sábado, 3 de julho de 2021

Tiergarten - 32 - A Queda do Muro de Berlim

 


Gunther se encontra novamente na enigmática quarta dimensão. Diferente do belíssimo céu azul de nuvens brancas, ele se depara com o escuro corredor de televisores nas paredes. Olhando para frente e para trás, ele não enxerga a saída, apenas a extensão infindável de aparelhos. Ele sabe o que eles significam, as infinitas possibilidades de escolha da sua vida. Então ele decide caminhar por ali.

Algo estranho acontece. A cada passo, as imagens nos televisores se apagam. Observando melhor, Gunther vê que, em cada imagem, uma potente explosão de bomba consome toda Berlim, varrendo o que sobrou com seu sopro infernal. Lembrando-se do Checkpoint Charlie, ele sabe que foram as explosões nucleares que causaram tamanha devastação.

No meio dos televisores, um telefone toca. Ele prontamente o atende.

- Alô?

- Agora você percebe, Gunther?

Reconhecendo a misteriosa voz, ele pergunta:

- Do que está falando?

- As consequências de sua escolha. – responde ela – Eu te avisei que, se decidisse causar uma guerra nuclear, a potente explosão alcançaria todas as dimensões de todas as realidades existentes.

O rapaz nota que as imagens dos outros televisores continuam a se apagar. O telefone emudece e, ouvindo outro tocar mais à frente, ele corre para atendê-lo.

- Agora – continua a voz – as realidades estão se desfazendo. E não é só isso. A radiação emitida atravessou as barreiras dimensionais, contaminando as realidades restantes como em um efeito dominó. Veja.

As imagens continuam se apagando. Deixando o telefone, Gunther continua caminhando por aquela imensidão.

Uma a uma as imagens se apagam. O mundo se desintegrava ao seu redor. Em lamentação, o rapaz percebe que pode ter fracassado em seu plano e ter sido o responsável pela morte de bilhões.

De repente, da escuridão do corredor, Gunther enxerga seu fim. Um televisor ainda estava aceso. Aproximando-se, ele se depara com o último aparelho funcionando. Ao seu lado, um telefone toca e ele rapidamente o atende.

- Moça! – diz ele – O que está acontecendo? Por que apenas esse restou?

- A aniquilação nuclear consumiu as realidades. Entretanto, resta apenas uma.

O rapaz assiste às imagens e vê uma coletiva de imprensa do partido socialista. Ele não consegue entender a razão de estar presente naquele evento. A voz diz:

- Resta apenas uma realidade, Gunther. A radiação emitida percorreu todas, mas uma conseguiu se manter. Porém, como consequência, muitos foram infectados, inclusive os dirigentes mundiais... – a voz espera um pouco antes de continuar – Eles estão morrendo de câncer.       

O rapaz se espanta.

- Câncer...?!

- Após a morte de Leonid Brezhnev, Yuri Andropov assumiu o cargo de secretário-geral da União Soviética, mas morreu meses depois de falência nos rins. Konstantin Chernenko o sucedeu, mas assim como seu antecessor, ocupou brevemente o cargo. Chernenko morreu meses depois de enfisema e parada cardíaca. Mesmo Brezhnev, vítima de ataque cardíaco, não foi poupado.

Intrigando-se, o rapaz pergunta:

- Mas esses não foram diagnósticos de câncer.

- E você acredita na imprensa soviética? – pergunta ela, fazendo-o desconfiar dos veículos de informação do Estado – E afetou também o Honecker.

Novamente Gunther se intriga.

- O que aconteceu com o Honecker?

- Ele foi diagnosticado com câncer no fígado. Devido ao seu estado de saúde, ele renunciou ao cargo de secretário-geral do SED.  – sorrindo, a voz pergunta – Não era isso o que você queria? Que o Honecker deixasse o governo?

De fato, Gunther queria exatamente isso.

- O meu plano deu certo, então? – pondera ele para si mesmo.

- Não exatamente. – adverte ela – Como eu disse antes, apenas uma realidade resta. É essa à sua frente. Dessa vez, se você morrer, eu não poderei te trazer de volta.

Ficando em silêncio, o rapaz se arrepia.

- Essa é sua última chance. O que quer que pretenda fazer, tome cuidado. Apesar de combalidos, nunca subestime a violência dos comunistas.

Olhando para o televisor, o rapaz pergunta:

- Antes de eu partir, diga-me uma coisa: quem sucedeu o Honecker?

A voz responde:

- Egon Krenz.

O rapaz pensa, mas não consegue se lembrar desse nome.

- E quem é esse homem?

Sem dar muita importância, a voz responde:

- Veja por si mesmo.

Um segundo depois, Gunther se torna partículas e é teletransportado dali.

 

§

 

9 de novembro de 1989.

Os alemães do leste se reúnem em frente ao Muro de Berlim. Parados nos pontos de controle, eles aguardam ansiosamente as decisões do SED quanto a liberação da fronteira e a passagem para a Alemanha Ocidental. Gunther esteve em muitas manifestações ao longo da História, mas aquela era diferente. Ali os alemães alimentavam a esperança de rever seus entes queridos e de ver seu país finalmente reunificado.

Repórteres e cinegrafistas registram o evento. No lado oriental, os jornalistas defendiam o governo, mas era muito difícil manter suas convicções políticas quando todo o leste ansiava pela livre-passagem ao ocidente.

Falando à câmera, uma repórter diz:

- Com a abertura da Cortina de Ferro para a Áustria e Hungria em 19 de agosto, o piquenique Pan Europeu enfraqueceu o bloco oriental. Em declarações à imprensa, Honecker denunciou a sabotagem de Otto von Habsburgo, acusando-o de distribuir panfletos aos trabalhadores, convidando-os a um insidioso piquenique onde os alemães eram persuadidos a desertar para o Ocidente.  

Enquanto caminha pela multidão, anoitece em Berlim. Apesar do frio, ninguém tinha a intenção de voltar para as suas casas. Os berlinenses estavam decididos a forçar uma decisão política contundente aquela noite.

Um jovem, de nome Kurt, fala ao seu amigo:

- Duas semanas atrás o Honecker renunciou ao cargo devido a problemas de saúde. Uma saída conveniente, já que foi ele quem provocou toda essa bagunça.

- Foi melhor assim. Pelo menos agora o Krenz, seu sucessor, pode realizar as mudanças das quais a Alemanha tanto precisa.

Rindo, o jovem responde:

- Egon Krenz é igual ao Honecker, Joseph. Em entrevista, os dirigentes do SED concordaram em esperar por uma “solução biológica”. Que solução é essa? Esperar o paciente morrer para que ele milagrosamente volte à vida?

Assentindo, o tal Joseph responde:

- Realmente, a situação política e econômica está muito grave. Mas lembre-se que foi o Krenz que, no dia 1º de novembro, reabriu a fronteira com a Checoslováquia. Assim, muitos alemães puderam partir.  

- Fez por pressão. – diz Kurt, incisivamente – Primeiro ele a fechou para prevenir que os alemães do leste fugissem, mas então voltou atrás para apaziguar as revoltas. Foi um fiasco, já que em 4 de novembro as manifestações em Alexanderplatz começaram. Ninguém gosta desse capacho do Erich Honecker. Mal ele assumiu o cargo e toda a Alemanha já o odeia.

Então Joseph ri.

- Espero que o SED decida pela liberação da fronteira hoje à noite.

- Você tem muita esperança. Depois do que aconteceu aqui em 1953, não duvido que a coletiva de imprensa seja um teatro e que haja mais um banho de sangue.

Com licença, senhores. – interrompe Gunther – Onde é que está havendo essa coletiva de imprensa?

Joseph o responde. Kurt, então, o pergunta:

- Por quê?

Mas sem lhe responder, Gunther lhe dá as costas e desaparece na multidão.

O rapaz vê um belo salão com paredes marrons e cadeiras vermelhas. Haviam muitos repórteres lá dentro, com filmadoras e câmeras fotográficas. Gunther nota que eram jornalistas tanto orientais quanto ocidentais.

Em uma mesa à frente, Gunther vê quatro políticos da Alemanha Oriental dando entrevistas. Um deles aparentava ser o porta-voz do governo e falava sobre a liberação das fronteiras. Havia muita tensão na conferência e os entrevistados tentavam manter a clareza nos pronunciamentos.

O rapaz vê uma porta com acesso restrito apenas a oficiais do partido. Esgueirando-se, ele se desvia do guarda e entra em um corredor. Pouco antes de dar dois passos, alguém aparece e diz:

- Ei, o que você está fazendo aqui?

Um homem de cabelos grisalhos fala com ele. Gunther nota que o homem era um burocrata do SED.

- Eu... – pensa ele – estou a serviço da coletiva de imprensa.

Levantando a sobrancelha, o homem se intriga.

- Que serviço?

- Referente ao apoio burocrático e técnico, senhor.

Desconfiado, o homem pergunta:

- Como se chama, meu jovem?

Sem tempo para improvisar, ele responde:

- Gunther, senhor.

- Mais um Gunther?! – surpreende-se o homem.

O rapaz sorri também, não entendendo o que ele quis dizer. O homem continua:

- Você é Günter Pötschke, não é?

O homem referia-se ao jornalista e membro do SED. Desconhecendo essa pessoa, o rapaz rapidamente concorda.

- Sim. Sou eu mesmo.

- Vamos, eu tenho que te dar algo.

Levando-o a uma sala, o rapaz vê vários burocratas do partido reunidos. O homem lhe entrega uma pasta com várias folhas onde, na capa, estava escrito “VVS b2-937/89”.

- O que é isso? – pergunta ele.

- Não há tempo para explicar. Apenas volte à conferência e entregue essa pasta ao Schabowski.

Estimando ser esse o porta-voz, o rapaz pergunta:

- O porta-voz se chama Schabowski?

- E outra coisa. Diga que as mudanças terão efeito amanhã, ouviu bem? Amanhã! – reforça ele.

Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, o homem o empurra para fora e fecha a porta atrás dele. Olhando para a pasta, o rapaz a abre e vê um novo conjunto de leis. Achando aquilo tudo algo maçante e sem importância, ele a fecha e deixa o corredor.

De volta ao salão, ele discretamente se aproxima da mesa.  Olhando para o porta-voz, ele lhe diz:

- Para o senhor.

 Ao vê-lo, Schabowski arregala os olhos e se empalidece.

- Há algo errado, Günter? – pergunta um dos dirigentes.

O rapaz se confunde, pensando que estavam falando com ele. Coincidentemente, o porta-voz tinha o mesmo nome que o seu.

- Não... – responde o porta-voz – Não é nada...

Abrindo a pasta, ele cuidadosamente lê os documentos.

- Meu Deus...! – se estarrece ele – E quando essas medidas terão efeito?

Olhando-o nos olhos, o rapaz responde:

- Imediatamente. Sem demora.

Então Gunther se afasta discretamente.

Minutos se passam e os repórteres aguardam ansiosamente Schabowski terminar de ler. Suor escorre de seu rosto e suas mãos tremem, mas ninguém ousa interrompe-lo.

Finalmente ele se pronuncia.

- Para resolver o problema imigratório, o Politburo, liderado por Egon Krenz, decidiu permitir aos refugiados de saírem diretamente através dos pontos de controle entre a Alemanha Ocidental e Oriental, incluindo Berlim. Também estão incluídas viagens particulares de ida e volta.

Os repórteres se intrigam.

- E quando essas mudanças terão efeito?

Após alguns segundos de hesitação, Schabowski coça sua nuca, enxuga o suor de sua testa e respira fundo. As câmeras estavam bem à sua frente, fazendo uma transmissão ao vivo. Procurando pelo rapaz, ele o encontra atrás dos repórteres e daquela luz forte dos cinegrafistas. Não havia como voltar atrás agora, ele precisava se pronunciar à imprensa.

- Até onde eu sei... – começa ele – Terão efeito imediatamente, sem demora.  

Como se movidos por um frenesi, os repórteres lhe despejam uma enxurrada de perguntas. Schabowski olha para a conferência procurando por Gunther, mas, não encontrando-o, percebe que ele havia partido. 

Berlim está em festa. Uma multidão alegre e barulhenta sorri, comemorando a abertura das fronteiras. O frio da noite se acalora com risos e abraços de uns aos outros. Alguns riem e outros choram, todos igualmente felizes pela decisão do governo.

Incapazes de conter e multidão e sem base legal para isso, os guardas abrem os portões e os “Ossis”, gíria para os alemães orientais, são recebidos pelos “Wessis”, os alemães do ocidente. Os Wessis lhes dão flores e champanhe, que são muito bem aceitos pelos seus irmãos orientais.

Em meio à algazarra, os Ossis e Wessis escalam o temido muro em frente ao Portão de Brandemburgo e comemoram lá de cima. A mídia do mundo todo estava presente, transmitindo a noite histórica quando as duas Alemanhas se reunificavam.

Em um bar vazio, pois todos os clientes e inclusive o dono haviam ido ao Alexanderplatz, uma televisão exibia o telejornal. O âncora, de nome Hanns Joachim Friedrichs, proclamava: “esse 9 de novembro é um dia histórico. A RDA anunciou que, começando imediatamente, suas fronteiras estão abertas para todo mundo. Os portões do Muro foram abertos”.  

Havia muita comemoração e diversão. Os berlinenses quebravam o muro com picaretas e marretas, inclusive levando seus pedaços para casa. Outros o escalavam, fazendo malabarismo em seu topo. Nunca antes em Berlim se via tamanha alegria quanto aquela noite.

Gunther ainda está na coletiva de imprensa. Lá fora, uma multidão se dirige à Alexanderplatz. Enquanto os observa, alguém o puxa pelas roupas e o leva a uma sala separada.

- Então você ainda está vivo?

Um homem falava com ele. O rapaz o reconhece, é Schabowski.

- O que você quer?

- Você não me conhece, não é?

Até aquela noite, Gunther nunca havia visto-o antes.

- Você é Günter Schabowski, porta-voz do governo e líder do partido em Berlim Oriental.

O porta-voz sorri.

- Não. Eu sou muito mais do que isso. Me diga uma coisa: você vem de qual dimensão?   

Nesse instante, o rapaz se espanta.

- O quê?

- Quantas realidades foram desfeitas até você chegar aqui?

O rapaz arregala os olhos.

- Como você sabe disso?

- Pobre criança patética. Esteve tanto tempo percorrendo as dimensões que não pôde conhecer sua atual condição. – cruzando os braços, o homem continua – Você é um experimento soviético ultra secreto, realizado por cientistas alemães e russos, para estimar o comportamento humano exposto às milhões de ondas eletromagnéticas geradas a partir de satélites de espionagem. Os cientistas descobriram uma relação entre essas ondas e as ondas cerebrais, mais fortes através do sono. Responda-me: você tem tido insônia ultimamente?

Gunther sofria de insônia, mas acreditava ser por causa da luz forte de holofote em sua janela.

- Insônia...?

- O experimento curava sua insônia, mas o transportava para outras dimensões, tornando um simples sonho em uma experiência bem real. Nesse caso, não foi bem uma cura, não é mesmo?

Schabowski ri.

Sem querer acreditar, Gunther pergunta:

- O que vocês fizeram comigo?

- Hipnose, drogas, exposição a níveis elevadíssimos de radiação e eletromagnetismo... Nada demais. Mas a minha surpresa é ver como você ainda está vivo. Os cientistas ficariam igualmente surpresos.

- Que cientistas? – interessa-se Gunther – Quem são eles? Onde eles estão?

Fechando os olhos, Schabowski meneia negativamente a cabeça.

- Nem mesmo o Honecker sabia de sua existência, portanto não é de minha importância dizer a você.

O porta-voz referia-se a esses misteriosos cientistas. Desesperando-se, o rapaz se atira contra Schabowski, agarrando-o pelas roupas.

- Me diga onde eles estão!

Desvencilhando-se, o porta-voz diz:

- Você destruiu a RDA, minha carreira política e todo o socialismo na Europa. Entre nós dois, eu perdi muito mais do que você. Viva sem sua resposta. Eu viverei com a lembrança da vida que você tirou de mim.     

Schabowski lhe dá as costas, mas antes de partir ele diz:

- Outra coisa. Aproveite a festa. Hoje Berlim comemora graças a você.

Piscando o olho, ele se vira e então vai embora.

Gunther fica parado ali, em silêncio enquanto o céu de Berlim se ilumina com coloridos fogos de artifício.

 

 

 

 

 

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