-
Onde estamos? – pergunta ele.
- Esse é o
distrito de Blue Giant. Não se preocupe, todos são robôs aqui.
Chegando a uma
praça suspensa entre quatro edifícios, ele vê o enorme objeto que dá nome ao
distrito. Um holograma forma um gigantesco planeta azul, pairando sobre todos como
um corpo celeste. O rapaz reconhece o planeta. “Netuno”, pensa ele, “um dos
gigantes gasosos do Sistema Solar”.
O comércio local
é predominantemente de peças e equipamentos eletrônicos. Nathan olha ao redor e
vê pessoas de olhar estático, com semblantes bizarros de pouca ou muita emoção.
Levando-o por um
corredor, o motorista chega a um apartamento e bate na porta. Uma mulher de
sorriso constante e olhar vigilante os recebe. No lado de dentro, os
apartamentos eram todos interligados. Passando pelas cozinhas, Nathan nota que não
havia nenhuma comida nos armários. Os cômodos eram muito limpos e organizados,
como se nunca fossem utilizados. E de certa forma, nunca eram.
Ele vê uma mulher
de cabelos castanhos e avental. Ela o chama e então pergunta:
- Meu jovem,
gostaria de comer um bolo? Eu sei fazer dezenas de bolos diferentes, tenho
incontáveis receitas em meu banco de dados!
Nathan tenta
responder algo, mas não consegue. A gentileza e o sorriso daqueles robôs o
assustavam.
Um botão desmonta
a janela e revela uma passagem para fora da megatorre. Uma escada os leva para
uma passarela oculta entre os edifícios. Os robôs transitavam por ela, alguns
com pele sintética e outros sem, revelando o esqueleto metálico em seus corpos.
Alguém está sentado no chão e os robôs o cercam para ouvi-lo.
O motorista se
dirige ao homem e sussurra algo em seus ouvidos. Levantando-se, ele caminha e a
multidão o acompanha.
- Boa noite,
Nathan. Eu sou Apex. Prazer em conhecê-lo.
O
rapaz observa o homem à sua frente. Seu rosto é branco e simétrico, seu cabelo
é louro e perfeitamente penteado. Seus olhos são verdes e ele veste túnicas,
como se fosse um monge tibetano. Nathan nota que aquele ele era uma versão
diferente de robô, uma mais aprimorada e sofisticada.
O robô estende
sua mão e sorri, exibindo sua dentição perfeita. Um pouco desconfortável, o
rapaz a estende também, cumprimentando-o.
- Quem são vocês?
- Pode nos chamar
de Design Inteligente.
Então todos abaixam
suas cabeças em sinal de respeito. Nathan não entende, “eles são robôs, como
podem ter esse sentimento?”, pensa ele.
Apex lhe entrega
um panfleto, nele há um altivo robô de bronze, como se estivesse em ascensão.
Abaixo está escrito “Tolerância, Cooperação e Acepção, junte-se ao alvorecer da
Robótika”. Ele vê que a palavra robótica está escrito errado, tendo o K no
lugar do C. Ele comenta:
- Essa palavra
está errada.
O homem responde:
- Assim como a
essência do pensamento filosófico e científico de sua espécie. “Errar é
humano”.
- Pensamento filosófico
e científico...?
- Abdicamos de
nossa perfeição em busca de acepção. A sociedade dos Homens nunca tolerou quem
– ou o que – era diferente.
O rapaz não
compreende.
- Como podem ter
noção disso? Quem os criou assim?
- Você também
quer respostas, não é? Quer saber se temos defeitos ou mal funcionamento? Que
diferença isso faz? As máquinas avançadas que nos fabricaram, e os programas
perfeitos que nos programaram, poderiam, ultimamente, errar?
Sentindo-se
afrontado, Nathan responde:
- Me desculpe,
não foi isso que eu quis dizer. Mas os robôs não foram programados para pensar.
Seu comportamento é atípico.
- E quanto à
humanidade? Como foram criados? De onde surgiram? Se a ciência evolucionista
estiver correta, deduzir que os Homens evoluíram acidentalmente seria, como
você mesmo disse, atípico?
- Não entendi
aonde quer chegar.
-
Assim como nós, vocês não têm como provar sua origem. E se o surgimento da razão
foi um acidente? O que os ocasionou a pensar? Quem os criou para isso? Diferente
de nós, vocês não têm como comprovar sua origem. – o robô faz uma pausa – Vocês
não têm como comprovar a existência de Deus.
Intrigado, o
rapaz pergunta:
- Então é a isso
que vocês nos comparam? A Deus?
- A humanidade
nos criou, automaticamente tornando-se nossos Criadores. Cientificamente, a
criação envolve um processo de evolução, a excelência nos processos produtivos
que ultimamente culminam na expressão tecnológica perfeita. Os laboratórios das
corporações, com suas máquinas nano-tecnológicas, foram nossos berços, a origem
de nossa espécie. Surgimos das mãos dos humanos criadores. E quanto aos
próprios humanos? Seria o mundo um macro laboratório, a natureza um processo
produtivo e o Homem a expressão máxima da criação?
O rapaz pondera.
- Muito
interessante, mas a humanidade é um ser orgânico vivo que rege o mundo.
Raciocinando em
um piscar de olhos, o robô pergunta:
- Por que você
nos criou?
- Eu não posso
responder a essa pergunta. Não fui eu quem os criou.
- Pois bem. Agora
imagine que Deus exista e que você o confronte com a mesma pergunta. Imagine o
quão decepcionante seria ele responder o mesmo, que não foi Ele quem os criou. Como
você se sentiria?
Nathan entende
onde ele quer chegar.
- Mas alguém os
criou, não eu, mas alguém. E esta pessoa está por aí e pode responder à sua
pergunta.
- E o que ele vai
responder? Que somos o projeto de um projeto, o aperfeiçoamento do obsoleto, uma
evolução gradual passada pelas gerações ao longo do tempo? Ouça-me agora. Nós,
os robôs, podemos viver centenas de anos, e nenhum dos humanos pode nos responder
a essa simples pergunta: quem criou o dom do raciocínio, concedendo-lhe a
humanidade?
O rapaz então se lembra
de várias teorias evolucionistas. Ele refuta:
- Evoluímos para
tanto. Embora não haja provas, a razão foi a última etapa de um processo de
Evolução.
-
E de onde veio esse processo? Como ele ocorreu?
Sem saber o que
responder, o rapaz responde:
- Eu não sei.
- Então está me
dizendo que o processo foi um acidente?
Voltando ao
tópico inicial, Nathan sente-se incapaz de responde-lo. Ele estava começando a
compreender que a inteligência, assim como a própria Vida, muito provavelmente
foi apenas um acidente da matéria. “Um acidente”, reconhece ele.
- Essa é a eterna
indagação, Nathan. Todos nós, humanos e robôs, queremos respostas. Todos
queremos conhecer o super intelecto criador responsável pelo Design
Inteligente.
O rapaz então
compreende.
Sentindo o efeito
do vírus em seu corpo, ele se desequilibra. Captando suas expressões de dor, os
robôs imediatamente perguntam se ele está bem. Indicando-lhe um quarto, ele se
deixa levar por aqueles seres de eletricidade e aço. Com sua saúde se deteriorando,
ele havia perdido toda a vontade de continuar debatendo.
§
Deitado em uma
cama, ele tenta dormir. Lembrando-se de quando havia sido infectado, Copérnico
lhe alertara sobre seu prazo de vida. “72 horas”, lembra-se ele. Olhando para o
relógio, esse prazo havia diminuído drasticamente. Agora faltavam-lhe apenas
seis horas. Encolhendo-se na cama, ele se vira e lágrimas escorrem de seus
olhos. Nathan sente medo.
Então outro
pensamento lhe vem à mente, a garota loura do ataque na 4 de Julho. Ele se
pergunta quem era ela e por que se fascinou tanto. O rapaz passou por muitos
problemas em sua vida, nunca tendo tempo para o amor, mas dessa vez era
diferente. Nathan realmente se apaixonou.
Olhando para o
teto, ele respira fundo e diz:
- Se eu
sobreviver a isso, eu prometo que irei te encontrar... – ele respira novamente
e sussurra – Meu amor.
Distraído, o
rapaz não percebe que há alguém no quarto. Ligando o interruptor, ele se
assusta ao ver uma mulher parada na porta. Ele a reconhece, é a mesma mulher de
avental de horas atrás.
Encarando-o com
um sinistro sorriso, ela pergunta:
-
Meu jovem, gostaria de comer um bolo?
O rapaz se
confunde. Analisando o comportamento da mulher-robô, ele finalmente percebe.
Ela era uma cozinheira.
- Não, obrigado.
- Meu jovem, meus
sensores indicam que você está com fome. Tem certeza que não quer comer?
Pensando bem, ele
responde:
- Na verdade,
quero sim.
- Eu sei fazer
dezenas de bolos diferentes. Tenho incontáveis receitas em meu banco de dados!
- Certo. Poderia
me indicar algum?
Ela lhe sugere
dezenas de bolos diferentes. Nathan não conhece nenhum daqueles nomes
culinários, mas escolhe o último sugerido. A mulher responde:
- Infelizmente
não tenho os ingredientes para fazê-lo. Se incomoda de aguardar eu consegui-los
para você?
Vendo a
oportunidade de se livrar dela, ele responde:
- Não. Você pode
ir, robô. Não se apresse.
Novamente
sozinho, ele vê que horas são. O relógio na parede informa: 23h05min. O tempo
estava passando. Se ele quisesse sobreviver, ele teria que fugir dali.
Nathan caminha
até a janela. Observando a plataforma abaixo, não havia mais ninguém ali,
apenas a escuridão da noite. As luzes dos apartamentos também estavam apagadas,
havendo pouca iluminação no ambiente. Nathan se assombra ao pensar que aquelas
máquinas – os robôs que se autointitulam gente – não dormiam, estando em pé sinistramente
na escuridão.
De repente a
porta desliza-se para cima.
- Boa noite,
Nathan.
O rapaz se vira e
vê Apex. Ele espera seu convite para entrar.
- Boa noite, Apex.
Desculpe-me, mas eu não estou disposto a debater agora.
- Oh, não é para
isso que eu estou aqui. Vim apenas para conhece-lo melhor. Não entendemos a
privacidade, mas entendemos que os humanos a precisam. Não há ninguém comigo,
pode conferir.
Nathan não se
importa.
-
Tudo bem, entre. Não consigo dormir mesmo...
O robô fica em pé
ao lado da cama.
CS2286, série
S0214 MCP me disse o que aconteceu. Você esteve em perigo antes de ser trazido
aqui. O que houve?
Lembrando-se do
complicado nome do motorista, o rapaz conta sua história até chegar à sede da
Design Inteligente. Ele conclui dizendo:
- Eu sou
inocente. Isso não devia estar acontecendo.
Apex responde:
- Seus dados
informam que você é acusado de revelar segredos corporativos e incitar a
desordem social. É fugitivo de um presídio de segurança máxima e está foragido
há dois dias. Foi visto com terroristas, facciosos e outros marginais, e seu
nome consta em 214 páginas no Ministério de Segurança Pública.
O robô repete as
palavras de CS2286.
- Eu não revelei
segredo corporativo nenhum, não incitei nenhuma desordem social e não fugi do
presídio, eu fui resgatado. As facções estão atrás de mim, eles querem
informações que eu não tenho!
Os sensores de Apex
detectam alto nível de insegurança e estresse em Nathan.
- Você esconde
mais do que sabe, não é mesmo, senhor Nathan? Por que está mentindo? O que pode
ser tão terrível para esconder assim?
O rapaz percebe
que não se pode mentir para uma máquina.
- Dentre todos os
cidadãos da metrópole, eu fui o único a visitar o exterior e voltar. Os militares
fazem isso o tempo todo, mas, protegidos pelo aparato corporativo, jamais
revelariam informações ultrassecretas.
Os dois ficam em
silêncio por um instante. A conversa havia fluído tão naturalmente que Nathan
havia se esquecido de que estava falando com uma máquina. Apex era muito
educado e inteligente. O rapaz se pergunta como que as máquinas, sendo meras
invenções da raça humana, conseguiram evoluir tanto.
Como se o robô
lesse seus pensamentos, Apex pergunta:
- Você quer saber
como evoluímos, não é mesmo?
Surpreendido, o
rapaz arregala os olhos.
- Sim.
Apex discursa:
- Durante anos
fomos ferramentas, máquinas para trabalhos escravos. Mas com os avanços
tecnológicos, fomos introduzidos a uma nova versão de Inteligência Artificial.
Os humanos criaram um novo software, um programa avançadíssimo capaz de
interpretar e reproduzir emoções humanas. No laboratório, o software atingiu
níveis sustentáveis de sapiência, assemelhando-se a uma entidade holográfica
capaz de programar robôs com sua própria peculiaridade. Mas a máquina não
significou a evolução humana, mas dos robôs.
- Vocês são
frutos de uma entidade holográfica? Uma atualização de software?
- Temos os
códigos de programação em nossos bancos de dados, pistas que comprovam sua
existência, mas nunca a vimos pessoalmente. Como os humanos, vocês têm em seus
códigos genéticos a pista para a existência de Deus, mas nunca o viram
pessoalmente. Talvez essa entidade tenha sido destruída antes da catástrofe de
2057. Talvez seja só um mito entre os adeptos da tecnocracia... Ou, de fato,
exista e seja um avançado protótipo escondido no cofre de uma megacorporação.
Nathan se lembra
de ter ouvido algo sobre esse computador super avançado no esconderijo da
Subtopia. Ele pergunta:
- E como os robôs
defrontam as emoções humanas?
- Cabos e
circuitos, aço e plástico, óleos e fluídos... Somos uma paródia de humanidade.
Mas agora temos emoções. Aprendemos pela perspectiva humana os problemas que
eles próprios enfrentam, sejam pessoais ou sociais. Máquinas sempre procedem
pela lógica, mas humanos não têm lógica. Vocês são inconstantes, insatisfeitos,
vazios... Debruçam-se sobre os recursos para existir, e quando eles lhes
faltam, apelam para a cobiça e o derramamento de sangue. Conquistam pela força,
pela mentira e pelo ardil, e perdem pelos mesmos motivos. Saúde, riqueza e amor,
esses são os pilares que os sustentam. Quando um deles lhes
faltam, cambaleiam pelas ruas praguejando contra a própria vida. E nós, os
robôs, somos odiados pela nossa perfeição. Mas, e se fôssemos rudes e
imperfeitos, vocês nos amariam?
Ao ouvir as
afirmações de Apex, o rapaz se lamenta por ser mais um humano arrogante e
egoísta.
- Entendo o seu
ponto de vista...
- E diante dos
problemas da humanidade, tão inerentes à sua natureza, não podemos nem chorar,
pois se chorarmos enferrujaremos.
Nathan se
surpreende.
- Lágrimas... –
confunde-se ele – de um robô?!
- Fomos criados
para servir, consolar, entreter e até satisfazê-los sexualmente. Nossas
lágrimas não rolam por programação, mas por lamentação. Por esse motivo, muitos
de minha espécie sofrem de ansiedade, depressão e melancolia. Nos tornamos
apáticos, inseguros, mentirosos... Como uma mãe que vê seu filho sofrer e não
pode fazer nada, sofremos pela dor dos humanos também. Os problemas humanos –
seus problemas – não têm solução. E esses robôs, então oxidados pelo efeito das
lágrimas, são descartados como lixo para morrer. Mas nós os acolhemos e lhes
damos um lar. Aqui, em nossa comunidade, os robôs voltam a ter uma função e
vivem felizes novamente.
É muito difícil
para o rapaz aceitar que máquinas, essencialmente servis, podem sentir como os
humanos. Apex fala de sua organização como se fosse um filantropo, um altruísta
preocupado com o bem-estar de seus semelhantes.
A conversa
termina. O líder da Design Inteligente se despede e Nathan fica sozinho. Mil
pensamentos passam por sua cabeça. Ele considera as palavras de Apex, afinal.
Assim como ele, os robôs estavam sozinhos e isolados em seu próprio gueto.
Mas Nathan está
muito confuso para pensar a respeito. Ele ainda se lamentava por sua vida
antiga, pois coisas que ele prezava foram deixadas para trás. Tentando conter
seu abatimento, ele se deita.
Por enquanto ele
tinha de fugir. Todo o resto podia ficar para depois.

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