domingo, 8 de agosto de 2021

Sonata - 18 - Um Destino Fatalista

 


Enquanto aguarda por Database, o rapaz observa o ambiente ao redor. Nas paredes haviam vários monitores exibindo as notícias da metrópole. Aquela sala, apesar de pouco organizada, não era diferente dos postos de trabalho dos hackers das facções. Os runners não eram tão diferentes dos terroristas, pois ambos utilizavam as redes virtuais para seus próprios interesses.

Ao analisar bem, Nathan percebe que Vertigo era um hacker muito inteligente. Os dois conversavam sobre vários assuntos e, para a surpresa de Nathan, o hacker parecia saber um pouco de tudo. Então o rapaz se lembra de algo. Ele queria saber mais sobre a garota da noite do ataque à 4 de Julho. “Talvez o hacker a conheça”, pensa ele. Ao abrir sua boca, ele é logo interrompido. Eles ouvem um som e o hacker rapidamente oculta seu rosto, vestindo uma máscara.

Acompanhado de dois seguranças enormes, Database caminha pelo corredor. Ele olha para Nathan, retira um frasco de seu bolso e pergunta:

- Está vendo isso? É o seu antídoto. Antes de entrega-lo a você, preciso fazer um exame de sangue e determinar o quanto o vírus já se espalhou por seu organismo. Se importa?

Um runner lhe exibe uma seringa.

- Não, é claro que não.

A amostra de sangue é coletada e Database a analisa em seus aparelhos médicos. Nathan o aguarda em silêncio até ele responder:

- Você disse que tem um prazo de 72 horas, não é? Pois ele já se expirou duas horas atrás.

Nathan se assusta. Os runners olham apreensivos para ele.

- Por favor, preciso do antídoto.

O chefe estende sua mão, mas antes de entregar o frasco, ele o joga no chão e o esmaga sob seus pés. O rapaz se desespera, lançando-se ao chão e tentando recuperar o líquido.

- Acalme-se. Não havia antídoto nenhum aí. De fato, não havia nem mesmo um vírus.

Nathan não compreende.

- O quê?

- Você foi enganado, não apenas uma vez, mas duas. Não há nenhum vírus em seu organismo.

Ainda confuso, o rapaz diz:

- Mas Copérnico me infectou. Eu inclusive senti os sintomas.

- Uma reação esperada e psicológica. De fato, você foi infectado, mas seu organismo expeliu o vírus sem lhe fazer mal algum. O seu corpo é imune.

O rapaz se intriga.

- Imune?

Database lhe faz um olhar de quem esconde muitas coisas. Ao invés de responde-lo, ele continua:

- E o Copérnico, o homem que se diz o líder da Subtopia, não é nenhum nativo das ruínas. Na verdade, ele é o ex-ministro do Ministério da Informação, banido da metrópole por expor arquivos confidenciais. 

Surpreso, o rapaz se enfurece.

- Aquele homem me enganou!

- É isso o que esses ministros fazem, Nathan. Esconder a verdade para enganar você.

Levantando-se, Nathan se senta no sofá e leva suas mãos à cabeça.

- Mas por quê? Por que ele fez isso?

- Ele queria usar você, fazê-lo vir até mim com a vontade e determinação de quem quer sobreviver.

- Para quê?

- Uma mensagem. Copérnico sabe de minha aversão às corporações e do poder que tenho na superfície. Com sua informação, ele espera que eu a use para começar uma rebelião.  

Novamente Nathan percebe que tanto a superfície quanto as facções têm os mesmos planos megalomaníacos. 

- Mas e se você se recusar a se rebelar?

Database ri.

- Imagine que você espera o ano inteiro para receber seu presente de aniversário. Na véspera do dia, você escolheria esperar por outro ano mais uma vez? Aliás, Copérnico tem um exército lá fora e um vírus muito mais potente que o de 2057. Com a rebelião, ele espera enfraquecer a ordem e se infiltrar na metrópole, espalhando seu vírus e tomando o poder. Isso resultaria na morte de milhões.

O rapaz não consegue acreditar. Aquela loucura envolvia proporções gigantescas.

- E você pretende começar uma rebelião mesmo assim? Cumprindo o plano de um louco genocida?  

- As pessoas também não estão à salvo das corporações, elas também são uma ameaça. E quanto ao Copérnico, nós lidaremos com ele depois. 

Nathan não sabe o que fazer. Enquanto pensa, ele vê Vertigo olhar para ele segurando algo em sua mão. Database respira fundo e diz:

- Pode parar com esse teatro, Vertigo. Eu sei que é você nessa máscara. Após tantas vezes desarmando meus sistemas de segurança, esperava mais de você.

Com as armas apontadas para o hacker, ele tira sua máscara e levanta suas mãos.

- Você está cometendo um grande erro, Database. Provocar uma rebelião vai nos destruir!

Sorrindo, o chefe responde:

- Olhe para você, Vertigo. Um hacker pirado e obcecado por conspirações. Tanta inteligência na cabeça de um desequilibrado. Realmente é como dizem: todo gênio tem suas excentricidades.

Insistente, o hacker responde:

- Database, a superfície depende da existência das corporações! Colocando-as em guerra, milhões de inocentes irão morrer!

- Pobre Vertigo... Se ao menos você soubesse o que realmente causou a morte de milhões...

O chefe não dá atenção aos alertas do hacker, mas ele novamente insiste:

- É você quem está obcecado, Database! Você realmente acha que a informação de Nathan é o suficiente para causar uma rebelião? Você precisa de provas!

Com sorriso enigmático, o chefe olha para seus seguranças e diz:

- Podem chama-la.

Caminhando com passos determinados, alguém vestindo um capuz se aproxima. Entrando na sala, todos olham para a misteriosa pessoa. Revelando-se, Vertigo e principalmente Nathan, se espantam.

- Laura!

A runner observa a todos em silêncio. Tirando um objeto de sua mochila, ela o joga indelicadamente sobre a mesa. Vertigo o reconhece, é o servidor do qual eles roubaram do Ministério da Informação.

Database conecta cabos no pequeno aparelho. O chefe faz uma busca até encontrar o que está procurando. Realmente o arquivo continha inscrições desconhecidas, comprovando suas origens governamentais. Ao abri-lo, documentos aparecem contendo complexos projetos genéticos. O título do arquivo diz:

“Projeto Gemini”.

O rapaz já viu aquele nome antes, o ambicioso projeto exibido por Copérnico. Ele descreve a criação de duplicatas humanas chamadas de Protótipo #8, algo que Nathan não conseguia entender ao certo o que era. Mas Database sabia exatamente do que se tratava. Abrindo outro arquivo, ele chama o rapaz e diz:

- Leia esse arquivo.

Nathan lê um texto falando sobre a catástrofe de 2057 e a criação de uma poderosa inteligência artificial. Vertigo nunca leu aquele documento antes, mas, incapaz de comprovar suas palavras, apenas suspeitava de uma conspiração. Mas Nathan compreende perfeitamente. Após a revelação de Copérnico, aqueles arquivos eram a prova de que ele falava a verdade. O ex-ministro não estava mentindo, afinal. Em poder da tecnologia mutagênica, as corporações estavam manipulando geneticamente a população, descartando os espécimes insatisfatórios no exterior para morrer. E ele viu as aberrações no outro lado da Contenção. “Agora tudo fazia sentido!”, pensa ele.

Nathan se estarrece. Aproximando-se, Database diz:

- Entende agora por que precisamos divulgar sua informação?

Confuso, o rapaz pergunta:

- Esse protótipo... o que as corporações farão caso eles sejam concluídos?

- Os protótipos serão “nós” após eles ordenarem o nosso extermínio. Seremos substituídos sistematicamente nesse processo. Será uma sociedade nova, sem criminosos, sem terroristas, sem facções – e então ele conclui olhando para Vertigo – e sem a superfície.

O hacker responde:

- Isso são apenas especulações! Ninguém nunca viu um experimento corporativo antes.

Database então exibe outro arquivo. Um vídeo aparece e o rapaz imediatamente o reconhece. É a filmagem do fatídico dia de sua incursão no Setor L.

Exibindo imagens do exterior, todos se assustam ao ver como é sinistra paisagem além da Contenção. Nathan é visto fugindo desesperadamente até cair eletrocutado no chão. Então aparece o segredo que todos queriam ver. O vídeo exibe dezenas de silhuetas monstruosas caminhando na escuridão. Ao se aproximarem da câmera, os runners, os seguranças e inclusive Database se espantam ao verem uma espécie grotesca de ciborgues. Os ciborgues das ruínas eram imensos, defeituosos e, alguns, quadrúpedes. Embora tivessem faces humanas, os monstros tinham cabos e componentes cibernéticos em seus corpos, tornando difícil defini-los.

Após alguns segundos de silêncio perturbador, Vertigo se convence. Pesarosamente ele percebe que o problema era muito maior do que ele imaginava. Pela primeira vez o hacker reconhecia a ameaça e, assim como Nathan, via que todas as evidências faziam sentido.

- Meus Deus – sussurra ele – Eu não sabia...

- Não se trata de uma simples teoria da conspiração, Vertigo. Você viu o vídeo, você viu o que as corporações são capazes de fazer. Milhões de inocentes vão morrer? Com certeza, caso o infame Projeto Gemini se concretize. – responde Database.

Vertigo entende o problema que aquilo implicava. A informação de Nathan significava muito para ele, pois finalmente suas teorias se comprovariam verdadeiras. Por outro lado, a informação ia muito além de seu egoísmo. O que decidissem ali afetaria a vida de milhões de inocentes, podendo haver consequências catastróficas.

Com olhar sério, o hacker olha para o rapaz e diz:

- Nathan, o futuro da metrópole está em suas mãos.

O chefe sorri por dentro. Até mesmo Vertigo, o hacker mais inteligente da superfície, não resistiu e foi convencido também. Agora ele tinha Nathan sob seu controle.

Database pergunta:

- Nathan, você tem duas opções: salvar a metrópole... – então ele faz uma pausa, olhando seriamente para o rapaz – ou destruí-la. O que você escolhe?

O rapaz sente medo. Agora sua decisão ia muito mais longe do que qualquer princípio. Ele entende o que Database quer dizer. Deixar a metrópole nas mãos das corporações resultaria em sua destruição, um banho de sangue jamais visto antes. O rapaz olha para Laura. Ela, porém, lhe dá as costas e vai embora, estraçalhando seu coração.

Respirando fundo, ele enxuga o suor de sua testa, se enche de coragem e finalmente responde:

- Eu escolho salvá-la.

Todos se aliviam ao ouvi-lo. Com um sorriso misterioso, o chefe se aproxima de Nathan e sussurra:

- Fatalismo...

 

 

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