domingo, 31 de julho de 2022

Liubliana - 21 - Cuidado Com os Demônios à Noite

 


(Imagem do site Pinterest)


Além do Bosque das Espatódeas há um decrépito cemitério esquecido. Através da cerração verde, Benjamin caminha entre os túmulos; ele carrega o lobo em seus braços. Achando um túmulo plano, ele delicadamente o deita sobre a tampa e o acaricia. Então ele olha para as estrelas e diz:

- Eu amo a noite e sempre suspeitei que um dia ela me mataria... – olhando novamente para o lobo, ele conclui – Mas infelizmente não foi nesta noite.

Benjamin escuta uma arma sendo acionada atrás dele. Olhando para trás, ele se depara com Valentim lhe apontando o belíssimo revólver de prata dos caçadores.

Vendo o lobo deitado sobre o túmulo, ele ordena:

- Explique-se.  

- O senhor é o assistente do Inspetor Hessler, não é? – pergunta ele – Peço que se acalme, por favor. Nós somos iguais, dois operários das fábricas, eu e você.

Valentim se irrita.

- Eu não sou igual a você. – ele aponta a arma para o lobo e pergunta – O que está acontecendo aqui?

Benjamin respira fundo e responde:

- Eu te explicarei tudo, mas antes peço que me prometa uma coisa. Não a machuque.

Valentim se intriga.

- Como é?

- Ela é minha esposa.

Então Valentim arregala os olhos, espantado.

Benjamin continua:

- Eu chamei a Gendarme porque eu queria que a matança acabasse. Eu tive a esperança de que eles tivessem um antídoto que curasse a minha esposa. Após tantas mortes no bairro inglês, alguma coisa tinha de ser feita. Eu não podia mais esperar outra Lua Cheia e não fazer nada. Por isso eu os chamei aqui.

- O senhor não pensou em chamar um médico?

- Eles ririam de mim. Ninguém jamais acredita nessas coisas... – lamenta-se ele – E então eu soube que um inspetor trabalhava com o oculto na Gendarmerie. Pensei que se eu o chamasse aqui, ele poderia trazer mais pessoas para me ajudar. – então ele olha para suas mãos sujas de sangue e conclui – Mas infelizmente as pessoas que ele trouxe não estavam aqui para isso.

Tobias trouxe os Caçadores Britânicos. Os nobres nunca tiveram a intenção de curar clinicamente os licantropos; ao invés eles intentavam caça-los como faziam em seu lazer nos safaris da África.

A estatura do lobo diminuía ao som de ossos se estralando. Então sua pelagem cai e revela uma reles mulher inglesa. Vendo que ela estava nua, Benjamin a veste com seu casaco xadrez. Enquanto ele a veste, Valentim nota que em seu corpo haviam perfurações de bala e cortes de espada; os caçadores a feriram gravemente. Benjamin se entristece, fazendo lágrimas se escorrem de seus olhos.

- A prata é altamente prejudicial aos lobisomens. – afirma ele – Creio que ela não vai sobreviver.

O marido acaricia o rosto da mulher e tira os cabelos de seus olhos. Lágrimas caem em seu corpo. De repente ela sussurra, como se estive sonhando.

- Ela está viva...! – alegra-se ele.

- O que você vai fazer?

- Vou leva-la para casa. Lá eu a aquecerei e tratarei de seus ferimentos.

Pesaroso, Valentim os proíbe.

- Não posso deixa-lo fazer isso. – e então ele aponta sua arma novamente.

Benjamin o entende. Valentim estava preocupado com a matança em Liubliana. Sendo agora da Gendarme, ele não podia deixar isso acontecer. Então o marido pergunta:

- Senhor assistente, até onde o senhor iria para salvar a sua esposa?

Valentim se intriga.

- Do que está falando?

- Eu amo a minha esposa e faria de tudo para protege-la. – olhando para a mulher, ele continua – Mas agora eu preciso salva-la... – e então ele pergunta – O senhor suportaria viver sem o seu amor?

O coração de Valentim se estilhaça. Ele jamais conseguiria viver sem Danica.

- Eu... – ele hesita – Não... Eu não suportaria.

Enfraquecendo-se, sua mão amolece e ele abaixa sua arma. A saudade de Danica doía demais.

- Vocês estão livres para partir. – diz ele – Vão. Mas não deixe a Gendarme encontra-los novamente.

Benjamin sorri.

- Muito obrigado, senhor assistente. – carregando a mulher-lobo nos braços, ele conclui – Nós nos encontraremos novamente.

O marido se referia a retribuir o favor. Valentim assente em silêncio. Então Benjamin carrega sua esposa e ambos desaparecem na noite.

 

§

 

De volta a Zgornji Kašelj, as carruagens médicas ocupam as ruas. Os residentes se aproximam, curiosos para ver o que está acontecendo. 

Valentim está ao lado da maca de Tobias. O inspetor está com suas costas e seus ombros enfaixados. Felizmente o virote não atingiu nenhuma artéria.

Valentim lhe explica o ocorrido. De fato havia um lobisomem em Liubliana. Tobias pondera; suas teorias estavam certas, afinal. Querendo ou não, Valentim também reconheceu isso aquela noite.

Os médicos aparecem com corpos sob os lençóis. Tobias vê aquilo e pergunta:

- Onde estão os Caçadores Britânicos?

- Mortos. – responde ele – Não sobrou nenhum.

O inspetor se consterna.

- Então não era um lobisomem, e sim uma mulher-lobo?

- Sim, e Benjamin era seu marido.

- E onde estão eles agora?

- Eu os deixei fugir.

Tobias se espanta.

- Valentim! Por que o senhor fez isso?!

Ele pondera em silêncio. Benjamin e a mulher-lobo eram casados e se amavam. Ele se identificou com eles em sua busca por Danica e, por esta razão, os deixou fugir.

- Não se preocupe, Hessler. Eles não virão novamente.

Os médicos põem Tobias na carruagem e vão embora. Valentim se despede e fica para trás; ele precisava espairecer seus pensamentos aquela noite.

De repente outra carruagem chega e para ao seu lado. A porta se abre e revela o capitão da Gendarmerie. 

Vendo aquele pandemônio, Vilko caminha furiosamente em direção a Valentim. Com o rosto corado, ele pergunta:

- Foi isso mesmo o que eu ouvi?! Um inspetor ferido, cinco nobres estrangeiros mortos, uma testemunha desaparecida e um maldito lobisomem?!

O capitão bufava ferozmente como o próprio licantropo. Valentim calmamente responde:

- É isso mesmo, capitão. Os almofadinhas morreram e a testemunha desapareceu na floresta. Um lobisomem matou todos.

Levantando as mãos, Vilko se recusa a acreditar.

- Por acaso eu fiquei louco?! Ou o senhor me acha com cara de idiota?! – pergunta ele – Não existe nenhum lobisomem!

O grito do capitão faz Valentim fechar os olhos para se proteger do ar quente.

- Pois eu insisto que existe. – reitera ele – Eu o vi.

- E curiosamente o senhor foi o único a sair de lá ileso, não é? – suspeita ele.

Valentim permanece em silêncio. Apesar das suspeitas do capitão, nenhum homem sozinho podia ter feito aquilo. Cinco homens armados e vestindo armaduras morreram. A não ser que Valentim tivesse força sobre-humana, ou um bando de criminosos com ele, qualquer teoria a seu respeito seria ridícula. 

- Eu vou investigar a fundo esse caso, Valentim, e se o senhor estiver envolvido, eu mesmo assegurarei que o senhor nunca mais saia da prisão, está me ouvindo?! – então Vilko se vira e vai embora.

De repente todos ouvem um lobo uivando ao longe e se assustam. O uivo veio do bosque onde aquela cerração verde maculava as árvores com o seu lamento. Mesmo o capitão se assusta, sentindo o seu sangue gelar de medo. Então um silêncio agourento paira sobre os gendarmes e os médicos, e ninguém ousa quebra-lo.

Enquanto todos olham para a floresta, Valentim chama a seu capitão e diz:

- Ei, capitão. – chama ele – Cuidado com os demônios à noite...  

 


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