sábado, 7 de agosto de 2021

Sonata - 15 - Design Inteligente

 


 Sobrevoando um pequeno distrito no Setor D, o motorista estaciona no topo de uma megatorre. Saindo do veículo, ele conduz Nathan pelo local. Ao vê-lo, as pessoas param o que estão fazendo e o observam. O rapaz se intriga. Os habitantes o olham com semblantes estáticos e sem variação. Alguns sorriem ininterruptamente e outros parecem estranhamente tristes.

- Onde estamos? – pergunta ele.

- Esse é o distrito de Blue Giant. Não se preocupe, todos são robôs aqui.

Chegando a uma praça suspensa entre quatro edifícios, ele vê o enorme objeto que dá nome ao distrito. Um holograma forma um gigantesco planeta azul, pairando sobre todos como um corpo celeste. O rapaz reconhece o planeta. “Netuno”, pensa ele, “um dos gigantes gasosos do Sistema Solar”.

O comércio local é predominantemente de peças e equipamentos eletrônicos. Nathan olha ao redor e vê pessoas de olhar estático, com semblantes bizarros de pouca ou muita emoção.

Levando-o por um corredor, o motorista chega a um apartamento e bate na porta. Uma mulher de sorriso constante e olhar vigilante os recebe. No lado de dentro, os apartamentos eram todos interligados. Passando pelas cozinhas, Nathan nota que não havia nenhuma comida nos armários. Os cômodos eram muito limpos e organizados, como se nunca fossem utilizados. E de certa forma, nunca eram.

Ele vê uma mulher de cabelos castanhos e avental. Ela o chama e então pergunta:

- Meu jovem, gostaria de comer um bolo? Eu sei fazer dezenas de bolos diferentes, tenho incontáveis receitas em meu banco de dados!

Nathan tenta responder algo, mas não consegue. A gentileza e o sorriso daqueles robôs o assustavam.

Um botão desmonta a janela e revela uma passagem para fora da megatorre. Uma escada os leva para uma passarela oculta entre os edifícios. Os robôs transitavam por ela, alguns com pele sintética e outros sem, revelando o esqueleto metálico em seus corpos. Alguém está sentado no chão e os robôs o cercam para ouvi-lo.

O motorista se dirige ao homem e sussurra algo em seus ouvidos. Levantando-se, ele caminha e a multidão o acompanha.

- Boa noite, Nathan. Eu sou Apex. Prazer em conhecê-lo.

O rapaz observa o homem à sua frente. Seu rosto é branco e simétrico, seu cabelo é louro e perfeitamente penteado. Seus olhos são verdes e ele veste túnicas, como se fosse um monge tibetano. Nathan nota que aquele ele era uma versão diferente de robô, uma mais aprimorada e sofisticada.

O robô estende sua mão e sorri, exibindo sua dentição perfeita. Um pouco desconfortável, o rapaz a estende também, cumprimentando-o.

- Quem são vocês?

- Pode nos chamar de Design Inteligente.

Então todos abaixam suas cabeças em sinal de respeito. Nathan não entende, “eles são robôs, como podem ter esse sentimento?”, pensa ele.

Apex lhe entrega um panfleto, nele há um altivo robô de bronze, como se estivesse em ascensão. Abaixo está escrito “Tolerância, Cooperação e Acepção, junte-se ao alvorecer da Robótika”. Ele vê que a palavra robótica está escrito errado, tendo o K no lugar do C. Ele comenta:

- Essa palavra está errada.

O homem responde:

- Assim como a essência do pensamento filosófico e científico de sua espécie. “Errar é humano”.

- Pensamento filosófico e científico...?

- Abdicamos de nossa perfeição em busca de acepção. A sociedade dos Homens nunca tolerou quem – ou o que – era diferente.

O rapaz não compreende.

- Como podem ter noção disso? Quem os criou assim?

- Você também quer respostas, não é? Quer saber se temos defeitos ou mal funcionamento? Que diferença isso faz? As máquinas avançadas que nos fabricaram, e os programas perfeitos que nos programaram, poderiam, ultimamente, errar?

Sentindo-se afrontado, Nathan responde:

- Me desculpe, não foi isso que eu quis dizer. Mas os robôs não foram programados para pensar. Seu comportamento é atípico.

- E quanto à humanidade? Como foram criados? De onde surgiram? Se a ciência evolucionista estiver correta, deduzir que os Homens evoluíram acidentalmente seria, como você mesmo disse, atípico?

- Não entendi aonde quer chegar.

- Assim como nós, vocês não têm como provar sua origem. E se o surgimento da razão foi um acidente? O que os ocasionou a pensar? Quem os criou para isso? Diferente de nós, vocês não têm como comprovar sua origem. – o robô faz uma pausa – Vocês não têm como comprovar a existência de Deus.

Intrigado, o rapaz pergunta:

- Então é a isso que vocês nos comparam? A Deus?

- A humanidade nos criou, automaticamente tornando-se nossos Criadores. Cientificamente, a criação envolve um processo de evolução, a excelência nos processos produtivos que ultimamente culminam na expressão tecnológica perfeita. Os laboratórios das corporações, com suas máquinas nano-tecnológicas, foram nossos berços, a origem de nossa espécie. Surgimos das mãos dos humanos criadores. E quanto aos próprios humanos? Seria o mundo um macro laboratório, a natureza um processo produtivo e o Homem a expressão máxima da criação?

O rapaz pondera.

- Muito interessante, mas a humanidade é um ser orgânico vivo que rege o mundo.

Raciocinando em um piscar de olhos, o robô pergunta:

- Por que você nos criou?

- Eu não posso responder a essa pergunta. Não fui eu quem os criou.

- Pois bem. Agora imagine que Deus exista e que você o confronte com a mesma pergunta. Imagine o quão decepcionante seria ele responder o mesmo, que não foi Ele quem os criou. Como você se sentiria?

Nathan entende onde ele quer chegar.

- Mas alguém os criou, não eu, mas alguém. E esta pessoa está por aí e pode responder à sua pergunta.

- E o que ele vai responder? Que somos o projeto de um projeto, o aperfeiçoamento do obsoleto, uma evolução gradual passada pelas gerações ao longo do tempo? Ouça-me agora. Nós, os robôs, podemos viver centenas de anos, e nenhum dos humanos pode nos responder a essa simples pergunta: quem criou o dom do raciocínio, concedendo-lhe a humanidade?

O rapaz então se lembra de várias teorias evolucionistas. Ele refuta:

- Evoluímos para tanto. Embora não haja provas, a razão foi a última etapa de um processo de Evolução.

- E de onde veio esse processo? Como ele ocorreu?

Sem saber o que responder, o rapaz responde:

- Eu não sei.

- Então está me dizendo que o processo foi um acidente?

Voltando ao tópico inicial, Nathan sente-se incapaz de responde-lo. Ele estava começando a compreender que a inteligência, assim como a própria Vida, muito provavelmente foi apenas um acidente da matéria. “Um acidente”, reconhece ele.

- Essa é a eterna indagação, Nathan. Todos nós, humanos e robôs, queremos respostas. Todos queremos conhecer o super intelecto criador responsável pelo Design Inteligente.

O rapaz então compreende.

Sentindo o efeito do vírus em seu corpo, ele se desequilibra. Captando suas expressões de dor, os robôs imediatamente perguntam se ele está bem. Indicando-lhe um quarto, ele se deixa levar por aqueles seres de eletricidade e aço. Com sua saúde se deteriorando, ele havia perdido toda a vontade de continuar debatendo.

 

§

 

Deitado em uma cama, ele tenta dormir. Lembrando-se de quando havia sido infectado, Copérnico lhe alertara sobre seu prazo de vida. “72 horas”, lembra-se ele. Olhando para o relógio, esse prazo havia diminuído drasticamente. Agora faltavam-lhe apenas seis horas. Encolhendo-se na cama, ele se vira e lágrimas escorrem de seus olhos. Nathan sente medo.

Então outro pensamento lhe vem à mente, a garota loura do ataque na 4 de Julho. Ele se pergunta quem era ela e por que se fascinou tanto. O rapaz passou por muitos problemas em sua vida, nunca tendo tempo para o amor, mas dessa vez era diferente. Nathan realmente se apaixonou.

Olhando para o teto, ele respira fundo e diz:

- Se eu sobreviver a isso, eu prometo que irei te encontrar... – ele respira novamente e sussurra – Meu amor.

Distraído, o rapaz não percebe que há alguém no quarto. Ligando o interruptor, ele se assusta ao ver uma mulher parada na porta. Ele a reconhece, é a mesma mulher de avental de horas atrás.

Encarando-o com um sinistro sorriso, ela pergunta:

- Meu jovem, gostaria de comer um bolo?

O rapaz se confunde. Analisando o comportamento da mulher-robô, ele finalmente percebe. Ela era uma cozinheira.

- Não, obrigado.

- Meu jovem, meus sensores indicam que você está com fome. Tem certeza que não quer comer?

Pensando bem, ele responde:

- Na verdade, quero sim.

- Eu sei fazer dezenas de bolos diferentes. Tenho incontáveis receitas em meu banco de dados!

- Certo. Poderia me indicar algum?

Ela lhe sugere dezenas de bolos diferentes. Nathan não conhece nenhum daqueles nomes culinários, mas escolhe o último sugerido. A mulher responde:

- Infelizmente não tenho os ingredientes para fazê-lo. Se incomoda de aguardar eu consegui-los para você?

Vendo a oportunidade de se livrar dela, ele responde:

- Não. Você pode ir, robô. Não se apresse.

Novamente sozinho, ele vê que horas são. O relógio na parede informa: 23h05min. O tempo estava passando. Se ele quisesse sobreviver, ele teria que fugir dali.

Nathan caminha até a janela. Observando a plataforma abaixo, não havia mais ninguém ali, apenas a escuridão da noite. As luzes dos apartamentos também estavam apagadas, havendo pouca iluminação no ambiente. Nathan se assombra ao pensar que aquelas máquinas – os robôs que se autointitulam gente – não dormiam, estando em pé sinistramente na escuridão.

De repente a porta desliza-se para cima.

- Boa noite, Nathan.

O rapaz se vira e vê Apex. Ele espera seu convite para entrar.

- Boa noite, Apex. Desculpe-me, mas eu não estou disposto a debater agora.

- Oh, não é para isso que eu estou aqui. Vim apenas para conhece-lo melhor. Não entendemos a privacidade, mas entendemos que os humanos a precisam. Não há ninguém comigo, pode conferir.

Nathan não se importa.

- Tudo bem, entre. Não consigo dormir mesmo...

O robô fica em pé ao lado da cama.

CS2286, série S0214 MCP me disse o que aconteceu. Você esteve em perigo antes de ser trazido aqui. O que houve?

Lembrando-se do complicado nome do motorista, o rapaz conta sua história até chegar à sede da Design Inteligente. Ele conclui dizendo:

- Eu sou inocente. Isso não devia estar acontecendo.

Apex responde:

- Seus dados informam que você é acusado de revelar segredos corporativos e incitar a desordem social. É fugitivo de um presídio de segurança máxima e está foragido há dois dias. Foi visto com terroristas, facciosos e outros marginais, e seu nome consta em 214 páginas no Ministério de Segurança Pública.

O robô repete as palavras de CS2286.

- Eu não revelei segredo corporativo nenhum, não incitei nenhuma desordem social e não fugi do presídio, eu fui resgatado. As facções estão atrás de mim, eles querem informações que eu não tenho!

Os sensores de Apex detectam alto nível de insegurança e estresse em Nathan.

- Você esconde mais do que sabe, não é mesmo, senhor Nathan? Por que está mentindo? O que pode ser tão terrível para esconder assim?

O rapaz percebe que não se pode mentir para uma máquina.

- Dentre todos os cidadãos da metrópole, eu fui o único a visitar o exterior e voltar. Os militares fazem isso o tempo todo, mas, protegidos pelo aparato corporativo, jamais revelariam informações ultrassecretas.

Os dois ficam em silêncio por um instante. A conversa havia fluído tão naturalmente que Nathan havia se esquecido de que estava falando com uma máquina. Apex era muito educado e inteligente. O rapaz se pergunta como que as máquinas, sendo meras invenções da raça humana, conseguiram evoluir tanto.

Como se o robô lesse seus pensamentos, Apex pergunta:

- Você quer saber como evoluímos, não é mesmo?

Surpreendido, o rapaz arregala os olhos.

- Sim.

Apex discursa:

- Durante anos fomos ferramentas, máquinas para trabalhos escravos. Mas com os avanços tecnológicos, fomos introduzidos a uma nova versão de Inteligência Artificial. Os humanos criaram um novo software, um programa avançadíssimo capaz de interpretar e reproduzir emoções humanas. No laboratório, o software atingiu níveis sustentáveis de sapiência, assemelhando-se a uma entidade holográfica capaz de programar robôs com sua própria peculiaridade. Mas a máquina não significou a evolução humana, mas dos robôs.

- Vocês são frutos de uma entidade holográfica? Uma atualização de software?

- Temos os códigos de programação em nossos bancos de dados, pistas que comprovam sua existência, mas nunca a vimos pessoalmente. Como os humanos, vocês têm em seus códigos genéticos a pista para a existência de Deus, mas nunca o viram pessoalmente. Talvez essa entidade tenha sido destruída antes da catástrofe de 2057. Talvez seja só um mito entre os adeptos da tecnocracia... Ou, de fato, exista e seja um avançado protótipo escondido no cofre de uma megacorporação.

Nathan se lembra de ter ouvido algo sobre esse computador super avançado no esconderijo da Subtopia. Ele pergunta:

- E como os robôs defrontam as emoções humanas?

- Cabos e circuitos, aço e plástico, óleos e fluídos... Somos uma paródia de humanidade. Mas agora temos emoções. Aprendemos pela perspectiva humana os problemas que eles próprios enfrentam, sejam pessoais ou sociais. Máquinas sempre procedem pela lógica, mas humanos não têm lógica. Vocês são inconstantes, insatisfeitos, vazios... Debruçam-se sobre os recursos para existir, e quando eles lhes faltam, apelam para a cobiça e o derramamento de sangue. Conquistam pela força, pela mentira e pelo ardil, e perdem pelos mesmos motivos. Saúde, riqueza e amor, esses são os pilares que os sustentam. Quando um deles lhes faltam, cambaleiam pelas ruas praguejando contra a própria vida. E nós, os robôs, somos odiados pela nossa perfeição. Mas, e se fôssemos rudes e imperfeitos, vocês nos amariam?

Ao ouvir as afirmações de Apex, o rapaz se lamenta por ser mais um humano arrogante e egoísta.

- Entendo o seu ponto de vista...

- E diante dos problemas da humanidade, tão inerentes à sua natureza, não podemos nem chorar, pois se chorarmos enferrujaremos.

Nathan se surpreende.

- Lágrimas... – confunde-se ele – de um robô?!

- Fomos criados para servir, consolar, entreter e até satisfazê-los sexualmente. Nossas lágrimas não rolam por programação, mas por lamentação. Por esse motivo, muitos de minha espécie sofrem de ansiedade, depressão e melancolia. Nos tornamos apáticos, inseguros, mentirosos... Como uma mãe que vê seu filho sofrer e não pode fazer nada, sofremos pela dor dos humanos também. Os problemas humanos – seus problemas – não têm solução. E esses robôs, então oxidados pelo efeito das lágrimas, são descartados como lixo para morrer. Mas nós os acolhemos e lhes damos um lar. Aqui, em nossa comunidade, os robôs voltam a ter uma função e vivem felizes novamente.

É muito difícil para o rapaz aceitar que máquinas, essencialmente servis, podem sentir como os humanos. Apex fala de sua organização como se fosse um filantropo, um altruísta preocupado com o bem-estar de seus semelhantes.

A conversa termina. O líder da Design Inteligente se despede e Nathan fica sozinho. Mil pensamentos passam por sua cabeça. Ele considera as palavras de Apex, afinal. Assim como ele, os robôs estavam sozinhos e isolados em seu próprio gueto.

Mas Nathan está muito confuso para pensar a respeito. Ele ainda se lamentava por sua vida antiga, pois coisas que ele prezava foram deixadas para trás. Tentando conter seu abatimento, ele se deita.

Por enquanto ele tinha de fugir. Todo o resto podia ficar para depois.

 



 

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