O Tiergarten[1] surgiu
no século XVI como um campo de caça particular dos nobres de Brandemburgo.
Durante o Sacro Império Romano Germânico, os nobres intentaram criar um espaço para
caçarem animais selvagens, e para isso reservaram uma parte da cidade, que
futuramente se tornaria o famoso Tiergarten, para praticarem seu controverso
esporte.
Friedrich Wilhelm I ordenou a construção da
intersecção Der Große Stern[2]. Ela
se localizava no centro do parque e futuramente abrigaria a suntuosa estátua de Siegessäule[3]. Mais
tarde Friedrich o Grande, seu filho, mandou tirar as cercas que o isolavam,
criando uma área conhecida como o Lustgarten[4]. E
assim o parque foi se abrindo ao público.
Gunther e Anneliese caminham pela
extensa Straße des 17 Juni. Esse nome é uma referência à revolta de 17 de junho
de 1953, da qual dezenas de pessoas foram mortas em Berlim Oriental, inclusive
Gunther e seus doppelgängers. “Foi nesse período”, lembra-se ele, “que a Stasi
veio atrás de mim”.
Os dois passam pelo grandioso Memorial de
Guerra Soviético, um monumento construído pelos russos com pedaços da
Chancelaria do Reich. Interessada, Anneliese se aproxima para contempla-lo
melhor. Ela vê uma enorme estátua de um soldado russo, vitorioso e imponente
sobre a capital alemã. Abaixo, ela vê um mural escrito em letras cirílicas. Em
voz alta ela lê:
- Eterna glória aos heróis que caíram em
batalha contra os invasores alemães fascistas, pela liberdade e independência
da União Soviética.
Parado logo atrás, Gunther o contempla
também. Ele viu um monumento parecido no parque Treptower. Lembrando-se do quão
belos eram aqueles monumentos, ele pensa: “os russos realmente tinham um grande
senso artístico...”. Durante a Batalha de Berlim, 80 mil soviéticos morreram, e
aqueles memoriais serviam para que eles jamais fossem esquecidos.
- Um belo monumento... – comenta ela – Uma
pena que não podíamos aprecia-lo antes.
De fato, ele foi construído no setor
britânico de Berlim. Gunther não sabe por que os soviéticos o construíram além
de seu território, mas sabe que muitos de seu exército morreram combatendo no
Tiergarten. Apesar do entrave diplomático, os britânicos permitiram que eles continuassem
realizando homenagens ali.
Avançando, eles chegam ao Große Stern, a
grande rotatória que ligava as principais avenidas da cidade. Em seu centro
eles avistam a Siegessäule, o monumento em homenagem à vitória na Segunda
Guerra de Schleswig. Gunther se lembra que essa guerra, juntamente com as guerras
contra os austríacos e os franceses, foram durante o governo Bismarck. “O
altivo e aristocrático Bismarck...”, pensa ele, lembrando-se do carismático
chanceler.
Diferente do Memorial de Guerra Soviético,
Anneliese não demonstra muito interesse na Coluna da Vitória. Ao contrário, ela
o contempla com certo desprezo, admirando, mas rejeitando aquele monumento
dedicado à antiga nobreza prussiana.
A caminhada estava ficando longa e cansativa,
mas Gunther não tinha a intenção de parar. No outro lado da avenida, ele vê seu
objetivo, uma fachada de arquitetura asiática em frente ao zoológico de Berlim
Ocidental. Animando-se, ele diz:
- Chegamos.
Enxugando o suor de seu rosto, a garota
pergunta:
- Você queria vir ao zoológico?
- Não, exatamente. – esclarece ele – Há uma
lugar aqui perto onde os nazistas construíram torres para a defesa antiaérea da
cidade. Eu procuro pelo local onde foi construída a Torre G, ou “Torre do Zoológico”
como ficou conhecida.
- Eu pensei que essa torre tivesse sido demolida nos anos 40.
- Os ingleses a demoliram, mas tiveram de
tentar duas vezes. Acredito que o que eu procuro ainda esteja nesse local.
Ponderando, Anneliese pergunta:
- Você se refere ao que aconteceu com sua
mãe?
Respirando fundo, ele responde:
- Sim.
Passados alguns segundos, a garota pergunta:
- Quer que eu vá com você?
Gunther olha para trás para responde-la.
- Dessa vez eu prefiro ir sozinho. Mas me
prometa que estará aqui quando eu voltar.
Sorrindo, ela responde:
- Está bem. Eu prometo.
Satisfeito, Gunther diz:
- Te amo.
§
Berlim Ocidental havia crescido de tal
maneira que fazia sua porção oriental parecer parada no tempo. Prédios altos e
modernos são visíveis além das árvores. O gramado é vasto e há belos riachos. A
paisagem era tão alegre que, se algum dia ali já existiu uma robusta torre de
defesa antiaérea, era difícil dizer.
Olhando ao redor, Gunther vê crianças
brincando e adultos passeando. Mas a cada passo as crianças se silenciavam e os
adultos sumiam. Ao passar por algumas árvores, todo o parque ao redor se
silencia. Estranhamente, os frequentadores haviam desaparecido. Nem mesmo o som
abafado da cidade era ouvido. Nesse momento o rapaz percebe, ele se encontrava
totalmente sozinho.
Não havia nenhum resquício da Torre G no
zoológico, mas ele sente que estava no caminho certo. Avistando um pedaço de
papel sobre um tronco, ele se aproxima e identifica uma carta. Surpreso, o rapaz
reconhece a letra de sua mãe. Ele lê:
“Querido Gunther. Gostaria que soubesse que
não encontrei o que estava procurando, mas estou bem. Não descobri o que
aconteceu com meus pais, mas finalmente me reuni com eles. Espero que você me
entenda. Foi exatamente nesse local onde os vi pela última vez. O local onde
nos separamos para sempre. Aqui se encontrava a Torre G, da qual todos
chamávamos de Torre do Zoológico. O Führer mandou construí-la após um
bombardeio aéreo em 1941, mas o que não esperávamos era que, de uma edificação
feita para a defesa contra ataques aéreos, também nos defendesse de ataques
terrestres. Foi quando os russos vieram. Eu sei que nunca falava sobre isso,
Gunther, mas eu estava aqui quando tudo aconteceu”.
Nesse momento, a realidade se revolve em um
vórtice e as dimensões se reorganizam. À sua frente, um enorme
monólito de concreto aparece, formando a austera Torre do Zoológico. Atônito, seus
olhos se arregalam.
Aquela agradável e verdejante paisagem se
foi. O que Gunther vê agora é uma paisagem devastada e arrasada pela guerra. Há
grande alvoroço e correria em frente à torre. Milhares de pessoas buscam abrigo
no local. No céu acima, aviões russos voam baixo, lançando bombas e destruindo a
já arruinada Berlim.
Com bombas se explodindo pelo parque, os
civis se desesperam. Na entrada da torre, Gunther vê soldados da Wehrmacht,
Hitlerjugend e Volkssturm[5]. Os
soldados estão abatidos e desmoralizados, mas tentam organizar o local. As
tropas populares da Volkssturm os auxiliam, mas são quase ineficazes em seu
trabalho. O rapaz vê crianças com botas e uniformes tão grandes que não as
serviam. Mesmo os rifles Gewehr 43 eram quase de sua altura. Sabendo da
sangrenta batalha que viria, o rapaz se espanta como os nazistas tiveram
coragem de empregar crianças de até 10 anos na defesa da cidade.
“Um regime de bandidos”, pensa ele.
Na carta, ele lê:
“No dia 16 de abril de 1945 eles vieram.
Bombas caíram de toda parte. Na superfície, nenhum lugar era seguro, a não ser
nos porões dos prédios. Infelizmente, com a queda dos combalidos edifícios,
muitos se soterraram lá embaixo. Meus pais se preocupavam tanto comigo que
fariam tudo por mim. Eles jamais permitiriam que qualquer mal me ocorresse. Eu
tinha apenas cinco anos na época, mas já experienciava tanto horror!”.
Em frente à torre, Gunther vê um casal e uma
menininha de casaco vermelho. Espantado, ele a reconhece. Era sua mãe.
“Na cidade não havia comida ou água corrente.
Quando fazia frio, não havia carvão para nos aquecermos. As pessoas vinham ao
parque e cortavam as árvores, apanhando lenha para cozinhar e se aquecerem. Do
belíssimo parque de outrora, nada sobrou, tudo foi devastado. Com os
incessantes bombardeios, não era seguro sair ao ar livre. Então viemos à Torre
do Zoológico atrás de comida e proteção. Mas quando chegamos, não havia
mais espaço no abrigo”.
Do lado de fora, Gunther vê os berlinenses se
digladiando para entrar na torre. No meio da confusão, alguns são espancados e
pisoteados. Sua mãe chora aos berros ao ver seu pai, avô de Gunther, ser esmurrado e então
pisoteado no chão. Sua avó tenta ajudar, mas alguém a empurra para longe e sua filha quase se solta de seus braços.
- Papai! – grita ela, ao ver o seu pai espancado no chão.
Em seguida, soldados da Wehrmacht aparecem e
socorrem seu avô. Levando-o para a ala médica, sua avó e sua mãe os seguem e
assim eles conseguem um lugar no disputado abrigo.
“A torre era fria e escura. Haviam seis
andares, mais o porão. Os médicos cuidaram do meu pai no terceiro andar, mas
logo o dispensaram devido ao enorme número de feridos na batalha. Então
fomos mandados ao abrigo antiaéreo. O local foi projetado para acomodar quinze
mil pessoas, mas chegando lá, haviam quase trinta”.
Teletransportado para dentro da torre, o
rapaz vê sua mãe e avós percorrerem o local. No terceiro andar, Gunther vê o
hospital abarrotado de feridos. No segundo andar, ele vê inestimáveis obras de
arte, retiradas dos museus da cidade por precaução. Ao chegar ao abrigo, eles
se apertam com as outras pessoas, todas desesperadas e feridas como eles. Em
seus olhos, o rapaz pode ver que eles perderam tudo na guerra, não apenas suas
casas e suas famílias, mas sua esperança e seu país.
“Espremidos e mal acomodados, os abrigados
conseguiam fazer humor no meio daquele pranto. Acendendo velas no chão, nós
observávamos atentamente a chama. Se ela se apagasse, nós imediatamente saíamos
do abrigo, pois havia acabado o oxigênio”.
Gunther vê velas no chão. Se elas se apagassem antes de se esgotar a cera, as pessoas se cotovelavam até a saída, mesmo sob o risco de serem despedaçadas pelas bombas. Com sua mãe no colo de seu avô, eles saem e entram na torre. Durante aquelas duas semanas de batalha, eles repetem esse ato várias vezes, lutando para não morrerem sufocados.
“Não me lembro quantas vezes fizemos isso
mas, ao sairmos, notamos que aqueles que ficaram para fora foram mortos pelas explosões. Seus corpos ficaram ao ar livre, envoltos de sangue, lama e poeira.
Apesar de criança, jamais me esquecerei daquela cena. Ali haviam mulheres e
crianças!”.
Ao voltarem ao abrigo, Gunther vê que as
provisões estavam acabando. Um oficial da Wehrmacht aparece e,
tranquilizando-os, afirma que o complexo era tão bem estocado com suprimentos e
munição que, não importa o que acontecesse no resto de Berlim, a torre poderia
aguentar por um ano se necessário.
“Eles estão chegando! Eles estão chegando!
Alguém gritava isso inúmeras vezes no abrigo. Além da falta de ar, alguns não
suportavam o confinamento e enlouqueciam. Novamente a vela se apaga. Temendo o
sufocamento, nós nos levantamos e fomos para fora. Então dois soldados apareceram.
Eles argumentam que minha vida era mais importante, sugerindo aos meus pais que saíssem do abrigo para que eu tivesse uma melhor chance de sobreviver.
Eles lhes informam que há outro abrigo para adultos, e assim que os confrontos
terminassem, nós nos reuniríamos novamente. Meus pais rejeitam a princípio mas,
pensando no meu bem-estar, aceitam em seguida”.
Dentro do abrigo, seus avós beijam e abraçam
sua mãe, que chorava tristemente ao saber que eles iam embora. Seus avós
prometem voltar, prometendo trazer inclusive um brinquedo. Aos
prantos, sua mãe é deixada com uma enfermeira, então seus avós se despedem e deixam a torre. Sua mãe fica sozinha, abraçada ao seu ursinho e chorando a ausência de seus pais. Colocando as mãos no rosto, Gunther chora também.
“Eu fiquei sozinha, totalmente sozinha aqueles dias. Tentando nos dar
esperança, os soldados falavam que o escritório de Goebbels ficava na torre,
mas ele nunca foi para lá. Mais tarde, soubemos que ele havia ficado no bunker
do Führer, suicidando-se em seguida. Um final esperado para aquele monstro.
Durante dias e noites eu ouvia os canhões disparando no terraço. Seu fogo
incessante me amedrontava, não me deixando dormir. Eu só queria que aquele
pesadelo acabasse, mas os soldados diziam que estavam defendendo Berlim. Como
eles defendiam, se quem os auxiliava eram crianças tão novas que mal calçavam
suas botas?”.
No alto da torre, Gunther vê os jovens
soldados da Hitlerjugend carregando pesadas balas de canhão. De mangas dobradas em seus punhos e botas largas com cadarços desamarrados, elas
bravamente auxiliavam a Wehrmacht. O rapaz via em seus semblantes o medo.
A cada explosão inimiga elas choravam de desespero, mas os oficiais mais velhos as
repreendiam duramente, mandando-as voltar ao trabalho. O coração de Gunther se desfalece em lágrimas.
“No dia 30 de abril o confronto finalmente
termina. Os russos atacaram a torre, disparando todo o tipo de arma contra nós,
mas a torre resistiu. Dessa maneira, eles propuseram nossa rendição, negociando
os termos com a Wehrmacht. À meia-noite nós saímos do abrigo. Estava tão frio e
escuro que eu só tremia. Eu achei que meus pais estariam lá para me receber,
mas obviamente eles não estavam. E assim eu fui levada para o orfanato das
crianças da guerra, esperando até que meus pais chegassem”.
A guerra havia acabado. A torre fica para
trás. Apesar da Alemanha ter perdido, sua mãe finalmente estava à salvo daquela
batalha sangrenta. Gunther soube do trágico estupro em massa cometido pelos
russos, mas se alivia ao saber que sua mãe, ainda uma criança, não testemunhou
essa indizível violência. No orfanato, roupas novas e limpas substituem seu velho casaco vermelho. Durantes meses ela
esperou por seus pais, mas em nenhum obituário se via seus nomes. A esperança
da menininha diminuía.
“Será que meus pais vão voltar? Eu pensava nisso constantemente. Então os aliados vieram e dividiram a cidade em zonas. Eu fiquei no lado soviético, na casa de parentes distantes que mal me
conheciam. Cresci apática e sozinha. Anos depois descobri que haviam cemitérios
de vítimas não identificadas no lado ocidental, mas era tarde demais para investiga-lo. O
Ulbricht já havia isolado sua porção de Berlim”.
Aos treze anos, sua mãe assistia aos
trabalhadores construírem um muro improvisado no centro da cidade. O Exército
Vermelho fazia a guarda e impedia que as pessoas fugissem. Instalando
arames farpados, o muro assemelhava-se a uma terrível trincheira.
“Por isso eu parti, Gunther. Eu precisava
saber o que aconteceu com eles. Sei que você está sozinho, meu filho. Sei que
seu pai também morreu. Mas eu não podia viver sem essa resposta. Eu tinha que
saber. Como eu disse antes, esperei a vida todo por esse momento. Me perdoe,
Gunther. Dessa vez você terá de continuar sem mim. E se não nos vermos
novamente, me perdoe e adeus”.
Em 1947, os ingleses instalam dinamites na
base da torre, finalmente realizando sua demolição. Assim, a austera torre que
salvou a vida de sua mãe e de tantos outros na Batalha de Berlim chega ao fim.
Com a detonação das dinamites, a poeira se
levanta e encobre o corpo de Gunther. Mas, suspenso na quarta dimensão, a poeira passa
por ele e não lhe faz mal algum.
- Não... – lamenta-se Gunther – Eu não posso
acreditar que você se foi...!
Com o rosto em terra, o rapaz chora intensamente. A carta permanece em sua mão, agora toda amassada em seu punho. Prostrado no chão, Gunther sente apenas vontade de morrer. Então algo acontece.
Alguém aparece entre a densa poeira. Parados
em frente às ruínas da torre, o rapaz vê três pessoas olhando para ele. Gunther
imediatamente as reconhece. Era seu avô, sua avó e sua mãe.
Bem mais jovem e não mais uma idosa, sua mãe
olha para ele. Então ela sorri. De algum modo, Gunther entende que ela está
bem. Acenando, ela se despede e, dando-lhe as costas, seus avós a abraçam e eles vão
embora, sumindo em uma luz em seguida. Aliviado, suas lágrimas de tristeza se tornam lágrimas de alegria,
pois naquele momento ele sente paz.
Minutos depois, Gunther vê um campo
verdejante e crianças brincando ao longe. Ele havia voltado ao presente. No
lugar da Flakturm[6]
ele vê um alegre parque zoológico. “Ainda bem”, pensa ele. “Está melhor assim”.
De repente, alguém toca seu ombro e ele se
assusta.
- Gunther? Você está bem?
Olhando para trás, o rapaz vê Anneliese. Ele enxuga os olhos e se levanta.
- Sim, meu anjo. Eu estou sim.
O rapaz sabe que, com a garota por perto, ele
sempre estará bem.
Em sua mão ainda havia um pedaço de papel.
Felizmente a carta se manteve no espaço-tempo.
- O que é isso? – pergunta ela.
- É a carta de minha mãe.
- É mesmo? – interessa-se ela – E você a encontrou?
- Não. – responde ele – Ela morreu há algum
tempo.
A garota se consterna.
- Oh, Gunther...! Eu lamento muito!
O rapaz, porém, a interrompe, dizendo:
- Não, por favor não fique. Para a minha
família, por muitos anos esse foi um local de morte. Dessa vez, ele será um
local de vida.
Intrigada, Anneliese pergunta:
- O que quer dizer?
Pegando suas mãos, ele responde:
- Você verá.
E então o rapaz a abraça e a leva dali.

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