Nathan caminha
pelo túnel em ruínas. Ele vê um local onde antes funcionavam várias lojas e
comércios, mas naquela noite estavam todas vandalizadas e destruídas.
Espalhados pelo caminho, ele vê os aerocarros tombados e em chamas. Friamente
ele percebe que o distrito Mecanicistas ainda carregava as marcas da rebelião.
Saindo ao ar
livre, ele olha para o topo dos edifícios e vê um intenso tiroteio nos
terraços. As viaturas da polícia os sobrevoam, emitindo o irritante som das
sirenes. A visibilidade é prejudicada pela fumaça dos incêndios próximos. De fato,
aquela estava sendo uma noite bem agitada.
Horas atrás, os
hackers do Submundo recebem um email da 4 de Julho.
“Aceitamos
receber o Inimigo de Estado em nossa sede, porém sob os nossos termos”.
“Ele deve comparecer
no Mecanicistas hoje à noite. Estaremos nos terraços das megatorres. Não se
preocupem com o endereço exato, vocês saberão quando vierem para cá”.
“PS.: o Inimigo
de Estado deve vir sozinho”.
O rapaz
pondera. Após o ataque da Bushido, ele
imaginou que os americanos já tivessem se recuperado. Mas não foi exatamente
isso o que aconteceu. Durante aquela semana, eles foram fortemente atacados
pela polícia, que se mobilizou em seu território com a intenção de retoma-lo e
libera-lo do controle da facção.
A rebelião
provocou um vasto confronto, mas ao medirem suas forças e disputarem o poder, a
4 de Julho vivia um momento difícil.
Os runners estão
no porão auxiliando Nathan. Enquanto se veste e prepara seus armamentos,
Database pergunta:
- Você realmente
vai fazer isso?
Amarrando o
cadarço em suas botas, o rapaz responde:
- Eu dei a minha
palavra.
O chefe assente e
então diz:
- Você tem muita
coragem. Ninguém aqui faria o mesmo.
Com o
desencorajamento, Nathan sente sua determinação tremer. Olhando para o
corredor, ele vê Laura passando, séria e confiante como sempre. Então o rapaz
pergunta:
- O que a Laura
faria?
Sabendo de seus
profundos sentimentos por ela, Database discretamente sorri.
- A Lótus? –
pergunta ele – Se eu mandasse os runners invadirem o inferno, ela seria a
primeira a abrir suas portas com um chute.
O rapaz ri. Seu
coração bate forte por ela, mas se enfraquece ao reconhecer que, talvez, ele
nunca poderá tê-la.
Database observa
o rapaz em silêncio. Após tanto tempo tratando com todo o tipo de gente, ele
sabia por que Nathan estava fazendo aquilo. Ele queria impressionar a garota.
Laura, uma garota forte, independente e com um passado difícil, jamais olharia
para um homem fraco como ele, que veio dos níveis superiores e, por um acidente
do destino, se tornou alguém importante.
“Não, Laura não é
facilmente impressionável, mas facilmente impressiona”, pensa o chefe. “E
quanto a Nathan? Um homem que se arrisca nas missões mais perigosas
simplesmente para impressiona-la, na esperança de que ela goste dele do mesmo
jeito que ele gosta dela”. Então Database corrige a si mesmo. “Gosta não. Ama”.
O rapaz se
levanta e deixa o bunker. O chefe fica olhando-o partir. “Pobre Nathan”, pensa
ele. “É só mais um jovem tolo e apaixonado. Se ao menos você soubesse das
motivações de Lótus, e do porquê ela ter se tornado uma runner...”.
Meneando a
cabeça, Database suspira e volta ao Mystique.
§
Parado em uma
passarela, Nathan olha para os terraços. Uma viatura ilumina o edifício com um
holofote. Alguém da 4 de Julho dispara um míssil, que voa pelo céu com um
irritando zunido. A viatura se explode em um hipnótico clarão, mergulhando-se
livremente pelas megatorres em seguida.
A viatura cai na
passarela onde Nathan se encontra. Apesar das chamas, o motorista ainda está
vivo e chama por ajuda. Seu companheiro, porém, está morto e queima no
incêndio. O rapaz corre para socorrê-lo. Abrindo a porta do veículo, ele
arrasta o motorista para fora.
Atrás da viseira
negra do capacete, o motorista parece sentir muita dor. O fogo queimou parte de
seu uniforme, exibindo seus braços. Então Nathan tem uma terrível surpresa. Tatuado
dos ombros até os pulsos, ele descobre a verdade. O motorista não era um
policial comum, ele era um mercenário contratado pela Polícia Corporativa.
Nathan sente
desprezo. Mercenários eram homens frios e cruéis, assassinos de aluguel que não
se importavam com ninguém além de si mesmos. Reprimindo a raiva, o rapaz
reconhece que, ao combate-los, as facções faziam um favor à sociedade.
O motorista
agarra seu braço, mas, em espasmos, se desfalece e morre no chão. O rapaz fecha
os olhos e lágrimas escorrem de seu rosto. Diferente dos anarquistas selvagens
que só queriam destruir a cidade, Nathan tinha um coração bom.
Entrando na
megatorre, ele caminha pelos corredores e o vê embarricado. Os apartamentos
estão trancados e ele ouve as famílias lá dentro. “Pobres vítimas do fogo
cruzado”, pensa ele. “Assim como em uma guerra aberta, elas não têm para onde
ir”.
De repente uma
porta se abre. Sacando sua arma, Nathan olha para dentro do apartamento e se
assusta. Agachados no chão, um casal e duas crianças olham para ele, em
silêncio levantando suas mãos. O rapaz sente seu coração se despedaçar. A
família se rendia em um sinal claro de submissão. “Mais vítimas indefesas”,
pensa ele. Então eles ouvem uma explosão e o pai rapidamente abraça sua
família, bravamente protegendo-a. Nathan rapidamente se vira e vai embora, ele
não queria que eles o vissem chorar.
O elevador se
abre e Nathan aperta o botão. A subida é tensa, pois as explosões o balançavam
e faziam suas luzes piscarem. Parando pouco antes do topo, a porta se abre e
imediatamente homens armados apontam seus fuzis para ele.
- Quem é você? –
pergunta alguém.
- Acalmem-se! Eu
sou Nathan, o Inimigo de Estado!
Eles se
entreolham por um momento. Então o homem responde:
- Você deve ser
um suicida por ter vindo aqui.
Lembrando-se do
terrível mar de sangue que sua revelação causou, Nathan reconhece que, para pará-lo,
o auto-sacrifício seria um preço justo a se pagar.
- Talvez.
Os americanos o
escoltam pelos corredores até um apartamento adaptado. Ao entrar, ele vê mapas
da região e quatro homens criando estratégias sobre eles. Um deles se vira e,
ao vê-lo, humoradamente diz:
- Ora, ora,
ora... Vejam só quem voltou para nos visitar.
O homem estende
sua mão ao rapaz. Cumprimentando-o, ele responde:
- Olá, General
Washington. É um prazer revê-lo.
O general ri.
- Após nosso
último encontro, tenho certeza que não. Aliás, não achei que realmente fosse
vir.
- Tive meus motivos.
Sentando-se, o
general põe seus pés sobre a mesa e vai direto ao ponto.
- Eu não preciso
dizer que a situação está ruim, todo mundo sabe que a situação está ruim. Não
preciso dizer que temos pouco armamento, todo mundo sabe que temos pouco
armamento. E não preciso falar do meu efetivo, que nesse exato momento está lá
em cima combatendo o inimigo.
Eles ouvem uma
forte explosão, reverberando as janelas e soltando poeira do teto. Nathan se
assusta, mas o general mantém seus olhos fixos nele.
- Sim, estou
vendo que a polícia está te dando um tempo difícil.
Avançando a
conversa, o homem pergunta:
- Então você quer
uma aliança entre o Submundo e a 4 de Julho?
- Sim. – responde
ele, convictamente.
- E após eu pagar
para o mercenário te tirar da prisão, ter meu quartel-general arruinado por sua
causa e estar prestes a ser extinguido pela polícia, o que te faz pensar que eu
aceitaria?
- Não podemos
lutar sozinhos, General. Se quisermos vencer essa guerra, temos que nos unir.
- E você realmente
acredita na união entre as facções?
- Não. – responde
ele, intrigando-os – Mas acredito na aliança entre as facções e o Inimigo de
Estado.
Novamente outra
explosão. O rapaz ouve gritos, mas todos ignoram.
- Do jeito que
você fala, é como se o Database te disponibilizasse um exército.
Nathan responde:
- Nosso
contingente é considerável.
O general se
levante em indignação.
- Contingente de
quê? De um bando de moleques ousados, vestindo roupas exóticas, que ganham a
vida pulando de torre em torre? Esses são os soldados “treinados e
disciplinados” que você usa para combater?
Apesar da
pertinente descrição, Nathan responde:
- Você se
esqueceu de um detalhe, General. Nós temos o povo. Eu sou um símbolo popular,
um brado de indignação e um suspiro de esperança. Sou um herói suburbano,
valente o bastante para se opor às corporações e libertar a metrópole do
Projeto Gemini. Esse é o Inimigo de Estado. Esse é o Nathan.
Os americanos se
surpreendem. Inflamados pelo discurso do rapaz, eles esperam o general
responder. Ainda refletindo, o general George Washington apela à sensatez.
- Muito bonito o
que disse, Nathan. Inspirador. Entretanto, belas palavras não cumprem promessas.
Eu já estou em guerra lá fora, e de nada valerá uma aliança sem o benefício
mútuo. Você quer minha ajuda? Ajude-me primeiro e você terá sua aliança.
O rapaz não
compreende.
- Do que está
falando?
- Livre meu
distrito desses mercenários disfarçados de polícia. Ajude-me a retomar meu
território e a 4 de Julho marchará com o Submundo, juntas como um só corpo,
rumo à Cúpula Corporativa. – responde ele, empolgadamente.
Nathan sorri.
Tirando um comunicador de seu bolso, ele o veste e então diz:
- Vertigo, traga
o transporte, por favor. E equipe os canhões Vulcan. Sim, você ouviu certo,
pode equipa-los.
Os americanos se
intrigam. Sorrindo, o general diz:
- Pensei que eu
tivesse dito para você vir sozinho.
Tocando-o no
ombro, o rapaz responde:
- Eu sou o
Inimigo de Estado, George. Eu nunca estou sozinho.
Alguém entra na
sala e informa:
- General, há uma
aeronave não identificada se aproximando à oeste.
Olhando para o
general, Nathan pergunta:
- E então,
General. Gostaria de voar um pouco?
§
Vinte minutos se
passam. O distrito Mecanicistas está tomado e arrasado pelo confronto. A polícia
cerca as megatorres dos americanos, eles estavam sufocados pelo inimigo. Então,
aproximando-se rapidamente, aparece uma poderosa aeronave de guerra no
conturbado céu noturno.
O general
Washington chama a Nathan e pergunta:
- Você ainda não
me disse como conseguiu esse brinquedinho.
O rapaz responde:
- Eu o roubei. –
e então ele ri.
Abrindo as
portas, Nathan e os americanos miram as robustas metralhadoras giratórias ao
inimigo abaixo.
- Fogo! – exclama
ele.
Então uma chuva
horizontal de aço cruza as alturas, estraçalhando as viaturas policiais. O som
dos tiros, dos gritos e das explosões atormentavam a noite, compondo a melodia
maldita.
Abaixo, correndo
sobre os terraços, eles veem as tropas a pé aproximando-se com poderosos
lança-mísseis. Apoiando-os nos ombros, os runners localizam as barricadas
inimigas e atiram, explodindo tudo em seu caminho.
O frenético
festival de tiros e explosões era ensurdecedor, como em uma festa de réveillon
no inferno.
- Minha nossa! –
surpreende-se Vertigo – Parece que o mundo vai acabar!
A ofensiva dura
trinta minutos. O vermelho dos lasers colore as megatorres próximas, empolgando-os.
Então o inimigo começa a recuar, entrando nas viaturas e deixando o distrito.
Alguns daqueles mercenários são deixados para trás. Eles correm desesperados
pelos terraços, lançando suas armas no chão e tentando fugir. Nathan se
surpreende ao vê-los pulando entre os edifícios e caindo no profundo abismo.
Definitivamente, eles não eram runners.
Finado o
confronto, Vertigo pousa a aeronave em um terraço. Os americanos trazem os
mercenários capturados, pondo-os de joelhos diante do General Washington e de
Nathan. O rapaz pergunta:
- E então? Temos
nossa aliança?
Colocando as mãos
em seus ombros, o general sorri e responde:
- E Pluribus
Unum!
Nathan não compreende.
- O que isso quer
dizer?
- “De muitos,
um”. Esse é o lema dos Estados Unidos da América. – responde ele, bem humorado
– E de agora em diante, a 4 de Julho e o Submundo são um.
O rapaz sorri,
agradecido.
Olhando para os
extremistas fanáticos da 4 de Julho, Vertigo cutuca um runner próximo e,
sarcasticamente, comenta:
- Isso vai ser
interessante...

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