domingo, 14 de março de 2021

Tiergarten - 21 - A Quarta Dimensão

 



Em 1980 o astrônomo Carl Sagan apresentou o famoso seriado de televisão “Cosmos”. Em um específico episódio ele explica o conceito de quarta dimensão. Tomando por base o romance "Planolândia" de Edwin A. Abott, no episódio ele se utilizava de figuras geométricas e planas para demonstrar como seria o mundo em duas dimensões.

Em seu exemplo, Sagan pega uma maçã, um objeto totalmente em três dimensões, e tenta inseri-la naquele planificado mundo 2D. Entretanto, as figuras geométricas não conseguiam enxerga-la, mesmo que a maçã estivesse exatamente sobre todos. Então, para finalmente ser vista naquele mundo, a maçã o atravessa e as figuras geométricas conseguem enxergar um pequeno ponto isolado que se expande a medida que ela progride.

A pitoresca cena foi o suficiente para as audiências entenderem como funciona o mundo 3D. Para ser vista em um mundo 2D, a maçã teria de se fazer plana. Da mesma maneira é a quarta dimensão. Impossível de ser apontada em nosso universo, tal impossibilidade não exclui a probabilidade dela existir.

Pegando um cubo, Sagan explica como seria se suas arestas jamais se encerrassem na terceira dimensão. Ao invés, elas criariam volumes tridimensionais sucessivos e infinitamente. Chamando essa nova figura espacial de Hipercubo ou Tesserato, o astrônomo elucidava ainda mais a teoria.

Sagan faz um comentário muito sábio dizendo que a humanidade ainda é arcaica e até ignorante por não perceber a quarta dimensão. Ele a compara com os nossos ancestrais, quando eles não sabiam que a Terra era redonda ou que a mesma girava em torno do Sol, dados tidos como elementares atualmente.

Mas, contrariando os teóricos, e se alguns conseguissem perceber essa enigmática dimensão oculta na escuridão do Universo?   

 

§

 

Sob um belíssimo céu azul, Gunther caminha sobre as nuvens. De repente a paisagem se transforma e ele se vê caminhando em um longo e escuro corredor. Em ambos os lados, ele se surpreende ao ver paredes feitas de aparelhos de televisão. Ao se aproximar de um televisor, ele assiste às imagens e se intriga ao notar que eram lembranças de sua vida.

Apresentadas em primeira pessoa, as imagens exibem eventos passados, presentes e inacreditavelmente futuros de Gunther. Nas imagens o rapaz não ficaria com Anneliese, jamais veria sua mãe novamente e seria morto tentando atravessar o muro de Berlim. Ao ver a forma como ele morreria, o rapaz se estarrece em desespero.

Mas aquilo não era tudo.

Aproximando-se de outro televisor, Gunther vê suas lembranças passadas e presentes até aquele momento, mas o futuro está diferente. O rapaz é fuzilado pelos nazistas durante a Noite das Facas Longas e, em outro televisor, ele é assassinado a sangue frio pelos Freikops. Ambos eram eventos já ocorridos e conhecidos para ele. Ao assistirem-nos, as imagens se tornam estática e saem do ar.

Indo mais adiante, os televisores mostram diversos outros futuros. Em uma imagem, Gunther vê que sua mãe volta do Tiergarten e outra mostra que ela jamais fora para Berlim Ocidental em primeiro lugar. Em ambas, para a infelicidade do rapaz, ele jamais teria reencontrado Anneliese.

Outro televisor mostra que ele morre de velhice, amargurado e sozinho, taxado de doido varrido. Em outra imagem, o rapaz se vê na adolescência até o potente fogo da bomba de hidrogênio queimá-lo vivo até o nível de partículas. A União Soviética e os Estados Unidos haviam entrado em guerra nuclear.

- Meu Deus! – espanta-se ele.

Então o rapaz percebe. Aqueles eram futuros diferentes para cada possibilidade na vida dele. Em cada televisor havia uma infinidade de futuros possíveis, um para cada escolha. O rapaz se fascina ao ver seu desconhecido pai aparecendo em seu apartamento. Lágrimas se formam em seus olhos. Naquela realidade, ele ainda estava vivo.

Procurando em outros televisores, Gunther tenta descobrir a real causa de seu desaparecimento. Em uma imagem, sua mãe o revela que ele morreu em 1966 tentando atravessar o muro de Berlim. Ressentida, ela afirma que seu pai os abandonou e que jamais o perdoará por isso. Em outra imagem, seu pai não tentou atravessa-lo, na verdade ele era membro da Grenztruppen, a impiedosa guarda fronteiriça encarregada de atirar e matar os eventuais fugitivos. Em outra imagem, sua mãe o revela que ele está vivo e mora em Berlim Ocidental, mas nunca estiveram formalmente juntos, não passando de um casal jovem e inexperiente vivendo uma grande paixão.

Ao ver tantas possibilidades, o rapaz entende que, assim como as infinitas escolhas de sua vida, haviam infinitas possibilidades para o destino de seu pai.

- Tudo isso é verdadeiro... – sussurra ele – Mas nada disso é real.

Mas outra imagem o fascina. Em um televisor aleatório, Gunther vê imagens intrigantes onde ele se encontra deitado em uma cama cirúrgica sob uma forte luz branca. Apesar de ofuscado pela luz, ele enxerga seis homens ao seu redor estudando-o. Um médico começa uma conversa e inesperadamente ele reconhece a língua russa. Enquanto o analisam, os médicos conversam naturalmente e no mesmo idioma entre si.    

- Todos eles são russos...! – sussurra ele.

Uma mulher se aproxima. A luz forte não permite vê-la em detalhes, mas era uma jovem mulher de máscara e touca, a enfermeira da equipe. Os médicos falam com ela, orientando-a nos procedimentos médicos. Assentindo, ela se aproxima do rapaz e conversa com ele.

- Ela fala em alemão! – intriga-se ele.

Com notável sotaque russo, a enfermeira conversa com o rapaz sobre a cama. Gunther parece estar catatônico, pois consegue ver e ouvi-los, mas não consegue se movimentar ou falar. A enfermeira passa a mão em seus cabelos, confortando-o. Então um médico exibe uma seringa e, limpando seu ombro, o injeta um líquido verde.

As imagens desaparecem. O televisor exibe apenas estática e então o rapaz entende. “Morto”, pensa ele. “Se eu não entrei em coma, eu estou provavelmente morto”. Receoso e cheio de dúvidas, ele se afasta do televisor.  

O rapaz ouve um barulho. Olhando para frente, o infindável corredor parecia ter chegado ao fim. Entre as paredes de televisores, uma porta preta se forma. Caminhando até ela, ele gira a maçaneta e a abre, se deparando novamente com aquela paisagem celestial de minutos atrás.

Ao atravessar a passagem, o corredor, os televisores e a porta desaparecem, deixando de existir. Novamente em um descampado nebuloso, ele caminha em qualquer direção até alguém aparecer diante de seus olhos.

As nuvens formam um redemoinho, soprando mais forte, tomando forma e revelando uma pessoa. Inesperadamente o rapaz a reconhece.

- Anneliese...! - exclama ele - O que você está fazendo aqui?

A garota demora a responder. Ela aparenta estar perturbada com alguma coisa.

- Você nunca vai me deixar ir, Gunther.

O rapaz não compreende.

- O quê?

- Desde o momento em que nos reencontramos, eu percebi. Nem que eu saia de Berlim e volte para Dresden, nem que eu me mude para a União Soviética e vá ao local mais recôndito da Sibéria, não importa o que eu faça, você irá me procurar. Você nunca vai me deixar ir.

O rapaz concorda. Ela tem toda a razão.

- Anneliese, eu te amo e faria tudo por você.

A garota se irrita.

- Mas por que eu?! - exclama ela.

Gunther não sabe o que responder.

- Desde os tempos de escola quando nos conhecemos...

- Eu sei dos tempos de escola! – interrompe ela – Mas eu não me lembro de você. Eu nunca sequer te vi!

Anneliese tenta classifica-lo como um psicopata. O rapaz responde:

- Não sei explicar meus sentimentos. Apenas aconteceu!

Virando-se, ela respira fundo e diz:

- O jeito que você me olha, o jeito como me deseja... Eu não tenho como fugir. Não importa quantas vezes eu fale não, você nunca desistirá. Eu posso aparecer com outro homem, me casar com outro e até ter filhos com ele, mas sua obsessão insana o fará esperar até que eu seja livre novamente, seja por divórcio, viuvez... – e então ela conclui – ou assassinato.

- Não! – protesta ele – Eu jamais mataria seus pretendentes.

- Tem certeza?

Gunther sente sua convicção tremer. Afastando os maus pensamentos, ele reforça sua postura.

- Eu não sou um assassino!

A garota duvida, mas prefere ficar em silêncio.

- Não importa quantas realidades, épocas ou dimensões eu atravesse. Você sempre estará lá comigo.

Confuso, o rapaz pergunta:

- Anneliese, você também é um paradoxo?

Meneando negativamente a cabeça, ela responde:

- Eu sou uma projeção criada da libido, dos traumas e das paixões da mente de um maníaco e esquizofrênico. A verdadeira Anneliese habita em algum lugar no espaço-tempo, entre as variadas dimensões do espaço-tempo.

Novamente o rapaz não entende.

- Eu não consigo compreender.

- A Anneliese real existe, mas não está aqui. Mas eu sou a real, pois a outra não está presente. De sua perspectiva, o que falo é incompreensível. Mas não quarta, quinta e até a décima dimensão, espaço e tempo, passado e futuro, vida e morte não importam. Tudo é possível.

Aquilo soa muito complexo para Gunther. Voltando ao assunto, ele comenta algo mais razoável para si.

- Independente da dimensão, eu não sou nenhum maníaco e esquizofrênico.

- Então por que me persegue?

O rapaz é sincero:

- Por amor.

Anneliese suspira.

- Eu estou indefesa diante do seu amor. No momento em que eu te vejo eu percebo. Dele eu não poderei escapar. Enquanto eu não me entregar a você, eu jamais terei paz.

- Pois fique comigo, Anneliese! – empolga-se ele – Eu te farei a mulher mais feliz do mundo! Você será minha esposa, minha princesa... – e então ele conclui – minha Rainha!

A garota se irrita.

- Rainha?! – escandaliza-se ela – Quer me tornar uma nobre? Daqui a pouco vai me tornar uma burguesa. – responde ela, com desprezo – Eu sou uma comunista, Gunther. Eu desprezo a nobreza, a burguesia e o clero das igrejas. Defendo a luta de classes. Serei para sempre do proletariado.

Perplexo, o rapaz pergunta:

- Você nunca abandonará a causa revolucionária para ficar comigo, não é?

Anneliese é enfática ao responder:

- Eu jamais ficarei com ninguém enquanto o socialismo existir.

Após uma rápida reflexão, o rapaz pergunta:

- E se o socialismo caísse?

Erguendo a sombrancelha, ela se intriga.

- O que quer dizer?

- E se houvesse o esfacelamento do sistema socialista no mundo, o bloco todo ou um país de cada vez, você ficaria comigo?

Anneliese ri.

- Isso é impossível, Gunther. O socialismo jamais irá cair.

- E se for apenas na Alemanha?

Prepotente e confiante de que tal coisa jamais aconteceria, a garota responde:

- Está bem. Eu só ficarei com você se o socialismo na Alemanha for destruído.

Esperançoso, o rapaz sorri. A garota sorri mais ainda, não dando a menor importância para a proposta de Gunther.

De repente o vento sopra mais forte. Formando um redemoinho, a garota é envolvida nas nuvens e então desaparece totalmente.

Gunther permanece ali, sozinho e pensativo. Refletindo sobre o que acaba de ocorrer, ele se faz uma série de perguntas.

“Como eu destruirei o socialismo na Alemanha?”.

“Como eu farei isso sozinho?”.

“E para fazê-lo, como ser forte o bastante para isso?”.

Então o rapaz percebe. Ele sabe como criar forças para mudar o mundo. Respirando fundo, ele responde para si mesmo:

“Tornando-me um super homem”.

  


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