Escoltado pelos
soldados, Yang avança pela imensa estação. Mas aquela era uma estação
diferente. Tiangong era mais funcional, tinha poucos detalhes estéticos e
funcionava como um entreposto humano entre a Terra e o espaço. Belerofonte era
mais viva, pois nela pulsava em vida e energia.
Yang vê hubs que
levavam a diferentes alas da estação. Em um interessante cruzamento, ele vê
telões e propagandas semelhantes à Times Square. Naves civis trafegavam pelo
cruzamento, sobrevoando em diferentes níveis como se fossem vias públicas. Mas
diferentes das avenidas da Terra, com faixas de rolamento ao lado uma das
outras, ali as faixas estavam acima e abaixo.
O tenente se
distrai. Aquelas luzes brilhantes lhe fascinavam. Na China também haviam cidades
pulsantes, mas em Belerofonte era diferente. Ali haviam fast-foods, marcas de
roupas e grifes famosas, um comércio próspero que rivalizava com o de Tiangong.
A estação era como um porta-aviões do século 21; uma verdadeira cidade
flutuante com restaurantes, hospitais, alojamentos e centros de recreação para
a tripulação. De fato, Yang se sentia em uma Nova Iorque adaptada e escondida
no espaço.
- Andando!
Um soldado
empurra suas costas, fazendo-o retomar a caminhada.
Eles chegam ao
quartel-general da estação. Yang vê dezenas daqueles paramilitares armados pelo
local, e todos saúdam o almirante prontamente. O almirante Jones aparenta ter
muito respeito.
Yang é colocado
em um elevador e todos sobem para os andares superiores. O almirante conduz o
grupo por um requintado corredor, com longos tapetes e luminárias nas paredes.
Ao abrir uma porta dupla, ele revela sua sala. Yang vê uma bela mesa e três
confortáveis poltronas. Atrás da mesa há uma belíssima janela com uma vista
panorâmica da estação. Mas o que mais lhe chama a atenção é a decoração;
retratos, medalhas e troféus nas paredes. O almirante era um ex-lutador de MMA[1].
Em sua sala ele colecionava títulos e mais títulos de torneios e campeonatos.
Aparentemente ele foi um excelente lutador, pois Yang vê muitos troféus de
campeão.
“Realmente, é um
homem muito forte”, pensa ele.
- Sente-se. –
pede o almirante.
Ao sentar-se, o piloto
se intriga. Ele esperava ser levado a uma sala de interrogatório, e não à sala
pessoal do almirante.
Pegando um copo
de uísque, o almirante lhe serve e lhe oferece um charuto. Jones pega um
isqueiro e, ao abri-lo, imediatamente a chama se forma.
Com a boca
soltando fumaça, o almirante diz:
- Fique à
vontade.
Yang acha isso
muito difícil, pois aqueles soldados ainda estavam atrás dele, portando seus
fuzis e prontos para alveja-lo sem aviso.
- Perdoe meus
maneirismos. Prefiro tratar bem os meus hóspedes.
- Hóspedes? –
intriga-se Yang – Acredito que eu seja um prisioneiro.
Tirando o charuto
de sua boca, ele responde com olhar sério.
- Estamos em
guerra, tenente. Nossa derrota é passageira, não permanente.
Yang não entende.
- Do que está
falando?
Virando-se, ele
olha junta as mãos atrás das costas e olha pela janela.
- Meu avô estava
lá quando aconteceu. Ele era da Marinha, mas estava em Washington quando
começou. O canhão chinês Yu Huang Shang-ti, ou o Imperador de Jade para os
ocidentais, dizimou nossa capital. O laser desceu como um raio do céu e torrou
a cidade. O calor intenso provocou a explosão dos tanques de combustível dos carros
e da tubulação de gás propano nos edifícios. Meu avô viu pessoas sendo
queimadas vivas, derretidas até os ossos, fulminadas pelo laser mortífero.
Yang arregala os
olhos.
- Isso é horrível...
- Washington
pegou fogo. Carros, árvores, pessoas... Mesmo a Casa Branca ardeu em chamas. O
calor foi tanto que estourou o vidro das janelas, alguns até derreteram. Nunca
se viu uma devastação tão trágica assim nos Estados Unidos. Todos acreditaram
ser um ataque nuclear.
O almirante bebe
um gole de seu uísque e depois fuma seu charuto.
- A imponente
frota americana, com sua poderosa esquadra e seus porta-aviões, também foram
queimados pelo laser repentino. O ataque viera do espaço, então não pudemos nos
defender; a China havia violado o tratado internacional de não utilizar o
espaço para fins militares.
Fumando mais um
pouco, ele continua:
- Nosso
submarinos nucleares foram detectados pela inovadora tecnologia subaquática e
espacial chinesa. A China monitorava tanto a terra, quanto o espaço e o fundo
do mar com seus sonares, radares e satélites. Suas bases se encontravam nas
ilhas artificiais construídas no Mar do Sul da China. – afirma ele e em seguida
ele lamenta – Não devíamos tê-los deixado ocupar o mar próximo das Filipinas.
Yang sabe do que
ele está falando. No começo, era apenas ilhas artificiais, mas depois a China
havia construído um verdadeiro arquipélago militar marítimo.
- Graças a essa
tecnologia, os ataques de submarino foram previamente detectados, assim minimizando
os estragos em solo chinês.
Algum tempo se
passa e um silêncio pesado paira na sala. O almirante ainda está de costas,
olhando pela janela. De repente ele esmurra o vidro e conclui:
- Aquilo foi um
ataque traiçoeiro e covarde, como um segundo Pearl Harbor!
O
piloto se sente ofendido.
-
Almirante, eu não tenho os detalhes históricos, mas ambos os países estavam em
guerra nos séculos passados, primeiro econômica e depois militarmente. Venceu
quem teve a maior vantagem.
Jones sorri em
desprezo.
- Mas a que
custo, tenente Haisheng? Nossos mísseis contra-atacaram cidades chinesas, mas
mísseis chineses, russos, iranianos, norte-coreanos e de todos os outros
inimigos da América nos atacaram de volta. Meu país foi varrido do mapa, e o
que sobrou foi um solo calcinado de cinzas, ocupado por forças estrangeiras. A
China se reconstruiu com a vitória, mas meu país jamais pôde ser reconstruído. Pelo
menos... – e então ele hesita – não no planeta Terra.
O piloto
reconhece.
“Belerofonte...”,
pensa ele.
- Após a derrota,
os Estados Unidos construíram uma estação à sombra do imperialismo chinês. E
hoje o que você vê... – diz ele, indicando a estação atrás de si – é o orgulho
americano que jamais morreu com a rendição.
Sentando-se, o
almirante põe o charuto no cinzeiro e diz:
- Mas vamos deixar
o passado de lado e tratar do presente. – cruzando os dedos, ele pergunta – E
então, tenente? O que realmente te aconteceu?
Yang respira
fundo e abaixa a cabeça. Cativo em uma estação espacial de uma nação inimiga,
ele não vê outra opção senão cooperar.
O piloto relata o
que aconteceu desde a invasão da Terra até sua fuga de Zhurong. Ele comenta que
desde então as Forças Armadas chinesas vêm sofrendo apenas derrotas. A Terra
estava exposta e o inimigo atacava na terra, no céu e até no fundo do mar. A
tecnologia alienígena liberava unidades capazes de se adaptar a todos os
ambientes, subjugando as exaustas forças de defesa. Em tom obscuro, Yang afirma
que o destino do mundo e o futuro da raça humana estavam por um fio.
O almirante
escuta tudo com atenção e não ousa interrompe-lo em nenhum momento. Quando o
piloto conclui seu relato, Jones fica apenas pensativo, sem responde-lo.
Um minuto se
passa. De repente o almirante quebra o silêncio e diz:
- Vamos, tenente.
Vamos caminhar um pouco.
Dez minutos depois,
Yang e Jones caminham pela estação. Para a surpresa do piloto, eles parecem
caminhar como dois conhecidos, ou como o almirante parece dizer, dois amigos
pegos em lados opostos da guerra tentando entender um ao outro.
Eles conversavam
normalmente. Apesar do sotaque, o almirante entende e fala bem o chinês. Yang,
por sua vez, tenta pronunciar algumas palavras em inglês também, o que deixa a
conversa bastante descontraída. Em dado momento, Yang vê pessoas de aparência
asiática na estação. Ao entrar em uma rua, ele vê portais taoístas, lanternas
nos postes e letreiros em chinês. Ele se espanta.
- Sim, também
existe uma Chinatown em Belerofonte. – comenta o almirante ao ver seu espanto –
Ela é composta por asiáticos de várias nacionalidades, mas em sua maioria chineses.
- Eu não entendo.
Apesar da China ter vencido a guerra e ter instaurado um governo mundial, ainda
há chineses leais aos Estados Unidos?
-
Sino-americanos. – corrige Jones – Sua descendência é chinesa, mas são
legítimos cidadãos americanos aqui.
- Eles não foram
postos em vigilância, assim como o foram os japoneses durante a Segunda Guerra
Mundial?
- Não. Estes
chineses são naturais americanos há gerações. A imigração chinesa começou no
século 19, focada no trabalho manual no oeste americano. Os trabalhadores foram
trazidos para trabalhar na construção de ferrovias e minas. Mais tarde, houve
uma segunda onda de imigração, mas os imigrantes vinham de centros urbanos e
falavam mandarim, diferente da primeira onda em que a maioria falava cantonês.
Yang assente.
Apesar de ser no mesmo país, ele não falava cantonês.
- No começo do
século 21, estimava-se que haviam mais de 4 milhões de descendentes vivendo nos
Estados Unidos. Dos que imigraram, 56% pediu naturalização. Os demais
atravessavam a fronteira e permaneciam ilegais.
Interessando-se,
o piloto pergunta:
- Por que a
imigração foi tão massiva?
- As motivações
variam. Estabilidade econômica, educação, liberdade para os negócios e, para
alguns, asilo político devido as repressões políticas na China.
Yang se incomoda.
- A China é uma
nação poderosa e próspera. Acredito que muitos desses imigrantes foram iludidos
pela tal liberdade na América.
- A liberdade é
um dos pilares inabaláveis da América. – afirma ele – “A terra dos livres”. A
cultura greco-romana influenciou fundamentalmente o Ocidente. Seus ideais como
República, democracia, liberdade, direito e ética ainda compõem o orgulho
americano até hoje.
Enquanto
conversam, Yang ouve vozes e três mulheres se aproximam correndo. Ele vê uma
mulher loira e suas duas filhas adolescentes parecidas com o pai; era a família
do almirante. As filhas usavam roupas esportivas e o piloto reconhece uniformes
de vôlei.
Jones fica alguns
minutos conversando com sua família. Yang os observa logo atrás. O piloto
também tinha família, mas os deixou cedo para ingressar na Força Aérea. O
Tenente General Junlong foi sua família por um tempo, assim como sua ambiciosa
filha. Lin Fei sempre foi indiferente e até hostil a Yang, mas Junlong lhe foi
uma figura paterna que o conduziu por sua juventude e sua carreira militar.
Tragicamente o general se sacrificou para que ele e o Alto Comando pudessem
fugir de Pequim, mas seu sacrifício foi heroico e hoje Yang luta para que não
tenha sido em vão.
A esposa e as
filhas do almirante vão embora. Ele então comenta:
- Como dever ter
visto, no passado eu fui um lutador de MMA. Eu me ingressei, competi e ganhei
vários campeonatos. Ganhei medalhas, troféus e cinturões. Muitas vezes eu
defendi meu título, vencendo meus oponentes inclusive em revanches. Eu era
imbatível, ninguém conseguia tomar o cinturão de mim. Desta forma, eu me tornei
uma celebridade em meu país. – orgulha-se ele – Minhas filhas gostam de
esportes por minha causa. Elas jogam vôlei e gostam muito. Apesar de toda essa
guerra, eu, como pai e almirante desta estação, me esforço para que elas tenham
um vida normal e digna como eu tive.
Yang assente em
concordância.
O piloto não tem
esposa e nem filhos, mas percebe que, além de forte, o almirante era um homem
muito dedicado e amoroso quanto as suas filhas.
§
Uma hora depois,
Yang está de volta no quartel-general de Belerofonte. A escolta o conduz para a
sala de interrogatório e ele permanece sozinho. Na sala há um espelho falso e
ele sabe que há pessoas no outro lado registrando tudo o que está acontecendo.
Alguns minutos
depois, Jones entra e permanece em silêncio em um canto. Dois homens e uma
mulher entram. Yang nota que eles vestem paletós e crachás com a sigla FBI[2];
eram os investigadores ou detetives, como eram chamados nos Estados Unidos.
O interrogatório
começa e Yang novamente relata o que aconteceu desde Zhurong. Ao terminar, os
detetives lhe lançam olhares desconfiados; o piloto omitia o destino do Alto
Comando por questões de segurança pessoal e política.
O interrogatório
prosseguia de maneira redundante. Yang se recusa a dar detalhes, omitindo e se
silenciando em alguns momentos. Então Jones dá um passo à frente e,
encarando-o, pergunta:
- O que aconteceu
com o presidente e a cúpula do governo mundial chinês?
Sorrindo, o
piloto responde de maneira perspicaz:
- Almirante, nós
somos soldados. O senhor sabe que eu não posso falar.
Então todos
assentem em silêncio.
Dando a ordem, Jones
chama sua escolta e Yang é levado pelo quartel-general, onde permanece sob
custódia por mais alguns dias.

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