domingo, 8 de agosto de 2021

Sonata - 22 - O Inimigo de Estado

 


Funcionando como um bordel de luxo no distrito de Zênite, Setor E, o local é famoso por receber os dirigentes de Sonata. Seus profissionais, belíssimas mulheres e homens, entretém seus poderosos clientes com danças exóticas, bebidas caras e serviços eróticos.

Aquela era mais uma noite normal no estabelecimento. O bordel realizava espetáculos e divertia seus frequentadores. A fumaça de cigarro e a embriaguez do álcool compunham o ambiente, causando muita diversão.

A prostituta, uma belíssima mulher de quadris largos e cabelos negros, ergue uma garrafa de cabernet sauvignon e derrama seu líquido na boca de um cliente, molhando suas roupas. De repente eles ouvem um tiro, estourando a garrafa em centenas de pedaços. Assustados, um segurança grita:

- É uma invasão!

Então a porta se explode e as janelas se estilhaçam, provocando um terrível ruído. O local é invadido por dezenas de homens encapuzados, portando facas e rifles de assalto. Virando as mesas, os seguranças se protegem e atiram nos invasores, começando um sangrento tiroteio.

Os encapuzados invadem pelas janelas destruídas, pendurados por cordas na lateral do edifício. Os seguranças são pegos desprevenidos e muitos são alvejados na confusão. As prostitutas se agacham e gritam histericamente, outras correm de um lado ao outro tentando fugir. Os clientes se protegem atrás dos sofás e mesas, mas muitos são mortos pelo poder dos penetrantes projéteis.

O barman, que esteve agachado durante a invasão, se levanta empunhando um belo lança-misseis. Os invasores se intimidam por um momento, mas o barman era só um misturador profissional de bebidas. Desajeitado, ele se desequilibra e atira no teto, errando o alvo e destruindo o colorido forro. A explosão lança as mesas e cadeiras ao redor, varridas pelo poderoso sopro. O barman é atingido em seguida, caindo atrás do balcão.

A poeira se abaixa, mas uma fumaça diferente se forma dos disparos das inexoráveis armas. A histeria e o caos são atordoantes, o tempo parece se prolongar. Os rifles expelem as cápsulas fumegantes em uma fascinante cascata de fogo. Buracos de balas se abrem nas paredes, criando rastros pela glamorosa decoração.   

O superior poder de fogo dos invasores domina o confronto e finalmente a situação se acalma. De braços erguidos, os seguranças – aqueles que restaram – soltam suas armas e se rendem. Deitadas nos pedaços de mobília e entulho, as prostitutas choram assustadas. Mas não foi por elas que os invasores estavam ali.

Alguém caminha pelas poças de sangue e cacos de vidro. À sua frente ele vê um palco com uma barra de pole dancing. Com seu rifle em mãos, ele fala para alguém atrás dele:

- Saiam!

De mãos erguidas, vários homens se levantam e caminham para longe do palco. São homens mais velhos, vestindo roupas caras e refinadas. Alguns estão feridos e tentam estancar seus sangramentos, mas outros não resistem e sangram no chão até morrer.

- Quem é você? – pergunta um deles.

O invasor tira sua máscara e imediatamente eles o reconhecem.

- É o Inimigo de Estado!

- Podem me chamar de Nathan.

Um homem com um emblema do Ministério de Segurança Pública o ameaça dizendo:

- Você nunca vai se safar dessa! Nós temos nossos melhores agentes procurando-o!

Irônico, o rapaz responde:

- Então eles estão fazendo um ótimo trabalho.

- O que você vai fazer conosco? – pergunta outro.

- Apenas temos algumas perguntas.

Desafiante, um deles diz:

- Vai nos levar para um interrogatório, não é? E o que vai fazer depois? Nos executar a sangue frio como um bom revolucionário, defensor da paz, faria?

Nathan ri.

- Isso vai depender de vocês. Aliás, não somos nós quem executamos os dissidentes aqui. – responde ele, apontando para seus uniformes com o emblema das corporações.

Alguém se aproxima do rapaz e diz:

- Nathan, temos que ir.

Assentindo, ele responde:

- Certo. Podem leva-los.

Os invasores levam os dirigentes para fora.  

Caminhando pelo bordel, o rapaz se depara com as prostitutas e michês escondidos atrás das mobílias. Eles vestem roupas íntimas e têm maquiagens em seus rostos. As mulheres, observa Nathan, são belíssimas e muito sensuais. Os homens são musculosos e de boa aparência. Ele diz:

- Não se preocupem. Vocês estão livres dos abusos corporativos. O Inimigo de Estado os libertou.

Um pouco confusos, os trabalhadores se levantam. Uma mulher, aparentemente a mais velha, se levanta e então pergunta:

- Você deve estar muito orgulhoso, não?

Nathan olha para ela.

- Perdão?

- Olhe só para você, com esse sobretudo e esse lenço xadrez no pescoço. Um inofensivo cidadão tornado um insurgente rebelado. O que te ofereceram para mudar tanto? A suposta liberdade da metrópole, ou você só explode coisas e atira nas pessoas por diversão?

O rapaz não sabe o que responder.

- Eu combato a tirania corporativa e a ameaça do Protótipo #8...

- Não me faça rir! – interrompe ela – Sua vida inteira foi exposta após a Grande Revelação. Toda a metrópole te conhece agora, até mais do que você mesmo. Você era um ninguém até cair nas ruínas, e agora me aparece liderando uma equipe e fazendo inflamados discursos políticos? Tem alguém te controlando nas sombras, não é mesmo? Alguém oculto planejando seus passos para tomar o poder.

Lembrando-se de Databas, o rapaz responde:

- Eu não sou controlado por ninguém.

A mulher muda de assunto.

- Você acaba de destruir meu bordel. Isso faz você se sentir bem?

Então o rapaz percebe que falava com a cafetina.

- Destrui-lo não era o meu plano.

- É claro que não. Afinal, os heróis lutam pela vida, não é mesmo? – ironiza ela, apontando para os cadáveres espalhados no chão.

- Como eu disse antes, eu luto pela libertação.

- Mas você já se perguntou se queremos ser livres?

Novamente Nathan não compreende.

- O que está dizendo?

A cafetina sorri.

- Isso não te passou pela cabeça, não é? Talvez tivesse lhe ocorrido se não estivesse ocupado explodindo tudo e atirando em todo mundo por aí. Nós, os “honestos trabalhadores de Sonata”, não queremos libertação. Ao contrário, nós dependemos das corporações para sobreviver! E não apenas nós, mas muita gente lá fora também.

O rapaz se intriga.

- Você não sabe do que está falando. As corporações são uma ameaça muito maior e tem por objetivo o nosso extermínio.

- E curiosamente só você sabe disso. – responde ela – Ouça-me, querido. Nossas vidas eram confortáveis com as corporações. Alguns trabalhavam mais, outros menos, mas todos desfrutavam de seu trabalho e conseguiam sobreviver. E então apareceram vocês, virando a metrópole de pernas para o ar. Você realmente acha que a população está feliz com isso?

Ponderando, o rapaz responde:

- A mensagem foi clara. A sobrevivência da metrópole depende de nossa luta e de quem lutar ao nosso lado.

- Então comece a considerar a hipótese de que nem todos escolham lutar ao seu lado. E que nem todos trocarão a certeza das corporações pela promessa duvidosa dos rebeldes e do Inimigo de Estado.

Em seguida a mulher lhe dá as costas e leva suas funcionárias para um local seguro. Nathan fica parado ali, em silêncio e ponderando no que acabara de ouvir.

 

§

 

De volta à superfície, o rapaz se encontra no quartel-general da rebelião, um bunker próximo ao Mystique que os runners humoradamente apelidaram de Submundo. 

Sentado em um sofá, ele bebe um pouco de cerveja e reflete sobre as palavras da cafetina. “Poderia ela estar certa, afinal?”, pergunta-se ele. O rapaz teme que a rebelião, que ele mesmo iniciou há alguns dias, possa terminar em um amargo fracasso.

Database aparece e o parabeniza pelo sucesso da missão. Nathan se mostra indiferente, apático às palavras do chefe. Ele pergunta:

- Está tudo bem, Nathan?

- Sim. – responde ele, sem se importar – Teve sorte no interrogatório?

O rapaz se refere aos dirigentes capturados.

- Eles vêm se mostrando bem resistentes. Está difícil de extrair algo.

Preocupado, Nathan pergunta:

- Você acha que eles vão falar?

- Oh, não se preocupe. Eles vão falar... – responde Database, em tom ameaçador.

- Está bem.

O rapaz volta a tomar sua cerveja. O chefe então refaz sua pergunta:

- O que está te incomodando, Nathan?

Um pouco zonzo, Nathan responde:

- Estamos lutando há alguns dias, Database. Apesar da instabilidade nos níveis superiores, boa parte da população ainda se nega a se rebelar. E se a cultura corporativa estiver de tal modo enraizada nos cidadãos sonatenses que, apesar da ameaça do Projeto Gemini, eles resistirem e até mesmo defenderem seus opressores?

O chefe se intriga. Ponderando um pouco, ele percebe que uma sabotagem cultural poderia atrasar a revolução em décadas. Dissuadindo Nathan, ele sabiamente responde:

- Não se trata de cultura, Nathan. Se trata de mostrar a eles que nós podemos ser a melhor opção.

O rapaz respira fundo.

- E nós podemos provar isso? 

- Provar? Não. Nós seremos a melhor opção. Por isso devemos alcançar o poder, para eliminar a ameaça corporativa e tornar a metrópole novamente segura.

- Mas estamos lutando e não chegamos nem perto da cúpula corporativa no centro de Sonata.

O rapaz se refere a uma megatorre no Setor M, onde se encontra a sede do poder corporativo.

- Um passo de cada vez, Nathan. Por enquanto, precisamos angariar um poder de fogo maciço para o ataque. Ainda não estamos prontos.

Então o rapaz tem uma brilhante ideia.

- É claro! É exatamente disso o que precisamos!

Database não compreende.

- O que quer dizer?

- Para acabar com esse derramamento de sangue, precisamos de um poder de fogo maior. – ele continua – Precisamos das facções.

Ao ouvir esse absurdo, o chefe ri.

- Nathan, as facções são opostas umas às outras, pregando entre si aniquilação. Elas não são estáveis e muito menos confiáveis.

- É por que sua causa não é compartilhada por um aliado neutro. Elas precisam de alguém de fora para as unirem, um catalisador, se preferir.

Intrigado, o chefe pergunta:

- Está dizendo que tentará unir esses fanáticos com o Submundo?

- Não. – responde ele – Tentarei uni-los ao Inimigo de Estado, ou seja, a mim.

Database se espanta.

- Você não pode estar falando sério.

- Eu estou.

- Nathan, você é jurado de morte na Bushido e na Resistência Purista. Se você fracassar em seu plano, você poderá morrer.

Bem humorado, o jovem Nathan responde:

- Não se preocupe, Database. Se eu tiver que dar a minha vida em troca da vida de milhões de inocentes, esse é um preço que eu certamente pagarei.

 

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