Correndo pelas
passarelas, Maynard foge. Atrás dele estão alguns membros da Frente Ateísta, outra
facção terrorista que também contamina Sonata.
Devido à forte
presença comercial naquele distrito, as passarelas estão abarrotadas de
barracas de ambulantes. Todos falam alto e chamam seus clientes, na mais antiga
maneira de promover seus produtos. O cheiro de comida lhe abre o apetite,
apesar de estar fugindo de alguns fanáticos e homicidas atrás de si.
Os transeuntes
atrapalham seu caminho, forçando-o a empurrá-los e causando grande confusão.
Nos televisores Maynard vê o rosto de Nathan, assim como em centenas de
cartazes colados nas paredes. Seu discurso, que todos se referem como a “Grande
Revelação”, repete-se incessantemente pela metrópole, tornando-se um vídeo tão
viral que nenhuma contramedida foi capaz de censurar.
O distúrbio
social generalizado estremeceu as fundações da distópica sociedade,
mergulhando-a em uma espiral de caos e violência. Para os cidadãos que têm vidas
confortáveis baseadas no entretenimento e no consumo, a consequência foi
trágica. Para os cidadãos que são explorados diariamente nas desgastantes
linhas de produção, a desordem não pôde vir em melhor hora. E para pessoas como
Maynard, que lucram do caos e da violência, a desordem não passa de mais um
motivo para tratar a metrópole como um parque de diversões.
Os ateístas o
avistam e disparam suas armas. Os tiros atingem garrafas de vidro, fazendo-as
se estourar. Ao perceber a ação terrorista diante de seus olhos, as pessoas se
desesperam, começando a correr pela passarela. Algumas se deitam e são
pisoteadas, outras correm na direção dos ateístas e são baleadas, e outras se
atiram do parapeito, caindo para a morte certa lá embaixo.
Ativando uma
bomba de fumaça, Maynard a lança e continua correndo. Logo toda a passarela se desaparece
na fumaça, obstruindo os aerocarros sobrevoando acima e abaixo.
Ao criar a
distração necessária, ele pula sobre alguns dutos e escala a lateral da
megatorre. Os coloridos painéis de neon brilham, ofuscando-o, mas Maynard
prossegue sem hesitar. Estando à beira do precipício, seu pé se escorrega e ele
se empalidece. Paralisado, ele observa os fragmentos do edifício caírem entre a
infindável frota de aerocarros lá embaixo.
Prosseguindo,
Maynard pendura-se em um cabo de aço e desce à outra torre. As pessoas observam
atônitas a passarela acima ser tomada por gritos e uma fumaça branca.
Aproveitando sua distração, Maynard põe as mãos nos bolsos e passa discretamente,
evitando chamar a atenção.
Ao longe ele vê
um velho gesticulando e falando sozinho. Suas roupas são velhas e rasgadas, a
barba em seu rosto é comprida e ele fala impetuosamente, esforçando-se para ser
ouvido. O velho também avista Maynard e o encara. “É apenas um velho louco e
doente”, pensa ele.
Sobrecarregados
com a eclosão de distúrbios, a opressão policial se abrandou e aumentou o
número de vagabundos por aí. Ignorando-o, o agente continua seu caminho quando
o velho se põe à sua frente. Ele aponta para algo logo atrás e Maynard,
incomodado, decide não ver. Então alguém grita atrás de si:
- Cuidado!
Um aerocarro
repleto de bombas voa em direção à passarela. A explosão é tão forte que
ilumina a movimentada noite, lançando Maynard e os outros vários metros pelo
ar.
Em meio a
intervalos de consciência, Maynard ouve gritos e prantos. Ele sente que alguém
está puxando-o pelas roupas. Pessoas correm ao seu lado, fugindo em meio a
corpos pelo chão. Várias vezes ele as ouve dizerem “atentado terrorista”.
- Não se
preocupe. – diz alguém – Estou levando-o para um lugar seguro.
Recobrando a
consciência, Maynard segura o pulso do desconhecido e o puxa para perto de si.
Ele se surpreende. É o velho.
Encostando-o na
parede do túnel, o velho gesticula freneticamente. Ele parecia estar delirando.
- Por que está me
ajudando? – pergunta o agente.
O velho olha para
o lado e vê as pessoas com manchas de sangue em suas roupas. Apontando para elas,
o velho responde:
- Isso é o que eu
vejo todos os dias. Morte e sofrimento em toda parte! Eu tento avisá-los, mas
eles sempre me ignoram. Por que avisá-los então?
Maynard o puxa
pela camisa e diz:
- Mas do que é
que você está falando?
- Por que se
importa? Ninguém nunca se importa. E quando não se importam você morre por dentro,
antes mesmo de morrer.
Sem conseguir
entendê-lo, o agente pergunta:
- Quem é você,
afinal?
- Sou isso que
você está vendo, um velho decrépito à beira da loucura. Meu corpo está se
deteriorando, minhas doenças me consumiram. E agora esse câncer dentro de mim
me destrói a cada dia. Quando eu estiver morto, vocês se lembrarão do que eu
tentei dizer? Quando eu morrer, vocês se importarão?
O velho tenta
expressar sua tremenda agonia. Ainda confuso, o agente pergunta:
- O que está
tentando dizer?
- Você não
entende? Não deixarei nada para trás se minhas palavras caírem em ouvidos
surdos. Ouça, você tem que me ajudar, você tem que me ouvir! – o velho se
controla antes de dizer – Eu sei o que está prestes a acontecer! O que ocorre
aqui hoje é somente uma fração do que virá depois. Esse é o prelúdio de algo
ainda maior!
O agente sorri
dessa grande loucura. O velho se enfurece.
- Como eu odeio quando
zombam de mim! Eu observo as pessoas, eu conheço cada um de seus comportamentos!
Cheio de altivez
e desprezo, Maynard responde:
- Louco...!
O velho parece se
consternar.
- Ouça-me, eu te
imploro. Você é o único que pode detê-lo, que pode apelá-lo à razão! Não deixe
que ele se engane, ideais nobres são sabotagens, liberdade é rebelião! Mais do
que nunca, o futuro de nossa metrópole depende de você... – e então o velho conclui
– Maynard!
O agente se
intriga. Puxando-o novamente, ele pergunta:
- Como você sabe
o meu nome?!
Mas, desvencilhando-se,
o velho foge, correndo pelo túnel e desaparecendo na multidão.
O agente fica parado
ali, sem entender o ocorrido. Algo no piso chama sua atenção. Ele se abaixa e encontra
um crachá. Em seu cabeçalho está escrito “Ministério da Informação”. Reconhecendo
o rosto do velho, Maynard sussurra:
- Um
informante... – sorri ele – O velho era um maldito informante...
Aquilo explicava
por que ele sabia tanto.
Sem se importar,
o agente se livra do crachá, põe as mãos nos bolsos e então continua seu
caminho.

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