domingo, 8 de agosto de 2021

Sonata - 21 - O Chamado do Mercenário

 


Correndo pelas passarelas, Maynard foge. Atrás dele estão alguns membros da Frente Ateísta, outra facção terrorista que também contamina Sonata.

Devido à forte presença comercial naquele distrito, as passarelas estão abarrotadas de barracas de ambulantes. Todos falam alto e chamam seus clientes, na mais antiga maneira de promover seus produtos. O cheiro de comida lhe abre o apetite, apesar de estar fugindo de alguns fanáticos e homicidas atrás de si.

Os transeuntes atrapalham seu caminho, forçando-o a empurrá-los e causando grande confusão. Nos televisores Maynard vê o rosto de Nathan, assim como em centenas de cartazes colados nas paredes. Seu discurso, que todos se referem como a “Grande Revelação”, repete-se incessantemente pela metrópole, tornando-se um vídeo tão viral que nenhuma contramedida foi capaz de censurar.

O distúrbio social generalizado estremeceu as fundações da distópica sociedade, mergulhando-a em uma espiral de caos e violência. Para os cidadãos que têm vidas confortáveis baseadas no entretenimento e no consumo, a consequência foi trágica. Para os cidadãos que são explorados diariamente nas desgastantes linhas de produção, a desordem não pôde vir em melhor hora. E para pessoas como Maynard, que lucram do caos e da violência, a desordem não passa de mais um motivo para tratar a metrópole como um parque de diversões.

Os ateístas o avistam e disparam suas armas. Os tiros atingem garrafas de vidro, fazendo-as se estourar. Ao perceber a ação terrorista diante de seus olhos, as pessoas se desesperam, começando a correr pela passarela. Algumas se deitam e são pisoteadas, outras correm na direção dos ateístas e são baleadas, e outras se atiram do parapeito, caindo para a morte certa lá embaixo.

Ativando uma bomba de fumaça, Maynard a lança e continua correndo. Logo toda a passarela se desaparece na fumaça, obstruindo os aerocarros sobrevoando acima e abaixo.

Ao criar a distração necessária, ele pula sobre alguns dutos e escala a lateral da megatorre. Os coloridos painéis de neon brilham, ofuscando-o, mas Maynard prossegue sem hesitar. Estando à beira do precipício, seu pé se escorrega e ele se empalidece. Paralisado, ele observa os fragmentos do edifício caírem entre a infindável frota de aerocarros lá embaixo.

Prosseguindo, Maynard pendura-se em um cabo de aço e desce à outra torre. As pessoas observam atônitas a passarela acima ser tomada por gritos e uma fumaça branca. Aproveitando sua distração, Maynard põe as mãos nos bolsos e passa discretamente, evitando chamar a atenção.

Ao longe ele vê um velho gesticulando e falando sozinho. Suas roupas são velhas e rasgadas, a barba em seu rosto é comprida e ele fala impetuosamente, esforçando-se para ser ouvido. O velho também avista Maynard e o encara. “É apenas um velho louco e doente”, pensa ele.

Sobrecarregados com a eclosão de distúrbios, a opressão policial se abrandou e aumentou o número de vagabundos por aí. Ignorando-o, o agente continua seu caminho quando o velho se põe à sua frente. Ele aponta para algo logo atrás e Maynard, incomodado, decide não ver. Então alguém grita atrás de si:

- Cuidado!

Um aerocarro repleto de bombas voa em direção à passarela. A explosão é tão forte que ilumina a movimentada noite, lançando Maynard e os outros vários metros pelo ar.

Em meio a intervalos de consciência, Maynard ouve gritos e prantos. Ele sente que alguém está puxando-o pelas roupas. Pessoas correm ao seu lado, fugindo em meio a corpos pelo chão. Várias vezes ele as ouve dizerem “atentado terrorista”.

- Não se preocupe. – diz alguém – Estou levando-o para um lugar seguro.

Recobrando a consciência, Maynard segura o pulso do desconhecido e o puxa para perto de si. Ele se surpreende. É o velho.

Encostando-o na parede do túnel, o velho gesticula freneticamente. Ele parecia estar delirando.

- Por que está me ajudando? – pergunta o agente.

O velho olha para o lado e vê as pessoas com manchas de sangue em suas roupas. Apontando para elas, o velho responde:

- Isso é o que eu vejo todos os dias. Morte e sofrimento em toda parte! Eu tento avisá-los, mas eles sempre me ignoram. Por que avisá-los então?

Maynard o puxa pela camisa e diz:

- Mas do que é que você está falando?

- Por que se importa? Ninguém nunca se importa. E quando não se importam você morre por dentro, antes mesmo de morrer.

Sem conseguir entendê-lo, o agente pergunta:

- Quem é você, afinal?

- Sou isso que você está vendo, um velho decrépito à beira da loucura. Meu corpo está se deteriorando, minhas doenças me consumiram. E agora esse câncer dentro de mim me destrói a cada dia. Quando eu estiver morto, vocês se lembrarão do que eu tentei dizer? Quando eu morrer, vocês se importarão?

O velho tenta expressar sua tremenda agonia. Ainda confuso, o agente pergunta:

- O que está tentando dizer?

- Você não entende? Não deixarei nada para trás se minhas palavras caírem em ouvidos surdos. Ouça, você tem que me ajudar, você tem que me ouvir! – o velho se controla antes de dizer – Eu sei o que está prestes a acontecer! O que ocorre aqui hoje é somente uma fração do que virá depois. Esse é o prelúdio de algo ainda maior!

O agente sorri dessa grande loucura. O velho se enfurece.

- Como eu odeio quando zombam de mim! Eu observo as pessoas, eu conheço cada um de seus comportamentos!

Cheio de altivez e desprezo, Maynard responde:

- Louco...!

O velho parece se consternar.

- Ouça-me, eu te imploro. Você é o único que pode detê-lo, que pode apelá-lo à razão! Não deixe que ele se engane, ideais nobres são sabotagens, liberdade é rebelião! Mais do que nunca, o futuro de nossa metrópole depende de você... – e então o velho conclui – Maynard!

O agente se intriga. Puxando-o novamente, ele pergunta:

- Como você sabe o meu nome?!

Mas, desvencilhando-se, o velho foge, correndo pelo túnel e desaparecendo na multidão. 

O agente fica parado ali, sem entender o ocorrido. Algo no piso chama sua atenção. Ele se abaixa e encontra um crachá. Em seu cabeçalho está escrito “Ministério da Informação”. Reconhecendo o rosto do velho, Maynard sussurra:

- Um informante... – sorri ele – O velho era um maldito informante...

Aquilo explicava por que ele sabia tanto.

Sem se importar, o agente se livra do crachá, põe as mãos nos bolsos e então continua seu caminho.

 

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