sábado, 14 de agosto de 2021

Sonata - 26 - Trans-humanistas

 


Entardecia em Sonata. Em um aerocarro com Vertigo e mais dois runners, Nathan segue em direção à sede dos Trans-humanistas. O rapaz estava com um mal pressentimento quanto aquela missão, mas prefere não pensar a respeito. Levando seu rifle entre seus pés, ele pretende se garantir se algo der errado. Olhando ao redor, ele vê os aerocarros com os outros runners. Sabendo que todos estão fortemente armados, ele se tranquiliza.

Eles avançam mais um pouco. Nathan consegue ver o muro de Contenção nos limites da metrópole. Abaixo, havia um distrito industrial chamado Entropia, Setor T, onde se localizava a sede dos Trans-humanistas. Eles descem até chegarem a um galpão sobre uma plataforma de concreto e aço.

Nathan caminha e vê os caminhões, gruas e containers. Alguns operários estão trabalhando e parecem não nota-los ali. Era como se fosse um comum local de trabalho e não houvesse atividade criminal aparente. Ao entrar por uma porta, o rapaz passa por seguranças robóticos semelhantes aos que ele viu na prisão.

Adiante de si eles veem um grupo de facciosos aguardando-os. Ao vê-los melhor, Nathan se assusta. Alguns deles eram tão mecanizados que não se pareciam pessoas, eles se pareciam ciborgues.

O líder do grupo, um homem alto e loiro, os recebe. Vestido com roupas brilhantes como o plástico, suas vestimentas modernas o assemelhavam a um cirurgião, um cientista louco dos filmes de terror. Nathan nota que seus braços e pernas eram biomecânicas. Suas próteses, diferentes do braço bioprotético do rapaz, eram as mais sofisticadas do mercado, tão realistas que apenas os bons observadores poderiam identifica-las. Nathan também nota que os olhos do homem eram artificiais, com globos oculares de retina azul. Aqueles olhos certamente tinham identificadores aeroespaciais, pois o homem os observava desde o momento em que os viu entrar.

Nathan se aproxima com Vertigo e os outros runners ao seu lado. Todos portam seus rifles, além das pistolas ocultas em suas pernas e cinturas.

- Olá, Nathan. Acredito que esse encontro será pacífico, não?

O rapaz está tenso. Ele se vê cercado por homens-robôs em um bizarro covil terrorista.

- Olá, Huxley, prazer em conhece-lo. E sim, esse será um encontro pacífico.

O líder sorri.

- Então por que as armas? O Calabouço não confia na palavra dos Trans-humanistas?

Nathan sorri de volta.

- Por quê? Deveríamos desconfiar de sua palavra? – responde o rapaz com outra pergunta.

Desafiado, o líder se irrita. Os facciosos de Huxley ficam tensos, preparando-se para agir. Vertigo e os runners se entreolham.

- Você deveria confiar na hospitalidade de seus anfitriões, e não desrespeita-los com desconfiança e insultos.

O rapaz pressente o perigo.  

- Não quis desrespeita-los, mas acredito que se houver respeito e confiança mútua, ambas as partes sairão ganhando.

- Pois você não demonstrou os dois. – responde rudemente Huxley – Diga-me o que você quer, Inimigo de Estado.

- Uma aliança. Juntem-se ao Submundo e nos ajudem a derrubar as corporações.

Ao ouvirem-no, os trans-humanistas se silenciam por alguns segundos. Em seguida, eles gargalham abertamente, com exceção do líder.

- Eu bem sei o que você conseguiu, Nathan, aliando-se aos americanos da 4 de Julho. E o que você quer agora? Que os Trans-humanistas e seus arqui-inimigos puristas deem as mãos e marchem juntos em uma improvável coalizão?

Constrangido, o rapaz responde:

- As corporações nunca serão vencidas se as facções continuarem lutando entre si. E, desunidos, todos certamente morreremos.

Huxley se intriga.

- Ah, você realmente acredita na ameaça do Projeto Gemini? Se toda a metrópole, com seus milhões e milhões de habitantes, morrerem, creio que será bem difícil para as corporações se livrarem dos corpos.

- Se você está falando de espaço, as corporações tem o mundo inteiro lá fora.

Ao fracassar em tentar ridicularizar Nathan, o líder e seus companheiros se calam.

Com semblante sério, Huley diz:

- Você é ousado, Nathan, e muito corajoso também. Você seria muito valioso em nossa facção. Mas eu tenho outros planos, e melhores do que essa aliança absurda que acaba de nos sugerir.

Acenando para seus companheiros, eles apontam suas armas para os runners, rendendo-os. Atrás deles, dois soldados enormes aparecem vestindo exoesqueletos. Com voz robótica, um deles ordena:

- Larguem suas armas.

Nathan protesta.

- O que você está fazendo?!

- Não se preocupe, você é mais útil para nós vivo.

- Eu tenho runners espalhados por todo o distrito!

Então os facciosos trazem os demais runners à presença de Huxley, fazendo-os se ajoelhar ao lado de Nathan.

- Você realmente pensou que podia esconder algo de mim? Em meu próprio território? Pobre rapaz ingênuo...

Temendo por sua vida, o rapaz pergunta:

- O que vocês vão fazer comigo?

- Por enquanto vamos prendê-lo. Sua influência trará grandes vantagens para a nossa facção.

- Você não pode me prender! Isso causaria uma guerra com a superfície!

- Não, Nathan, não queremos uma guerra com a superfície. Na verdade, são os runners que se juntarão a nós após você os convencerem.

O rapaz se surpreende.

- Os runners jamais se juntariam à causa trans-humanista! Esta não é uma guerra ideológica, Huxley! O que proponho é combater um inimigo em comum!

- Não é desta forma que eu enxergo, Inimigo de Estado. – olhando para seus companheiros, o líder diz – Podem leva-los!

Sem poder resistir, Nathan é levado cativo. Um faccioso se aproxima de Huxley e diz:

- Senhor, um dos runners conseguiu fugir. Devemos ir atrás dele?

- Não. – responde o líder – Lidaremos com o Submundo depois.

 

§

 

Ao entrarem em um longo corredor, Nathan vê oficinas com pessoas trabalhando. Ele nota que, assim como em qualquer outra facção, eles vestem roupas inusitadas e exóticas.

Eles veem uma sala escrito “Manutenção Robótica”. Em seu interior há centenas de braços e pernas robóticos pendurados no teto. Em uma estante o rapaz vê modernas próteses biomecânicas, tão sofisticadas que se assemelhavam a membros de carne e osso.

Há outras pessoas ali, mas elas não pareciam ser integrantes da facção. Elas passavam pelas estantes de peças bioprotéticas como se estivessem comprando. É então que Nathan percebe. Elas não eram integrantes e sim clientes. Ali funcionava um comércio clandestino onde a facção vendia seus produtos industrializados ilegalmente.

Eles passam por uma oficina e veem dezenas os clientes aguardando para consertar suas próteses. Os técnicos usam cabos e computadores para calibrar, reparar e substituir as peças danificadas. Alguns clientes seriam verdadeiros aleijados sem suas próteses, pois eles não tinham mais seus braços e pernas orgânicos, considerando-os frágeis, limitados e deterioráveis com o tempo.

Assim como a maioria da população, os clientes optaram por substituir seus membros originais pelas máquinas de capacidades infinitas. Enquanto aguardavam nas poltronas, era interessante ver suas próteses se movendo sozinhas sobre as mesas. Na parte amputada de seus corpos, Nathan vê cabos conectados aos seus nervos e tendões, e isso lhe causava repulsão. Os técnicos trabalhavam com soldas, lixadeiras e parafusadeiras como modernos cirurgiões.

Eles entram em um elevador. Ao descer, Nathan vê um ambiente não muito diferente das sedes da 4 de Julho e da Bushido. Há hackers operando os computadores ao lado de centenas de servidores. Os facciosos andam de um lado ao outro, parecendo ser muito inteligentes e elegantes em seus ternos e gravatas.

Em uma sala com paredes de vidro está escrito “Desenvolvimento”. Em seu interior há engenheiros construindo protótipos e robôs. Ele também vê cientistas testando a intensidade do raio laser de suas novas armas. Apesar do impressionante nível científico e tecnológico de seus membros, Nathan não vê muitas pessoas armadas ali. Ele tem a impressão de que essa organização preferia lutar virtualmente com sabotagem e espionagem do que com força física. Mas sua impressão estava inteiramente errada.

Ao som de máquinas pesadas trabalhando, ele vê a poderosa máquina de guerra trans-humanista. Passando pelas linhas de produção, equipamentos, armaduras e armas são processados, sendo achatados em prensas, soldados por robôs e montados por operários semi-humanos. Armaduras são fabricadas, tão tecnológicas e versáteis que, ao testá-las, os usuários são automaticamente vestidos por elas. Sentado em uma caixa de madeira, um soldado trans-humanista calmamente fuma seu charuto enquanto operários consertam a armadura em seu corpo.

Vestindo exoesqueletos, alguns facciosos passeiam pelo lugar carregando pesadas caixas em seus braços. Telas de LCD e hologramas também são vistos, além de luzes de neon. Nathan percebe que eles são obcecados por tecnologia, verdadeiros idólatras. “Talvez esse pequeno laboratório de novas ideias esteja tecnologicamente mais avançado do que a metrópole em pelo menos dez anos”, pensa ele.

Eles veem uma sala de testes. Um soldado ativa um lançador de foguetes em seu ombro e atira contra um monte de palha, pulverizando-o. Os runners se impressionam. 

- Bem-vindo à sede dos Trans-humanistas. – diz Huxley.

Nathan é separado de seus companheiros. Ele é levado para outra sala no fim do corredor, com uma cama e uma janela de vidro na parede.

Novamente o rapaz estava sozinho. Olhando pela janela, ele vê a sede da facção, um local estranho e cheio de fanáticos lutando pela supremacia tecnológica.

O rapaz não se esqueceu de como aquele pesadelo começou. O maldito terrorista no taxi, membro da Resistência Purista, querendo explodir a sede dos Trans-humanistas. Obviamente o local onde estavam naquele dia – à beira do Setor L – estava muito longe dali, “mas e se outro homem-bomba aparecesse e finalmente terminasse o serviço?”, preocupa-se ele.

Dois dias se passam. Em seu confinamento, Nathan vê os facciosos conversando normalmente, parecendo não se importar com a armadura pesada e fria em seus corpos. Então Huxley entra na sala e, trazendo uma cadeira, se senta.

- Boa tarde, Nathan. Espero que esteja gostando de sua estadia.

Sem dar atenção, o rapaz pergunta:

- Onde estão meus amigos?

- Amigos? – sorri ele – Não se preocupe, eles estão bem. Mas, mudando de assunto, posso te fazer uma pergunta pessoal?

Vendo o líder com seus seguranças armados no lado de fora, o rapaz percebe que não tem escolha.

- Sim.

- Você acredita em Deus?

Com a estranha pergunta, Nathan se intriga.

- O que quer dizer?

- Quero dizer se você acredita em uma força maior que criou a vida e o universo.

Um pouco desconfortável, ele responde:

- Sim.

- Por quê?

- Porque eu não acredito que tudo o que existe foi mera coincidência.

- Não, é claro que não... – responde Huxley, pensativo – E quanto à evolução? Você acredita no processo natural evolutivo?

O rapaz pensa um pouco antes de responder.

- Eu realmente não sei nada sobre isso.

- Nós acreditamos na evolução. Na evolução da mente, do intelecto, da ciência... A inteligência evoluiu com o passar do tempo, e a sociedade acompanhou essa evolução através do conhecimento. O que as gerações anteriores não usufruíram, as gerações futuras certamente usufruirão, pois este é o seu legado sublime. Ora, se Deus, deuses ou extraterrestres nos criaram, nos dotando de inteligência, então a tecnologia é o legado de nossa inteligência, evoluída através dos séculos de descobertas e de desenvolvimento. – Huxley pausa por um momento e então continua – Devemos continuar de onde nossos antepassados pararam. Devemos ir além de onde o Homo Sapiens jamais foi. Nós, a raça humana, através dos avanços tecnológicos e da inteligência infinita, devemos evoluir!

Ao ouvi-lo, Nathan se silencia por um momento. “O discurso dos terroristas é sempre o mesmo, homens visionários com discursos inflamados”, pensa ele. “Eles parecem viver em uma realidade exclusiva arquitetada apenas para eles”.

Nathan responde:

- Através da tecnologia nosso mundo foi destruído. É isso o que pretendem com os avanços tecnológicos de vocês? Produzirem mais armas, travarem mais guerras e destruírem o pouco de mundo que ainda nos resta?

O trans-humanista se ofende.

- Não somos os portadores da morte e sim os preservadores da vida. Se você ainda não entendeu que, para sobreviver, temos que nos defender, então eu não posso fazer nada a não ser sentir pena de você.

Um faccioso entra na sala e sussurra ao líder:

- Senhor, nosso território foi atacado pelos puristas.

- Houve baixas? – pergunta ele.

- Sim, senhor. Várias.

Assentindo, o líder olha para o rapaz e diz:

- Parece que mais gente está morrendo por sua causa, Nathan. Eis aí o resultado de sua rebelião.

Pesaroso, o rapaz abaixa sua cabeça.

- Vamos supor que não fosse você o Inimigo de Estado e sim outro azarado por aí. Você já pensou o que faria para escapar da rebelião causada por ele?

Nathan não tinha pensado nessa hipótese.

- Eu só pensaria em me esconder ou fugir.

- Fugir? – repete Huxley, quase debochando-o – E você já sabe para onde?

- Eu não sei. Provavelmente para a superfície.

Então os Trans-humanistas deixam escapar um sorriso.

- Apesar de viver no Submundo, você não conhece bem a superfície, não é mesmo?

O rapaz não sabe nada sobre o vasto e obscuro território da superfície.

- Sei o suficiente.

- Pois eu lhe ofereço algo melhor. Fique em nossa organização, junte-se aos Trans-humanistas. Você estará seguro aqui. Podemos protege-lo. Você não precisará fugir ou se esconder, aqui a polícia nunca irá encontra-lo. Te daremos um abrigo, armas, até um uniforme se assim quiser. Aceite! É muito mais do que te ofereceram.

Desta vez é Nathan quem sorri.

- Eu prefiro trabalhar com os terroristas, e não ser um deles.

O líder descarta sua resposta.

- E o que te faz pensar que pode escolher?

O rapaz se sente ameaçado.

- Você não pode me controlar.

- Tem certeza? Nós temos os mais talentosos cirurgiões plásticos, e nossas próteses são produzidas aqui, na sede dos Trans-humanistas. E você sabe... Aparelhos de controle mental podem ser produzidos pela mais avançada tecnologia. Você não quer que um desses seja instalado em você, não é mesmo?

Nathan se apavora. Antes que pudesse responde-lo, Huxley se levanta e vai embora.

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...