais características implicam
criação, e Deus não foi criado; Ele é. – explica ele.
Abrindo uma densa
Bíblia, o diácono continua:
- Falando sobre a
onisciência, o capítulo 12, versículo 2 do Evangelho de Lucas diz: “mas não há
nada encoberto que não haja de ser descoberto, e nem oculto que não haja de ser
sabido”. E depois no versículo 7: “E até os cabelos de vossa cabeça estão
contados”.
Ao ouvi-lo,
Valentim se espanta. Ele acha incrível o fato de Deus saber até o número exato
dos fios de cabelo das pessoas. De cada pessoa, cada mísera pessoa andando sobre
a face da Terra.
“Mas se Ele sabe
algo tão inútil, então por que não diz onde está Danica?”, pergunta-se ele.
Izak continua:
- A onipotência
de Deus é maravilhosa e apenas revela seu majestoso poder. No livro de
Jeremias, capítulo 32, versículo 17 diz: “Ah! Soberano Senhor, tu fizeste os
céus e a terra pelo teu grande poder e por teu braço estendido. Nada é difícil
demais para ti”. – recita ele – Mesmo o arcanjo Gabriel testifica isto. Ao ser
questionado pala Virgem Maria, ele diz: “pois nada é impossível para Deus”.
O diácono citava
o Evangelho de Lucas capítulo 1, versículo 37.
Valentim se espanta.
Ele se pergunta como seria ter um poder tão tremendo a ponto de nada poder
resisti-lo.
“Se Deus é tão
poderoso, então por que não traz Danica de volta ao invés de ignora-la, dando-lhe
as costas e prolongando o seu sofrimento?”, pergunta-se ele.
- Deus é
onipresente. No livro de Salmos, capítulo 139, versículos 7 ao 10, o salmista
diz: “para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se
subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali
estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, até
ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá”. – recita ele – Novamente
Jeremias, no capítulo 23, versículo 24, O testifica: “esconder-se-ia alguém em
esconderijos de modo que Eu não o veja? Diz o Senhor”.
Valentim se
surpreende, pois não consegue imaginar um corpo imensuravelmente grande a ponto
de estar em Liubliana e em Londres ao mesmo tempo.
“Mas se Deus é
onipresente, então por que não diz onde Danica está?”.
- E por fim a
sempiterna infinitude de Deus.
“Sempiterna?”,
pergunta-se Valetim.
- O apóstolo
Paulo, em sua carta aos Colossenses, capítulo 1, versículo 17, testifica do
nosso Senhor Jesus, dizendo: “e Ele é antes de todas as coisas, e todas as
coisas subsistem por Ele”. Também João, em Apocalipse, capítulo 1, versículo 8,
diz: “Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, o que é, o que era e o que há
de vir, o Todo-poderoso”. Estas são evidências diretas citadas no Evangelho de
João, capítulo 10, versículo 30, que diz: “Eu e o Pai somos um”.
Desta vez
Valentim não consegue compreender. Ele se pergunta como pode alguém existir
antes da própria existência, e mais ainda sustenta-la pessoalmente. Valentim
não sabe o que é alfa e ômega, mas acredita serem letras do alfabeto grego.
Apesar disso, ele acha difícil alguém que é o primeiro e o último estar além da
criação, se não ele não poderia ser o primeiro e nem o último.
“Se Deus é
infinito, não seria fútil julgar os homens segundo a sua finitude terrena?”,
pergunta-se ele.
Izak termina sua
lição. Fechando a Bíblia, ele levanta sua cabeça e olha para a sua congregação
paupérrima. Alguns estavam confusos, outros inquietos e alguns cochilavam em
seus bancos. O diácono mantém sua classe, mas ele se sente lançando pérolas aos
porcos.
- Minha nossa
Senhora, rogai por estes pecadores... – sussurra ele.
E então o seu
olhar se encontra com o de Valentim. O homem o encarava com evidente indagação,
ponderando nas palavras que acabara de dizer. De fato, Valentim parecia ser o
único ali minimamente interessado na lição. Todavia, Izak cruza os braços e
informa:
- Irmãos
necessitados, a sopa será servida a seguir. Devo informa-los que aquele que
ficar para a limpeza deste santo templo receberá porção dobrada ao meio-dia.
Queiram fazer fila no lado de fora, por favor.
Todos se
levantam, cansados e entediados após sua primeira lição de catecismo. Valentim
os acompanha para fora e vê os auxiliares da igreja ao lado de um grande tacho
de sopa quente. Ao vê-lo, seu estômago ronca.
Os mendigos e
inválidos estavam ávidos para comer. Como animais, eles se ajuntam em frente à
comida, causando um alvoroço. Valentim é obrigado a se misturar e esticar o seu
braço para receber sua porção. Os auxiliares são obrigados a organiza-los e
conte-los. Novamente a sensação de humilhação se apodera dele, lamentando-se
por ter descido àquele nível. Apesar da escassez, Danica se esforçou para
farta-lo no almoço e no jantar.
A fila se forma
e, ao chegar a sua vez, Valentim recebe uma tigela de sopa e uma colher de
madeira. O cheiro era delicioso. A fome era tanta que ele come tudo com muito
gosto. O sabor era bom e ele se alegra por ter se alimentado aquele dia; mais
um dia sem comer e ele se desfaleceria.
Sentados contra a
parede, os mendigos conversavam tranquilamente. Haviam bêbados e lunáticos que
não falavam nada com nada, mas outros eram lúcidos e pareciam estar em uma
situação semelhante a de Valentim. Aproximando-se, ele se senta e ouve a
conversa.
- Viver é um
eterno estado de trabalho e endividamento! – afirma um mendigo calvo.
- Como assim,
velho amigo? – pergunta outro.
- Veja,
trabalhamos a vida inteira e, mesmo assim, apenas nos endividamos! E você quer
saber por quê? Porque os preços são tão altos que, apesar de trabalharmos tanto,
não conseguimos paga-los. Na verdade, creio que esta é a razão de muitos
estarem aqui. Portanto eu novamente afirmo: viver é um eterno estado de
trabalho e endividamento!
Os inválidos se
aproximam para ouvir também. Eles parecem concordar com o mendigo calvo.
- E como você
sabe disso? Por acaso você já trabalhou?
- Ora, mas é
claro que sim! – afirma ele – Eu já tive campos, plantações, uma bela
propriedade rural... Mas então as fábricas vieram, trazendo estas benditas
máquinas! Eu vendi tudo o que tinha para migrar para a cidade... E perdi tudo
também. Fui roubado por estelionatários. Não havia nenhuma casa na cidade; os
ladrões roubaram meu dinheiro e, incapaz de comprovar a compra com os papeis de
escritura, fui obrigado a morar na rua. Minha família está na rua também, mas
eles partiram para Murska Sobota e eu nunca mais os vi.
O mendigo falava
de uma cidade na região de Prekmurje, a leste de Carníola.
- Isto é muito
triste, meu velho amigo! Torço para que se levante novamente e volte a
perseguir o sonho de viver prosperamente e bem.
Então um
inválido, aleijado do braço esquerdo, entra na conversa e diz:
- Não tenham
tanta esperança.
Os mendigos olham
para ele, intrigados.
- O que quer
dizer, senhor?
- Só há uma
diferença entre os pobres e os mendigos: os pobres pensam que, trabalhando,
realizarão os seus planos e sonhos. Mas o fato é que ambos não os realizarão.
Eles notam que havia
amargura em sua voz. Então o mendigo calvo diz:
- Mas os
esforçados realizam seus sonhos! Na verdade, são os sonhos que compelem a
juventude!
Meneando
negativamente a cabeça, o inválido diz:
- A juventude não
é a melhor fase só porque tínhamos menos responsabilidades, mas porque
acreditávamos que, no futuro, nossos sonhos se realizariam. E, na verdade, a
despeito do que disse, acho que é por isso que temos sonhos, porque a esperança de realiza-los nos previne de desistirmos da vida. E que vida adulta amarga e
solitária aguarda estes jovens sonhadores...! – pranteia ele.
O outro mendigo
diz:
- Pois eu prefiro
acreditar que nem todos os sonhos sejam arrancados pela dureza da vida. Alguns sonhos
se realizam.
- O meu se foi
com o meu braço, decepado por uma máquina e me lançando na sarjeta... – ele
exibe o coto decepado, causando-lhes aflição.
A conversa fica
melancólica e amarga. Valentim discretamente se afasta, evitando os olhares.
Os auxiliares
chamam por voluntários na limpeza da catedral. Valentim assiste atônito os
indigentes se afastarem e irem embora. Eles só estavam preocupados com a comida
gratuita que a igreja oferecia. A missa e o catecismo não lhe interessavam em
nada.
Valentim se
voluntaria. Ele também não se interessa pelos ensinamentos da igreja, mas não
podia dispensar a alimentação no horário de almoço. Mesmo o seu gato
necessitava de comida em casa. Ademais, ainda não deu o prazo para ele
revisitar Tobias na Gendarmerie.
Dando-lhe um
balde e um esfregão, Valentim passa o resto da manhã limpando a sala de
catecismo. Ele se sente desonrado, insultado e humilhado por se submeter ao
serviço de faxina. Criado nos velhos costumes, Valentim pensa que aquilo é
serviço de mulher. Infelizmente para ele, a vida se mostrou ingrata e o orgulho
era a última coisa que o alimentaria agora.
A sala de
catecismo cheirava mal e ele sabe o porquê. Mendigos, alcóolatras, miseráveis e
vagabundos a frequentavam. Valentim critica o padre por submete-los aos
ensinamentos religiosos quando a única coisa que eles queriam era comida.
Entretanto, a obra social estava atrelada à Igreja e, sem ela, todos morreriam
de fome.
O diácono Izak
passeia pelos átrios da catedral. Ele também faz a faxina, tirando poeira dos
móveis e polindo as obras de latão. Valentim não entende como aqueles garotos
decidiram desperdiçar suas vidas assim, abdicando-se das mulheres e de si
mesmos em troca de uma vida celibatária e enfadonha.
O padre Frančišek
cuidava dos assuntos burocráticos em seu escritório. Valentim prefere não
incomoda-lo; ele não suportaria outra extorsão pelo estômago aquela manhã.
Finalmente é
meio-dia. Guiando-o ao refeitório, os auxiliares lhe servem o almoço. Valentim
não pode deixar de notar que os auxiliares o isolavam. Ele e os outros
voluntários ficam à distância, comendo sua comida em silêncio. A comida estava
boa pois ele vê pães, linguiça e batatas em seu prato. Para acompanhar, eles
bebem um saboroso leite de vaca.
Surrupiando
algumas batatas, ele as esconde em seu bolso e a guarda para o seu gato.
Valentim volta
para casa e, ao abrir a porta, encontra Orfeu deitado em sua poltrona.
Irritado, ele põe suas mãos na cintura e diz:
- Ora, mas que
coisa!
Porém Orfeu mia e
corre para se esfregar em suas pernas; ele parecia feliz em vê-lo.
Valentim esmaga
as batatas e as dilui com um pouco d’água. Normalmente aquilo seria intragável
para os gatos, mas Orfeu come com tanta voracidade que o assusta. A fome era
tanta em sua casa que cada migalha lhes eram uma bênção.
Preocupado,
Valentim se senta e pensa como pagará as suas dívidas. Logo os credores viriam
cobra-lo e ele não sabia o que fazer. De repente Orfeu pula em seu colo e se
deita, ronronando tranquilamente. Irritado, Valentim prontamente o espanta; ele
não estava de bom humor naquele dia.
§
Na manhã seguinte
os miseráveis voltam à catedral. Em seu típico traje de monge, Izak abre a
Bíblia e ministra a palavra. Ele diz:
- Hoje vamos
falar do perdão de Deus. No Evangelho de João, capítulo 3, versículo 16, diz:
“porque Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para todo o que
nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”. – prega ele – Deus não quer
condena-los, irmãos! Ele quer vos dar a vida eterna! Mas para isto basta que
vocês creiam!
A congregação não
demonstra o menor entusiasmo em suas palavras. Insistente, o diácono complementa:
- “Quem crê em
Jesus não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no nome
do Filho Unigênito de Deus”. Entenderam agora a extensão da misericórdia
divina? Ele anseia por nossa Salvação!
Mas ninguém lhe
dá ouvidos. A pregação era interrompida algumas vezes por crianças chorando e
mendigos tossindo. Desanimando-se, o diácono respira fundo.
Enquanto isso,
Valentim pensa:
“Por que Deus nos
oferece a Salvação se não pedimos para estar neste mundo? Não seria melhor não
existirmos ao invés de nos sujeitar à condenação do fogo do inferno?”.
Mais tarde eles
recebem a sopa e Valentim fica mais uma vez para a faxina. Assim ele garante o
alimento para seu gato e o seu almoço.
§
No terceiro dia
de catecismo, Izak fala sobre a guerra espiritual. Ele diz:
- Na carta de
Paulo aos Efésios, o versículo 6, capítulo 12, diz: “porque não temos que lutar
contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e potestades, contra
os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade
nos lugares celestiais”. – prega ele – Como veem há uma guerra espiritual lá
fora. Não é uma guerra entre os homens gerada pela contenda, pela ganância e pela
ira. Ouçam o que disse o apóstolo Paulo no capítulo 4, versículo 26: “irai-vos
e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira. Não deis lugar ao diabo”.
Desta forma, ele nos adverte a sermos pacíficos com os nossos irmãos, e não
irascíveis como os ímpios.
Uma criança
começa a chorar, quebrando sua concentração. Então ele consegue ver que muitos
cochilavam. Todos menos um. Valentim ouve tudo atentamente lá no fundo, mas ele
não parecia convencido. Ignorando-o, ele volta à sua leitura e diz:
- Acautelem-se da
guerra espiritual lá fora, meus irmãos, pois o apóstolo Pedro nos alertou,
dizendo: “sede sóbrios, vigiai, porque o diabo, vosso adversário, anda em
derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar”.
Valentim meneia
negativamente a cabeça. Ao ouvi-lo, ele pensa:
“Por que Deus nos
criou no meio de uma guerra espiritual, nos sujeitando à ação destrutiva dos
demônios? Por que seremos condenados se não crermos em Cristo? Não seria melhor
sermos criados após a derrota de Satanás para não passarmos por isso?”.
A aula acaba e
eles saem para tomar a sopa. Os mendigos e inválidos conversavam
tranquilamente. Nenhum deles falava sobre as lições de catecismo, a não ser
para zombar do jovem Izak. De certa forma, Valentim sente pena dele; seu
esforço para converte-los estava sendo em vão.
Ao ficar para a
faxina, os auxiliares o pedem para abanar o pó dos campanários. Valentim olha
para cima e vê uma íngreme escada para cada torre. Irritando-se, ele pergunta:
- Por que vocês,
moleques, não sobem lá vocês mesmos?
Um auxiliar
responde:
- Não podemos. Nós
temos medo de altura...
Então ele bufa de
indignação.
- Mas são uns
molengas, mesmo!
Então ele se vira
e pega o seu balde.
Ao subir em um
dos campanários, Valentim olha para a paisagem lá embaixo. A cidade estendia-se
pelo horizonte, com suas casas de telhados vermelhos se misturando com as
fábricas inglesas. Ao sul, uma colossal refinaria de Plasma ocupava uma parte
do pântano. Distraindo-se, ele tem um curioso pensamento.
“Gostaria de
conhecer Liubliana quando esta pertencia-se apenas a si mesma, antes dos
ingleses, dos austríacos e também dos romanos. Gostaria de contempla-la em seu
estado puro, quando não éramos governados por potências estrangeiras explorando
a nossa terra. Como um passeio no passado longínquo, um alvorecer das antigas
manhãs”.
Debruçado na
pequena mureta, ele se perde em devaneios. Então ele ouve um chirriar acima e
se assusta. No topo do campanário ele vê um ninho de corujas. Confuso, ele
pensa que elas só habitavam buracos na terra. As corujas olham para ele e viram
suas cabeças, mas nunca parando de olha-lo. Por alguma razão, Valentim sente
medo. As corujas pareciam conter uma aura negra ao seu redor. Então ele limpa o
piso ao redor dos sinos e deixa rapidamente aquele lugar.
§
No quarto dia ele
volta ao catecismo. Izak abre a Bíblia e faz uma pregação sobre a importância
da fé. Ele diz:
- Na carta aos
Hebreus, capítulo 1, versículo 7 diz: “sem fé é impossível agradar a Deus, pois
quem dele se aproxima precisa crer que Ele existe e que recompensa aqueles que
O buscam”. – prega ele – Ouçam, meus irmãos. É preciso crer que nosso Criador
exista, do contrário nossas petições serão em vão. Ouçam o que diz o próprio
Senhor Jesus Cristo no Evangelho de João, capítulo 17: “aquele que crê em mim
fará também as obras que tenho realizado”. Versículo 13: “e Eu farei o que
vocês pedirem em meu nome, para que o Pai seja glorificado no Filho. Versículo
14: “o que vocês pedirem em meu nome, eu farei”. – olhando para a congregação,
ele pergunta – Veem a importância de crerem na existência de Deus?
Mas a congregação
estava distraída e desatenta, preocupada apenas com a refeição mais tarde. Izak
os ignora e tenta continuar a pregação.
Cansado daquele monólogo para uma audiência
letárgica, Valentim levanta seu braço e ousadamente pergunta:
- Diácono Izak,
eu tenho uma pergunta. Se Deus é tão poderoso como você diz, então por que Ele
se esconde?
O diácono não
compreende.
- O que disse,
senhor?
- Se Deus é tão
onipotente, onisciente e onipresente como disse, então por que Ele precisa
diminuir a Si mesmo para caber na crença das pessoas?
Izak arregala os
olhos, confuso. Neste momento a congregação parece acordar.
- Deus não
precisa se diminuir para ninguém, senhor! São as pessoas que precisam se
humilhar para conhece-Lo! Pois como está na Palavra, Deus não resiste a um
coração quebrantado e contrito.
O diácono citava
Salmos, capítulo 51, versículo 17.
Valentim revira
os olhos, entediando-se.
- Pois eu vi
minha esposa se humilhando para Ele a vida inteira e o que lhe aconteceu? Ela
desapareceu há quatro dias! – acusa ele – Nem mesmo a Gendarme quer procura-la!
Jesus é o bom pastor, não é? Então por que ele não cuidou de uma de suas
ovelhas, ao invés de permitir que ela fosse sequestrada assim?
Izak se espanta.
- Isto é
blasfêmia! – brada ele.
- Não! – discorda
ele – É a verdade! Se Deus é onisciente, então por que Ele não diz onde ela
está? Se Ele é onipotente, então por que não usa seu poder para traze-la de
volta? Se Ele é onipresente, então por que tantas pessoas morrem diariamente,
sequestradas em cativeiros, sendo que Deus está presente vendo tudo e não faz nada?!
Mais uma vez o
diácono arregala os olhos.
- Meu senhor! Não
diga isto!
- Por Sua culpa
Satanás está solto no mundo! Por Sua decisão fomos criados no meio de uma
guerra espiritual! Por sua permissão a humanidade caiu no pecado! E qual é o
plano divino para resolver tudo isto? Simplesmente crer
que Ele exista! – ironiza ele.
Desconcertado, o
diácono o repreende:
- Meu senhor!
- Não somos nós
que precisamos do perdão de Deus, mas Deus
que precisa do nosso perdão...! - afronta ele - Devido a sua inação e sua insensibilidade para
com o nosso padecimento neste mundo horrível!
Então os
miseráveis se agitam, apoiando-o.
- Agitador! – acusa Izak – Você um maldito
agitador!
- O que você
disse?
- Eu não ficarei
aqui ouvindo suas blasfêmias! O senhor não tem parte alguma com Deus! Sua parte
é ao lado de Satanás e seus anjos!
Valentim ri.
- Os mesmos que o
seu Deus permitiu que habitassem a terra com os humanos? E tenta dizer que os
pecadores somos nós?!
- Basta! – grita ele – Esta aula acabou!
Virando-se, Izak
pega sua Bíblia e vai embora.
Os miseráveis riem, estupefatos com a discussão que acabaram de assistir. Valentim recebe aplausos, sendo estranhamente homenageado.
Um mendigo aperta
sua mão e diz:
- Obrigado por
nos livrar desta aula chata!
Outro diz:
- Eu já estava caindo de sono!
E mais outro diz:
- Este diácono é
mesmo um palerma!
Então um inválido
olha para ele e comenta:
- Eu só espero que eles ainda nos sirvam a sopa...

Nenhum comentário:
Postar um comentário