sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Sonata - 38 - Frente Ateísta

 


Distinguindo-se na metrópole, o distrito de Aquarius, Setor F, tem muitas universidades e escolas. Essas instituições de ensino oferecem cursos científicos e realizam simpósios dedicados à busca genuína do conhecimento. E foi nesses eventos que a Frente Ateísta nasceu. 
A constatação racional e a experimentação materialista superaram a espiritualidade religiosa, expulsando-a do distrito. Os professores e doutores se tornaram os iluministas do novo mundo, trazendo o reavivamento da razão e impondo a lógica sobre a superstição. 
Arregimentando alunos e doutrinando-os em agremiações, eles se radicalizaram, trazendo a violência para o cerne de sua militância. 
No prédio de astronomia da universidade encontra-se a sede da Frente Ateísta. Em seu terraço há um grande observatório e, de seu topo, facciosos armados vigiam o distrito. 
Nathan é trazido ao local. Descendo para o estacionamento, os propulsores do aerocarro assopram poeira enquanto se aproximam da área de pouso. Alguns facciosos se aproximam, portando armas lasers em suas mãos. A porta se abre e Nathan deixa o veículo, pisando em terra firme após a longa viagem.
Deparando-se com a sede ateísta, o rapaz vê o famoso prédio de astronomia. Os guardas, então, se aproximam para escolta-lo. O rapaz nota que eles têm uma aparência erudita, pois todos pareciam estudar muito as bases de sua doutrina. Ao entrar no edifício, Nathan percebe que os novatos se assemelhavam ao grupo que ele encontrou na superfície da Cúpula Corporativa. Na facção, os novatos eram tratados como estudantes calouros, jovens inexperientes e impetuosos da Frente Ateísta. 
Os novatos vestem roupas camufladas e jaquetas de couro, e Nathan nota moicanos vermelhos em suas cabeças. Os veteranos vestem roupas moderadas e conversam pouco, demonstrando mais seu intelecto do que a brutal necessidade de lutar dos novatos. Mas, em todos os facciosos, Nathan vê um "A" estampado em suas roupas. Então ele percebe. O símbolo não queria dizer Anarquia e sim “Ateísmo”, alterando levemente o “A” original.
Chegando a uma área restrita, os guardas dizem:
- Siga-nos, por favor.
Seguindo-os por uma parte fortificada, eles passam por corredores e salas. Nathan vê paredes com vários cartazes políticos. Nos cartazes, ele nota que os ateístas eram obcecados pelo universo, mais do que outras pautas ateístas como o evolucionismo. 
Os guardas lhe indicam a sala do líder. Ao entrar, o rapaz se surpreende. A sala era limpa e bem organizada. Nathan vê vários diplomas na parede, assim como retratos de cientistas e ateístas influentes. O líder, porém, estava ausente.
- Sente-se, por favor. Nosso chefe já está a caminho. – diz um dos guardas.
Nathan se senta em uma confortável poltrona. Enquanto espera, ele nota que aquela sala tinha muitos luxos. Uísques, charutos, vinhos, e na parede à frente, um grande quadro com o “A” de ateísmo.
Alguns minutos depois o líder entra. Nathan vê um homem mais velho, de aparentemente cinquenta anos, vestindo elegantes roupas sociais. Ao vê-lo, o rapaz se levanta e o líder respeitosamente o cumprimenta.
- Boa tarde, senhor Nathan. Como vai?
Lembrando-se de seu terrível dia horas atrás, Nathan responde em tom de alívio:
- Bem, graças a Deus.
Então os homens se irritam. Com o pesado silêncio dominando o ambiente, o rapaz vê o ódio crescente em seus olhos, mas bravamente disfarçados atrás de suas faces.
- Perdoe-me. Eu não quis dizer isso.
Ignorando-o, o líder se apresenta.
- Meu nome é Bertrand Dawkins. Sou o líder da Frente Ateísta.
Apertando as mãos, o rapaz responde:
- Nathan Hill. Prazer em conhece-lo.
O líder se senta e enche dois copos de uísque. Jogando algumas pedras de gelo, Dawkins o serve ao rapaz.
- E então? – pergunta ele – Ouvi dizer que você gostaria de falar comigo?
- Sim. Em nome do Submundo, eu venho propor uma aliança com a Frente Ateísta.  
Dawkins não responde, ao invés ele fita Nathan nos olhos e bebe um gole de seu uísque. Então o rapaz bebe também, acompanhando-o. Para a surpresa do líder, o rapaz não se incomoda com sua ardência. Ao conviver com os habitantes da superfície, Nathan já havia se acostumado à bebida forte.
- Antes de falarmos disto, devo dizer que é uma tremenda honra recebe-lo aqui. Eu jamais imaginei que receberia o Inimigo de Estado em minha sede.
Nathan se sente lisonjeado. Não é frequente que ele é elogiado por alguém mais velho.
- Obrigado.
- Porém – continua ele – eu preciso te perguntar uma coisa. Você é um agitador ou um militante?
O rapaz não compreende.
- O que quer dizer?
- Na manifestação, meus soldados me disseram que você provocou um confronto violento, causando um verdadeiro massacre. Também me disseram que você estava praticamente sozinho, protegido por apenas um amigo, um mercenário, talvez? – o líder respira fundo e conclui – Depois de tudo o que aconteceu, eu sinceramente não sei dizer se seu ato foi deliberado ou apenas irresponsável mesmo.
Nathan se irrita. As facções se aproveitam de sua posição vulnerável para o insultar. Cansado dessa esparrela, ele olha para Dawkins e responde:
- Não foi deliberado e muito menos irresponsável. Eu já disse, foi um acidente.
O líder pondera.
- Eu concordo que foi um acidente, um acidente você se tornar o Inimigo de Estado, mas o massacre na manifestação? Não, isso não foi um acidente, isso foi irresponsável mesmo. – reitera ele, provocando-o – Você é idolatrado lá em cima, as pessoas o veem como um herói. Talvez você ache justo usar a vida dos inocentes para combater sua rebelião, mas preciso saber se você fará o mesmo conosco, os soldados da Frente Ateísta.
- O quê?! Eu não estou usando a vida de ninguém! Meus objetivos são claros e eu nunca os escondi. Eu combato a ameaça do Protótipo #8 e do Projeto Gemini.
- Mas, discursando isso sobre uma pilha de cadáveres, não me parece muito convincente. Portanto eu refaço a pergunta: você é um agitador ou um militante?
O rapaz não sabe o que responder. Ele arrisca.
- Sou um militante.
Apoiando-se na mesa, o líder sorri.
- Então temos algo em comum. Os seus companheiros runners também estão dispostos a morrer em sua rebelião?
- Nossa luta não é pela morte e sim pela vida.
- Nunca subestime o poder dos mártires, senhor Nathan. Se quiser vencer, você precisará deles. – então ele pergunta – Por acaso você conhece a nossa facção?
O rapaz estudou alguns pontos importantes sobre os ateístas, mas com a constante luta nos níveis superiores, ele não teve tempo para se aprofundar no assunto.
- Eu ouvi dizer que vocês lutam por um Estado antirreligioso.
Dawkins concorda.
- Precisamente. Antes da Catástrofe de 2057 nós lutávamos contra o preconceito que os ateus sofriam. Em um mundo moderno, passivo de profundas mudanças impulsionadas pelo avanço científico, a mera possibilidade da inexistência de deus apavorava os fundamentalistas. Mas eles não permitiriam que esse formidável progressismo se instaurasse tão facilmente. Campanhas de difamação foram feitas, mas nós diligentemente as combatemos, usando suas próprias leis contra eles mesmos.
- Quais leis? – pergunta Nathan.
- A garantia da liberdade religiosa, incondicional e irrestrita, e a manutenção do Estado Laico.
Com a mão no queixo, o rapaz balança positivamente a cabeça. Dawkins então continua.
- Através de nossa militância, nós retiramos todas as representações religiosas dos espaços públicos. Imagens, santos, símbolos, livros sagrados, tudo foi tirado. Com a lei ao nosso lado, perseguimos nossos perseguidores, abolindo sua influência na sociedade e, com ela, sua arcaica noção ética e moral. Pouco a pouco implantamos o secularismo, nos aproximando do pleno Estado antirreligioso. Em outras palavras, nossa militância representava o novo Renascentismo!
O líder se empolga ao falar de suas convicções. 
- Mas... – continua ele – Veio a Catástrofe de 2057 e todo o nosso empenho se perdeu.  
O rapaz pergunta:
- O que aconteceu?
- Em 2057, nossa inevitável vitória foi interrompida. Com a devastação do mundo, nossa militância se perdeu. Mas, felizmente, com a construção da metrópole eu a retomei e, sozinho, a reconstruí, fundando e gerindo toda essa organização que você está vendo hoje.
Nathan se confunde.
- Está dizendo que você, sozinho, reconstruiu uma organização ateísta inteira, pré-2057?
Convictamente, o líder responde:
- Sim.
Impressionado, o rapaz comenta:
- Mas, do jeito que você fala, me parece que o ateísmo militante da época era composto de cientistas sociais, intelectuais, professores e filósofos, e não desses extremistas aí fora.
Os guardas se ofendem, mas Dawkins acena com a mão, contendo-os. Pedindo-os para sair, o líder explica:
- Concordo que meus soldados não correspondam com o brilhantismo de nossa ideologia, mas não se engane, senhor Nathan. A juventude é abundante em algo que nos carece com o passar dos anos: força de vontade. Ao lhes mostrar os malefícios do teísmo e do efeito nocivo da fé, esses jovens alegremente aderiram à nossa causa. E esses, como você disse, extremistas serão os ideólogos da militância ateísta amanhã.
Nathan pergunta:
- Você tem certeza que será prudente substituir a moralidade objetiva pela subjetiva?    
Surpreendendo-se com seu conhecimento, Dawkins responde:
- Que objetividade? O conceito de uma divindade plenipotente e universal lhe parece lógico? Quantas religiões haviam no mundo até 2057? Cinco mil? E quantos deuses haviam? Multiplique esse número por três. Vai me dizer que cada um deles tem uma objetividade diferente, estando todos acima do nosso próprio senso moral? – ele pausa para o rapaz ponderar a respeito – Não, senhor Nathan. Deuses podem ser inventados. De fato, eles foram criados na mente de profetas, sacerdotes, mártires e outros fundamentalistas. Eis aí sua existência, na mente de quem os cria e de quem os acredita.
O rapaz aprecia a resposta, mas em seguida faz outra pergunta:
- Mas o senhor considera o fato de que eles podem ser úteis em uma sociedade doente?
- Não, eles que são a doença. Deuses foram criados para a alienação intelectual e controle social, nada mais. A fé é um artifício irracional e ilógico que amortece as massas quanto ao verdadeiro problema, o teísmo. Por essa maneira, combato inclusive o agnosticismo, pois apesar de não poderem comprovar a existência de um deus, eles admitem a possibilidade de deuses existirem. E não existem.
- Então os deuses foram criados unicamente para controlar as massas?
- Sim, e foram muito eficientes em seus efeitos. É como disse o filósofo Voltaire: “se deus não existisse, seria necessário inventa-lo”.     
- Interessante. – diz Nathan.  
- Implantar o Estado Laico é a libertação de qualquer sociedade. Religião não é a solução e sim o problema. A fé não dá respostas, só impede perguntas. No Laicismo pleno, não haverá deuses ou reis, apenas o Homem.
Novamente Nathan acha muito atraente a convicção ateísta.
- Mas estará o Homem preparado para viver sem a noção protetora de um deus?
Sorrindo, Dawkins responde:
- É claro que sim. Como disse Nietzsche, “Deus está morto!”. Quando a humanidade finalmente perceber isso, tirará do fundo de sua própria essência a capacidade para criar seus próprios valores humanistas, livre das crenças compassivas e póstumas do fundamentalismo.
- Uma sociedade baseada em fortes e fracos, onde os mais fracos serão esmagados pelos mais fortes? – provoca Nathan.
- Não, uma humanidade livre do medo para buscar o real significado da vida.
O rapaz não concorda com tudo o que Dawkins disse, mas confessa achar tudo aquilo muito interessante. O líder da Frente Ateísta é um homem muito inteligente e com muita cultura, os diplomas nas paredes comprovam isso. “Porém”, pensa ele, “pode a inteligência justificar a violência e o fanatismo?”.
- Admiro sua inteligência, senhor Dawkins, mas gostaria que ela não fosse usada para o terrorismo.
Ao ouvi-lo, o líder relativiza.
- E o que é a violência para um soldado niilista? Na implantação do Estado laico, valores compassivos não devem existir. É como disse Maquiavel: “os fins justificam os meios”. Se quisermos suplantar a noção de deuses, devemos ter valores diferentes deles. Nossa facção é pequena, meus soldados são intelectuais e estudantes, mas nossa causa é nobre. Queremos a libertação do Homem. Se não combatermos fogo com fogo, como poderemos prevalecer?
Para Nathan, todas as facções são maquiavélicas, pois todas defendem o extremismo. Não importa a ideologia ou doutrina, em sua luta pela revolução "os fins sempre justificarão os meios”.
- Entendo o seu ponto de vista. Não estou aqui para criticar, na verdade. – responde ele, tentando parecer diplomático.
Acendendo um charuto, o líder expele a fumaça e então diz:
- Fico feliz que tenha entendido. As facções de Sonata, a Frente Ateísta incluída, têm causas e objetivos bem definidos. Mas não posso dizer o mesmo do Submundo.
- O que quer dizer?
Dawkins pega outro charuto e o oferece ao rapaz. Ele logo o aceita, pois nunca havia fumado um antes. Em silêncio, o líder apenas o observa enquanto ele tenta – sem a menor experiência – acender o charuto com o isqueiro. Quando finalmente consegue, Nathan traga a fumaça para dentro dos pulmões. A reação a seguir é hilariante. O rapaz tosse inúmeras vezes, sufocando-se na mesma fumaça que ele acabara de tragar. Dawkins, porém, se mantém sério.
- Eu quero dizer – responde ele, ignorando sua vergonhosa reação – que eu conheço a causa do Submundo, toda a Sonata conhece. Mas eu não conheço o seu objetivo.
- Objetivo...? – pergunta ele, enquanto tosse.
- O que pretendem fazer, Nathan? O que pretendem se, hipoteticamente, o Submundo e as facções vencerem a rebelião?
Nathan não sabe o que responder. Essa etapa era tão improvável que ele havia focado apenas na coalisão, que era tão improvável quanto.
- Eu não sei.
- Não sabe? – insiste ele.
- Não. – ele tem uma ideia – Talvez fomentar a partilha de Sonata.
Dawkins deixar escapar um sorriso.
- De fato, é uma ideia interessante, mas impraticável. As facções são organizações antagônicas, heterogêneas entre si. Se as corporações caírem, Sonata será pequena demais para elas. Quer saber o que eu penso, senhor Nathan? A violência não cessará com o fim da rebelião, muito pelo contrário, continuará pior do que nunca, afundando a metrópole em uma sangrenta guerra civil.
Essa mera ideia assombra o rapaz.
- Tenho esperança que, após o fim das corporações, as facções poderão conviver em paz.
Meneando negativamente a cabeça, Dawkins responde:
- Paz? Deixe-me dizer o que a Frente Ateísta fará após a rebelião: vingança! Nos vingaremos dos nossos arqui-inimigos, os Clérigos do Recomeço. As forças de segurança não irão mais nos atrapalhar, partiremos para uma guerra aberta, feroz e implacável em nosso intento. Vamos destruir sua pífia crença medieval, queimaremos sua sede e exterminaremos seus membros. A razão vencerá a fé, ninguém mais será enganado pelo ilógico fideísmo. A Frente Ateísta vencerá!
Dawkins vocifera, havendo ódio em sua voz. Pela primeira vez Nathan vê seu fanatismo oculto por trás de sua elegância.
- Apesar de lutarmos pela paz, vocês ainda pretendem se vingar?
- Definitivamente. E não esperaremos a rebelião acabar para isso. - diz ele, referindo-se a algo mais recente - Nós encontraremos o responsável pela explosão do hospital em nosso território, destruído dias atrás. E quando o pegarmos, a “salvação” será a única coisa que ele desejará receber.
Apavorado, Nathan se empalidece.
Levantando-se, o líder gentilmente diz:
- Vamos, Nathan. Vamos andar um pouco.


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