domingo, 11 de julho de 2021

Tiergarten - 34 - Tiergarten

 


O Tiergarten[1] surgiu no século XVI como um campo de caça particular dos nobres de Brandemburgo. Durante o Sacro Império Romano Germânico, os nobres intentaram criar um espaço para caçarem animais selvagens, e para isso reservaram uma parte da cidade, que futuramente se tornaria o famoso Tiergarten, para praticarem seu controverso esporte.

Friedrich Wilhelm I ordenou a construção da intersecção Der Große Stern[2]. Ela se localizava no centro do parque e futuramente abrigaria a suntuosa estátua de Siegessäule[3]. Mais tarde Friedrich o Grande, seu filho, mandou tirar as cercas que o isolavam, criando uma área conhecida como o Lustgarten[4]. E assim o parque foi se abrindo ao público.

Gunther e Anneliese caminham pela extensa Straße des 17 Juni. Esse nome é uma referência à revolta de 17 de junho de 1953, da qual dezenas de pessoas foram mortas em Berlim Oriental, inclusive Gunther e seus doppelgängers. “Foi nesse período”, lembra-se ele, “que a Stasi veio atrás de mim”. 

Os dois passam pelo grandioso Memorial de Guerra Soviético, um monumento construído pelos russos com pedaços da Chancelaria do Reich. Interessada, Anneliese se aproxima para contempla-lo melhor. Ela vê uma enorme estátua de um soldado russo, vitorioso e imponente sobre a capital alemã. Abaixo, ela vê um mural escrito em letras cirílicas. Em voz alta ela lê:

- Eterna glória aos heróis que caíram em batalha contra os invasores alemães fascistas, pela liberdade e independência da União Soviética.

Parado logo atrás, Gunther o contempla também. Ele viu um monumento parecido no parque Treptower. Lembrando-se do quão belos eram aqueles monumentos, ele pensa: “os russos realmente tinham um grande senso artístico...”. Durante a Batalha de Berlim, 80 mil soviéticos morreram, e aqueles memoriais serviam para que eles jamais fossem esquecidos.

- Um belo monumento... – comenta ela – Uma pena que não podíamos aprecia-lo antes.

De fato, ele foi construído no setor britânico de Berlim. Gunther não sabe por que os soviéticos o construíram além de seu território, mas sabe que muitos de seu exército morreram combatendo no Tiergarten. Apesar do entrave diplomático, os britânicos permitiram que eles continuassem realizando homenagens ali.

Avançando, eles chegam ao Große Stern, a grande rotatória que ligava as principais avenidas da cidade. Em seu centro eles avistam a Siegessäule, o monumento em homenagem à vitória na Segunda Guerra de Schleswig. Gunther se lembra que essa guerra, juntamente com as guerras contra os austríacos e os franceses, foram durante o governo Bismarck. “O altivo e aristocrático Bismarck...”, pensa ele, lembrando-se do carismático chanceler.

Diferente do Memorial de Guerra Soviético, Anneliese não demonstra muito interesse na Coluna da Vitória. Ao contrário, ela o contempla com certo desprezo, admirando, mas rejeitando aquele monumento dedicado à antiga nobreza prussiana.

A caminhada estava ficando longa e cansativa, mas Gunther não tinha a intenção de parar. No outro lado da avenida, ele vê seu objetivo, uma fachada de arquitetura asiática em frente ao zoológico de Berlim Ocidental. Animando-se, ele diz:

- Chegamos.

Enxugando o suor de seu rosto, a garota pergunta:

- Você queria vir ao zoológico?

- Não, exatamente. – esclarece ele – Há uma lugar aqui perto onde os nazistas construíram torres para a defesa antiaérea da cidade. Eu procuro pelo local onde foi construída a Torre G, ou “Torre do Zoológico” como ficou conhecida.

- Eu pensei que essa torre tivesse sido demolida nos anos 40.

- Os ingleses a demoliram, mas tiveram de tentar duas vezes. Acredito que o que eu procuro ainda esteja nesse local.

Ponderando, Anneliese pergunta:

- Você se refere ao que aconteceu com sua mãe?

Respirando fundo, ele responde:

- Sim.

Passados alguns segundos, a garota pergunta:

- Quer que eu vá com você?

Gunther olha para trás para responde-la.

- Dessa vez eu prefiro ir sozinho. Mas me prometa que estará aqui quando eu voltar.

Sorrindo, ela responde:

- Está bem. Eu prometo.

Satisfeito, Gunther diz:

- Te amo.

 

§

 

Berlim Ocidental havia crescido de tal maneira que fazia sua porção oriental parecer parada no tempo. Prédios altos e modernos são visíveis além das árvores. O gramado é vasto e há belos riachos. A paisagem era tão alegre que, se algum dia ali já existiu uma robusta torre de defesa antiaérea, era difícil dizer.

Olhando ao redor, Gunther vê crianças brincando e adultos passeando. Mas a cada passo as crianças se silenciavam e os adultos sumiam. Ao passar por algumas árvores, todo o parque ao redor se silencia. Estranhamente, os frequentadores haviam desaparecido. Nem mesmo o som abafado da cidade era ouvido. Nesse momento o rapaz percebe, ele se encontrava totalmente sozinho.

Não havia nenhum resquício da Torre G no zoológico, mas ele sente que estava no caminho certo. Avistando um pedaço de papel sobre um tronco, ele se aproxima e identifica uma carta. Surpreso, o rapaz reconhece a letra de sua mãe. Ele lê:

“Querido Gunther. Gostaria que soubesse que não encontrei o que estava procurando, mas estou bem. Não descobri o que aconteceu com meus pais, mas finalmente me reuni com eles. Espero que você me entenda. Foi exatamente nesse local onde os vi pela última vez. O local onde nos separamos para sempre. Aqui se encontrava a Torre G, da qual todos chamávamos de Torre do Zoológico. O Führer mandou construí-la após um bombardeio aéreo em 1941, mas o que não esperávamos era que, de uma edificação feita para a defesa contra ataques aéreos, também nos defendesse de ataques terrestres. Foi quando os russos vieram. Eu sei que nunca falava sobre isso, Gunther, mas eu estava aqui quando tudo aconteceu”.

Nesse momento, a realidade se revolve em um vórtice e as dimensões se reorganizam. À sua frente, um enorme monólito de concreto aparece, formando a austera Torre do Zoológico. Atônito, seus olhos se arregalam.

Aquela agradável e verdejante paisagem se foi. O que Gunther vê agora é uma paisagem devastada e arrasada pela guerra. Há grande alvoroço e correria em frente à torre. Milhares de pessoas buscam abrigo no local. No céu acima, aviões russos voam baixo, lançando bombas e destruindo a já arruinada Berlim.

Com bombas se explodindo pelo parque, os civis se desesperam. Na entrada da torre, Gunther vê soldados da Wehrmacht, Hitlerjugend e Volkssturm[5]. Os soldados estão abatidos e desmoralizados, mas tentam organizar o local. As tropas populares da Volkssturm os auxiliam, mas são quase ineficazes em seu trabalho. O rapaz vê crianças com botas e uniformes tão grandes que não as serviam. Mesmo os rifles Gewehr 43 eram quase de sua altura. Sabendo da sangrenta batalha que viria, o rapaz se espanta como os nazistas tiveram coragem de empregar crianças de até 10 anos na defesa da cidade.

“Um regime de bandidos”, pensa ele.

Na carta, ele lê:

“No dia 16 de abril de 1945 eles vieram. Bombas caíram de toda parte. Na superfície, nenhum lugar era seguro, a não ser nos porões dos prédios. Infelizmente, com a queda dos combalidos edifícios, muitos se soterraram lá embaixo. Meus pais se preocupavam tanto comigo que fariam tudo por mim. Eles jamais permitiriam que qualquer mal me ocorresse. Eu tinha apenas cinco anos na época, mas já experienciava tanto horror!”.

Em frente à torre, Gunther vê um casal e uma menininha de casaco vermelho. Espantado, ele a reconhece. Era sua mãe.

“Na cidade não havia comida ou água corrente. Quando fazia frio, não havia carvão para nos aquecermos. As pessoas vinham ao parque e cortavam as árvores, apanhando lenha para cozinhar e se aquecerem. Do belíssimo parque de outrora, nada sobrou, tudo foi devastado. Com os incessantes bombardeios, não era seguro sair ao ar livre. Então viemos à Torre do Zoológico atrás de comida e proteção. Mas quando chegamos, não havia mais espaço no abrigo”.

Do lado de fora, Gunther vê os berlinenses se digladiando para entrar na torre. No meio da confusão, alguns são espancados e pisoteados. Sua mãe chora aos berros ao ver seu pai, avô de Gunther, ser esmurrado e então pisoteado no chão. Sua avó tenta ajudar, mas alguém a empurra para longe e sua filha quase se solta de seus braços.

- Papai! – grita ela, ao ver o seu pai espancado no chão.

Em seguida, soldados da Wehrmacht aparecem e socorrem seu avô. Levando-o para a ala médica, sua avó e sua mãe os seguem e assim eles conseguem um lugar no disputado abrigo.

“A torre era fria e escura. Haviam seis andares, mais o porão. Os médicos cuidaram do meu pai no terceiro andar, mas logo o dispensaram devido ao enorme número de feridos na batalha. Então fomos mandados ao abrigo antiaéreo. O local foi projetado para acomodar quinze mil pessoas, mas chegando lá, haviam quase trinta”.

Teletransportado para dentro da torre, o rapaz vê sua mãe e avós percorrerem o local. No terceiro andar, Gunther vê o hospital abarrotado de feridos. No segundo andar, ele vê inestimáveis obras de arte, retiradas dos museus da cidade por precaução. Ao chegar ao abrigo, eles se apertam com as outras pessoas, todas desesperadas e feridas como eles. Em seus olhos, o rapaz pode ver que eles perderam tudo na guerra, não apenas suas casas e suas famílias, mas sua esperança e seu país.

“Espremidos e mal acomodados, os abrigados conseguiam fazer humor no meio daquele pranto. Acendendo velas no chão, nós observávamos atentamente a chama. Se ela se apagasse, nós imediatamente saíamos do abrigo, pois havia acabado o oxigênio”.

Gunther vê velas no chão. Se elas se apagassem antes de se esgotar a cera, as pessoas se cotovelavam até a saída, mesmo sob o risco de serem despedaçadas pelas bombas. Com sua mãe no colo de seu avô, eles saem e entram na torre. Durante aquelas duas semanas de batalha, eles repetem esse ato várias vezes, lutando para não morrerem sufocados.

“Não me lembro quantas vezes fizemos isso mas, ao sairmos, notamos que aqueles que ficaram para fora foram mortos pelas explosões. Seus corpos ficaram ao ar livre, envoltos de sangue, lama e poeira. Apesar de criança, jamais me esquecerei daquela cena. Ali haviam mulheres e crianças!”.

Ao voltarem ao abrigo, Gunther vê que as provisões estavam acabando. Um oficial da Wehrmacht aparece e, tranquilizando-os, afirma que o complexo era tão bem estocado com suprimentos e munição que, não importa o que acontecesse no resto de Berlim, a torre poderia aguentar por um ano se necessário.

“Eles estão chegando! Eles estão chegando! Alguém gritava isso inúmeras vezes no abrigo. Além da falta de ar, alguns não suportavam o confinamento e enlouqueciam. Novamente a vela se apaga. Temendo o sufocamento, nós nos levantamos e fomos para fora. Então dois soldados apareceram. Eles argumentam que minha vida era mais importante, sugerindo aos meus pais que saíssem do abrigo para que eu tivesse uma melhor chance de sobreviver. Eles lhes informam que há outro abrigo para adultos, e assim que os confrontos terminassem, nós nos reuniríamos novamente. Meus pais rejeitam a princípio mas, pensando no meu bem-estar, aceitam em seguida”.  

Dentro do abrigo, seus avós beijam e abraçam sua mãe, que chorava tristemente ao saber que eles iam embora. Seus avós prometem voltar, prometendo trazer inclusive um brinquedo. Aos prantos, sua mãe é deixada com uma enfermeira, então seus avós se despedem e deixam a torre. Sua mãe fica sozinha, abraçada ao seu ursinho e chorando a ausência de seus pais. Colocando as mãos no rosto, Gunther chora também.

“Eu fiquei sozinha, totalmente sozinha aqueles dias. Tentando nos dar esperança, os soldados falavam que o escritório de Goebbels ficava na torre, mas ele nunca foi para lá. Mais tarde, soubemos que ele havia ficado no bunker do Führer, suicidando-se em seguida. Um final esperado para aquele monstro. Durante dias e noites eu ouvia os canhões disparando no terraço. Seu fogo incessante me amedrontava, não me deixando dormir. Eu só queria que aquele pesadelo acabasse, mas os soldados diziam que estavam defendendo Berlim. Como eles defendiam, se quem os auxiliava eram crianças tão novas que mal calçavam suas botas?”.          

No alto da torre, Gunther vê os jovens soldados da Hitlerjugend carregando pesadas balas de canhão. De mangas dobradas em seus punhos e botas largas com cadarços desamarrados, elas bravamente auxiliavam a Wehrmacht. O rapaz via em seus semblantes o medo. A cada explosão inimiga elas choravam de desespero, mas os oficiais mais velhos as repreendiam duramente, mandando-as voltar ao trabalho. O coração de Gunther se desfalece em lágrimas.

“No dia 30 de abril o confronto finalmente termina. Os russos atacaram a torre, disparando todo o tipo de arma contra nós, mas a torre resistiu. Dessa maneira, eles propuseram nossa rendição, negociando os termos com a Wehrmacht. À meia-noite nós saímos do abrigo. Estava tão frio e escuro que eu só tremia. Eu achei que meus pais estariam lá para me receber, mas obviamente eles não estavam. E assim eu fui levada para o orfanato das crianças da guerra, esperando até que meus pais chegassem”.

A guerra havia acabado. A torre fica para trás. Apesar da Alemanha ter perdido, sua mãe finalmente estava à salvo daquela batalha sangrenta. Gunther soube do trágico estupro em massa cometido pelos russos, mas se alivia ao saber que sua mãe, ainda uma criança, não testemunhou essa indizível violência. No orfanato, roupas novas e limpas substituem seu velho casaco vermelho. Durantes meses ela esperou por seus pais, mas em nenhum obituário se via seus nomes. A esperança da menininha diminuía.

“Será que meus pais vão voltar? Eu pensava nisso constantemente. Então os aliados vieram e dividiram a cidade em zonas. Eu fiquei no lado soviético, na casa de parentes distantes que mal me conheciam. Cresci apática e sozinha. Anos depois descobri que haviam cemitérios de vítimas não identificadas no lado ocidental, mas era tarde demais para investiga-lo. O Ulbricht já havia isolado sua porção de Berlim”.

Aos treze anos, sua mãe assistia aos trabalhadores construírem um muro improvisado no centro da cidade. O Exército Vermelho fazia a guarda e impedia que as pessoas fugissem. Instalando arames farpados, o muro assemelhava-se a uma terrível trincheira.

“Por isso eu parti, Gunther. Eu precisava saber o que aconteceu com eles. Sei que você está sozinho, meu filho. Sei que seu pai também morreu. Mas eu não podia viver sem essa resposta. Eu tinha que saber. Como eu disse antes, esperei a vida todo por esse momento. Me perdoe, Gunther. Dessa vez você terá de continuar sem mim. E se não nos vermos novamente, me perdoe e adeus”.

Em 1947, os ingleses instalam dinamites na base da torre, finalmente realizando sua demolição. Assim, a austera torre que salvou a vida de sua mãe e de tantos outros na Batalha de Berlim chega ao fim.

Com a detonação das dinamites, a poeira se levanta e encobre o corpo de Gunther. Mas, suspenso na quarta dimensão, a poeira passa por ele e não lhe faz mal algum.

- Não... – lamenta-se Gunther – Eu não posso acreditar que você se foi...!

Com o rosto em terra, o rapaz chora intensamente. A carta permanece em sua mão, agora toda amassada em seu punho. Prostrado no chão, Gunther sente apenas vontade de morrer. Então algo acontece.

Alguém aparece entre a densa poeira. Parados em frente às ruínas da torre, o rapaz vê três pessoas olhando para ele. Gunther imediatamente as reconhece. Era seu avô, sua avó e sua mãe.

Bem mais jovem e não mais uma idosa, sua mãe olha para ele. Então ela sorri. De algum modo, Gunther entende que ela está bem. Acenando, ela se despede e, dando-lhe as costas, seus avós a abraçam e eles vão embora, sumindo em uma luz em seguida. Aliviado, suas lágrimas de tristeza se tornam lágrimas de alegria, pois naquele momento ele sente paz.

Minutos depois, Gunther vê um campo verdejante e crianças brincando ao longe. Ele havia voltado ao presente. No lugar da Flakturm[6] ele vê um alegre parque zoológico. “Ainda bem”, pensa ele. “Está melhor assim”.

De repente, alguém toca seu ombro e ele se assusta.

- Gunther? Você está bem?

Olhando para trás, o rapaz vê Anneliese. Ele enxuga os olhos e se levanta.

- Sim, meu anjo. Eu estou sim.

O rapaz sabe que, com a garota por perto, ele sempre estará bem.

Em sua mão ainda havia um pedaço de papel. Felizmente a carta se manteve no espaço-tempo.

- O que é isso? – pergunta ela.

- É a carta de minha mãe.

- É mesmo? – interessa-se ela – E você a encontrou?

- Não. – responde ele – Ela morreu há algum tempo.

A garota se consterna.

- Oh, Gunther...! Eu lamento muito!

O rapaz, porém, a interrompe, dizendo:

- Não, por favor não fique. Para a minha família, por muitos anos esse foi um local de morte. Dessa vez, ele será um local de vida.

Intrigada, Anneliese pergunta:

- O que quer dizer?

Pegando suas mãos, ele responde:

- Você verá.      

E então o rapaz a abraça e a leva dali.

 

 



[1] “Jardim de animais” em alemão

[2] “A grande estrela”

[3] “Coluna da vitória”

[4] “Jardim do prazer”

[5] “Tormenta do povo”

[6] Torre de defesa antiaérea

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