segunda-feira, 7 de abril de 2025

Shenzhou Wénzi - 14 - Cruzadores Sobre Zhurong

 


(Artista desconhecido)


Três horas se passam. Os engenheiros instalam o avançado propulsor no chassi do Wénzi e os programadores o conectam ao Navcom. Então, um minuto depois, os alarmes começam a soar.

Compartimentos secretos se abrem nas paredes e os colonos pegam poderosos rifles lasers. Todos, tanto homens como mulheres, portam os rifles e os recarregam com notável agilidade. Eles formam um perímetro e montam uma posição defensiva. Nesse momento Yang percebe. Todos ali tinham treinamento militar, semelhante ao Exército de Defesa de Israel.

- O que está acontecendo?! – pergunta Elisheva.

Os seguranças falam algo em hebraico e a conduzem para a sala de comunicações. Yang os segue logo atrás.   

Nos monitores, eles veem as imagens de segurança de Zhurong. Aeronaves de aparência alienígena sobrevoavam os prédios. Vias públicas eram destruídas e o ar tóxico invadia os espaços internos, sufocando os habitantes. Poderosos raios lasers desciam do céu e arrasavam prédios inteiros. As câmeras miram suas lentes para cima e eles conseguem ver. Em meio às nuvens, espaçonaves massivas desciam do céu, negras e imponentes como os executores do Juízo Final.  

Haviam cruzadores sobre Zhurong.

A metrópole estava sendo invadida. Os canhões antiaéreos que outrora atacaram Yang agora defendiam a cidade. Surpreendentemente, os fragmentos dos projéteis tem certa eficiência contra os enxames, mas apenas conseguem atrasar o inevitável.

Um segurança fala algo para Elisheva. Ela concorda e, dirigindo-se a Yang, ela diz:

- Piloto Haisheng, detectamos espaçonaves inimigas aproximando-se de nosso kibutz. Entraremos em estado de lockdown. Ninguém entra e ninguém sai até o fim da invasão.

- Não! – protesta ele – Eu tenho que voltar e defender Zhurong!

Os engenheiros falam algo para Elisheva e ela responde:

- Yang, o propulsor não foi totalmente instalado. Ainda falta programar o PLH ao firmware[1].  

- Ele pode voar?

A diretora pergunta aos engenheiros. Ao ouvi-los, ela responde:

- Sim, mas...

- Isso é tudo o que eu quero saber.

Virando-se, ele veste seus trajes e põe seu capacete. Impaciente, ele não tinha tempo a perder.

As portas do hangar se abrem e ele se prepara. Acenando, o Wénzi pega voo e ele deixa Nova Degania.

 

§

 

No céu marciano, Yang checa o arsenal de sua nave. Estava tudo recarregado e pronto para atirar. Checando os níveis de escudo, as barreiras Kinect foram carregadas 100%. O Wénzi estava plenamente operacional.

Mas faltava um último teste; a manobrabilidade.

O novo propulsor deixou a nave incrivelmente leve. Yang vira os manches e o Wénzi se vira instantaneamente, como um balão de gás hélio nas mãos de uma criança. 

Algo o incomoda. No para-brisa ele vê frases escritas em hebraico. Era a tela de navegação do propulsor. Por falta de tempo, os engenheiros o haviam deixado em sua própria língua.

A metrópole se aproxima. Neste momento Yang pode ver. Haviam cruzadores sobre Zhurong.

Os prédios eram devastados e destruídos. Poeira e fumaça se elevavam no céu marciano, mas, diferente da Terra, naquele planeta elas se dissipavam mais lentamente.

Uma explosão é sentida. O piloto é sacudido dentro da cabine.

- Escudos a 91%. – informa Navcom.

Olhando ao redor, Yang se assusta.

- Zhè shì bĭshŏu ma?[2]

 Ele é atacado por uma espaçonave diferente. O inimigo lança uma aeronave nova, rápida e pontiaguda como uma adaga.

Como os enxames, as adagas voam em bando, mas são tão velozes quanto os caças da Terra. As adagas sobrevoam os prédios e lançam bombas, destruindo-os. Os canhões antiaéreos conseguiam abater alguns enxames, mas eram lentas demais para causar danos no novo inimigo.

Por não contar com as forças do Exército e Aeronáutica, a cidade era facilmente subjugada. As bombas explodiam tudo ao redor, destruindo vias de transporte e abastecimento. No planeta vermelho, o ar atmosférico sufocava até a morte os habitantes, forçando-os a permanecer na cidade e procurar abrigo.

O piloto vê os cidadãos lutando para sobreviver. Lá embaixo, eles se tumultuavam e se pisoteavam para entrar nos abrigos. Os prédios e vias públicas perdiam o fornecimento de oxigênio, impedindo a permanência.  Alguns entravam em rovers e fugiam pelo deserto, apenas para sofrerem uma morte agoniante de inanição.

Aquela cena catastrófica lhe lembrava Tiangong mas, diferente da inospitalidade do espaço, ali os humanos enfrentavam a atmosfera marciana.

Irritado, Yang manobra o Wénzi e se dirige à cidade. Ele arremete contra os enxames e destrói alguns. Em alvos próximos, ele utiliza a metralhadora Vulcan. Em alvos dispersos, ele utiliza o canhão Estrela da Manhã. Ágil e leve como estava, ele sentia que não voava, mas sim flutuava. O novo propulsor lhe estava sendo formidável.

Um enxame se concentrava sobre um prédio, lançando bombas enquanto o rodeavam como abelhas. Yang seleciona o míssil Macro e então atira. Dois mísseis são disparados e atingem o terraço, causando uma explosão mínima que então se multiplica, aumentando de tamanho e engolindo aqueles enxames. A onda de fogo os despedaçam e eles logo caem no árido solo marciano.

De repente o poderoso raio laser desce do céu. Os cruzadores também atacavam. Yang se esquiva, mas assiste o impotente raio fulminar a cidade. Por sua proximidade, seu elevadíssimo calor era capaz de danificar o Wénzi.

- Escudos a 84%.

Mas Yang também tinha um laser.

Subindo, ele enxerga o seu alvo, um cruzador alienígena. Da parte inferior, o cruzador disparava o laser. Yang já havia visto aquilo antes, na terrível invasão de Shangai. Então ele seleciona o mini canhão Yu Huang e atira.

O laser amarelo avança e atinge a parte inferior do cruzador. O calor derrete a fuselagem e a atravessa, danificando o equipamento e provocando uma série de explosões. Imediatamente o ataque de laser daquele cruzador sai de operação.

Outro impacto é sentido em sua nave. Navcom informa:

- Escudos a 77%.

A nova ameaça o atacava. Aquelas naves em forma de adaga o perseguiam.

Yang estava furioso. Com um arsenal destrutivo e um propulsor formidável, ele se prepara para o combate.

Então a voz surge em seu comunicador.

“Piloto Haisheng, aqui é Li Fen. Fuja imediatamente de Zhurong”.

O piloto não compreende.

- O quê?!

“Eu repito. Fuja de Zhurong agora”.

Yang não consegue entender. Se ele ficasse, o Alto Comando podia enviar suporte e a invasão seria contida.

- Mas por quê? – pergunta ele.

“Os antiaéreos e a frota de Yaping ficarão para defendê-la, mas não por muito tempo. A cidade será tomada. Esta é uma batalha perdida”.

Ele se espanta com a frieza de sua assistente.

Mas logo ele entende o que ela quis dizer.

Zunidos agudos são ouvidos. Olhando para o céu, ele se petrifica. Uma frota inteira de cruzadores desciam pelas nuvens alaranjadas de Marte. Yang enxerga em torno de cinquenta. Nem em Shangai ele viu um número tão alto assim.

Os enxames destruíam a cidade lá embaixo. O piloto sabe que os canhões antiaéreos e a frota de Yaping não serão páreos para o inimigo. Zhurong seria entrega à própria sorte.

Ondas de enxames e raios lasers fulminam a cidade. Com as naves do tipo adaga em seu encalço, ele seria destruído. Tomando uma difícil decisão, ele decide fugir.

As adagas atiravam contra ele, drenando seu escudo. Yang sobrevoa os prédios em chamas e se desvia habilmente. Marte não era mais segura; além da metrópole, restava apenas a colônia de Israel e o infindável deserto pelo planeta. Puxando seus manches, ele intenta subir.

Outra complicação aparece. Os céus estavam tomados pelos cruzadores. Haviam muitos entre as nuvens e ele não conseguiria alcançar o espaço por Zhurong. Estando na região metropolitana, Yang precisava se afastar.

Virando os manches, ele acelera e avança pelo deserto. Com pesar, ele assiste a metrópole ser subjugada pelo inimigo, como aconteceu em Tiangong.

Mas ele ainda não estava a salvo. As adagas o perseguiam.

Sob fogo inimigo, Yang avança pelo deserto. Tentando evadir, o piloto faz um rasante e voa perto do solo, levantando uma poeira fina e formando uma nuvem tóxica. Alguns tiros o atingem e a fuselagem se estremece; ele precisava se apressar.

De repente o deserto cessa e uma fantástica paisagem se revela. Yang chega a uma gigantesca fenda em Marte.

O piloto estava sobre o famoso Valles Marineris, um gigantesco vale onde águas supostamente fluíram bilhões de anos atrás. Esta vasta rede de cânions se esticava por 3 mil quilômetros, e tinha uma profundidade média de 8 quilômetros. Nem em Nova Degania ele viu uma cânion tão vasto assim. Yang se sente voando sobre a face do abismo.

Descendo pelo penhasco, Yang voa entre os paredões rochosos. Apesar da alta velocidade, sua aeronave não conseguia evadir das adagas; elas o perseguiam em velocidade igual.

O tiroteio começa. Yang é frequentemente atingido pelos projéteis inimigos. O piloto se intriga. Desta vez o inimigo não atacava com suas lentas bombas de energia; agora eles atiravam com armas semelhantes à metralhadora Vulcan.

Os escudos se drenam rápido. O tiro causa pouco dano e é repelido facilmente, mas são muitos. As adagas se emparelham ao lado do Wénzi e o atacam incessantemente. Por sua posição, o piloto não pode contra-atacar. Os mísseis teleguiados não tinham espaço. O canhão Yu Huang e os Mísseis Macro só atiravam para frente. A metralhadora Vulcan não era articulada para atirar para os lados. Bombas seriam inúteis. O canhão Estrela da Manhã também. Com os escudos se drenando rápido, Yang precisava agir.

- Escudos a 39%.  

O piloto tenta se esquivar com manobras evasivas, mas no gigantesco cânion, a agilidade do Wénzi era ineficaz. Yang desce e arremete, mas as adagas o perseguiam sem dificuldade. Freando a nave, o piloto consegue abater algumas com mísseis teleguiados, mas elas logo se emparelhavam de novo, mantendo-se ao seu lado. Naquele ritmo, o Wénzi seria abatido no ar.

- Escudos a 25%. Estamos entrando em estado crítico, senhor.

De repente uma adaga se colide contra o Wénzi. Yang se assusta. Elas estavam tentando derruba-lo a força.

Alarmes soam dentro da cabine. Uma luz vermelha piscante o ofusca. Os escudos do Wénzi se esgotavam e o piloto não conseguia fazer nada.

Olhando ao redor, ele vê apenas os paredões do gigantesco cânion. Eles estavam tão distantes um do outro que mal se podia vê-los. Abaixo havia apenas a escuridão. Não havia onde se esconder.

Então ele se lembra do Propulsor Luciferino Hyperdrive.

Ativando o propulsor, ele intenta utiliza-lo no máximo para fugir dali. Faíscas se soltam do teto e a luz vermelha lhe dá enjoo. O som do alarme lhe dava dor de cabeça. Ligando o propulsor, letras aparecem no para-brisa e, sem tempo para ler, ele simplesmente aperta os botões.

Um som é ouvido. Ele pensa ouvir o ruído de um reator nuclear. De repente a nave abruptamente se acelera e pega velocidade muito rápido. No momento Yang se sente sentado nas turbinas de um avião a jato.

A nave se acelera em uma rapidez inimaginável. Apesar da largura do cânion, ele teme se colidir contra os altos paredões. Agarrando os manches, ele os ergue e intenta alcançar o céu. Com muito esforço ele sobe e, para sua surpresa, o céu foi alcançado rápido demais. Surpreso como estava, Yang não teve tempo de perceber que as adagas ficaram há muito tempo para trás. Yang agora lutava para não perder o controle do Shenzhou Wénzi.

A velocidade aumentava e aumentava, e aumentava. A pressão era tamanha que logo ele iria desmaiar. Tentando alcançar o painel, ele intenta desligar o propulsor. Mas então ele se lembra de algo. No para-brisa as letras estavam em hebraico; os engenheiros de Nova Degania não tiveram tempo de reprogramar e traduzir o equipamento.

A nave atravessa as nuvens alaranjadas e se exfiltra da atmosfera marciana. A fuselagem treme. Superaquecendo-se, Yang teme ser queimado vivo. A escuridão da espaço já pode ser vista, mas a velocidade não parava de aumentar.

O Wénzi avança à deriva pelo espaço exterior. A tontura o afeta, seu corpo perde o vigor e seu sangue não consegue mais irrigar seu cérebro. Enquanto a nave avança rápida como uma estrela cadente, Yang solta os manches e se desfalece.

Ele havia perdido a consciência.

 

 

 



[1] Firmware é um programa que controla o funcionamento dos dispositivos eletrônicos, como um software incorporado ao hardware. Mas, diferente do software que pode ser modificado e atualizado frequentemente, o firmware é um conjunto de instruções programadas e gravadas permanentemente no hardware.  

[2] “Isso é uma adaga?” em chinês

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