Com Nathan em sua sala, Database se reúne com as facções por vídeo conferência. O clima de hostilidade e desconfiança era mútuo. Devido aos segredos e desavenças, não era prudente convidá-los para comparecerem pessoalmente ao Submundo.
- Boa noite, senhores. Eu, Database, chefe do Submundo na presença de Nathan Hill, o Inimigo de Estado, apresentaremos a estratégia a seguir. Nós atacaremos a corporação Electro Core, responsável pelo abastecimento de água e, energia da cidade. Isto debilitará a metrópole e principalmente, o esforço de guerra corporativo.
- Objeção. – responde Huxley, líder dos Trans-humanistas – Nossa organização prioriza a derrubada da corporação Bio Prótesis, responsável pela engenharia robótica e biomecânica. Desta maneira, a tecnologia destinada aos policiais, drones e Securitrons será interrompida, dando uma vantagem aos soldados de nossa facção.
Rindo no outro monitor, Nasier, líder da Resistência Purista, responde:
- É mentira! Nós sabemos que vocês não querem destruir a Bio Prótesis. Ao contrário, vocês querem se apoderar de sua tecnologia para aprimorar suas próprias aberrações biomecânicas e, assim, nos enfraquecer!
Huxley replica:
- Não, Nasier. Isso não será necessário. Seus soldados são apenas carne e ossos, diferente dos nossos, que são quase máquinas. Vocês já são fracos.
Então uma discussão se inicia. Database é obrigado a intervir.
- Senhores, creio que o tempo de todos é muito precioso para desperdiça-lo inutilmente. Este conselho foi criado para adotarmos a melhor estratégia para a Rebelião. Nasier, se você se sente prejudicado, sinta-se à vontade para nos apresentar a melhor estratégia.
- É claro. – responde o purista – Se for do interesse do conselho que os espólios sejam repartidos justamente e que ninguém saia em vantagem em relação ao outro, eu sugiro um ataque tático na corporação Cellgenesis.
Desta vez, é Huxley quem ri.
- Ora, mas quanto cinismo...! Esta é sua justiça? Mentir para todos perante o conselho? Vocês não querem destruir a Cellgenesis, vocês querem sua tecnologia para a criação de seus androides da classe Advance.
Nasier se espanta com seu conhecimento. Aparentemente, seu serviço de espionagem fez um ótimo trabalho.
O que o trans-humanista disse fazia sentido, pois a Cellgenesis dominava a engenharia genética e a nanotecnologia, essenciais para o poderio bélico purista.
- Você está bem informado, Huxley. Mas informação não será o bastante quando o atacarmos e acabarmos com vocês!
Database intervém mais uma vez.
- Vejo que há divergências na estratégia a adotar. Mas, para vencermos, precisamos de um ataque coordenado e, se possível, simultâneo nos alvos escolhidos.
- Negativo. – responde Tokugawa, líder da Bushido – O Inimigo de Estado nos arrastou para essa rebelião. Muitos morrerão combatendo. Se ele quiser que a participemos, ele deve vir junto ao confronto.
Ao ouvi-lo, o rapaz responde:
- Muitos já estão morrendo, Tokugawa-san. E eu assumo a total responsabilidade dessas mortes, tanto dos que já morreram quanto dos que morrerão no futuro. Eu me voluntario para ir junto aos confrontos, se desejarem. Em todos se for possível.
Então eles riem de sua coragem e imprudência.
Retomando a palavra, Database diz:
- Devemos decidir onde atacaremos primeiro. Electro Core, Bio Prótesis ou Cellgenesis. Que comece a votação.
Um a um eles escolhem o alvo. Para a frustração dos Puristas, Bio Prótesis é escolhida. Dawkins, o líder da Frente Ateísta, diz:
- Eu sugiro uma concentração de forças para o ataque. Não sabemos o que esperar lá em cima.
- Não. – objeta Washington, líder da 4 de Julho – Não devemos concentrar nossas forças. Devemos distancia-las e evitar sermos cercados pelo inimigo.
O americano tem razão. Concentrar as forças os colocará em um cerco.
- Então quem encabeçará o ataque à Bio Prótesis? – pergunta o ateísta.
- Os Trans-humanistas. – responde Nasier, incisivo – Se eles querem tanto a tecnologia, eles que sangrem para consegui-la.
Todos concordam.
A vídeo conferência termina e os monitores são desligados. Database olha para Nathan e responde:
- Prepare-se, Nathan. Esta noite você e os mecanicistas têm uma festa para irem.
§
Laura e Vertigo sobrevoam o Terminal Bio Prótesis. Eles veem a movimentada estação abaixo. Os aerotrens vêm e vão, enchendo as plataformas de transeuntes. Nathan vai em outro aerocarro, acompanhado de Huxley e de outros trans-humanistas.
O rapaz não sabe que Laura os acompanha naquela missão. Para ele, a garota é indiferente à causa do Submundo e, mais ainda, aos sentimento de seu coração. Recompondo-se, Nathan se controla. “Esta noite eu não posso ter distrações”, pensa ele. Mas era difícil não pensar nela.
“Nathan?”.
O hacker o chama pelo comunicador.
- Sim, Vertigo?
“Os runners já estão posicionados nos terraços. Os mecanicistas também. Aguardamos o alerta antes de começarmos o ataque”.
- Está bem.
Adjacente ao prédio da Bio Prótesis, o terminal contém forte presença policial e equipamentos autômatos de segurança. Os trens e linhas favorecem o inimigo, transportando suprimentos, munições e regimentos, caso necessitem. Preocupado com sua logística, os atacantes pretendem neutralizar a estação, isolando a polícia. Entretanto, o ataque deve ser adiado até a evacuação dos transeuntes.
Pegando um alto-falante, o rapaz faz um alerta.
- Atenção, usuários nas plataformas. Aqui é Nathan, o Inimigo de Estado. Evacuem imediatamente o terminal. Eu repito, evacuem imediatamente o terminal.
Olhando para Huxley, o rapaz diz:
- Pronto. Agora devemos esperar até todos saírem.
Com semblante sério, o líder toca o ombro de seu capitão e ordena:
- Podem atacar.
Nathan se intriga. De repente, aeronaves de combate disparam mísseis e pulverizam o telhado do terminal. Sobre os terraços, os facciosos apontam seus lança-mísseis e disparam contra as linhas, destruindo os trens e danificando as pontes de acesso.
Ao ver o espetáculo infernal de explosões, o rapaz protesta.
- Huxley! Ainda há civis lá dentro!
Sorrindo malignamente, o líder responde:
- Sim, há! E qual é o problema com isso?
- Qual é o problema?! – indigna-se ele – Eles vão todos morrer!
- Incluindo as forças de segurança! Não é esse o objetivo?
Nathan olha para baixo e vê pessoas sendo lançada aos ares pelas explosões.
- Isso é absurdo! – pegando o comunicador, ele ordena – Cessar fogo!
Então Huxley aponta uma arma para ele e diz:
- Fique quietinho aí, Inimigo de Estado. Você é intocável, mas ainda sangra!
Os disparos não cessam. Nathan vê um aerotrem em chamas deixar o terminal e cair em um buraco lá embaixo. Ele se horroriza.
- Huxley, pare por favor! O que comete é terrorismo!
Então todos no aerocarro riem.
- Depois de tudo o que aconteceu, você teve muita coragem em entrar no mesmo aerocarro que a gente, garoto. Agradeça ao seus amigos delinquentes e aos seus aliados puristas, pois se eles não te resgatassem, você seria nosso marionete agora. Ou será que ainda dá tempo de continuar de onde paramos?
De seu punho biomecânico, uma faca se desliza.
- O que vocês vão fazer comigo?
- Você pensou que podia comandar os meus homens em uma operação militar complexa simplesmente porque é o Inimigo de Estado? Quem você pensa que é, garoto? Pensa que o seu título o faz ter autoridade sobre a superfície e as facções?
Tremendo, o rapaz responde:
- Eu iniciei a Rebelião. Eu arregimentei as facções. Nada disso estaria acontecendo se não fosse por mim.
Huxley sorri.
- Não, garoto. Isso sempre aconteceu, muito antes de você aparecer. As facções sempre viveram em guerra, mas nunca em aliança contra um inimigo em comum como hoje.
- Mas você aceitou a aliança. Você procurou a nós, mesmo após o ocorrido. Você quis estar aqui!
Meneando negativamente a cabeça, o líder responde:
- Interessante como você fala em “nós” com o Submundo. A superfície te usa, as facções te usam, as corporações te usam ou, certamente, te usarão. Você é um rato em uma gaiola, correndo em sua roda pensando estar livre. Potências mais fortes e mais sagazes te controlam e você nem percebe. Eu tenho pena de você.
Tocando o ombro de seu capitão, o líder ordena:
- Vamos descer.
Pousando próximo a plataforma, os trans-humanistas descem e caminham pelas chamas. Nathan sente o calor e respira com dificuldade. Desequilibrando-se, ele tenta se sentar, mas Huxley intervém.
- Ei, garoto! Você vem conosco. Você não vai querer perder isso.
Puxando-o, o líder o leva com eles.
O rapaz vê corpos carbonizados por toda a parte. Os vagões dos trens também queimam, liberando uma fumaça preta pelo ambiente. No teto, as metralhadoras acopladas têm descargas elétricas e soltam faíscas, completamente desabilitadas após as explosões.
Alguns seguranças feridos pedem por ajuda, mas são impiedosamente alvejados por Huxley e seus homens. O elevador de serviço está próximo. Alguém fala com o líder pelo comunicador e, em seu aparelho, Nathan pode ouvi-lo também.
“Senhor Huxley, o heliporto foi tomado, mas estamos tendo forte resistência por parte da polícia”.
- Ótimo. Mantenha-os ocupados. Vamos nos infiltrar pela entrada de serviço.
Os painéis eletrônicos foram queimados pelo fogo. Homens robóticos e biônicos aparecem carregando pesadas serras em seus braços. Aproximando-se das dobradiças, eles as serram uma por uma. Nathan tampa seus ouvidos, o ruído agudo é ensurdecedor.
A porta cai aos seus pés. Entrando no largo elevador industrial, eles o ativam e sobem para os andares da diretoria.
O terminal e o fogo são deixados para trás. Lá fora, tiros e explosões são ouvidos, os runners participavam do combate. Os mecanicistas recarregam suas armas e se preparam para a invasão. Então o líder pergunta:
- Você já matou alguém?
Com a pergunta indiscreta, o rapaz fica desconfortável.
- Sim. – responde ele.
Huxley se intriga.
- E como foi?
- Eu fui persuadido. Era isso ou prolongar a rebelião.
- Mas o que você fez? Atirou nele?
- Não. Eu detonei uma bomba com o pressionar de um botão.
O líder acha aquilo muito difícil de se acreditar.
- E quantos morreram? Dois? Três?
- Dezenas. – responde ele, surpreendendo-o – Umas trinta pessoas, talvez mais.
Huxley lhe lança um olhar de admiração.
- Creio que foi algo muito chocante o que os clérigos o fizeram cometer.
Nathan se espanta.
- Como você sabe disso?!
O líder ri.
- Estou nesse negócio há muito tempo, garoto. Hoje você pode achar que tem muita importância, mas seus diplomas universitários e seu título de Inimigo de Estado não significam nada para mim.
- Estamos quase chegando, senhor. – informa um faccioso.
- Ei, garoto. Tome isso. – o líder lhe dá uma pistola.
- Não precisa. Eu já tenho a minha.
- Não, não tem. Eu a tomei de você.
Checando o coldre, o rapaz se vê desarmado.
- Mas como você...
- Apenas os meus homens podem andar armados na minha presença. Você só está vivo por que eu permito.
O rapaz se assombra. Huxley continua:
- Aquele dia os clérigos te fizeram matar as pessoas com uma bomba. Hoje faremos algo diferente. Eu quero que seja mais intenso, mais pessoal... Você deve executar alguém. – ordena ele – A sangue frio.
O rapaz se desespera.
- Eu não sou um assassino!
- Você disse que se responsabiliza por cada morte na rebelião. Indiretamente, você já matou muita gente.
- Você não pode fazer isso! Eu me recusarei!
- Pense bem, garoto. Se você se recusar, meus homens biônicos arrancarão suas pernas e o deixarão se rastejando no fogo pedindo por ajuda.
Mecanicistas de dois metros de altura e membros robóticos se aproximam, intimidando-o.
- Eu não sou um assassino! – insiste ele.
- E por que se importa? Os seguranças não são policiais comuns, que trabalham honestamente para trazer alimento para suas famílias no fim do dia. – romantiza ele – Eles são mercenários cruéis, contratados para matar e saírem livres. Ninguém está sendo imoral aqui.
Mas antes que pudesse responder, as portas se abrem e eles são recebidos a bala. Muitos trans-humanistas caem, mas se levantam novamente protegidos por suas pesadas armaduras. Os soldados biônicos erguem seus lança-mísseis e atiram, pulverizando tudo em seu caminho.
Saindo do elevador, eles se veem em um vasto escritório. Escondidos atrás das mesas e dos computadores, os seguranças atiram neles. Com seus rifles lasers, os mecanicistas atiram de volta, atingindo a mobília e provocando focos de incêndio.
Pressionando o botão de uma máquina de café, o líder olha para Nathan e pergunta:
- Ei, garoto! Lembra o seu antigo emprego, não?
E então ele gargalha. Ele estava brincando com Nathan.
Pegando o copo, Huxley bebe um gole e depois atira em seus inimigos.
“Senhor Huxley, os runners repeliram o contra-ataque nos outros edifícios, mas estamos sofrendo muitas baixas no heliponto”.
- Entendido, tenente. – olhando para a sua equipe, ele ordena – Pressionem!
Mais seguranças aparecem. Olhando para o rapaz, o líder exclama:
- Atire! Atire! Atire!
Assustado, Nathan saca sua arma e atira contra, baleando-os aleatoriamente. O rapaz arregala os olhos. Huxley ri.
Sobrevoando ao lado de uma extensa janela, uma aeronave aparece e dispara mísseis. Os trans-humanistas voam pelos ares, caindo sobre as mesas e os computadores. O fogo se alastra. Os sprinklers são ativados e água respinga sobre as mesas. Com a visibilidade prejudicada, os trans-humanistas ficam em desvantagem.
- Vertigo, eu preciso de ajuda!
Sobre um terraço próximo, o hacker atira nas viaturas de polícia.
- Onde você está, Nathan?
"Estou perto do heliponto, em um andar de escritórios".
- Entendido. Eu mandarei uma equipe até aí.
Aproximando-se do parapeito, Vertigo contata uma equipe próxima. Então ele tem uma enorme surpresa.
Abaixo, próximo ao terminal, uma manifestação maciça está em andamento. Os cidadãos souberam da presença de Nathan e vieram apoiá-lo. Com faixas e cartazes, eles obstruem as passarelas, protestando contra as corporações e a polícia.
- Equipe Alpha! Nathan precisa de ajuda! Ele está no último andar do prédio. Ajudem-no!
“Entendido”.
À distância, Vertigo vê os runners atravessarem as megatorres. Laura estava entre eles também, mas, ao invés de segui-los, ela desce aos andares abaixo. Ali se encontram os laboratórios da corporação. Então ele se intriga.
Enquanto Nathan se protege, os seguranças se aproximam. Então, aparecendo sobre ele, os runners pulam pela janela e adentram o escritório, surpreendendo-os. Os seguranças se confundem e são abatidos um a um.
Um runner com roupas prateadas e óculos vermelhos aparece. Ele pergunta:
- Você está bem?
- Não. – responde Nathan – Eu preciso sair daqui.
- Ah, você não vai a lugar algum! – Huxley o levanta pelas roupas – Sua gente o salvou do perigo, mas minha gente ainda está combatendo lá em cima. Aliás, você ainda me deve sangue!
Subindo as escadas, ele alcançam o heliponto. Aeronaves cruzam o céu, viaturas sobrevoam o terraço e os trans-humanistas atiram com seus fuzis lasers.
- Precisamos de suporte aéreo. – comenta Huxley – Tenente, chame as aeronaves!
- Eu não posso, senhor! Elas foram abatidas!
- O quê?! – irrita-se ele – Contate a base! Chame as reservas em nossa sede!
- Estão muito longe, senhor! Demorarão quarenta minutos para chegar aqui.
Frustrado, o líder olha para Nathan.
- Ei, garoto! Está na hora de você mostrar alguma utilidade aqui.
Ativando seu comunicador, o rapaz diz:
- Vertigo, precisamos de suporte aéreo no heliponto agora!
Em um local deserto e silencioso, o hacker responde:
- Entendido, Nathan. Já estão a caminho.
Desligando o aparelho, Vertigo avança pelos corredores e adentra um salão. Na parede ele lê: “Laboratório Principal”.
- Eu estou chegando, Laura.

Nenhum comentário:
Postar um comentário