terça-feira, 3 de agosto de 2021

Sonata - 11 - 4 de Julho

 


O aerocarro de Maynard tem muitos segredos. A Inteligência Artificial é como um copiloto que o mantém informado constantemente sobre o ambiente ao redor. No para-brisa, as vias virtuais aparecem junto com informações de espionagem. Elas exibem dados confidenciais dos condutores próximos, como detecção de armas, transporte de substâncias ilícitas e histórico criminal. A polícia passa várias vezes por perto, mas são incapazes de detectá-los naquele enxame de aerocarros em Sonata.

- Eu não entendo... – diz o agente – Os noticiários não mencionaram seu nome, nenhum Toque de Recolher foi instaurada e não vejo nenhum Securitron rondando as passarelas.

- Isso pode ser bom. Assim poderei fugir para a superfície. – responde Nathan.

- Você sabe que agora é um Inimigo de Estado, não é? Se você falar o que sabe para as pessoas certas, poderá causar uma insurreição.

“Inimigo de Estado?”, pensa Nathan. “É assim que me chamam agora?”.

- Ninguém se voltaria contra as corporações. – responde ele, ingenuamente.

O mercenário ri.

- Faz ideia de quantos extremistas existem só esperando o momento certo para se rebelar?

Eles seguem seu caminho. Maynard pega uma avenida para um dos distritos residenciais do Setor A.

No Setor A ainda predomina o clima de expansão urbana. As máquinas de construção e os operários semi-robóticos estão presentes, sendo eles os responsáveis pela construção da sociedade do amanhã.

O aerocarro se aproxima de um distrito chamado Mecanicistas, sobrevoando as obras de expansão financiadas pela Electro Core. O aerocarro mergulha entre as passarelas até Maynard parar em um estacionamento no meio de uma megatorre.

Eles desembarcam e encontram um lugar úmido e cinzento. Enormes hélices nas paredes renovam o ar e fossos de luz iluminam o ambiente. Naquela hora do dia, tudo parecia silencioso e abandonado. As passarelas estavam vazias, as luzes dos corredores piscavam e os elevadores pareciam quebrados há anos. Ao descerem as escadas, Nathan toca o corrimão e o vê enferrujado. “E pensar que esse é um dos distritos mais recentes de Sonata”, pensa ele.

Alguém aparece entre os aerocarros e grita:

- Parados!

Os dois veem um homem apontar-lhes um fuzil. Nathan o observa. O homem veste uma farda bege com camuflado digital. Em seus pés ele vê coturnos cor de areia. Em sua cabeça ele nota um capacete com viseira. Em seu ombro há uma bandeira de cores vermelha, azul e branca que Nathan não consegue reconhecer. Atrás deles, outros homens armados aparecem também, cercando-os.

- Abaixem as armas! Eu sou o agente Maynard Cuisset! Vim trazer o pacote!

“Pacote?”, intriga-se o rapaz.

Ao abaixarem seus fuzis, o homem à frente diz:

- Está atrasado. Era para você ter chegado ontem.

- Tive contratempos. – responde ele, improvisando.

Em seguida, eles os deixam passar. Nathan os observa. Aquela era uma milícia paramilitar composta de soldados fanáticos com um manifesto político. Entrando em um andar da megatorre, eles o encontram decorado de bandeiras, cartazes, frases de ordem e citações históricas nas paredes. Todos os apartamentos têm suas portas abertas e servem de compartimentos naquele grotesco Quartel-General. Os soldados, “políticos” e simpatizantes andam calmamente pelos corredores, sem inibição. Eles andam com fuzis nas costas, pistolas nos coldres e arquivos em suas mãos.

Nathan então reconhece a bandeira. Era a bandeira do velho país, agora levemente alterada à nova causa dos pseudo-revolucionários americanos. As bandeiras estão em toda parte, algumas contendo um símbolo, uma espécie de brasão. Ele vê uma águia careca de asas abertas segurando um ramo e um punhado de lanças nas patas. Em seu bico há uma faixa com uma frase. O rapaz lê “E Pluribus Unum”, mas ele não sabe o que significa.

Eles entram em um apartamento abarrotado de servidores. Os técnicos usam computadores com cabos conectados em seus crânios e óculos de realidade virtual para navegar no ciberespaço. “São hackers”, pensa ele. Vestindo uma requintada farda militar, um homem observa atentamente as informações aparecerem nos monitores de LCD. Ele tem próteses biomecânicas, visão aprimorada, implantes no crânio e, com certeza, uma dezena de implantes ilegais espalhados pelo seu corpo.

- Estou atrapalhando? – pergunta Maynard.

O homem se vira e, ao vê-los, responde:

- Está atrasado.

Sorrindo, o agente o cumprimenta.

- Olá, George. Eu trouxe o pacote, como prometido.

O líder do 4 de Julho é um homem sério e objetivo. Ele olha para Nathan em silêncio, como se estivesse analisando-o e isso deixa o rapaz muito desconfortável. George então os leva para um apartamento com uma grande mesa de reunião no centro. Ao fechar a porta, ele diz:

- Nathan, você é bem famoso, sabia? Essa cidade tem milhões de habitantes, muito maior do que qualquer outra antes de 2057, mas você foi um entre os milhões... – comenta ele, dando ênfase às suas palavras – que viu o que existe no lado de fora da Contenção. E você ainda está vivo. Estou impressionado.

O rapaz olha ao redor e gagueja antes de responder.

- Não foi minha intenção destruir minha vida. Eu não quis nada disso.

- O seu arquivo no Ministério da Informação diz o contrário. Você é filho de criminosos políticos e, também, um potencial agitador.

- Eu sou inocente. É isso o que importa.

George deixa escapar um sorriso. Andando pela sala, ele discursa:

- De acordo com o Ministério da Segurança Pública, em Sonata existem três tipos de punição: Detenção, Execução e Banimento. A Detenção tem caráter “filantrópico”, pois procura recuperar o indivíduo, livrando-o da criminalidade; a Execução é, além de punitiva, uma ferramenta reguladora, pois elimina os criminosos violentos e diminui a superpopulação da metrópole; o Banimento é a sentença final, a estrela da opressão corporativa, quase um mito entre aqueles que vivem sob a sombra desse terror. É o castigo dado principalmente aos presos políticos, ativistas, agitadores e terroristas, qualquer um que espalhe uma causa ideológica que resista, combata e despreze a ditadura corporativa. Infelizmente para você, Nathan, você seria banido de Sonata, pois com seu histórico pessoal e familiar, você seria classificado como um terrorista.

Nathan sente calafrio. Naquele momento ele percebe que é mais perigoso do que uma organização terrorista inteira. Ele responde:

- Já me chamaram de Inimigo de Estado uma vez, mas não sou eu o terrorista aqui.

- Certamente. – responde calmamente o homem – Mas você fugiu de uma penitenciária, foi visto com um mercenário e hoje está no QG de uma organização que propaga o terror. Quem acreditaria em sua inocência agora?

Então o rapaz se cala. George o tem em suas mãos.

- O que você quer comigo?

- Informação. – responde ele, como se fosse a coisa mais óbvia – O que pode ser tão importante para fazer as corporações o prenderem simplesmente por caminhar nas ruínas?

- Não estou disposto a dar informações a um grupo terrorista.

- Oh, terrorista é uma palavra muito forte... – sorri ele – Somos ativistas, revolucionários, libertadores... Lutamos pela soberania americana na metrópole e a deposição do regime fascista das corporações. Somos constitucionalistas, lutamos pela liberdade e independência, assim como os nossos antepassados o fizeram nos anos de 1775 a 1783.

Sem querer admitir, Nathan demonstra interesse.

- Essa organização tem origens históricas?

- Mas é claro! E suas origens são mais antigas do que você pensa.

“A Revolução Americana foi a rebelião das treze colônias britânicas que, em 1776, se declararam independentes, passando a se chamar de Estados Unidos da América. A guerra teve origem na resistência contra os altos impostos sancionados pelo Parlamento britânico, dos quais os americanos afirmavam ser inconstitucional. Protestos patrióticos surgiram, desde boicotes a ataques a barcos ingleses em Boston. Os ingleses contra-atacaram, e os patriotas responderam criando um governo ilegítimo na província de Massachusetts. As outras doze colônias apoiaram o levante e, juntas, criaram um Congresso Continental, coordenando a resistência e organizando comitês que, efetivamente, tomaram o poder dos ingleses. Após uma série de batalhas e eventos, grandes nomes surgiram na História dos Estados Unidos, como o general George Washington, responsável pela vitória em Boston em março de 1776. E nesse ano foi assinada a famosa Declaração de Independência, no dia 4 de Julho, tornando-se a maior comemoração patriótica dos Estados Unidos”.

George fala com tremenda convicção, como se fosse um apaixonado professor.

Nathan pergunta:

- Mas o que aconteceu depois? O que houve com os Estados Unidos e seu governo?

- Não sabemos. – lamenta-se ele – Muito pouco foi descoberto sobre o período antes da catástrofe mundial. Pandemias globais, escassez de recursos, guerra nuclear... Muitas são as teorias, é difícil dizer. O que se sabe é que os Estados Unidos entraram em colapso e simplesmente deixaram de existir.

Como toda conversa que Nathan vem ouvindo nos últimos dias, ele acha isso muito difícil de acreditar.

- A nação americana entrou em colapso devido a uma crise global?

- Não apenas os Estados Unidos, mas muitos países também. O mapa político foi alterado e nunca mais se recuperou. Infelizmente não sabemos explicar por que isso aconteceu, mas o mundo se fragmentava muito antes da Catástrofe de 2057. Há muitos mistérios envolvidos e só as corporações conhecem esse segredo.

Mais uma vez Nathan se convence de que há uma conspiração em Sonata.

Ponderando, ele pergunta:

- Por que vocês querem o retorno de uma nação decaída e condenada ao passado?

Ao ouvirem-no, George e os ativistas se ofendem gravemente.

- Nossa organização é um movimento separatista destinada a restaurar o poder! – responde ele, quase rosnando – Nosso povo foi o responsável pela consolidação do Ocidente. Nossa nação venceu os regimes totalitários europeus. Nosso país liderou a OTAN. Por muito tempo a paz e a liberdade foram mantidas à custa do nosso sangue! E iremos devolver a soberania da metrópole a nós, os verdadeiros americanos!

O rapaz pondera antes de perguntar:

- Sua organização não se importa que, em sua onda de violência separatista, muitos inocentes podem morrer?

- Não será nada comparado aos milhões de americanos que morreram em combate enquanto levavam a paz às terras estrangeiras. O que fazemos aqui é recuperar o que é nosso por direito. Tiraremos o poder das corporações e o entregaremos aos únicos merecedores de governar a metrópole, a 4 de Julho.

O que o rapaz ouve são as palavras de um futuro ditador.

- E quanto aos não americanos? – pergunta ele – Quero dizer nós, de descendência canadense, teremos lugar em seu governo pró-americano?

George faz um sorriso irônico. Ao invés de responde-lo, ele muda de assunto.

- Preste atenção. O que você ouviu aqui não ensinam nas escolas de Sonata. Essa metrópole será nossa, nossos pais fundadores nos confiaram essa tarefa. Que minhas palavras te sirvam de inspiração e lhe mostrem o caminho quando a luz da verdade resplandecer em sua vida.

Então o homem se vira e começa a conversar com Maynard.

Nathan conhece a verdade obscura. Ele sabe do plano sinistro que transformou as ruínas do velho país em um pátio industrial, e seus habitantes em cobaias de laboratório. O dilema surge em sua mente. Deveria ele confiar nos terroristas, revelando-lhes a verdade ou manteria ele o regime corporativo intacto, consolidando-os no poder?

George se senta à mesa e então diz:

- Nathan, diga-me detalhadamente o que aconteceu no Setor L.

- Eu direi com uma condição. Me digam por que essa informação é tão importante. O que vão fazer com ela?

Respirando fundo, o homem se encosta em sua cadeira. O rapaz é muito questionador.

- Usaremos a informação para abalar o controle que as corporações detêm. Revelaremos a verdade, traremos à luz seus segredos. Vamos difundir a notícia de que não estamos sozinhos no mundo. As massas irão se revoltar, elas questionarão o governo autoritário que as manipulam. Haverá protestos, manifestações, greves, rebeliões... A desestabilização os enfraquecerá.

- Isso me parece mais prejudicial do que bom. Que proveito você tiraria disso?

- Com os meios de produção parados, as bases do sistema corporativo irão cair. Sua informação será o pontapé inicial da Revolução. Ela causará a greve geral, necessária para iniciarmos a luta armada e tomarmos o poder.

Nathan se assusta. Sua informação é mais valiosa do que pensa.

- E se, hipoteticamente, vocês tomarem o poder, o que será depois?

- Instauraremos uma República Federativa Constitucional Presidencialista, pacífica e democrática, alinhada aos ideais iluministas de sua origem: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Criaremos uma nova Constituição. Os ministérios trabalharão em defesa do povo, e não contra ele. Será o triunfo máximo dos revolucionários e um novo começo... para os americanos.

O líder da 4 de Julho tem domínio total no assunto e fala com muita clareza, de modo admirável. Mas, novamente, ele discrimina o resto dos habitantes de Sonata em prol de seu próprio povo. Nathan percebe isso em sua voz.

O rapaz não se convence. Não é possível confiar seu conhecimento a um bando de fanáticos ideológicos. Porém, ele tem uma dívida de gratidão com a 4 de Julho, afinal eles os salvaram da prisão.

- Me esqueci de mais uma coisa. – diz Nathan e imediatamente os facciosos lhe fazem um olhar de irritação e tédio – Eu estou doente. Nas ruínas eu fui infectado por um vírus...

- Vírus? – pergunta o líder.

Maynard diz:

- Ele alega ter sido infectado por um vírus e agora tem poucas horas de vida.

- É contagioso?

O mercenário olha para Nathan, não sabendo o que responder.

- Eu não sei. – responde o rapaz – Preciso encontrar um homem chamado Database. Ele vive na superfície e é o único que pode me curar.

Os ativistas se entreolham.

- Database...?

- Sim. Preciso que me prometam me levar até ele e então eu direi tudo o que sei.  

Falando de maneira austera, o líder responde:

- Você tem a nossa palavra de que o ajudaremos a encontrar sua cura.

Eles então ficam em silêncio por alguns segundos. Nathan não confia em George, mas não há mais tempo para decidir. Os olhos estão fixos nele e ele rapidamente pondera na forma de como vai mentir. Ele responde:

- Está bem, eu direi o que sei.

Contra sua vontade, Nathan organiza seus pensamentos e se prepara para descrever como tudo começou. George, seus assessores e até o agente Maynard se silenciam, querendo ouvir o que ele tem a dizer.

Então algo acontece.

O alarme soa de repente. Ao ouvir um alvoroço se formando nos corredores, um dos ativistas aparece e, ofegante, informa:

- General Washington, a polícia invadiu o nosso perímetro! Precisamos da camuflagem agora!

Então Nathan se assombra. O líder da 4 de Julho, o mesmo que expressa seus ideais com sólida convicção, denomina a si mesmo como “General George Washington”?

- O quê?! Como eles nos acharam? Nunca deixamos rastros! – o líder chama o agente e diz

- Maynard, me acompanhe. Posso precisar de ajuda.

Os dois saem da sala, deixando Nathan sozinho. Com a porta fechada, ele ouve os alarmes e a correria no corredor. O rapaz espia pela janela, tentando ver o que está acontecendo lá fora. Confuso, ele só vê a escuridão e o vapor exalando dos dutos.

George retorna com Maynard e mais dois hackers.

- Isso é sabotagem! Abaixaram nossas defesas e nos deixaram expostos!

- Mas quem faria isso? – pergunta Maynard.

- Eu não sei. Talvez os Puristas, os Trans-humanistas ou os Clérigos do Recomeço. Temos muitos inimigos, todos disputamos o poder. – responde o general.

- Devemos encerrar essa guerra ideológica agora se quisermos atacar as corporações. – comenta um hacker.

- Eles nos atacam jogando o inimigo mútuo contra nós. Obviamente hackearam nossos dispositivos, mas como conseguiram passar pelos firewalls? Nossos hackers os programaram para serem intransponíveis! Quem teria tamanha tecnologia?

Enquanto os ativistas discutem, explosões são ouvidas ao longo do andar. Então a luz avermelhada da Polícia invade a sala.

- Eles estão aqui! Defendam a base! Evacuem o equipamento! Agora!

- Espere um pouco... – interrompe um ativista – Eles não são a Polícia! Esse vermelho... – reconhece ele – É a Bushido!

O rapaz se assusta. Ele referia-se a outra facção terrorista, porém composta majoritariamente de japoneses. Semelhante a 4 de Julho, essa facção também acredita no ressurgimento de seus antigos governos. Mas a Bushido rivaliza diretamente com a 4 de Julho, pois quer a metrópole sob o domínio completo do imperialismo japonês.

Tiros são ouvidos. Aparentemente os invasores possuíam armas lasers. De repente há uma explosão e a janela voa em milhares de pedaços, lançando Nathan e os outros contra a parede. A luz se apaga e Nathan consegue ver as miras lasers riscando a escuridão. Então soldados com armaduras enormes e óculos de visão noturna aparecem, descendo a lateral do prédio pendurados em cordas.

Os ativistas se assustam. Antes dos invasores apertarem o gatilho, George tomba a mesa e a usa como cobertura.

- Corram! – grita ele.

Os soldados da 4 de Julho aparecem e trocam tiros com os invasores. Alguém lança uma granada e a explosão atira os invasores para longe, fazendo-os cair no enorme fosso entre as megatorres.

Apavorado, Nathan se arrasta para fora do apartamento. Ao sair, ele vê a confusão no corredor. As luzes dos alarmes giram freneticamente. A sirene alta irrita seus ouvidos. Os ativistas correm de um lado ao outro, alguns feridos e outros com armas nas mãos. Nathan apoia-se na parede e, ao tossir, expele sangue.

Caminhando lentamente, ele se aproxima de outro apartamento quando a porta se explode de repente. Continuando a caminhada, outro apartamento se abre e ele vê pessoas em chamas correndo por socorro. Mais adiante outra porta se abre e um ativista é lançado contra a parede do corredor.

Nathan consegue ver os soldados de elite da 4 de Julho. Eles vestem fardas camufladas para deserto, com botas cor de areia e coletes a prova de balas. Também usam bolsas d’água nos braços, óculos de proteção, bolsas de perna, fuzis lasers, granadas em seus peitos, capacetes robustos e muito mais. Aqueles homens realmente estavam preparados para a guerra.

- Abaixem-se! – grita alguém atrás dele.

Virando-se, ele vê um foguete brilhante aproximar-se de suas costas. Lançando-se ao chão, o foguete continua seu trajeto e se explode em algum lugar adiante. Nathan não foi despedaçado por um triz. As chamas se alastram, os sprinklers espirram água e logo todo o ambiente torna-se um misto de fogo, água e fumaça.

O rapaz se senta no chão. Os tiros atravessam as paredes e o revestimento suja sua cabeça. Não havia tempo para descansar, ele tinha de fugir dali imediatamente.

Passando por um apartamento, ele vê ativistas atirando em um grupo de soldados vestidos de vermelho. Nathan sente medo. “Os invasores usam máscaras de demônios!”.

Outro apartamento está totalmente destruído e há vários mortos pelo chão. A mobília retrátil move-se de um lado ao outro, soltando faíscas com o mal funcionamento. Um buraco na parede revela uma escadaria ao lado. Ao vê-la, o intenta fugir.

Então algo acontece.

A janela se explode de repente, lançando Nathan para trás. Vozes são ouvidas entre a fumaça, mas a audição é muito difícil devido a explosão. Alguém se aproxima pelos estilhaços espalhados no piso. Passos determinados avançam até se depararem com ele. E então Nathan consegue ver.

Uma mulher está em pé à sua frente. Ela veste roupas apertadas e pretas, suas botas vão até os joelhos e há um rolo de corda em seu peito. Mas algo lhe chama a atenção, ela veste uma inconfundível máscara ninja, ocultando seu rosto.

“Uma runner...?”, pensa ele.

Aparentando ter dificuldade em enxergar, ela retira a máscara e chacoalha os cabelos. Nathan se encanta. Seus cabelos são mais dourados que os raios de sol. 

A mulher o encara. Seu olhar é frio e cruel, mas Nathan não se importa. A expressão do rapaz é de puro assombro. Sem dizer uma única palavra, ele apenas pensa. Nathan está diante da mulher mais linda que ele já viu.

Alguém grita da janela:

- Laura! Ele está aí? Você já o pegou?

O rapaz sente seu coração disparar. Ele não sente medo, apenas o agradável e crescente sentimento de amor. A mulher hesita ao responder. Olhando o rapaz ferido e assustado aos seus pés, ela não entende como pode haver carinho em seus olhos. Então Nathan percebe. Ela sentiu o mesmo por ele também.

Por fim a mulher responde:

- Não... não há ninguém. Ele não está aqui.

Virando-se, ela caminha de volta à janela e vai embora. Mas antes que pudesse sair, Nathan a chama:

- Laura...!

A mulher o ouve e olha para trás. Uma nova onda de fumaça se ergue e, quando a visão fica nítida novamente, ela havia desaparecido.

Reunindo suas forças, o rapaz tenta se aproximar da janela quando alguém diz:

- O que você está fazendo? Temos que fugir daqui!

Um ativista da 4 de Julho o agarra e o leva para o buraco na parede. Nathan atravessa, mas antes que seu companheiro pudesse acompanha-lo, vários tiros atravessam suas costas.

Ainda confuso, ele sobe as escadas, deixando aquele banho de sangue para trás. Muitas pessoas correm ali também, mas são simples residentes da megatorre. Nathan se entristece. Os terroristas não se importam com os inocentes pegos no fogo cruzado.

Entrando em outro andar, ele vê a porta do elevador se abrindo. Uma multidão de desesperados o vê se abrindo e corre em sua direção. Apertando rapidamente o botão, as portas se fecham e ele se livra daquelas pessoas.

O elevador sobe até chegar ao terraço. Ao abrir as portas, ele sente o vento frio da noite e se abraça. Correndo ao ar livre, ele passa pelos aerocarros estacionados e pelos dutos de ventilação. Não havia polícia ou moradores ali. Não havia ninguém. Ele ergue a cabeça e vê o horizonte da metrópole. “O que é que está havendo?”, pergunta-se ele.

Ao passar por uma parede, a cauda de um rifle acerta seu rosto e ele cai no chão. A visão é confusa, mas ele consegue ver. Soldados permanecem ao seu redor e o encaram. Eles vestem armaduras vermelhas e capacetes com máscaras. As máscaras fazem carrancas horríveis, como se fossem demônios. Ele vê ombreiras, caneleiras e proteção para as coxas. A armadura envolve seus peitos e há faixas amarradas às suas cinturas. Os capacetes são longos e alguns têm lâminas e chifres. O rapaz vê lança-foguetes e fuzis em seus braços, mas não é isso que o assusta. Aqueles homens portavam longas e afiadas espadas, com lâminas curvas e cabos enfaixados.

“Katanas”, pensa ele.

- Kyaputen, nós o pegamos.

Outro homem aparece e se curva para enxergá-lo melhor. Subindo sua horripilante máscara, Nathan consegue ver longos fios grisalhos de barba em seu bigode e seu queixo. O homem sorri, fazendo seus olhos puxados se fecharem ainda mais.

- Ora, ora... – reconhece ele – Como vai, Nathan-san? Você nos deu muito trabalho, sabia?

O sotaque do homem torna difícil entendê-lo.

- Quem são vocês...?

- Não se preocupe. Somos amigos... Tomodachi. – afirma ele, então ele se levanta e ordena – Podem levá-lo!

Então um soldado aparece e bate em seu rosto, fazendo-o desmaiar imediatamente.

 

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