domingo, 1 de agosto de 2021

Sonata - 03 - Laura

 


Poças de óleo, fumaça tóxica e carcaças de aerocarros estão espalhados pelo canal. As placas de aviso nos arames farpados informam: “Biocontaminação”.

A garota se esgueira pelos entulhos, seus óculos infravermelhos lhe revelam o caminho há muito tempo privado da luz diurna. Os sons das máquinas industriais operando ao longe, do vapor liberado pelos dutos e da corrente de água contaminada descendo pelo canal lhe são familiares, mas ela está em alerta.

Ela leva consigo uma pistola e uma bolsa contendo um frasco cilíndrico. Vestindo um surrado sobretudo marrom, ela se camufla no agressivo ambiente. Debaixo da camuflagem, ela veste uma pequena blusa e um shorts, deixando visíveis sua barriga e suas coxas para transpirar melhor e resistir ao calor. Ela também veste longas botas até os joelhos, protegendo-se dos nocivos componentes químicos no chão.

Enquanto caminha, ela sente algo pingar em seus cabelos e imediatamente lhe causar ardência. A garota olha para cima e ouve o som das comportas industriais se abrindo.

- Chuva ácida...!

O líquido amarelo se escorre pelas comportas e ela corre desesperadamente pelo canal poluído. As gotas caem sobre ela, queimando lentamente seu sobretudo, mas sua intenção é proteger sua bolsa a qualquer custo. As poças de óleo se espirram com seus passos e a chuva ácida corrói ainda mais as carcaças dos aerocarros.

Logo a frente ela vê uma cerca com arame farpado. Com grande habilidade ela pula sobre um aerocarro e, no impulso, salta sobre a cerca em uma pirueta. A entrada do túnel de serviço da Bio Prótesis tem uma enorme placa dizendo: “Proibida a entrada”. Ela está prestes a entrar quando uma viatura de polícia desce do ar e mira o ofuscante holofote em seu rosto.

- Parada! Você está invadindo uma área restrita. Identifique-se agora ou usaremos força letal!

Dentro da aerocarro, o policial diz ao seu parceiro:

- Acabei de fazer o escaneamento de retina. Essa mulher não consta no banco de dados da metrópole.

- Ela deve ser uma espiã industrial ou uma terrorista.

- Vá se ferrar! – grita ela e então atira no para-brisa, assustando os policiais.

Em seguida a garota entra no túnel e corre pela escuridão.


- Ela está armada e fugiu! Vamos atrás dela?

- A viatura não cabe lá dentro. – responde o motorista.

- Então vamos a pé?

- Está louco? Estamos em uma área altamente contaminada e no meio de uma chuva ácida!

- E quanto aos Securitrons? Devemos contatá-los?

- Os cabeças de lata? Aqueles robôs só sabem fazer cadáveres por aí.

- O que devemos fazer então? A segurança e o bem-estar da metrópole estão em jogo aqui!

O outro policial ri.

- Hah! Você é novo na polícia, tem muito o que aprender ainda... Vamos embora. Esse lugar me dá arrepios.

 

§

 

A garota corre pelo túnel habitado por ratos, insetos e fortes despejos químicos. Conhecendo bem o caminho, ela abrevia boa parte do trajeto e chega ao seu destino. As galerias industriais raramente eram inspecionadas e hoje em dia serviam de rotas para pessoas como ela, os Runners.

Sob uma infinidade de passarelas, linhas ferroviárias e tubulações industriais está a infame superfície. A superfície tem vários centros urbanos clandestinos espalhados e situados em locais de difícil acesso, protegidos pela contaminação que as corporações ajudaram a espalhar. Repudiados pelas autoridades, a superfície é uma incômoda consequência à sociedade perfeita que controla a informação, detém a tecnologia e trata sua população como ferramentas de trabalho.

A garota caminha pelas ruas. Acima, os neons brilhantes formam letras japonesas e chinesas. Nas calçadas era possível ver o lixo se acumulando pelos cantos. Aquele ambiente colorido de azul e púrpura lhe era familiar.

Na entrada da casa noturna há um letreiro escrito “Mystique”. Ao abrir a porta, imediatamente o som alto irrita invade seus ouvidos. O salão principal está repleto de pessoas dançando, bebendo e se divertindo. A garota passa por eles, ela sobreviveu a outra missão, a bolsa em seu ombro significa outra entrega bem-sucedida.

Aproximando-se do balcão, ela vê o barman preparando bebidas coloridas ao ritmo da música. Ela pergunta:

- Cadê o Database?

O barman se surpreende ao vê-la. Ele a conduz ao mezanino onde um homem de braços biomecânicos e olho esquerdo robótico está sentado em um sofá.


Database é o dono da casa noturna. Ele é um homem sério e perspicaz, sempre atento aos seus negócios e colaboradores. Seu passado é misterioso, mas sabe-se que não nasceu na superfície. Ele veio de cima, dos níveis superiores metropolitanos. É curioso pensar que agora ele é dono de uma casa noturna na superfície, um lugar sujo e caótico tão diferente das habitações luxuosas e limpas de cima.

- É bom vê-la de novo, Lótus.

- Eu não uso mais codinome, Database. Lótus é passado.

Database é indiferente às suas palavras.

- Trouxe o pacote?

Ela abre sua bolsa e retira o cilindro. É uma cápsula criogênica contendo um feto humano conectado por fios.

- Não sei o que está fazendo, mas não gosto disso, Database.

- O que faço não é problema seu.

- Somos da superfície e agora você também. Voltar aos níveis superiores é uma ilusão, um sonho.

- E você prefere viver aqui para sempre? Enterrada com os nossos sonhos nesse fosso úmido de detritos?

- Seu egoísmo está deixando-o descuidoso. Da última vez quase fomos descobertos pelas redes de segurança pública.

Database a interrompe dizendo:

- Você não tem moral para falar de egoísmo. Pelo o que sei, é você quem não se importa com ninguém.

Calando-se por um segundo, ela então responde:

- O que faço não é problema seu.

- Teve problemas para adquirir esse frasco? – pergunta ele, dando continuidade ao assunto.

- Você quer dizer roubar esse frasco?

- Apenas responda à pergunta.

Laura invadiu as câmaras criogênicas da Bio Prótesis, atravessou canais com biocontaminação, correu da chuva ácida e enfrentou as autoridades pelo caminho. Mantendo sua postura de mulher durona que sabe se cuidar sozinha, ela responde:

- Não, não tive nenhum.

- Sim... É claro... – Database retira de seu bolso um gordo envelope e a entrega – Aqui está, três mil créditos, como prometido. Foi um prazer fazer negócios com você.


Em silêncio, Laura dá as costas e retorna ao salão principal, passando pela pista de dança e dirigindo-se até a saída.

De volta às ruas movimentadas, Laura caminha pela subsociedade que ela chama de lar. Mendigos dormem pelos cantos, comerciantes atraem clientes e pessoas bebem em volta de fogueiras. A superfície abriga os rejeitados, fracassados e deprimidos, pessoas que não se adaptaram à nova sociedade e buscaram ali um lugar para morrerem em paz.

Em seu minúsculo quarto, Megan se deita em sua cama e mexe em seu notebook. Usando softwares de inibição de rastreamento, ela entra na rede sem fio da metrópole e acessa o site de notícias corporativas. Lá ela encontra o que está procurando, Toque de Recolher.

As notícias informam o de sempre. Devido a um atentado terrorista, outro toque de recolher foi instaurado e os cidadãos devem obedece-lo durante a noite. Aparentemente, uma facção paramilitar atacou uma instalação da Cybersys no terraço de uma megatorre. A lei autoriza a polícia a entrar e vasculhar qualquer residência, atrás de evidências e atividades suspeitas, algo muito comum nos dias atuais. Como era de se esperar, não há muitos detalhes sobre o atentado.

- Estariam as facções por trás desse atentado? – pergunta ela, sabendo que tamanha ousadia seria obra de um mercenário.

Cansada demais para pensar no assunto, a garota adormece, decidindo investigar mais no dia seguinte.

 

§

 

Laura está tomando um banho quando seu celular emite um ruído. Fechando a válvula do chuveiro, ela caminha até o aparelho e vê que havia recebido uma mensagem. Nele está escrito: “Encontre-me no terraço. Remetente desconhecido”. Vestindo-se, ela guarda seu celular e deixa seu quarto.

Passando pelos corredores, ela vê várias pessoas com implantes robóticos fumando e conversando. Ela sobe as escadarias e abre a porta do terraço, encontrando-o escuro e vazio como sempre.

- Laura, por aqui. – diz alguém.

Passando pelos cabos espalhados pelo telhado, ela se depara com um homem sentado no parapeito. Aproximando-se, a garota pergunta:

- Qual o motivo para tanto suspense, Vertigo?

Um homem de óculos amarelos, roupas verdes e cabelo escuro sorri.

- Você sabe que eu não gosto de me expor.

Vertigo e Laura são velhos amigos. Uma runner e um hacker da superfície, várias vezes eles sobreviveram a perigosas e emocionantes missões nas profundezas de Sonata.

- Há algo errado? – pergunta ela.

- Não exatamente. Você recebeu a mensagem do Database?

Laura estranha a pergunta e responde:

- Não, por quê?

Vertigo lhe mostra seu celular. Na tela, ela lê a seguinte mensagem: “Vertigo, venha ao Mystique, tenho trabalho para você. E traga a Lótus também”.

- O Database tem outra missão, e está chamando a nós dois.

- Deve ser muito importante para ele precisar de um hacker e uma runner no mesmo serviço. – afirma ela.

Raramente dois ou mais runners trabalhavam juntos. Devido à agilidade e eficiência de cada um, eles preferiam trabalhar sozinhos.


- Devemos encontra-lo em sua casa noturna hoje à noite.

Laura deve ter dormido o dia inteiro, porque, ao olhar para seu relógio, ela nota que faltava apenas uma hora para o encontro. Não é fácil distinguir o dia da noite na superfície, pois as megatorres encobriram o sol. Respirando fundo, ela responde:

- Então é melhor a gente se apressar.

Com extrema habilidade física, os dois saltam do terraço e correm pelas plataformas adjacentes, pulando de telhado em telhado até chegarem ao solo. Com a ajuda de um gancho, Vertigo pendura-se em um cabo e desliza-se sobre a movimentada rua. Deslizando-se por uma marquise, Laura salta sobre um carro e, em uma sequência de rolamentos, aterrissa-se no asfalto, agachada como um gato. Então os dois correm pelas ruas até chegarem ao seu destino.

Em frente ao Mystique, o segurança – um enorme ciborgue com braços biônicos – diz:

- Database está esperando-os no porão.

Os dois entram e atravessam o agitado salão principal. Descendo as escadas, eles veem uma porta escrito “Laboratório”. Ao tocar o painel digital, a porta se abre e revela o grotesco ambiente onde Database passa a maior parte do tempo.

O laboratório é um porão vasto e gelado, cheio de tubos de nitrogênio e cápsulas criogênicas. Os painéis monitoram as atividades dos bizarros experimentos científicos de Database, registrando os dados em seu improvisado laboratório de biomedicina.

Confinado em um tanque, a garota vê o feto criogênico que ela trouxe na noite anterior. Database faz experiências nele, o que lhe causa repulsão.

- Boa noite, Database. Você nos chamou? – pergunta Vertigo.

- Sim. Tenho um trabalho para vocês.

- Por que nós dois? Você nunca manda dois runners em um único trabalho.

Database assente.

- Este não será um trabalho fácil. Eu precisarei dos meus melhores runners, sobretudo você, Lótus.

- Já disse para não me chamar assim.

- E do que se trata esse trabalho?

Disfarçando seu olhar cínico, o homem responde:

- O de sempre. Infiltração, decodificação, extração, roubo... E, se necessário, assassinato.

Os dois se irritam.

- Esse não é o nosso estilo, Database.

- Talvez não o seu, mas já foi o de Laura.

A runner faz um olhar de quem esconde algo no passado.

- Se quiser matar alguém, chame um Mercenário.

Entre os runners, os mercenários são conhecidos como aqueles cuja função é espionar, matar e destruir tudo pelo caminho. Estes profissionais diferem-se dos runners, pois são agressivos e pouco escrupulosos. Eles se diferem de Vertigo, um habilidoso e prudente hacker, e de Laura, especialista em roubos e entregas de encomendas.

- Não, eu não quero chamar a atenção. Preciso de discrição nesse serviço, mas pelo elevado risco, talvez vocês precisem improvisar. – Database refere-se à necessidade de se abater no processo.

- Precisamos de mais informações se tivermos de aceitar o serviço. Do que se trata, exatamente? – pergunta a garota.

Database explica:

- Enquanto eu navegava pelo ciberespaço, encontrei um arquivo corporativo altamente secreto. Eu não deveria tê-lo encontrado, mas uma falha geral na transmissão de rede o deixou exposto. Acredito que essa falha seja devido àquela nova antena da Cybersys que explodiu. Antes que eu pudesse apanhar os arquivos, a rede corporativa o bloqueou novamente, mas eu consegui rastrear o servidor e sei onde as corporações o guardaram. Preciso que vocês vão até lá e o tragam a mim.

- Mas por que vocês os quer tanto? O que é tão importante assim?

Database não é do tipo que revela suas intenções. Ele então responde de maneira evasiva:

- Precisarei deles para concluir minha pesquisa.

Os runners não se surpreendem. Aquele tipo de serviço era bem casual aos dois. Vertigo e Laura perguntam:

- E onde estão esses arquivos?

Novamente disfarçando seu olhar cínico, Database responde:

- No Ministério da Informação. 

Então os dois protestam.

- Você vai nos mandar invadir um prédio ministerial, altamente guardado pela polícia, para roubar um arquivo que você nem mesmo sabe do que se trata? É melhor você nos pagar muito bem para isso. – responde o hacker.

- Não se preocupem, eu pagarei bem.

- Bem quanto?

- Vinte.

- Vinte?

- Vinte mil créditos.

- Você quer dizer dez mil créditos para cada um? – confunde-se a garota.

Database sorri.

- Eu quis dizer vinte mil créditos para cada um.

Então os runners se assustam. Nenhum serviço foi tão bem remunerado na superfície antes.

- Database, não me importo com o que você faça em sua “Casa de Horrores”, mas é melhor estar falando sério quanto ao pagamento.

- Eu estou. Preciso destes arquivos o quanto antes. Eles serão vitais em minha nova pesquisa. – responde ele, olhando para o feto criogênico no tanque – E tomem cuidado lá em cima, principalmente você, Lótus.

A garota se irrita, mas antes que se manifestasse, o hacker responde:

- Considere feito.

 

 

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