quinta-feira, 8 de julho de 2021

Tiergarten - 33 - Um Futuro Incerto

 


Em frente ao Portão de Brandenburgo, os berlinenses comemoram alegremente a abertura das fronteiras. A festa é divertida e muito animada, e todos sorriem, bebem e se abraçam pela cidade.

As pessoas se aglomeram em cima do muro, simbolicamente demonstrando ao mundo todo que a liberdade venceu a opressão, e que o desejo de ser livre subjugou aquele hediondo monumento construído para dividir pessoas e vidas.

Música alta e fogos de artifício animam a cidade, Wessis e Ossis atravessam livremente o Checkpoint Charlie, mas é em frente ao Portão de Brandemburgo, o ponto turístico mais conhecido de Berlim, onde as pessoas mais festejam.

Mas nem todos estão lá para festejar.

A alegre e histórica noite é contagiante. Gunther estava livre, finalmente livre para partir. Passando pelo Checkpoint Charlie, os Wessis lhe oferecem flores e champanhe e ele gentilmente aceita. Ele se surpreende como seus compatriotas ocidentais vestiam roupas melhores e eram mais gordinhos. Porém, atrás de seu sorriso alegre se escondia uma profunda tristeza que seus compatriotas ocidentais, claramente embriagados, não podiam perceber.

O rapaz caminhava sozinho, amedrontado e confuso pela “nova” cidade como uma criança sem mãe. E, de fato, era assim que ele se encontrava. Haviam tantas pessoas em frente ao muro que ele mal conseguia ver o Portão de Brandemburgo. Sob os estouros e cores dos fogos de artifício, o rapaz olha para a Straße des 17 Juni e vislumbra o tão esperado Tiergarten.

Lindamente iluminada, a Straße des 17 Juni estava abarrotada de gente. Aquela era a extensa via que ligava o leste e o oeste da cidade. Gunther sabia que não seria possível caminhar por ali aquela noite. Lágrimas se escorrem de seus olhos, mas ele sabia que aquela noite não era sua, mas sim das milhares de famílias berlinenses que foram separadas pelo tirânico socialismo. Diferente dos outros, Gunther não teve entes queridos baleados e mortos tentando atravessar o muro. Enxugando seus olhos, ele se vira e volta para casa.

Com as mãos nos bolsos, Gunther passa pelos festivos e percorre as avenidas próximas à Alexanderplatz. Sob a fria noite, ele caminha silenciosamente até se deparar com algo estranho. Ajoelhada próxima ao muro, uma mulher chora tristemente com as mãos no rosto. Reconhecendo-a, ele exclama:

- É Anneliese!

Correndo em sua direção, ele se agacha ao seu lado e pergunta:

- Anneliese, está tudo bem?      

Com olhos avermelhados, a garota olha para ele e diz:

- Gunther...?

O rapaz tira seu casaco e a veste.

- Aconteceu alguma coisa?

Rindo com ironia, a garota responde:

- “Alguma coisa...?!” – indigna-se ela – Gunther, por acaso vive em outro mundo? Olhe ao seu redor! Meu país desfaleceu!

Anneliese gritava com ele. Ela estava muito nervosa e instável. Ponderando, o rapaz é meticuloso ao comentar:

- Sim, o país realmente caiu.

- Olhe para essas pessoas! – aponta ela – Elas estão tão satisfeitas e felizes! Comemorando injustamente a queda do maior exemplo sociopolítico que já existiu!

E então ela chora. A garota estava indignada com a festa da reunificação alemã. Gunther tenta consola-la.

- Anneliese, o país ainda não acabou. As fronteiras foram abertas, só isso. Amanhã tudo voltará ao normal e viveremos felizes como antes.

- São traidores da revolução alemã! – exclama ela, irritada – Tantos anos de educação ideológica para virarem as costas ao governo popular que os habitava, educava e alimentava suas crianças!

Consternado, o rapaz pergunta:

- Você não crê que tudo voltará a ser como antes?

- Veja seus semblantes... – comenta ela – Eles jamais aceitarão o fechamento das fronteiras de novo. Provocarão uma contrarrevolução antissocialista com o apoio material e financeiro do capitalismo. Tolos e insensatos! Se ao menos tivessem esperado uma solução que Egon Krenz pudesse nos trazer.    

O rapaz insiste.

- Talvez ainda dê tempo de ele trazer uma solução ao problema.

- Não... – lamenta-se ela – É tarde demais. Se os anos de educação ideológica não foram o suficiente, não é a ação de uma líder impopular e odiado que será. Se ao menos o povo ouvisse os ideólogos do partido, eles não estariam fugindo para o ocidente agora, e sim os ocidentais fazendo o contrário. 

Apesar da clara vontade popular, Anneliese ainda se agarrava ao socialismo.

Enquanto pensa a respeito, inesperadamente a garota se aproxima e chora em seu ombro. Surpreso, o rapaz se imobiliza e não sabe o que fazer. Então ele lentamente passa o braço ao redor dela e, com a outra mão, acaricia seus cabelos. 

Após alguns minutos, Anneliese finalmente diz:

- Gunther, me leve para sua casa.

Arregalando os olhos, o rapaz não compreende.

- O quê?

- Eu não quero ficar sozinha essa noite. – explica ela – Por favor, Gunther. Me leve para casa.

Agora mil vezes mais surpreso, o rapaz mal consegue acreditar no que ouve. Com as pernas trêmulas, ele responde com dificuldade:

- Está bem.

Levantando-a, os dois caminham e deixam a multidão para trás.

 

§

 

Ao abrir a porta de seu apartamento, o rapaz acende a luz e ambos entram. Vestida com seu casaco, Anneliese olha ao redor e observa sua casa. Aproximando-se da janela, ela vê abaixo o Muro de Berlim. Gunther morava em frente à contenção que ela se esforçava para manter.

- Eu vou fazer o café. – diz ele e então vai para a cozinha.

- Por favor – interrompe ela – Eu prefiro um chá.

Preocupado, o rapaz assente e caminha. Nesse momento ele torce para que a Stasi tenha sido novamente desagradável de ter colocado chá em seu armário.  

Na sala, a garota observa a estante e vê uma série de objetos incomuns. Ela então pergunta:

- O que é isso?

Retornando à sala, Anneliese segurava um elmo prussiano. Na estante ela via uma coleira escrito “Blondie”, uma bíblia protestante do século XVI, um brasão do Sacro Império Romano Germânico, um panfleto de convocação para a Grande Guerra e uma braçadeira nazista.

Pegando a braçadeira, ela diz:

- Gunther... Você é nazista...?

Sabendo como os comunistas eram inimigos ferozes do nazismo, ele pensa em como explicar que aquilo era uma relíquia trazida da década de 30 pela quarta dimensão.

- Eu...

- Não importa. – interrompe ela – Após essa noite, não tenho mais esperança no povo alemão.

Colocando-a de volta, ela continua observando as outras relíquias. Anneliese vê um cartão postal do Palast der Republik, um panfleto da Antifaschistische Aktion e uma cópia da constituição de Weimar. Mais abaixo, ela vê um lenço vermelho da Liga Espartaquista, o livro “Assim Falou Zaratustra” de Nietzsche, uma pasta de documentos da Stasi e o livro “O Capital” de Karl Marx.

Pegando o livro, ela confusamente pergunta:

- Você também é comunista?

Na verdade, Gunther odeia o socialismo e a impraticável utopia comunista.

- Sou apenas um estudante. – improvisa ele.

Continuando sua observância, Anneliese vê um cachimbo escrito Einstein, um óculos com as siglas E.H., uma estampa do exército americano e, finalmente, um panfleto da Liga das Mulheres Democráticas Alemãs.

Pegando o panfleto, ela pergunta:

- Esse panfleto é idêntico ao que eu distribuí no Friedrich-Ludwig-Jahn-Stadion.

Disfarçando, o rapaz sabe que aquele é exatamente o mesmo que ele recebeu aquela tarde. Ele tem medo de dizê-la, pois teme que Anneliese o ache um perseguidor tarado. De qualquer forma, o rapaz jamais o jogou fora e, se depender dele, jamais o jogará.

Olhando para o rapaz, ela comenta:

- Você é um tremendo colecionador, não?

Sorrindo, Gunther responde:

- Não importa o quanto eu tente, eu não consigo me livrar dessas coisas.

Anneliese também sorri. Mal sabe ela que, de fato, sempre que o rapaz as jogava fora, elas voltavam ao seu apartamento.

Em seguida, o rapaz lhe mostra o seu quarto. A garota olha ao redor e se aproxima da janela. Estranhamente naquela noite a torre de vigilância não ligou o holofote. “Não havia mais necessidade”, pensa ele. Anneliese retorna e então nota o estranho telefone.

- Você tem uma linha particular de telefone?

Gunther não sabe o que responder. Ele não sabe como o aparelho foi parar ali.

- Não exatamente...

- Você deve ser um oficial do governo para ter uma linha ou, na pior das hipóteses, ser muito rico.

A garota praticamente o acusa. Não haviam ricos na Alemanha Oriental, a não ser que você fosse do governo, da máfia ou do próprio ocidente. Gunther sacode os ombros, recusando-se a responder.

Ligando a TV na sala, a programação noticiava apenas a abertura da fronteira alemã. Em todos os canais, tanto ocidentais quanto orientais, não se falava em outra coisa. Lágrimas escorriam do rosto de Anneliese, mas ela não diz uma única palavra.

Vendo as horas no relógio, o rapaz se espanta. Eram quase duas da manhã. Arrumando sua cama, ele a oferece para dormir e então se dirige ao sofá. A garota se deita e rapidamente adormece. Parando na porta, ele discretamente a observa. Não havia dúvidas em seu coração, Gunther a amava intensamente.

Voltando à sala, ele se deita no sofá e dorme também.

 

§

 

Amanhece o novo dia. Anneliese acorda lentamente ouvindo sons vindos das ruas. Olhando para a janela, ela nota que os berlinenses ainda festejavam lá fora. Mas era outra coisa que a incomodava. Virando-se, ela apalpa a cama e nota que dormiu sozinha. Intrigada, ela se levanta e caminha até a sala.

Roncando suavemente, Gunther dormia de mal jeito no sofá. Metade de seu corpo estava descoberto, mas, com a garota em casa, ele preferiu dormir vestido. Anneliese se aproxima e, tocando em seu ombro, o acorda.

- Gunther...?

O rapaz abre os olhos. Ao vê-la, seu coração se aquece e ele instintivamente sorri.

- Bom dia, Anneliese.

- Gunther... – sussurra ela – Você dormiu na sala... Por quê?

Sentando-se, ele segura sua mão e diz:

- Porque eu não eu não quero você por uma noite, por uns dias ou mesmo por alguns anos. Eu quero você para sempre.

Com a surpreendente resposta, Anneliese sorri. Mas, lembrando-se da noite anterior, ela responde com desprezo:

- Para sempre agora que nosso país caiu e nosso futuro nos parece tão incerto?

Ela se referia à possibilidade da Alemanha Oriental ser absorvida pelo Ocidente e ser governada sob um único sistema capitalista.

Gunther responde:

- Com certeza.

Suspirando, ela diz:

- Não sei se terei forças para passar por isso sozinha.

Levantando-se rapidamente, o rapaz diz:

- Então case-se comigo! – sorri ele, empolgadamente – Você não precisa ficar sozinha. Case-se comigo e passaremos por essas mudanças juntos!

A garota não sabe o que responder.

- Casar-se...?

- Sim! – confirma ele – Sua família ficou em Dresden e minha mãe partiu para o ocidente. Ambos estamos sozinhos nesse momento tão incerto da história alemã. Mas não precisamos estar! Poderemos ficar juntos para sempre se você aceitar se casar comigo!

Ainda surpresa, ela diz:

- Mas... Casamento?

- Não foi isso o que você me prometeu na quarta dimensão?

Gunther referia-se à dimensão de céu ensolarado onde Anneliese prometeu que se casaria caso o socialismo caísse.

Intrigando-se, ela pergunta:

- Quarta dimensão...?

A garota não fazia ideia do que ele estava falando. Preocupado, Gunther se pergunta se aquela conversa realmente aconteceu.

Anneliese passa a mão em seu braço esquerdo e olha para o lado, confusa. Percebendo que em sua mente ainda havia muita indecisão, o rapaz se desanima, coçando sua nuca em seguida. Triste e cabisbaixo, ele tenta mudar de assunto.

- Você quer chá?

- Eu aceito.

Assentindo, ele se vira e se dirige à cozinha. De repente a garota segura seu braço e o puxa de volta.

- Não!

Gunther se confunde.

- Mas você não disse que queria chá?

Batendo a mão em sua testa, a garota responde:

- Não, seu bobo! Eu disse que aceito me casar com você!

Arregalando os olhos, o rapaz não consegue acreditar no que ouve.

- O quê...? – gagueja ele – Você disse que aceita...?

Sem abrir a boca, Anneliese apenas move a cabeça, sinalizando que sim.

Abrindo um sincero e caloroso sorriso, o rapaz a agarra pela cintura e a ergue em seus braços, girando-a em um alegre abraço no meio da sala. Ele ri alegremente enquanto a garota grita de medo, mas divertindo-se também. Ao desce-la, Gunther a abraça e finalmente a beija, fazendo as próprias bases da realidade se estremecerem ao redor de si. As paredes saem do lugar, o piso treme e o teto revira-se sobrenaturalmente, contorcendo as três dimensões. Mas o rapaz não se importa. Para ele o mundo podia acabar naquele momento.

Após longos e prazerosos segundos, Gunther abre os olhos e, tranquilizando-se, percebe:  a realidade havia permanecido. Mas, principalmente, Anneliese em seus braços. Ele então suspira de alívio.

- Você está bem? – pergunta ela.

- Sim. – responde ele, rapidamente – Eu apenas estou emocionado.

- O que vamos fazer agora?

- Nos casar o mais rápido possível! – brada ele – Nessa Alemanha, na outra Alemanha ou nas duas se for preciso! Tenho pressa para que você seja minha... Eu te amo tanto, tanto, tanto...! – empolga-se – Essa será a primeira coisa que eu vou fazer... – e então ele amargamente se lembra – Ah, não...

- Algum problema? – preocupa-se ela.

Pesaroso, ele desvia o olhar.

- Há uma coisa que eu preciso fazer antes.

Fechando os olhos, o rapaz se lembra de sua mãe.

Lembrando-se que a garota tinha aversão ao ocidente, ele segura suas mãos e cuidadosamente pergunta:

- Anneliese, você se importaria de ir à Berlim Ocidental comigo?

Intrigada, ela ergue a sobrancelha.

- Berlim Ocidental? Por que você quer ir para lá?

Preocupado, mas cheio de determinação, o rapaz responde:

- Há um lugar lá que eu devo ir.

Ainda confusa, ela insiste:

- Onde?

- Tiergarten.

   

 

 

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