segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Sonata - 52 - Ultra

 


(Artista desconhecido)

Nos níveis superiores, o letreiro de neon pisca em um rosa brilhante: “Clímax”.

Laura entra e vislumbra uma agradável casa noturna de estilo boêmio. Diferente daqueles bares barulhentos com bêbados por toda parte, o Clímax tinha decoração requintada e clientes bem educados. No palco, uma banda toca um agradável jazz. A cantora era uma linda mulher de cabelos castanhos e vestido vermelho. Sua voz era fenomenal, cantando sobre um romance com um homem rico e poderoso. “Uma bela canção”, pensa Laura.

Aproximando-se de uma mesa, ela encontra uma mulher mais velha com o rosto maquiado. A mulher segura um extensor de cigarro, algo bem inusitado de ser ver, e veste um elegante vestido. Ao ver a runner, ela lhe aponta um assento.

- Veja só essa cantora... – comenta ela – Quando eu era mais jovem, eu era mais bonita e cantava muito melhor! E os homens faziam tudo por mim!

Assentindo, a garota responde:

- Olá, Verônica. Eu vim fazer algumas perguntas.

Mirando seus olhos para Laura, a mulher diz:

- É sobre ela, não é?

- Sim. 

Fumando seu cigarro, a mulher pergunta:

- Não vai ao menos me acompanhar em um Martini?

A runner vê uma taça cônica com uma azeitona dentro.

- Obrigado, V, mas você sabe que eu não gosto de álcool.

A mulher se encosta em sua cadeira, cruza as pernas e comenta:

- Eu lamento pelo o que aconteceu com seu pai.

Laura se constrange e vira o rosto. Ela odiava o álcool, pois seu pai caiu em desgraça, tornando-se um deprimente mendigo devido ao alcoolismo.

As duas ficam em silêncio. No palco, o músico fazia um maravilhoso solo no violoncelo. A mulher comenta:

- Muito talentoso ele, não? Me lembra até o seu pai, o melhor músico que essa casa já teve.

“Um músico”, pensa Laura. “Meu pai foi um músico boêmio daquela bela casa noturna, o Clímax”.  

Após alguns minutos, a runner pergunta:

- Você não teve nenhuma notícia dela?

Meneando negativamente a cabeça, Verônica responde:

- Laura... Já se passaram dezesseis anos... Desista!

Lágrimas se formam e a runner chora como uma menininha. Raras pessoas a viram chorar assim.

- Como ela era, tia Verônica?

A garota havia feito aquela mesma pergunta umas mil vezes. Sorrindo amorosamente, a mulher responde:

- Sua mãe era um mulher incrível e minha melhor amiga, Laura. Quando você nasceu, eu fui a primeira a te segurar nos braços.

Enxugando as lágrimas, a garota faz outra pergunta.

- Como ela se chamava?

A mulher respira fundo.

- Sua mãe nunca me disse, o que é irônico, apesar de sermos melhores amigas. Ela disse que seu codinome era o seu único nome agora, negando-se a revelar o verdadeiro. Em uma profissão tão arriscada, respeito era o que ela mais priorizava. E foi com respeito que sua fama só aumentou.

- Minha mãe era uma boa runner?

Rindo, a mulher bebe um gole de Martini antes de responder.

- Ela era a melhor. Nunca antes em Sonata houve um melhor runner. Ela era forte e tinha um coração de leão. Em sua busca para ser a número um, nenhum trabalho era difícil demais para ela. – divagando, ela conclui – Sentirei falta de minha velha amiga... Ultra.

Então o coração de Laura se quebra. Ultra era o codinome de sua mãe.

- Por que ela era a melhor?

- Sua mãe fazia o que tinha de ser feito, não importava o que fosse. Ela começou a se tornar mais fria, mais cruel, mais mortífera... Ultra se tornou uma ladra, mercenária e assassina. Os runners também roubam, mas em seu apetite voraz por fama, essa profissão já não era mais o bastante. Ela começou a aceitar serviços de mercenário, ou seja, espionagem, sabotagem e assassinatos. Em alguns serviços, ela até já participou de prostituição.

Então Laura arregala os olhos.

- Prostituição?!

- Sim. – confirma ela – Mas não se preocupe, ela nunca fez sexo por dinheiro. Ela apenas teve de se disfarçar de prostituta para se aproximar de seu alvo. – fumando seu cigarro, ela conclui – Ultra matou vários desse jeito. Muitos eram encontrados mortos em sua cama encharcada de sangue.

A garota não consegue acreditar no que ouve.

- Verônica... Por que nunca me disse isso antes?

- Perdoe eu nunca ter dito, Laura. Eu não achei que você fosse entender. Mas, com toda essa Rebelião aí fora, podemos não estar mais aqui amanhã.

Então ela bebe seu Martini.

- Meu Deus... – sussurra a runner.

Verônica continua:

- Sendo ela a mais eficaz assassina de aluguel, sua reputação só cresceu. A superfície, as facções e até a Polícia a respeitavam. Isso fez a soberba crescer em seu coração. – lamentando-se, a mulher conclui – E isso foi a sua ruína.

Laura imediatamente se interessa.

- O que aconteceu?

De repente as luzes se apagam, deixando a todos no escuro. A única iluminação restante vinha das pequenas velas no meio das mesas. Irritada, Verônica exclama:

- Malditas quedas de energia! Onde é que o Inimigo de Estado estava com a cabeça para cortar o fornecimento em Sonata!

A mulher bebe seu Martini para se acalmar.

Entristecida, a garota pondera em silêncio. Desde o desaparecimento de sua mãe, a runner se esforçava para ser como ela. Laura queria ser a melhor, o legado vivo da admirável Ultra. Para tanto, ela se aperfeiçoou no serviço de runner. No início ela era só uma ladra, mas isso não foi o suficiente para se equiparar a Ultra. A garota se radicalizou, se tornando uma mercenária e até uma assassina.

As memórias invadem sua mente.

Com o passar do tempo, sua mãe se apaixonou por um músico alcóolatra e insignificante dos níveis superiores. A garota não entende. A excepcional Ultra se apaixonando por um homem qualquer. Inconformada, ela não entende como Ultra pôde se apaixonar por alguém tão fraco. Infelizmente para ela, esse homem era seu pai. 

O improvável casal passou a viver na superfície, lar dos marginais e dos criminosos. Laura nasceu pouco tempo depois, crescendo naquele ambiente tão opressivo. Certo dia, Ultra havia aceitado um serviço de alto risco. Ela deveria invadir e sabotar a corporação Cellgenesis. Seu pai protestou, argumentando que era muito perigoso e que ela podia não voltar mais. Mas Ultra não era alguém que seguia ordens. Dando-lhe as costas, ela diz que só estava com ele por pena, indo embora em seguida. E ela nunca mais voltou desde então.

Anos se passaram. Na ausência de sua mãe, Laura cresceu com seu pai do qual ela tanto desprezava. Com o tempo, seu pai caiu em depressão e entregou-se ao alcoolismo, assim negligenciando sua filha. Sem trabalho ou dinheiro para pagar as contas, seu pai é despejado de casa, passando a viver nas ruas da superfície. Assustada, sua pequena filha o acompanha para aqueles becos sujos e cheios de gente estranha. Até que a bonita menina de cabelos dourados chama a atenção de alguém.

Aos dez anos, Laura é adotada pelos runners, passando a viver em um pequeno quarto na casa noturna Mystique. Eles a treinam diariamente, impressionando-se com o progresso da jovem menina. Em seu treinamento ela conhece Vertigo, um menino curioso e tagarela que adorava computadores. Os dois crescem juntos e se tornam melhores amigos. Laura não sabia, mas era Database quem os pagava para cuidarem dela. O chefe intentava criar a runner ideal para os seus trabalhos, e aproveitou-se de sua situação deplorável para adota-la. Ao descobrir seu plano, a garota não o ressentia por isso, pois sem sua ajuda ela não teria ninguém.   

Laura não se conformava com o desaparecimento de sua mãe. Falhando incessantemente em encontra-la, a garota pensou que poderia atrai-la se pudesse rivaliza-la. Por muito tempo ela se aproveitou da fama de Ultra, a sucessora que era sua própria filha. Até que uma nova runner surgiu.

“Lótus”, pensa ela.

Serviços cada vez mais ousados a interessavam. Laura aprendeu a puxar o gatilho até fazer disso um dom. Matar não mais a assustava, pelo contrário, a dava satisfação. Se ela tivesse de encontrar sua mãe sobre uma pilha de cadáveres, ela não hesitaria em escala-la.

Dezesseis anos se passaram. Laura nunca acreditou que sua mãe tivesse sido morta ou capturada, ela era muito forte para isso. Ultra simplesmente desapareceu. Sem desistir, a garota ainda procura incessantemente por ela. Infelizmente, a runner nunca encontrou sequer uma única pista de seu paradeiro.

“Então o que aconteceu?”, pergunta-se ela.

Com a divulgação dos arquivos ultrassecretos, ela soube que muitos foram banidos de Sonata.  

“E se minha mãe foi banida? Como ela poderia ter sobrevivido tanto tempo lá fora?”.

Sem saber o que fazer, a garota suspira. Laura simplesmente vive, esperando pelo dia em que sua mãe voltará para casa.  

A energia volta. Os fregueses podem ouvir os geradores funcionando no terraço. Alegrando-se, Verônica diz:

- Ah, que bom! A energia voltou! Agora poderemos assistir à apresentação novamente.

Os músicos tocam seus instrumentos. Com bastante elegância, a cantora canta novamente, glamourosamente encenando com o tocar da música.

Laura pergunta:

- Vocês não deveriam estar racionando agora que há escassez de energia?

Sorrindo, a mulher responde:

- Querida, eu não sou uma mulher de escassez; eu sou uma mulher de abundância. O que os seus amigos rebeldes fazem não é problema meu.

Em uma TV atrás do balcão, ela vê imagens do Ministério da Informação. O prédio estava arruinado e haviam bandeiras americanas penduradas em suas janelas. A 4 de Julho o havia tomado com a ajuda de Nathan, o Inimigo de Estado.

“Nathan...”, lembra-se ela, com desprezo. O rapaz fraco e patético dos níveis superiores que se apaixonara por ela. Mas a garota sabe que não foi apenas ele que se apaixonou. Apesar de rejeita-lo com todas as suas forças, Laura o amava também. Isso ficou claro no dia em que ele a beijou na sede da Resistência Purista.

“Como eu pude?”, pune-se ela. “Como eu pude gostar dele?”.

A garota não consegue compreender. Logo ela que era tão forte e independente. Então a realização cai como um meteoro em sua mente. Ironicamente, Laura fazia o mesmo que sua mãe ao se apaixonar por seu pai.

Confusa, a garota começa a ofegar.

- Pai... – sussurra ela.

Em seguida ela coloca as mãos no rosto e chora tristemente. Finalmente ela compreende por que sua mãe gostou dele. As duas eram iguais, de fato. Sentindo-se culpada, ela começa a se punir.

“Pai, como eu pude te julgar tanto...?”.

Laura chora amargamente. Preocupada, Verônica pergunta:

- Algum problema, querida?

- Papai... – sussurra ela.

A mulher se confunde.

- O que tem seu pai, Laura?

- Eu preciso vê-lo.

Levantando-se, ela intenta partir. Então Verônica diz:

- Você vai se encontrar com ele? Mande lembranças. Diga que o Clímax sente sua falta.

Enxugando as lágrimas, a garota se vira e então deixa aquele lugar.       

 

 

 

 

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