terça-feira, 10 de agosto de 2021

Sonata - 23 - E Pluribus Unum

 


Nathan caminha pelo túnel em ruínas. Ele vê um local onde antes funcionavam várias lojas e comércios, mas naquela noite estavam todas vandalizadas e destruídas. Espalhados pelo caminho, ele vê os aerocarros tombados e em chamas. Friamente ele percebe que o distrito Mecanicistas ainda carregava as marcas da rebelião.

Saindo ao ar livre, ele olha para o topo dos edifícios e vê um intenso tiroteio nos terraços. As viaturas da polícia os sobrevoam, emitindo o irritante som das sirenes. A visibilidade é prejudicada pela fumaça dos incêndios próximos. De fato, aquela estava sendo uma noite bem agitada.

Horas atrás, os hackers do Submundo recebem um email da 4 de Julho.

“Aceitamos receber o Inimigo de Estado em nossa sede, porém sob os nossos termos”.

“Ele deve comparecer no Mecanicistas hoje à noite. Estaremos nos terraços das megatorres. Não se preocupem com o endereço exato, vocês saberão quando vierem para cá”.

“PS.: o Inimigo de Estado deve vir sozinho”.

O rapaz pondera.  Após o ataque da Bushido, ele imaginou que os americanos já tivessem se recuperado. Mas não foi exatamente isso o que aconteceu. Durante aquela semana, eles foram fortemente atacados pela polícia, que se mobilizou em seu território com a intenção de retoma-lo e libera-lo do controle da facção.

A rebelião provocou um vasto confronto, mas ao medirem suas forças e disputarem o poder, a 4 de Julho vivia um momento difícil.

Os runners estão no porão auxiliando Nathan. Enquanto se veste e prepara seus armamentos, Database pergunta:

- Você realmente vai fazer isso?

Amarrando o cadarço em suas botas, o rapaz responde:

- Eu dei a minha palavra.

O chefe assente e então diz:

- Você tem muita coragem. Ninguém aqui faria o mesmo.

Com o desencorajamento, Nathan sente sua determinação tremer. Olhando para o corredor, ele vê Laura passando, séria e confiante como sempre. Então o rapaz pergunta:

- O que a Laura faria?

Sabendo de seus profundos sentimentos por ela, Database discretamente sorri.

- A Lótus? – pergunta ele – Se eu mandasse os runners invadirem o inferno, ela seria a primeira a abrir suas portas com um chute.

O rapaz ri. Seu coração bate forte por ela, mas se enfraquece ao reconhecer que, talvez, ele nunca poderá tê-la.

Database observa o rapaz em silêncio. Após tanto tempo tratando com todo o tipo de gente, ele sabia por que Nathan estava fazendo aquilo. Ele queria impressionar a garota. Laura, uma garota forte, independente e com um passado difícil, jamais olharia para um homem fraco como ele, que veio dos níveis superiores e, por um acidente do destino, se tornou alguém importante.

“Não, Laura não é facilmente impressionável, mas facilmente impressiona”, pensa o chefe. “E quanto a Nathan? Um homem que se arrisca nas missões mais perigosas simplesmente para impressiona-la, na esperança de que ela goste dele do mesmo jeito que ele gosta dela”. Então Database corrige a si mesmo. “Gosta não. Ama”.

O rapaz se levanta e deixa o bunker. O chefe fica olhando-o partir. “Pobre Nathan”, pensa ele. “É só mais um jovem tolo e apaixonado. Se ao menos você soubesse das motivações de Lótus, e do porquê ela ter se tornado uma runner...”.

Meneando a cabeça, Database suspira e volta ao Mystique.

 

§

 

Parado em uma passarela, Nathan olha para os terraços. Uma viatura ilumina o edifício com um holofote. Alguém da 4 de Julho dispara um míssil, que voa pelo céu com um irritando zunido. A viatura se explode em um hipnótico clarão, mergulhando-se livremente pelas megatorres em seguida.

A viatura cai na passarela onde Nathan se encontra. Apesar das chamas, o motorista ainda está vivo e chama por ajuda. Seu companheiro, porém, está morto e queima no incêndio. O rapaz corre para socorrê-lo. Abrindo a porta do veículo, ele arrasta o motorista para fora.

Atrás da viseira negra do capacete, o motorista parece sentir muita dor. O fogo queimou parte de seu uniforme, exibindo seus braços. Então Nathan tem uma terrível surpresa. Tatuado dos ombros até os pulsos, ele descobre a verdade. O motorista não era um policial comum, ele era um mercenário contratado pela Polícia Corporativa.

Nathan sente desprezo. Mercenários eram homens frios e cruéis, assassinos de aluguel que não se importavam com ninguém além de si mesmos. Reprimindo a raiva, o rapaz reconhece que, ao combate-los, as facções faziam um favor à sociedade.

O motorista agarra seu braço, mas, em espasmos, se desfalece e morre no chão. O rapaz fecha os olhos e lágrimas escorrem de seu rosto. Diferente dos anarquistas selvagens que só queriam destruir a cidade, Nathan tinha um coração bom.

Entrando na megatorre, ele caminha pelos corredores e o vê embarricado. Os apartamentos estão trancados e ele ouve as famílias lá dentro. “Pobres vítimas do fogo cruzado”, pensa ele. “Assim como em uma guerra aberta, elas não têm para onde ir”.

De repente uma porta se abre. Sacando sua arma, Nathan olha para dentro do apartamento e se assusta. Agachados no chão, um casal e duas crianças olham para ele, em silêncio levantando suas mãos. O rapaz sente seu coração se despedaçar. A família se rendia em um sinal claro de submissão. “Mais vítimas indefesas”, pensa ele. Então eles ouvem uma explosão e o pai rapidamente abraça sua família, bravamente protegendo-a. Nathan rapidamente se vira e vai embora, ele não queria que eles o vissem chorar.

O elevador se abre e Nathan aperta o botão. A subida é tensa, pois as explosões o balançavam e faziam suas luzes piscarem. Parando pouco antes do topo, a porta se abre e imediatamente homens armados apontam seus fuzis para ele.

- Quem é você? – pergunta alguém.

- Acalmem-se! Eu sou Nathan, o Inimigo de Estado!

Eles se entreolham por um momento. Então o homem responde:

- Você deve ser um suicida por ter vindo aqui.

Lembrando-se do terrível mar de sangue que sua revelação causou, Nathan reconhece que, para pará-lo, o auto-sacrifício seria um preço justo a se pagar.

- Talvez.

Os americanos o escoltam pelos corredores até um apartamento adaptado. Ao entrar, ele vê mapas da região e quatro homens criando estratégias sobre eles. Um deles se vira e, ao vê-lo, humoradamente diz:

- Ora, ora, ora... Vejam só quem voltou para nos visitar.

O homem estende sua mão ao rapaz. Cumprimentando-o, ele responde:

- Olá, General Washington. É um prazer revê-lo.

O general ri.

- Após nosso último encontro, tenho certeza que não. Aliás, não achei que realmente fosse vir.

- Tive meus motivos.

Sentando-se, o general põe seus pés sobre a mesa e vai direto ao ponto.

- Eu não preciso dizer que a situação está ruim, todo mundo sabe que a situação está ruim. Não preciso dizer que temos pouco armamento, todo mundo sabe que temos pouco armamento. E não preciso falar do meu efetivo, que nesse exato momento está lá em cima combatendo o inimigo.

Eles ouvem uma forte explosão, reverberando as janelas e soltando poeira do teto. Nathan se assusta, mas o general mantém seus olhos fixos nele.

- Sim, estou vendo que a polícia está te dando um tempo difícil.

Avançando a conversa, o homem pergunta:

- Então você quer uma aliança entre o Submundo e a 4 de Julho?

- Sim. – responde ele, convictamente.

- E após eu pagar para o mercenário te tirar da prisão, ter meu quartel-general arruinado por sua causa e estar prestes a ser extinguido pela polícia, o que te faz pensar que eu aceitaria?

- Não podemos lutar sozinhos, General. Se quisermos vencer essa guerra, temos que nos unir.

- E você realmente acredita na união entre as facções?

- Não. – responde ele, intrigando-os – Mas acredito na aliança entre as facções e o Inimigo de Estado.

Novamente outra explosão. O rapaz ouve gritos, mas todos ignoram.

- Do jeito que você fala, é como se o Database te disponibilizasse um exército.

Nathan responde:

- Nosso contingente é considerável.

O general se levante em indignação.

- Contingente de quê? De um bando de moleques ousados, vestindo roupas exóticas, que ganham a vida pulando de torre em torre? Esses são os soldados “treinados e disciplinados” que você usa para combater?

Apesar da pertinente descrição, Nathan responde:

- Você se esqueceu de um detalhe, General. Nós temos o povo. Eu sou um símbolo popular, um brado de indignação e um suspiro de esperança. Sou um herói suburbano, valente o bastante para se opor às corporações e libertar a metrópole do Projeto Gemini. Esse é o Inimigo de Estado. Esse é o Nathan.

Os americanos se surpreendem. Inflamados pelo discurso do rapaz, eles esperam o general responder. Ainda refletindo, o general George Washington apela à sensatez.

- Muito bonito o que disse, Nathan. Inspirador. Entretanto, belas palavras não cumprem promessas. Eu já estou em guerra lá fora, e de nada valerá uma aliança sem o benefício mútuo. Você quer minha ajuda? Ajude-me primeiro e você terá sua aliança.

O rapaz não compreende.

- Do que está falando?

- Livre meu distrito desses mercenários disfarçados de polícia. Ajude-me a retomar meu território e a 4 de Julho marchará com o Submundo, juntas como um só corpo, rumo à Cúpula Corporativa. – responde ele, empolgadamente.

Nathan sorri. Tirando um comunicador de seu bolso, ele o veste e então diz:

- Vertigo, traga o transporte, por favor. E equipe os canhões Vulcan. Sim, você ouviu certo, pode equipa-los.

Os americanos se intrigam. Sorrindo, o general diz:

- Pensei que eu tivesse dito para você vir sozinho.

Tocando-o no ombro, o rapaz responde:

- Eu sou o Inimigo de Estado, George. Eu nunca estou sozinho. 

Alguém entra na sala e informa:

- General, há uma aeronave não identificada se aproximando à oeste.

Olhando para o general, Nathan pergunta:

- E então, General. Gostaria de voar um pouco?

 

§

 

Vinte minutos se passam. O distrito Mecanicistas está tomado e arrasado pelo confronto. A polícia cerca as megatorres dos americanos, eles estavam sufocados pelo inimigo. Então, aproximando-se rapidamente, aparece uma poderosa aeronave de guerra no conturbado céu noturno.

O general Washington chama a Nathan e pergunta:

- Você ainda não me disse como conseguiu esse brinquedinho.

O rapaz responde:

- Eu o roubei. – e então ele ri.

Abrindo as portas, Nathan e os americanos miram as robustas metralhadoras giratórias ao inimigo abaixo.

- Fogo! – exclama ele.

Então uma chuva horizontal de aço cruza as alturas, estraçalhando as viaturas policiais. O som dos tiros, dos gritos e das explosões atormentavam a noite, compondo a melodia maldita.  

Abaixo, correndo sobre os terraços, eles veem as tropas a pé aproximando-se com poderosos lança-mísseis. Apoiando-os nos ombros, os runners localizam as barricadas inimigas e atiram, explodindo tudo em seu caminho.

O frenético festival de tiros e explosões era ensurdecedor, como em uma festa de réveillon no inferno.

- Minha nossa! – surpreende-se Vertigo – Parece que o mundo vai acabar!

A ofensiva dura trinta minutos. O vermelho dos lasers colore as megatorres próximas, empolgando-os. Então o inimigo começa a recuar, entrando nas viaturas e deixando o distrito. Alguns daqueles mercenários são deixados para trás. Eles correm desesperados pelos terraços, lançando suas armas no chão e tentando fugir. Nathan se surpreende ao vê-los pulando entre os edifícios e caindo no profundo abismo. Definitivamente, eles não eram runners.

Finado o confronto, Vertigo pousa a aeronave em um terraço. Os americanos trazem os mercenários capturados, pondo-os de joelhos diante do General Washington e de Nathan. O rapaz pergunta:

- E então? Temos nossa aliança?

Colocando as mãos em seus ombros, o general sorri e responde:

- E Pluribus Unum!

Nathan não compreende.

- O que isso quer dizer?

- “De muitos, um”. Esse é o lema dos Estados Unidos da América. – responde ele, bem humorado – E de agora em diante, a 4 de Julho e o Submundo são um.

O rapaz sorri, agradecido.

Olhando para os extremistas fanáticos da 4 de Julho, Vertigo cutuca um runner próximo e, sarcasticamente, comenta:

- Isso vai ser interessante...

 

 

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