(Imagem do site Pinterest)
Além do Bosque
das Espatódeas há um decrépito cemitério esquecido. Através da cerração verde,
Benjamin caminha entre os túmulos; ele carrega o lobo em seus braços. Achando
um túmulo plano, ele delicadamente o deita sobre a tampa e o acaricia. Então
ele olha para as estrelas e diz:
- Eu amo a noite
e sempre suspeitei que um dia ela me mataria... – olhando novamente para o
lobo, ele conclui – Mas infelizmente não foi nesta noite.
Benjamin escuta
uma arma sendo acionada atrás dele. Olhando para trás, ele se depara com
Valentim lhe apontando o belíssimo revólver de prata dos caçadores.
Vendo o lobo
deitado sobre o túmulo, ele ordena:
- Explique-se.
- O senhor é o
assistente do Inspetor Hessler, não é? – pergunta ele – Peço que se acalme, por
favor. Nós somos iguais, dois operários das fábricas, eu e você.
Valentim se
irrita.
- Eu não sou
igual a você. – ele aponta a arma para o lobo e pergunta – O que está
acontecendo aqui?
Benjamin respira
fundo e responde:
- Eu te
explicarei tudo, mas antes peço que me prometa uma coisa. Não a machuque.
Valentim se
intriga.
- Como é?
- Ela é minha
esposa.
Então Valentim arregala
os olhos, espantado.
Benjamin
continua:
- Eu chamei a
Gendarme porque eu queria que a matança acabasse. Eu tive a esperança de que
eles tivessem um antídoto que curasse a minha esposa. Após tantas mortes no
bairro inglês, alguma coisa tinha de ser feita. Eu não podia mais esperar outra
Lua Cheia e não fazer nada. Por isso eu os chamei aqui.
- O senhor não
pensou em chamar um médico?
- Eles ririam de
mim. Ninguém jamais acredita nessas coisas... – lamenta-se ele – E então eu
soube que um inspetor trabalhava com o oculto na Gendarmerie. Pensei que se eu
o chamasse aqui, ele poderia trazer mais pessoas para me ajudar. – então ele
olha para suas mãos sujas de sangue e conclui – Mas infelizmente as pessoas que
ele trouxe não estavam aqui para isso.
Tobias trouxe os
Caçadores Britânicos. Os nobres nunca tiveram a intenção de curar clinicamente
os licantropos; ao invés eles intentavam caça-los como faziam em seu lazer nos
safaris da África.
A estatura do
lobo diminuía ao som de ossos se estralando. Então sua pelagem cai e revela uma
reles mulher inglesa. Vendo que ela estava nua, Benjamin a veste com seu casaco
xadrez. Enquanto ele a veste, Valentim nota que em seu corpo haviam perfurações
de bala e cortes de espada; os caçadores a feriram gravemente. Benjamin se
entristece, fazendo lágrimas se escorrem de seus olhos.
- A prata é
altamente prejudicial aos lobisomens. – afirma ele – Creio que ela não vai
sobreviver.
O marido acaricia
o rosto da mulher e tira os cabelos de seus olhos. Lágrimas caem em seu corpo.
De repente ela sussurra, como se estive sonhando.
- Ela está
viva...! – alegra-se ele.
- O que você vai
fazer?
- Vou leva-la
para casa. Lá eu a aquecerei e tratarei de seus ferimentos.
Pesaroso, Valentim
os proíbe.
- Não posso
deixa-lo fazer isso. – e então ele aponta sua arma novamente.
Benjamin o
entende. Valentim estava preocupado com a matança em Liubliana. Sendo agora da
Gendarme, ele não podia deixar isso acontecer. Então o marido pergunta:
- Senhor assistente,
até onde o senhor iria para salvar a sua esposa?
Valentim se
intriga.
- Do que está
falando?
- Eu amo a minha
esposa e faria de tudo para protege-la. – olhando para a mulher, ele continua –
Mas agora eu preciso salva-la... – e então ele pergunta – O senhor suportaria
viver sem o seu amor?
O coração de
Valentim se estilhaça. Ele jamais conseguiria viver sem Danica.
- Eu... – ele
hesita – Não... Eu não suportaria.
Enfraquecendo-se,
sua mão amolece e ele abaixa sua arma. A saudade de Danica doía demais.
- Vocês estão
livres para partir. – diz ele – Vão. Mas não deixe a Gendarme encontra-los
novamente.
Benjamin sorri.
- Muito obrigado,
senhor assistente. – carregando a mulher-lobo nos braços, ele conclui – Nós nos
encontraremos novamente.
O marido se
referia a retribuir o favor. Valentim assente em silêncio. Então Benjamin
carrega sua esposa e ambos desaparecem na noite.
§
De volta a
Zgornji Kašelj, as carruagens médicas ocupam as ruas. Os residentes se
aproximam, curiosos para ver o que está acontecendo.
Valentim está ao
lado da maca de Tobias. O inspetor está com suas costas e seus ombros
enfaixados. Felizmente o virote não atingiu nenhuma artéria.
Valentim lhe
explica o ocorrido. De fato havia um lobisomem em Liubliana. Tobias pondera; suas
teorias estavam certas, afinal. Querendo ou não, Valentim também reconheceu
isso aquela noite.
Os médicos aparecem
com corpos sob os lençóis. Tobias vê aquilo e pergunta:
- Onde estão os
Caçadores Britânicos?
- Mortos. –
responde ele – Não sobrou nenhum.
O inspetor se
consterna.
- Então não era
um lobisomem, e sim uma mulher-lobo?
- Sim, e Benjamin
era seu marido.
- E onde estão
eles agora?
- Eu os deixei
fugir.
Tobias se espanta.
- Valentim! Por
que o senhor fez isso?!
Ele pondera em
silêncio. Benjamin e a mulher-lobo eram casados e se amavam. Ele se identificou
com eles em sua busca por Danica e, por esta razão, os deixou fugir.
- Não se
preocupe, Hessler. Eles não virão novamente.
Os médicos põem
Tobias na carruagem e vão embora. Valentim se despede e fica para trás; ele
precisava espairecer seus pensamentos aquela noite.
De repente outra
carruagem chega e para ao seu lado. A porta se abre e revela o capitão da
Gendarmerie.
Vendo aquele
pandemônio, Vilko caminha furiosamente em direção a Valentim. Com o rosto
corado, ele pergunta:
- Foi isso mesmo
o que eu ouvi?! Um inspetor ferido, cinco nobres estrangeiros mortos, uma
testemunha desaparecida e um maldito lobisomem?!
O capitão bufava
ferozmente como o próprio licantropo. Valentim calmamente responde:
- É isso mesmo,
capitão. Os almofadinhas morreram e a testemunha desapareceu na floresta. Um
lobisomem matou todos.
Levantando as
mãos, Vilko se recusa a acreditar.
- Por acaso eu fiquei
louco?! Ou o senhor me acha com cara de idiota?! – pergunta ele – Não existe nenhum lobisomem!
O grito do
capitão faz Valentim fechar os olhos para se proteger do ar quente.
- Pois eu insisto
que existe. – reitera ele – Eu o vi.
- E curiosamente
o senhor foi o único a sair de lá ileso, não é? – suspeita ele.
Valentim
permanece em silêncio. Apesar das suspeitas do capitão, nenhum homem sozinho
podia ter feito aquilo. Cinco homens armados e vestindo armaduras morreram. A
não ser que Valentim tivesse força sobre-humana, ou um bando de criminosos com
ele, qualquer teoria a seu respeito seria ridícula.
- Eu vou
investigar a fundo esse caso, Valentim, e se o senhor estiver envolvido, eu
mesmo assegurarei que o senhor nunca mais saia da prisão, está me ouvindo?! – então
Vilko se vira e vai embora.
De repente todos ouvem
um lobo uivando ao longe e se assustam. O uivo veio do bosque onde aquela cerração
verde maculava as árvores com o seu lamento. Mesmo o capitão se assusta, sentindo
o seu sangue gelar de medo. Então um silêncio agourento paira sobre os
gendarmes e os médicos, e ninguém ousa quebra-lo.
Enquanto todos
olham para a floresta, Valentim chama a seu capitão e diz:
- Ei, capitão. –
chama ele – Cuidado com os demônios à noite...

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