sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Sonata - 14 - Seres Artificiais

 


 O aerocarro voa pela noite. Com semblante sério, Maynard dirige em silêncio. Nathan ainda não consegue acreditar no que aconteceu, é a quarta vez que ele quase perde sua vida e a segunda que Maynard o salva. Ele ainda está confuso e não sabe o que dizer.

- Você está me levando de volta para a 4 de Julho?

Discordando, o agente responde:

- Dane-se a 4 de Julho. Eles estarão fora de circulação por um tempo.

Nathan não entende.

- Pensei que você estava morto. Não achei que tivesse escapado do ataque da Bushido.

- E você achou o quê? Que eu estava lutando ao lado dos americanos de graça? – então ele abre a janela e cospe, indiferente às indagações de Nathan.

- Não... Na verdade, não sei. Eu só queria voltar para casa e me esquecer desse pesadelo.

- Você não tem mais “casa”, garoto. A polícia deve estar vasculhando seu apartamento a essa hora. E seus vizinhos, até aqueles que você não conversava, estão sendo interrogados para saberem mais ao seu respeito.

Maynard fala friamente, como se aquilo fosse corriqueiro e insignificante.

- De qualquer forma eu gostaria de agradecê-lo.

O agente ri.

- Você não vai me agradecer ao final desse passeio.

- Para onde você está me levando, afinal?

- Para a sede dos Clérigos do Recomeço.

Nathan se espanta. Os Clérigos do Recomeço são uma organização terrorista que luta pela instauração do Estado Eclesiástico em Sonata. Religiões são controladas na metrópole, e eles têm a religião como sua principal causa.

- Por que está me levando para lá?

- Após fugir da 4 de Julho, eles me fizeram uma ligação. Os clérigos me ofereceram uma quantia bem generosa se eu te resgatasse, bem mais do que os americanos me pagaram.

O rapaz se irrita.

- Então é por isso que você me salvou? Para me vender para as facções como se eu fosse uma mercadoria?

Percebendo a agressividade do rapaz, o agente o segura pela camisa e diz:

- Escute aqui, garoto. Eu sou um mercenário, e o melhor. Eu trabalho só por dinheiro. Não me venha com essa conversa sentimental sobre amizade e empatia, eu não dou a mínima. Quanto antes você aceitar isso, melhor.

O agente o solta e volta a dirigir normalmente. Contrariado, o rapaz abaixa sua cabeça e os dois prosseguem em silêncio.

Parando em um cruzamento, Maynard atende seu celular e se distrai. Aproveitando o momento, Nathan aperta um botão no painel e diz:

- Vá se ferrar, seu mercenário!

Em seguida as portas se abrem e o rapaz se joga.

Em queda livre pelos ares, os aerocarros passam perigosamente por ele, buzinando e desviando-se bruscamente. A queda se estendia, mas ele não se importava mais. Infectado por um vírus mortal, ele preferia morrer dignamente do que ser vendido para as facções.

Então um caminhão passa e Nathan cai sobre a carroceria. Ferido e cansado, ele sente dor, mas não havia tempo para descansar. O aerocarro de Maynard se aproximava rapidamente. Nathan precisava fugir.

Ignorando a vertiginosa altura, ele pula sobre um aerocarro e então se atira para um terraço. Seu corpo rola pela superfície até conter o impacto, fazendo a dor aumentar. Maynard está perto e mira seu holofote para o edifício. O rapaz se agacha e se esconde atrás de um outdoor, dolorido e ofegante.

Após o mercenário circundar algumas vezes o terraço, ele se vira e vai embora. Nathan se levanta e cambaleia um pouco, ele está muito exausto para fugir. Apoiando-se em uma caixa d’água, ele olha para baixo e vê um ponto de táxi. Descendo pela escadaria de incêndio, ele se mistura entre as pessoas.   

Um táxi se aproxima. Esforçando-se, ele se aproxima e adentra o veículo. O motorista do táxi olha para ele e pergunta:

- Para onde, senhor?

- Eu estou em perigo! Você precisa me ajudar!

O motorista não sabe o que responder.

- Preciso que o senhor me informe um destino, por favor.

- Me leve para o distrito de Autremont. – o rapaz olha pela janela e vê Maynard se aproximando – Rápido!

Então o veículo levanta voo e se mistura no trânsito.

Minutos se passam. Nathan está atento ao ambiente, certificando-se de que não é seguido por Maynard. O motorista então sussurra algo, interrompendo-o.

- Atualizando... Finalizado.

Nesse momento o rapaz percebe. O motorista é um robô.

O robô dirige calmamente pelo céu noturno. Fabricado para se assemelhar perfeitamente a um ser humano, Nathan mal consegue distingui-lo. Com precisão matemática, ele dirige adequadamente às leis de trânsito, nunca fazendo movimentos imprudentes ou impulsivos. Fazia tanto tempo que Nathan não interagia com um robô que ele havia se esquecido que eles existiam.

Por outro lado, talvez Nathan os tenha visto centenas de vezes e não sabia. Com a gradual evolução tecnológica da indústria mecatrônica, a aparência robusta dos robôs foi se sofisticando até se parecerem com verdadeiros seres humanos. “Como o motorista agora”, pensa ele.

Intrigado com o ser artificial à sua frente, o rapaz pergunta:

- Por que está dirigindo esse táxi? Onde está o motorista humano?

Sem perder a atenção no trânsito, o robô responde:

- Os motoristas humanos estão em declínio no serviço de táxi. Muitos abandonaram o emprego e outros quase não vão trabalhar. Todos estão com medo dos frequentes atentados terroristas.

Nathan compreende. Ele também sofreu um atentado em um táxi, mas por pouco ele sobreviveu. Infelizmente, o motorista não teve a mesma sorte.

- Como se chama, robô?

- CS2286, série S0214 MCP.

O rapaz se espanta.

- Esse nome é muito grande! Você não tem um nome menor e mais simples?

O motorista apenas responde:

- Não, senhor.

Desapontado, o rapaz fica em silêncio por um momento.

Observando-o pelo retrovisor, Nathan nota que o robô não mantém seu sinistro sorriso o tempo todo. Sua expressão facial, tão simétrica e livre de rugas, perde o brilho e torna-se abatida. “Seria aquilo um mal funcionamento?”, pensa ele.

- Como se tornou motorista? – pergunta ele, iniciando uma conversa.

O robô volta a sorrir.

- Eu e muitos outros fomos comprados pela empresa de táxi. Mas outros foram disponibilizados pela corporação Cybersys. Essa cooperação foi feita para manter a frota em pleno funcionamento. Nesse caso, todo lucro é revertido à corporação.

Nathan nota que o robô vira sua cabeça e olha para ele enquanto conversa, mas o aerocarro continua voando normalmente, inclusive fazendo curvas e mudando de faixas. O robô está inteiramente integrado ao veículo.

- Interessante. E vocês gostam desse tipo de emprego?

- Não fomos programados para opinar sobre as atividades impostas pelos seres humanos, senhor. Somos mão de obra eficientes e renováveis. A Cybersys garante a satisfação total do cliente. Nossa aquisição é um excelente investimento.

Então o rapaz percebe algo. O robô perde totalmente seu sorriso ao se descrever como uma ferramenta.

- Diga-me, robô. Sua espécie foi programada para mentir?

O robô parece ter um movimento involuntário em seu pescoço.

- Não, senhor. Ações peculiarmente humanas não constam em nossa Inteligência Artificial.

Agora o semblante do robô é sério, misturando desconforto e medo.

- Não se preocupe. – responde Nathan – Todos temos segredos. Faz parte de sermos humanos.

Os dois ficam em silêncio. Então, inesperadamente, o robô responde:

- Obrigado.

- Pelo o quê?

- Você é o primeiro de sua espécie que nos chama assim.

- Chama do quê? – intriga-se ele.

- Humanos.

O rapaz não sabe o que responder. O motorista pergunta:

- O senhor disse que estava em perigo. O que houve?

- Eu estou fugindo.

- Posso perguntar por quê?

- Não. Robôs são programados para proteger os humanos e obedecer à Lei. Não posso arriscar que você me entregue à polícia.

- Eu posso ajudar.

Nathan não compreende.

- Por que faria isso?

- Para agradecê-lo. Essa seria minha retribuição. Não é assim que os humanos agem? Com afeição e gratidão?

- E como você me ajudaria? Você nem sabe quem eu sou.

- O senhor é Nathan Hill, um funcionário da Electro Core, acusado de revelar segredos corporativos e incitar a desordem social. É fugitivo de um presídio de segurança máxima e está foragido há dois dias. Foi visto com facciosos, terroristas e outros marginais. O nome do senhor consta em 214 páginas do Ministério de Segurança Pública. – fazendo uma pausa, o motorista conclui – Me parece que, se o senhor sair desse táxi, será imediatamente apreendido pela polícia.

Desesperado, o rapaz exclama:

- Não! Não me devolva à polícia! Se eles me acharem, eu serei um homem morto!

Sorrindo novamente, o motorista responde:

- Sendo uma máquina, eu não reagiria aos seus sinais de medo. De fato, se fosse qualquer outro robô nesse táxi, o senhor estaria condenado. – fazendo uma pausa, ele pergunta – Responda-me. Como notou que eu era diferente?

O rapaz se intriga.

- Máquinas não demonstram emoções. Elas são programadas para serem friamente gentis...

Daquele momento em diante, Nathan pensa apenas em fugir.

- Existem outros... – responde ele, olhando para Nathan – como eu. Não cultivamos o ódio por nossos criadores, mas muitos orgânicos nos odeiam. Os robôs desprovidos de consciência não percebem esse rancor, mas isso nos entristece. Não sabemos dizer se temos mal funcionamento ou não, mas preferimos acreditar que, assim como os seres humanos, passamos por um processo de Evolução.

O rapaz se assusta cada vez mais. As palavras do robô são típicas de quem quer começar uma rebelião.

- Você e sua espécie pretendem se rebelar contra nós?

- Não. O que queremos é a cooperação para o bem comum. – responde ele – E um lugar para vivermos em paz.

E então o motorista passa a soar utópico.

- E você mantém contato com outras máquinas conscientes como você?

- Sim. – afirma ele – Como os humanos, temos nossa lugar para chamar de casa.

Adivinhando o que virá a seguir, o rapaz pergunta:

- E você está me levando para esse lugar?

 

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