Em frente ao Portão de Brandenburgo, os
berlinenses comemoram alegremente a abertura das fronteiras. A festa é
divertida e muito animada, e todos sorriem, bebem e se abraçam pela cidade.
As pessoas se aglomeram em cima do muro,
simbolicamente demonstrando ao mundo todo que a liberdade venceu a opressão, e
que o desejo de ser livre subjugou aquele hediondo monumento construído para
dividir pessoas e vidas.
Música alta e fogos de artifício animam a
cidade, Wessis e Ossis atravessam livremente o Checkpoint Charlie, mas é em
frente ao Portão de Brandemburgo, o ponto turístico mais conhecido de Berlim,
onde as pessoas mais festejam.
Mas nem todos estão lá para festejar.
A alegre e histórica noite é contagiante.
Gunther estava livre, finalmente livre para partir. Passando pelo Checkpoint Charlie,
os Wessis lhe oferecem flores e champanhe e ele gentilmente aceita. Ele se
surpreende como seus compatriotas ocidentais vestiam roupas melhores e eram
mais gordinhos. Porém, atrás de seu sorriso alegre se escondia uma profunda
tristeza que seus compatriotas ocidentais, claramente embriagados, não podiam
perceber.
O rapaz caminhava sozinho, amedrontado e
confuso pela “nova” cidade como uma criança sem mãe. E, de fato, era assim que ele se
encontrava. Haviam tantas pessoas em frente ao muro que ele mal conseguia ver o
Portão de Brandemburgo. Sob os estouros e cores dos fogos de artifício, o rapaz
olha para a Straße des 17 Juni e vislumbra o tão esperado Tiergarten.
Lindamente iluminada, a Straße des 17 Juni
estava abarrotada de gente. Aquela era a extensa via que ligava o leste e o oeste da cidade. Gunther sabia que não seria possível caminhar por
ali aquela noite. Lágrimas se escorrem de seus olhos, mas ele sabia que aquela
noite não era sua, mas sim das milhares de famílias berlinenses que foram
separadas pelo tirânico socialismo. Diferente dos outros, Gunther não teve
entes queridos baleados e mortos tentando atravessar o muro. Enxugando seus
olhos, ele se vira e volta para casa.
Com as mãos nos bolsos, Gunther passa pelos festivos
e percorre as avenidas próximas à Alexanderplatz. Sob a fria noite, ele caminha
silenciosamente até se deparar com algo estranho. Ajoelhada próxima ao muro, uma
mulher chora tristemente com as mãos no rosto. Reconhecendo-a, ele exclama:
- É Anneliese!
Correndo em sua direção, ele se agacha ao seu
lado e pergunta:
- Anneliese, está tudo bem?
Com olhos avermelhados, a garota olha para
ele e diz:
- Gunther...?
O rapaz tira seu casaco e a veste.
- Aconteceu alguma coisa?
Rindo com ironia, a garota responde:
- “Alguma coisa...?!” – indigna-se ela –
Gunther, por acaso vive em outro mundo? Olhe ao seu redor! Meu país desfaleceu!
Anneliese gritava com ele. Ela estava muito
nervosa e instável. Ponderando, o rapaz é meticuloso ao comentar:
- Sim, o país realmente caiu.
- Olhe para essas pessoas! – aponta ela – Elas
estão tão satisfeitas e felizes! Comemorando injustamente a queda do maior
exemplo sociopolítico que já existiu!
E então ela chora. A garota estava indignada
com a festa da reunificação alemã. Gunther tenta consola-la.
- Anneliese, o país ainda não acabou. As
fronteiras foram abertas, só isso. Amanhã tudo voltará ao normal e viveremos
felizes como antes.
- São traidores da revolução alemã! – exclama
ela, irritada – Tantos anos de educação ideológica para virarem as costas ao
governo popular que os habitava, educava e alimentava suas crianças!
Consternado, o rapaz pergunta:
- Você não crê que tudo voltará a ser como
antes?
- Veja seus semblantes... – comenta ela –
Eles jamais aceitarão o fechamento das fronteiras de novo. Provocarão uma
contrarrevolução antissocialista com o apoio material e financeiro do
capitalismo. Tolos e insensatos! Se ao menos tivessem esperado uma solução que
Egon Krenz pudesse nos trazer.
O rapaz insiste.
- Talvez ainda dê tempo de ele trazer uma
solução ao problema.
- Não... – lamenta-se ela – É tarde demais.
Se os anos de educação ideológica não foram o suficiente, não é a ação de uma
líder impopular e odiado que será. Se ao menos o povo ouvisse os ideólogos do
partido, eles não estariam fugindo para o ocidente agora, e sim os ocidentais
fazendo o contrário.
Apesar da clara vontade popular, Anneliese
ainda se agarrava ao socialismo.
Enquanto pensa a respeito, inesperadamente a
garota se aproxima e chora em seu ombro. Surpreso, o rapaz se imobiliza
e não sabe o que fazer. Então ele lentamente passa o braço ao redor dela e, com
a outra mão, acaricia seus cabelos.
Após alguns minutos, Anneliese finalmente
diz:
- Gunther, me leve para sua casa.
Arregalando os olhos, o rapaz não compreende.
- O quê?
- Eu não quero ficar sozinha essa noite. –
explica ela – Por favor, Gunther. Me leve para casa.
Agora mil vezes mais surpreso, o rapaz mal
consegue acreditar no que ouve. Com as pernas trêmulas, ele responde com
dificuldade:
- Está bem.
Levantando-a, os dois caminham e deixam a
multidão para trás.
§
Ao abrir a porta de seu apartamento, o rapaz
acende a luz e ambos entram. Vestida com seu casaco, Anneliese olha ao redor e
observa sua casa. Aproximando-se da janela, ela vê abaixo o Muro de Berlim.
Gunther morava em frente à contenção que ela se esforçava para manter.
- Eu vou fazer o café. – diz ele e então vai
para a cozinha.
- Por favor – interrompe ela – Eu prefiro um
chá.
Preocupado, o rapaz assente e caminha. Nesse momento ele torce para que a Stasi tenha sido novamente desagradável de ter colocado
chá em seu armário.
Na sala, a garota observa a estante e vê uma
série de objetos incomuns. Ela então pergunta:
- O que é isso?
Retornando à sala, Anneliese segurava um elmo
prussiano. Na estante ela via uma coleira escrito “Blondie”, uma bíblia
protestante do século XVI, um brasão do Sacro Império Romano Germânico, um
panfleto de convocação para a Grande Guerra e uma braçadeira nazista.
Pegando a braçadeira, ela diz:
- Gunther... Você é nazista...?
Sabendo como os comunistas eram inimigos ferozes
do nazismo, ele pensa em como explicar que aquilo era uma relíquia trazida da
década de 30 pela quarta dimensão.
- Eu...
- Não importa. – interrompe ela – Após essa
noite, não tenho mais esperança no povo alemão.
Colocando-a de volta, ela continua observando
as outras relíquias. Anneliese vê um cartão postal do Palast der Republik, um
panfleto da Antifaschistische Aktion e uma cópia da constituição de Weimar. Mais
abaixo, ela vê um lenço vermelho da Liga Espartaquista, o livro “Assim Falou
Zaratustra” de Nietzsche, uma pasta de documentos da Stasi e o livro
“O Capital” de Karl Marx.
Pegando o livro, ela confusamente pergunta:
- Você também é comunista?
Na verdade, Gunther odeia o socialismo e a
impraticável utopia comunista.
- Sou apenas um estudante. – improvisa ele.
Continuando sua observância, Anneliese vê um
cachimbo escrito Einstein, um óculos com as siglas E.H., uma estampa do
exército americano e, finalmente, um panfleto da Liga das Mulheres Democráticas
Alemãs.
Pegando o panfleto, ela pergunta:
- Esse panfleto é idêntico ao que eu
distribuí no Friedrich-Ludwig-Jahn-Stadion.
Disfarçando, o rapaz sabe que aquele é
exatamente o mesmo que ele recebeu aquela tarde. Ele tem medo de dizê-la,
pois teme que Anneliese o ache um perseguidor tarado. De qualquer forma, o
rapaz jamais o jogou fora e, se depender dele, jamais o jogará.
Olhando para o rapaz, ela comenta:
- Você é um tremendo colecionador, não?
Sorrindo, Gunther responde:
- Não importa o quanto eu tente, eu não
consigo me livrar dessas coisas.
Anneliese também sorri. Mal sabe ela que, de
fato, sempre que o rapaz as jogava fora, elas voltavam ao seu apartamento.
Em seguida, o rapaz lhe mostra o seu quarto.
A garota olha ao redor e se aproxima da janela. Estranhamente naquela noite a
torre de vigilância não ligou o holofote. “Não havia mais necessidade”, pensa
ele. Anneliese retorna e então nota o estranho telefone.
- Você tem uma linha particular de telefone?
Gunther não sabe o que responder. Ele não
sabe como o aparelho foi parar ali.
- Não exatamente...
- Você deve ser um oficial do governo para
ter uma linha ou, na pior das hipóteses, ser muito rico.
A garota praticamente o acusa. Não haviam
ricos na Alemanha Oriental, a não ser que você fosse do governo, da máfia ou do
próprio ocidente. Gunther sacode os ombros, recusando-se a responder.
Ligando a TV na sala, a programação noticiava
apenas a abertura da fronteira alemã. Em todos os canais, tanto ocidentais
quanto orientais, não se falava em outra coisa. Lágrimas escorriam do rosto de
Anneliese, mas ela não diz uma única palavra.
Vendo as horas no relógio, o rapaz se
espanta. Eram quase duas da manhã. Arrumando sua cama, ele a oferece para
dormir e então se dirige ao sofá. A garota se deita e rapidamente adormece.
Parando na porta, ele discretamente a observa. Não havia dúvidas em seu coração,
Gunther a amava intensamente.
Voltando à sala, ele se deita no sofá e dorme
também.
§
Amanhece o novo dia. Anneliese acorda lentamente
ouvindo sons vindos das ruas. Olhando para a janela, ela nota que os berlinenses
ainda festejavam lá fora. Mas era outra coisa que a incomodava. Virando-se, ela
apalpa a cama e nota que dormiu sozinha. Intrigada, ela se levanta e caminha
até a sala.
Roncando suavemente, Gunther dormia de mal
jeito no sofá. Metade de seu corpo estava descoberto, mas, com a garota em
casa, ele preferiu dormir vestido. Anneliese se aproxima e, tocando em seu
ombro, o acorda.
- Gunther...?
O rapaz abre os olhos. Ao vê-la, seu coração se
aquece e ele instintivamente sorri.
- Bom dia, Anneliese.
- Gunther... – sussurra ela – Você dormiu na
sala... Por quê?
Sentando-se, ele segura sua mão e diz:
- Porque eu não eu não quero você por uma
noite, por uns dias ou mesmo por alguns anos. Eu quero você para sempre.
Com a surpreendente resposta, Anneliese sorri.
Mas, lembrando-se da noite anterior, ela responde com desprezo:
- Para sempre agora que nosso país caiu e nosso
futuro nos parece tão incerto?
Ela se referia à possibilidade da Alemanha Oriental
ser absorvida pelo Ocidente e ser governada sob um único sistema capitalista.
Gunther responde:
- Com certeza.
Suspirando, ela diz:
- Não sei se terei forças para passar por
isso sozinha.
Levantando-se rapidamente, o rapaz diz:
- Então case-se comigo! – sorri ele, empolgadamente
– Você não precisa ficar sozinha. Case-se comigo e passaremos por essas
mudanças juntos!
A garota não sabe o que responder.
- Casar-se...?
- Sim! – confirma ele – Sua família ficou em
Dresden e minha mãe partiu para o ocidente. Ambos estamos sozinhos nesse momento
tão incerto da história alemã. Mas não precisamos estar! Poderemos ficar juntos para sempre se você aceitar se casar comigo!
Ainda surpresa, ela diz:
- Mas... Casamento?
- Não foi isso o que você me prometeu na
quarta dimensão?
Gunther referia-se à dimensão de céu
ensolarado onde Anneliese prometeu que se casaria caso o socialismo caísse.
Intrigando-se, ela pergunta:
- Quarta dimensão...?
A garota não fazia ideia do que ele estava falando.
Preocupado, Gunther se pergunta se aquela conversa realmente aconteceu.
Anneliese passa a mão em seu braço esquerdo e
olha para o lado, confusa. Percebendo que em sua mente ainda havia muita indecisão,
o rapaz se desanima, coçando sua nuca em seguida. Triste e cabisbaixo, ele tenta
mudar de assunto.
- Você quer chá?
- Eu aceito.
Assentindo, ele se vira e se dirige à cozinha.
De repente a garota segura seu braço e o puxa de volta.
- Não!
Gunther se confunde.
- Mas você não disse que queria chá?
Batendo a mão em sua testa, a garota
responde:
- Não, seu bobo! Eu disse que aceito me casar
com você!
Arregalando os olhos, o rapaz não consegue
acreditar no que ouve.
- O quê...? – gagueja ele – Você disse que
aceita...?
Sem abrir a boca, Anneliese apenas move a
cabeça, sinalizando que sim.
Abrindo um sincero e caloroso sorriso, o
rapaz a agarra pela cintura e a ergue em seus braços, girando-a em um alegre abraço
no meio da sala. Ele ri alegremente enquanto a garota grita de medo, mas
divertindo-se também. Ao desce-la, Gunther a abraça e finalmente a beija,
fazendo as próprias bases da realidade se estremecerem ao redor de si. As
paredes saem do lugar, o piso treme e o teto revira-se sobrenaturalmente, contorcendo
as três dimensões. Mas o rapaz não se importa. Para ele o mundo podia acabar
naquele momento.
Após longos e prazerosos segundos, Gunther abre
os olhos e, tranquilizando-se, percebe: a
realidade havia permanecido. Mas, principalmente, Anneliese em seus braços. Ele
então suspira de alívio.
- Você está bem? – pergunta ela.
- Sim. – responde ele, rapidamente – Eu apenas
estou emocionado.
- O que vamos fazer agora?
- Nos casar o mais rápido possível! – brada ele
– Nessa Alemanha, na outra Alemanha ou nas duas se for preciso! Tenho pressa para que
você seja minha... Eu te amo tanto, tanto, tanto...! – empolga-se – Essa será a
primeira coisa que eu vou fazer... – e então ele amargamente se lembra – Ah, não...
- Algum problema? – preocupa-se ela.
Pesaroso, ele desvia o olhar.
- Há uma coisa que eu preciso fazer antes.
Fechando os olhos, o rapaz se lembra de sua
mãe.
Lembrando-se que a garota tinha aversão ao
ocidente, ele segura suas mãos e cuidadosamente pergunta:
- Anneliese, você se importaria de ir à Berlim
Ocidental comigo?
Intrigada, ela ergue a sobrancelha.
- Berlim Ocidental? Por que você quer ir para
lá?
Preocupado, mas cheio de determinação, o
rapaz responde:
- Há um lugar lá que eu devo ir.
Ainda confusa, ela insiste:
- Onde?
- Tiergarten.

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