sábado, 19 de junho de 2021

Tiergarten - 31 - Checkpoint Charlie

 



Gunther se veste com roupas novas e limpas. Na cozinha, ele come pão e toma café como se fosse a última vez. Ele nota algo incomum na sala. Misteriosamente havia um cigarro sobre a mesa. Olhando ao redor, ele sabe que estão observando-o e ouvindo-o, pois havia escutas da Stasi por toda parte. Tateando nas paredes, ele não encontra nada e, ao espiar pela persiana, ele não vê ninguém. “Não importa”, pensa ele.

Ao terminar de comer, ele pega o cigarro e o acende. Em pequenos tragos, ele o fuma tranquilamente. Então o telefone toca.

- Alô?

- Gunther, é isso mesmo o que você quer? – pergunta voz.

Apalpando suas dolorosas feridas, ele responde:

- Sim.

- Gunther, se isso ocorrer, todas as dimensões contidas em todas as realidades poderão se dizimar.

O rapaz meneia negativamente a cabeça.

- O Honecker está decidido a negar nossa libertação. E eu estou decidido a pará-lo.

A voz pondera antes de falar.

- Eu sei que, com o que está prestes a fazer, isso não fará diferença, mas você não deveria fumar, Gunther. Isso te faz mal.

O rapaz ri. Fumando uma última vez, ele apaga o cigarro e diz:

- Eu estou pronto para ir, agora.

Respirando fundo, a voz simplesmente responde:

- Está bem.

 

§

 

As tensões estão elevadas em Berlim. Tanques americanos e soviéticos se encaram na famosa fronteira do Checkpoint Charlie. A data é 27 de outubro de 1961 e, naquela agradável tarde de outono, o mundo prende a respiração com a iminência de uma guerra nuclear.

Em uma esquina, longe da vista de todos, Gunther aparece no local. Apesar de estar décadas no passado, ele reconhece o lugar. Ali era o bairro de Friedrichstadt em Berlim Ocidental. Aproximando-se discretamente, ele vê os poderosos tanques M48 Patton ao lado de uma pequena guarita de madeira. “Então é esse?”, pergunta-se. “Então é esse o famoso Checkpoint Charlie?”.   

Ao contrário dos soviéticos, os americanos nunca construíram uma estrutura permanente na fronteira berlinense, pois nunca a consideraram uma fronteira internacional. O que Gunther vê é uma simples casinha de madeira tão patética que poderia ser derrubada com um sopro. “Um sopro de lobo-mau”, pensa ele. “E esse lobo chamava-se União Soviética”.

Adiante, além da fronteira, o rapaz vê o primeiro Muro de Berlim. Diferente daquele em seu tempo, com dois muros e uma extensa “faixa da morte”, em 1961 os comunistas haviam construído apenas uma contenção rudimentar, facilmente transponível por cidadãos mais ousados. Entretanto, como o próprio Honecker disse, os soldados tinham permissão de atirar para matar quem tentasse.

Um policial se aproxima e, abordando-o, diz:

- Ei, você! Essa é uma área restrita! Afaste-se!

Entrando em um restaurante interditado, o rapaz refugia-se com outros transeuntes pegos coincidentemente no local. Lá dentro, as pessoas assistem a uma arcaica televisão de imagens em preto e branco, exibindo uma reportagem sobre a construção do Muro de Berlim.

“Nós procuramos a paz, mas nós não nos renderemos!”, diz o presidente americano John F. Kennedy. Essa foi sua resposta ao ultimato dado em junho de 1961 pelos soviéticos, quando esses exigiram que as potências ocidentais deixassem Berlim Ocidental. Khrushchev intentava assinar um tratado de paz separado com a Alemanha Oriental, assim retirando as tropas americanas, britânicas e francesas de seu território. Para Gunther, aquilo foi só mais uma manobra política para expulsar as potências ocidentais do território controlado pelos russos.

Em seguida, a reportagem exibe o primeiro-secretário Walter Ulbricht dando entrevista na conferência internacional de imprensa em 15 de junho de 1961. Ao ser questionado pelo suposto plano de construir um muro fronteiriço, ele taxativamente responde: “ninguém tem a intenção de erigir um muro!”. Infelizmente para a Alemanha, ele estava mentindo.

Sem nenhum acordo entre os americanos e soviéticos, as tensões continuaram. Em 22 de outubro do mesmo ano, o chefe de missão Allan Lightner foi parado em seu carro enquanto atravessava o Checkpoint Charlie. Apesar do documento assinado pelos aliados, garantindo o livre trânsito de oficiais pelos setores, os soviéticos o violaram, alegando não reconhecer os papeis de identificação de Lightner.

No dia 25 de outubro, o General Watson, responsável pelas tropas americanas em Berlim, comunicou ao Departamento de Estado que o Coronel Solovyev não colaborava em evitar distúrbios durante as negociações de paz. Porém, Solovyev acusou os americanos de infiltrar soldados no lado soviético e de manter tanques na fronteira, violando as regulamentações da RDA.

Dessa vez, a manobra partia dos americanos, pois para Gunther eles provocavam os soviéticos para saber sua determinação em manter o muro. Infelizmente para o Ocidente, os russos estavam firmemente dispostos a mantê-lo.  

Com o impasse diplomático, dois dias depois os tanques americanos e soviéticos se encarariam, apontando seus canhões carregados de munição real uns aos outros.

“É essa a chance que eu devo agarrar”, pensa ele.

Subindo ao terraço de um prédio, o rapaz espera até o amanhecer para agir. A noite foi tensa e agitada, as superpotências estavam perigosamente se preparando para o confronto.

Finalmente amanhece. Ao longe, Gunther nota uma arma longa e esquisita. Os americanos montavam algo que se parecia com um morteiro, mas era muito maior. Em sua ponta havia um robusto projétil, arredondado e de cor preta, semelhante a uma melancia. “O que é isso?”, pergunta-se ele.

Sabendo como tudo aquilo acaba, Gunther se apressa. Não havia tempo a perder. Esgueirando-se pelos veículos militares, ele se aproxima da escotilha aberta de um tanque. O operador estava do lado de fora e, enquanto fumava, reclamava que passou a noite toda dentro daquela "apertada lata de sardinha”. Apesar da dificuldade, o rapaz se alegra por conseguir entender o inglês. Mas, em instantes, aquilo não terá mais importância.

Subindo pelo veículo, ele o adentra e então fecha a escotilha acima. Outro operador estava lá dentro e, ocupado falando ao comunicador, não percebe a presença do estranho. Batendo em sua cabeça com um extintor, o rapaz dá partida e logo todo o veículo se vibra.

- Hey, what´s going on in there?![1] – pergunta alguém lá fora.

Gunther não faz ideia de como operar um tanque, mas crê que não era algo tão complexo que um soldado raso não pudesse fazer. As instruções estão em inglês, mas ele consegue entender. Girando as alavancas, o veículo se movimenta.

Alguém estapeia a lataria no lado de fora. O rapaz ouve passos no teto e o som da escotilha sendo puxada. Ele precisava se apressar.

- Há um intruso no tanque! – alerta alguém.

Mirando a torreta à um tanque soviético, ele põe o polegar sobre um botão na alavanca e, respirando fundo, o aperta. O estalo é tão alto que sopra vento para todos os lados, atordoando-o.

Boquiabertos, o coração dos americanos parece parar. No outro lado da fronteira, um tanque russo se explode pelos ares, ardendo em chamas em seguida. Eles sabem o que aquilo significa. Os alemães, russos e todo o resto do mundo também. Agora não havia mais volta.

- Oh, meu Deus...! – sussurra alguém.

Aproveitando o momento de hesitação, Gunther abre a escotilha e foge rapidamente dali. Um segundo depois, flashes de projéteis ultra velozes cruzam o ar e fulminam os tanques americanos, criando um espetáculo de explosões.

Uma sirene é ouvida. Os tanques avançam e tiros de metralhadora são disparados no lado oriental. Com toda sua fúria, os russos revidavam. Gunther assiste a cabana do Checkpoint Charlie, uma edificação frágil e patética mantida ali como uma afronta aos seus inimigos, ser pulverizada pelos poderosos T-55 soviéticos.

Os americanos tentavam contra-atacar, mas o ímpeto russo era feroz e muito bem coordenado. Todos esperavam um ataque surpresa, mas ninguém acreditava que, de fato, ele ocorresse.

Enquanto se afasta, o rapaz se aproxima daquele estranho morteiro visto anteriormente. Com semblantes desesperados, cinco soldados o operavam. Porém, um a um é abatido pelas metralhadoras russas no outro lado da divisa. Agachando-se, o rapaz ouve as balas estalarem os vidros e as paredes ao redor de si.

Agora sozinho, Gunther pode ver aquele equipamento melhor. Ele estava diante de um sistema de armamento M-29, equipado com uma bomba nuclear tática com a potência de 20 toneladas de TNT. Naquela estranha bomba em formato de melancia, ele lê “W54” e “plutônio 239”.

- Armas nucleares! – empolga-se ele.

Lembrando-se de Einstein, ele agora entende o que o físico quis dizer. A ciência fazia mais mal do que bem. O uso de armas nucleares estava nos planos de Gunther, pois ele intentava provocar uma guerra que destruísse o socialismo na Alemanha. Não havia diplomacia que depusesse o SED e, com Honecker no comando, seu país pararia no tempo, caindo na eterna miséria como a Coreia do Norte ou Cuba.

Mas aquele armamento estava ali, bem à sua frente. Ele não precisava esperar uma reação soviética ou americana. Ele mesmo poderia dar o pontapé inicial desse ataque.

Aproximando-se do M-29, Gunther vislumbra um dos menores equipamentos para a utilização de armas nucleares já criados. Os soldados estavam mortos, mas conseguiram carregar a bomba a tempo. Rapidamente o rapaz procura pelo detonador, pois o confronto na fronteira pulverizava os edifícios e os fragmentos caíam sobre ele.

Havia um detonador com um cordão. O rapaz o pega e se afasta o máximo que pode até esticar o fio. Com a bomba mirada na direção do leste, o rapaz aperta o botão e finalmente a dispara.

A bomba voa rapidamente por sobre os prédios, indo pelos ares até desaparecer na paisagem. Passados alguns segundos, o rapaz pensa que a bomba falhou. Porém, algo acontece.

Um clarão forte como um relâmpago ofusca os berlinenses. De repente, um som aterrador reverbera pela cidade e um vento quente varre as ruas vazias, assustando-o. O som da sirene é abafado pelo ruído das vidraças se estourando e dos prédios se pulverizando. Ao longe ele vê uma fumaça branca e densa se elevar pelos ares, formando uma horrenda nuvem de cogumelo.

Gunther foge. Correndo pelas ruas, os americanos estão alvoroçados e confusos. Todos se perguntam quem fez aqueles disparos, começando toda aquela balbúrdia. Como em 1945, os alemães se escondem em porões e locais públicos. Um aparelho de rádio emite uma mensagem de alerta aos berlinenses. Um general americano, de nome Alvin Cowan, faz a seguinte declaração: “o que eu temia se concretizou. O M-29 é uma arma de pelotão e eu temia que algum sargento começasse uma guerra nuclear. Infelizmente para todos, ele começou”.

Incógnito entre aquelas pessoas, ninguém sabe que foi ele quem começou a guerra. Dois homens conversam perto dele.

- Os russos vão retalhar. Quanto tempo demora para um míssil balístico chegar aqui?

- Trinta minutos se for da Rússia até os Estados Unidos.

- Trinta minutos?! – espanta-se ele – Então aqui poderá chegar a qualquer momento...

- Sim. – lamenta-se o outro – Pode mesmo.

- Você crê que esse confronto ainda possa ser resolvido diplomaticamente?

Rindo em desprezo, o homem responde:

- Com esse ataque atômico? Certamente não.

De repente eles ouvem o som de assovios vindos do céu. Pensando serem bombardeiros russos sobrevoando-os, eles olham para cima, confusos. Mas não eram bombardeiros, era muito mais do que isso.

Objetos negros e cônicos rasgam o céu. Detonando-se de repente, um clarão mais brilhante e mais poderoso toma as nuvens, liberando a inexorável explosão. Em seguida, toda a paisagem berlinense é devastada como se fosse feita de isopor.

A onda de calor varre o ambiente, lançando Gunther pelo ar como se ele fosse uma folha de papel dentro de um forno. Mas enquanto ele se queima, ele sorri.

Berlim arde em chamas. Os prédios são pulverizados e outros se desabam com o fogo. Bombas nucleares devastam a cidade, formando diabólicas nuvens de cogumelo em toda parte. De repente a antiga capital do Segundo e Terceiro Reich, fundada pelos margraves de Brandemburgo durante o Sacro Império Romano Germânico, desaparece nas chamas da explosão.

Mais uma explosão estremece o ambiente, elevando suas chamas até as aberturas do próprio Céu. As nuvens se afastam e uma nova atmosfera avermelhada se forma, como se os próprios anjos fossem atingidos pela explosão e seu sangue angelical pintasse as nuvens enquanto eles caíam das elevadas alturas, incapazes de fugirem da chama infernal que os esperava lá embaixo.

Correndo em meio às cinzas e escombros radioativos como se eles estivessem em um campo de girassóis, Gunther e Anneliese se encontram e se abraçam. Em seu longo e aconchegante abraço, os dois se beijam, emocionados por estarem finalmente juntos.

Segurando sua mão, o rapaz a convida para dançar. A garota aceita e, sorrindo, dançam valsa entre aquela ruína tóxica. Os dois se abraçam, sapateiam e rodopiam, totalmente alheios à chuva de anjos carbonizados no Céu.

O amanhecer do dia 28 de outubro de 1961 se tornou vermelho de sangue e morte, recheado de veneno radioativo e enfeitado de anjos caídos. Com a eclosão nuclear, o próprio Céu se virara de cabeça para baixo, temperando de anjos o novo inferno na Terra.

Enquanto a abraça, o rapaz percebe que Anneliese fica mais leve em seus braços. Afastando-a por um instante, Gunther olha para seu rosto e vê uma terrível caveira carbonizada e sem olhos. O corpo inteiro dela havia se tornado um esqueleto, totalmente queimado pelo fogo. Então, sinistramente, a garota lhe faz um pedido:      

- Me beije.

Sem pensar duas vezes, o rapaz se aproxima e a beija, passando a língua nos dentes putrefatos e no maxilar desencarnado dela. E continua beijando, como se Anneliese tivesse lábios e língua. Olhando para sua mão, ele finalmente se assusta. Suas mãos, braços e tórax também eram ossos. Gunther também havia se tornado um esqueleto vivo.

Minutos depois, a fumaça negra o envolve e de repente ele é levado dali, carregando em seus braços o esqueleto de Anneliese.

 

 

 

 



[1] “Ei, o que está havendo aí dentro” em inglês

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...