(Artista desconhecido)
Três horas se
passam. Os engenheiros instalam o avançado propulsor no chassi do Wénzi e os
programadores o conectam ao Navcom. Então, um minuto depois, os alarmes começam
a soar.
Compartimentos
secretos se abrem nas paredes e os colonos pegam poderosos rifles lasers.
Todos, tanto homens como mulheres, portam os rifles e os recarregam com notável
agilidade. Eles formam um perímetro e montam uma posição defensiva.
Nesse momento Yang percebe. Todos ali tinham treinamento militar, semelhante ao
Exército de Defesa de Israel.
- O que está
acontecendo?! – pergunta Elisheva.
Os seguranças
falam algo em hebraico e a conduzem para a sala de comunicações. Yang os segue
logo atrás.
Nos monitores,
eles veem as imagens de segurança de Zhurong. Aeronaves de aparência alienígena
sobrevoavam os prédios. Vias públicas eram destruídas e o ar tóxico invadia os
espaços internos, sufocando os habitantes. Poderosos raios lasers desciam do
céu e arrasavam prédios inteiros. As câmeras miram suas lentes para cima e eles
conseguem ver. Em meio às nuvens, espaçonaves massivas desciam do céu, negras e
imponentes como os executores do Juízo Final.
Haviam cruzadores sobre Zhurong.
A metrópole
estava sendo invadida. Os canhões antiaéreos que outrora atacaram Yang agora defendiam
a cidade. Surpreendentemente, os fragmentos dos projéteis tem certa eficiência
contra os enxames, mas apenas conseguem atrasar o inevitável.
Um segurança fala
algo para Elisheva. Ela concorda e, dirigindo-se a Yang, ela diz:
- Piloto
Haisheng, detectamos espaçonaves inimigas aproximando-se de nosso kibutz.
Entraremos em estado de lockdown. Ninguém entra e ninguém sai até o fim da
invasão.
- Não! – protesta
ele – Eu tenho que voltar e defender Zhurong!
Os engenheiros
falam algo para Elisheva e ela responde:
- Yang, o
propulsor não foi totalmente instalado. Ainda falta programar o PLH ao
firmware[1].
- Ele pode voar?
A diretora
pergunta aos engenheiros. Ao ouvi-los, ela responde:
- Sim, mas...
- Isso é tudo o
que eu quero saber.
Virando-se, ele
veste seus trajes e põe seu capacete. Impaciente, ele não tinha tempo a perder.
As portas do
hangar se abrem e ele se prepara. Acenando, o Wénzi pega voo e ele deixa Nova Degania.
§
No céu marciano,
Yang checa o arsenal de sua nave. Estava tudo recarregado e pronto para atirar.
Checando os níveis de escudo, as barreiras Kinect foram carregadas 100%. O
Wénzi estava plenamente operacional.
Mas faltava um
último teste; a manobrabilidade.
O novo propulsor
deixou a nave incrivelmente leve. Yang vira os manches e o Wénzi se vira
instantaneamente, como um balão de gás hélio nas mãos de uma criança.
Algo o incomoda.
No para-brisa ele vê frases escritas em hebraico. Era a
tela de navegação do propulsor. Por falta de tempo, os engenheiros o haviam
deixado em sua própria língua.
A metrópole se
aproxima. Neste momento Yang pode ver. Haviam cruzadores sobre Zhurong.
Os prédios eram
devastados e destruídos. Poeira e fumaça se elevavam no céu marciano, mas,
diferente da Terra, naquele planeta elas se dissipavam mais lentamente.
Uma explosão é
sentida. O piloto é sacudido dentro da cabine.
- Escudos a 91%.
– informa Navcom.
Olhando ao redor,
Yang se assusta.
- Zhè shì bĭshŏu ma?[2]
Ele é atacado por uma espaçonave diferente. O inimigo
lança uma aeronave nova, rápida e pontiaguda como uma adaga.
Como os enxames,
as adagas voam em bando, mas são tão velozes quanto os caças da Terra. As adagas
sobrevoam os prédios e lançam bombas, destruindo-os. Os canhões antiaéreos
conseguiam abater alguns enxames, mas eram lentas demais para causar danos no
novo inimigo.
Por não contar
com as forças do Exército e Aeronáutica, a cidade era facilmente subjugada. As
bombas explodiam tudo ao redor, destruindo vias de transporte e abastecimento.
No planeta vermelho, o ar atmosférico sufocava até a morte os habitantes,
forçando-os a permanecer na cidade e procurar abrigo.
O piloto vê os
cidadãos lutando para sobreviver. Lá embaixo, eles se tumultuavam e se pisoteavam para entrar
nos abrigos. Os prédios e vias públicas perdiam o fornecimento de oxigênio, impedindo a permanência. Alguns entravam
em rovers e fugiam pelo deserto, apenas para sofrerem uma morte agoniante de
inanição.
Aquela cena
catastrófica lhe lembrava Tiangong mas, diferente da inospitalidade do espaço,
ali os humanos enfrentavam a atmosfera marciana.
Irritado, Yang
manobra o Wénzi e se dirige à cidade. Ele arremete contra os enxames e destrói
alguns. Em alvos próximos, ele utiliza a metralhadora Vulcan. Em alvos
dispersos, ele utiliza o canhão Estrela da Manhã. Ágil e leve como estava, ele
sentia que não voava, mas sim flutuava. O novo propulsor lhe estava sendo
formidável.
Um enxame se
concentrava sobre um prédio, lançando bombas enquanto o rodeavam como abelhas.
Yang seleciona o míssil Macro e então atira. Dois mísseis são disparados e
atingem o terraço, causando uma explosão mínima que então se multiplica, aumentando
de tamanho e engolindo aqueles enxames. A onda de fogo os despedaçam e eles
logo caem no árido solo marciano.
De repente o
poderoso raio laser desce do céu. Os cruzadores também atacavam. Yang se
esquiva, mas assiste o impotente raio fulminar a cidade. Por sua proximidade,
seu elevadíssimo calor era capaz de danificar o Wénzi.
- Escudos a 84%.
Mas Yang também
tinha um laser.
Subindo, ele
enxerga o seu alvo, um cruzador alienígena. Da parte inferior, o cruzador
disparava o laser. Yang já havia visto aquilo antes, na terrível invasão de
Shangai. Então ele seleciona o mini canhão Yu Huang e atira.
O laser amarelo avança e atinge a parte inferior do cruzador. O calor derrete a fuselagem e a atravessa, danificando o equipamento e provocando uma série de explosões. Imediatamente o ataque de laser daquele cruzador sai de operação.
Outro impacto é
sentido em sua nave. Navcom informa:
- Escudos a 77%.
A nova ameaça o
atacava. Aquelas naves em forma de adaga o perseguiam.
Yang estava
furioso. Com um arsenal destrutivo e um propulsor formidável, ele se prepara
para o combate.
Então a voz surge
em seu comunicador.
“Piloto Haisheng,
aqui é Li Fen. Fuja imediatamente de Zhurong”.
O piloto não
compreende.
- O quê?!
“Eu repito. Fuja
de Zhurong agora”.
Yang não consegue
entender. Se ele ficasse, o Alto Comando podia enviar suporte e a invasão seria
contida.
- Mas por quê? –
pergunta ele.
“Os antiaéreos e
a frota de Yaping ficarão para defendê-la, mas não por muito tempo. A
cidade será tomada. Esta é uma batalha perdida”.
Ele se espanta
com a frieza de sua assistente.
Mas logo ele
entende o que ela quis dizer.
Zunidos agudos são
ouvidos. Olhando para o céu, ele se petrifica. Uma frota inteira de cruzadores
desciam pelas nuvens alaranjadas de Marte. Yang enxerga em torno de cinquenta.
Nem em Shangai ele viu um número tão alto assim.
Os enxames
destruíam a cidade lá embaixo. O piloto sabe que os canhões antiaéreos e a
frota de Yaping não serão páreos para o inimigo. Zhurong seria entrega à
própria sorte.
Ondas de enxames
e raios lasers fulminam a cidade. Com as naves do tipo adaga em seu encalço,
ele seria destruído. Tomando uma difícil decisão, ele decide fugir.
As adagas
atiravam contra ele, drenando seu escudo. Yang sobrevoa os prédios em chamas e se desvia habilmente. Marte não era mais segura; além da metrópole, restava
apenas a colônia de Israel e o infindável deserto pelo planeta. Puxando seus
manches, ele intenta subir.
Outra complicação
aparece. Os céus estavam tomados pelos cruzadores. Haviam muitos entre as
nuvens e ele não conseguiria alcançar o espaço por Zhurong. Estando na região metropolitana, Yang precisava se
afastar.
Virando os
manches, ele acelera e avança pelo deserto. Com pesar, ele assiste
a metrópole ser subjugada pelo inimigo, como aconteceu em Tiangong.
Mas ele ainda não
estava a salvo. As adagas o perseguiam.
Sob fogo inimigo, Yang avança pelo deserto. Tentando evadir, o piloto faz um rasante e voa perto do solo, levantando uma poeira fina e formando uma nuvem tóxica. Alguns tiros o atingem e a fuselagem se estremece; ele precisava se apressar.
De repente o
deserto cessa e uma fantástica paisagem se revela. Yang chega a uma gigantesca
fenda em Marte.
O piloto estava
sobre o famoso Valles Marineris, um gigantesco vale onde águas supostamente
fluíram bilhões de anos atrás. Esta vasta rede de cânions se esticava por 3 mil
quilômetros, e tinha uma profundidade média de 8 quilômetros. Nem em Nova
Degania ele viu uma cânion tão vasto assim. Yang se sente voando sobre a face
do abismo.
Descendo pelo
penhasco, Yang voa entre os paredões rochosos. Apesar da alta velocidade, sua aeronave não conseguia evadir das adagas; elas o perseguiam em velocidade igual.
O tiroteio
começa. Yang é frequentemente atingido pelos projéteis inimigos. O piloto se
intriga. Desta vez o inimigo não atacava com suas lentas bombas de energia;
agora eles atiravam com armas semelhantes à metralhadora Vulcan.
Os escudos se drenam rápido. O tiro causa pouco dano e é repelido facilmente, mas são muitos. As adagas se emparelham ao lado do Wénzi e o atacam incessantemente. Por sua posição, o piloto não pode contra-atacar. Os mísseis teleguiados não tinham espaço. O canhão Yu Huang e os Mísseis Macro só atiravam para frente. A metralhadora Vulcan não era articulada para atirar para os lados. Bombas seriam inúteis. O canhão Estrela da Manhã também. Com os escudos se drenando rápido, Yang precisava agir.
- Escudos a 39%.
O piloto tenta se
esquivar com manobras evasivas, mas no gigantesco cânion, a agilidade do Wénzi
era ineficaz. Yang desce e arremete, mas as adagas o perseguiam sem
dificuldade. Freando a nave, o piloto consegue abater algumas com
mísseis teleguiados, mas elas logo se emparelhavam de novo, mantendo-se ao seu
lado. Naquele ritmo, o Wénzi seria abatido no ar.
- Escudos a 25%. Estamos
entrando em estado crítico, senhor.
De repente uma
adaga se colide contra o Wénzi. Yang se assusta. Elas estavam tentando
derruba-lo a força.
Alarmes soam
dentro da cabine. Uma luz vermelha piscante o ofusca. Os escudos do Wénzi se
esgotavam e o piloto não conseguia fazer nada.
Olhando ao redor,
ele vê apenas os paredões do gigantesco cânion. Eles estavam tão distantes um
do outro que mal se podia vê-los. Abaixo havia apenas a escuridão. Não havia
onde se esconder.
Então ele se
lembra do Propulsor Luciferino Hyperdrive.
Ativando o
propulsor, ele intenta utiliza-lo no máximo para fugir dali. Faíscas se soltam
do teto e a luz vermelha lhe dá enjoo. O som do alarme lhe
dava dor de cabeça. Ligando o propulsor, letras aparecem no para-brisa e, sem
tempo para ler, ele simplesmente aperta os botões.
Um som é ouvido. Ele
pensa ouvir o ruído de um reator nuclear. De repente a nave abruptamente se acelera e pega velocidade muito rápido. No momento Yang se sente sentado nas turbinas
de um avião a jato.
A nave se acelera
em uma rapidez inimaginável. Apesar da largura do cânion, ele teme se colidir
contra os altos paredões. Agarrando os manches, ele os ergue e intenta alcançar o
céu. Com muito esforço ele sobe e, para sua surpresa, o céu foi alcançado
rápido demais. Surpreso como estava, Yang não teve tempo de perceber que as
adagas ficaram há muito tempo para trás. Yang agora lutava para não perder o controle
do Shenzhou Wénzi.
A velocidade
aumentava e aumentava, e aumentava. A pressão era tamanha que logo ele iria desmaiar. Tentando alcançar o painel, ele intenta desligar o
propulsor. Mas então ele se lembra de algo. No para-brisa as letras estavam em
hebraico; os engenheiros de Nova Degania não tiveram tempo de reprogramar e
traduzir o equipamento.
A nave atravessa
as nuvens alaranjadas e se exfiltra da atmosfera marciana. A fuselagem treme. Superaquecendo-se,
Yang teme ser queimado vivo. A escuridão da espaço já pode ser vista, mas a
velocidade não parava de aumentar.
O Wénzi avança à deriva pelo espaço exterior. A tontura o afeta, seu
corpo perde o vigor e seu sangue não consegue mais irrigar seu cérebro. Enquanto a
nave avança rápida como uma estrela cadente, Yang solta os manches e se
desfalece.
Ele havia perdido
a consciência.
[1]
Firmware é um programa que controla o funcionamento dos dispositivos
eletrônicos, como um software incorporado ao hardware. Mas, diferente do
software que pode ser modificado e atualizado frequentemente, o firmware é um
conjunto de instruções programadas e gravadas permanentemente no hardware.
[2]
“Isso é uma adaga?” em chinês

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