Sonata. Ano 2478.
Maynard abre os olhos. A noite quente lá fora
dificulta seu sono, mas não foi isso que o fez acordar. Os aerocarros passam
próximo à sua janela, produzindo zunidos e iluminando timidamente o ambiente.
Levantando-se de sua cama retrátil, ele passa por caixas e mais caixas de seu
arsenal se dirige ao banheiro.
Algo
chama sua atenção. Ao olhar no reflexo, ele vê riscos feitos por alguma
ferramenta pontuda. Os riscos são legíveis e formam uma palavra. “Meia-noite”.
Um recado. Alguém entrou em seu apartamento e
lhe deixou um recado. Maynard não se surpreende, ele já sabe do que se trata.
Alguém está requisitando seu trabalho.
Uma hora se passa. Maynard, agora revigorado
após o descanso, espera por seus empregadores.
Os aerocarros voam ao longe, zunindo e
soprando o ar quente da metrópole. Algo se move calmamente atrás dele, calmo
até demais. Virando-se, ele vê três homens encapuzados e em trajes pretos. Ele
reconhece aquela roupa estranha e antiquada, aqueles homens se pareciam com os
antigos monges renascentistas. O vento sopra seus casacos e revela seus
uniformes. São clérigos. Maynard conhece aquela facção, os Clérigos do
Recomeço. Apesar de religiosos, nenhum deles é conhecido por conceder o perdão.
- Entregue esse pacote ao nosso contato no
distrito de Autremont. Pagaremos bem.
Sempre diretos ao ponto, nada de perguntas.
O homem vê um pequeno pacote lacrado. Ao guardá-lo
em sua mochila, os homens dão as costas e vão embora.
Ser um Mercenário é fazer o que lhe mandam, o
que precisa ser feito. É necessário discrição. Se um mercenário for curioso
demais, ele é melhor morto. Não interessa os motivos e intenções do trabalho,
se são os motivos corretos para uma causa errada, a única – e somente única –
coisa que interessa é o dinheiro.
§
A noite está movimentada em Sonata. Maynard
caminha pelas passarelas abarrotadas de gente. Ao olhar para o relógio, ele vê
que horas são. 00h42min. Não importa o quão tarde seja, em Sonata a vida nunca
para.
O agente leva consigo sua espingarda calibre
12, uma clássica espingarda pump action de doze tiros e coronha pistol
grip. Ele sempre foi um entusiasta do século 20, um verdadeiro saudosista. Em
uma cidade altamente tecnológica como aquela, armas de fogo são pouco comuns,
algumas sendo até tratadas como relíquias. Mas, debaixo de seu casaco, ele leva
sua pistola laser no coldre, afinal não se pode confiar demais no que é muito
antigo.
Nas passarelas e túneis, as pessoas caminham
normalmente. Algumas estão indo trabalhar e outras vendem suas mercadorias em
barracas e lojas. Aquela era a típica paisagem sonatense, nada de anormal.
Maynard observa que a maioria delas têm em seus corpos membros bioprotéticos.
Braços, pernas e até olhos substituídos totalmente pela avançada tecnologia
capaz de aprimorar a antiga fisiologia. Diferentes delas, o agente não tem
nenhuma prótese em seu corpo. Ele via tudo aquilo como algo antinatural demais,
quase um show de horror. Maynard era um homem ao seu tempo, um pouco antiquado
para essas maravilhas tecnológicas modernas.
Ao
lado da passarela ele vê as linhas de aerometrô pelo céu. Suspensos nos trilhos
pelo teto, os trens cruzavam as incontáveis megatorres em seus trajetos
interurbanos. Essenciais ao transporte, eles conectavam os setores e distritos,
levando milhares e milhares de trabalhadores diariamente aos seus destinos.
Muitos aerocarros os sobrevoavam. O milagre
do conforto finalmente havia chegado no século 25 e, diferente dos veículos
poluentes, pesados e ultrapassados do século 21, em Sonata os motoristas podiam
deslocar-se pelos ares, voando em vários níveis pelas vias virtuais exibidas em
seus para-brisas. Maynard tem um aerocarro também, mas essa noite ele quis
caminhar, afinal ele não tem um membro bioprotético para compensar o
atrofiamento de seus músculos.
A polícia passa ao longe, a famigerada força
de segurança pública metropolitana. Sempre em grupos de dois a três aerocarros,
eles patrulham o céu de Sonata. Rígidos e implacáveis, sua conduta apenas
reflete o caráter das próprias megacorporações que governam a cidade, fazendo o
que for necessário para manter a ordem. O Ministério de Segurança Pública, o
órgão regulamentador da polícia, responde diretamente aos seus interesses das
corporações, sendo assim chamada de Polícia Corporativa. Com exceção dos
terroristas, ninguém ousa desafia-los, pois essas ações geralmente acabavam em
prisão ou desaparecimento.
Passando pelos túneis dentro das megatorres,
ele vê as entradas dos andares que levam aos apartamentos. Devido ao enorme
dimensionamento dos edifícios, cada andar tinha cerca de cinco mil
apartamentos, distribuídos em várias alas para a facilidade de acesso. Dependendo
do distrito, alguns edifícios eram limpos e conservados, e outros eram sujos e
pichados, com grafitti em toda parte.
As luzes são o que mais lhe chama a atenção.
Nos túneis há uma infinidade de painéis de neon, formando palavras e
propagandas para atrair os clientes. Devido às suas belas cores, a escuridão do
ambiente é tomada por esporádicas cores azuis, verdes e vermelhas, dançando com
o piscar das letras.
Intencionando cortar caminho, o agente pega
um atalho em um túnel de serviço. O túnel tem grossos tubos em sua parede,
soltando vapor de suas pequenas fissuras. O ambiente é coberto por uma fina
neblina, a visão é limitada, o calor é desgastante e seus passos provocam ecos
pela extensão. Definitivamente aquele não era um atalho seguro para os
habitantes de Sonata, mas Maynard não era qualquer um. Um homem se aproxima na
direção oposta, surgindo através da neblina. O homem passa de cabeça baixa e
continua apressadamente seu caminho, sem olhar para o agente uma única vez.
Maynard conhecia essa reação, era quase como um instinto de defesa. Na metrópole
existia a cultura do medo e os sonatenses não sabiam que eram pessoas como o
próprio Maynard que ajudavam a mantê-la.
O agente se aproxima de seu destino. Saindo
ao ar livre, o vento sopra mais frio, soprando seus cabelos e agitando seu
casaco. Ao olhar para o céu, ele vê relâmpagos e ouve trovões, estando prestes
a chover. “Que ótima surpresa”, ironiza ele.
Maynard chega a um beco escuro entre as
megatorres. Ele vê um homem velho agachado junto às suas sacolas de mercadorias
transgênicas. Ao se aproximar, ele nota que são componentes capazes de
estimular a mente e aprimorar os membros bioprotéticos de seus usuários.
“Entorpecentes ilegais”, pensa ele.
Ao ver
o estranho se aproximando, o velho olha para ele e pergunta:
- Boa noite, meu jovem. Tenho ótimos
produtos, todos de excelente qualidade.
- Sou o agente Maynard. Vim entregar o
pacote.
Maynard pode ver que o velho possui olhos
cibernéticos em sua face. Sem dizer mais uma palavra, o agente lança o pacote
aos seus pés.
- Oh, sim. Como eu pude me esquecer...
O velho abre o pacote diante de seus olhos,
sem se importar com a presença do mercenário. Para a segurança dos próprios
empregadores, objetos valiosos são melhores se mantidos em segredo. Esboçando
decepção, o velho responde:
- Eu agradeço por me trazer o pacote aqui,
mas esse aparelho é inútil.
O velho ergue seu braço e exibe um objeto em
sua mão. Maynard vê o que se parece ser um decodificador.
- Isso não me interessa. Estou aqui pelo
pagamento.
- Pagamento? – sorri ele – Infelizmente não
há pagamento nenhum.
Segurando sua arma sob o casaco, o agente
responde:
- Ouça, cara. Me irritar não é muito
inteligente.
- Ok, ok...! Acalme-se! – O velho se levanta
e então diz – Eu não posso usar esse decodificador, os seguranças da Cybersys
estão bloqueando o sinal não muito longe daqui. Esse decodificador é fraco, não
consegue driblar os bloqueios corporativos. É isso o que os clérigos não
entendem, a tecnologia deles é... – ele hesita – ultrapassada.
- Isso é problema seu. – o agente segura
novamente sua arma, pressionando-o para que ele lhe entregue o dinheiro.
- Espere! Eu lhe faço outra proposta. Se você
desligar o sinal corporativo, eu te pago pelo serviço, em dobro.
Maynard se espanta.
- Como é?
- Sim. Você apenas precisa desligar o sinal e
o bloqueio será suspenso. O que me diz?
Ponderando rapidamente, o agente chega a uma
decisão. Seu instinto de mercenário fala mais alto.
- Está bem.
O velho sorri.
- Ótimo! – abrindo seu computador, o velho
lhe mostra um mapa detalhado da região – Está vendo essa megatorre? Em seu
terraço há uma antena instalada recentemente. A Cybersys a usa para bloquear o
acesso ao ciberespaço, tentando conter a atividade criminal e limitar o acesso
dos terroristas. Me disseram que a área é guardada 24 horas por dia, então você
deve ser cuidadoso.
- Como eu desligo o sinal? – Pergunta
Maynard.
- O decodificador tem acesso wireless. Apenas
o deixe próximo à antena e ele fará todo o resto.
O velho lhe entrega o aparelho. Maynard vê
uma tela azul com números aparecendo aleatoriamente no visor. Guardando-o em
sua mochila, ele deixa o beco.
§
Espionagem é um trabalho interessante, o
agente se põe em perigo, arrisca sua vida, acessa arquivos secretos e ainda
recebe por isso. É como se sua vida de mercenário fosse um ciclo vicioso.
Para receber mais dinheiro, ele se torna mais
flexível, mais versátil, mais apto a qualquer tipo de serviço que possam lhe
oferecer. Quanto mais experiência, mais dinheiro, e assim ele alimenta sua
ganância. Vidas humanas têm pouco valor em sua linha de trabalho, pois esse é o
entrave que atrapalha a sociedade, essa tolerância com os indefesos e os
fracos. Maynard é um darwinista social, um sociopata, mesmo que nunca tenha se
notado disso.
Começa a chover. Relâmpagos iluminam
brevemente o céu sobre a metrópole. O agente deve ser mais cauteloso. Passando
pelas passarelas, as pessoas veem o imponente e silencioso homem passando e se
intrigam. Quem era aquele homem tão calmo caminhando tranquilamente sob a
chuva? E aquele estranho objeto em suas costas, seria aquilo uma arma?
Atravessando alguns túneis, o agente chega ao
seu destino. Entrando no prédio, ele caminha pelo corredor e atravessa o andar.
Os moradores não reconhecem o visitante, mas ninguém ousa incomodá-lo, afinal elas
já têm problemas demais para lidar em suas vidas. Avistando o elevador, ele vê
dois homens armados e um bot de segurança guardando-o.
- Com licença, senhores. Esse elevador leva
para o terraço?
- Para trás, cidadão. Esta é uma área
restrita.
- O que está havendo lá em cima?
- Eu mandei se afastar!
Os guardas apontam seus rifles para Maynard.
E, naquele momento, o agente se irrita.
No terraço, os guardas estão em seus postos,
alguns vigiando e outros conversando tranquilamente. Após um trovão, a chuva
recomeça e eles se abrigam em uma pequena área coberta em frente ao elevador.
Alguns ficam ao ar livre e guardam a esbelta antena, que pisca
intermitentemente contra as agitadas nuvens de chuva. Distraídos em seus
próprios assuntos, eles se intrigam ao ver que o elevador está subindo. Pegando
rapidamente seu rádio, o capitão chama seus seguranças lá embaixo.
- Quem mandou vocês subirem?
Mas não há resposta, apenas a estática.
Então a porta se abre e ilumina o escuro
ambiente. Não havia ninguém lá dentro, exceto o bot de segurança da Cybersys.
- O que está havendo aqui...?
De repente o bot abre fogo, metralhando os
guardas em frente ao elevador. O pânico se alastra. Seus avançados sensores de
movimento são formidáveis, os guardas tentam se proteger, mas a metralhadora
acoplada no pequeno robô mira precisamente até todos caírem.
- O bot foi hackeado!! – grita o capitão.
Os guardas se arrastam pelo chão, pondo o
terraço fica em alerta. Antes que o capitão pudesse chamar reforços, o alçapão
no teto do elevador se abre e Maynard aparece. Empunhando sua espingarda, ele
atira no restante dos guardas, atirando e liberando a grossa cápsula de pólvora
em seguida.
O agente olha para fora e avista a antena.
Antes que pudesse passar pela porta, uma saraivada de lasers atinge as paredes,
fazendo-o recuar. Recarregando sua espingarda, ele faz o destrave pump
action, se levanta e atira de volta. Os guardas são amadores, cães
destreinados que só sabem rosnar. Nenhum deles consegue parar Maynard.
Jogando uma granada de concussão, os guardas
ficam atordoados e são abatidos um a um pelo poderoso agente. Enquanto avança
pelo terraço, Maynard ouve um guarda agonizar atrás de seu esconderijo. Sem
olhá-lo nos olhos, o agente estica seu braço e puxa o gatilho, encerrando seu
sofrimento e remuniciando sua arma em seguida.
A chuva se intensifica e fica difícil
caminhar. Aproximando-se da antena, ele vê um pequeno console onde os
operadores configuram o sinal. Há um monitor ligado e uma frase na tela diz:
“Conexão com o satélite estabelecida”. Colocando o decodificador sobre o
painel, Maynard o posiciona próximo aos computadores e deixa o local.
Atravessando o terraço, ele pisa nas poças de
água, espalhando as gotas a cada passo. Ao chegar na parte coberta, os guardas
atiram contra o agente, fazendo-o se agachar. Mais seguranças da Cybersys
haviam chegado, provavelmente eles viram o ataque pelas câmeras de vigilância.
Antes que pudesse pegar o elevador e deixar aquela conturbada área, Maynard
teria de passar por eles.
Protegido atrás de um balcão, o agente saca
sua pistola laser e revida, atirando enquanto tenta escapar daquela adversa
situação. Atrás dele há uma enorme janela de vidro, agora toda arruinada devido
aos incontáveis tiros. Ele consegue ver a antena lá fora, alta e colorida
devido as suas luzes brilhantes. Atento ao tiroteio, ele planeja como fugir.
Então algo inesperado acontece.
A antena se explode em uma gigantesca bola de
fogo sobre o edifício, propagando sua onda de calor por todo o terraço. Tudo é
iluminado pelo clarão amarelo, atordoando os guardas que caminhavam em sua
direção.
Aproveitando a chance, ele pega sua
espingarda e se levanta. Antes que os guardas se recuperassem da explosão, eles
são alvejados por Maynard, tendo seus corpos catapultados para trás com o
poderoso impacto do tiro.
- Malditos cretinos...! – sussurra ele –
Aquilo era uma bomba!
Os clérigos o usaram. Eles sabiam daquilo o
tempo todo e não lhe disseram nada. O aparelho não era um simples
decodificador, na verdade era uma potente bomba planejada para explodir a nova
antena instalada naquele distrito pela Cybersys. Nem os clérigos ou aquele
velho estúpido pretendiam leva-la àquele terraço, obviamente eles pretendiam
ativá-la de longe, mas para isso precisavam de alguém forte o bastante para
passar pelos guardas e chegar à antena.
Maynard foi manipulado, novamente manipulado.
Recarregando sua espingarda, ele se martiriza por dentro. Como ele pôde ser tão
distraído? Não era a primeira vez que as facções o manipulavam, e certamente
não será a última. Mas ele decide não se importar, afinal a facção precisava do
melhor para o serviço, e Maynard era o melhor dos melhores.
Dirigindo-se ao elevador, ele passa pelos
guardas mortos no chão. Altivo e imponente, ele leva sua espingarda na altura
do peito. Mais uma missão bem-sucedida, mais um serviço bem feito, agora só
resta receber o devido pagamento. Então algo chama sua atenção. Seu celular
vibra em seu bolso e, abrindo-o, uma mensagem aparece no visor.
“Pagamento efetuado com sucesso”.
“Agradecemos pelo serviço”.
“Atenciosamente”.
“Clérigos do Recomeço”.
Olhando para o teto, ele vê câmeras de
segurança filmando-o. Os clérigos estavam monitorando-o de longe. O bloqueio de
sinal havia desaparecido e a facção podia invadir o ciberespaço novamente.
Maynard sorri por dentro.
Enquanto caminha, ele ouve algo se mexer
atrás dele. Um guarda ainda está vivo e tentava surpreendê-lo. Prestes a
atirar, Maynard se vira e atira nele antes, acertando-o no peito. Ao ser
atingido, o guarda grita e sangra até morrer.
Liberando a cápsula
vazia, Maynard em seguida deixa o local.

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