Gunther se encontra novamente na enigmática quarta
dimensão. Diferente do belíssimo céu azul de nuvens brancas, ele se depara com
o escuro corredor de televisores nas paredes. Olhando para frente e para trás,
ele não enxerga a saída, apenas a extensão infindável de aparelhos. Ele sabe o
que eles significam, as infinitas possibilidades de escolha da sua vida. Então ele
decide caminhar por ali.
Algo estranho acontece. A cada passo, as
imagens nos televisores se apagam. Observando melhor, Gunther vê que, em cada imagem,
uma potente explosão de bomba consome toda Berlim, varrendo o que sobrou com seu
sopro infernal. Lembrando-se do Checkpoint Charlie, ele sabe que foram as explosões nucleares que causaram tamanha devastação.
No meio dos televisores, um telefone toca. Ele
prontamente o atende.
- Alô?
- Agora você percebe, Gunther?
Reconhecendo a misteriosa voz, ele pergunta:
- Do que está falando?
- As consequências de sua escolha. – responde
ela – Eu te avisei que, se decidisse causar uma guerra nuclear, a potente explosão
alcançaria todas as dimensões de todas as realidades existentes.
O rapaz nota que as imagens dos outros televisores
continuam a se apagar. O telefone emudece e, ouvindo outro tocar mais à frente,
ele corre para atendê-lo.
- Agora – continua a voz – as realidades
estão se desfazendo. E não é só isso. A radiação emitida atravessou as
barreiras dimensionais, contaminando as realidades restantes como em um efeito
dominó. Veja.
As imagens continuam se apagando. Deixando o
telefone, Gunther continua caminhando por aquela imensidão.
Uma a uma as imagens se apagam. O mundo se
desintegrava ao seu redor. Em lamentação, o rapaz percebe que pode ter fracassado em seu plano e ter sido o responsável pela morte de bilhões.
De repente, da escuridão do corredor, Gunther
enxerga seu fim. Um televisor ainda estava aceso. Aproximando-se, ele se depara
com o último aparelho funcionando. Ao seu lado, um telefone toca e ele rapidamente
o atende.
- Moça! – diz ele – O que está acontecendo? Por
que apenas esse restou?
- A aniquilação nuclear consumiu as
realidades. Entretanto, resta apenas uma.
O rapaz assiste às imagens e vê uma coletiva
de imprensa do partido socialista. Ele não consegue entender a razão de estar presente
naquele evento. A voz diz:
- Resta apenas uma realidade, Gunther. A radiação
emitida percorreu todas, mas uma conseguiu se manter. Porém, como consequência,
muitos foram infectados, inclusive os dirigentes mundiais... – a voz espera um
pouco antes de continuar – Eles estão morrendo de câncer.
O rapaz se espanta.
- Câncer...?!
- Após a morte de Leonid Brezhnev, Yuri Andropov
assumiu o cargo de secretário-geral da União Soviética, mas morreu meses depois
de falência nos rins. Konstantin Chernenko o sucedeu, mas assim como seu
antecessor, ocupou brevemente o cargo. Chernenko morreu meses depois de enfisema
e parada cardíaca. Mesmo Brezhnev, vítima de ataque cardíaco, não foi poupado.
Intrigando-se, o rapaz pergunta:
- Mas esses não foram diagnósticos de câncer.
- E você acredita na imprensa soviética? –
pergunta ela, fazendo-o desconfiar dos veículos de informação do
Estado – E afetou também o Honecker.
Novamente Gunther se intriga.
- O que aconteceu com o Honecker?
- Ele foi diagnosticado com câncer no fígado.
Devido ao seu estado de saúde, ele renunciou ao cargo de secretário-geral do SED. – sorrindo, a voz pergunta – Não era isso o
que você queria? Que o Honecker deixasse o governo?
De fato, Gunther queria exatamente isso.
- O meu plano deu certo, então? – pondera ele
para si mesmo.
- Não exatamente. – adverte ela – Como eu
disse antes, apenas uma realidade resta. É essa à sua frente. Dessa vez, se você
morrer, eu não poderei te trazer de volta.
Ficando em silêncio, o rapaz se arrepia.
- Essa é sua última chance. O que quer que
pretenda fazer, tome cuidado. Apesar de combalidos, nunca subestime a violência
dos comunistas.
Olhando para o televisor, o rapaz pergunta:
- Antes de eu partir, diga-me uma coisa: quem
sucedeu o Honecker?
A voz responde:
- Egon Krenz.
O rapaz pensa, mas não consegue se lembrar
desse nome.
- E quem é esse homem?
Sem dar muita importância, a voz responde:
- Veja por si mesmo.
Um segundo depois, Gunther se torna partículas
e é teletransportado dali.
§
9 de novembro de 1989.
Os alemães do leste se reúnem em frente ao
Muro de Berlim. Parados nos pontos de controle, eles aguardam ansiosamente as decisões
do SED quanto a liberação da fronteira e a passagem para a Alemanha Ocidental. Gunther
esteve em muitas manifestações ao longo da História, mas aquela era diferente. Ali
os alemães alimentavam a esperança de rever seus entes queridos e de ver seu país
finalmente reunificado.
Repórteres e cinegrafistas registram o
evento. No lado oriental, os jornalistas defendiam o governo, mas era muito difícil
manter suas convicções políticas quando todo o leste ansiava pela
livre-passagem ao ocidente.
Falando à câmera, uma repórter diz:
- Com a abertura da Cortina de Ferro para a
Áustria e Hungria em 19 de agosto, o piquenique Pan Europeu enfraqueceu
o bloco oriental. Em declarações à imprensa, Honecker denunciou a sabotagem de
Otto von Habsburgo, acusando-o de distribuir panfletos aos trabalhadores,
convidando-os a um insidioso piquenique onde os alemães eram persuadidos a
desertar para o Ocidente.
Enquanto caminha pela multidão, anoitece em
Berlim. Apesar do frio, ninguém tinha a intenção de voltar para as suas casas. Os
berlinenses estavam decididos a forçar uma decisão política contundente aquela
noite.
Um jovem, de nome Kurt, fala ao seu amigo:
- Duas semanas atrás o Honecker renunciou ao
cargo devido a problemas de saúde. Uma saída conveniente, já que foi ele quem
provocou toda essa bagunça.
- Foi melhor assim. Pelo menos agora o Krenz,
seu sucessor, pode realizar as mudanças das quais a Alemanha tanto precisa.
Rindo, o jovem responde:
- Egon Krenz é igual ao Honecker, Joseph. Em entrevista, os dirigentes do SED concordaram em esperar por uma “solução biológica”.
Que solução é essa? Esperar o paciente morrer para que ele milagrosamente volte
à vida?
Assentindo, o tal Joseph responde:
- Realmente, a situação política e econômica está
muito grave. Mas lembre-se que foi o Krenz que, no dia 1º de novembro, reabriu
a fronteira com a Checoslováquia. Assim, muitos alemães puderam partir.
- Fez por pressão. – diz Kurt, incisivamente –
Primeiro ele a fechou para prevenir que os alemães do leste fugissem, mas então voltou
atrás para apaziguar as revoltas. Foi um fiasco, já que em 4 de novembro as manifestações
em Alexanderplatz começaram. Ninguém gosta desse capacho do Erich Honecker. Mal
ele assumiu o cargo e toda a Alemanha já o odeia.
Então Joseph ri.
- Espero que o SED decida pela liberação da
fronteira hoje à noite.
- Você tem muita esperança. Depois do que
aconteceu aqui em 1953, não duvido que a coletiva de imprensa seja um teatro e
que haja mais um banho de sangue.
Com licença, senhores. – interrompe Gunther –
Onde é que está havendo essa coletiva de imprensa?
Joseph o responde. Kurt, então, o pergunta:
- Por quê?
Mas sem lhe responder, Gunther lhe dá as costas
e desaparece na multidão.
O rapaz vê um belo salão com paredes marrons
e cadeiras vermelhas. Haviam muitos repórteres lá dentro, com filmadoras e câmeras
fotográficas. Gunther nota que eram jornalistas tanto orientais quanto ocidentais.
Em uma mesa à frente, Gunther vê quatro políticos
da Alemanha Oriental dando entrevistas. Um deles aparentava ser o porta-voz do
governo e falava sobre a liberação das fronteiras. Havia muita tensão na conferência
e os entrevistados tentavam manter a clareza nos pronunciamentos.
O rapaz vê uma porta com acesso restrito
apenas a oficiais do partido. Esgueirando-se, ele se desvia do guarda e entra
em um corredor. Pouco antes de dar dois passos, alguém aparece e diz:
- Ei, o que você está fazendo aqui?
Um homem de cabelos grisalhos fala com ele. Gunther
nota que o homem era um burocrata do SED.
- Eu... – pensa ele – estou a serviço da coletiva
de imprensa.
Levantando a sobrancelha, o homem se intriga.
- Que serviço?
- Referente ao apoio burocrático e técnico,
senhor.
Desconfiado, o homem pergunta:
- Como se chama, meu jovem?
Sem tempo para improvisar, ele responde:
- Gunther, senhor.
- Mais um Gunther?! – surpreende-se o homem.
O rapaz sorri também, não entendendo o que ele
quis dizer. O homem continua:
- Você é Günter Pötschke, não é?
O homem referia-se ao jornalista e membro do
SED. Desconhecendo essa pessoa, o rapaz rapidamente concorda.
- Sim. Sou eu mesmo.
- Vamos, eu tenho que te dar algo.
Levando-o a uma sala, o rapaz vê vários burocratas
do partido reunidos. O homem lhe entrega uma pasta com várias folhas onde, na capa,
estava escrito “VVS b2-937/89”.
- O que é isso? – pergunta ele.
- Não há tempo para explicar. Apenas volte à
conferência e entregue essa pasta ao Schabowski.
Estimando ser esse o porta-voz, o rapaz
pergunta:
- O porta-voz se chama Schabowski?
- E outra coisa. Diga que as mudanças terão
efeito amanhã, ouviu bem? Amanhã! – reforça ele.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, o
homem o empurra para fora e fecha a porta atrás dele. Olhando para a pasta, o
rapaz a abre e vê um novo conjunto de leis. Achando aquilo tudo algo maçante e
sem importância, ele a fecha e deixa o corredor.
De volta ao salão, ele discretamente se
aproxima da mesa. Olhando para o porta-voz, ele lhe diz:
- Para o senhor.
Ao
vê-lo, Schabowski arregala os olhos e se empalidece.
- Há algo errado, Günter? – pergunta um dos dirigentes.
O rapaz se confunde, pensando que estavam
falando com ele. Coincidentemente, o porta-voz tinha o mesmo nome que o seu.
- Não... – responde o porta-voz – Não é
nada...
Abrindo a pasta, ele cuidadosamente lê os
documentos.
- Meu Deus...! – se estarrece ele – E quando
essas medidas terão efeito?
Olhando-o nos olhos, o rapaz responde:
- Imediatamente. Sem demora.
Então Gunther se afasta discretamente.
Minutos se passam e os repórteres aguardam ansiosamente
Schabowski terminar de ler. Suor escorre de seu rosto e suas mãos tremem, mas ninguém
ousa interrompe-lo.
Finalmente ele se pronuncia.
- Para resolver o problema imigratório, o
Politburo, liderado por Egon Krenz, decidiu permitir aos refugiados de saírem
diretamente através dos pontos de controle entre a Alemanha Ocidental e
Oriental, incluindo Berlim. Também estão incluídas viagens particulares de ida
e volta.
Os repórteres se intrigam.
- E quando essas mudanças terão efeito?
Após alguns segundos de hesitação, Schabowski
coça sua nuca, enxuga o suor de sua testa e respira fundo. As câmeras estavam
bem à sua frente, fazendo uma transmissão ao vivo. Procurando pelo rapaz, ele o
encontra atrás dos repórteres e daquela luz forte dos cinegrafistas. Não havia
como voltar atrás agora, ele precisava se pronunciar à imprensa.
- Até onde eu sei... – começa ele – Terão
efeito imediatamente, sem demora.
Como se movidos por um frenesi, os repórteres
lhe despejam uma enxurrada de perguntas. Schabowski olha para a conferência
procurando por Gunther, mas, não encontrando-o, percebe que ele havia partido.
Berlim está em festa. Uma multidão alegre e
barulhenta sorri, comemorando a abertura das fronteiras. O frio da noite se
acalora com risos e abraços de uns aos outros. Alguns riem e outros choram, todos
igualmente felizes pela decisão do governo.
Incapazes de conter e multidão e sem base
legal para isso, os guardas abrem os portões e os “Ossis”, gíria para os alemães
orientais, são recebidos pelos “Wessis”, os alemães do ocidente. Os Wessis lhes
dão flores e champanhe, que são muito bem aceitos pelos seus irmãos orientais.
Em meio à algazarra, os Ossis e Wessis escalam
o temido muro em frente ao Portão de Brandemburgo e comemoram lá de cima. A mídia
do mundo todo estava presente, transmitindo a noite histórica quando as duas Alemanhas
se reunificavam.
Em um bar vazio, pois todos os clientes e
inclusive o dono haviam ido ao Alexanderplatz, uma televisão exibia o telejornal.
O âncora, de nome Hanns Joachim Friedrichs, proclamava: “esse 9 de novembro é
um dia histórico. A RDA anunciou que, começando imediatamente, suas fronteiras
estão abertas para todo mundo. Os portões do Muro foram abertos”.
Havia muita comemoração e diversão. Os berlinenses
quebravam o muro com picaretas e marretas, inclusive levando seus pedaços para
casa. Outros o escalavam, fazendo malabarismo em seu topo. Nunca antes em
Berlim se via tamanha alegria quanto aquela noite.
Gunther ainda está na coletiva de imprensa. Lá
fora, uma multidão se dirige à Alexanderplatz. Enquanto os observa, alguém o
puxa pelas roupas e o leva a uma sala separada.
- Então você ainda está vivo?
Um homem falava com ele. O rapaz o reconhece,
é Schabowski.
- O que você quer?
- Você não me conhece, não é?
Até aquela noite, Gunther nunca havia visto-o antes.
- Você é Günter Schabowski, porta-voz do
governo e líder do partido em Berlim Oriental.
O porta-voz sorri.
- Não. Eu sou muito mais do que isso. Me diga
uma coisa: você vem de qual dimensão?
Nesse instante, o rapaz se espanta.
- O quê?
- Quantas realidades foram desfeitas até você
chegar aqui?
O rapaz arregala os olhos.
- Como você sabe disso?
- Pobre criança patética. Esteve tanto tempo
percorrendo as dimensões que não pôde conhecer sua atual condição. – cruzando os braços, o homem continua – Você é um experimento soviético ultra
secreto, realizado por cientistas alemães e russos, para estimar o
comportamento humano exposto às milhões de ondas eletromagnéticas geradas a
partir de satélites de espionagem. Os cientistas descobriram uma relação entre essas
ondas e as ondas cerebrais, mais fortes através do sono. Responda-me: você tem
tido insônia ultimamente?
Gunther sofria de insônia, mas acreditava ser
por causa da luz forte de holofote em sua janela.
- Insônia...?
- O experimento curava sua insônia, mas o
transportava para outras dimensões, tornando um simples sonho em uma experiência
bem real. Nesse caso, não foi bem uma cura, não é mesmo?
Schabowski ri.
Sem querer acreditar, Gunther pergunta:
- O que vocês fizeram comigo?
- Hipnose, drogas, exposição a níveis elevadíssimos
de radiação e eletromagnetismo... Nada demais. Mas a minha surpresa é ver como você
ainda está vivo. Os cientistas ficariam igualmente surpresos.
- Que cientistas? – interessa-se Gunther – Quem
são eles? Onde eles estão?
Fechando os olhos, Schabowski meneia negativamente
a cabeça.
- Nem mesmo o Honecker sabia de sua existência,
portanto não é de minha importância dizer a você.
O porta-voz referia-se a esses misteriosos cientistas. Desesperando-se, o rapaz se atira contra Schabowski, agarrando-o
pelas roupas.
- Me diga onde eles estão!
Desvencilhando-se, o porta-voz diz:
- Você destruiu a RDA, minha carreira
política e todo o socialismo na Europa. Entre nós dois, eu perdi muito mais do que você. Viva sem sua resposta. Eu viverei com a lembrança da vida que você tirou de mim.
Schabowski lhe dá as costas, mas antes de partir
ele diz:
- Outra coisa. Aproveite a festa. Hoje Berlim comemora graças a você.
Piscando o olho, ele se vira e então vai
embora.
Gunther fica parado ali, em silêncio enquanto o céu de Berlim se ilumina com coloridos fogos de artifício.

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