sábado, 14 de agosto de 2021

Sonata - 30 - Clérigos do Recomeço

 

(Arte de Sergey Zabelin)

Uma semana se passa. Parado em frente ao apartamento de Laura, Nathan bate em sua porta. Demorando para atender, ele bate novamente. Sem resposta. Batendo novamente, o rapaz repete o gesto pelos próximos cinco minutos, mas ninguém o atende. Abaixando sua cabeça, ele põe a mão nos olhos e respira fundo. Laura não queria vê-lo. Decepcionado, ele deixa o prédio e volta para o Submundo.
Caminhando pela superfície, ele passa pelos rejeitados e excluídos que habitam o seu novo lar. Os neons colorem os comércios, mas também as pilhas de lixo nos becos escuros. Traficantes e usuários de drogas negociam nas ruas, cafetões vigiam suas prostitutas e os mendigos bebem tranquilamente nas calçadas. Ao levantar voo, os aerocarros sopram o ar quente de seus propulsores. Nathan levanta a gola de seu casaco e se protege, passando em silêncio pelo local.
Ao entrar no Submundo, ele se dirige ao escritório de Database. Como sempre, ele encontra seu chefe analisando documentos de espionagem e ponderando de que forma agirá a seguir.
O rapaz pergunta:
- Database, você teve notícias de Laura?
Olhando para Nathan, ele nota seu semblante abatido.
- Olá, Nathan. – cumprimenta ele – Infelizmente, não. Lamento.
Ao ouvi-lo, a dor em seu peito cresce. O rapaz passava por um estado de comiseração.
- Se você souber de alguma coisa, pode me avisar, por favor?
Intrigado, o chefe pergunta.
- Tem alguma coisa em mente, Nathan?
Um pouco pensativo, ele responde:
- Tenho algo que queria falar com Laura. Pessoalmente, se possível.
Em tom compadecido, Database responde.
- É claro... Se eu souber de Laura, ficarei feliz em te informar, está bem?
Assentindo, o rapaz diz:
- Obrigado.
Então o rapaz se vira e deixa seu escritório.
Uma hora depois, Nathan e sua equipe se preparam para deixar o Submundo. Vestindo seus uniformes e recarregando suas armas, Database aparece e então pergunta:
- Você já se sente recuperado para sair?
Olhando para o chefe, ele responde:
- O tempo é precioso, Database. O quanto antes formarmos uma coalização, mais cedo a rebelião acabará.
Assentindo, o chefe diz:
- Tome cuidado dessa vez, Nathan. E boa sorte.

§

Antes da catástrofe de 2057, havia a Catedral de São Patrício em Nova Iorque, sendo ela uma proeminente edificação religiosa na cidade. Localizada no lado leste da 5ª Avenida, diretamente em frente ao Rockfeller Center, sua importância histórica e cultural era grande. Após várias restaurações, a magnífica construção gótica chegaria ao fim. A devastação do mundo a deixou arruinada e destruída, tornando-se mais uma distante lembrança do passado que simplesmente deixou de existir. Seu estado atual é desconhecido, mas entre os nova-iorquinos que se mudaram para Sonata, sua lembrança permaneceu.
A espiritualidade é uma característica humana que nem o materialismo das corporações conseguiu extinguir. Alguns fieis se juntaram e, semelhante ao templo da Bushido, reconstruíram a antiga catedral no terraço de uma megatorre. Dessa maneira, os fieis haviam erigido um novo local de adoração.
Entretanto, as mensagens de paz e caridade não faziam parte desta nova religião, e hoje seus membros são bem diferentes daqueles do século 21.
Nathan sobrevoa o céu da metrópole e reconhece o local. Ele está no distrito de Midtown, situado no Setor C. A Catedral de São Patrício surge à sua frente, causando-lhe admiração. Por muito tempo ele pensou que a catedral era apenas um museu, uma edificação dedicada a fins culturais. Ele jamais pensou que, na verdade, aquela bela obra de arquitetura era uma edificação clandestina que abrigava criminosos.
Os Clérigos do Recomeço eram uma organização terrorista que lutava pela instauração do Estado Eclesiástico em Sonata. Religiões clandestinas são proibidas na metrópole, e eles têm a liberdade religiosa como sua principal causa.
Os runners são recebidos por homens de armaduras negras e pontudas. Ele portam pistolas, fuzis e facas táticas nas pernas. Nathan se fascina ao ver amuletos religiosos enrolados em seus rifles. Mas, apesar da aparência de santos, era óbvio que eles não saíam às ruas para pregar sobre a paz e o amor.
Escoltando-os para a catedral, eles passam pelas enormes portas de madeira e a adentram.
No interior, Nathan vê uma belíssima igreja com vários bancos de madeira, pedestais e vitrais coloridos. Acima, ele vê enormes candelabros pendurados no teto. No final do salão há um vasto altar com belas decorações de mármore, madeira, cerâmicas e cálices. No alto das paredes há várias esculturas de gesso, aparentemente tristes, representando os santos e os mártires. O rapaz não sabe de quem se tratam, pois após séculos de controle religioso, aquelas imagens só eram conhecidas aos membros daquela bizarra religião. Em Sonata, a liberdade religiosa era proibida por impor barreiras morais ao progresso científico promovido pelas corporações.
Em frente ao altar há um homem pregando para a congregação. O rapaz nota que a congregação era composta por membros da facção e por cidadãos daquele distrito. Então ele olha para o pregador, um homem velho com o topo de sua cabeça raspado e seus cabelos formando um aro ao redor da careca. Ele veste uma longa veste preta e vermelha e, em seu pescoço, há um enorme colar. Sua face transmite devoção e austeridade, típica dos grandes líderes religiosos.
Os fieis são homens e mulheres, e todos demonstram muita devoção às suas palavras. Parando atrás deles, os runners esperam o velho terminar.
- Irmãos, esta noite vou fazer um tipo diferente de pregação. Esta noite vou falar-lhes de algumas calúnias e difamações históricas acerca de nossa santíssima religião.
Aparentando ter grande conhecimento histórico, o velho fala sobre as religiões do velho mundo, suas divergências e as causas do radicalismo no século 21. Ele fala sobre o monoteísmo predominante no ocidente, o politeísmo e as belas lições filosóficas nas longínquas regiões do extremo oriente. Com grande habilidade, ele relaciona os fatos históricos e justifica cada um dos seus defeitos, contrariando a ideia de que as religiões foram as responsáveis pela degradação do mundo.
Em seguida, o pregador fala de seu título, o “Profeta”. Imediatamente Nathan se intriga com sua pretensiosa auto-intitulação. O pregador direciona sua ira àqueles que se escandalizaram de sua carreira profética. Ele é irônico ao responder.
- Ora, não são os profetas os fundadores das antigas religiões? A partir dessa lógica, o que seria necessário para começar a nossa própria?
O pregador fala da necessidade natural do ser humano em crer e de seu intrínseco dom para a fé. Em um discurso inflamado, ele acusa as corporações de retirarem a liberdade espiritual do ser humano, confinando-os ao materialismo e alienando-os aos prazeres do consumismo. Ele os acusa de lhes imputarem o que ele chama de disciplina industrial, uma espécie de educação coercitiva bem estruturada.
Montando um paralelo entre as religiões do passado e o regime do presente, o pregador profere seu discurso.
- Irmãos, conseguem ver até onde foram as religiões para se preservarem e manterem viva a sua fé? Erros foram cometidos, o pecado adentrou seus corações, os próprios ministros se corromperam! E eu vos pergunto: ainda haveria credibilidade nas igrejas para reunir e converter os fiéis sob a mancha sangrenta de seus erros?
Então ele bate veementemente em seu púlpito, assustando-os.
- Sim! E não apenas credibilidade, mas a obrigação moral! Eis a lição que a História nos ensina! A maior batalha está aí fora, só precisamos sair e ver! As corporações nos dominam e seu absoluto poder pune seus dissidentes com a morte. Ficaremos parados enquanto almas se perdem nas mãos destes despóticos governantes? Ora, a Igreja derramou sangue para preservar a nossa fé, sangrou para que os fiéis tivessem acesso à Salvação. Permitiremos, pois, que a fé se perca na opressão destas instituições doentes? Apesar de todo o esforço, a Igreja se enfraqueceu e perdeu sua influência. Cedo ou tarde, todas as grandes obras caem... Mas o maior responsável pela sua queda foi a ignorância dos descrentes, guiados pela elevação de seu próprio egoísmo. E esse mesmo egoísmo, sob a nova religião restaurada, não mais existirá!”
O pregador começa outra comparação.
“As corporações cometem seus erros todos os dias e se ensoberbecem acreditando que nos controlam. Mas elas cairão! Vocês não veem, irmãos? Estamos no limiar de uma revolução religiosa! A vitória pela fé! As corporações cairão e nós, pela graça divina, conquistaremos o poder, recriando um novo Estado eclesiástico livre do materialismo imoral e da corrupção da mente! Glorificado seja o nosso Deus!”
Então toda a congregação se levanta e exulta ao nome de Deus, mesmo Nathan não sabendo de qual deus se tratava. Aplaudindo-o, o velho pregador permanece em silêncio, contemplando-os com olhar satisfeito.
Escoltados pelos homens de armadura, os runners se aproximam do pregador. Um deles se curva e então diz:
- Trouxemos o Inimigo de Estado como desejado, Vossa Eminência.
O pregador olha para eles e responde:
- Meus paladinos, eu agradeço vossa cooperação. Vocês devem retornar ao seminário agora.
Os homens assentem e deixam os runners. De mãos dadas sob a larga manga, o pregador se apresenta:
- Boa noite, meu jovem. Eu sou o Profeta John August. Bem-vindo à sede dos Clérigos do Recomeço.
Nathan ouviu muito sobre eles na televisão. Uma facção terrorista voltada à conversão religiosa, com atuação frequentemente violenta. Quando Nathan pesquisou sobre a organização, ele descobriu fatos interessantes e, ao mesmo tempo, grotescos sobre sua doutrina “pacífica” e “salvadora”.
Diferente dos manifestos políticos da 4 de Julho, os manifestos religiosos dos clérigos demonstravam um forte apelo à conversão. Para convencer as pessoas, eles exibiam fatos históricos, as causas sociais e as origens da instituição em panfletos, sempre admoestando-os à uma beatitude póstuma chamada de Salvação.
Por fim, é uma organização notória por sua hierarquia eclesiástica, seu fundamentalismo religioso e seus integrantes fanáticos. Entretanto, difere-se totalmente das doutrinas pacíficas e conciliadoras das religiões judaico-cristãs do século 21.
O profeta pergunta:
- Então você é o famoso Nathan?
Um pouco lisonjeado, o rapaz responde:
- Sim.
- Nathan – pondera ele – o Inimigo de Estado que a mídia fala tanto. Não sei o que aconteceu no Setor L, mas creio que não foi sua intenção causar tantos problemas, não é mesmo? Na verdade, acho que foi um grande infortúnio você estar lá.
O rapaz se surpreende.
- Após todo esse tempo, você é a segunda pessoa que me fala isso.
- Mas, apesar do infortúnio, você é o Inimigo de Estado hoje. Meu rapaz, responda-me uma coisa, você se sente um privilegiado?
Nathan se intriga.
- Definitivamente não. Eu nunca quis isso, mas hoje reconheço que nossa luta é mais importante do que o que eu quero ou não.
- E é exatamente por isso que está aqui, não é? Por essa luta?
Convictamente, ele responde:
- Sim.
Ponderando um pouco, John August pergunta:
- E você gosta de lutar, senhor Nathan?
O profeta lhe pergunta algo sensível. O rapaz é pesaroso ao responder.
- Não, eu não gosto.
Ele parece desacredita-lo.
- Você está ciente de que agora é o Inimigo de Estado, não é?
Perspicaz, o rapaz responde:
- Acho que todos aqui somos.
- Não. – corrige ele – Para as corporações, somos uma facção terrorista, um bando de criminosos qualquer. Mas você... Você é o Inimigo de Estado declarado, um imenso perigo à segurança pública. Seu ativismo é perigoso, pois ameaça o poder incontestável das corporações, dando às massas a ilusão da libertação.
Referindo-se aos clérigos, ele ousadamente pergunta:
- Está dizendo que eu sou mais perigoso do que os próprios terroristas?
Virando-se para o altar, o profeta discursa:
- Terroristas? Olhe ao redor, Nathan. O que a instituição dos Clérigos do Recomeço representa para você? – antes que pudesse responder, o profeta continua – Trazemos correção e direção à metrópole, mas também o juízo e a justiça. Já trouxemos a Religião, agora traremos a Espada. Nós somos a ordem à essa metrópole gananciosa e caótica. Portamos a paz em oposição aos que carregam o tormento. Pregamos a fé àqueles que estão perdidos. Pela fé, pela palavra e pela verdade conquistaremos a vitória, instaurando um novo regime nesta Babilônia corporativa. Aboliremos seu mundanismo e então criaremos um novo Estado, um governo eclesiástico baseado na fé. Não somos enganadores e populistas, não agimos segundo o mundo e não buscamos a sabedoria dos homens. Não queremos fazer política mudando um sistema falho por outro corrupto. Não somos como o mundo que se deixa guiar por homens cegos para ambos caírem na mesma cova. Trazemos a justiça de Deus! Não se pode ser amigo do mundo e ser amigo de Deus, pois quem deseja ser amigo do mundo se faz inimigo de Deus. A Igreja governará através das doutrinas de nossa santíssima religião.
O rapaz se intriga. Sem poder resistir, ele novamente se deixa levar por suas convicções, debatendo com um líder faccioso. Ele diz:
- Igreja e Estado devem se separar para que haja um governo justo. Não se deve impor a religião nos cidadãos e nem manipular a sua fé. Pode um líder espiritual governar um sistema político sem misturar legislação institucional com ortodoxia eclesiástica?
O profeta se surpreende com seu conhecimento. Virando-se novamente, ele encara Nathan nos olhos.
- Nós bem sabemos da importância da política, da economia, do comércio e da indústria, mas nós também sabemos de seus malefícios. Os avanços tecnológicos prejudicam as pobres almas sem direção. O que fez a tecnologia em todos esses anos além de desvirtua-las, corromper-lhes a fé e, ultimamente, destruir o mundo? O desenvolvimento tecnológico será reservado apenas à nossa organização, sendo abolido do resto da sociedade, hoje profanada físico e mentalmente pelos abomináveis implantes bioprotéticos e neurais.
Indignado, Nathan pergunta:
- Pretende afogar a sociedade na ignorância, dando largos passos de volta à Idade Média?
- A ciência afastou as almas de Deus. O materialismo alienou suas mentes e a tecnologia profanou seus corpos com objetos estranhos perante os olhos do Senhor. Os valores morais foram substituídos pela ganância e pelo consumismo. Vamos reverter essa obra de demônios e transformar a condenação em salvação. Os Clérigos do Recomeço expurgarão Sonata de toda a heresia propagada ao longo desses anos. Toda abominação e blasfêmia será finalmente arrancada de seu coração impuro.
John August parece delirar ao falar do dia da tomada do poder pelos Clérigos. Os fiéis também vibram, exaltando esse dia. Nathan tristemente percebe que estava em outro antro de fanáticos enlouquecidos.
Desafiante, o rapaz pergunta:
- Então é essa a mensagem que vocês querem passar? Clérigos armados e violentos condenando inocentes à morte? É dessa maneira que querem restaurar a Igreja?
Ao ouvi-lo, os membros se iram com a sua ousadia. John August sorri e então responde:
- Creio que você não entendeu nossas intenções. Sim, meus paladinos portam armas e muitos julgam nosso ativismo como terrorista. Isso é aceitável já que ninguém desarmado vence uma revolução. Mas nem tudo será esse mar de sangue que você imagina ser. É claro, tomar o poder e criar uma nova sociedade não será um trabalho fácil, mas em nosso governo reinará um líder benevolente e atento às necessidades do povo.
Nathan arrisca uma pergunta, já suspeitando da resposta.
- E quem será esse líder?
O profeta responde:
- Eu.
Então os membros intitulam o profeta John August como “Vossa Santidade”. Ele recebe a veneração de seus seguidores, humilde e honrosamente, abençoando-os.
Ignorando aquela bando de malucos, Nathan vai direto ao assunto.
- “Eminência”... – diz ele, com ironia – Venho lhe propor uma aliança entre os Clérigos do Recomeço e o Submundo.
O profeta parece não compreender o rapaz.
- Nathan, vejo que você veio de longe e tem trabalhado bastante para encerrar a rebelião. Está tarde, você e seus companheiros devem estar cansados. Rogo-lhes que passem a noite em nossa sede. Discutiremos este assunto amanhã. Até lá, pondere nas palavras que eu te falei.
Sentindo-se ameaçado, o rapaz pergunta:
- Pretende nos prender aqui?
John August ri.
- E repetir o erro dos Trans-humanistas? É claro que não. Nosso compromisso é com a caridade. Não estamos aqui para prender ninguém, afinal, esta catedral não é um cárcere para os descrentes e os hereges.
Nathan não se convence.
- Por que eu confiaria em você? Após tudo o que aconteceu, como eu poderia?
Pacientemente o profeta responde:
- Vejo que há muitas dúvidas em sua mente. Descanse primeiro. Meus cardeais os levarão aos seus aposentos. Se depois de amanhã você quiser ficar e se juntar à nossa causa, nós o receberemos de braços abertos.
Então os cardeais de John August aparecem. Eles vestem longas roupas vermelhas e portam rifles em suas mãos. Apesar do conclave pertencer à extinta igreja católica, a facção utilizava-se desse título para designar seus mais valorosos soldados.
Os runners rejeitam o convite de John August, mas, pela diplomacia e aliança com os clérigos, Nathan não tem outra escolha.
Desconfiado, o rapaz então se deixa levar por aqueles homens.

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