Nos níveis superiores, o letreiro de
neon pisca em um rosa brilhante: “Clímax”.
Laura entra e
vislumbra uma agradável casa noturna de estilo boêmio. Diferente daqueles
bares barulhentos com bêbados por toda parte, o Clímax tinha decoração
requintada e clientes bem educados. No palco, uma banda toca um agradável jazz.
A cantora era uma linda mulher de cabelos castanhos e vestido vermelho. Sua voz
era fenomenal, cantando sobre um romance com um homem rico e poderoso. “Uma
bela canção”, pensa Laura.
Aproximando-se de
uma mesa, ela encontra uma mulher mais velha com o rosto maquiado. A mulher
segura um extensor de cigarro, algo bem inusitado de ser ver, e veste um
elegante vestido. Ao ver a runner, ela lhe aponta um assento.
- Veja só essa
cantora... – comenta ela – Quando eu era mais jovem, eu era mais bonita e
cantava muito melhor! E os homens faziam tudo por mim!
Assentindo, a
garota responde:
- Olá, Verônica.
Eu vim fazer algumas perguntas.
Mirando seus
olhos para Laura, a mulher diz:
- É sobre ela, não é?
- Sim.
Fumando seu cigarro, a mulher pergunta:
- Não vai ao menos
me acompanhar em um Martini?
A runner vê uma
taça cônica com uma azeitona dentro.
- Obrigado, V,
mas você sabe que eu não gosto de álcool.
A mulher se encosta em
sua cadeira, cruza as pernas e comenta:
- Eu lamento pelo o que aconteceu com seu pai.
Laura se
constrange e vira o rosto. Ela odiava o álcool, pois seu pai caiu em desgraça,
tornando-se um deprimente mendigo devido ao alcoolismo.
As duas ficam em
silêncio. No palco, o músico fazia um maravilhoso solo no violoncelo. A mulher
comenta:
- Muito talentoso
ele, não? Me lembra até o seu pai, o melhor músico que essa casa já teve.
“Um músico”,
pensa Laura. “Meu pai foi um músico boêmio daquela bela casa noturna, o Clímax”.
Após alguns
minutos, a runner pergunta:
- Você não teve
nenhuma notícia dela?
Meneando
negativamente a cabeça, Verônica responde:
- Laura... Já se
passaram dezesseis anos... Desista!
Lágrimas se
formam e a runner chora como uma menininha. Raras pessoas a viram chorar assim.
- Como ela era,
tia Verônica?
A garota havia
feito aquela mesma pergunta umas mil vezes. Sorrindo amorosamente, a mulher
responde:
- Sua mãe era um
mulher incrível e minha melhor amiga, Laura. Quando você nasceu, eu fui a
primeira a te segurar nos braços.
Enxugando as lágrimas,
a garota faz outra pergunta.
- Como ela se
chamava?
A mulher respira
fundo.
- Sua mãe nunca
me disse, o que é irônico, apesar de sermos melhores amigas. Ela disse que seu
codinome era o seu único nome agora, negando-se a revelar o verdadeiro. Em uma
profissão tão arriscada, respeito era o que ela mais priorizava. E foi com
respeito que sua fama só aumentou.
- Minha mãe era
uma boa runner?
Rindo, a mulher
bebe um gole de Martini antes de responder.
- Ela era a
melhor. Nunca antes em Sonata houve um melhor runner. Ela era forte e tinha um
coração de leão. Em sua busca para ser a número um, nenhum trabalho era difícil
demais para ela. – divagando, ela conclui – Sentirei falta de minha velha
amiga... Ultra.
Então o coração de
Laura se quebra. Ultra era o codinome de sua mãe.
- Por que ela era
a melhor?
- Sua mãe fazia o
que tinha de ser feito, não importava o que fosse. Ela começou a se tornar mais
fria, mais cruel, mais mortífera... Ultra se tornou uma ladra, mercenária e
assassina. Os runners também roubam, mas em seu apetite voraz por fama, essa profissão já não era mais o bastante. Ela começou a aceitar serviços de
mercenário, ou seja, espionagem, sabotagem e assassinatos. Em alguns serviços,
ela até já participou de prostituição.
Então Laura
arregala os olhos.
- Prostituição?!
- Sim. – confirma
ela – Mas não se preocupe, ela nunca fez sexo por dinheiro. Ela apenas teve de
se disfarçar de prostituta para se aproximar de seu alvo. – fumando seu cigarro,
ela conclui – Ultra matou vários desse jeito. Muitos eram encontrados mortos em
sua cama encharcada de sangue.
A garota não
consegue acreditar no que ouve.
- Verônica... Por
que nunca me disse isso antes?
- Perdoe eu nunca
ter dito, Laura. Eu não achei que você fosse entender. Mas, com toda essa
Rebelião aí fora, podemos não estar mais aqui amanhã.
Então ela bebe seu Martini.
- Meu Deus... –
sussurra a runner.
Verônica
continua:
- Sendo ela a
mais eficaz assassina de aluguel, sua reputação só cresceu. A superfície, as
facções e até a Polícia a respeitavam. Isso fez a soberba crescer em seu
coração. – lamentando-se, a mulher conclui – E isso foi a sua ruína.
Laura
imediatamente se interessa.
- O que
aconteceu?
De repente as
luzes se apagam, deixando a todos no escuro. A única iluminação
restante vinha das pequenas velas no meio das mesas. Irritada, Verônica
exclama:
- Malditas quedas
de energia! Onde é que o Inimigo de Estado estava com a cabeça para cortar o
fornecimento em Sonata!
A mulher bebe seu
Martini para se acalmar.
Entristecida, a
garota pondera em silêncio. Desde o desaparecimento de sua mãe, a runner se
esforçava para ser como ela. Laura queria ser a melhor, o legado vivo da admirável
Ultra. Para tanto, ela se aperfeiçoou no serviço de runner. No início ela era só
uma ladra, mas isso não foi o suficiente para se equiparar a Ultra. A garota se
radicalizou, se tornando uma mercenária e até uma assassina.
As memórias
invadem sua mente.
Com o passar do
tempo, sua mãe se apaixonou por um músico alcóolatra e insignificante dos
níveis superiores. A garota não entende. A excepcional Ultra se apaixonando por
um homem qualquer. Inconformada, ela não entende como Ultra pôde se apaixonar
por alguém tão fraco. Infelizmente para ela, esse homem era seu pai.
O improvável
casal passou a viver na superfície, lar dos marginais e dos criminosos.
Laura nasceu pouco tempo depois, crescendo naquele ambiente tão opressivo. Certo
dia, Ultra havia aceitado um serviço de alto risco. Ela deveria invadir e sabotar
a corporação Cellgenesis. Seu pai protestou, argumentando que era muito
perigoso e que ela podia não voltar mais. Mas Ultra não era alguém que seguia
ordens. Dando-lhe as costas, ela diz que só estava com ele por pena, indo
embora em seguida. E ela nunca mais voltou desde então.
Anos se passaram.
Na ausência de sua mãe, Laura cresceu com seu pai do qual ela tanto desprezava.
Com o tempo, seu pai caiu em depressão e entregou-se ao alcoolismo, assim
negligenciando sua filha. Sem trabalho ou dinheiro para pagar as contas, seu
pai é despejado de casa, passando a viver nas ruas da superfície. Assustada, sua
pequena filha o acompanha para aqueles becos sujos e cheios de gente estranha.
Até que a bonita menina de cabelos dourados chama a atenção de alguém.
Aos dez anos,
Laura é adotada pelos runners, passando a viver em um pequeno quarto na casa
noturna Mystique. Eles a treinam diariamente, impressionando-se com o progresso
da jovem menina. Em seu treinamento ela conhece Vertigo, um menino curioso e
tagarela que adorava computadores. Os dois crescem juntos e se tornam melhores
amigos. Laura não sabia, mas era Database quem os pagava para cuidarem
dela. O chefe intentava criar a runner ideal para os seus trabalhos, e
aproveitou-se de sua situação deplorável para adota-la. Ao descobrir seu
plano, a garota não o ressentia por isso, pois sem sua ajuda ela não teria ninguém.
Laura não se
conformava com o desaparecimento de sua mãe. Falhando incessantemente em
encontra-la, a garota pensou que poderia atrai-la se pudesse rivaliza-la. Por
muito tempo ela se aproveitou da fama de Ultra, a sucessora que era sua própria
filha. Até que uma nova runner surgiu.
“Lótus”, pensa
ela.
Serviços cada vez
mais ousados a interessavam. Laura aprendeu a puxar o gatilho até fazer disso
um dom. Matar não mais a assustava, pelo contrário, a dava satisfação. Se ela
tivesse de encontrar sua mãe sobre uma pilha de cadáveres, ela não hesitaria em
escala-la.
Dezesseis anos se
passaram. Laura nunca acreditou que sua mãe tivesse sido morta ou capturada,
ela era muito forte para isso. Ultra simplesmente desapareceu. Sem desistir, a
garota ainda procura incessantemente por ela. Infelizmente,
a runner nunca encontrou sequer uma única pista de seu paradeiro.
“Então o que
aconteceu?”, pergunta-se ela.
Com a divulgação dos
arquivos ultrassecretos, ela soube que muitos foram banidos de Sonata.
“E se minha mãe
foi banida? Como ela poderia ter sobrevivido tanto tempo lá fora?”.
Sem saber o que
fazer, a garota suspira. Laura simplesmente vive, esperando pelo dia em que sua
mãe voltará para casa.
A energia volta. Os
fregueses podem ouvir os geradores funcionando no terraço. Alegrando-se,
Verônica diz:
- Ah, que bom! A energia
voltou! Agora poderemos assistir à apresentação novamente.
Os músicos tocam
seus instrumentos. Com bastante elegância, a cantora canta novamente, glamourosamente
encenando com o tocar da música.
Laura pergunta:
- Vocês não deveriam
estar racionando agora que há escassez de energia?
Sorrindo, a
mulher responde:
- Querida, eu não
sou uma mulher de escassez; eu sou uma mulher de abundância. O que os seus
amigos rebeldes fazem não é problema meu.
Em uma TV atrás do
balcão, ela vê imagens do Ministério da Informação. O prédio estava arruinado e
haviam bandeiras americanas penduradas em suas janelas. A 4 de Julho
o havia tomado com a ajuda de Nathan, o Inimigo de Estado.
“Nathan...”,
lembra-se ela, com desprezo. O rapaz fraco e patético dos níveis superiores que
se apaixonara por ela. Mas a garota sabe que não foi apenas ele que se
apaixonou. Apesar de rejeita-lo com todas as suas forças, Laura o amava também. Isso ficou claro no dia
em que ele a beijou na sede da Resistência Purista.
“Como eu pude?”,
pune-se ela. “Como eu pude gostar dele?”.
A garota não consegue
compreender. Logo ela que era tão forte e independente. Então a realização cai
como um meteoro em sua mente. Ironicamente, Laura fazia o mesmo que sua mãe ao
se apaixonar por seu pai.
Confusa, a garota
começa a ofegar.
- Pai... –
sussurra ela.
Em seguida ela
coloca as mãos no rosto e chora tristemente. Finalmente ela compreende por que
sua mãe gostou dele. As duas eram iguais, de fato. Sentindo-se culpada, ela
começa a se punir.
“Pai, como eu
pude te julgar tanto...?”.
Laura chora
amargamente. Preocupada, Verônica pergunta:
- Algum problema,
querida?
- Papai... –
sussurra ela.
A mulher se
confunde.
- O que tem seu
pai, Laura?
- Eu preciso
vê-lo.
Levantando-se,
ela intenta partir. Então Verônica diz:
- Você vai se
encontrar com ele? Mande lembranças. Diga que o Clímax sente sua falta.
Enxugando as
lágrimas, a garota se vira e então deixa aquele lugar.

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