terça-feira, 23 de março de 2021

Tiergarten - 23 - O Turista Brasileiro

 


Agora Gunther sabia como ser mais forte, ele havia se tornado um Übermensch. Ele sente como se tivesse se livrado de um enorme peso em suas costas. Libertado dos grilhões das falsas moralidades, a moralidade de escravo, ele reflete sobre os valores que acaba de absorver.

“Não mais eu irei me constranger por minha superioridade. Não mais eu deixarei que sufoquem meus talentos, não mais permitirei que apaguem meu brilho. Na busca por meu objetivo, eu brilharei mais que o sol”.

Está um dia frio em Berlim, apesar de ensolarada sob o céu azul.

“Negar a vida não me fará mais forte. Como me fortalecerei rejeitando minha vitalidade? Deixarei cada célula de meu corpo obedecer aos impulsos de minha natureza, regida pela perpétua vontade de poder”.

Para Gunther, os comunistas obedeceram à vontade de poder em seu objetivo irrefreável de começar a Revolução, inclusive tornando-se superiores na abolição dos valores morais da antiga sociedade “burguesa”. Entretanto, eles cometeram um erro gravíssimo. Em sua ideologia, os comunistas negam o egoísmo da natureza humana, tornando-se eles mesmos egoístas e traindo os ideais do proletariado.

“Eles falharam em rescrever a moralidade, e agora os heróis se tornaram os vilões”.

Gunther está decidido a destruir esse sistema na Alemanha, não só por amor, mas pela libertação de seu povo, subjugado por uma engenharia social falha da qual o aprisiona e o oprime.

“O vigor da Revolução se tornou a ditadura da opressão”, pensa ele. “A abolição de Deus abriu o caminho para a tomada do poder pelo partido, e esse partido tomou o lugar de Deus, redefinindo a moralidade de escravo e o Estado sendo o novo senhor”.

Como disse o próprio Lênin:

“Usaremos o idiota útil na linha de frente. Incitaremos o ódio entre as classes. Destruiremos a sua base moral, a família e a espiritualidade. Comerão as migalhas que caírem de nossas mesas. O Estado será Deus”.

O extremismo ideológico sempre levou os revolucionários a destruírem a moralidade e a Deus. Em seu lugar, um Estado falho, sanguinário e opressivo surgia, governado pelo Velho Homem ao invés do Super Homem.

“Sacrificam os dissidentes políticos no tribunal revolucionário, assim como os hereges nas fogueiras da Inquisição”.

Cheio de desprezo, o rapaz continua sua caminhada, com mil pensamentos em sua cabeça.

Percorrendo a extensa Unter den Linden, ele novamente chega à Marx-Engels Platz, no coração de Berlim Oriental. No outro lado da rua, o rapaz vê o Palast der Republik, mas não é para lá que ele se dirige. Na verdade, após voltar ao passado, vivenciar violentos eventos históricos e até ser morto, ele prefere ficar bem longe daquele lugar.

Atravessando a avenida, ele caminha sobre a praça adornada com duas grandes estátuas, as de Engels e Marx. Adiante, ele vê o magnífico Altes Museum[1] e a suntuosa Berliner Dom[2] , a catedral protestante de arquitetura barroca e renascentista.

Na praça haviam muitos turistas. Gunther se intriga, pois sempre acreditou que era muito difícil conseguir um visto de entrada na RDA. Devido a constante espionagem da Guerra Fria, ele mantinha essa opinião.

“Talvez seja só minha impressão”, pensa ele. “Afinal, Alexanderplatz era visitada por turistas todos os dias”.

Um homem tira fotos do museu no meio da praça. Aproximando-se, ele vê um homem de calça boca de sino, camisa xadrez dentro da calça e barba e cabelo um pouco compridos. Ao avista-lo, o homem o reconhece.

- Guten Tag, amigo! Lembra-se de mim? Nós conversamos brevemente em frente ao Palast der Republik. – pergunta o homem, sorrindo.

O rapaz sorri e o cumprimenta.

- Sim, eu me lembro. Como vai?

- Estou muito bem. Eu me chamo Luiz Carlos. Não me lembro se já me apresentei antes.

- Eu sou Gunther.

Eles se apertam as mãos. Olhando ao redor, o homem comenta:

- Linda essa praça, não? Berlim Oriental é uma cidade muito bonita, parabéns.

Gunther nota sua dificuldade em pronunciar a língua alemã.

- De onde você é, amigo?

- Sou do Brasil.

O rapaz se espanta. É a primeira vez que ele conversa com alguém de tão longe.

- Meu Deus! Eu nem sei onde seu país fica...

Luiz Carlos sorri.

- Fica na América do Sul.

Ponderando, o rapaz se lembra que a maioria dos nazistas fugiu para a América do Sul.

- E o que faz na Alemanha Oriental, herr Luiz?

- Estou fazendo um turismo pelo Leste Europeu. Visitei a União Soviética, a Polônia, os países bálticos e agora tenho a honra de visitar a Alemanha! Esperei ansiosamente para conhecer seu país! Uma nação maculada pela ideologia nazifascista, mas finalmente liberta de seus algozes burgueses pelo heroísmo dos russos proletários e bolcheviques!

Gunther se intriga com a empolgação do homem.

- Suponho que você seja um comunista?

- Com muito orgulho, camarada! Sou um comunista de coração! Inclusive meu nome foi inspirado em Luiz Carlos Prestes, o famoso “cavaleiro da esperança”. Ele foi membro do Partido Comunista Brasileiro, marido da ativista Olga Benário e líder da Coluna Prestes.

O rapaz pergunta:

- Coluna Prestes?

- Sim. Um movimento político e militar dos anos 20 que reivindicava o voto secreto, a educação pública, o combate a injustiça social e a erradicação da miséria no Brasil. Eles combatiam o regime burguês e oligárquico da época, composto de uma corja de bandidos latifundiários e exploradores dos trabalhadores rurais do nosso país.

Próximo à Karl Liebknecht Strasse, Gunther nota que o governo atual homenageava os antigos heróis comunistas. Interessando-se no assunto, o rapaz pergunta:

- Esse homem deve ser considerado um herói em seu país. Por acaso seu povo celebra sua morte? 

Com forte sotaque português, o turista responde:

- Não, ele não está morto! – sorri ele – Na verdade, ele esteve exilado na União Soviética e regressou há alguns anos ao Brasil. Inclusive visitou seu glorioso país em 1959, durante o governo Ulbricht.

- Exilado? – pergunta ele – O que aconteceu?

- Diferente do seu país, que se livrou do fascismo, meu país está no caminho reverso, sofrendo com o governo fascista de uma ditadura militar.

Gunther se espanta. Ele achou que o último governo fascista tivesse terminado na Espanha de Francisco Franco.

- Isso é horrível! – lamenta-se ele – Imagino que os fascistas estejam destruindo a democracia com sua ditadura.

- Com certeza! Através de um sistema eleitoral fraudulento, eles elegeram o quarto ditador.

Então o rapaz se intriga.

- Elegeram...?

- Sim. Nosso parlamento ainda elege um presidente através do voto secreto.

- Parlamento? – surpreende-se ele – O ditador de vocês não fechou o Congresso?

- Os militares o dissolveram algumas vezes, estabelecendo Atos Institucionais que censuravam direitos civis e políticos quando convenientemente necessário. Há anos exigimos as eleições diretas em um movimento conhecido como “Diretas Já!”, mas somos continuamente ignorados pelo Congresso.

- Seu país vive uma ditadura, mas seu Congresso funciona há anos?

- Exatamente.

Gunther acha aquilo muito estranho de entender. “Como pode uma ditadura permitir o funcionamento do parlamento e eleger seu quarto presidente?”.

- Você disse que elegeram seu quarto presidente. Nesse caso, seu país teve um aumento contínuo das forças armadas em detrimento da infraestrutura?

- Não exatamente. As polícias ganharam amplos poderes, em especial para perseguir opositores, mas o exército não tem intenções belicistas no continente. Na verdade, os militares entregaram o Brasil ao capital estrangeiro, atraindo inúmeras empresas de alta tecnologia e gerando empregos. Eles também construíram a maior usina hidroelétrica do mundo, assim como uma extensa ponte de 12 quilômetros sobre o mar ligando o Rio de Janeiro a Niterói. Nunca o país teve um salto tão grande na economia.

O rapaz franze a testa, admirado.

- Mas o capital estrangeiro é controlado pelo corporativismo, típico dos regimes fascistas? – pergunta ele.

Luiz Carlos pondera. No corporativismo, as relações empregador e empregado eram intermediadas pelo Estado. As empresas produziam o que lhes eram ordenado, greves eram ilegais e os sindicatos controlados ou impedidos de existirem. Por fim, ele responde:

- Não. Em meu país as empresas funcionam normalmente, os empregados têm excelentes direitos trabalhistas e os sindicatos são permitidos. Devido a essa não intervenção econômica, houve um aumento expressivo da classe média e da qualidade de vida. Porém, às vezes ocorrem algumas greves organizadas pela oposição.

Mais uma vez, Gunther se espanta.

- Vocês têm uma oposição?!

- Sim, tanto civil quanto política. Nossa militância inclusive conta com guerrilheiros armados, treinados em Cuba para derrubar esse governo golpista.

- Meu Deus! Então vocês estão à beira de uma guerra civil! O que aconteceu para o seu país chegar a esse ponto?

- Nosso presidente, João Goulart, sofreu um golpe de Estado. Na noite do dia 31 de março os militares saíram de seus quarteis e sitiaram a cidade do Rio de Janeiro, onde se encontrava nosso presidente. Eles exigiram sua renúncia e ele foi obrigado a fugir. Isso ocorreu na manhã do 1º de abril, o dia dos tolos, nome sugestivo à burguesia que apoia esses golpistas.

- Mas seu presidente não reagiu ao golpe? Ele simplesmente deixou o poder?

- Infelizmente, mas foi melhor assim. Se ele convocasse uma resistência, haveria uma sangrenta e duradoura guerra civil. O presidente tinha o apoio da militância e dos sindicatos. Os golpistas, da CIA e dos Estados Unidos. Seria um massacre.

Gunther concorda. E então ele pergunta:

- E qual foi o motivo por trás do golpe?

- Goulart era favorável aos governos comunistas de países como a China, Cuba e União Soviética. Ele inclusive conheceu pessoalmente Mao Zedong, Nikita Khrushchov e Che Guevara. Em suas reformas políticas, o presidente tentou promover a reforma agrária, expropriando terras improdutivas em prol das famílias de baixa renda. Ele também propôs a reforma fiscal, limitando o lucro do capital estrangeiro. Houve a reforma eleitoral, legalizando o Partido Comunista e o voto de analfabetos, e a reforma bancária, permitindo o acesso ao crédito aos pequenos produtores. Isso enfureceu a elite conservadora, da qual via ameaçada a manutenção da propriedade privada. A elite passou a financiar manifestações populares, conclamando ao exército para que fizesse uma intervenção militar.     

- De fato, vejo que o presidente deposto era um verdadeiro herói da classe operária. Os guerrilheiros lutam para restitui-lo ao cargo?

- Não.

Com a inesperada resposta, o rapaz se confunde.

- Então eles lutam para restabelecer a democracia?

- Também não.

- O quê? – confunde-se ele.

- A guerrilha não luta por democracia, mas para implantar a ditadura do proletariado.

Dessa vez, Gunther deixa escapar um sorriso.

- Eu acho que não entendi.

- Como eu disse antes, os guerrilheiros lutam contra uma ditadura militar fascista em nosso país. Se obtiverem sucesso, aboliremos a opressão e a censura do nosso povo.

- Mas lhes foi tirada a liberdade de expressão?

- Não.

- Não?

- Quero dizer, os militares perseguem quem faz críticas ao regime, classificando-os como subversivos. Muitos são torturados e mortos nos porões das delegacias.

- Que horror! E quem são esses perseguidos pelo regime?

- Comunistas, estudantes, jornalistas e qualquer simpatizante das guerrilhas.

- Entendi. Os russos deveriam financiar esses guerrilheiros. Como eles se mantém na luta?

- Roubando cargas em rodovias, ligando-se ao tráfico de drogas e assaltando bancos. Eles também invadem quarteis atrás de armas.

O rapaz arregala os olhos. As ações guerrilheiras se assemelhavam a de bandidos.

- Bem, roubar armas é necessário quando o governo proíbe sua venda.

- Na verdade, eles não proíbem.

Novamente Gunther se desconcerta.

- A ditadura militar permite a venda de armas em seu país?

- Sim e também o porte. Devido a isso, nunca antes o índice de crimes esteve tão baixo.

- Será mesmo? Devido à censura na imprensa, talvez os números sejam falsificados.

- Mas lá ainda existe a liberdade de imprensa. Pelo menos limitada a interesses políticos.

O rapaz coça sua cabeça.

- Como assim?

- Surgiram muitas emissoras de televisão. Entretanto, elas são largamente financiadas pelo governo, por isso omitem e ocultam a opressão da ditadura. Mesmo os jornais impressos são vistos como conservadores, pois são presididos por burgueses ligados ao regime.

- A ditadura parece ser bem rica. De onde vem seu dinheiro se eles não saqueiam a economia?

- Neoliberalismo. – responde ele, resolutamente – A teoria econômica de Milton Friedman que extingue direitos trabalhistas e enriquece a classe média e as indústrias. Pinochet implantou o neoliberalismo em seu país, tornando ele e sua gangue em milionários da noite para o dia. E veja o que isso custou: 40 mil chilenos mortos.

- Mas em seu país houve esses assassinatos em massa como no Chile?

-Não. Os números estimam-se em quatrocentos no máximo.

- Quatrocentos mil?! – espanta-se Gunther.

- Quatrocentas pessoas. – tranquiliza ele – Mas é muito difícil ter certeza devido a censura da imprensa. Nossas maiores fontes são a própria militância.

Acalmando-se, o rapaz pergunta:

- A militância deve sofrer muito no Brasil, não é? Obrigada a sempre fugir e se esconder.

- Na verdade, não. Os militares cuidam que ela não se radicalize, empurrando-a para as universidades. Eles esperam que os militantes se organizem em partidos, substituindo a luta armada pela política, assim poupando vidas.  

Apesar de achar estranho, o rapaz assente.

- E quanto às minorias? A ditadura militar deve perseguir algumas minorias, como é típico dos regimes fascistas, não?

- Na verdade, não. Os militares têm um lema conciliatório chamado “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Lá eles não perseguem raças como judeus ou negros, ou qualquer outra etnia. Eles só perseguem os subversivos e os comunistas.

- E você é um exilado? Sendo comunista, creio que os militares o perseguiram e você foi obrigado a fugir do país?

- Não, eu só estou a turismo, mesmo.

O rapaz não consegue acreditar no que ouve.

- A ditadura brasileira permite que seus cidadãos deixem livremente o país?

- Sim. Meu pai é um juiz federal e minha mãe uma servidora pública. Após muita insistência, eles aceitaram em me dar essa viagem pela Europa como presente de aniversário. Semana passada eu fiz trinta anos! Parabéns para mim! – ri ele.

- Espere um pouco. Seus pais trabalham para o regime?

- Sim, como agentes infiltrados nos bastidores do poder. Quando chegar o momento certo, derrubaremos esse sistema burguês!

Lembrando-se dos necessitados, Gunther comenta:

- Espero que nesse dia vocês se lembrem dos mais pobres.

- Sim, os mais pobres... – responde ele, sem se importar.

Nesse momento o rapaz percebe. O turista era um homem rico.

- E intolerância religiosa? Eles perseguem pessoas de alguma fé?

- Não, mas não me incomodaria se eles perseguissem os cristãos. Desde séculos atrás o cristianismo foi responsável pelo patriarcado, racismo, machismo, escravidão, inquisição, xenofobia, homofobia e genocídio de árabes no Oriente Médio. Eis aí uma religião que deveríamos extinguir!

Gunther arregala os olhos. Luiz Carlos falava com a intolerância de um ditador, como aqueles que ele dizia combater.

- Entendo.

Um tempo depois, o turista pergunta:

- E então? É lamentável o fascismo em meu país, não?

Jocosamente o rapaz responde:

- Não.

- O quê?!

- Na verdade eu achei um fascismo bem curioso...

- Por que curioso?! – irrita-se ele.

- É um fascismo com liberdade de expressão, de imprensa, de culto religioso, de raças, de etnias, de eleições para o parlamento, de compra de armas, de livre circulação e de manifestações sindicais e grevistas. É tão incrível que permite em seu país o investimento de capital estrangeiro, algo impensável na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler.

Escandalizado, o turista exclama:

- Como ousa falar que meu país é livre? Os brasileiros sofrem com perseguição política, censura da imprensa e tortura!

- Seu governo promove a eugenia, a eutanásia e o aborto de crianças deficientes?

- Não.

- Seu governo apoia o aumento maciço do exército, planejando incitar uma guerra?

- Não.

- Seu governo libera o uso de drogas para estimular a eficiência dos soldados no campo de batalha?

- Não.

- Seu governo doutrina as crianças nas escolas, promovendo o culto à personalidade?

- Não.

- Seu governo já declarou apoio à Itália fascista, à Alemanha nazista ou a qualquer outro governo fascista

- Não.

- Seu governo já fez alguma declaração antissemita, anticapitalista e anti Estados Unidos?

- Não.

O rapaz ergue os ombros e as palmas das mãos.

- Então o seu país não é fascista!

Irritado, Luiz Carlos responde:

- É fascista sim! Governado por uma elite burguesa, antidemocrática e contrária aos anseios dos trabalhadores!

- Mas que lhes dá empregos e estabilidade econômica! – ironiza ele, rapidamente – Eu não duvido que seja um governo de golpistas e assassinos que prendem e matam opositores, mas chama-lo de fascista eu acho um puro exagero!

- Pois saiba que, para enganar o povo, os militares trocaram as fardas pelo terno e gravata para tomar o poder.

- Em Cuba, os comunistas fizeram o inverso. Fidel Castro, um advogado, e Che Guevara, um médico, trocaram o terno e gravata pelas fardas e também tomaram o poder. Quem é o mais errado?

- Assassinato e tortura não é fascismo para você?

- Assassinato e tortura também ocorreram no socialismo, principalmente na União Soviética. Não é exclusivo do fascismo, mas é característico das ditaduras.

Furioso, Luiz Carlos exclama:

- Fascista!

- O que disse?

- Eu disse fascista!

O turista aponta o dedo para ele, vociferando de ódio.

- Ora, eu não sou um fascista. Eu sou um comunista! Não está vendo que eu vivo no melhor lado de Berlim?

Novamente o rapaz o ironiza.

- Você não é um comunista! Você é um colaborador da elite branca e burguesa que governa o meu país!

- Elite branca? – surpreende-se ele – Por acaso isso foi racismo? Conheço um regime que apoia o racismo, aquele mesmo que você diz combater.

Luiz Carlos explode em ira. Aviltado, ele tromba seu ombro em Gunther e vai embora, deixando-o sozinho no meio da praça.

O rapaz ri para si mesmo, tentando entender o que acaba de acontecer.

 

§

 

De volta para casa, o rapaz descansa em sua poltrona. Enquanto divaga em pensamentos, o telefone toca.

- Alô?

- Olá, Gunther. Como vai?

- Eu estou bem, moça. Há quanto tempo não falamos? Algumas décadas, talvez?

- De fato, faz muito tempo desde a década de 30.

- Agora eu conheço você. Você é uma enfermeira russa que me supervisiona enquanto os médicos fazem experimentos em mim.

A voz ri.

- Você não deveria acreditar em tudo o que vê na televisão.

O rapaz concorda.

- Morando no Bloco Oriental, concordo plenamente.

- E então? Como se sente sendo um Super Homem?

- É o mínimo que preciso para conquistar o amor de Anneliese.

- Destruir o socialismo não será fácil. Ainda há muitas pessoas que o apoiam, como aquele turista de Marx-Engels Platz.

Gunther ri.

- Aquele é só mais um garotinho mimado pelo papai e pela mamãe burgueses. Um alienado rico que culpa os ricos por você não ser rico.

- Anneliese é uma garotinha rica e mimada para você?

Então o rapaz para de rir. A garota era uma autêntica pobre e comunista.

- Não.

- Mas ela também defende esse regime.

Gunther concorda, sabendo que aquilo era verdade. Irritado, ele se pergunta:

- Mas que ideologia é essa que seduz ricos e pobres e só traz miséria a todos?

A voz no telefone pergunta:

- Você realmente quer descobrir?

- Não preciso. Eu já vivo sob influência dela.

A voz o corrige.

- Você vive debaixo dela, mas não é um teórico dela.

- Por que essa sombra ainda paira sobre mim?

- Ideologias são assim. Instauram regimes, aprisionam cidadãos, não os deixam partir...

- Você tem que ser um monstro para criar tal coisa. Não consigo acreditar que alguém criaria algo tão opressivo.

- Não é necessário. Apenas veja com os seus próprios olhos.

- O que quer dizer?

Então as paredes começam a girar. O rapaz sente um sono profundo e, largando o telefone, imediatamente adormece em seu quarto.   

 

 



[1] Velho Museu em alemão

[2] Catedral de Berlim

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