Funcionando como
um bordel de luxo no distrito de Zênite, Setor E, o local é famoso por receber
os dirigentes de Sonata. Seus profissionais, belíssimas mulheres e homens,
entretém seus poderosos clientes com danças exóticas, bebidas caras e serviços
eróticos.
Aquela era mais
uma noite normal no estabelecimento. O bordel realizava espetáculos e divertia
seus frequentadores. A fumaça de cigarro e a embriaguez do álcool compunham o
ambiente, causando muita diversão.
A prostituta, uma
belíssima mulher de quadris largos e cabelos negros, ergue uma garrafa de cabernet
sauvignon e derrama seu líquido na boca de um cliente, molhando suas roupas. De
repente eles ouvem um tiro, estourando a garrafa em centenas de pedaços.
Assustados, um segurança grita:
- É uma invasão!
Então a porta se
explode e as janelas se estilhaçam, provocando um terrível ruído. O local é
invadido por dezenas de homens encapuzados, portando facas e rifles de assalto.
Virando as mesas, os seguranças se protegem e atiram nos invasores, começando
um sangrento tiroteio.
Os encapuzados
invadem pelas janelas destruídas, pendurados por cordas na lateral do edifício.
Os seguranças são pegos desprevenidos e muitos são alvejados na confusão. As
prostitutas se agacham e gritam histericamente, outras correm de um lado ao
outro tentando fugir. Os clientes se protegem atrás dos sofás e mesas, mas
muitos são mortos pelo poder dos penetrantes projéteis.
O barman, que
esteve agachado durante a invasão, se levanta empunhando um belo lança-misseis.
Os invasores se intimidam por um momento, mas o barman era só um misturador
profissional de bebidas. Desajeitado, ele se desequilibra e atira no teto,
errando o alvo e destruindo o colorido forro. A explosão lança as mesas e
cadeiras ao redor, varridas pelo poderoso sopro. O barman é atingido em
seguida, caindo atrás do balcão.
A poeira se
abaixa, mas uma fumaça diferente se forma dos disparos das inexoráveis armas. A
histeria e o caos são atordoantes, o tempo parece se prolongar. Os rifles expelem
as cápsulas fumegantes em uma fascinante cascata de fogo. Buracos de balas se abrem
nas paredes, criando rastros pela glamorosa decoração.
O superior poder
de fogo dos invasores domina o confronto e finalmente a situação se acalma. De
braços erguidos, os seguranças – aqueles que restaram – soltam suas armas e se
rendem. Deitadas nos pedaços de mobília e entulho, as prostitutas choram
assustadas. Mas não foi por elas que os invasores estavam ali.
Alguém caminha
pelas poças de sangue e cacos de vidro. À sua frente ele vê um palco com uma
barra de pole dancing. Com seu rifle em mãos, ele fala para alguém atrás dele:
- Saiam!
De mãos erguidas,
vários homens se levantam e caminham para longe do palco. São homens mais
velhos, vestindo roupas caras e refinadas. Alguns estão feridos e tentam
estancar seus sangramentos, mas outros não resistem e sangram no chão até
morrer.
- Quem é você? –
pergunta um deles.
O invasor tira
sua máscara e imediatamente eles o reconhecem.
- É o Inimigo de
Estado!
- Podem me chamar
de Nathan.
Um homem com um
emblema do Ministério de Segurança Pública o ameaça dizendo:
- Você nunca vai
se safar dessa! Nós temos nossos melhores agentes procurando-o!
Irônico, o rapaz
responde:
- Então eles
estão fazendo um ótimo trabalho.
- O que você vai
fazer conosco? – pergunta outro.
- Apenas temos
algumas perguntas.
Desafiante, um
deles diz:
- Vai nos levar
para um interrogatório, não é? E o que vai fazer depois? Nos executar a sangue
frio como um bom revolucionário, defensor da paz, faria?
Nathan ri.
- Isso vai
depender de vocês. Aliás, não somos nós quem executamos os dissidentes aqui. –
responde ele, apontando para seus uniformes com o emblema das corporações.
Alguém se
aproxima do rapaz e diz:
- Nathan, temos
que ir.
Assentindo, ele
responde:
- Certo. Podem
leva-los.
Os invasores levam
os dirigentes para fora.
Caminhando pelo
bordel, o rapaz se depara com as prostitutas e michês escondidos atrás das
mobílias. Eles vestem roupas íntimas e têm maquiagens em seus rostos. As
mulheres, observa Nathan, são belíssimas e muito sensuais. Os homens são musculosos
e de boa aparência. Ele diz:
- Não se
preocupem. Vocês estão livres dos abusos corporativos. O Inimigo de Estado os
libertou.
Um pouco confusos,
os trabalhadores se levantam. Uma mulher, aparentemente a mais velha, se
levanta e então pergunta:
- Você deve estar
muito orgulhoso, não?
Nathan olha para
ela.
- Perdão?
- Olhe só para
você, com esse sobretudo e esse lenço xadrez no pescoço. Um inofensivo cidadão
tornado um insurgente rebelado. O que te ofereceram para mudar tanto? A suposta
liberdade da metrópole, ou você só explode coisas e atira nas pessoas por
diversão?
O rapaz não sabe
o que responder.
- Eu combato a
tirania corporativa e a ameaça do Protótipo #8...
- Não me faça
rir! – interrompe ela – Sua vida inteira foi exposta após a Grande Revelação.
Toda a metrópole te conhece agora, até mais do que você mesmo. Você era um
ninguém até cair nas ruínas, e agora me aparece liderando uma equipe e fazendo
inflamados discursos políticos? Tem alguém te controlando nas sombras, não é
mesmo? Alguém oculto planejando seus passos para tomar o poder.
Lembrando-se de
Databas, o rapaz responde:
- Eu não sou
controlado por ninguém.
A mulher muda de
assunto.
- Você acaba de
destruir meu bordel. Isso faz você se sentir bem?
Então o rapaz
percebe que falava com a cafetina.
- Destrui-lo não
era o meu plano.
- É claro que não.
Afinal, os heróis lutam pela vida, não é mesmo? – ironiza ela, apontando para
os cadáveres espalhados no chão.
- Como eu disse
antes, eu luto pela libertação.
- Mas você já se
perguntou se queremos ser livres?
Novamente Nathan
não compreende.
- O que está
dizendo?
A cafetina sorri.
- Isso não te
passou pela cabeça, não é? Talvez tivesse lhe ocorrido se não estivesse ocupado
explodindo tudo e atirando em todo mundo por aí. Nós, os “honestos trabalhadores
de Sonata”, não queremos libertação. Ao contrário, nós dependemos das
corporações para sobreviver! E não apenas nós, mas muita gente lá fora também.
O rapaz se
intriga.
- Você não sabe
do que está falando. As corporações são uma ameaça muito maior e tem por
objetivo o nosso extermínio.
- E curiosamente só
você sabe disso. – responde ela – Ouça-me, querido. Nossas vidas eram
confortáveis com as corporações. Alguns trabalhavam mais, outros menos, mas
todos desfrutavam de seu trabalho e conseguiam sobreviver. E então apareceram
vocês, virando a metrópole de pernas para o ar. Você realmente acha que a
população está feliz com isso?
Ponderando, o
rapaz responde:
- A mensagem foi
clara. A sobrevivência da metrópole depende de nossa luta e de quem lutar ao
nosso lado.
- Então comece a
considerar a hipótese de que nem todos escolham lutar ao seu lado. E que nem
todos trocarão a certeza das corporações pela promessa duvidosa dos rebeldes e
do Inimigo de Estado.
Em seguida a
mulher lhe dá as costas e leva suas funcionárias para um local seguro. Nathan
fica parado ali, em silêncio e ponderando no que acabara de ouvir.
§
De volta à
superfície, o rapaz se encontra no quartel-general da rebelião, um bunker próximo ao Mystique que os runners humoradamente apelidaram de Submundo.
Sentado em um
sofá, ele bebe um pouco de cerveja e reflete sobre as palavras da cafetina.
“Poderia ela estar certa, afinal?”, pergunta-se ele. O rapaz teme que a
rebelião, que ele mesmo iniciou há alguns dias, possa terminar em um amargo
fracasso.
Database aparece
e o parabeniza pelo sucesso da missão. Nathan se mostra indiferente, apático às
palavras do chefe. Ele pergunta:
- Está tudo bem,
Nathan?
- Sim. – responde
ele, sem se importar – Teve sorte no interrogatório?
O rapaz se refere
aos dirigentes capturados.
- Eles vêm se mostrando
bem resistentes. Está difícil de extrair algo.
Preocupado,
Nathan pergunta:
- Você acha que
eles vão falar?
- Oh, não se
preocupe. Eles vão falar... – responde Database, em tom ameaçador.
- Está bem.
O rapaz volta a
tomar sua cerveja. O chefe então refaz sua pergunta:
- O que está te
incomodando, Nathan?
Um pouco zonzo,
Nathan responde:
- Estamos lutando
há alguns dias, Database. Apesar da instabilidade nos níveis superiores, boa
parte da população ainda se nega a se rebelar. E se a cultura corporativa estiver
de tal modo enraizada nos cidadãos sonatenses que, apesar da ameaça do Projeto
Gemini, eles resistirem e até mesmo defenderem seus opressores?
O chefe se
intriga. Ponderando um pouco, ele percebe que uma sabotagem cultural poderia
atrasar a revolução em décadas. Dissuadindo Nathan, ele sabiamente responde:
- Não se trata de
cultura, Nathan. Se trata de mostrar a eles que nós podemos ser a melhor opção.
O rapaz respira
fundo.
- E nós podemos
provar isso?
- Provar? Não. Nós
seremos a melhor opção. Por isso devemos alcançar o poder, para eliminar a
ameaça corporativa e tornar a metrópole novamente segura.
- Mas estamos
lutando e não chegamos nem perto da cúpula corporativa no centro de Sonata.
O rapaz se refere
a uma megatorre no Setor M, onde se encontra a sede do poder corporativo.
- Um passo de
cada vez, Nathan. Por enquanto, precisamos angariar um poder de fogo maciço
para o ataque. Ainda não estamos prontos.
Então o rapaz tem
uma brilhante ideia.
- É claro! É
exatamente disso o que precisamos!
Database não
compreende.
- O que quer
dizer?
- Para acabar com
esse derramamento de sangue, precisamos de um poder de fogo maior. – ele
continua – Precisamos das facções.
Ao ouvir esse
absurdo, o chefe ri.
- Nathan, as
facções são opostas umas às outras, pregando entre si aniquilação. Elas não são
estáveis e muito menos confiáveis.
- É por que sua
causa não é compartilhada por um aliado neutro. Elas precisam de alguém de fora
para as unirem, um catalisador, se preferir.
Intrigado, o
chefe pergunta:
- Está dizendo
que tentará unir esses fanáticos com o Submundo?
- Não. – responde
ele – Tentarei uni-los ao Inimigo de Estado, ou seja, a mim.
Database se
espanta.
- Você não pode
estar falando sério.
- Eu estou.
- Nathan, você é
jurado de morte na Bushido e na Resistência Purista. Se você fracassar em seu
plano, você poderá morrer.
Bem humorado, o
jovem Nathan responde:
- Não se
preocupe, Database. Se eu tiver que dar a minha vida em troca da vida de
milhões de inocentes, esse é um preço que eu certamente pagarei.

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