Nathan dorme em
seu apartamento. Crescendo órfão de pai e mãe, ele vive sozinho desde os vinte
e dois anos. Quando a sede de ser independente explodiu em seu peito, ele quis
perseguir seus sonhos sozinho, descobrir o mundo sozinho, viver a vida
intensamente sob o olhar de um explorador rumo ao desconhecido. Atualmente ele
trabalha na Electro Core, uma das poderosas megacorporações que governam
Sonata.
Mas hoje, aos
trinta anos, seu mundo de sonhos e descobertas mostrou-se terrivelmente
limitado. Rotinas estressantes e turnos cansativos minaram seu lado emocional,
onde a recompensa por sua dedicação foi um cargo onde ele iria trabalhar
exaustivamente.
Há alguns meses,
uma lembrança insistia em habitar sua mente, uma lembrança ruim e impossível de
ser esquecida. Toda noite essa lembrança invadia seus sonhos, transformando-os
em pesadelos.
§
Quando criança,
Nathan brincava pela sala. Sua mãe estava distraída em seus afazeres e não
percebeu que a porta foi abruptamente aberta. Desesperado, seu pai entra e
rapidamente a tranca. Nathan vê que ele está todo ensanguentado e demonstra
dor. Ao vê-lo naquele estado, sua mãe se desespera.
- O que houve?! O
que aconteceu com você?!
- Não há tempo
para explicar... Temos que tirar o Nathan daqui!
- Por quê?!
- A polícia...
Eles descobriram meu envolvimento com os habitantes da superfície. Alguém nos
traiu!
Indignada, a
mulher diz:
- Depois de
termos conversado, você ainda manteve contato com aqueles excluídos? – pergunta
ela – Como você pôde...? Como pôde colocar em risco sua família?!
- Não há tempo
para explicar! Vocês têm que fugir daqui agora!
- E para onde vamos?!
Antes de
responder, a janela de seu apartamento se estoura em milhares de pedaços. Luzes
vermelhas e azuis invadem e iluminam o local. Assustando-se, Nathan começa a
chorar.
Uma voz no
alto-falante diz:
“Aqui é a
Polícia! Saiam com as mãos para cima!”
- Rápido, suba
para o terraço!
- Eles vão atirar
na gente!
- Pegue o Nathan
e suba as escadas, rápido!
“Resistência à
prisão será vista como agressão e passiva de força letal”, alerta a polícia.
- Devemos nos
entregar!
- Se nos entregarmos,
eles vão nos prender e nunca mais veremos o Nathan! É isso o que você quer?
No aerocarro da
polícia, os canos da minigun começam a girar.
“Último aviso.
Rendam-se!”
- Eu não quero
morrer...!
A mulher olha
para as luzes e levanta os braços. Chorando intensamente, Nathan corre para as
pernas de sua mãe e a desequilibra, fazendo-a gesticular bruscamente. A polícia
abre fogo e sua mãe, juntamente com todo o apartamento, é freneticamente atingida
pelas balas.
- Não!!!
O homem agarra
seu filho e se deita. Ao final dos disparos, sua mulher cai no chão e olha para
ele, em curtos soluços perdendo sua vida. Pegando sua mão, o homem chora.
- Polícia!
Inspeção geral no andar! Abram as portas! – grita alguém no final do corredor.
Nathan tenta
agarrar as roupas de sua mãe, mas seu pai o puxa de volta para si.
Levantando-se, ele deixa o apartamento e corre para o elevador. Alguém aparece
atrás dele e ordena:
- Parado!
Várias miras
lasers atravessavam o ambiente. De repente as portas do elevador se abrem e
iluminam a pequena passagem. Com Nathan em seus braços o homem tenta
rapidamente entrar, mas tiros são disparados e atravessam suas costas. Caído no
chão, o homem não consegue mais sentir suas pernas e isso o desespera. Com
muito esforço, ele se arrasta e põe seu filho no elevador, apertando o botão em
seguida. O menino chora histericamente, e então seu pai diz:
- Vai ficar tudo
bem...
Seu pai sorri e
então a porta se fecha lentamente, e essa foi a última vez que Nathan o viu
ainda com vida.
Ao chegar ao topo
do enorme edifício, o menino deixa o elevador e sobe por uma estreita escada de
metal. Saindo ao ar livre, ele sente o vento forte esfriar seu corpo. Ainda
assustado, ele corre pelo terraço. O local estava cheio de dutos de ar e cabos
de transmissão sobre o piso, dificultando a passagem.
Parando em frente
ao parapeito, ele contempla a metrópole lá embaixo. O céu estrelado do
anoitecer confunde-se com as brilhantes luzes dos prédios. Nathan vê as enormes
torres brilharem com luzes de neon e telões gigantes em suas fachadas. As
passarelas irradiavam luzes douradas enquanto centenas de transeuntes passavam.
Os numerosos aerocarros cruzavam as megaestruturas, em diferentes níveis das
vias virtuais de trânsito.
O anoitecer da
megalópole era maravilhoso. O poente contrastava com as brilhantes luzes, semelhantes
a pedras preciosas sobre as torres de concreto e aço. Nuvens negras se
desenrolavam e contrastavam com o céu escarlate. O pequeno Nathan se sentia em
um outro mundo, um paraíso onde toda a dor parecia não existir.
Triste e
solitário, ele chora em silêncio, chamando por sua mãe. A metrópole apenas
olhava para ele, consolando-o com seu alegre brilho.
Minutos depois, a
polícia aparece. Mirando seus holofotes para os cantos escuros, eles encontram
o pequeno menino sentado no chão. Nathan está abraçado às suas pernas, tremendo
de frio e com lágrimas em seu pálido rosto. A luz forte ofusca seus olhos e, ao
ouvir homens conversando, ele engole o choro e pergunta:
- Papai...?
Capturado e sem
família, o pequeno órfão é inserido no Programa de Reintegração Social de
Sonata, onde ele, com mais centenas de outras crianças órfãs cujos pais foram
presos ou mortos em confrontos armados, cresceu e se educou nos padrões da
sociedade corporativa.
§
De repente ele
acorda. Sentando-se à beira da cama, ele olha para o relógio e vê que horas
são. Faz meses que ele acorda de madrugada, sentindo dificuldade para voltar a
dormir. Ele se sente mal, uma angústia estranha cresce em seu peito e seu
coração se aperta.
Nathan sonhou com
seus pais de novo. Lembrando-se da paisagem noturna, era como se seus pais
estivessem eternamente amarrados a ela, onde sua mente criava uma fuga
colocando uma imagem feliz para sufocar outra triste. O rapaz põe as mãos no
rosto e se lamenta.
Ao longe ele ouve
uma explosão. Intrigado, ele se levanta e caminha até a janela. No topo de uma
megatorre, ele vê chamas e vários aerocarros da polícia no local. “Não é
naquele terraço onde colocaram a nova torre de transmissão da Cybersys?”, pergunta-se
ele.
Ignorando o caso,
ele aperta um botão na parede e se afasta. Uma cortina lentamente se abaixa até
tampar a visão lá fora. Atentados terroristas eram tão comuns naqueles dias que
os cidadãos aprendiam a conviver com eles. Mesmo Nathan se sentia sortudo por
ainda estar vivo. Então ele finalmente sussurra:
- Malditos
terroristas...
Nathan vive em um
apartamento unicelular. Apertando um botão na parede, Nathan ativa a lavanderia
e joga suas roupas na máquina de lavar. Apertando outro botão, a lavanderia se
retrai e uma cozinha se forma. Ele retira bandejas de comida congelada da
geladeira e as põe no micro-ondas. Um botão retrai sua cama e forma uma pequena
sala, mas não retrai a cozinha já montada. Sentando-se em uma pequena poltrona,
ele tenta descansar um pouco.
§
Na manhã
seguinte, os trabalhadores assistem ao noticiário na TV do aerometrô.
“O Ministério da
Segurança Pública decreta esta noite – às 22:00 – um Toque de Recolher em todo
o distrito de Autremont no Setor N. Todos deverão estar em suas casas após esse
horário. Vários locais de acesso público serão interditados, o aerometrô
encerrará suas atividades e qualquer forma de transporte durante a noite estará
estritamente proibida. A polícia visa manter a ordem e conta com a cooperação de
todos no combate ao terrorismo e outros atos subversivos”.
Nathan assiste ao
noticiário. Os toques de recolher estão ficando cada vez mais frequentes. A
liberdade mais uma vez é ameaçada pelos atentados cada vez mais ousados.
“Próxima estação:
Skyline. Saída pelo lado direito do trem”.
Nathan deixa o
aerotrem e caminha entre a multidão apressada, dirigindo-se às escadarias da
estação.
Minutos depois, o
rapaz se vê em uma pequena sala. O ventilador de teto gira lentamente, a
cortina persiana deixa passar timidamente a luz do dia e o relógio de ponteiro
faz ruídos metálicos com o passar do tempo. Nathan está sentado em um sofá, mas
se sente um pouco desconfortável.
Sua mãe, sentada
em uma poltrona à sua frente, pergunta:
- O que te traz
aqui, Nathan?
- Estou com um
problema, mãe, e preciso de ajuda.
- E do que se
trata esse problema?
- Estou confuso...
– seu corpo treme e sua garganta quase se emudece ao falar – Eu me sinto
solitário e perdido.
Sua mãe lhe faz
um olhar bondoso e compreensiva.
– O que quer dizer com “solitário e perdido”?
Nathan não sabe como
descrever seu problema, mas responde:
- Estou insatisfeito
com minha vida. Nada mais parece me dar prazer.
Erguendo as
sobrancelhas, sua mãe respira fundo, retira seus óculos e responde:
- Você sabe o que
me dá prazer, Nathan? As pequenas coisas da vida, tão pequenas e
insignificantes que as pessoas mal conseguem ver. Está vendo meu ventilador de
teto, meus óculos e meu relógio de ponteiro?
Confuso, o rapaz
responde:
- Sim.
- As pessoas
sempre criticam meu estilo retrô, o chamam de antiquado e fora de moda. Afinal,
para que um ventilador se há o ar condicionado? Para que um relógio de ponteiro
se há o relógio digital? Para que gostar do século 20 se o 25 é o século do
desenvolvimento e dos gloriosos avanços tecnológicos? Quer saber por quê?
Acanhado, Nathan
responde:
- Quero, eu acho.
- Porque sim! – responde
ela, alegremente – Você é o que é porque nasceu assim. Não se pode mudar a
mente e os pensamentos, “penso e logo existo”, como diria Descartes. Essa
verdade é incontestável. Todos somos diferentes, todos pensamos distintamente, é
isso o que nos torna humanos.
- Mas o que isso
tem a ver comigo? – Pergunta ele, mantendo o foco no assunto.
- Tem a ver que,
não importa o quanto se sinta solitário e insatisfeito, você sempre terá o seu
caminho para trilhar e buscar ser feliz.
Nathan então se cala.
A sala fica em silêncio, exceto pelo ruído constante do ventilador de teto.
- Mãe, eu não
entendo. Por que nada nessa cidade me compele como a tantos outros lá fora? Por
que, para todo o lado que eu olho, só vejo o vazio?
- Porque o vazio
está dentro de você, Nathan. Temos nossas necessidades e eles têm as deles,
seja material ou emocional. Talvez a felicidade deles esteja no consumismo
pueril, mas você não precisa ser assim se não desejar.
- Não é justo a
sociedade me rebaixar assim, me transformando em um ignorante consumidor de
futilidades, um escravo da tecnologia. Gostaria de não ter que suprir o vazio
que sinto com bens materiais.
Sem demonstrar
emoção, sua mãe pergunta:
- Percebi sua
insatisfação, mas responda-me uma coisa: falta alimento em sua casa?
O rapaz se
confunde.
- Não.
- De tudo o que
acha fútil e banal, todos esses produtos supérfluos que as pessoas consomem,
você compra alguns deles?
- Eu comprava
antigamente, mas não compro mais.
- E quanto ao seu
trabalho? Já ficou desempregado?
- Não.
- Já viu algum
miserável mendigar nas ruas da metrópole?
- Também não.
- Por falar
nisso, já viu algum desempregado?
- Não.
Sua mãe sorri.
- Sei qual é o
seu problema, você tem o que eu chamo de Síndrome de Adão e Eva. Vive em um lugar
perfeito, mas se deixa enganar pela influência de um agitador, um enganador, a
Serpente. Então torna-se insatisfeito e se rebela para conhecer a verdade,
descuidando-se da amarga consequência que certamente irá te trazer. Nathan,
você vive em uma sociedade que lhe dá alimento, moradia, trabalho, educação,
saúde e entretenimento. Apesar de ter tudo, você ainda quer mais. Então se
sente triste e vazio, culpando a sociedade e seu criador.
- Não sei se é
prudente comparar as megacorporações com Deus.
- E a que você
compara a si mesmo? A um homem imprudente que tem tudo e se revolta, acabando
por ser banido no final? Não deixe sua mente ser sua Serpente, Nathan. Não
deixe sua tristeza te influenciar. A não ser que haja alguém te influenciando?
Ele respira fundo
e responde:
- Não há.
- Pois bem.
De repente sua
mãe se deforma, como uma imagem de TV com transmissão ruim. Uma voz nas paredes
diz:
“Ei, cara, seu
tempo está acabando. Se quiser ficar mais, terá de pagar vinte créditos”.
- Está bem, eu já
vou sair. – responde Nathan, desanimado.
A imagem
holográfica de sua mãe retorna e fica em perfeita definição. Um holograma, um
estúpido holograma era o que Nathan usava para conversar – ou fingir que conversava
– com sua mãe. Mas, se ele ignorasse as respostas sem sentido ou fora de
contexto, conseguia enganar-se e matar as saudades por algumas horas.
“Pai, por que
você teve que se envolver com os excluídos?”, pergunta-se ele. Então Nathan se
lembra de algo: a superfície.
- Mãe, o que
existe no nível inferior de Sonata?
- Nível inferior?
– pergunta ela – Está se referindo à superfície?
- Sim.
- Por que você
quer saber? Está além dos limites permitidos, é acesso restrito.
- Eu não sei, mas
sinto que há respostas para mim lá embaixo.
- Não entendi. Que
respostas pode haver para você na poluição e nos esgotos?
- Eu não sei.
Talvez a resposta que preciso esteja na superfície.
A conversa com o
rapaz está ficando perigosa demais. Os algoritmos do holograma não podem
sugerir e nem estimular que seus clientes infrinjam a lei.
- Sugiro que
fique nos níveis superiores. Eu não acho que há nada de bom para se ver lá
embaixo.
- Mas por...
- Nosso tempo
acabou.

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