domingo, 1 de agosto de 2021

Sonata - 09 - VHS Nightclub

 


Voando pelo distrito industrial, Nathan olha para as chaminés expelindo rajadas de fogo. Ele se distrai pensando que sua situação só piorou e que não há mais o que pode fazer para voltar atrás. A qualquer momento a polícia inteira estará à sua procura. Sua fuga induzida causará uma Lei Marcial, e as autoridades terão a aval para invadir os apartamentos e executar sumariamente os desordeiros.

Em uma metrópole onde a informação é restrita, nunca ninguém ouviu falar de alguém que fugiu da prisão. Os cidadãos nem mesmo sabiam que isso era possível. Se Nathan é o primeiro, é melhor a população não saber que é culpa dele suas vidas ficarem bem desagradáveis de agora em diante.

O distrito comercial Titan é bastante exótico. Ele tem centenas letreiros e painéis de neons. Os velozes e caríssimos aerocarros passam frequentemente entre os edifícios, atraindo o público apaixonado por motores potentes. A música alta empolga os clientes, animando-os. Os túneis dentro dos edifícios são limpos e organizados, iluminados por luzes coloridas. Restaurantes elegantes têm mesas com vista panorâmica e as lanchonetes servem comidas mais casuais, como os fast-foods tão populares entre os jovens.

Vendo o movimento intenso, Nathan se contagia com a felicidade do ambiente, tornando aquele distrito muito agradável.

Obedecendo ao trajeto no GPS, o aerocarro cruza o setor e começa a subir para o topo das megatorres. No terraço de um edifício, Nathan vê um letreiro escrito “VHS Nightclub”. Aquela era uma casa noturna localizada à beira da vertiginosa altura, com plataformas de aço em sua entrada. Pousando no terraço, a voz do computador de bordo diz: “você chegou ao seu destino”.

Em Sonata, para escapar da estressante rotina de trabalho, as casas noturnas se tornaram uma excelente opção para se descontrair. Como uma febre, elas rapidamente se espalharam, havendo dezenas em cada distrito comercial. Assim, as casas noturnas se popularizaram e agora fazem parte do estilo de vida metropolitano.

Atendendo ao celular, Maynard sai do veículo antes. O rapaz se pergunta por que aquele desconhecido o trouxe à um lugar tão incomum.

- Sr. Nathan, há opções melhores para se divertir.

- O quê?

- O VHS Nightclub tem uma dúzia de notificações no Ministério da Saúde, e três ordens oficiais de fechamento.

Ele percebe que era o computador de bordo falando.

- Você está falando comigo... E sem eu pedir? Como?

- Inteligência artificial. Atualização aprovada pelo Ministério dos Transportes instalada nos últimos veículos desde 01/08/2478 pela corporação Hoverdrive.

Nathan se intriga.

- Por que o VHS Nightclub recebeu tantas notificações?

- Alimentos estragados, falta de higiene, venda de álcool a menores de idade, instalações precárias, sonegação de impostos e venda ilegal de substâncias químicas e alucinógenas.

- Meu Deus...

- Nesse distrito há outros bares e restaurantes mais compatíveis com seu padrão de conforto.

- Conforto...?

Nathan não terá mais conforto, pois um caos irremediável devastou sua vida. “Se ao menos a máquina pudesse avaliar a crescente angústia que sinto em seu peito...”.

- Aceita uma sugestão?

- Não obrigado. Na verdade, eu não vim aqui para me divertir.

Percorrendo a plataforma, ele se aproxima da entrada da casa noturna. Os seguranças o encaram. Por suas aparências, Nathan percebe que está em um antro de marginais.

Ao verem o mercenário, eles o reconhecem:

- Maynard?

Os seguranças sorriem, exibindo seus dentes de aço. Eles abrem passagem e o rapaz entra, muito confuso com tudo aquilo.

A primeira impressão que Nathan tem é que o VHS é um ambiente ilícito e frenético, onde tudo é permitido. O ambiente escuro, a música alta, a nuvem de fumaça e os alegres fregueses compõem o interior da casa. Nathan vê homens vestindo jaquetas com ombreiras, camisetas vinil e óculos coloridos. As mulheres vestem estampas de pele de animais, como leopardos, panteras e tigres. De fato, aquela era uma casa de estilo bastante retrô.

O rapaz se incomoda, demonstrando incompatibilidade e certa repugnância ao lugar.

- O que você pensa que está fazendo? – pergunta alguém atrás dele.

Ele se vira e vê uma mulher de mais ou menos quarenta anos, com os olhos pintados, cabelo roxo e forte maquiagem no rosto. Suas roupas são extravagantes e ela segura um cigarro nos dedos, soltando fumaça enquanto o encara com olhar entediado.

- O quê?

- Você não viu o aviso “proibido a entrada de idiotas” lá fora?

- Não...

- Não seja estúpido. – interrompe ela – Do jeito que você entrou e a maneira que se comporta é como se estivesse escrito “eu sou um imbecil” na sua testa. Você está perdido? Veio pedir informação para achar a casa da sua mãe?

- Bem, eu...

- Relaxe. Aqui é o VHS Nightclub, uma casa noturna oitentista. Você não precisa bancar o cidadão decente e bom demais para esse lugar. Aqui você pode ser o que quiser, fazer o que quiser e se vestir como quiser, como nos velhos tempos.

- Velhos tempos? – confunde-se ele.

- O século 20. – esclarece ela – Você não engana ninguém. Qualquer um aqui sabe que você não é nenhum certinho só de olhar para a sua cara. O que você esconde? Que modificação ilegal você tem em suas próteses biomecânicas? Que implante neural você tem em seu crânio?

Nathan se surpreende. Como ela adivinhou o que ele escondeu durante anos? Ele fica sem saber o que responder.

Atrás deles, alguém sentado à mesa a chama:

- Ei, garçonete! Eu ainda não recebi minha cerveja!

Ela se vira e então volta ao bar, respondendo com a mesma grosseria como se aquilo fosse normal ali.

“Garçonete?”, pensa ele. Uma simples garçonete foi capaz de desmascará-lo em poucos minutos. Era tão óbvio assim que ele não era tão inocente quanto aparenta?

Ao lado da parede há uma mesa com bancos almofadados, iluminada por um belo lustre. Maynard está ali e o convida para se sentar. Nathan se aproxima lentamente, sob os olhares intimidadores dos frequentadores do local.

Sentando-se, o rapaz observa o homem à sua frente. A jaqueta de couro, os cabelos castanhos, a calça jeans e as botas marrons são inconfundíveis. É uma aparência bem antiquada.

- Quer uma bebida? – pergunta ele e antes do rapaz responder, Maynard chama a garçonete de cabelo roxo e diz – Por favor, traga duas doses de vodca.

Os dois ficam em silêncio por alguns minutos. A garçonete volta com a bebida e então Nathan pergunta:

- Por que você me ajudou?

- Não quer saber quem eu sou primeiro? – ele lhe devolve a pergunta – Gostei de você, você é objetivo, prático, diferente do paspalho inseguro que eu pensei que fosse. Vai direto ao ponto... Formidável. – reflete ele – E primeiramente quer saber por que eu te ajudei? – ele bebe um pouco de vodca antes de responder – Por dinheiro, é claro.

- Por dinheiro?

- Mas é claro, eu fui contratado para isso. Você chamou a atenção de alguém que quer muito informação e, nessa cidade, informação é poder.

- Quem exatamente?

- Já ouviu falar da facção “4 de Julho”?

O rapaz se intriga.

- Aquele grupo paramilitar e político que defende a soberania dos Estados Unidos? A polícia ainda não os desmantelou?

- Certamente que não.

- Que tipo de informação eles querem comigo?

O mercenário limpa os dentes frontais com a língua antes de responder.

- Você esteve fora da Contenção, não é? O que quer que tenha visto lá fora chegou ao conhecimento deles e agora eles querem vê-lo. Eles planejavam sabotar as redes corporativas quando souberam ao seu respeito. Parece que você virou uma celebridade entre os hackers, espiões e ativistas em Sonata. No ciberespaço não se fala em outra coisa.

- Mas como eles sabem que eu estive fora da Contenção?

- Houve uma falha de segurança no ciberespaço. Os arquivos corporativos ficaram expostos aos hackers e às facções.

Sabendo que era quase impossível hackear o banco de dados das corporações, ele pergunta:

- Como?

- Por causa de uma antena da Cybersys que se explodiu por aí... – responde ele, sem se importar.

Maynard bebe um gole de vodca. O rapaz comenta:

- Não acredito que um grupo terrorista se interessou por mim a esse ponto.

- Bem, terrorista ou não eles têm muitos recursos. Meus serviços não são baratos. – responde ele – Mas, mudando de assunto, o que aconteceu no exterior da metrópole?

Nathan não sabe por onde começar.

- Eu fui capturado por uma organização obscura, composta de banidos e aberrações cibernéticas. Eles me infectaram com um vírus, o mesmo de 2057, e agora tenho 72 horas de vida.

Olhando para o relógio, o mercenário diz:

- Tecnicamente, agora você só tem 52.

Não entendendo se aquilo foi um alerta ou uma piada, o rapaz prefere acreditar que Maynard podia ajuda-lo.

- Para me curar, preciso encontrar um homem que vive na superfície, um tal de Database...

Ao dizer esse nome, o mercenário interrompe sua bebida e o encara de outra forma. Mudando seu semblante, Maynard ergue as sobrancelhas, respira fundo e então responde:

- Parece que você está bem enrascado, hein garoto?

O homem então volta a beber tranquilamente.

- Você não vai me ajudar?

Maynard se sente ultrajado.

- Eu te tirei da prisão, não tirei?

- Eu fui infectado por um vírus. Se eu não me curar a tempo, eu vou morrer!

- Percebi mesmo que você estava meio pálido.

- Você precisa me ajudar a encontrar a cura...

Irritando-se, ele bate na mesa e responde:

- Ouça, garoto. Meu negócio não é curar e sim atirar nas pessoas. Me procure se precisar desse tipo de serviço.

Maynard se mostra intransponível. Indignado com a tremenda insensibilidade do homem, Nathan pergunta:

- Você é algum dissidente da elite policial que aderiu à causa dos terroristas?

Maynard ri.

- Você é idiota ou o quê?

O rapaz se irrita.

- Não sou nenhum idiota.

- Eu era de uma elite militar sim, mas não da polícia. Sou o ex-agente Maynard Cuisset da Agência de Vigilância Internacional, a AVI. – responde ele.

- Eu nunca ouvi falar dessa agência.

- É claro que não. Ela foi extinta nos anos cinquenta do século 21.

- Extinta? 

- Sim, junto com tudo o que existia até a catástrofe de 2057. Após uma missão espacial fracassada, estive em sono criogênico em uma nave à deriva durante anos. Quando me acharam, acordei e vi que o mundo... – nesse momento ele hesita – não era mais o mesmo.

Nathan tenta conter o riso. Os ambiciosos programas espaciais foram suspensos desde o fim da Guerra Fria no século 20.

- Como assim?

- Eu retornei e encontrei o planeta destruído. As nações foram esquecidas, as fronteiras apagadas e toda a soberania política se extinguiu. O mundo se tornou um imenso deserto desolado e o que sobrou – a autoritária e tecnocrata Sonata – passou a ser conhecida como o último oásis habitável da Terra.

- Então estamos sozinhos no mundo, confinados a essa mega jaula para sempre? – lamenta-se ele.

Sem dar muita importância, Maynard bebe um gole de vodca e responde:

- Provavelmente. Aliás, essa é uma característica que eu percebi nessa nova metrópole: alta tecnologia e baixa qualidade de vida. As corporações disfarçam o totalitarismo com “sobrevivência da raça humana”, mas sua motivação é mais obscura do que se pensa. Eles seguem uma agenda secreta. Suas intenções malignas se revelaram com a nova sociedade. Aparentemente, o que antes não era permitido hoje é liberado nesse novo mundo de novas leis.

- Novas leis sociais?

- Novas leis morais. – responde Maynard, com ar obscuro – Hoje a ciência avança em campos que a antiga sociedade se recusava a considerar. Clones humanos, implantes bioprotéticos, nanotecnologia genética, células-tronco, disciplina industrial, mecanização do homem, cobaias científicas, robótica... – ele bebe outro gole de sua bebida e conclui – Tecnologia destronando Deus.

Nathan já ouviu aquele discurso antes, quando esteve cativo de uma misteriosa organização e foi infectado por um vírus mortífero. Acreditando ser aquilo uma paranoia de gente desequilibrada e sociopata, ele sorri.

- Acho que você anda assistindo a filmes de ficção científica demais.

Percebendo o sarcasmo, Maynard responde:

- Pensei que o neurótico, frequentador de casas de hologramas pornográficos aqui fosse você. Aliás, o que o holograma disse mesmo? Síndrome de Adão e Eva?

O rapaz se espanta.

- Como você sabe isso?

Terminando sua bebida, Maynard olha para ele e então responde:

- Eu não me enganei a seu respeito. Você é realmente um paspalho como eu pensei que fosse.

 

 

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