domingo, 13 de junho de 2021

Tiergarten - 30 - A Vingança de Erich Honecker

 


Parado à sua frente, Honecker espera uma resposta. Ele não se move e não desvia o olhar de Gunther, o que o deixa muito desconfortável e intimidado. A tontura o confunde, mas ele se controla antes de responder.

- Eu quero a libertação do socialismo. Eu quero partir.

- Mentira. – retruca Honecker, incisivamente – Você quer fugir.

Enxugando o suor de sua testa, o rapaz argumenta:

- Eu não precisaria fugir se a Alemanha Oriental... – então ele se corrige – Se o senhor... Nos deixasse partir.

- E por que você quer partir?

- Para me reencontrar com minha mãe. Fomos separados pelo governo... – ele se corrige novamente – Pelo senhor... Que proíbe os cidadãos mais jovens de partirem antes de se aposentarem. Não posso esperar tanto tempo. Tenho medo de não vê-la de novo.

- Mentira. – retruca Honecker, novamente – Você não quer simplesmente partir, você quer destruir o socialismo atrás de você. Mas me responda uma coisa: por quê?

Ajuntando coragem, Gunther ousadamente diz:

- Por que eu odeio esse sistema que empobrece, aprisiona e oprime a nós, o povo alemão.

Sorrindo em desprezo, o secretário-geral o desmente:

- Não, você não se importa com o povo alemão. Você deseja destruir o socialismo para poder viver seu romance burguês com aquela garota. E para vive-lo, você não se importa em destruir seu país e as milhões de pessoas que dele dependem.

Constrangido, o rapaz se silencia.  

Atrás de seus grossos óculos de aros pretos, o secretário-geral ainda olha fixamente para ele. Gunther teme, pois parecia estar na presença de um psicopata. De repente, Honecker argumenta:

- Imagine que você traga um cachorro para casa e esse cachorro come de sua comida e dorme em sua cama, desfrutando de tudo o que você generosamente lhe dá. Mas então ele começa a estragar sua casa, sujando os cômodos, desprezando sua comida, rasgando os móveis e desrespeitando sua autoridade. O que fazer com esse animal indisciplinado e ingrato, o mesmo que você dedicou tanto amor e carinho e que agora ele morde a mão que o alimenta?

O rapaz não sabe o que responder. Honecker continua:

- Você é esse cachorro, senhor Gunther. Nascido e criado sob meu governo, você desfrutou da segurança e do bem-estar social que eu proporcionei. Mas agora se volta contra mim como um estrangeiro, reacionário e capitalista. Mas eu sei o que fazer com os ingratos que desejam fugir.

Nesse momento, Honecker põe a mão sob seu casaco e revela uma enorme lâmina prateada que, ao ser exposta, brilha ao luar.

- Senhor Honecker, o que está fazendo? – assusta-se Gunther.

Empunhando sua enorme faca, ele de repente a levanta e então brada:

- Vingança!       

Atacando-o, a lâmina corta o tórax de Gunther de cima a baixo, rasgando inclusive suas roupas. O rapaz grita e, apavorado, põe as mãos sobre seu ferimento. Ele se horroriza. Elas estavam cobertas de sangue.

- Meu Deus!

- Deus?! – indigna-se Honecker – Se refere ao cristianismo? Essa religião conservadora e reacionária que nunca se conformou com a ideologia e o partido?

Virando-se, o rapaz tenta fugir, mas ao dar três passos, o secretário-geral reaparece à sua frente.

- Ah! – brada ele.

O golpe atinge Gunther, cortando sua pele.

O medo libera uma explosão de adrenalina em seu corpo, retardando a embriaguez do álcool. Aos tropeços, ele se vira e corre na direção do prédio de Anneliese. Enquanto cruza o gramado, ele ouve Honecker gargalhar ao longe.

A fachada curva do famoso Schlange está à sua frente. Gunther passa pela entrada e toca a parede, manchando-a de sangue. O interior estava incomumente escuro mas, sem tempo para raciocinar, ele sobe a escadaria.

- Sim! – alegra-se Honecker – Faça o que você quer fazer. Fuja da RDA! Fuja!

O secretário-geral pomposamente referia-se a si mesmo, como a figura principal e fundamental de seu país.

Gunther sobe as escadas, passando por andares desertos e mal iluminados. As luzes piscam e a temperatura se esfria, como se o rapaz estivesse em um filme de terror. Subindo ainda mais, o prédio parecia ter mais andares do que realmente tinha. Não era um prédio alto, mas ele tem a impressão de ter passado pelo décimo oitavo andar.

“Como, se minhas pernas não estão cansadas?!”, intriga-se ele.

Chegando finalmente ao último andar, o rapaz vê a porta do alçapão no teto. Por alguma razão, havia uma escada ali e ele hesita em subi-la.

- Eu sinto o cheiro do seu medo!

Gunther arregala os olhos, o secretário-geral estava no andar de baixo. Apressando-se, ele sobe a escada e abre o alçapão. Ele vê o que parece ser a caixa d’água, mas a escuridão predominante dificulta sua visão e o intimida.

- Peguei!

Honecker segura o seu pé e o puxa para baixo. O rapaz se agarra na beirada e, livrando-se, continua subindo.

O compartimento das caixas d’água faz ruídos assustadores. Tateando as paredes e os tubos, o rapaz avança e encontra uma porta de aço ao seu lado. Abrindo-a, ele é surpreendido pelo vento frio de Berlim. Ao ar livre, ele percorre o terraço e se dirige à beirada, então  algo lhe causa espanto. O prédio era maior do que o edifício mais alto da Leninplatz.

- Impossível! – assusta-se ele.

- Uma bela noite, não? – pergunta Honecker, atrás dele.

O secretário-geral ergue sua faca e o golpeia, cortando suas costas de cima a baixo. Gunther grita e, esquivando-se, corre pelo terraço circular do Schlange.

- Por quê? – pergunta Honecker – Por que você odeia o país que eu lutei tanto para construir?

O rapaz tenta correr, mas a embriaguez, o sangramento e o frio dificultam sua fuga.

O secretário-geral novamente pergunta:

- Por que você odeia o muro que eu construí para nos proteger dos belicistas do ocidente?

Honecker falava de 1958, quando se tornou Secretário de Segurança do Partido e tomou a responsabilidade por questões militares e de segurança nacional. Em 1961, ele foi o principal responsável pela construção do Muro de Berlim. Controversamente, ele também foi a principal figura por trás da ordem de “atirar para matar” ao longo da fronteira alemã.

O rapaz o despreza. No governo de Honecker, o muro foi aprimorado e expandido. Estima-se que 125 pessoas morreram tentando atravessa-lo. Mas não apenas Berlim que foi mutilada e dividida, mas também seu país com a temida Cortina de Ferro. Todas essas mortes foram responsabilidade direta do secretário-geral, pois para ele um soldado que abatesse um fugitivo não deveria ser punido e sim condecorado por seu serviço. O sangue das vítimas está em suas mãos.

- Você não é um protetor! – retruca Gunther – Você é um assassino!

O secretário-geral ri.

- Pobre criança patética! Se ao menos você soubesse o problema econômico, social e geopolítico que o SED enfrentava... A escalada da Guerra Fria foi a responsável pela construção do Muro de Berlim. A decisão de construí-lo não partiu apenas da Alemanha Oriental, mas de todas as nações membras do Pacto de Varsóvia. Todos concordamos que uma Terceira Guerra Mundial, com milhões de mortos, seria inevitável sem essa decisão. – ele friamente conclui dizendo – Dessa maneira, eu não carrego nenhuma culpa jurídica, legal ou moral pelos meus atos.

O secretário-geral se justifica referindo-se ao contexto histórico de sua época. Em 1961, ano de sua construção, os membros do Pacto de Varsóvia foram unânimes em construi-lo.

Enquanto corre, Honecker aparece subitamente e novamente o corta em suas costas.

- Ah! – agoniza Gunther.

- Por que você odeia tanto a Revolução e o socialismo?

O secretário-geral o perguntava constantemente, como um caçador se divertindo com sua presa. Perseguindo-o, Honecker parecia se deliciar com o momento.

Ainda fugindo, o rapaz responde:

- O socialismo é uma ditadura sanguinária, exploradora e tirânica! Ele nos promete igualdade, mas nos entrega fome, miséria e morte! Apenas troca velhos tiranos por outros. Eis aí o resultado de sua Revolução.

Honecker ri novamente.

- Ora, mas isso é uma tremenda mentira! Por acaso não gostou do meu programa “socialismo de consumo”, responsável pelo aumento notável do padrão de vida do qual, na época, já era o mais alto do Bloco Oriental?      

O rapaz pondera. De fato, Honecker deu maior atenção na disponibilidade de bens de consumo aos alemães. Adicionado a isso, o programa de construção de casas populares foi acelerado, com o secretário-geral prometendo resolver o problema de habitação em seu país.

Correndo pelo terraço, seu sangue pinga pelo piso. O rapaz sua e ofega, esforçando-se. Ao longe, o secretário-geral pergunta:

- Por que você não aceita que possa haver amizade entre o socialismo e outras nações?

- Nunca haverá amizade com o socialismo! – irrita-se ele – Ele é uma ideologia subversiva que quer englobar a todos os países em um único sistema corrupto!

- Mas que injustiça com o meu governo! – indigna-se Honecker – Por acaso você não soube do Tratado Básico entre a Alemanha Oriental e Ocidental em 1972? Ou da minha visita à Alemanha Ocidental em 1987?

Considerada um grande acontecimento nos últimos anos, em 1987 Honecker foi o primeiro chefe de Estado oriental a visitar a RFA. O secretário-geral foi recebido com honrarias pelo Chanceler Helmut Kohl, em um ato que confirmava a aceitação da existência da Alemanha Oriental por parte de seus compatriotas do oeste. Pela visita, Honecker ganhou a medalha da paz das Nações Unidas e foi indicado ao prêmio Nobel da paz. Durante a viagem, Honecker viajou ao local de seu nascimento em Saarland, onde ele proferiu um tocante discurso afirmando que um dia os alemães não seriam mais separados por fronteiras, mas unificados sob um único governo comunista.   

Ainda em seu encalço, o secretário-geral pergunta:

- Por que você odeia o nosso sistema, traindo a generosidade e confiança dos nossos amigos soviéticos?

Ironicamente, Gunther ri.

- O senhor falando em traição? Um homem inescrupuloso e desleal, traidor de sua ideologia e de seu próprio mentor?!

O rapaz referia-se ao material fornecido pela Stasi. Durante o nazismo, Honecker foi preso em 1937 e ficou até 1945. O material alegava que, para sair da prisão, Honecker ofereceu à Gestapo evidências incriminatórias de seus companheiros comunistas. Além disso, ele se relacionou amorosamente com uma carcereira nazista, afirmando que deixaria o comunismo para sempre e que estava disposto a lutar na Wehrmacht de Hitler. Se comprovadas, as alegações seriam crimes de alta traição.  

- Vejo que a espionagem fez um belo trabalho de desinformação, não? – sorri ele – Essas são falsas acusações por parte da mídia ocidental. Você quer saber o que é traição? O discurso de Khrushchev contra o nosso líder e pai dos povos, Joseph Stalin.

Em 1956, houve o 20º Congresso do Partido Comunista Soviético, do qual Honecker presenciou pessoalmente o Primeiro Secretário Nikita Khrushchev denunciar os crimes de Joseph Stalin, morto em 1953.

- Mas você traiu a Ulbricht, seu mentor, aliando-se a Brezhnev na derrubada do Primeiro Secretário.  

Defendendo a “unidade das políticas socioeconômicas”, Honecker argumentava que o aumento de bens de consumo conquistariam a lealdade política do povo. Entretanto, Ulbricht rejeitou a ideia e o dispensou do cargo de Segundo Secretário. Mais tarde, os soviéticos o recolocaram no cargo e Honecker promoveu o descongelamento das relações entre a Alemanha Ocidental e Oriental, assim ganhando o apoio do Primeiro Secretário soviético, Leonid Brezhnev. Devido ao seu trabalho exemplar, em 1971 Honecker foi apontado Secretário Geral do Comitê Central do partido enquanto que,  paralelamente, a liderança soviética forçara Ulbricht a se aposentar por motivos de saúde.

- Eu não traí Ulbricht, eu salvei a Alemanha dele. Sou leal à ideologia e ao partido, não vejo traição alguma nisso. – justifica-se ele – Graças ao Mittag, ao Mielke e a mim, o Estado Socialista Alemão sobreviveu.

Em 1976, cinco anos após ele se tornar secretário-geral, Honecker foi eleito presidente do Conselho de Estado. Dessa maneira, ele alcançou o poder absoluto na Alemanha Oriental. Com o Secretário de Economia Günter Mittag e o Ministro de Segurança do Estado Erich Mielke, os três tomavam as principais decisões do país.

- Como pode falar em lealdade partidária e ideológica se o senhor traiu inclusive a Gorbatchov e aos soviéticos?

- Háh! – ri Honecker – Eu? Um traidor de Gorbatchov?

O secretário-geral gargalha. Gunther fica parado ali, não entendendo sua impulsiva reação. De repente, Honecker se teletransporta e reaparece bem à sua frente, fazendo-o tropeçar e cair com o susto.

Enquanto o rapaz está no chão, o secretário geral diz:

- Gorbatchov foi o verdadeiro traidor da ideologia e do partido! Ele pretendeu implantar reformas liberais no bloco soviético, duas aberrações de nomes Glasnost e Perestroika. Eu prontamente rejeitei essa insanidade.

Honecker referia-se às famosas reformas propostas por Mikhail Gorbatchov. Elas eram conhecidas como “transparência” na esfera política e “nova ordem econômica” na reestruturação da economia. As reformas visavam se afastar da Doutrina Brezhnev, que fortalecia o Pacto de Varsóvia e a atuação militar soviética, e promovia que as nações do bloco oriental desenvolvessem sua própria política nacional, sem qualquer intervenção estrangeira. Para muitos, isso foi visto como o começo do fim do império soviético.

- Então o senhor negou a liberdade ao povo alemão? – pergunta Gunther, desafiante.

O secretário geral sorri.

- Nós já fizemos nossa perestroika, nós não temos nada a reestruturar. Felizmente, tenho companheiros que pensam como eu, comunistas de verdade.

Após as aviltantes reformas de Gorbatchov, Honecker aliou-se a outro chefes de Estado pela manutenção do socialismo na Europa. Estes eram Todor Zhivkov da Bulgária, Gustáv Husák da Tchecoslováquia e Nicolae Ceaușescu da Romênia. Os quatro foram conhecidos como a “Gangue dos Quatro”, um grupo de comunistas linha dura indispostos a adotarem as reformas.

Então o rapaz percebe. Erich Honecker era um estadista inflexível que preferia ver a Alemanha desvanecer ao abri-la ao mundo.

Erguendo sua faca, o secretário-geral golpeia o rapaz, perfurando seu pé direito. Gunther grita e, arrastando-se, corre novamente.

Honecker ria. Perseguindo o rapaz, ele fazia perguntas e tentava entender as motivações de Gunther, mas suas respostas apenas lhe justificavam.

Gunther manca pelo terraço. Sangue escorre por seu corpo e se espalha pelo chão. Ele está zonzo e não vai aguentar muito tempo. Olhando para frente, em horror ele percebe que estava próximo da beirada. O prédio chegara ao fim.

- Como a Alemanha Oriental, não?

O rapaz olha para trás e novamente Honecker havia se teletransportado para perto dele. 

- O quê?

- Esse prédio. Suas beiradas são como as fronteiras da RDA agora, isoladas não apenas do Oeste, mas de todos os outros países do Bloco Oriental. Não há para onde fugir.

O secretário-geral ri da desgraça que ele mesmo causou ao país. Sua mão de ferro insistia em manter a RDA isolada do mundo. Ou como Gunther pensa, “dos dois mundos”.

Honecker avança contra ele. O rapaz recua e em seguida hesita, percebendo que estava à beira do edifício. Mais um passo e ele cairia lá embaixo. O vento sopra, suas roupas retalhadas balançam e o frio faz suas feridas arderem. Gunther perdeu muito sangue e não havia mais chance de sobreviver.

E talvez ele não devesse.

Afastando-se, ele dá mais um passo e se deixa cair lá embaixo. A gravidade começa a puxa-lo quando Honecker diz:

- Peguei!

Novamente surgindo à sua frente, o secretário-geral o agarra pelas roupas.

Deitando-o seguramente no terraço, o rapaz olha para ele e pergunta:

- Por quê?

Honecker responde:

- Assim como você, o socialismo está moribundo e prestes a cair. Eu sou um comunista raiz, apaixonado pela ideologia e pela causa. É meu dever não deixar isso acontecer. – apontando para seu corpo, ele continua – Suas feridas fecharão e logo se curarão. Embora enfraquecido, você se recuperará novamente. Assim será com o socialismo, do qual você tenta arduamente destruir. Você pode tentar, mas ele vai sobreviver e um dia governará novamente.

Dando-lhe as costas, Honecker se vira e vai embora. O rapaz o interrompe.

- Espere! – o secretário-geral se vira – E quanto à Alemanha Oriental? E se for inevitável a sua queda?

Parecendo ignorar essa hipótese, Honecker responde:

- A Alemanha Oriental entrará para a História como um exemplo de que o socialismo é possível e que é melhor do que o capitalismo. - ajeitando o seu chapéu, ele diz - Até mais, senhor Gunther.

Tirando os seus óculos, o secretário-geral o lança para Gunther. Indo embora em seguida, ele caminha calmamente até desaparecer na escuridão da noite.

 

 


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